Da melancolia da ilha e de uma fuga louca em busca da América

Apesar da brisa daquela noite clara, Mané sentia-o debaixo da pele: os tempos da pobreza iam acabar.

Almeida Maia, IlhaAmérica

Vamberto Freitas

Permitam-me e desculpem-me de começar com uma auto-referência. Em 1999 publiquei um livro sob o título A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, mas trata-se de uma mera selecção de ensaios maiores e menores que eu havia publicado sobre a condição vivida nos Açores durante aquela época ou no passado. Menciono-o aqui só para vos dizer que este novo grande romance de Almeida Maia, IlhaAmérica, é precisamente sobre a mesma ideia de que os Açores são o tal “viveiro” nemesiano, onde se planta parte da humanidade para logo a seguir tentar ser replantada noutras geografias, que no nosso caso, logo desde quase o início da povoação queria dizer as Américas, e a partir do século dezoito até aos nossos dias isso queria dizer os Estados Unidos e mais adiante o Canadá. É certo que outros escolheram ou foram forçados a outros destinos, mas a América permaneceu sempre a nossa “miragem”, como um dia escreveu José Martins Garcia. Essa miragem levou em 1960 à mais dramática e corajosa tentativa de chegar a esse outro destino de vida nossa. Também é certo que Manuel Ferreira escreveria O Barco e o Sonho, depois tornado filme, mas essa foi uma aventura de mar que acabou bem, ao contrário do que acontece neste romance de Almeida Maia. Um rapaz, aqui de nome Mané, natural das Furnas mas cedo mudado para Santa Maria com a família para que o pai trabalhasse no então mais importante aeroporto dos Açores, pois era lá que a aviação da época fazia escala rumo ao Novo Mundo, de norte a sul. Este romance tanto insinua a então pobreza dos Açores como por vezes a brutalidade das vidas domésticas, e é a isso que um jovem de 16 anos de idade quer fugir a todo o custo. Antes de mais, esta ficção histórica é o resultado de uma aturada investigação do autor (de que dá conta em quase quatro páginas de notas e agradecimentos), que cruzou de novo continentes e outras ilhas, é baseada num caso verídico que suspeito muitos outros sabem dele. Se já mencionei outros autores que escreveram sobre a aventura americana é com o intuito de colocar a narrativa presente no seu devido contexto, mesmo que as circunstâncias sejam as mais dramáticas imagináveis, em que a realidade e a ficção se juntam numa prosa brilhante, colocando desde já este IlhaAmérica no cânone superior da literatura açoriana ou entre a melhor ficção contemporânea de língua portuguesa. Outra questão que me parece de importância vital: no fim do romance vemos como os nossos apregoados “brandos costumes” não passam de um mito que séculos de vivência sobre os mais variados absolutismos quis fazer passar para dentro e para fora. Um adolescente poderia não saber disso, mas sentia-o na pele desde a vida em casa e o que ia à sua volta. O título deste livro não se refere à América, mas sim à própria ilha de Santa Maria devido ao seu trânsito aéreo e à presença dos americanos, que na Terceira e de outro modo se fechavam na Base arredores lá perto. Era da ilha mariense que saíamos todos em busca de nova vida numa América, que nada tem a ver com o que hoje lá acontece. Eu também parti de lá em 1964, mas no conforto de uma cadeira e rodeado pela minha família imediata. Nada disso tem a ver com a sorte de Mané que se meteu no vão da roda da frente de um Locheed Super Constellation venezualano que ia para Caracas e escala na Bermuda. Mané poderá não se ter dado conta disso,e aterraria no que aqui se chama a Terra Prometida.

Mané está no aeroporto e espreita o avião. Quando ninguém aparecia à sua volta mete-se, só com a roupa do corpo e três papo secos, uma vez mais, no vão que lhe poderia ter sido fatal por várias razões. Diria mais tarde o co-piloto, quando o avião levanta voo, “Fue esta luz que me avisó… Pensábamos que era una avería, porque oímos um ruído áspero, como alguien golpeando algo”. O jovem teve a inteligência de recuar ou se mover mais um pouco, a roda fechou segundos antes de o comandante decidir abortar o voo e regressar à pista. Quando aterram na Bermuda, o jovem saiu e foi logo descoberto pelos pilotos, que ficaram atónitos com a coragem do jovem. O comandante, aqui de nome Diego, dir-lhe-ia o resto, já em sua casa de Caracas, onde o acolheu com a maior admiração e carinho, que foram de tal grau que até brincou com a possibilidade de Mané casar com uma das suas filhas. Fez-lhe entender ainda, agora nas palavras do narrador de IlhaAmérica, a enorme sorte do rapaz foi que não tinham voado à altitude habitual de 20.000 pés mas sim a 8.000 pés. “Se voassem uma nisquinha mais acima, o oxigénio teria faltado”. Sem quaisquer documentos, Mané foi entregue ao consulado português naquela cidade, e de imediato enviado para Lisboa sob a acusação de emigração ilegal, e ele acabou no Aljube, em que a PIDE, nos seus comportamentos muito conhecidos entre nós, o interrogou numa das suas salas frias e intimidativas sobre a façanha, mas sem qualquer simpatia e muito menos admiração, dirigindo-lhe palavras duras, acabando por o reenviar para a ilha. Contraste-se este comportamento com a empatia e paixão dos pilotos venezualanos. Acaba por fazer a tropa na guerra colonial, mas o sonho americano nunca o deixaria, e este, descobrimos nas últimas páginas, é um romance de fim feliz. Disse-me o autor e outro amigo que Almeida Maia tentou por todos os lados entrar em contacto com ele, que hoje deve ter 75 anos, e pensa-se que vive algures na zona de Fall River. Almeida Maia acrescentou que ele não quer falar com ninguém sobre a sua imensa aventura em anos já muito idos. O resto, creio, deve ficar para a leitura e interpretação de cada um. É claro que todos os nomes aqui são fictícios, por isso não os mencionei todos neste texto. Sobre a linguagem deste inusitado romance só tenho a dizer que é de um brilhantismo que atravessa toda a narrativa, caracterizada pela sua clareza e contenção verbal, é um romance de frases lapidares raiando a tragédia não só de um jovem de coragem quase sem par entre nós, recria enfaticamente a condição existencialista do desespero e da escuridão que dia-a-dia caía sobre a maioria dos açorianos aquela época. Não diz nada sobre a vida de Mané que finalmente e legitimamente chega anos mais tarde ao que o narrador chama várias vezes a Terra Prometida, sendo o próprio autor também tocado por familiares que emigraram para aquele país. Por outras palavras, a América, apesar destes últimos anos, repito, continua no nosso coração, o símbolo e a realidade da nossa salvação em tempos ainda muito próximos.

“Deu o primeiro passo – diz o narrador quando Mané consegue concretizar a sua vontade inabalável anos depois, e agora entra legitimamente noutro avião, sentado e engravatado – na escada, e sentiu o destino a corresponder-lhe, o coração a abastecer-lhe os músculos com raiva boa, os pés a desejarem dançar, a boca a sorrir em espasmos. Desceu, degrau a degrau: aquele chão sobrenatural a aproximar-se, degrau a degrau, a Terra Prometida ali mesmo, degrau a degrau, a vontade de a beijar a tomar conta de si… até que pisou a pista. Mané tinha firmado os pés no solo sagrado. Tinha chegado à América”.

Como muitos leitores de Almeida Maia já sabem, e talvez muito melhor do que eu, o autor tem uma sólida formação universitária, especialmente como psicólogo organizacional, e via-o quase todos os dias na nossa faculdade da Universidade dos Açores. Nunca se coloca em bicos de pé, mas merece desde algum tempo toda a nossa atenção como leitores, vai ficar como um notável escritor português a partir dos Açores. Na contracapa deste IlhaAmérica o crítico-mor do JL lisboeta diz que “Maia ampliou o género policial no romance açoriano”. Só que é, no mesmo espaço, Santos Narciso que coloca as coisas no seu verdadeiro lugar. “Relativamente – escreve Santos Narciso – a Almeida Maia, ele tem a capacidade de, no urdir do enredo, associar um saudável regionalismo a um assumido universalismo, fugindo de lugares comuns, sem nunca abandonar a matriz insular que enforma a sua escrita”. Cito aqui colegas meus que crescentemente têm valorizado a nossa literatura. Cada grande livro tem de estar aberto a variadas interpretações, e quanto mais activa for a nossa crítica ficaremos a saber que os escritores açorianos não ficam a dever nada a ninguém. Crítica literária, como um dia citei Harold Bloom, o autor de livros como O Cânone Ocidental, é também “memória”. Memória de um lugar e tempo da condição humana em toda a parte. Almeida Maia já tem uma considerável obra em vários géneros, tendo continuamente recebido os mais variados prémios literários. Destaco neste momento dois desses livros também contundentes: Capítulo 41: A Redescoberta da Atlântida e A Viagem de Juno, que já fazem justamente parte do Plano Regional da Leitura. Pedro Almeida Maia já passou, com IlhaAmérica, de uma promessa a um autor consolidado. Não queria estar no seu lugar. A sua responsabilidade literária está agora mais pesada, os seus leitores à espera de outros livros, como este, marcantes no seu percurso literário. Pela minha parte, vou ler ou reler parte da sua obra anterior. Está ele agora ao lado dos nossos melhores escritores, e nunca só dos Açores. O seu engrandecimento deveria ser também o de nós todos.

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Almeida Maia, IlhaAmérica, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 23 de Outubrode 2020.

Sobre borderCrossings: leituras transatlânticas V

Ernesto Rodrigues

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

A história da humanidade faz-se a atravessar fronteiras. Desde os grupos de caçadores e recolectores há milhares de anos às campanhas militares e aos incessantes movimentos migratórios, e dos avanços científicos à globalizada sociedade da informação, o homem procura ir além de si mesmo, o que só resulta no diálogo com outrem: dessa livre interculturação nasce um sentimento de semelhança na humanidade, em que assenta existência digna. Um crítico literário deve ser sensível a esse voto de igualdade.

No campo da cultura, este regime de fronteira vive de uma produtiva curiosidade pelo lado de lá, que é também modo de nos definirmos. Em casos particulares, a ferramenta linguística é decisiva, ou ficamos presos atrás do espelho. Em última instância, vale-nos a tradução.

Desde 1761-1762, quando Francisco Bernardo de Lima funda, no Porto, a Gazeta Literária – nossa primeira revista literária –, verter para português recensões a obras estrangeiras era uma resposta possível, mesmo chegadas com anos de atraso. Acrescentava-se reflexão sobre clássicos portugueses, e tínhamos, assim, a aliança crítica perfeita, nos seus alicerces cosmopolitas.

Se, no século XX, há breves ensaios sobre autores estrangeiros – caso de José Régio, por interposto francês –, a recensão, no que significa de atenção crítica ao recém-editado, só nos anos 70 se esboça – e mais sobre o entre nós traduzido, não sobre originais ainda frescos em Londres, Paris, Roma, Madrid, Nova Iorque… João Gaspar Simões, que teve uma costela de tradutor, preocupou-se com a edição nacional (e não foi pouco); hoje, Miguel Real segue-lhe os passos, donde resulta um grave fechamento em dois nomes responsáveis.

Na minha prática de décadas, além de tradutor de húngaros, pude misturar lusos e títulos traduzidos ou lidos no original, reunidos em Literatura Europeia e das Américas (2019), aproximando-me, com o milheiro de páginas da futura reedição de Verso e Prosa de Novecentos (2000) – sobre portugueses dos séculos XX e XXI –, do políptico BorderCrossings: Leituras Transatlânticas, iniciado por Vamberto Freitas em 2012, singular experiência entre nós.

A recensão, bem acima da nota ou resenha jornalística, adquiriu importância nos passados anos 30 e 40 com a emergência de páginas e suplementos dedicados à literatura e arte. Aí pontificou, numa colaboração multímoda vinda do Diário de Lisboa e que terminou no Diário de Notícias, o verbo por vezes derramado de João Gaspar Simões, cujo útil impressionismo teve a alternativa universitária, sobretudo, na Colóquio/Letras, a partir de Março de 1971. Comuns ao jornal e à revista académica tivemos Jacinto do Prado Coelho, José-Augusto França, David Mourão-Ferreira, entre muitos outros. Desaparecidas colunas ideológicas (Seara Nova, Vértice…), o JL – Jornal de Letras, Artes & Ideias procura, desde 1981, um mar chão, uma década depois acompanhado pelos suplementos do Público.

Seria injusto quedarmos neste rápido balanço. Na tradição literária do arquipélago noveno, Vamberto Freitas conquistou um espaço regular no Açoriano Oriental, que repete na Imprensa da Portufórnia (p. 46), e passa às redes sociais e ao livro. Como divulgação por estes meios, não tem rival. E, dentro de uma bibliografia activa começada em 1990, esta capacidade de pôr em livro – parafraseando o Fernão Lopes de ‘poer em caronica’ – as colunas efémeras do jornal não tem par, quando Gaspar Simões só esporadicamente o conseguiu, antes da súmula de décadas em volumes tardiamente saídos na Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Um elemento distintivo em Vamberto Freitas é, além de atender a autores do Continente, cuidar do ilhéu, com raízes e ramos além-Atlântico. Olhando ao todo nacional, essa reflexão sobre idiossincrasias locais – aquela ‘açorianidade’ cunhada por Vitorino Nemésio em 1932 – vai muito à frente do processo, de algum modo sistemático, iniciado no Funchal somente nos anos 90, enquanto, para Trás-os-Montes e Alto Douro, o ‘reino maravilhoso’ (1941) de Miguel Torga, que designei como a terra de duas línguas (português e mirandês; título de antologia, 2011, 2013), eu mesmo me fiz fautor de uma singularidade.

Esculpir essa açorianidade, in loco e na margem americana (como já fizera, no articulismo do Diário de Notícias, na margem que desemboca em Lisboa), é o já longo desafio de Vamberto Freitas, reiterado na primeira secção deste livro, e logo no texto inaugural reunindo elogio de dois velhos e comuns amigos, Urbano Bettencourt e José Martins Garcia.

Fui colega daquele na Faculdade de Letras de Lisboa. Além de docente e animador cultural, antologiador, assinando microficções, esse poeta de mão-cheia é um lúcido ensaísta. Fui aluno de José Martins Garcia na mesma Faculdade, aqui celebrado com O Amanhã não Existe (2017) – «outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte» (p. 18) –, enquanto Urbano prossegue na edição da sua obra completa. Ter ministrado na Universidade dos Açores uma cadeira de Literatura Açoriana deveria servir de exemplo ao demais país.

Outro segmento importante quase ausente da nossa crítica é a atenção maior aqui dada aos Estados Unidos, em tradução e no original. Ter quase trinta anos de ar americano é razão bastante para um conhecimento de que beneficiamos, acrescido de uma inclinação para relacionar literatura e sociedade, e balançando grandes questões do nosso tempo, seja a memória de vários holocaustos, seja o noticiário da actual administração em Washington.

Sob a égide de Edmund Wilson, que o ora desaparecido Harold Bloom «viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX» (p. 188), num elogio recorrente, mesmo quando dele se distancia, Vamberto Freitas sabe que outros podem gostar de Proust e James Joyce, dele tirando explicações, senão prazer. Sem espírito de fronteira, capaz de dar o salto, ou aceitar que vizinhos o façam, não havia interpretação. Extrair algo de textos ditos difíceis é função nobre; nestes, mais do que nos fáceis, o resultado fica sempre em aberto. Cito, após consideração sobre Wilson leitor de Finnegans Wake, e no cenário de A Casa da Cabeça de Cavalo: «A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção.» (p. 147)

Entre estes e outros méritos, bastaria a informação sobre nomes para mim desconhecidos – na diáspora, sobretudo – e estava ganho o volume. Ainda, a leitura de obras há muito saídas, que eu mesmo li e agora releio segundo outro evangelho, quando o crítico recupera, nas reedições, autores como Teolinda Gersão e Manuel Alegre.

Não há espaço para estudar a técnica da epígrafe, ou arte de seleccionar um excerto indicativo da obra em análise. Também na variedade de espécies tratadas – ficção, poesia, cronística e jornalismo – este «arquivo criativo» (p. 221) se afigura único.

Fugindo ao tom, que nem por ser crítico deixa de ser de proximidade, a enunciação autoral torna-se agora muito presente e, a espaços, pungente. Da dupla dedicatória limiar ao tu marcado no segundo texto (p. 29-32), sobre Adelaide Freitas, convocada noutros lugares, entenderá o leitor o drama pessoal a cuja luz, ou sombra, foram escritas algumas prosas. Isso conduz-nos a uma, para mim inesperada, autobiografia disseminada, sob máscaras ou já explícita, seja no pretexto de um Hemingway (p. 95-98), seja sobre “As outras américas que não vivi” (p. 193), entre outros lugares. O volume encerra com entrevista e desejo: «Queria muito fazer uma biografia colectiva da minha geração. Ou numa narrativa sequencial, ou então em ensaios interligados e revendo a mesma história de quem entrou na minha vida, quer em termos literários quer em termos pessoais.» (p. 228)

Com este quinto painel, vário nos processos e nos objectos linguísticos e geográficos em estudo, Vamberto Freitas torna-se, nesta década, o principal crítico literário português. Entretanto, sem abandono da intermediação indispensável à coisa literária, pode oferecer-nos um retrato de ser dividido entre línguas, territórios e paisagens. Duplo privilégio, ganharemos todo um passo mais na marcha da humanidade.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas V, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019. Foi a apresentação do meu livro “BorderCrossings 5” no Outono Vivo da Praia da Vitória em 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 11 de Setembro de 2020.

Da independência dos Açores e de certos mitos

As ilhas não mais seriam iguais, nem a noite o dia o saber os sonhos de cada um

João de Melo, Livro De Vozes E Sombras

Vamberto Freitas

Vamos ao que mais interessa na prosa de João de Melo. Sem qualquer dúvida, escreve aqui uma brilhante ficção, a sua linguagem nunca deixa os seus leitores por um segundo sem o êxtase de ler uma combinação de realismo e, diria, pura poesia. Introduz-nos aos mais variados personagens ou protagonistas. Não é que a sua linguagem não mude de romance para romance. Cativa-nos de um modo singular. Posso agora parecer um herege regionalista, mas poucos dos seus leitores deixam de abordar as ilhas açorianas desta maneira brilhante. Estou grato ao autor por despertar em mim tanta “fúria”, como a vontade de não ficar fora do circuito que sempre deu sentido à minha vida na América e em Portugal.

Queria começar por dizer que estou tão longe da FLA como de Júpiter, o quer não dizer que eu, como democrata e cidadão português dos Açores não concorde do que muito disse esse movimento ou se pronunciou desde o inicio. Um democrata nunca falha em perceber certas verdades. LIVRO DE VOZES E SOMBRAS, a nova obra de João de Melo, traz-nos desafios algo problemáticos tanto na sua estrutura como no tema quente da FLA (Frente de Libertação dos Açores), mesmo que venha relatado ficcionalmente mais ou menos 20 anos depois. A sua abertura começa por trazer alguns problemas aos leitores açorianos (os continentais raramente perceberam todo processo). Chega ao porto de Ponta Delgada uma jornalista enviada por um jornal aqui chamado Quotidiano, que identifico logo, erradamente ou não, pelo Diário de Notícias. Uma personagem de nome Cláudia Lourenço vem entrevistar Mariano Franco, um suposto bombista e terrorista ao serviço dos independentistas, que a vai receber, e de imediato pede-lhe que feche os olhos durante o percurso até chegarem, ao destino, Capelas. Ora um leitor da ilhas sabe muito bem que o único líder da FLA que lá vivia era o Dr. José de Almeida (e que o narrador nunca nomeia,chamando sempre o Outro). Tudo isto foi-me confirmado por quem andava muito perto dos bastidores do movimento. Falta ainda só dizer aqui que o líder máximo da FLA nem era bombista nem terrorista. O autor pode bem esconder-se atrás dos seus narradores e colocar-lhes na boca o que quiser e entender. Não pode é falhar nos dados históricos que estão subjacentes ao resto que vai ser imaginado, e às suas palavras naturalmente ficcionais que muito bem quiser e entender, mesmo que as topemos como fora das realidades vividas ou sofridas. Pronto, falha menor num romance que merece ser lido com toda a atenção – e dúvidas. O romance é quase todo narrado pelo dito terrorista, mas já numa fase de arrependimento, mais ou menos. Por outro lado, cometeu os seus crimes a mando do Directório da FLA, ou então actuou por conta própria, como muitos outros “capangas” o fizeram na perseguição e pancadaria em continentais mais conhecidos e até mesmo a outros açorianos anti-independentistas ou separatistas. Por certo que muitos deles praticaram terrorismo “avulso”, mas que alguns pensam que foi a mando do Directório. Ninguém o pode provar. Depois da estrondosa e histórica manifestação 6 de Junho em 1975 em Ponta cerca de 35 cidadãos, principalmente de São Miguel e da Terceira, foram presos e barbaramente mandados para uma prisão na Ilha Terceira. Um pouco mais adiante falarei que quem perseguiu e praticou violência entre nós, mas contra os açorianos, especialmente a partir desse histórico 6 de Junho. O narrador de João de Melo afirma ainda sem meias palavras que o movimento era só dos ricos e terra-tenentes. A maioria dos seus militantes mais aguerridos era gente do campo, do pequeno comércio e outros trabalhadores. Fala ainda constantemente na entrega do arquipélago à protecção dos americanos. Só por vontade dos de cá esravam por aqui até ao Verão de 1975, pois nem quer a CIA, e muito menos a Secretaria encarregada dos Negócios Estrangeiros dos Estados Norte-Americanos estavam atentos ou desejosos de ir atrás de outro problema aguda na seio da Europa ou dos seus arquipélagos. Sobre isso irei citar adiante o maior especialista açoriano sobre a presença dos Estados Unidos aqui nas ilhas

Permitam-me agora um pouco de biografia e auto-biografia. Em 1982 receberia de Mário Mesquita, então Director do Diário de Notícias, que seguisse as andanças do Dr. José de Almeida na América quando foi lá fundar um “governo no exílio”, creio que em Fall River. A prestigiada revista Boston tinha publicado um extenso artigo sobre o assunto, que eu agora resumia as suas palavras sobre a FLA, e depois, disseram-me de Lisboa, que visitasse algumas comunidades açor-americanas sobre a sua aderência ou oposição. Depressa enviaria uma longa reportagem intitulada “A conspiração separatista nos Açores”, que foi publicada em grande destaque no suplemento Internacional. Depois do relato pedido, rematei a reportagem com as seguintes palavras, nunca desditas por ninguém aqui nos Açores, e o Dr. José de Almeida leu, na altura, e um pouco mais tarde a comentaria comigo em pessoa. O grupo tinha viajado depois para a França, mais ou menos em secretismo, e realizou uma reunião, no mínimo estranha.
Nas palavras de Fred Strasser e Brian Mac-Tigue numa outra reportagem num outro jornal americano sob o título “The Fall River Conspiracy” escrevem: “A reunião do Hotel Raphael dissolve-se num ambiente de impotência, animosidade, e recriminação. Os açorianos que tinham servido de fachada, voluntária ou involuntariamente, aos agentes da OAS [organização terrorista francesa, que havia actuado durante a luta pela independência da Argélia] perderam a sua honra, perderam a sua credibilidade nas comunidades da América e das ilhas… A República dos Açores sonhada pelos secessionistas afundou-se mesmo antes de ser lançada”. Antes desta afirmação, os mesmo jornalistas tinham escrito: “Na reunião decisiva de 5-7 de Setembro no Hotel Raphel de Paris convocada exactamente para a formalização dos acordos entre a Continental Resources Corporation (uma organização criminosa de Nova Iorque ) e a FLA, com o contrato do já trabalhado e retrabalhado, mas Dr. José de Almeida recusou-se terminante a assiná-lo. “Era um contrato”, afirmou o Dr. José de Almeida, para a escravatura e não independência. Previa a prostituição dos Açores”. Foi precisamente nesse momento em que a primeira FLA começou a afundar-se entre intrigas, desacordos e palavras em voz alta entre os restantes dirigentes aqui no arquipélago. Por outras palavras, O Dr. José de Almeida tomou de imediato a certa criminalidade norte-americana interessada mesmo na luta armada por eles financiada em troca de favores, como a construção de casinos e malas diplomáticas. O narrador nunca se esquece de falar na América como refúgio de uma hipotética república açoriana. Está enganado, e creio que está enganado.

“O mar cavado, as suas sete ondas a baterem contra o exterior da muralha e a virem quebrar no calhau rolado. Nuvens, poucas e altas, e paradas no firmamento quais penedos deles suspensos. Um ruído de mastros a baterem nas alturas. A água a saltitar, a arremeter contra o casco das embarcações. Gil estranha não ver ninguém de serviço ao cais: nem guarda nem guarita da entrada, nem vigias às mercadorias descarregadas no chão da doca, nem plantões de sentinela Fotaleza. Outra tripulação do cargueiro ancorado que espera a ordem de largada. Só a talvez porosa da tarde, com a sua luz crua, talvez pouco fiável no Outono das ilhas”.

É certo que os Estados Unidos, começaram a prestar atenção aos Açores mesmo antes do Verão Quente de 1975, mas intensificaram a sua acção quando o Partido Comunista demonstrou a sua possibilidade de tomar o Poder à maneira soviética. Foi o Embaixador Frank Carlucci que em Washington se atirou contra o maquiavélico Henry Kissinger perante o Presidente Gerald Ford, que desejava, Kissinger, um Portugal comunista como uma pretensiosa vacina contra a Itália e Espanha, que ameaçavam tomar o poder por eleições. Kissinger perdeu a jogada.

O maior especialista da presença dos norte-americanos nos Açores, o jornalista Armando Mendes da Antena/1 dos Açores e do Diário Insular, particularmente na Ilha Terceira e da Base das Lajes, escreveria no seu magistral Entre O Carro De Bois E O Avião: Uma Pequena Comunidade No Centro De Uma Rivalidade Global:

“A 31 de Maio de 1975, A CIA, num memorando dirigido a Kissinger, dá como certo que o um golpe separatista nos Açores pode estar por dias. Os receios da CIA estão muito relacionados de forma muito clara com a Base das Lajes. O memorando contabiliza as forças com que os separatistas podem contar e as forças de Lisboa, tal como como equaciona as possibilidades de o golpe ter sucesso ou ser derrotado através de forças enviadas do continente. A preocupação central da CIA, que coincide com as preocupações já manifestadas por Carlucci, é os EUA serem responsabilizados pela situação no caso de o golpe ser mal sucedido, gerando-se as possibilidades de renegociação da presença nas Lajes”.

Nem uma coisa nem outra. Hoje já não sei se temos mais queixas contra os Estados Unidos, a CIA ou a chamada União Europeia. Cada um pense por si, e com ideologia própria. O que sei de certeza é que o novo romance de João de Melo, é uma mescla de temas bem integrados (que envolve África, Lisboa e, ao centro, a luta da FLA nos Açores), que nos faz pensar, contrariar ou estar de acordo com as suas ideias. Um romance sem este poder não vale muito. Sim, livro de vozes e sombras.

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João de Melo, Livro De Vozes E Sombras, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020.

Algumas Viagens

Vamberto Freitas é uma avis rara. É um questionador. Numa terra estrangeira, por pura necessidade própria – prática e espiritual, e atrever-me-ia a dizer – ligou-se a um mundo que, tivesse querido ou não, herdou.

George Monteiro no prefácio ao meu ‘Jornal da Emigração – a L(USA)lândia reinventada’

Vamberto Freitas

Vivi quase três décadas na América do Norte, e posso dizer que muito por lá viajei, desde a grande área de Los Angeles por toda a parte. A minha corrida preferida ia dessa área até à minha família no Vale São Joaquim, a três horas e meia de carro a alta velocidade numa mítica auto-estrada chamada 99. Entretanto, num ano em que já não me lembro atravessei o Deserto Mojave até ao Grand Canyon na companhia de Onésimo T. Almeida e de outro amigo comum, que tinha vivido no Canadá e foi membro dos seus nadadores olímpicos, o que me trouxe prazeres e descontamentos durante quase toda a viagem. Parávamos a meia viagem e eles os dois mergulhavam numa piscina de hotel, e nem eu sabia nadar, limitava-me a ler jornais e a beber cerveja, disfarçando as minha inabilidades da melhor maneira que me ocorria no momento. Chegámos a Las Vegas, que ainda hoje detesto pelas suas luzes exageradas e os seus casinos mafiosos. De qualquer modo, sobrevivi, quase já sem dinheiro algum, gasto nos bares e naquelas máquinas de roubo puro. Cheguei a casa são e salvo, jurando que nunca mais, com ou sem amigos queridos como estes. Estamos nessa altura nos anos 80, e escrevi um artigo publicado em São Miguel com o título “Com Onésimo T. Almeida na lUSAlândia e em toda a parte”. Essa peça jornalística foi escrita já depois de eu ter regressado definitivamente aos Açores. Bom, no fim dos anos 80, nos Encontros Literários da Maia (hoje já míticos entre as novas gerações) , o que deu lugar a visitas suas à Califórnia, e acabariam por uma viagem de carro de uma ponta da América no Oeste até à outra na Costa Leste, onde embarquei o meu carro e seguimos de viagem até às ilhas.

“Mississippi, localizado no coração geográfico e cultural do sul, – escrevi noutra parte e há muitos anos – é o paradigma fundamental de toda a tragédia humana e histórica naquela parte do país americano. É, ao mesmo tempo, um dos mais pobres e ricos estados da União. O seu estatuto – real e psicológico – de periferia autêntica fá-lo combinar a dor do seu passado com o triunfo que daí provém – uma poderosa e talvez inigualável literatura dos nossos dias. Para além de Faulkner, é a terra de todo um grupo de escritores que também viriam a tornar-se conhecidos, alguns deles, em todo o mundo letrado – Eudora Welty, Tennessee Williams, Walker Percy, E. Spencer, Richard Wright e William Morris, só para falar dos mais famosos”.

Entre muitas outras cidades do interior e da costa atlântica fomos à Carolina do Norte prestar homenagem a Thomas Wolfe, que faleceu em 1938. Uma vez mais, visitámos a sua Casa-Museu e cemitério assim como a sua universidade de Chapel Hill. Tenho nas minhas estantes pedrinhas e terra da sua cidade, assim como uma reprodução do exterior da sua casa de nascença e um quadro com seu o perfil oferecido por uma antiga colega e amiga da Cerritos High School, onde dei aulas durante 14 anos. Thomas Wolfe, como me diria um dia o meu falecido e jubilado amigo George Monteiro, da Brown University, foi um romântico modernista, passe a contradição associada em mim para sempre a um génio da literatura, mesmo que hoje esquecido pela academia. Tem dois romances, entre toda uma numerosa, gigantesca obra, que ainda hoje me comovem: Look Homeward Angel e You Can’t Go Home Again. De resto, foram outros estados de conhecidos escritores ao longo do grande país. Visitámos Washgington, D.C. mais por obrigação de dois cidadãos americanos do que pela curiosidade. A parte da Casa Branca em que podem entrar turistas não me deixou a mínima lembrança ou saudade. A paisagem de quase todos os estados americanos é, no entanto, deslumbrante. Cheguei a ir à capital com a Adelaide a um congresso sobre literatura americana. A mesma impressão. Nada mais, sair de lá foi um alívio, rumo finalmente às casas dos nossos amigos e imigrantes e luso-americanos em Rhode Island e Massachusetts. Esta, sim, é a minha América.

Pouco depois de regressar aos Açores, viajei por vários países europeus: Holanda, Reino Unido, Irlanda, Isle of Man, Áustria, Bélgica, República Checa, Hungria e Alemanha. Para ser absolutamente honesto, já não tenho a suficiente paciência para mais museus, catedrais e arqitectura, mesmo que nunca tenha ido à Itália ou à França. Já não sinto qualquer necessidade de sofrer aeroportos gigantescos e confusos. Gostava de ver a Rússia, mas sem grandes pressas caso os deuses sejam benevolentes para comigo. Que trouxe destes países? Bom, alguma coisa, mas como um dia disse a um grande amigo quando deixei os EUA, agora não me lembro de nada que me tenha tocado profundamente. Muito mais do que cerebral, acho eu, sou emotivo, e a “frieza” humana e climática do norte pouco me diz. Também estive várias vezes no Canadá, uma delas em pleno inverno, mas gostei. Fez-me lembrar o outro lado da fronteira a sul, e aí, sim, senti-me em casa. Toronto não me disse muito, mas disseram-me com carinho e amizade os contactos privados e várias casas de gente conhecida e outras situações. No México conheci um povo maravilhoso, educado, e com uma grande curiosidade sobre o meu país. Diziam-me, naturalmente em espanhol e com admiração, és do “país dos cravos”. Foi no ano de 1975. Nunca mais os esqueço ou deixarei de ter saudades deles.

Guardei para o fim a minha viagem a Florianópolis (Santa Catarina) e a Porto Alegre, no Brasil, quando fomos participar em encontros literários e culturais denominados “Travessias”, convidados por colegas daquela parte do mundo. Foram dias e momentos que serão sempre inesquecíveis. Por isso vou reproduzir aqui esses momentos através de um texto que escrevi em 2005, intitulado “Sobre Travessias no Brasil”: Foi muito noticiada no arquipélago a ida de um grupo de escritores açorianos a esse primeiro encontro intitulado, repito. Travessias: Encontro de Escritores Atlânticos – Açores-Brasil em Florianópolis e Porto Alegre, esses berços históricos com mais de 250 anos da nossa presença naquela parte do Brasil. Não podia deixar de adiantar aqui algumas outras ideias e informação, apesar de a nossa Imprensa já ter publicado alguns artigos vindos do Brasil sobre a génese e o desenvolvimento de Travessias, que continuarão nos próximos anos, se houver a mesma boa vontade e valorização dos patrocinadores, especialmente por parte do Governo Regional dos Açores. É claro que durante muitos anos e nas mais variadas situações, toda a diáspora açoriana tem comunicado entre si, mas agora é a Cultura directa e activamente partilhada por todo o nosso povo nesse outro e vasto Triângulo Açoriano transnacional (Ilhas/Continente, Brasil e América do Norte); que começa a desenhar-se com o povoamento das Ilhas e se estende vigorosamente até aos nossos dias de e/imigração e consolidação em geografias reais e de afectos indeléveis. Pessoalmente, eu tinha a experiência de imigrante nos Estados Unidos, e conhecia a nossa presença no Brasil através de livros e dos contactos durante anos com grandes amigos e colegas. Nada me tinha preparado (nem a outros da nossa comitiva) para o que encontraríamos no Brasil “açoriano”, não só nas duas cidades do referido Encontro, mas também noutras como Pântano do Sul na Ilha de Santa Catarina), e depois Rio Pardo (cidade agro-pecuária, “a última fronteira ou bastião onde chegaram os açorianos ao continente do sul”).

Sangue do nosso sangue, o seu imaginário açoriano permaneceu ao longo de dois séculos e meio vivíssimo e na plenitude de uma memória colectiva hoje perpetuada e experienciada diariamente nos seus comportamentos, nas suas “saudades”e na monumentalidade visível das cidades que fundaram, e que outros das mais variadas nacionalidades lá fixadas reconhecem como um direito histórico por todos a ser respeitado e acarinhado. Desde de nomes de instituições de vária natureza, nomes de ruas e de edifícios até à culinária e literatura, um punhado de “casais” que nos deixaram a meados do século XVIII e seguiram o então reduzido exército da Coroa ocupariam o território e fundariam o muito que de bom e original tem desde sempre a grande Nação Brasileira.

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A última e outras partes deste texto foram tiradas de outros escritos logo depois destes dos meus andamentos no mundo, muito especiais para mim. Uma longa página deste ensaio vai ser publicada, em conjunto com outros autores, no livro Viagens das Letras Lavadas, aqui de Ponta Delgada. A foto é de Ashivlle, North Carolina, a terra de nascença de Thomas Wolfe.

Conversa com Nuno Costa Santos em Arquipélago de Escritores, 2020

Manteve sempre uma ligação às comunidades açorianas nos EUA, no Canadá e no Brasil, escrevendo sobre livros de autores descendentes de açorianos… representando hoje umas das pessoas mais competentes para escrever sobre livros de autores americanos de diferentes proveniências.

Nuno Costa Santos, Grotta 4

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Nuno Costa Santos – Disseste que durante muito tempo esqueceste Portugal. Podes falar um pouco disso, dos motivos pelos quais isso aconteceu?  

Vamberto Freitas –  Sim. Durante alguns anos Portugal tornou-se-me irrelevante. Sabia que o meu futuro todo (o que não viria a acontecer) estava na América. Portugal era então uma Ditadura vergonhosa, fascista, colonialista, intolerante e raivosa. Eu não queria ter nada a ver com esse país. A minha língua e cultura de origem nunca foram por mim desprezadas. Só que agora vivia num país que era decente, apesar de tudo o que sabemos e das suas acções mundo fora. Mas dava-nos a liberdade de contestar tudo isso sem uma polícia secreta à nossa porta e sem nunca nos proibir de ler ou pensar o que quiséssemos. Desde o primeiro ano de faculdade que me juntei à hoje pouco falada Nova Esquerda/New Left. Era acabar com a guerra no Vietname e lutar pela justiça portas adentro, pelos Direitos Civis que os afro-americanos tinham iniciado com coragem e sentido de cidadania total, beneficiando todas as outras minorias étnicas. Eu olhava para a minha antiga cédula de nascimento e já não me reconhecia em nada daquilo. A minha professora Nancy Terry Baden, já aqui referida, tentava que eu “regressasse a casa” em termos não só reais como metafóricos. Acabaria por conseguir. Como eu então escrevi: Portugal, os Açores, eram para mim apenas uma lembrança mais teórica do que real. Quando em 1972 visitei os Açores pela primeira vez depois da minha emigração, tudo então me deu mais desgosto. Uma outra professora com quem estudei política internacional sabia desta minha atitude. Um dia chamou-me à parte e ofereceu-me um livro, e disse-me que eu tinha de o ler com toda atenção: The Liberation of Guiné: Aspects of an African Revolution, escrito pelo então grande especialista britânico Basil Davidson, que conhecia a luta em África melhor do que ninguém, e concentrava-se, neste seu outro livro, em Amílcar Cabral. Dentro vinha uma dedicatória dessa mesma professora, sem meias palavras: “To Vamberto for the liberation of Guiné, Portugal and the U.S”. Guardo-o ainda hoje aqui numa das minhas estantes como um tesouro que muda vidas e destinos. Só que pouco depois ainda aconteceu o 25 de Abril de 1974, o ano em que me formei. Mudou tudo em mim. “Regressei” a casa mentalmente, e por inteiro, o meu país já não me era uma vergonha, mas as origens do meu ser, dos meus antepassados, da minha outra cidadania. Até hoje.

NCS –  Como é que resolveste voltar ao interesse por Portugal, em geral, e pelos Açores, em particular?

VF Quando me formei em 1974, a minha candidatura ao doutoramento na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tinha sido aceite. Durante esse Verão trabalhei para juntar algum dinheiro que eu não tinha, nem queria pedir mais a meus pais. Recebi um telefonema de um açoriano que eu não conhecia, mas já era director de uma nova escola do ensino oficial secundário californiano, Cerritos High School. Que queriam falar comigo. Fui lá e entrevistaram-me. Pouco tempo depois ofereceram-me um lugar de professor a tempo inteiro. Aceitei pois, e pensei: bom, vou ganhar e guardar algum dinheiro para os meus estudos finais. Quando acabei o primeiro ano, ofereceram-me mais um. Ao terceiro tive de optar – se ficasse, tinha de aceitar o estatuto de professor efectivo. Adeus doutoramento. Entretanto, eu já escrevia para jornais de língua portuguesa nas nossas comunidades, e fazia rádio com vários amigos e colegas açorianos. Em 1979 recebi um telefonema de Mário Mesquita, já director do Diário de Notícias, em Lisboa. Que me queriam como correspondente do jornal na Califórnia. Aceitei, espantado pelo facto de terem notado a minha escrita em pequenos jornais; mas fora o Onésimo que me recomendara. Comecei a ser convidado para eventos literários, sobretudo pelos míticos encontros da Maia no fim dos anos 80, aqui em São Miguel e em Lisboa. Estava divorciado, e conheci uma grande senhora de nome Adelaide Batista, que depressa passaria a ser Adelaide Freitas. Ofereceram-me cá vários empregos, mas tive a felicidade de ser convidado para Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores, e já vou no 29º ano de ensino nesta instituição, que faz parte indelével da minha identidade profissional. Sofri a minha maior tragédia, que foi perder muito cedo a minha grande companheira e esposa. Mas eu queria voltar ao meu país, agora livre e em pleno desenvolvimento. Nunca me arrependi, nunca viveria noutra parte. A América está em mim da melhor maneira: na imaginação, nos meus livros, e na maior parte da minha família que lá vive.

NCS –  Como é que sentiste o teu regresso aos Açores, para Ponta Delgada?  

VF – Como diria o outro sobre a Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Passei dias de grandes dúvidas, até me levar ao choro. Só que tinha a minha lado uma grande mulher. Renasci para a minha nova vida e comecei quase de imediato a dar aulas na Universidade dos Açores como Leitor de Língua Inglesa, o que me colocou na minha vocação de sempre, pois já tinha sido professor numa grande escola secundária californiana durante 14 anos, como já atrás referi. De imediato apareceram os amigos de sempre, e de seguida outros, que também se aproximaram com amizade e afecto. Recomecei a escrever sem demora para os jornais locais, e permaneci como colaborador literário do Diário de Notícias até 1994. Fui convidado para director da RDP/Açores (que não aceitei), e uns anos mais tarde para assessor de Carlos César para a política externa (que voltei a não aceitar). Já nessa altura me sentia completamente em casa no meu mundo intelectual e literário. O destino foi muito bom para comigo, menos nessa minha tragédia prolongada da doença da Adelaide inevitavelmente levando-a à morte. Tudo quanto faço hoje é uma espécie de homenagem à sua memória, assim como à minha nova companheira, Ana Cabral, que continua a ajudar-me a navegar os labirintos complicados de uma pequena ilha.

NCS –  Já conhecias muitos autores açorianos. Mas como é que foram constituindo um grupo, plural e diverso, capaz de se unir, como aconteceu com os célebres encontros literários da Maia?

VF – Os encontros da Maia foram decisivos. Juntavam várias gerações vindas de toda a parte. A minha preocupação literária já era então o que ainda permanece em mim: prestar homenagem aos melhores que nos antecederam, analisar e escrever sobre os da minha geração, e agora juntar os mais novos a este quase incrível movimento literário. Trazer até nós os escritores continentais e luso-descendentes é outro tema que me ocupa diariamente. José Medeiros Ferreira dizia que éramos o último “grupo” literário em Portugal, coerente mas aberto a todos os talentos.. Estamos a conseguir concretizar estes desejos ou objectivos. A geografia existe, mas as fronteiras não. Até os brasileiros e os africanos de língua portuguesa já participam nas nossas iniciativas. A “nação” literária na nossa língua é já praticamente uma realidade. Vai juntar mais escritores que por enquanto se sentem afastados ou ignorados. Não estão. Estamos todos na liberdade da aproximação e respeito mútuo, e nunca do afastamento.

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Uma outra parte da entrevista que concedi a Nuno Costa Santos na revista Grotta 4, no evento Açores Arquipélago de escritores, no qual fui homenageado. Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 19 de Junho de 2020.

Luís Filipe Sarmento

Poema/Inglês

I Am A Man Born Of Women In Verse

Titulo original em Português:”Sou Um Homem Feito De Mulheres Em Verso”. O Seu Face é aberto. Podem ler muito mais da sua escrita genial.

Este poema foi traduzido por mim.

If I say mother, I mean Italy; if I say grandmother, I mean an island,

if I say great-grandfather, I mean Galicia; if I say great-grandmother, I mean France

One great-great grandfather in Greece, another in Damascus;

One a gypsy lost in India, another in the streets of Palestine,

If I reach to the tenth grandparents, I’ll be from everywhere,

I have my origins everywhere, conceived in all religions;

I come from a pirate and surely from a whore,

from a maharajah and from a courtesan, a geisha

and from a dealer in silks; from an amazona of the steppes;

and a boyar; a vizier and a poet,

from a family of robbers in times long ago,

Australian sailors, lost in hell

for being people of the world, a parental world

then I come from various coincidences

to this reformed Lisbon; at Mouraria a cousin

another in the Quartier, a female cousin in Magreb

another in Moscow and yet another in the Congo

thousands in Brazil, my DNA is the world,

my cells are the universe.

I am a man born by women in verse.

In my veins lives a profound refugee

I ask where is the crib of my birth?

De Djaimilia Pereira de Almeida e da literatura pós-colonial

De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu único visto de residência. Da cidade de onde tinha vindo, e que em tempos se chamara Luanda, pouco restava depois do grande incêndio do tempo, continuava a ser muito longe.

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso

Vamberto Freitas

Muitos escritores portugueses, no período que se seguiu à guerra colonial de Portugal em África, têm ficcionado as suas experiências nessas frentes de combate: nomeá-los todos aqui ocuparia um bom bocado de espaço que o jornal me reserva, como deve ser. Adianto só que essa literatura vem da autoria de escritores continentais e açorianos, em que o Outro, a maior das vezes são eles próprios disfarçados em narradores naturalmente fictícios. Existem também os que ficaram nesses países de língua portuguesa, e têm dado grandes provas de si, viajando, alguns deles, de continente em continente, quase sempre publicando os seus livros também em Portugal, e recebendo com toda a justiça a melhor das recepções por parte da crítica e ensaístas. Só que Djaimilia Pereira de Almeida tem, para mim, um outro estatuto: é um autora portuguesa, que muito cedo na sua vida veio para Portugal viver com família nos arredores da nossa capital, onde cresceu e eventualmente terminaria com sucesso um doutoramento na Universidade de Lisboa, precisamente, como já referi noutro texto, em Teoria da Literatura. A partir desse momento nunca mais deixou de publicar ficção que tem como temática a sua própria experiência, e muito particularmente a representação dos que, com ela, partilham esse destino ou de “exílio” ou de uma vivência-outra neste que é o seu e nosso país. Não a tenho lido na ordem do tempo em que saem as suas obras, o que é o caso aqui. Escrevi sobre o seu primeiro romance, esse cabelo (2015), seguindo com A Visão das Plantas (2019), que fiz sair há poucos dias, e regressei no tempo, na leitura e escrita, sobre esta outra grande peça de ficção, Luanda Lisboa Paraíso (2018), que foi para mim um ano de grande dor familiar, levando-me a colocar livros e outros trabalhos sobre a minha secretária sem sequer olhá-los atentamente. O tempo passa, e vamos todos “recuperando” ou aceitando as fatalidades da vida. Tudo isto só para dizer que levou algum tempo a chegar às páginas deste livro supremo, e das mais precisas linguagens que juntam a tragédia à comédia dos nossos dias, com um humor tão subtil que nunca deixa o leitor esquecer que está de frente para a condição humana numa outra versão, a arte nunca desligada do tempo e sociedade, ou sociedades. A narradora tem como tema predominante a vida de dois imigrantes, então ilegais, um pai de nome Cartola, que traz um dos seus filhos, com o nome simbólico de Aquiles, a Lisboa para que seja tratado de um tornozelo quase sem cura ou sem assistência especializada no seu próprio país, onde vivia em Moçamedes. Deixa atrás Glória, a sua mulher acamada, e outra filha, tentando agora procurar todas as soluções ao seu alcance, incluindo o trabalho nas obras e a vivência, quase até ao fim da história, numa miserável cabana numa zona perto de Lisboa chamada Paraíso, com toda a sua carga irónica. Vivem rodeados de pobres vindos da mesma origem, até que chega o galego com pouco mais do que eles, mas que abre um pequeno bar, que se torna o único refúgio da sujeira e falta de conforto total. Bem vindos a Portugal no seu pior, e sem a mínima simpatia por aqueles que um dia lutaram ora pela independência, ora ao lado da tropa portuguesa. Racismo nunca é mencionado, mas está subjacente a toda a narrativa. Os nossos “brandos costumes” tinham a ver com a cor das pessoas, e não com o seu carácter de seriedade (relembrando aqui Martin Luther King, JR.) e trabalho explorado mas honesto para as suas vítimas.

Naturalmente que não vou contar toda a história ou trama de Luanda Lisboa Paraíso, mas ficar pela sua perfeita estrutura que junta o presente ao passado em analepses de vária ordem, que incluem cartas de a para a mulher em Angola à espera de se concretizar a promessa de ela vir um dia ter com os seus a uma cidade que lhe era mítica e produto só da sua imaginação, com casas e ruas bonitas e um modo de vida que nada tinha a ver com a guerra civil em curso no seu país natal e pobreza quase absoluta. Não, o romance não é de queixas de um lado ou outro, só que o seu realismo tresanda em metáforas de como o mundo desigual, desde os seus primórdios permanece e, mesmo que aparentemente aceite, nada indica que vai mudar. Um país que tem escritores e escritoras deste calibre não é assim tão comum. Pouco tempo depois de hostilidades que levaram milhares à morte nos dois lados, temos pelo menos uma arte literária que, no caso de uma autora como esta, nunca leva à raiva ou a acusações directas ou sequer insinuadas. Uma vez mais, não se trata da aceitação dos que sofrem a sua condição de desprotegidos vindos de longe, simplesmente a uma prosa que se assemelha a uma pintura em silêncio para que cada um chegue à sua própria interpretação. Faz-me lembrar o momento prolongado num museu de Madrid quando olhei durante muito tempo o mais famoso quadro do século passado, a Guernica de Picasso. Cada traço uma sugestão, cada expressão, mesmo da cabeça de um cavalo em agonia silenciosa, a levar-nos a entender a nossa capacidade para a crueldade e injustiça. Luanda Lisboa Paraíso não é um quadro, mas uma representação genial de sociedades em guerras de várias naturezas nos anos 80, esse tempo que descambaria na nossa vivência actual: fechados e com medo da morte incerta mas sempre próxima. Já no fim do romance acontece duas tragédias o incêndio que acaba com a cabana de Cartola, e dá lugar à construção de uma casa mais ampla e limpa, e a morte acidental de um rapazinho de nome Iuri, por mãos próprias num acidente com granadas escondidas e por ele encontradas, e o consequente suicídio de Pepe . O romance termina, após todas as desgraças e má sorte num passo narrativo que reafirma a vida e a obrigação de continuar na sua nova existência.

“”Talvez, no final, apenas pudesse esperar que os seus companheiros de vindima não vissem chorar. Nem ele nem o pai – reafirma a narradora – tinham pago esse talhão com a entrega da sua felicidade, mas com a extinção amarga a que ninguém os obrigara, rendição que não se presumiria de nenhuma fotografia antiga, que não os envergonharia a eles nem aos seus descendentes. Tinham cedido a prazeres ínfimos, a pequenos nadas que, não se fazendo notar, renascem como uma força, uma vibração. Se pelo caminho deixaram cair partes de si mesmos sem olharem para trás, também não se sujariam. Se não foram felizes, não foram tristes, nem sequer mentira”.

Luanda Lisboa Paraíso vai também ficar num cânone literário nacional em dois países, o que para uma escritora portuguesa é um feito pouco comum. Melhor dito ainda, creio, que é uma grande da literatura portuguesa. O pós-modernismo também nos legou isso: dar a voz ao outro, que não a tinham, tal como outros escritores já afirmaram vezes sem fim sobre estas relativamente novas literaturas. Djaimilia Pereira de Almeida tem ainda publicado Ajudar a cair, entre outras obras e colaboração nas mais diversas e prestigiadas revistas literárias internacionais.

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Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso, Lisboa, Companhia Das Letras/Penguin Randmon House, 2018. No meu “BorderCrossings” nno Açoriano Oriental, 12 de Junho de 2020.

A existência de uma família numa Vila claustrofóbica

Tudo começara no dia em que ilha se deparou com a visão de uma armada estrangeira, a que se seguiu um insólito aparato, o desembarque de uma avalanche de militares, camiões surpreendentes, pilhas de madeira e chapas de metal, para além de uma enormidade de caixotes de conteúdo indeterminável.

Ana Ferraz da Rosa

Vamberto Freitas

Cheguei tardiamente a este romance de Ana Ferraz Da Rosa, A Cidade Sem Nome, porque foi publicado num dos anos mais problemáticos da minha vida, em que os livros se amontoavam sem o menor ânimo da minha parte. A Cidade Sem Nome tem como tema principal a vida numa “cidade” (então Vila) açoriana onde convivem os seus habitantes com estrangeiros “ocupantes” desde a II Guerra Mundial até quase aos nossos dias. É um romance de originalidade absoluta e ironia constante que representa uma outra visão de vidas singulares, mas de imediato reconhecidas por leitores em qualquer cidade de pouca extensão em Portugal, rodeada de mar ou de terra, ou até num outro país qualquer de longa e atribulada história. Esta é a segunda obra literária da autora, tendo ela publicado Crónica Das Visitas (2011), uma série de textos que tanto funcionam como contos, e quando interligados numa leitura sequencial, tornam-se num outro romance. Ana Ferraz Da Rosa tem já uma longa história de artista plástica e dança clássica, com formação em Portugal e no estrangeiro. Formada também pelo Departamento de Ciências da Educação da Universidade dos Açores, tem ainda feito parte de vários grupos criativos que se dedicam ao teatro e à dança, inclusive tendo sido Professora no Conservatório Regional dos Açores, entre outras actividades imparáveis nas mesmas áreas. Menciono aqui parte dos factos da sua vida profissional porque a literatura vem um pouco mais tarde, mas não perdemos nada pela espera. A ironia, de que já falei começa pelo próprio título do livro, pois em parte alguma a autora assim a denomina, antes Vila da Santa, Sabemos que as suas personagens estão todas, com algumas intermitências, numa ilha açoriana para os que conhecem o nosso arquipélago, o que ficará confirmado ao longo desta peça de ficção que se trata da Praia da Vitória e da Ilha Terceira. A sua trama traz-nos quase até ao presente, são os detalhes sobre estilos de vida e do progressivo desenvolvimento que vamos tomando conta desde o início que se trata da presença dos americanos, que fez dessa defesa da Vila da Santa um sítio diferente na ilha, um tanto cosmopolita. e ainda hoje, por outras razões, continua a viver a mesma condição, tal como acontece neste romance de Ana Ferraz Da Rosa em relação ao seu fundo geográfico e humano muito próprios. Inclui ainda a miserável condição de um bairro da lata ali mesmo ao lado, com todas as características habituais, miséria de alto grau e prostituição. A literatura portuguesa saída dos Açores esteve praticamente toda ligada à sua história e sorte geográfica, até com a menção do grande abalo, sem data nunca dita pela narradora quando enfrenta esses demolidores anos que atingiram toda a ilha, nalguns espaços mais do que noutros. De resto, A Vila da Santa, antes e mesmo e depois da chegada dos contingentes (que sabemos ser os americanos depois dos ingleses) é uma de tranquilidade e liberdade de crises, com o mexerique e a inveja a dominarem as conversas externas que chegam ao conhecimento da narradora, de preocupações desusadas por reputações familiares, em que um vestido acima do joelho traria logo as más línguas ao palco, neste que caso num Café, aqui é de nome Café Vitória, indicando que era então famoso, e em que todos “sabiam” de tudo no burgo, até se tornar há poucos anos numa fina espécie de pastelaria. Desde os negócios da família de Teotónio Maldonado, que vai enriquecendo vagarosamente até comprar um carro com distinção, com a sua mulher Mercês da Assunção a dedicar-se quase exclusivamente à orientação da casa, até aos filhos com vidas meio secretas e desafiadoras, domésticas namoradeiras e outros de origens fora da ilha, A Vila da Santa é uma festa de boca para todos. Cada leitor, como já referi, vai reconhecer-se nestes vaivéns e vidas quotidianas que ora são medíocres, ora dramáticas por acontecimentos inesperados, ninguém, nenhum de nós, para além do nosso estatuto social, se safa destes destinos.

A ironia em ficção raramente vem sem igual humor ou entre um dobrar de ombros, até que chegue a próxima cena em que o riso também vem sempre lado a lado com o choro. Todo o romance está salpicado de expressões corriqueiras em inglês, a influência de americanos por todos os lados a falar alto e com frequência já meio bêbados em estabelecimentos à beira mar, que, se não têm má cheiro, manifestam as atitudes cansadas dos seus donos que aproveitam os então escudos ou dólares de tropa deslocada e longe do seu país. Aliás, aparecem vários nomes americanos, uns mais importantes de alta patente, assim como de outros menos significativos. Foi através do exemplo das americanas, mais abertas ao mundo, em todos os sentidos, que apareciam em fatos de banho só de duas peças que provocou a mesma mudança e audácia de algumas naturais da ilha no largo areal. Por outro lado, o regresso de imigrantes, como a antiga empregada Marcionílda, que se torna uma personagem maior no romance, teve um filho do patrão, e enquanto a vida da Vila da Santa progredia um pouco para todos em toda a ilha. Não acho necessário aqui dar o nome de todas as personagens que dirigem a narrativa, ou então se quedam ao lado como meros observadores e bocas de elogio, falsidades ou pura mentira. A verdade é que são raros os romances que nos dão um retrato, por assim dizer, de pequenos ou grandes aglomerados de gente e seus convidados ou invasores pacíficos, e muito menos em pé de guerra. A Vila Da Santa nem se esquece da “cidade” ao lado, que era a base americana das Lajes, fonte de emprego ou então de certa elite que se vestia luxuosamente quando convidados para os seus bailes ou outros acontecimentos em que os civis privilegiados eram admitidos. O romance depressa se torna uma crónica de fôlego sobre pobreza, desigualdade e vaidades que, como todas as vaidades, se tornam cómicas sem nunca as suas criaturas se aperceberem disso. Neste caso, estamos perante uma família digna, que tem os seus momentos de dúvidas e desgostos, tudo que oscila entre a “verdade” imposta por outros ou por si próprios, mas acaba com a vida ainda bem vivida ou, no mínimo, tolerada. De namoros escondidos à participação local em bailes noite adentro, o namoro acontece sem escândalos ou dramas de ocasião. O ciúme entre uns e outros não falta. Por outras palavras, o realismo deste romance vira um perfeito símbolo das nossas vidas cercadas por mar, gente e catástrofes inesperadas, tal como a vivemos e continuaremos a viver num futuro sempre incerto.

“Clara, – diz o narrador/a do que pensava o pai da filha de um casal de bem e que domina a história do romance, tal como Mercès – a filha que Deus lhe dera, havia de quebrar aquela assombração do isolamento que esmagava a ilha. E, porque a cada momento um novo tempo se iniciava, era imprescindível quebrar, desde logo, a maior parte dos costumes que os seus antepassados tanto tinham prezado e Teotónio Maldonado nunca ultrapassara. Se os homens se faziam ao mar, a sua filha havia de atravessar uma outra ponte que, dissessem o que dissessem, começava mesmo ali ao lado, na Cidade Sem Nome… Mercês tinha também perfeita consciência de que nenhuma destas suas determinações poderia alguma vez ser revelada, ou sequer insinuada…”.

A Cidade Sem Nome é um desses romances que veio para ficar. As escritoras açorianas não recebem a atenção que merecem dos críticos mais atentos a tudo que se publica entre nós. Injustos? Talvez não, só que nunca se libertaram de uma sociedade que permanece ainda mais ou menos patriarcal. A boa notícia literária é que essas amarras, como no caso da citação que fiz sobre Mercês, estão a ser desfeitas com certa rapidez.

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Ana Ferraz Da Rosa, A Cidade Sem Nome, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2018.

20 Anos de vida literária de Joel Neto

Só os artistas da palavra são capazes de nos levarem a outros mundos, muito para além de nomes, datas e acontecimentos colectivos oficializados e das classes dominantes que depressa esquecemos, ou até nos afastam das suas andanças, dizeres e afazeres. Nestas e noutras páginas ficcionais temos o contrário absoluto: a perpetuação da memória e um outro sentido das nossas própria vidas.

Vamberto Freitas

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As palavras que cito aqui na abertura desta homenagem ao meu amigo Joel Neto saíram do que eu então escrevi sobre um dos seus grandes romances, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, e já fazem parte de um dos meus livros de ensaios publicado o ano passado. A minha amizade com Joel vem de longe, penso que o conheci pela primeira vez num evento político na Terceira, e depois estive com ele em Lisboa, aonde passámos com outros amigos uma bonita noite no Bairro Alto, falando de literatura e das nossas comuns origens. Ele pertence “à geração seguinte” como já referi várias vezes noutros escritos, vem convivendo com a minha, o que me traz imensa alegria, uma satisfação muito profunda. Ele nasceu em Angra do Heroísmo em 1974, o ano que os da minha idade viveram com uma desusada euforia sócio-política porque era a nossa libertação. Eu vivia nos EUA, foi o ano que me formei e comecei a dar aulas numa escola do ensino secundário no sul da Califórnia, mas acompanhava a par e par passo tudo quanto se passava neste lado do Atlântico, a nossa mãe-pátria finalmente libertada do jugo de ditadores e de um partido único. Durante esse tempo eu já escrevia para jornais das nossas comunidades no Pacífico e na Costa Leste, e depressa entrava nas páginas dos periódicos portugueses no Continente e aqui nos Açores. Comecei a sentir-me parte de todo um grupo literário que dava continuidade aos nossos antecessores, que vinham de longe, muito especialmente aos modernistas em várias das nossas ilhas, desde o Faial e Flores até à Ilha Terceira e a São Miguel. Não vou mencionar nomes neste momento porque são muitos e muitas, alguns e algumas das quais conseguindo ultrapassar os nossos largos horizontes e chegar a outros leitores no outro lado do mar. De qualquer modo, Joel Neto passou a ser um dos nossos mais talentosos continuadores, o que eu durante algum tempo suspeitava não ir acontecer numa época dominada por meios de comunicação e maior escolha de profissões. Uma vez mais, não menciono mais nomes desse grupo, só quero afirmar, sem quaisquer reservas, que alguns deles nos deixam orgulhosos e nos deixam descansar sabendo que quase todos eles estão a dar continuidade ao nosso trabalho. Trata-se da memória indelével de um lugar como o nosso, de um tempo, que tanto nosso como deles, cada geração tendo o dever de deixar a sua visão e a história do seu destino e sociedade. Joel Neto foi estudar para Lisboa, mas viria a decidir que a universidade não era para ele, mas sim a escrita em quase todos os seus géneros, desde a crónica, que continua a cultivar com desusada alteza, rádio e televisão, dramaturgia e enfaticamente o romance de grande fôlego que ombreia com os melhores do grupo a que pertenço em termos de idade. A sua bibliografia é já tão extensa que encheria todo o espaço que a revista da MiratecArts tem a delicadeza de oferecer a outros colaboradores.

A nossa amizade mantêm-se inabalável até hoje, apesar de discordâncias pontuais que não se devem a questões literárias, mas sim a personalidades diferentes e naturais, que rapidamente são ultrapassados. Tenho quase a certeza que outros intervenientes nestas páginas vão falar especificamente de grande parte da sua obra, mas eu fico-me pelo que nos aproximou desde há muitos anos. Como já mencionei também noutros espaços, só leio os livros de que gosto, pois a vida é a curta demais para mal-gastar o tempo com o resto. Por certo que durante três décadas obrigatoriamente dividido entre as aulas na Universidade dos Açores nunca me foi possível chegar a todos os bons escritores dos Açores, ou de outros em geografias distantes, como a América e o Brasil, que fazem parte de mim com as suas vivências ou opções de vida em quadrantes diferentes, literatura ou não. No caso do Joel posso dizer com toda a certeza que recenseei quase todas as suas obras de ficção, e apresentei-as publicamente, uma na livraria Ler Devagar, então situada no Bairro Alto, e as restantes sobretudo na Livraria Solmar. No dia em que a Adelaide faleceu eu estava responsável pelo lançamento do romance Meridiano 28, e Joel, na sua decência e aconchego a nós os dois, queria cancelar a sessão. Felizmente optaram por não deixar passar em branco a minha dor, e dedicaram toda a sessão à memória daquela mulher que também muito o admirava e respeitava. Só me restou agradecer-lhes comovidamente. Joel viria mais tarde a ser reconhecido tanto nos Açores como em Lisboa por uma obra de inusitado vigor, resultado não só do seu talento, mas mais ainda pela sua habilidade artística na manipulacão (num sentido escrupuloso) da nossa língua e das suas próprias linguagens absolutamente originais. Todos os seus romances evidenciam este facto, mas foi o volumoso romance Arquipélago que, em primeiro lugar, o guindou em grandeza para junto dos nossos melhores escritores de todas as gerações antecessoras. Com A Vida no Campo, que junta as suas crónicas/ensaios do Diário de Notícias, receberia o Grande Prémio APE de Literatura Biográfica. Quase logo a seguir, foi tornado numa peça de teatro encenada por Luísa Pinto, “e protagonizou um documentário de rádio da autoria de Fernando Alves”. Nunca lhe disse nada, mas na minha casa senti a felicidade total pelo sucesso do meu amigo. Tinha sido eu a apresentar esse livro aqui em São Miguel, e depois na ilha do Pico durante uma das suas festas, em que convivi uns poucos dias de contentamento com ele e com Duarte Freitas um pouco por toda essa ilha de pedras negras e a beleza dos seus mistérios e montanha. Noutra ocasião, ele foi o primeiro organizador de um painel de famosos escritores vindos de Lisboa e arredores do Outono Vivo, festival anual das artes na Praia da Vitória. Nunca mais esquecerei esse gesto de pura generosidade por parte do Joel, e que levaria a um segundo convite o ano passado. Eu estava convencido que a minha ilha de nascimento nunca mais se tinha lembrado de mim para este e semelhantes eventos, mas Joel desfaria, com respeito e afecto, essa minha impressão.

De resto, Joel Neto tem-me apanhando ultimamente em tempos complicados, mas nunca desatentos. Os seus livros estão todos em destaque nas minhas estantes, e há dois que, mesmo tardiamente, vão receber toda a minha atenção. Trata-se do 2º volume de A Vida no Campo e de um outro livro, para mim totalmente inesperado, Muito mais do que saudade; Do Que Falamos Quando Falamos De Regresso?, em co-autoria com Catarina Ferreira de Almeida. É uma edição luxuosa, de capa dura e cheia de fotografias a cores de imigrantes e lugares nos Estados Unidos, Canadá e noutras paragens, com textos escritores pelos autores, e sobretudo com entrevistas com as mais diversas pessoas e sua atitude perante uma possível permanente volta, ou não, a casa aqui nas ilhas. Vem escrito por inteiro em Português e em Inglês, para que chegue, suponho, às gerações luso-descendentes ou a outros interessados nestes temas e gentes.

Joel Neto merece todas estas homenagens, tendo ainda muito para dar à grande literatura portuguesa que agora parte dos Açores. Caso raro, a certa altura e depois de construir toda uma vida como escritor em Lisboa decide, com a sua companheira Catarina Ferreira de Almeida, regressar à sua casa ancestral na freguesia Terra Chã (Terceira). O escritor Nuno Costa Santos, nascido em São Miguel, e do mesmo modo com longa residência em Lisboa, fez o mesmo quando optou por uma mudança para Angra do Heroísmo. Os que permanecem na nossa capital, quase todos eles, estão também ligados intimamente às ilhas e ao mundo da literatura e escrita-outra. Mais um sinal que Joel Neto representa toda uma geração, que cá dentro e lá fora que têm sempre os Açores na alma, tanto em termos emotivos como intelectuais.

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Revista MiratecArts 23, Direcção de Terry Costa, Madalena, 29 de Maio, 2020. Publicado também no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 29 de Maio de 2020.

 

Quando um pirata se torna cuidador de flores

Celestino não estava senil e talvez tivesse um coração escondido atrás das tatuagens. Fosse o mar como as florinhas sem boca: um caixão sem ouvidos, cego, surdo e mudo.

Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas

Vamberto Freitas

Li e escrevi sobre o primeiro o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo (2015), depois as circunstâncias não me permitiram abrir os seus livros seguintes, alguns deles na estante à espera da minha leitura, Ajudar a cair, Luanda, Lisboa, Paraíso, que recebeu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro e o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz em 2019-2020, e Pintado com o pé. Os meus dias agora são outros, e mesmo com certo atraso não podia deixar de ler página a página o seu mais recente romance A Visão das Plantas, publicado já alguns meses. Nada disso importa, pois vai permanecer entre nós como uma peça de ficção que veio para perdurar, tornar-se parte do principal cânone da nossa literatura modernista, ou pós-modernista, esta classificação já um tanto fora de moda, mas que nos trouxe para à ribalta escritores e livros que antes eram ignorados pela crítica e ensaístas em geral. Tem como um dos seus postulados o revisionismo histórico de acontecimentos e figuras, exactamente o que acontece com esta autora e a parte da sua obra que conheço e aprecio de modo muito acentuado como se ainda vivesse e estudasse numa América cujo fulgor nas suas faculdades de línguas mais pareciam laboratórios da teoria da literatura do que espaços para estudos das próprias obras criativas, e ensaísmo como que procurando um lugar de igualdade aos melhores escritores de todos os tempos, e particularmente dos que na nossa geração produziam as mais variadas obras em todos os géneros e formas. Que Djaimilia Pereira de Almeida, doutorada precisamente em estudos teóricos da literatura, se tornou uma das nossas mais importantes autoras vem prová-lo este seu A Visão das Plantas, todo ele escrito por uma mulher de certo modo culturalmente híbrida (nasceu em Angola, mas veio para cá ainda menina de tenra idade), perfeitamente consciente da complexidade humana não da História como muito especialmente de cada uma das suas personagens inventadas ou reinventadas nas suas páginas. Lemos a sua prosa como quem lê um longo poema, tal o poder de cada palavra e frase, tal a contundência das suas histórias e das geografias humanas onde se desenrola o quotidiano de cada um ou da comunidade no seu todo. O seu protagonista neste livro tem o nome de Celestino e o seu tempo foi o século XIX, quando se tornou um pirata e criminoso envolvido em primeiro plano na captação e venda de escravos africanos no Brasil. A sua crueldade é nesses tempos quase indescritível, tanto mata uma menina apanhado por ele na selva, como, depois de uma revolta de escravos a bordo do navio de que fazia parte, cobre centenas de escravos sobreviventes no porão com cal, fechando todos as possibilidades de escape até à morte colectiva do grupo de seres humanos cujo destino não seria muito melhor se tivesse chegado ao novo mundo. Corta gargantas, as palavras são suas e a memória viva dos seus crimes, como uma dona de casa até aos nossos dias mata uma galinha. Vive, depois de tudo isso, numa casa ancestral numa aldeia algures nos arredores do Porto em aparente paz perfeita, cultivando um jardim das mais variadas flores e plantas, amedrontando crianças e outros pela sua aparência primitiva e silêncio desdenhoso ante tudo e todos. No entanto, nem todos o abandonam até ao dia da sua morte calculada e prevista pelos leitores do romance.

A ausência de uma consciência magoada por Celestino faz deste romance um acto de escrita desusado, mas creio que justamente em consonância com a mente ou crença de um criminoso na reforma e de regresso a casa, e a outros tempos. Poderemos estar ante um romance ironicamente nietzsheano, um defensor do chamado “super-homem” que nunca foi sujeito à noção das acções em que se envolveu durante uma vida, ou do “príncipe” que justificava o corte de gargantas em nome do Poder. A verdade é que A Visão das Plantas parece um falso acto de redenção quando o protagonista, pela visão também irónica do narrador/a se dedica ao cultivo e respeito pela Natureza, que é sempre indiferente aos feitos dos homens e das mulheres. Celestino entra na igreja local como quem entra num teatro onde tudo que acontece é um faz-de-conta, sem a mínima intenção de perdão pelo seu passado assassino. Quase todos se afastam dele, mas não o hostilizam, como se a colonização lusa tivesse sido um empreendimento que tudo justificava, e nalguns casos uma guerra sagrada contra todos os outros povos que subjugavam por qualquer método essencial, tudo o que nos traria riqueza de imediato esbanjada por boa parte da Europa. Celestino é visitado pelo padre Alfredo e um médico local, mas as palavras de um ou do outro nunca abordavam o seu passado por ele próprio revelado, só que pressentiam a contradição de um ser humano com necessidade de arrependimento ou cura. Celestino espera pela morte com a mesma calma com que esperamos pelo correio ou outro visitante sem significado decisivo. A autora escreve apenas sobre a natureza humana? Não estou em crer, e ainda mais quando se trata de quem deixou atrás todo um país que foi o seu, e conhece como poucos a tragédia da nossa geração. Nem sequer a sua biografia mista entre negros e brancos justificaria isso. Há nestas páginas, parece-me, algo muito diferente. Um dia perguntaram ao grande autor negro James Baldwin, que a meados do século passado abandonou os Estados Unidos rumo à França, onde viria a falecer há alguns anos, pelo racismo e homofobia que sofria em Nova Iorque, se mantinha ódio aos brancos, que nunca nunca deixava de descrever as suas piores atitudes e até violência. Era chamado com alguma frequência à casa Branca por John F. Kennedy para o aconselhar sobre política e Direitos Civis. Baldwin escreveria eventualmente num ensaio que “o ódio era um fardo pesado demais para carregar na sua pessoa uma vida inteira”. Djaimilia Pereira de Almeida escreve, na minha leitura, algo semelhante. O passado não pode nem deve ser esquecido nunca, mas a nossa convivência, em qualquer época, não pode nem deve distanciar a Humanidade no seu todo.

Na sua cabeça – escreve a narradora – tiniam as obrigações da manhã, a melodia branda das tarefas das flores, que não o queriam deixar morrer depressa. As idades passando, até os meninos que via pela rua iam ficando outros. Os casados passeando de mãos dadas, a terra comendo as sementes que lhes jogava, e aquele relógio, o mais acertado de todos, batendo as horas certas, engolindo os minutos, as horas, os segundos, a água: relógio das plantas, mão estendida, sem tempo para sentenças”.

Cada personagem, pelo menos nos grandes romances, têm e vivem o seu tempo histórico. A vida aventureira e assassina, não esqueçamos, tinha outros tantos que falavam, lutavam e escreviam sobre a selvajaria europeia não em África como no Brasil e em outras terras “descobertas”. A Visão das Plantas é inspirado profundamente na ficção de Os Pescadores, o romance clássico de Raul Brandão, mas em que a autora parte dessas páginas e liberta a sua imaginação para o desenvolvimento do seu próprio romance. Toda a grande literatura, como sabemos, é esse diálogo com a sociedade e com a história ou as grandes obras literárias do passado. Boa parte da Europa esteve envolvida nestes crimes, alguns deles casa adentro, e perante os países vizinhos, também como se sabe. O esquecimento é o nosso pior inimigo, tanto por parte das vítimas como parte dos seus carrascos. Portugal tem hoje a fortuna de ter aprendido a conviver com muitos povos, em terra e no mar, com os que eram mortos em pedaços, deixados aos abutres, atirados às águas oceânicas, à sua decomposição total, sem os rituais da dignidade devida a cada ser humano. A arte, a grande arte, para lembrar aqui outro gigante da língua portuguesa recentemente falecido no Brasil, tem essa outra função: reavivar a nossa memória e ver-nos através do Outro. Sem desculpa para o protagonista deste romance, é isso mesmo que consegue em a Visão das Plantas. Djaimilia Pereira de Almeida pertence a um novo grupo de escritores portugueses que revêm o nosso passado. Afinal, a recordação literária da nossa pirataria assassina é uma outra espécie de redenção, e, de certo modo, um pedido de desculpa, por assim dizer, a todos os que oprimimos em vários continentes e ilhas.

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Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2019. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 22 de Maio de 2020.