De um mundo em caos e de um escritor que o vive e pensa

O espírito humano não é depósito de lamas e narcóticos/nem um peso cansado de uma castidade inefável/à deriva por abismos que se escondem atrás dos céus

Luís Filipe Sarmento, KNK

Vamberto Freitas

     KNK, as iniciais de Kant, Nietzsche, Kafka, o primeiro vindo do século XVIII e falecido no início do século XIX, e os outros dois já no princípio ou meados do século passado, é de uma audácia literária bem pouco comum entre nós, ou em qualquer outra língua. Luís Filipe Sarmento vê e vive um mundo que nos é comum, mas entende-o de formas muito diferentes e arrojadas: razão (pura ou não), emoção e contundência crítica, e logo depois na realidade absurda que vem de longe e se agrava nos nossos tempos. Tenho de confessar que é em Nietzsche e Kafka em quem mais me revejo e me percebo. Para o alemão Kant, sobre o qual a mítica diz que era tão racional e universalista, em que até os vizinhos acertavam os relógios pela passagem em frente às suas casas, tenho pouco conhecimento, e até medo: o germânico tão certo e racional, mesmo que universalista ou anti-nacionalista. Para com o ensaísta do absurdo mas sobretudo da emoção (Kafka) tenho outra reacção. Foi talvez o filósofo mais mal interpretado na história do pensamento ocidental modernista. Quando os nazis o reclamavam como seu suposto ideólogo, vinha ao de cima toda a sua ignorância de muitos desses seus falsos admiradores, incluindo o próprio Hitler. Quanto a Kafka, a sua linguagem poderosa, mas nunca ofuscada, não deixava dúvidas aos leitores mais perspicazes ou inteligentes. Nietzsche escreveu, por exemplo, que um dos sintomas dos intelectuais mais ignorantes eram ser anti-semitas. Com a mesma força escreveria que nunca tinha estado em África mas suspeitava que estava cheia de génios. A sua ideia do “super-homem” queria apena dizer que deveríamos assumir as nossas responsabilidades morais e de gente com força na luta pelo bem. Ainda quanto a Kafka, pouco terei mais a dizer. Era o pensador que através da palavra retratava o absurdo do seu tempo, cidade e condição de vida numa Europa já totalmente burocrática e sem rumo, a não ser a caça ao dinheiro e ao poder dos privilegiados. Vivia numa sociedade já sem razão pura ou crítica, para voltar a mencionar Kant. Kafka parece o Fernando Pessoa em todos os sentidos. Empregado numa empresa de seguros, mero gestor de contas e cartas comerciais, e talvez que o desesperava. Como Pessoa, ninguém por certo se amava verdadeiramente, ou eram todos e todas mero escape ao tédio e à raiva dos dias. Os dois, em vez da cama, escreviam cartas de amor, esse amor sempre e simplesmente falado ou escrito, mas nunca continuado. Uma vez mais, o artista da palavra consciente do absurdo do seu lugar e tempo, e só pela literatura escapavam ao desespero das suas circunstâncias e sorte de vida. Foram, todos eles, torturados pela sua própria inteligência e consciência. É esta a minha interpretação deste singular livro de Luís Filipe Sarmento, em que tudo vale a pena para além das suas linguagens, do seu estado interior que por si só nos retrata toda uma sociedade oca ou vazia, toda uma sociedade despida do seu próprio ser e crença.

Foi Edmund Wilson, que Harold Bloom viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX, que escreveu o seguinte: primeiro, que a invenção do telégrafo transformaria toda a prosa, tornando-a mais compacta e directa; depois a prosa do modernismo literário iria conter em si toda a poesia até então limitada à forma de versos. Claro que exagerou, mas não na totalidade, como todos sabem, especialmente após a sua leitura atenta de James Joyce. A escrita luminosa de Luís Filipe Sarmento, para mim, está entre os dois géneros literários. Ao manifestar o seu interiorismo fica retratada toda uma sociedade, a nossa, em textos que ora são poemas puros ora prosa poética. Ele não se poupa nem a si e muito menos o mundo que o rodeia. Isto é literatura no seu mais profundo estado. Quando fala de si, fala de nós. Quando fala de nós, fala de nós todos. Os escritores ditos “malditos” existem noutras línguas e contextos sociais. Luís Filipe Sarmento faz-me lembrar um Charles Bukowski no seu melhor. Que a sociedade tome conta de si, que tomarei conta de mim. Ao dizer isto, diz tudo sobre a nação a que pertence. Insinua ainda mais: eu sei onde estou e à comunidade a que pertenço, mas não entrarei no seu jogo, na sua sujeira, e muito menos nos jogos literários que a justificam ou elevam os medíocres da moda. Por outras palavras, eu sou eu, e que fiquem com o que vos convém. KNK não tem complacências ante a cobardia ou os chamados costumes da sociedade. O escritor tem como lema a sua autenticidade, quer gostem ou não. É o que acontece neste livro. Poema a poema, prosa a prosa. Sociedade, homens e mulheres, o destino num determinado espaço nacional ou universal.

“Cria metamorfoses de ficções/onde aparentemente tudo lhe é indiferente/; ri do seu humor e, na distância, liberta-se/da ingenuidade que o traiu/no pavimento lamacento das larvas./De subalterno obscuro, a sua personagem/concebe logros, falácias, enganos/entre brumas sinistras que o divertem./Exclui-se, expulsando fantasmas viperinos,/e inclui-se, inimitável, no programa estético/que desmorona os pilares cobertos de peçonha./Ninguém o identifica, mas não esconde o nome,/porque tudo nele é novo, o seu processo/que tudo altera sem que a vida quotidiana/seja disfarçada. Sabe que as suas metamorfoses/o tornarão num ser humano, um plano/de que a literatura negra se faz rindo/para além de todos os projectos editoriais/infectados pela burocracia do poder obscuro.”

Sim, reconhecemos Kafka aqui de imediato, e muito provavelmente o autor de nome Luís Filipe Sarmento. Seja num poema, numa prosa, ou nos géneros juntos, existe em cada alusão no autor-outro um pouco ou muito de nós. São estes os chamados escritores “malditos”, repita-se, nas mais variadas literaturas, os que dizem em voz alta ou serena as misérias que todos vivemos e sentimos nos espaços sem convivência. O chamamento a estes três génios da escrita ocidental em KNK tem tudo a ver com os nossos dias presentes. Serão estes, digamos também assim, os escritores que no futuro passam de uma certa marginalidade para o centro do cânone. Em Portugal já aconteceu a outros, e repito o nome de Fernando Pessoa, como o de Mário Sá-Carneiro, entre alguns outros que fizeram da revista Orpheu, uma das mais consequentes e douradoras publicações que relembra e se integra na poesia universal. A desatenção da fúria ignorante de muitos dos nossos periódicos literários e generalistas só lhes condena a arquivos que poucos consultam, as páginas que pouco ou nada significam. A “prosa” em forma de poesia de Luís Filipe Sarmento vai permanecer como um testemunho de um tempo que um dia será lido, pensado e relembrado, com espanto e admiração. Isto acontece em vários países, mas os de língua portuguesa quase entram no êxtase da sua indiferença, privilegiando os escritores estrangeiros, que também devem ser lidos, mas nunca tomando o lugar daqueles que connosco vivem o drama de um país permanentemente no esquecimento ou na sua auto-desvalorização.

Algo mais sobre KNK: é precisamente sobre o estado vivido e o sentir íntimo, o do interiorismo do escritor, que passamos a ver como num quadro de mestres (tão diferentes como um Picasso espanhol ou um Edward Hopper norte-americano), toda uma sociedade tanto na sua violência escondida ou aberta, como na sua solidão. De amores e sobretudo de desamores vive a maioria da humanidade. Luís Filipe Sarmento escreve brilhantemente sobre a condição humana em que nos encontramos, não só de agora como de sempre. A sua escrita, por ser tão pessoal, torna-se, uma vez mais, universal por nos colocar no lugar desta e das mais longínquas geografias e culturas. Este não é um livro para todos, é para quem saber ler o que está escrito, e ainda mais o que fica por dizer nas entrelinhas. A grande literatura, em qualquer uma das suas formas ou géneros, é a que fica. Como num quadro de Jackson Pollock, que à primeira vista parece sem sentido. Olhem para os detalhes, e de lá sai toda a angústia e mensagem do artista. Este livro de Luís Filipe Sarmento faz algo de semelhante. Cores e coração em ebulição. Eis a sua beleza ou, se preferirem, a sua mensagem.

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Luís Filipe Sarmento, KNK, Poética Edições Braga, 2019. Publicado no Açoriano Oriental a 24   De Maio, 2018.

 

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De Mim E Do Destino

Quinhentos anos solitários de civilização profundamente portuguesa a meio Atlântico não permite, supõe-se, leviandade perante fenómenos historicamente tão ricos num pequeno e quiçá precário país (e nação geograficamente repartida como o nosso).

Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas.

Vamberto Freitas

     Tal como o meu país de nascença, também tenho eu, como milhões dos meus conterrâneos, andado repartido pelo mundo. Nasci na freguesia das Fontinhas, da Ilha Terceira, onde vivi apenas 13 anos. Depois em 1964 emigrei com toda a família para a Califórnia onde vivi 27 anos, e lá me formei academicamente e aonde guardo as melhores memórias e toda a ajuda que me deram na faculdade e noutras situações. Em 1991 voltaria aos Açores, para sempre, para a Ilha de São Miguel, onde já vivo há 28 anos. Por outras palavras, já vivo na minha ilha adoptada há mais tempo do que em qualquer lugar. Voltei e permaneci sempre aqui por amor a uma mulher, com quem vivi todo este tempo. Encontrei nesta ilha só amor, amizade e afecto. Mas desde muito cedo, ainda na Califórnia, alguns dos meus mais fiéis amigos são de cá, dos Açores como Diniz Borges, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais tarde Mário Mesquita, e um pouco mais recentemente José Ernesto Resendes, que dedicou um belíssimo cartaz à Adelaide no dia do seu funeral, e é o meu editor. Outros ainda me demonstraram sempre lealdade e carinho, apoio na minha vida de autor de livros ou crítico, muitos deles do Continente. Não vou mencionar todos os que me deram apoio nesta ilha, mas dois nomes são inevitáveis: Urbano Bettencourt (natural da Ilha do Pico) e o recentemente o falecido Carlos Cordeiro, também meu colega na Universidade dos Açores, e que foi o primeiro a mostrar-me São Miguel à noite. Desço aos Cafés do Pópulo (onde vido vai para 28 anos, e serei o residente mais antigo) e encontro a mesma proximidade e respeito, sinto-me em casa por inteiro. Depois do falecimento da minha mulher Adelaide Freitas perguntam-me com frequência se vou voltar à Terceira ou à minha casa da Costa da Caparica. Não. Nem à América, mesmo com cidadania de longa data. Nunca deixarei esta minha ilha a oriente do arquipélago, nunca deixarei todos aqueles que me deram abraços e deixaram correr uma lágrima. Como alguém já escreveu, a tua terra é onde está o teu coração. Desde a Universidade dos Açores, a partir do ano de 1991, onde sou Leitor de Língua Inglesa, a todos que aqui já mencionei, assim como a muitos outros que também estão meu coração, traçaram o meu destino de vida. Que vida para além dos desgostos e saudades dos nossos, idos ou vivos em várias partes do mundo. Passei por São Miguel a primeira vez em 1964, quando eu e toda a família viemos a exames médicos e ao consulado americano a caminho da América. Nunca tinha visto uma outra ilha, e daqui partimos no navio Ponta Delgada para Santa Maria para o então longo voo rumo ao outro lado do Atlântico e Pacífico. Vivi um ano e pouco na Vale de São Joaquim, e depois meu pai, Daniel Freitas, decidiu tentar a sua sorte no Sul da Califórnia, numa pequena cidade chamada Chino. Fiquei fascinado com esta cidade pelo seu dinamismo, em comparação com a outra que conheci na Terceira quando ingressei no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo. Não podia adivinhar que um dia acabaria aqui para sempre, feliz e sentindo-me em casa, uma vez mais.

A minha dedicação à Literatura Açoriana vem de longe, dos anos 70 quando comecei a escrever para o Diário de Notícias ainda naqueles anos, e lá permaneci por um longo tempo, até 1994. Durante esses anos, e pela mão de Onésimo Teotónio Almeida (um dos meus primeiros mentores), comecei a ser convidado para participar nos Encontros de Escritores da Maia, que tinha Daniel de Sá como figura principal, ao lado de Afonso Quental, Urbano Bettencourt e Carlos Cordeiro. Foi em 1990 que conheci a Adelaide depois de eu ter feito uma comunicação sobre a obra de João de Melo. Mais uma vez, o destino estava irremediavelmente traçado e decidido após o meu regresso da Califórnia. Tenho um livro inédito da nossa correspondência constante, intitulado Amor e Literatura: Regresso a Casa. Farei sair um dia destes, mesmo que possa doer a alguns escritores e a outros em vida pública, mas a maior parte fala das nossas vidas e do que viria a seguir. “Continuo – escreve-me ela a dada altura — com uma grande “ferida” no olhar… E mais não digo, sob pena de lhe retirar a poesia. Ando inteiramente desorientada… numa espécie de estado de graça – pleno, sem dúvida, mas um tanto sofrido”. Nunca nenhumas palavras me disseram tanto, nunca nenhumas palavras descreveram o meu estado de espírito, mesmo que tenha o apoio e o carinho da minha companheira que a acompanhou durante os últimos cinco anos da sua vida, e evitou que ela fosse para um dito lar ou clínica. Como diria Faulkner, e que eu já citei muitas vezes “o passado não é passado, nem sequer é passado”. A inveja é um mal maior, e sempre o senti, antes, agora e depois. Vivemos até ao fim o que o destino nos guardou, uma vez com lágrimas outro com um sorriso de estarmos vivos e a fazer o que devemos fazer pelos outros. E se fosse possível regressar ao passado, eu não queria. Agradeço aos meus pais e ao meu cunhado Dimas e Mary Jane Valadao, todos residentes de longa data na Califórnia, e que tanto me ajudaram. Agradeço aos meus professores na faculdade a sua total dedicação, e que me abriram um futuro, se não brilhante (não foi culpa deles), pelo menos competente e cheio de confiança. Três nomes significantes na minha vida académica: Nancy T. Baden, Michael Holland e William Koon. Ensinaram-me tudo: primeiro em Estudos Latino-Americanos e Literatura Brasileira e Portuguesa (incluindo a açoriana), e depois em pós-graduações sobre a Literatura Americana e comparada, com especialização em Inglês. Penso neles quase todos os dias. Não haverá melhor elogio a qualquer professor, e a qualquer nível do ensino público. Cá e em toda parte.

Por certo que encontramos pelo caminho os escroques de sempre, mas é só passar ao lado, desprezar, esquecer. Lembremos sempre quem nos fez bem, e faremos o mesmo aos outros. Vejo com alegria e gratidão os meus colegas e amigos quase todos os dias. Quanto mais se engrandecem nas suas vidas, mais me engrandecem a mim. Os seus triunfos e felicidades são as minhas também, com eles partilho o que de bom nos traz a vida, com eles partilho as suas dores familiares ou profissionais. O resto não interessa nada. Quando alguém que não nos topa se desvia de nós, deveremos agradecer a delicadeza e o bom senso. A vida é nossa, mas quando partilhada é infinitamente mais rica e feliz. Termino com uma auto-citação publicada numa entrevista no Correio dos Açores, em 2001, e há muitos anos reproduzida num livro meu editado pela extinta Salamandra, Jornalismo E Cidadania: Dos Açores À Califórnia.

“O que vale realmente a pena? Viver. Amar a vida, amar os que nos amam. Tentar, sempre, a felicidade (é um dever sagrado). Sorrirmos ante as coisas boas e bonitas. Agradecer a Deus a saúde e o bem-estar. Ser generoso. A luta civilizada por estes ideais. Estender e anunciar a partilha total a todos os outros que o queiram e o mereçam”.

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Este texto é começo de um novo livro que tenciono escrever em prosa de fôlego depois de completar borderCrossings: leituras transatlânticas 5. Publicado no Açoriano Oriental, 15 de Março, 2019.

 

 

 

De traduções da literatura portuguesa em inglês nos Estados Unidos por um grande mestre de nome Gregory Rabassa

Mencionei nas primeiras páginas que uma fonte de descoberta dos livros para traduzir foram-me enviados por antigos alunos. Recebi da Adelaide Monteiro, de quem fui professor e depois ela deu aulas na Universidade dos Açores durante vários anos. Folheio o livro com um sorriso, e vi o ovo-dinossauro tal como tinha visto em Cem Anos De Solidão… soube logo que estava perante algo de especial…

Gregory Rabassa, If This Be Treason: Translation And Its Dyscontents

Em memória da Adelaide Freitas e de Gregory Rabassa

Vamberto Freitas

     Poucos autores portugueses têm sido felizes nas suas traduções para inglês, como o foram António Lobo Antunes e João de Melo, e alguns brasileiros como Jorge Amado. Sobre o primeiro mencionado aqui não direi nada. Um dia, por mero acaso, vasculhava numa livraria do Sul da Califórnia e encontrei South of Nowhere (1983), a tradução do romance de António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979). Tinha lido o original em Português, mas estava longe de relacionamentos tão chegados entre Elizabeth Lowe, e que anos depois traduziria Feliz Com Lágrimas/Happy People In Tears (de quem falarei aqui noutra ocasião) e Adelaide Freitas, que não traduziu mas era então então conhecida por uma espécie de pseudónimo, April Monteiro. Não podia adivinhar que tinham sido e permaneceriam amigas depois de serem alunas do grande mestre Gregory Rabassa na City University of New York nos anos 70. Num dos Encontros de Escritores na Maia (São Miguel), em 1990, eu faria uma comunicação sobre o romance de João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino, que tinha lido fascinado no meu esconderijo californiano. Quando acabei a minha comunicação, a Adelaide veio ter comigo para me dizer do quanto se identificava com as minhas palavras. Conversa puxou conversa, e quando ela me disse que tinha uma grande amizade com Gregory Rabassa não tive meias palavras: e você ainda não lhe enviou o romance sublime de João de Melo? Disse-me logo: que grande ideia. Então envie o mais breve possível, disse-lhe eu. No ano seguinte Adelaide e eu apaixonamo-nos, o que resultaria na minha vinda permanente para São Miguel em agosto de 1991. A nossa relação foi sempre de amor e literatura. Por entre toda a nossa correspondência, que um dia será também publicada, ela recebe uma carta de Gregory Rabassa, um pouco antes de vivermos juntos aqui no Pópulo, em São Miguel, talvez o único tradutor americano que teve honras de um ensaio na revista Time. Tenho de reproduzir aqui essa carta no original, seguida da minha tradução.

“Dear April [o mês do nascimento da Adelaide]:

Thank you so much for sending me the two novels by João de Melo. I have now finished O Meu Mundo… It has been a long time since I have read anything so exciting in a novel. I am still not sure whether to place him along side García Márquez or Faulkner. He has the qualities of both and at the same time is absolutely original. I also find that the ‘insularismo’ of the Azores underlies so much of what he has written in the novel. I have spoken about him to a lot of people and there is great interest. When I say that I’ve discovered the new García Márquez all ears prick up. I am going to have lunch soon with the editor of the Jorge Amado translation I am working on and she wants to hear more about the novel. She is at Banter Books, which is now part of Doubleday-Dell-Bantam, an importante publisher. As for myself, I would very much like to translate the novel and I think I can do it after I finish with Jorge, which should be this summer. In the meantime I will try to do a translation of a few good pages as a sample. Please talk to Melo and ask him what he thinks about this… for a big commmercial house or put him in touch with me. Let me know if he wants me to try to get a publisher. I think that a book like this is material for a big commercial house and not the U. of Florida Press as I first mentioned. I see possibly a best seller à la García Márquez and Umberto Eco. In many there’s a richeness here that neither of them has to such a full extent. Although I have only started Gente Feliz…, so far I prefer (as does the author)… Mundo … I’ll know better when I finish it.

The academic year has now come to a close and I am able to put more time into writing, so I ought to be able to speed things up. Do let me know what you and Melo think of what I envision for the novel and in the meantime I shall keep on talking about it and talking it up. I hope that all goes well with you and yours.

Um abraço,

Gregory Rabassa

PS: I just got a copy of Fado Alexandrino in my translation and it should be officially out in a few weeks. I await the reviews and hope they will be favorable.

(3 de Junho 1990)

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Muito obrigado por me teres enviado os dois romances de João de Melo. Acabei de ler O Meu Mundo… e comecei a ler Gente Feliz… fiquei absolutamente espantado com o primeiro, Mundo… Passou já muito tempo desde que eu tinha lido algo tão maravilhoso num romance. Ainda não estou certo se o coloque ao lado de García Márquez ou Faulkner. Ele tem a qualidade dos dois e ao mesmo tempo é absolutamente original. Também descobri que o ‘insularismo” dos Açores fundamenta muito do que ele escreve no romance. Tenho falado com muita gente sobre o grande interesse disto tudo. Quando digo que descobri o novo García Márquez eles ouvem com toda a atenção. Vou almoçar em pouco tempo com a editora das traduções de Jorge Amado em que estou a trabalhar e ela diz-me que quer ouvir mais sobre este romance [do João de Melo]. Ela está ligada a Banter Books, que fazem agora parte da Doubleday-Dell-Bantam, uma importante editora. Pela minha parte, gostava muito de traduzir o romance e acho que poderei fazê-lo depois de acabar com a tradução do Jorge [Amado], que deve ser já neste verão. Entretanto, vou tentar traduzir algumas das melhores páginas [de João de Melo] como amostras. Por favor fala com o João e pergunta-lhe o que acha disto. Ou então coloca-o em contacto comigo. Diz-me se ele quer que eu entre em contacto com editoras. Creio que um livro como este é uma obra para uma grande editora comercial e não para uma Florida University Press tal como mencionei no início. Em muitos aspectos, há aqui uma riqueza literária para um best-seller à lá García e Umberto Eco. Em muito deste romance há uma riqueza que nenhum dos outros atingiu em cheio. Mesmo que só tenha começado Gente Feliz… até agora sinto o mesmo (como sente o próprio autor) de Mundo… saberei algo mais quando o terminar.

O ano lectivo acaba de terminar e terei mais tempo para escrever, vou conseguir adiantar muita coisa. Deixa-me saber o que pensas e o que pensa Melo do que tenciono fazer com este romance, e, entretanto, continuarei a falar contigo sobre tudo isto, e sempre em termos de grande admiração. Espero que tudo esteja bem contigo e com os teus.

Abraço,

Gregory Rabassa.

PS: Acabei de receber um exemplar de Fado Alexandrino na minha tradução e sairá em poucas semanas. Espero que receba recensões favoráveis.

3 de Junho, 1990.

Por falta de espaço, falarei noutra coluna sobre a grande colega e amiga da Adelaide nas aulas magistrais de Gregory Rabassa em Nova Iorque numa outra coluna, a tradutora de João de Melo (Happy People In Tears) e de South of Nowhere/Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes). Elizabeth Lowe merece a nossa homenagem.

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Gregory Rabassa, If This Be Treason: Translation And Its Dyscontents, New York, 2005. Coloquei os livros de João Melo em itálico. Gregory Rabassa, em inglês só os escreve em letra maiúscula. As traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado no Açoriano Oriental, 8 de Março, 2019.

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Sobre Eugénio Lisboa e Aperto Libro

Neste momento da história, dá-se isto de curioso: o ocidente desintegra-se e os bárbaros estão à porta, mas desta vez os bárbaros também se desintegram.

Eugénio Lisboa, Aperto Libro

 

Vamberto Freitas

     Reconhecerão todos que as palavras no novo diário de Eugénio Lisboa, que esta prosa, uma em todas entradas em Aperto Libro: Páginas de Diário I 19977-1990, inclui uma paráfrase do grande poeta grego Konstantinos Kavafis, “Os Bárbaros estão à porta”. Este não é um texto sobre o poeta grego nascido em Alexandria onde viveu desde 29 de Abril de 1863 a 29 de Abril de 1933, com uma passagem pela Inglaterra durante sete anos, mas de todo pertinente à vida que Eugénio Lisboa nos conta neste seu diário. Avesso a todas convenções sociais, Kavafis teve a sorte de passar a maior parte da sua vida numa cidade que era então cosmopolita, e tolerava tanto “estrangeiros” como estilos ou orientações de vida. Difícil acreditar hoje, pelo que se passa naqueles mundos muçulmanos, mas era assim. A questão que quero realçar aqui é muito simples e ao mesmo tempo complexa. O grande ensaísta e poeta português nascido em Moçambique, Eugénio Lisboa, e lá parcialmente formado, tem vivido realidades que se não são semelhantes, dão-nos uma ideia de como é ser o outro em terras bem diferentes mas com uma visão assustadoramente semelhantes, tanto em ambientes históricos como nas visões de mundos em colapso: ante civilizações bem formadas e históricas, espreitam sempre os seus inimigos, ou “bárbaros”. Já escrevi muito sobre os outros diários de Eugénio Lisboa, e não queria aqui repetir o seu percurso desde Lourenço Marques, onde nasceu em 1930, até aos dias presentes em que continua a escrever as suas memórias nesta forma literária. Basta só dizer que a História é uma contínua luta entre a decência política e a barbaridade, mesmo que este volume, vindo no seguimento de outros mais, é feito de páginas fulgurantes, por vezes felizes, por outras de ajuste de contas – com Portugal, com os seus escritores, com a sua sorte de vida. Ficamos com a ideia de que o autor viveu por inteiro todas as suas andanças, desde as origens africanas e a sua vida em países europeus após o 25 de Abril de 1974, Suécia e muito especialmente a Inglaterra, onde foi Conselheiro Cultural da nossa Embaixada durante 17 anos até regressar a Lisboa e ser nomeado Pesidente da Comissão da UNESCO nos anos 1995-1998. Pelo meio, fica e ainda existe uma vida literária sem par entre nós. Não exagero nada aqui se disser que ele é o mais erudito e conhecedor da literatura ocidental entre nós, e um dos mais acutilantes críticos de muita da nossa fraudulência artística, a todos os níveis. “Sem medo nem favores”, escreve consistentemente ora em termos elogiosos ora na denúncia dos que a nossa imprensa ignorantemente eleva ao sétimo céu como génios, e que ele considera meros impostores na literatura e nas outras artes.

Primeira informação sobre a sequência dessas memórias de Eugénio de Lisboa. Publicou cinco volumes (todos sob o título Acta Esta Fabula, que nos trazem até 2015, e depois fez sair mais um diário simplesmente intitulado Epílogo, que trata quase exclusivamente sobre a doença e a morte da sua mulher de sempre, Maria Antonieta, falecida há poucos anos. Foi o único livro sobre o qual não escrevi, a dor de o ler tinha a ver com a dor que eu próprio estava a passar com a minha própria mulher, também no fim dos seus dias. A literatura é para mim razão, estética e emoção. Foi um desses momentos nas nossas vidas. Só que este Aperto Libro trata, digamos assim, os anos da sua fulgurância pessoal e literária. Lê-lo foi como fazer um seminário pós-graduado como se fosse nos seus anos de Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro. Eugénio Lisboa não só dá conta do seu dia-a-dia em Londres e noutras partes, fala-nos brilhantemente das suas leituras, que me reduzem à minha insignificância nos meus dias aqui nos Açores. Seria ocupar espaço maior se enumerasse as suas leituras, as suas idas ao teatro e a galerias de arte, aos seus encontros com os melhores dos nossos escritores, e outros, muitos outros, um pouco por toda a parte. Eugénio Lisboa não é só um dos nossos maiores poetas e mais elucidativos ensaístas, é ainda quem analisa, opina e sentencia. Sabemos todos da sua devoção à obra de José Régio, Jorge de Sena, Rui Knofli, entre muitos outros, que conviveram com ele durante quase toda sua vida fora de Portugal. Alguns dos seus passos mais deliciosos são os que respondem a outros e os comentam, por exemplo, Mécia de Sena, Vergílio Vieira ou Eduardo Prado Coelho, por quem cultivava um cómico desprezo. Há outros mais, mas ficam para quem quer ler o livro, ou livros dele. Não conheço mais nenhum ensaísta sério ou crítico entre nós com tanta coragem. Ainda há pouco tempo deu uma “tareia” descomunal no António Lobo Antunes, como dava no José Saramago. Podem alguns leitores não gostar, mas nenhum deles ficará indiferente. Eugénio Lisboa cita constantemente os mais variados escritores europeus. Não pede auxílio, apenas reconfirma as suas opiniões. O espaço literário deste autor não tem nação nem sequer língua: tem a arte suprema, venha de onde vier, como alvo de beleza ou desprezível.

“Chega-me às mãos – diz o autor numa entrada de 1989 – o incrível número de A Semana Ilustrada, dedicado às proezas sexuais do arquitecto Taveira. Tão sórdido como o arquitecto é o texto da revista. Mas, daquilo tudo, sobressai, quanto a mim, um facto pífio: Taveira não passa de um exemplo extremo da cultura yuppie, que invade cada vez mais o horizonte ‘cultural’ do nosso país. Gente sem maneiras, sem cultura, sem finura moral, boçal, sem valores e perfeitamente impregnada pelo que há de pior, de mais torpe e de mais possidónio na cultura anglo-americana. Os valores que visa um Taveira e tantos outros de similar jaez são os que pululam nos “romances” de uma Joan Collins e autores desse calibre”.

Se mencionei aqui o passo de Eugénio Lisboa no início de Cavafis, não foi sem mais nem menos. Eugénio Lisboa sempre leu a literatura portuguesa com admiração e céptcismo, chamando a atenção para a tribo lisboeta de mútuo elogio e promoção tanto dos grandes como dos medíocres. Ao contrário deles, e precisamente porque tinha origem fora de Portugal continental, soube ver ao longe e de perto os que de facto escreviam grande literatura e os que eram elevados a patamares superiores sem qualquer qualidade ou justificação. Nunca teve medo de uma polémica pública ou de insultos gratuitos vindos de qualquer natureza ou voz indígena. Avaliou sempre toda a escrita em língua portuguesa publicada em toda a parte, desde Hélder Macedo a outros muitos nomes, que só lendo o seu livro tomarão conhecimento. Tanto dizia o melhor dos escritores e artistas de fora, como elogiava os de casa. Escrever assim só me faz lembrar um Edmund Wilson, que começa por introduzir os modernistas da sua geração superior nos 20 em Nova Iorque, como furando a pretensiosidade (em pessoa, e num apartamento em Nova Iorque) de um T. S. Eliot, que regressava à América de Londres pela primeira vez armado em sabedor sobre tudo o que era “cultura” e “poesia”. Tal como Wilson, que o elitista Harold Bloom haveria de apontar no seu Cânone Ocidental como o crítico canónico da literatura americana no século passado, Eugénio Lisboa vai à cabeça dos mais pretensiosos e vaidosos sem razão em Portugal, chamando-os pelos nomes que mereciam. “O congresso – escreve o diarista a dada altura no ano de 1988 – sobre Pessoa teve de tudo. Até o Vergílio Ferreira a descobrir que ninguém ainda tinha tocado em dois pontos importantes relativamente ao Pessoa: o ‘fingimento’ e a ‘pluralidade do seu eu’… Será aterosclerose’?

Ninguém escreve entre nós com esta frontalidade e coragem. Quase tudo o resto são asneiras, mentiras ou favores aos escritores da moda em qualquer época. O que Eugénio Lisboa disse sobre António Lobo Antunes, que havia feito umas declarações estapafúrdias a um grande jornal espanhol, ficará como um exemplo perfeito do que tenho dito aqui.

 

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Eugénio Lisboa, Aperto Libro/Páginas de Diário I – 1977-1990, Guimarães, Opera Omnia, 2018.  Publicado no Açoriano Oriental em 1 de Março, 2019.

 

A literatura nos Açores nos nossos dias

O conceito realiza-se num espaço de grande tradição literária. Isso diferencia-nos. O Arquipélago de Escritores é descendente das tertúlias dos anos 40 no bar Jade e dos Encontros da Maia, realizados entre 1988 e 1991. E parente de todos os encontros que acontecem e aconteceram no espaço açoriano.

Nuno Costa Santos, Director da revista Grotta, recentemente apresentada em Ponta Delgada no seu 3º número anual.

Vamberto Freitas

     Nuno Costa Santos já tinha um nome de autor marcante antes de começar a revista literária Grotta. É o autor de pelo menos dois livros de grande qualidade e pertinência literária tanto no continente como nos Açores: os contos dez regressos, de 2003, e o romance muito mais recente Céu Nublado com Boas Abertas, de 2016. Desde 2016 que dirige com sabedoria e critério literário implacável a revista Grotta, cujo 3º número foi lançado no primeiro grande festival literário nos Açores entre 15 e 18 de Novembro deste ano, por ele dinamizado e organizado, um evento sem precedentes nas ilhas que juntou escritores de todos o países e ainda do estrageiro, inclusive do Brasil e dos Estados Unidos, neste caso romancistas e jornalistas de renome. Não vou falar em nomes porque são muitos e cada um mestre na sua área de escrita. Só um pouco de história destes três números da revista. Parece-se uma The Paris Review (no seu novo formato), a revista mais prestigiada no mundo anglo-saxónico pela sua audácia intelectual: tanto publica os mais conhecidos ou famosos escritores de toda a parte (este 3º número traz, por exemplo, um dossiê de poeta galegos) como lança os mais novos que escrevem em todos os géneros. Cada número da Grotta distingue-se, portanto, pela variedade de géneros, e sobretudo por uma extensa entrevista a romancistas, poetas ou outros artistas da palavra, tanto do nosso arquipélago como do resto país. Dito ainda de outro modo, dá prioridade a escritores e poetas açorianos que fizeram a sua carreira no Continente ou optaram por permanecer aqui neste seu lugar de nascença, ou ainda a escritores clássicos da literatura lusófona. Grotta dá continuidade a um inúmero de revistas pensadas e publicadas cá ou lá fora, desde A Memória da Água-Viva de Urbano Betttencourt e José Henriques Santos Barros à Revista do Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, Boletim do Instituto Cultural da Horta, magma (Pico) a Gávea-Brown (Brown University). Isto só para mencionar algumas das mais influentes publicações para a minha geração.

Nuno Costa Santos pertence à geração literária que nos segue, uns residentes nas ilhas, outros no Continente, e ainda outros na diáspora. O seu conhecimento e vénia às gerações mais velhas é um acto de erudição, cultura e respeito. Sei bem que somos referências suas, sei do respeito que ele e outros dão à continuidade que nos desejam na literatura nos Açores e na nossa luta por uma identidade própria adentro do país português. Este 3º número da Grotta é mais uma prova. Abre com um texto de Emanuel Jorge Botelho, que foi justamente homenageado neste encontro Arquipélago de Escritores, e segue com uma longa entrevista e alguns poemas dele, aliás maravilhosamente traduzidos pela professora da Universidade dos Açores, Kathleen Judith Mundell Calado. A entrevista foi conduzida por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto. As respostas de Emanuel Jorge Botelho são poemas de outra forma. Contido, mestre da palavra certa no lugar certo, emotivo e racional, combina o amor à sua cidade de Ponta Delgada com o seu destino vivido, pensado e sentido. Ler Emanuel a ler-nos a nós próprios, ou então desejar que estas palavras fossem também nossas. Sublime, e nada menos esperava dele numa conversa como esta.

“Não sei – diz o poeta à pergunta sobre o que lhe liga de modo íntimo à sua cidade de nascença e vivência até hoje – o que a diferencia porque o meu não viajar impede-me o elaborar de comparações. O que é bom, convenhamos. As comparações são, como nos diz a sabedoria chinesa, odiosas. Ponta Delgada é o rosto – cheio de feridas e cicatrizes – de cada um dos meus dias, o chão, liso, da minha vida… O encanto de Ponta Delgada está na memória que tenho dela. Porque Ponta Delgada é um nome que soletro com alegria dos regressos… Era uma vez uma cidade que morava no meio do Mar…”

Para ser absolutamente honesto, este número da Grotta tocou-me de modo especial, nomeadamente também por um ensaio maravilhoso da escritora Ângela Almeida sobre a obra de Adelaide Freitas, prosa e poesia. Ver a obra da Adelaide assim reconhecida é para mim mais do que uma alegria – reaviva-me a memória e a saudade, os estados de alma mais profundos e significantes em qualquer ser humano. Ângela escreve com carinho e racionalidade, redefiniu-me muitos aspectos e passos na prosa de com quem convivi durante mais de 27 anos, e li linha a linha os seus livros, que aliás vão ser todos reeditados. Ver um trabalho destes, tão lúcido e esclarecedor foi-me um momento de redescoberta e mais aproximação, se é que isso é possível. Que a revista Grotta a coloca na capa, juntamente com a obra de João de Melo foi ainda mais gratificante. João nasceu na Achadinha quase ao lado da casa da Adelaide, nasceram no mesmo ano, foram colegas de escola, dois andarilhos no mundo e dois escritores. Resisto aqui ao sentimentalismo, mas nunca à saudade e ao respeito pela obra dos dois. João vive em Lisboa, mas está sempre presente, em todos os sentidos, e espero ansiosamente o seu próximo livro.

“O texto de Adelaide Freitas – escreve Ângela Almeida — tem como centro agregador a casa onírica, que, sem dúvida, é um tema muito mais profundo do que casa real. Por isso mesmo, a casa onírica devolve-nos as imagens da intimidade, que se alojam no inconsciente e constituem o universo subtextual simbólico, onde se desnuda a estilística. É neste contexto universal total — the psyche is a conscious unconscious whole – que encontramos a significação completa do texto. Em casa onde tudo é inteiro, a família, a terra, o mar.”

De resto, Nuno Costa Santos, quer, repito, em obra literária própria quer na criação desta revista Grotta já fez história literária entre nós. Vou-me repetir. Vindo desta geração que nos vai seguir e dar continuidade traz-me a mim e a muitos outros um certo sentido de missão cumprida, e ainda mais a gratidão pelo seu trabalho. Nunca a “distância” diluiu a sua açorianidade e o apego à sua tradição intelectual, mesmo que a maior parte do país nunca dê por isso, nem sequer nos tem no seu imaginário criativo, ao contrário de nós, que para além da nossa nação temos todo o mundo lusófono nos nossos pensamentos. Tanto faz. Quem perde são os ignorantes, arrogantes e atrevidos. Que venham cá, preferivelmente em dias de chuva e bruma. E deixem de vez as nossas ruas mais livres e o ambiente limpo, as vozes mais baixas nas nossas esplanadas.

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Grotta/Arquipélago de Escritores, número 3. Direcção de Nuno Costa Santos e coordenação editorial de Diogo Ourique, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições/Nova Gráfica, 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 15 de fevereiro, 2019.

 

 

 

De contadores de histórias e de sombras na cidade

E, acto contínuo, virou-se de costas, algemou-me as mãos sobre as nádegas e empurrou-me a cabeça para dentro do automóvel, rindo do meu protesto de que era escritor e conduzia uma investigação sobre o pesadelo da droga nos bairros degradados da cidade e precisava de me fingir um deles.

Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história

Vamberto Freitas

     A novela de Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, fez-me lembrar, nas suas linguagens e imagens, James Baldwin, um dos maiores escritores afro-americanos do século passado, recentemente publicado no nosso país, Se Esta Rua Falasse, um dos seus mais conhecidos romances nos Estados Unidos, If Beale Street Could Talk. Foi o seu humor, foi cada cena inesperada, foi a habilidade de transmitir os sentimentos interiores da sua personagem, um polícia negro numa cidade portuguesa que me impressionou e comoveu na novela de Joel Neto. Uma espécie de bruxo e inventor de histórias. As “mentiras” da própria literatura no seu estado perfeito. A combinação de raiva, o humor e as cenas mais inesperadas numa rua de Lisboa que me levou a esta comparação, e a situação entre negros e brancos faz parte desta minha reacção. São as histórias raramente escritas, mas que transmitem a convivência e, de certo modo, a diferença entre uns e outros. Só que nestas páginas de Joel Neto a cena é virada ao contrário. É agora um polícia negro a seduzir ou a castigar os brancos maioritários à sua volta. Estamos em Lisboa, uma cidade que era conhecida pelos seus não-acontecimentos, e agora enfrentamos uma metrópole na sua crueza e alguma violência. O narrador vira tudo ao contrário – é agora um polícia negro, de nome Norberto, com toda a sua sabedoria de vida e imaginação, que tenta esclarecer as suas possíveis vítimas, ou então os que precisam de histórias alegóricas para melhor estreitar ou perceber as suas vidas. Recorda África e o tempo da guerra colonial, transmite o seu quotidiano já na sua cidade lisboeta. Tanto exerce os ensinamentos da sua vida como, quando necessário, a violência contida de um polícia cuja consciência lhe leva ao perdão ou ao castigo. Coloca-nos numa nova sociedade ainda desconhecida pela maioria dos seus habitantes. Um polícia negro encarregado da autoridade e ordem civilizada – sempre chamado de “preto” aqui – é uma viragem quase radical numa narrativa portuguesa, mesmo nos nossos dias. A ironia, se assim mo permitem chamar, é de uma originalidade pouco comum na nossa literatura. Porventura só um escritor ilhéu ou de referências geográficas e humanas mistas teria esta audácia e visão de todo um país em mutação, que nos deixa sem fôlego e muito menos sem orientação. É isso que deve fazer a literatura: o inesperado e a viragem sem precedentes no nosso modo de estar ou de viver, ou voltar a olhar um espelho que nos traz imagens inesperadas.or e sabedoria levou-me a esta conclusão. Nunca tinha visto nada assim na nossa literatura, a audácia de o narrador se meter na alma de um estranho como esse polícia, ex-guerreiro em África, e agora “autoridade” numa cidade europeia de marginais e suspeitos de toda a ordem. Ao contrário de quase nós todos, não fazia “literatura” de borla. Cada “história”, “parábola” ou “paródia” custava pelo menos 500 escudos

“As pessoas ouviam-no com cuidado, e o número de espectadores continuou a aumentar. Até políticos se sentavam a ouvi-lo, agora. Até padres, até outros polícias. Nós, pelo nosso lado, fomo-nos afastando. Talvez tenhamos ficado um pouco enciumados, não sei. Mas estávamos a crescer, as coisas deste mundo ficavam cada vez mais perto uma das outras, o sotaque africano daquele bófia ia-se tornando um objecto estranho – de repente parecia-nos apenas mau brasileiro, copiado das telenovelas – e toda aquela treta castigadora fazia cada menos sentido para nós.”

Norberto, o polícia negro protagonista desta novela, uma vez mais, tanto conta histórias do seu passado em África como em Lisboa, num tempo de guerra em que ele foi combatente activo, e no seu presente vigilante da criminalidade num bairro marginal de Lisboa. Sente a necessidade primordial de transmitir muito do que viu e viveu, é esse sabedor e bruxo do nosso tempo. Lida ele quase só com jovens transgressores, por vezes acalma-os com as suas palavras, por outras com a violência mínima de um ser humano consciente do sofrimento dos outros. Os rapazes encontrados nas suas patrulhas amam-no e odeio-no ao mesmo tempo, vêem os seus dias e noites coartadas pelo seu próprio meio criminoso meio brincalhão nos seus sítios de mera existência, sem rumo, razão ou futuro. Norberto sabe que tem a autoridade da sua farda e pistola, mas raramente pensa ou utiliza esse seu estatuto. Parece mais um profeta da pós-modernidade com a missão de esclarecer e pacificar por parábolas e missivas uma civilidade que os seus alvos humanos já não entendem. Não há aqui nem grande violência nem amor ou empatia, só a tentativa de tornar a sociedade num espaço mais convivente ou menos odioso. Vigia os seus alvos perturbadores, como estes o vigiam a ele. Essas histórias do polícia não são contínuas, só quando ele acha alguém a transgredir ou prestes a transgredir as merecem. Leva quinhentos escudos por cada uma delas, o que nos delicia com esse acto mais de humor do que ganância. A corrupção aqui nunca chega sequer perto do que vemos e vivemos todos os dias em Portugal e no mundo. Toda a salvação tem o seu preço, sabemos. A ameaça do inferno aqui é dispensável, pois tanto Norberto como todos nós vivemo-la todos os dias. São estas as regras de uma sociedade sem rumo nem deuses condenatórios e muito menos salvadores. É o quotidiano dos que raramente aceitam as regras da sua própria comunidade. Em vez de dó, temos o riso. Tanto uns como outros nem são necessariamente vítimas ou causadores de grandes desgraças, são os filhos e filhas mais ou menos perdidos num outro tipo de selva. Se o protagonista viveu uma guerra com arma ao ombro e no mato, estas outras personagens vivem no pandemónio de uma cidade, divida entre ricos, remediados e pobres. Parafraseando o pensador espanhol Ortega Y Gasset, somos todos, estamos todos, homens e mulheres, a aturar as nossas circunstâncias do modo possível e ao nosso alcance. O polícia fazia a sua vida tanto com autoridade cívica como com a sua civilidade, as suas palavras pacificadoras que nunca sabemos se são verdade ou pura invenção. Ele não imita a literatura, ele é a própria literatura. Nesse seu acto narrativo recria toda uma sociedade. A palavra, aqui, tanto falsifica ou distorce a realidade e a própria História como nos devolve a nossa imagem em espelhos invisíveis mas nos quais nos reconhecemos de imediato.

“E Norberto ia respondendo – contando histórias, inventando desculpas, justificando as maldades dos homens com recurso às suas parábolas de África e da sanzala e da guerra. Quando às oito e cinco nos juntávamos em frente ao muro do Atlético, já uma fila se prolongava rua abaixo, fervilhando de ansiedade. Então o profeta chegava ao seu ponto, pousava o saco do pão e, espreguiçando-se, deixava-se a escutar as queixas do povo.”

Conto ou novela, só tinha saudades de contar uma história, fica à consideração de cada leitor. Cada um destes géneros gémeos são romances abreviados, ou escrita em progresso. Joel Neto já tem uma vasta obra romanesca, e tem a capacidade literária de partir para o género que mais o representa. De quando em quando um grande escritor surpreende os seus leitores, a literatura universal geralmente cultiva todos os géneros, desde o ensaísmo, ficção, dramaturgia e poesia. Nem menciono aqui a escrita-outra. Há escritores entre nós, tanto nas ilhas como no continente, que até fazem das suas breves crónicas arte pura. Em cada caso, raramente é só o seu interiorismo que nos comunicam e nos chega à alma ou consciência – toda uma sociedade está sempre implicitamente presente. Só os artistas da palavra são capazes de nos levarem a outros mundos, muito para além de nomes, datas e acontecimentos colectivos oficializados e das classes dominantes que depressa esquecemos, ou até nos afastam das suas andanças, dizeres e afazeres. Nestas e noutras páginas ficcionais temos o contrário absoluto: a perpetuação da memória e um outro sentido das nossas próprias vidas.

 

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Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, Lisboa, Cultura Editora, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 8 de Dezembro, 2019.

De memórias, loucuras e esqueletos guardados

Contra todas as expectativas, há uma possibilidade, ainda que remota, de conseguires sair da escuridão, mesmo que, fora de ti, não haja nenhuma luz.

Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias

Vamberto Freitas

     Ler estes contos de Teolinda Gersão, “Atrás da porta e outras histórias”, cada um deles é como ler um extenso romance. O conto “Atrás da porta” é um perfeito exemplo da sua mestria. Uma personagem inquieta e perturbada consulta um psiquiatra, quer saber se é ele ou o mundo que está doido ou a perder o juízo em tempos de guerras e loucura por toda a parte. Nessas palavras de “diálogo” contido, o psiquiatra não tem respostas, tal como não se importa minimamente por quem está sentado à sua frente. O nosso mundo actual está aqui representado de modo lapidar, a paródia um perfeito retrato do inferno em que todos vivemos. Sobressaem destas palavras um e outro, os dois extremos do nosso sentido de dor e responsabilidade pessoal e da indiferença de quem poderá ser ou não um médico legítimo ou simplesmente um fraudulento mestre do engano e do desprezo por quem lhe aparece no “consultório”, o psiquiatra sem empatia e muito menos respostas. Em quase toda a escrita da autora, seja ela em qualquer género, conto ou romance, é sempre a ironia e estranheza de sermos vivos-mortos ambulantes (como diria um Tomas Wolfe acerca de certos nova-iorquinos num seus próprios contos, “Only the Dead Know Brooklyn”) e em busca da saída para a sanidade e a decência que se manifestam em certas personagens suas, ou então um quotidiano sem sentido, quase sempre de sofrimento sem queixas, quer seja numa grande cidade como Lisboa ou na mais remota das aldeias escondidas nas serras portuguesas. Solidão e distância perante todos os outros numa pequena ou grande comunidade. De vidas vividas num miserável apartamento na cidade ou numa casa primitiva nos mais escondidos e esquecidos recantos, reencontramos sempre uma humanidade ora carinhosa ou pelo menos pacífica, ou o outro lado raivoso em qualquer um destes contextos da sua vivência. “Sair da escuridão” descreve perfeitamente a temática que nos dá o fio condutor desta prosa repartida e que nos apresenta a totalidade infeliz do mundo contemporâneo em que vivemos, e aonde estes seres reinventados representam e se tornam em símbolos maiores do desespero e da má sorte. Estão eles e elas num estado alienado de tudo que se passa à sua volta ou no resto do mundo. Estamos aqui num tempo ficcional que são os nossos dias. É a angústia de uns e, uma vez mais, o desespero de outros. A obra de Teolinda Gersão não só nos aproxima deste estado de ser e estar como nos coloca no corpo e na alma de cada uma das suas protagonistas. Intercala de conto em conto a voz de narradores masculinos e femininos. Nenhum leitor se poderá afastar em modo identitário de ninguém aqui representado. A grande literatura faz ou permite-nos esta aproximação emotiva ou mesmo meramente artística de uma leitura simultaneamente gentil e forte, sem limites de linguagens ou pudores moralistas das suas e nossas vidas em dias de grande incerteza ou aldrabice do quotidiano do nosso presente e da condição humana no terror da pobreza, violência ou de amores e desamores.

Se coloquei o conto que dá o título ao livro no centro deste meu texto é porque acredito que sintetiza vigorosamente todo o resto da narrativa desta obra. De certo modo, esta escrita de Teolinda Gersão faz-me também lembrar os quadros magistrais de um Edward Hopper, mas ao contrário: Ele iluminava os seus seres imaginados na luz do interior dos quartos enquanto olhavam com expressões de solidão e tristeza o sol ou a luz do exterior, sempre com a descrença no que viam na claridade do lado de fora. Aqui, todos os interiores são de escuridão, sem que nenhuma personagem, do mesmo modo, vislumbre um pouco de esperança ou crença nos dias que se seguirão à sua má sorte ou raiva. Não existem amores sinceros ou verdadeiros, cada vivência em conjunto é uma separação sem futuro. Homens e mulheres raramente se amam, e os seus filhos são deixados num limbo do nada e de ninguém que os proteja. Pobres, bêbados ou simplesmente pequenos comerciantes ou donos de um café rural agem de modo absolutamente desligados do sofrimento interior de quem conhecem ou encontram. Deparamo-nos com cenas que são de puro realismo literário como mágico. Mulheres procuram o amor que nunca acontece, homens esperam pela noite ou fim da tortura diária dos seus empregos ou relacionamentos com os outros. Não se trata aqui de um pessimismo generalizado, tão-só de retratos que nos mostram as nossas vivências possíveis num mundo sem regras nem moralidade alguma. O último conto deste livro, “Dona Branca e os prestidigitadores” é devastador, mais parece uma reportagem da velha e muito conhecida “banqueira” do povo, que acabou na prisão, e agora fala-nos após a morte dos que a usavam, desde os mais pobres a figuras gradas da sociedade, comparando o que fazia com o dinheiro que lhes confiavam e que ela nunca roubava como os bancos oficializados do neo-liberalismo financeiro, ou de quem na verdade nos rouba todos os dias e governam a seu proveito descarado o mundo inteiro. Faz-me lembrar o que um dia disse Philip Roth numa entrevista quando lhe perguntaram como era ainda possível “imaginar” uma história ficcional na nossa época. Ele respondeu que nenhum escritor poderia ultrapassar o ultraje da realidade. A primeira página de qualquer jornal ultrapassava de longe qualquer ficção sobre um mundo em sobressaltos ou surrealista. Na obra de Teolinda Gersão temos um Portugal muito conhecido e escuro, e depois a tal luz que a sua ficção lança sobre nós. Vale por cem livros de História académica ou “oficializada”.

“É esse o problema: como identificar uma coisa que pode ser meramente virtual, um objecto que não é portanto um objecto, que (por enquanto) ainda é desconhecido, diferente de tudo o que cabe nas habituais categorias do entendimento? Poderia dar-lhe nomes, à experiência, mas em nenhum ele se enquadra: luz, vibração, planta, animal, pedra, sombra, máquina, vento, ritmo, conceito. Por vezes (mas tudo é relativo, porque ele muda constantemente de forma), assemelha-se vagamente a uma borboleta ou pássaro, para logo se transformar em folha ou ramo ou árvore e cair apodrecido, parecendo confundir-se com a terra. Mas também essa transformação é ilusória, ou virtual. É talvez apenas isso: movimento, constante mudança, constelação instável de formas: uma amiba luminosa, incandescente, que num momento seguinte é engolida pela sombra e desaparece no escuro.”

De “realidade” e “sombras” é feita a grande literatura. Em Atrás da porta e outras histórias é essa outra transfiguração de um país que bem conhecemos, mas que nos leva a qualquer geografia e à condição em que vivemos. Conhecemos a narrativa escolástica, mas só os grandes escritores entram na alma dos esquecidos, no seu esconderijo, nas suas mentiras, na sua mítica estudada e grafada em documentos que mais dizem sobre a classe dominante e as suas decisões do que de todo um povo em luta pela sua sobrevivência ou alegrias e tristezas. O chamado “universalismo” é também isto: a condição humana em qualquer parte, como aliás confirma toda a distinta literatura do mundo, mudando só de língua, imagística e impulso metafórico de cada artista. Ou seja: traz-nos o resto da verdade, ou se calhar a verdade inteira.

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Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias, Lisboa, Porto Editora, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Fevereiro de 2019.

Os Média Nos Açores E No Mundo

O aparecimento dos novos média e a crise generalizada na imprensa escrita não significam a morte do jornalismo convencional… A potencialidade das novas ferramentas de comunicação pode, pelo contrário, ajudar à imprensa escrita a regenerar-se.

Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média

Vamberto Freitas

     Quando se lê pela primeira vez um primeiro livro de um jornalista-escritor, a primeira reacção é desconfiança, ou, no mínimo, a espera de algo, digamos, de retração. Os Açores E Os Novos Média, de Osvaldo Cabral, quebrou nas primeiras páginas com esse meu preconceito ou leitura distante e pouco interessada. Por entre as inúmeras referências a teóricos regionais, nacionais e internacionais da comunicação social tradicional (escrita, rádio e televisão) e das novas tecnologias, perante os números referentes a tudo que diz respeito à realidade das ilhas até ao resto do mundo, deparamo-nos com uma prosa aliciante e de estilo elegante que nunca acusa (ou melhor, ou mais correctamente dito, só acusa com palavras duras os poderes em Lisboa, dentro e fora da televisão oficial dita nacional, que nunca reconheceram a importância da RTP/Açores como elo de ligação entre as próprias ilhas e o resto país e da nossa diáspora), apenas constata o que entra nas salas ou no nosso ambiente de trabalho todos os dias, nunca deixando o leitor de o ler frase a frase, página e página. Foi o que me aconteceu. Como escrevi noutra parte, ler este livro atentamente é como assistir a um seminário sobre todas estas questões no mundo em que vivemos, ou sobre os mais variados média que nos “assaltam” segundo a segundo. Não vou mencionar todos os nomes nacionais ou internacionais que são referidos nesta prosa e nas quais a ética ou a deontologia são constantes. Só que ele nem se esquece das mais importantes figuras açorianas, quer tenham escrito a partir das ilhas ou feito carreira no Continente. Desde José Lourenço (Director do Diário Insular, em Angra do Heroísmo), Daniel de Sá, Jorge do Nascimento Cabral, Ermelíndo Ávila (entre alguns outros) até a Mário Mesquita, Mário Bettencourt Resendes, dois distintos directores do Diário de Notícias em Lisboa noutros tempos, a José Medeiros Ferreira e José Lopes de Araújo, as suas referências são vastas e históricas, nem os grandes mestres do jornalismo açoriano do século XIX são esquecidos e contextualizados no seu tempo e circunstâncias, muitos dos quais dirigiram brilhantemente alguns dos nossos jornais, e tornaram-se defensores acérrimos da nossa autonomia política já no seu tempo. Só todos estes chamamentos ao passado que têm como fim a análise simultaneamente crítica e solidária ao que se passa nos nossos dias. Osvaldo Cabral tem uma das mais longas e profícuas carreiras no nosso jornalismo, desde os anos 80 no Correio dos Açores a jornalista e eventual Director da RTP/Açores e ainda a Director Executivo actual do histórico Diário dos Açores, como aliás já foi referido numa das minhas citações aqui. Tem sido uma longa viagem, e os seus conhecimentos não têm par, nem sequer na nossa universidade ou noutras mais longe. Mais do que isso, esta é uma história brilhante da imprensa escrita no nosso arquipélago até aos dias dos computadores, iPhones e outros brinquedos vistos por toda a parte e através dos quais famílias inteiras prescindem da conversa cara a cara para “comunicarem” ao longe, sejam eles amigos ou estranhos.

Creio que nada de igual entre nós sequer se assemelhe à temática que predomina e guia toda a prosa do autor em Os Açores E Os Novos Media. Tal como indica o próprio título, Osvaldo Cabral faz uma análise profunda da influência e consequências das novas tecnologias no jornalismo tradicional. Se nalguns casos olha para tudo com um espírito céptico e crítico pelo modo como esses aparelhos distorcem essa comunicação do grande público mais sério e pensador, na sua ânsia de velocidade e novidade, inclusive a televisão), a verdadeira notícia, por outro lado não acredita que a comunicação social em papel vá desaparecer, se bem que a sua influência está cada vez mais diluída, levando até o Presidente americano a falar em fake news ou factos alternativos quando não gosta do que ouve ou vê. A resistência ao imediatismo acéfalo vai continuar, mesmo que só entre uma elite responsável pelo equilíbrio e integridade das instituições. Dito de outro modo, Os Açores E Os Novos Media traça o longo percurso do jornalismo credível nas nossas ilhas, só que com um afincado aviso à navegação tanto nas ilhas maiores como nas mais pequenas. Nenhum deles têm de acabar com as edições em papel, mas terão de migrar para outros meios de transmissão imediata e sempre actualizada. O resto fica com a consciência e a capacidade profissional de cada um: dizer a verdade e dar lugar à opinião, como diria um antigo professor meu na Califórnia, “informada”. O autor pede ainda mais o alargamento ou alcance dos média nos Açores, e disso falarei um pouco mais adiante. Tem palavras duras para os que hoje em dia dependem de gabinetes oficiais que disseminam as versões políticas e outras dos poderes as vários níveis, ou as de organizações especializadas em relações públicas.

“O saudoso sociólogo – escreve a dada altura Osvaldo Cabral no capítulo ‘Jornalismo e Cidadania’ – e professor Paquete de Oliveira, que estudou estes fenómenos, já alertara para o facto de, neste século, o poder de informar, tal como o próprio poder político, é, na actual sociedade complexa, um poder diluído. Os centros do poder estão disseminados e cada um com os meios de fazer passar a informação. A máquina da informação reorganizou-se profissionalmente. Há agências, há novas técnicas refinadas, há os famosos ‘spin doctors’, profissionalmente encarregados de fazer a mensagem funcionar no espaço público. E, por isso, mal estaria o governo, ou o partido, o movimento, a empresa que não se organizassem dentro deste esquema. Parece-me que muitos jornalistas, fechadas no modelo da sobrevalorização da missão e também com forte carga corporativistas, ainda nem deram conta da ‘nova ordem comunicacional’’’.

Vou ter de me repetir. Não há livro nenhum nos Açores que se aproxime a este na sua expansividade, profundidade de análise e, especialmente, quanto à informação concreta sobre a história jornalística que nos fez chegar aqui, e números que de ilha em ilha nos vão explicando toda a problemática dos média nos Açores de hoje. Parte das ilhas para o resto do país e para o mundo, mas sempre, sempre, com os Açores no centro da sua investigação pormenorizada e contextualizada. Ler o jargão académico é quase sempre doloroso. Ler quem conhece por dentro toda a problemática, depois de uma vida inteira ao seu serviço e ainda no activo, é outra experiência. Depois, saber escrever em linguagem clara, escorreita e precisa é outra. É isto que temos nas páginas preciosas de Os Açores E Os Novos Média. Osvaldo Cabral, com este seu livro, não presta só um enorme contributo aos seus colegas nas ilhas e noutras partes. Oferece ao leitor açoriano que se quer minimamente informado um precioso ponto de partida para o nosso pensamento, e, sim, para o modo como passaremos a ouvir, ver ou ler tanto a nossa própria imprensa como a de qualquer outra parte.

Nada menos eu esperava de um jornalista como Osvaldo Cabral, mas superou todas as minhas expectativas. O seu livro vem com um prefácio um tanto humilde de Onésimo T. Almeida. Esse facto não impede que o grande estudioso e intelectual da Brown University nos coloque num determinado rumo de leitura que só nos enriquece e esclarece ainda mais. Finalmente, para o Osvaldo Cabral, sei que li de um jornalista americano (cujo livro agora não encontro na minha exagerada colecção) no seu próprio fim de carreira a mais lapidar de todas as frases: “Sei que o meu maior prémio foi terminar a minha carreira com a minha credibilidade intacta”.

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Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média, Ponta Delgada, Gráfica Açoreana, Lda, 2018. Publicado hoje no Açoriano Oriental, 11 de Dezembro de 2019.

 

 

De Jonathan Franzen e dos seus pássaros

As codornizes são o único alvo permissível dos caçadores com redes de neblina, mas vêm sempre por acréscimo aves pequenas e os falcões que as perseguem.

Jonathan Franzen,

O fim do fim da terra

Vamberto Freitas

     Já li boa parte da ficção de Jonathan Franzen, e todos os seus romances são de mestre. Aliás, a capa da revista Time nem o projetou nem o pronunciou sem mais nem nemos “O melhor romancista americano”. Estou a ler o seu livro de ensaios mais recente, que vai aí na minha epígrafe. De pássaros não percebo nada de nada, a não ser dos melros pretos que apareciam nas árvores da minha casa nas Fontinhas. Pareciam-me então uns inimigos, mas Franzen acha que as mudanças climáticas estão a acabar com todos os outros, e mais alguns ainda desconhecidos. Tenho muita pena, e tudo isto pode e deve ser visto e entendido como uma metáfora da morte do nosso planeta inteiro. Só que as mudanças climáticas estão também a acabar com muitos seres humanos. Viver em Santa Cruz é um privilégio muito grande, rodeado de Silicon Valley e de açorianos (já agora) por todos os lados? A morte das aves são uma metáfora de um mundo “no fim”? O grande autor anda por toda a parte a fotografar os mais escondidos ou longínquos recantos em inúmeros países. Se andasse a fotografar quem dorme nas ruas, nos passeios e nas entradas de lojas de luxo, quem passa fome na noite e no dia não seria mais apropriado a um grande humanista deixando os cientistas perseguir e insistir nas mudanças radicais que todos precisamos? Franzen anda pela a América Latina, pela de África, e até por certa Europa meio esquecida, meio marginalizada, meio discriminada pela “outra” Europa mais a oeste e supostamente mais próspera e com maior segurança social. Os melros desaparecem? Os seres humanos também, repito. O “fim da terra” envolve todos nós, querido autor. Sei que algo mais te justifica. Vamos falar disso. Quando escreves sobre as comunidades na América Central e os seus esforços comunitários para salvar a vida “selvagem”, que voa ou caminha em seu redor, e a sua própria vivência saudável, sei que falas em nome de nós todos. As acções humanitárias de certas comunidades nativo-americanas no Peru são de uma sensibilidade admirável quando se aborda os seus esforços no cultivo da terra, na protecção activa da vida-animal no seu habitat natural, no modo como seleccionam o que se planta e se come, as sementeiras sempre em consonância com o seu meio ambiente, quase sempre acidentado em montanhas e rochas agrestes. Da América Latina só se fala de violência e corrupção. Raramente ouvimos ou vemos esta gente digna na luta pela sua vida, pela vida de nós todos.

“Quanto mais vou envelhecendo, mais me convenço – escreve Jonathan Franzen — de que a oeuvre de um escritor de ficção é um espelho do seu carácter. Talvez seja por um defeito do meu próprio carácter que os meus gostos literários estão tão profundamente ligados às minhas reações, como pessoa, à pessoa do autor – que continuo a não gostar do jovem Steinbeck sobranceiro que escreveu Tortilla Flat enquanto gosto muito do Steinbeck mais tardio que lutou contra a entropia pessoal e da carreira e produziu East of Eden/A Leste do Paraíso, e tracei o equivalente a uma distinção moral entre os dois. Mas a tenho a impressão de que a simpatia, seja pelo escritor ou pelas suas personagens ficcionais, uma obra de ficção tem uma enorme dificuldade em ser relevante”.

Que Franzen menciona aqui proeminentemente uma pequena parte da obra de John Steinbeck, incluindo o seu pequeno romance Tortilla Flat, talvez o mais “anti-português” de toda a sua escrita. Trata-se de um romance de marginais alcoólicos, e o pior dos piores eram de descendência lusa, e a personagem feminina também de nome português a mais prostituta de todas as prostitutas. Já nas As Vinhas da Ira/The Grapes of Wrath aparecem passos pouco agradáveis para nós, mas nunca deixei de o ler ou admirar. Poderá ser que nos 20 e 30 Steinbeck era mais contra o “extermínio” do povo trabalhador americano, e a consciência ambientalista ainda estava longe, pelo menos perante a maioria dos cidadãos. O Professor Emérito George Monteiro (Brown University) bem tentou saber a origem destas hostilidades, mas sem sucesso. A minha teoria é bem mais simples. Já na altura os açorianos controlavam boa parte da agricultura e indústria lacticínia, e Steinbeck era um homem de esquerda, o que lhe provocaria atitudes de contestação aos “patrões”. Vivia em Salinas, uma cidade rural e rodeada de açorianos e luso-descendentes, perto de Monterey, que serviu de fundo geográfico e humano à maior parte da sua obra. Seja como for, estou em acordo absoluto com Jonathan Franzen. Só na maturidade Steinbeck corrigiria o seu rumo e porventura preconceitos. É do fim do mundo, tal como o conhecemos, que se trata aqui, e não da nossa gente, essa que ajudaria a Califórnia a tornar-se no século XX um dos estados mais ricos da nação mais rica do mundo, nas palavras de outros.

O fim do fim da terra, uma vez mais, é um livro de ensaios, e se não me engano o que segue durante largos anos os ensaios de How To Be Alone (2002). O presente volume tem como início o emblemático “O ensaio em tempos negros”, seguindo com outros inevitavelmente de um grande escritor, como “Dez regras para o romancista”, e termina exactamente com “Xing Ped”. Diga-se que o maior castigo no que toca a temas ambientalistas vai naturalmente para o seu próprio país: “Na América, a cada minuto que passa, deitam-se fora trinta mil copos de papel. Muito longe daqui, noutro continente, a floresta tropical atlântica do Brasil é devastada para dar lugar a gigantescas plantações de eucalipto que abastassem o mundo da pasta de papel, mas isso passa-se muito para lá do capô do nosso veículo”. Nada como a ironia fina de um escritor a denunciar o que lhe dá vida, fama e dinheiro – os livros. É a sua credibilidade que nunca fica em causa nestas páginas aliciantes. Não será só “o maior escritor americano” da sua geração. É sobretudo o mais consciente e solidário.

Jonathan Franzen tem ainda quatro romances superiores, todos na minha estante principal: The Twenthy-Seventh City (1988), The Corrections (2001), Freedom (2010) e Purity (2015). Já foi biografado recentemente por Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy Of Rage (2015).

Última observação para um fotógrafo de pássaros mundiais como Jonathan Franzen. Segundo toda a informação mais ou menos científica existe na ilha de São Miguel uma ave rara, de nome “priolo”. Segundo alguns, está em extinção, mas ninguém concorda com números, alguns especialistas dizem que já existem menos de mil exemplares. Voa só numa parte da ilha, no Pico da Vara (Nordeste da Ilha) parte do ano. Sugestão ao grande autor: e uma visita aos Açores para viver esses momentos únicos. Prometemos não o aborrecer com literatura. Se uma sessão dessa natureza for possível, entretanto, muito melhor. Ele vive, volto a recordar, numa parte do estado da Califórnia rodeado de açorianos e seus descendentes. Fale com eles sobre tudo isto. Seria um grande momento a sua presença entre nós. Poderia até sair daqui com um sorriso pela natureza exuberante e limpa que temos.

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Jonathan Franzen, O fim do fim da terra (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental a 4 de Janeiro, 2019.

 

 

 

 

 

Amos OZ: sobre guerra e paz em Israel e na Palestina

Tenho muito medo do futuro. Tenho medo da política do governo e envergonho-me dela. Tenho medo do fanatismo e da violência crescente entre nós, e também me envergonho dela. Mas gosto de viver em Israel. Gosto de ser cidadão de um país que tem oito milhões e meio de profetas, e oito milhões e meio de messias.

Amos OZ, Caros Fanáticos: Fé, fanatismo e convivência no século XXI

Vamberto Freitas

Bem sei que a epígrafe de acima é um pouco longa, mas estas estas palavras vindas de quem vêm não podiam deixar de abrir este meu texto. Amos OZ é um dos mais famosos romancistas e jornalistas israelitas, premiado ao longo da sua carreira nos mais diversos países por inúmeros romances, muitos dos quais traduzidos entre nós, desde A Caixa Negra, Uma História de Amor e Trevas, Judas, entre muitos outros. Nascido em Jerusalém em 1938, como adolescente, diz ele num destes seus ensaios, atirava pedras à polícia britânica que patrulhava as suas ruas antes da independência em 1948, mas isso antes de fazer amizade com um desses polícias que sabia mais do Antigo Testamento do que ele, e queria muito o regresso dos judeus à sua terra histórica e sagrada. Este seu recente livro contém três ensaios (“Caros Fanáticos”, “Luzes e não uma única luz” e “Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente”) que são de uma clareza fulminante – e de maior castigo não para com os palestinianos, mas sim para com os seus concidadãos após a Guerra Dos Seis Dias, a condenação do poder em Tel Aviv, assim como contra os que ele denomina de fanáticos ortodoxos, desde certos políticos aos colonos israelitas na Cisjordânia, e que ele advogada a sua retirada imediata juntamente com um diálogo persistente com os seus vizinhos muçulmanos. Aqui a nossa humanidade não tem cor, raça, etnia ou crenças religiosas. Tem o dever da convivência pacífica e justa entre todos. Reclama parte do território antes da Guerra dos Seis Dias como sendo território histórico – não só bíblico – dos judeus, mas tudo o resto, segundo o autor, deve ser feito pela paz, até por uma possível confederação entre os dois estados, que ele defende sem quaisquer reticências ou medo. O contrário será a tragédia absoluta, e quem vai perder novamente, afirma de novo o autor, serão os judeus. Sempre que enfrentaram grandes potências, relembra-nos, foram eles que perderam decididamente, desde a Babilónia até aos romanos, já sem falar no Holocausto europeu do século XX. Não se trata, nestas suas palavras brilhantes, de culpas ou acusações, antes que retomemos todos o melhor em nós sem que ninguém seja subjugado ou martirizado, como estão sendo os seus vizinhos na Palestina. Viver num mundo em caos, como vivemos, ler estas vozes é um sopro de saúde e sanidade. Amos OZ, na sua profunda humanidade e inteligência, mesmo indirectamente, não fala só do Médio Oriente, fala de nós todos, fala da decência que nos falta, fala da injustiça que graça no mundo inteiro. Não abdica da sua ideologia do esquerdismo moderado nem do seu judaísmo, mesmo que mais laico do que praticante, como não abdica na sua insistência que só o diálogo e a convivência pacífica será a nossa única salvação.

Antes de mais, uma pausa. Li há poucos tempos o romance de Amos OZ, Judas, e pouco mais tarde Horse Walks Into a Bar do grande e também muito premiado israelita David Grossman. Já há alguns anos li (em inglês) o longo ensaio deste autor intitulado The Yellow Wind (1988), em que ele tinha visitado as comunidades palestinianas sitiadas e dava conta do que viu e ouviu, nos termos mais humanistas e compreensíveis do sofrimento dos outros, dos “apátridas” em agonia. Não se trata, nestas palavras brilhantes destes dois autores, de culpas ou acusações, antes de uma espécie de apelo para que todos vivam o melhor em nós, sem que ninguém seja subjugado ou martirizado, como estão sendo os seus vizinhos na Palestina, e mesmo alguns judeus do Estado de Israel. Viver num mundo em caos, como vivemos, ler estas vozes, uma vez mais, é um sopro de saúde e sanidade. Amos OZ, na sua profunda humanidade e inteligência, não fala só do Médio Oriente, fala de nós todos, fala da decência que nos falta, fala da injustiça que graça no mundo inteiro. Não abdica, repita-se, da sua ideologia de esquerdismo moderado nem do seu judaísmo, mesmo que mais laico do que praticante, como não abdica na sua insistência que só o diálogo e a convivência pacífica será a nossa única salvação possível. Amos OZ desmonta praticamente não só todos os argumentos do Poder no seu país, como desmonta o fanatismo de todos os outros que insistem numa suposta Grande Israel. Escreve ainda com mais coragem quando diz que certos “direitos” têm de ser esquecidos. Prefere estar vivo antes de ser judeu, e se ele, os seus filhos e netos assim como todos os seus conterrâneos nacionais não poderão rezar no Monte do Templo, pois que assim seja. Avisa ainda, e relembra, que desde a fundação o seu país sempre dependeu da protecção de uma grande potência, tenha sido ela a Inglaterra, a França e até, por algum tempo curto, a União Soviética de Estaline. A crença de que os Estados Unidos serão sempre um aliado eterno, afirma ele, é um erro. A política internacional é mutável, e ninguém sabe o que poderá acontecer amanhã na América do Norte em relação a Israel. O autor pede dois estados lado a lado, dando tempo aos palestinianos de se habituarem á “normalidade”. O futuro pode guardar uma federação económica e política, a paz sem muros nem ódios irracionais. Ler estas e outras vozes daquele país é termos a esperança que neste momento todos negam. Faz um aviso muito contundente: ou dois estados, ou só um, e esse inevitavelmente seria árabe. Mais de duzentos milhões de “inimigos”, ricos e alguns armados com armas nucleares não nos deixam qualquer esperança de uma vitória de um pequeno e vulnerável país. Amos OZ não quer viver como minoria subjugada, prefere fronteiras reduzidas às suas dimensões possíveis, um Estado luminoso, e pelos outros aceitável mas seguro e normalizado.

“O facto de os Estados Unidos serem nossos aliados é algo transitório. Pode mudar. Mas o facto de que os palestinianos são os nossos vizinhos e de que nós vivemos no centro do mundo árabe e muçulmano – são dois elementos permanentes da nossa situação. O próprio perigo nuclear do Irão é um factor transitório, e não permanente porque mesmo se nós ou outros bombardeemos o seu arsenal nuclear, não seremos capazes de bombardear o conhecimento que eles detêm. E mais: o Paquistão nuclear pode tornar-se um estado islâmico mais extremista ainda do que o Irão. E mais ainda: não é possível impedir que os inimigos ricos de Israel comprem armas nucleares à venda e as lancem contra nós. Daqui a poucos anos quem quiser armas de destruição maciça poderá adquiri-las. Nesta questão também é obrigatório aprender a distinguir entre o transitório e o permanente. Permanente tem de ser a capacidade de dissuasão de Israel, enquanto as capacidades dos nossos inimigos, a nuclear e outras, são algo transitório, que no final de contas não depende de nós.”

Não, não sou nem historiador nem cientista político. Só que um grande escritor como Amos OZ sente a obrigação de comunicar com os líderes do seu país, e eu sinto a obrigação de o ler, de com ele, e outros, aprender o que pensam e como vivem todos os nossos dias. Ser cidadão de Israel deve ser viver sempre na iminência de outra guerra, no acto terrorista e mortífero de um lado e do outro, e no desgosto absoluto de ver o seu país oprimir um outro povo. Por certo que o Holocausto da Europa selvagem tem tudo isto como génese e como tragédia. O grande autor mundial não culpa ninguém aqui, a não ser os seus próprios conterrâneos, sente o direito de viver em paz na sua pequena terra, de dar um futuro seguro aos seus filhos e netos, e a todos os outros, e de permitir aos seus vizinhos que tenham a mesma vida digna, sem sofrimento nem morte. Só os grandes artistas entram na nossa alma, vão para além dos números, das figuras e acontecimentos tantas vezes mais imaginados do que verdadeiros, sempre sob uma capa supostamente académica, que depressa esquecemos. Tornam-nos um pouco mais sensíveis a nós próprios e aos outros. Um ensaio de um grande escritor é mais do que um relato de “factos” — é entrar no mais profundo do nosso ser.

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Amos OZ, Caros Fanáticos: Fé, fanatismo e convivência no século XXI, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018.