A Nossa Existência Entre O Caos E A Racionalidade

Que coisas sabemos/Sem saber, que texto invisível lemos antes/ De vir para a vida às escondidas de nós mesmos?

Alexandre Borges, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio

Alexandre Borges não precisa aqui de qualquer introdução, para além de relembrar aos leitores que ele nasceu em Angra do Heroísmo, e quando foi para Lisboa estudar, nunca esqueceria os Açores como porto de abrigo e emoções fortes. Tem já uma obra substancial em vários géneros, entre o seu trabalho de guionista para a televisão nacional, e é actualmente colaborador do Obervador, depois de ter escrito como crítico noutros jornais lisboetas. Pertence a uma nova geração de escritores açorianos que nunca deixou que Lisboa os fizesse esquecer as suas ilhas. São defensores acérrimos da nossa cultura com as suas características próprias adentro da Portugalidade, praticamente todas as suas obras fazem chamamentos constantes à sua terra natal, para além de regressos pessoais frequentes às suas ilhas de nascença. De resto, são universais, no melhor sentido da palavra, e tanto escrevem sobre nós como partem para outras realidades vividas ou imaginadas. Têm, todos eles a minha geração como referência, tal como nós tivemos os grandes nomes que nos antecederam desde Antero Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Na literatura e nas suas palavras por outros meios dão-nos a continuidade que esperamos sempre dos que nos seguem, e reafirmam assim desse modo o nosso contributo a toda a literatura de língua portuguesa, incluindo a que vem saindo da nossa Diáspora espalhada pelo mundo.

Neste seu Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio, o seu segundo livro de poesia, demonstra uma vez mais a sua ligação à vida de outros por ele reconstituída, ou ficcionada, tendo com centro temático e corrente de pensamento destes poemas o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), de quando em quando voltando aos Açores e ao seu passado em família. Interpreto o título deste magnífico livro como uma tirada filosófica e empírica sobre as vidas que levamos e a agonia dos nossos dias, precisamente a incerteza do que significamos num abalado mundo, e o comboio que anda sem directo ou em curvas mas sem deixar de chegar ao seu destino. É no “intervalo” entre uma experiência e outra que podemos tentar decidir o rumo das nossas vidas, e tentar ainda que a “razão” kantiana se sobreponha a tudo e todos que nos rodeiam, a geografia das terras continentais sendo nada mais que a expansão dos que iniciaram a vida em territórios como os Açores, que aliás estão aqui bem presentes. Quase todos os poemas oscilam entre o drama que é o saber intuir a nossa “realidade” com a ignorância pasmada que passa ao nosso lado, e o humor leva-nos sempre ao sorriso de quem sabe que nada mudará na condição humana. O poeta contrapõe a Kant, que levava uma vida tão organizada que, diz-se, os seus vizinhos acertavam o relógio quando ele passava pelas suas casas a passear o cão, enquanto o seu criado ou mordomo da casa, eis-militar aqui de nome Lampe, andava a passo de tropa prussiana mesmo dentro da casa, no silêncio habitual de quem não tem uma única palavra a dizer. O livro vai desde esse passado ao presente, cada poema abordando magistralmente momentos recordados e um presente, uma vez mais, de desilusão mas nunca mata o riso de estar vivo e inteiramente consciente da sua sorte, gostos e desgostos, nem sequer a nossa emigração é esquecida de modo crítico mas de imediato reconhecido por quem abandonou o seu “terreno do coração” em busca de uma outra vida qualquer, como no poema “This Is Not Américo”. Por outras palavras, trata o exílio interior de todos no seu próprio país, tal como os dele saíram, aludindo directamente a outros grandes poetas portugueses, como em “Também O Sino Da Minha Aldeia”.

O sino da minha aldeia

Continua a bater

certo ou errado

o que se acabe de fazer.

Dá as seis

Dá as sete

Não importa a que horas me deite

Nem com quem

Ou sequer se lá estou

Podes voltar a casa

depois da volta ao mundo,

Que lhe importa se é o fim de tudo

Ou segunda-feira?

O sino da minha aldeia continua a bater

da mesma maneira.

Num outro livro que acabei de ler e em que Alexandre Borges faz parte da sua coordenação, uma das pessoas, a pedido dos protagonistas de um programa que passou na nossa televisão pública, define o que acha ser-se açoriano: é “o que leva”. Poder-se-ia interpretar este sentimento ou ideia de duas maneiras: o que tem de lutar em toda a parte, ou então o transporta consigo o que é a sua cultura, o que leva consigo toda história pessoal e colectiva. Prefiro esta segunda definição de grande originalidade. Do mesmo modo, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio devolve-nos o poder da grande poesia em linguagens ou versos a universalidade da pequenez territorial à vivência nas maiores metrópoles do Mundo, e aqui Lisboa é a que nos fica mais perto. O mundo é todo feito de “ilhas” cujo existencialismo aflige ou deixa saudades a uns e outros, a “força das raízes” é muito profunda, mas nunca deixamos de olhar para o horizonte e imaginar o que está no outro lado. A poesia de Alexandre Borges é esse gesto: Lisboa tem o Tejo, que nas palavras de um poeta cabo-verdiano, “leva ao mar e o mar à minha terra”. A poesia de que falamos, a de Alexandre Borges é simultaneamente narrativa e confessional, cruza tempos idos com o agora, lamenta e ri, chama a si o que cada geração enfrenta no caos ou cultiva a racionalidade de que Kant pensou e escreveu numa pequena cidade alemã, o contraste absoluto do que o seu próprio país viveria muitas décadas após a sua morte. Num destes poemas, “O Corte De Cabelo De Kant”, fala ou deixa correr a imaginação sobre a morte do grande filósofo que seria o fundador da nossa postura vivencial que perdura entre todos que absorvem as ideias antes impensáveis, e mudam o mundo e o mundo as ideias: “Imagina/coisa lamentável/ Uma coisa ridícula/De cabeça rapada/ E diziam que nunca tinha havido homem maior/ Nem eles visto morto mais seco”. Segue-se uma estrofe em que poeta exerce, como já referi, a seriedade com o mais fino humor: “Ao menos, deixem-me escolher/ Ficar ao pé talvez dum busto de Cervantes/E da máquina de pastilhas”. O poeta não viveu a ditadura política do nosso país (nasceu pouco de pois do avassalador terramoto que quase ia destruindo toda sua cidade e outros locais da Terceira), mas cresceu e viveu nas décadas do Nada que se mantêm até hoje, ouvindo música de que não gostava, fantasiando mulheres e outras andanças, já descrente em tudo que o rodeou ou rodeia. A grande literatura nasce sempre dessa tendência para introspecção, sátira, raiva e, sim, o tal humor que marcam boa parte das melhores obras portugueses, e muito acentuadamente a que parte dos autores açorianos desde sempre. Vida e morte, visto tudo com a bonomia de autor que olha para si, e recusa recolher-se a uma existência não-pensada, recusa ficar-se pelo bater do sino da sua aldeia, ou uma vida regimentada mesmo que produza uma obra imortal como a de Kant. Até com isso dá um riso entre a admiração e o desprezo. Diz ele que não acredita em deuses ou outros fantasmas da nossa tradição, o estado da humanidade sempre entre as violências físicas e mentais que as sociedades impõem a todos para melhor os aprisionar no seu caos e nos intervalos da caminhada própria ou a sós durante toda sua vida. As suas medusas, declara num outro poema, são águas-vivas “que são 99º água/ que não têm ao menos sistema digestivo/ nem excretor, nem deus, nem alma, têm a vida eterna”.

Falta só dizer que estes poemas de Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio é também um supremo acto de ironia bem disposta, como quase sempre na sua obra. Tenho na minha estante alguns dos seus livros de prosa, com especial destaque para Histórias Secretas De Reis Portugueses, que já vai na 5ª edição. Creio que virão outros tantos nos anos que se seguem. Este leitor agradece-lhe de nunca se esquecer do regresso ao abrigo açoriano, e depois a vigorosa escrita que segue a esses dias fora das suas lides profissionais em Lisboa. Tanto faz, o seu acto literário vai sempre dar conta do que mexe consigo e com muitos outros à sua volta.

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Alexandre Borges, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio, Ponta Delgada, Edição de Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 5 de Março, 2021.

Homenagem a Eduíno: Outros Momentos

Vamberto Freitas

Prestar homenagem a Eduíno de Jesus é escrever palavras breves sobre um mítico escritor e poeta dos Açores, desde há muito residente no Continente como Professor de vários ciclos, tendo concluído a sua carreira na Universidade de Lisboa. Não vou escrever sobre o livro de poesia suprema consagrada pele Imprensa Nacional, sinal do seu estatuto canónico na literatura portuguesa. Para além disso, foi um dos grandes críticos das artes no nosso país, e sem deixar de teorizar a Literatura Açoriana. Alguns já escreveram sobre tudo isso, e não me vou colocar ao lado deles, entre muitos outros nomes o de Onésimo Teotónio Almeida. Aliás, tenho aqui ao meu lado Eduíno de Jesus: A Ca(U)sa Dos Açores Em Lisboa: homenagem de amigos e admiradores, em que ele devotou generosamente a sua actividade e dinamização durante quase toda uma vida, para onde foi ainda muito novo. Tenho o orgulho de ser aí mencionado em várias páginas. É do amigo e mentor que queria falar aqui. É um privilégio que muito prezo. Há muitos anos que não vou a sua casa, mas os momentos que com ele e outros passei lá são-me inesquecíveis. Primeiro, nunca tinha visto uma casa com tanto livros, em todas as salas e até na casa de banho. Lembro-me de tantos livros que até os interruptores estavam rodeados deles. Depois sentávamos na sala de jantar e ele trazia-nos um caderno escrito à mão com o nome de todos os vinhos que tinha em casa, e cada um escolheu o seu. Como eu não entendia ou conhecia nada daquelas garrafas, apontava para um, ele trazia e era sempre bom, do melhor. Gostava muito de carros, e as poucas voltas que dei com ele notei algo estranho: conduzia sempre com luvas pretas. Eduíno, para além de ser esse grande escritor e pensador que já mencionei tinha essa outra “excentricidade”. Tenho outros dois casos cómicos com este querido amigo. O Onésimo tinha-lhes sugerido que me convidassem para os já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, em 1988-1991, que foram organizados por Afonso Quental (proprietário do Solar de Lalém e Bar Balada), por Daniel de Sá e Carlos Cordeiro (estes dois já falecidos) e mais tarde Urbano Bettencourt. Num desses encontros, após as nossas intervenções, sentamos-nos numa mesa, e eu estava tão eufórico por estar em presença deles todos, tomei uns copos à mais (como eles…) e à nossa frente um cinzeiro cheio de beatas. De quando em quando eu ia lá com a mão, mas não pegava em nada. A certa altura confundi tudo com amendoins, e dessa vez enchei a mão e meti na boca. Eles já tinham observado com riso na cara o meu engano. Quando aconteceu, cuspi tudo por cima da mesa e por cima deles. Foi uma festa. Por último, num desses encontros levaram-nos num autocarro até às Furnas para o almoço. Estava uma manhã linda, solarenga, com uma das paisagens mais lindas do mundo durante todo percurso. Sentei-me na parte de trás com Eduíno. Baixámos os estores para não sermos incomodados pelo sol, e já conhecíamos toda aquela natureza nas pontas dos dedos. Só falámos em literatura do mundo. De repente o Onésimo deu por isso e veio ter connosco com palavras, bom, mais ou menos surpreendido e algo “irrepreensíveis” com a sua gargalhada de amizade. Creio que nos disse “vocês não têm solução” quando chega a literatura. Continuámos na nossa conversa. Depois o almoço foi maravilhoso. Momentos? Belos, inesquecíveis.

Obrigado, Eduíno, por tudo.

Publicado hoje, 17de Janeiro de 2021, no “Diário dos Açores” numa homenagem ao grande escritor e poeta Eduíno de Jesus no seu no seu 93º aniversário.

A poesia da proximidade e da intimidade

Sou ilha de lava/Nascida do fogo/E do caos telúrico/Que o tempo serenou/A desordem deu lugar à quietude/A escuridão à luz/E despontei verde/ Enlaçada de azuis.

Aníbal C. Pires, Esperança VelhaEOutros Poemas

Vamberto Fretias

Já apresentei e escrevi sobre dois livros de Aníbal C. Pires: a poesia intitulada O Outro Lado, (2014) e a prosa ensaística de Toada do Mar e da Terra: Volume I (2017). Fiz sempre questão de não falar da sua intervenção política e partidária, ou da sua importante actividade cívica na nossa região, onde vive há muitos anos e para sempre estará ligado. Nunca escrevi sobre esta a minha atitude por uma ou duas razões. Muitos dos escritores do mundo escrevem a partir não das suas opções políticas, mas sim de como as palavras se aplicam a todos, ou pelo menos aos seus eventuais leitores, e não o seu lugar no partidarismo que actualmente corrói boa parte das nossas sociedades. O autor aqui em questão nunca utilizou a sua obra para advogar ou convencer seja quem for para tomar qualquer atitude ideológica. Para ele, a literatura nunca deixou de estar ligada em geral à sociedade onde vive e actua, como cidadão consciente da nossa condição, da nossa satisfação ou desgosto, mas nunca manifestou qualquer interesse em mudar as nossas posições ideológicas. Só lhe tem ficado bem, e o tem marcado como um escritor autêntico que cultiva a arte sem segundas intenções, dirigindo-se constantemente aos mais variados leitores. A literatura poderá ser é um acto de passar mensagens, também é verdade, mas sem nunca agredir os que com ele não concordam com a sua vida de militante deste ou de qualquer outro partido político. A sua obra foi sempre de aproximação ao outro, num gesto democrático, ou, melhor dito, num gesto de representar em cada poema ou prosa a sua uma sociedade pluralista, desde o Continente até às ilhas, desde as nossas comunidades ao resto do mundo. A sua escrita, em qualquer dos seus dois géneros preferidos, foi sempre uma de descoberta e aprendizagem. Oferece-nos a beleza de toda a sua obra, que já é substancial. Isto é uma das marcas de um grande escritor, de um pensador, de quem respeita sobretudo a arte literária como representação de toda uma sociedade. Tanto leio atentamente os seus livros, como falo com ele frequentemente em momentos de trocas de opinião, ou ainda mais de apreciação à obra de outros aqui por perto, como à obra dos que estão mais longe, mas que nos falam directamente da nossa trágica condição humana.

Uma ressalva essencial: esta poesia de Esperança VelhaEOutros Poemas diz-nos tudo sobre o seu autor: as sua opiniões menos positivas nunca deixam de passar a sua alegria de vida, do seu apego aos que ele valoriza (falo de escritores, necessariamente), nunca deixa que ele exprima a sua “esperança” num futuro mais justo e ajustado à vontade de vida da maioria dos que partilham com nós todos uma rua ou o mundo inteiro. Digo tudo isto, mas raramente nos nossos encontros falamos de política: antes de família, amigos e, claro está, dos que preferimos longe de nós. Esta é uma poesia que junta o seu passado além-mar com a sua gente numa ilha açoriana. É uma poesia que celebra os mais próximos e, como já disse, os mais de longe. Quando me fala na sua visita ou visitas à América quase me parece um colega daqueles lados, onde vivi 27 anos e tenho praticamente toda minha família imediata na Califórnia. A sua escrita nunca esquece nada disto. Ter como amigo um escritor deste calibre e um “companheiro de viagem” é como ter o melhor de tudo, como se fosse um irmão a escrever-me cartas quase todos dias ou de quando em quando, e depois dar-lhe um lugar destacado na minha longa estante.

Esperança Velha EOutros Poemas traz ilustrações maravilhosas de Ana Rita Afonso. Não é preciso ser um especialista em artes plásticas para adorar nestas páginas os seus quadros. Também não sei ler música, mas sei do prazer quando ouço a 5ª ou 9º sinfonias de um Beethoven, ou de qualquer outro grande compositor antigo ou moderno, assim como olhar um quadro de Jackson Pollock, à procura de um sentido, mesmo que nunca o encontro, os meus olhos fixos perante a genialidade de uma tela mais do que singular. Ana Rita Afonso inclui neste novo livro de Aníbal C. Pires as mais variadas representações de mulheres açorianas do antigamente até ao abstracto de cores e formas que complementam toda esta poesia, o local conhecido transformando-se por vezes no cosmopolitismo que dependerá da sensibilidade de quem as olhar. Para mim, sublime. Citação do texto “Tocar O Mundo”, inserido numa página brilhante deste livro: “A mostra que assumiu a designação ‘Tocar o Mundo’, apropriando do título do texto que a Renata Correia Botelho escreveu para o efeito, não se limitou apenas à contemplação visual e sensações e interpretações que, só por si, são induzidas no observador mais ou menos atento, mais ou menos conhecedor das artes visuais e plásticas”. A poesia de Aníbla C. Pires, repito, é de total aproximação a todos que fazem parte dos dos seus mundos imediatos, e a todos os outros, por referência directa ou indirecta, que partilham o tudo quanto é existência e rituais dos mais longínquos povos.

Do poema “Caminhantes”:

A cada passo

A cada curva

O viajante

Ganha alento

E caminha

O Andarilho

Traçou destino

Não é romeiro

Nem peregrino

Anda

O caminho

Da beira-mar

O caminho

Da beira terra

Caminha

Nas margens

Da ilha

E do sonho

De outras ilha

Digamos agora que os poetas portugueses dos Açores têm o seu imaginário muito próprio, com as suas imagens, metáforas e linguagens que os distinguem, mas de modo especial, nem superior nem inferior, a quaisquer outros escritores e poetas de língua portuguesa, que tem as suas pátrias em variados continentes e arquipélagos. Não, não vou mencionar um certo rótulo literário que parece assustar muita gente, quando não reacções hostis. Agora vou ser mau, sobre uma ignorância primária e complexada. Já não lhes presto a mínima atenção ou contemplação. As ilhas açorianas sempre deram parte do melhor da literatura lusíada. Não vale a pena falar mais nisso em termos específicos. Aníbal C. Pires ocupa entre nós na literatura um lugar muito especial, pelas suas origens e apego às ilhas, pela sua autenticidade artística, de que falava noutros contextos e língua, o genial ensaísta e romancista assumidamente judeu-americano Lionel Trilling, e que redefiniu a América de todos nós de todos e dos outros que ainda no seu tempo ou não tinham voz própria na literatura, ou então eram quase completamente ignoradas na academia e por muitos leitores. Em Portugal, parece proibido ou de mau gosto dizer coisas semelhantes. Que fiquem bem. Por minha parte tento sair sempre do que estamos habituados, e olhar as letras dos outros com olhos e hermenêutica pessoais. Quando olhamos as mesmas paisagens, gentes e as suas mundividência, vemo-las ou as entendemos de modos diferentes, mas no caso da literatura que as deve transfigurar, é assim que creio acrescentarmos, em cada interpretação, elevamos as palavras ao seu máximo. Cada bom escritor ou poeta, por mais íntimos que sejam as suas narrativas ou versos, acaba por devolver-os um pouco de nós. É isso que faz da boa literatura um acto simultaneamente localizado numa determinada geografia e universal, para além da língua em que está escrita, para além da cultura que a enforma. Aníbal C. Pires está inteiramente dentro ou pertencente a essa categoria dos artistas da palavra.

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Aníbal C. Pires, Esperança Velha E Outros Poemas (capa e ilustrações Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições. 2020. Parte deste texto foi originalmente publicado como de prefácio a este livro. Publicado em versão mais extensa na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 18 de Dezembro, 2020.

Quando se regressa a casa sem nunca a ter deixado

Cinquenta e seis anos desprovido disto, mas agora não consigo desligar-me,/as minhas raízes crescem mais profundamente em cada visita,/a saudade penetra-me o coração.

Scott Edward Anderson, Azorean Suite: Suite Açoriana: Um poema do momento.

Vamberto Freitas

Este é um poema que sai felizmente em de forma livro, com a versão original em Inglês, e a tradução integral feita por José Francisco Costa, imigrado nos EUA, e por Eduardo Bettencourt Pinto, imigrado na Canadá, ambos poetas e prosadores reconhecidos entre nós aqui no arquipélago e em muitas outras partes. Scott Edward Anderson é um dos mais originais escritores por múltiplas razões. Primeiro, a tardia redescoberta da sua ancestralidade, e logo depois a sua irreprimível vontade de escrever sobre o poder que os Açores, nomeadamente São Miguel, de onde partiram para a América os seus bisavós, e ainda o encontro com um bom número os seus familiares presentes na ilha, e que o receberam com o maior carinho. Os seus bisavós emigraram para o Novo Mundo em 1906, mas ele a dada altura recua a outros séculos idos, e desconfia que os primeiros da sua árvore genealógica foram Cristãos-Novos, e pelo menos alguns desses mesmos antepassadas foram julgados e queimados na fogueira do Rossio entre 1559-1576, contando com de alguns 104 micaelenses condenados. Continua noutros poemas com esta história do terror. “Suite” aqui refere-se às peças musicais clássicas, que leva Nuno Júdice a escrever na contracapa que “Ao ler a Suite Açoriana todas as peças se juntam, como num puzzle, e assistimos ao desenvolvimento desse combate pela memória que traz de volta os nomes familiares, os cenários outrora perdidos, as viagens que conduziram ao exílio heróis anónimos a que Scott Edward Anderson restitui os nomes e a aventura interminável de uma emigração cruzada com o exílio”. A descoberta das origens do autor e que inspirou este longo poema (falarei noutra poesia sua mais adiante) aconteceu quando ele foi convidado pela também luso-americana Oona Patrick e Brendan Bowles a participar no evento literário Disquiet, que tem o seu centro anualmente em Lisboa, mas em 2018 começou a concretizar parte das suas sessões também nos Açores.

Azorean Suite: Suite Açoriana, A poem of the moment – Um poema do momento é de uma originalidade que creio sem par entre nós. Recorre às palavras ou versos e prosa de inúmeros escritores açorianos, continentais, e ainda, por exemplo, a outros como Herman Melville e o seu Moby Dick e os seus elogios deste ocasionais deste autor aos baleeiros das ilhas. “Tomei como modelo a Trilogia Seculum de Peter Dale Scott, especialmente Ouvir a Vela: Um Poema sobre Impulso, que, como um crítico descreveu, ut1liza elementos autobiográficos, bem como citações de várias fontes, de forma estender os limites da história pessoal e esticar o percurso emocional do poeta… O poema [de Scott Edward Anderson] tem a forma de uma Suite, que consiste, tipicamente, em quatro movimentos sobre um tema relacionado, mas diferindo de tom e forma”. Emoção, história regional e alguma nacional, é uma autobiografia sem quaisquer disfarces, numa linguagem simultaneamente do nosso quotidiano e erudita, todo ele de uma luminosidade que leva o leitor a nunca o deixar linha a linha, verso a verso, tanto em Inglês como em Português. Traz os muitos nomes dos seus antepassados, assim os que hoje ainda vivem na ilha. Tiram-me muito espaço numa página de jornal para os nomear a todos. O autor faz agora parte de um já considerável número de escritores luso-americanos que consistentemente tem os Açores – e nalguns casos o Continente – como tema principal na sua escrita. Pertencem por inteiro à nova literatura norte-americana, mas fazem inegavelmente, como já referi noutras ocasiões, parte do nosso melhor e moderno espólio literário.

Scott Edward Anderson teve uma longa carreira no seu país em questões ligadas ao meio-ambiente. Essa sua vocação transfere-se agora para estas ilhas, que passam a ser uma pátria sua, principalmente São Miguel por razões óbvias e de que já referi nas minhas palavras. Nada escapa à sua atenção, nem as gentes e os seus ritos, nem naturalmente o mar azul ou de chumbo e os seus efeitos nas restantes paisagens dramáticas desta ilha, nem sequer a literatura açoriana e outras de autores continentais ou mesmo de outros países. Por agora absorve-o o trabalho de traduções para o Inglês de certos escritores nossos, e creio que por estes dias na sua residência em Brooklyn, Nova Iorque, dedica-se a certos livros de Vitorino Nemésio. Quanto à sua obra presente agora publicada entre nós, vai ao ponto de identificar os locais de nascimento ou antiga vivência de alguns dos seus antepassados. Para surpresa minha, alguns com nome de Borges foram daqui do Rosto do Cão em São Roque (São Miguel), a dois passos da condomínio que habito há quase trinta anos, e que ele imagina terem sido pescadores, e um deles, de nome António Borges, médico. Esta é uma poesia de longa memória, minuciosamente investigada por ele. Tive o prazer de o conhecer e de com ele falar demoradamente sobre estas e outras questões, o seu entusiasmo e alegria de por fim se redescobrir um outro foram-me contagiantes. Agora continuamos em contacto virtual praticamente todos os dias. Ainda não li toda a sua obra, mas ser-me-á inevitável, com acrescido interesse, o prazer do texto.. No título dos seus poemas neste livro vem numa sequência quase romanesca, segurando o leitor a cada palavra ou verso.

“Os meus sentidos aumentam, emergem,

quanto mais me ligo a esta ilha

e à minha herança de cá –

Como é que vivi tanto tempo sem esta ligação,

sem as ligações à família e amigos

que já fiz aqui?

Cinquenta e seis anos desprovido disto, mas agora não consigo desligar-me,

As minhas raízes crescem mais profundamente em cada visita,

a saudade penetra-me o coração

cada vez que saio –

as minhas saudades da terra

agarram-se ao meu coração e à minha alma.

Como se o destino, também, me tivesse sequestrado,

e abrisse o meu coração a uma casa

que não sabia possuir – ”

Os espaços aqui tentam aproximar-se da forma com que escreveu os seus poemas, “pode-se nascer numa ilha – escreve Eduardo Bettencourt Pinto na capa deste livro – de duas maneiras. Do corpo de uma mulher ou pelo fulgor da sensibilidade… o premiado poeta Scott Edward Anderson explora a natureza do que é nascer do esplendor da sensibilidade das suas ilhas ancestrais. Usando elementos autobiográficos bem como citações de poetas, cientistas e naturalistas açorianos, Anderson estende os limites da história pessoal e expande a viagem emocional do poeta”.

Para além dos prémios que recebeu por outras obras o ano passado, a Editora Letras Lavadas, que emitiu cinco Certificados de Reconhecimento de livros de vários géneros publicados em 2019 por diferentes editoras, Anderson foi um dos premiados pelo seu livro de prosa FALLING UP: A Memoir of Second Chances, publicado pela Little Bound Books Essay Series,e aclamado por vários escritores dos EUA. Os Açores também estão presentes nesse volume. De resto, publicou ainda Dwelling: an ecopoem, que na última parte inclui alguma prosa sob o sub-título The Questions of “Dwelling” & Heidgger. Nas últimas páginas de Suite Açoriana: Um poema do momento ele inclui a lista bastante inclusive de todos os escritores que ele cita, e grande número de açorianos do passado e do presente, menciono novamente, figuram proeminentemente.

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Scott Edward Anderson, Azorean Suite: Suite Açoriana: A poem of the momento – Um poema do momento. (tradução de Eduardo Bettencourt Pinto, com José Francisco Costa), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu ” BorderCrossings ” do Açoriano Oriental, 11 de Dezembro de 2020.

Da Autonomia e de Outras Questões Açorianas

De que serve aos Açores a competência para planear o seu desenvolvimento e a sua política orçamental se os instrumentos tiverem de ser os nacionais e os estímulos e incentivos forem os mesmos.

Álvaro Dâmaso, Autonomia Política E Razão De Estado

Vamberto Freitas

Antes de mais uma advertência essencial antes de desenvolver este texto. Quando o Dr. Álvaro Dâmaso, numa conversa privada, me apresentou este livro para que fosse eu a fazer uma das suas apresentações, olhei atentamente o seu título, quedei-me calado por um instante, e de seguida disse-lhe que Autonomia Política E Razão De Estado: Quinhentos Anos de Antinomia estava fora da minha praça, e que melhor seria outro que o deveria abordar de modo formal e conhecedor do que pensei logo ser o seu conteúdo especializado. Mesmo assim, abri aleatoriamente algumas páginas e li parágrafos inteiros em voz alta. Silêncio da parte dele. Topei de imediato que era um livro sobre cidadania, e tinha sido escrito tanto para especializados nestas questões, como era dirigido ao cidadão comum. Continuei a ler por uns momentos na presença do autor, e vi que esta era uma prosa cintilante, de uma lógica que suponho ser de advogados, de quem sabe escrever com todo o respeito para com os seus leitores que têm a vontade de aprender ou aprofundar aquilo que pensavam saber do seu lugar e história num território tão disperso e único de ilha para ilha que tiveram as suas origens humanas permanentes a meados do século XV. Pareceu-me, o que eu viria a descobrir quando o li em sequência e rabisquei quase todos os seus parágrafos, assinalando ainda os passos que me iam consciencializando com toda a clareza o que fora e continua a ser o nosso destino como povo, antes nove ilhas que mal se conheciam umas às outras, e depois se tornaram numa Região cuja luta pelos seus direitos e inteira dignidade permanecem vivas, e passo a passo vão conseguindo os seus objectivos que visam a sua inteira liberdade. Outra advertência importante: não se trata de qualquer defesa de separatismo ou independência, mas sim da igualdade política e cívica totais perante a restante Nação de que fazem parte. Acontece algo neste livro que o distingue de tantos outros saídos das universidades, em teses ou outros escritos que são de natureza académica nas suas linguagens e obscurantismo de inúmeros nomes, datas, incidentes e ideias em geral. Álvaro Dâmaso menciona nas suas páginas apenas dois nomes: D. José I e o seu Primeiro-Ministro Marquês de Pombal. Da nossa contemporaneidade, nem um só nome, nem um só partido que tenha actuado antes ou na fundação da nossa democracia a partir de 1976. Trata-se, na minha leitura, tanto de um livro sobre o relacionamento institucional das atribuladas relações entre os Açores e a República, como de uma visão da nossa identidade criada por mais de 500 anos de separação e frequentes desentendimentos sobre a Constituição, e há mais de 40 anos sobre o Estatuto Autonómico que determina a nossa vida pública. Defende ainda e em palavras que não liguei a interpretações equívocas que como deveríamos ter um Presidente dos Açores, contra a denominação que persiste, e constitui, na minha interpretação, num outro rebaixamento e a arrogância da própria República.

Entendo agora as razões do autor em querer a reacção de um cidadão comum, e ligado à vida e história literária das ilhas, e não de um político ou pessoa ligada ao Estado. A confluência é mais do que evidente. Foi precisamente a partir dos anos 70-80 que do nosso lado renascia a questão da literatura portuguesa com origem ou referência declarada sobre o que, simultaneamente, tentava afirmar ao país no seu todo que permite uma sociedade livre. São precisamente as suas diferenças adentro de um Todo inseparável e sobretudo enriquecedor que o autor desejava ouvir. O que Onésimo Teotónio Almeida chamou num dos seus livros A Questão da Literatura Açoriana nada e tudo tem a ver com este Autonomia Política E Razão De Estado. Um pequeno país agora tripartido num continente e dois arquipélagos não pode nem deve defender com coerência a sua presente unicidade política ou cultural. Já que desde há muito nos relacionamos com os EUA e mais recentemente com a União Europeia deveríamos tomar conta da natureza da pluralidade humana nalguns desses ou em quase todos esses países, da pluralidade de interesses, deveres e partilha da sua riqueza ou falta dela. Ser comandados à distância é uma aberração ou imposição que um povo livre nunca deve aceitar. Viver na desconfiança é um sinal de menoridade estatal, especialmente, no caso açoriano, em que mais nada temos feito do que amparar e defender a Mãe-Pátria. Basta lembrar as lutas liberais e os bravos que saíram destas ilhas para defender o liberalismo e a decência contra o atávico absolutismo lusitano. Álvaro Dâmaso concentra-se na dúbia legalidade que amarra os açorianos à vontade quase exclusiva de Lisboa, mas não se fica por aí. Este livro foi pensado e escrito antes das recentes eleições regionais, e rejeita por completo o facto de nos imporem ora um Ministro ora um chamado Representante da República. Nunca um açoriano foi nomeado para tal cargo, que Dâmaso considera quase um insulto, e o insulto inclui o facto de tal figura ter de existir quando existem os tribunais ao mais alto nível para julgarem qualquer queixa ou inconstitucionalidade. Mais um sintoma da sobranceria nacional. O autor não o aceita, não percebe (ou percebe por inteiro porque conhece muito bem o seu país), e chama a seu favor outros países que o permitem – a ilegalidade de partidos exclusivamente regionais. Uma vez mais, não defende nunca o separatismo, mas defende a liberdade dos cidadãos das ilhas e do continente. Nem quero falar na sua dignidade, após firmes e constantes pressões dos seus colegas de partido no Continente, para formar um governo de coligação quando em 1976 ganhou tantos deputados açorianos como o seu então adversário na corrida à presidência da Região Autónoma dos Açores. Outra prova contundente de que quem deve mandar nos Açores, insiste o autor, são os açorianos. Regresso aqui à sua noção da nossa identidade diferenciada, mas nunca antagónica à pertença por direito histórico às suas e nossas ilhas. Suspeito que me escolheu para falar deste livro devido a várias razões. Uma delas é que para ele certo pensamento político vale tanto (vou parafrasear Nemésio) quanto a História, e quando me quer aborrecer diz não ler clássicos das ilhas ou do Continente.

“A democracia assenta também as suas raízes mais profundas no respeito pelo direito à diferença. A autonomia política consagra precisamente o reconhecimento de uma identidade populacional diferenciada no âmbito nacional. A existência de partidos regionais que defendam a autonomia política de um território com características geográficas, económicas, sociais específicas e permanentes não constitui nenhuma espécie de perigo para a unidade da soberania… Os partidos regionais concorrem também para a expressão da vontade popular no respeito pelos princípios da independência nacional e da unidade do Estado para a qual a autonomia política territorial constitui um contributo poderoso e não um perigo ou plataforma secessionista”. José Medeiros Ferreira dizia que Portugal tinha sempre de recompensar os açorianos de forma concreta, pois éramos nós quem garantia a sua soberania, especialmente em tempos que éramos cobiçados por outras potências atlânticas. A Inglaterra, por exemplo e já em décadas recentes, queria uma ilha depressa afundada dos Capelinhos, e ficou a ver um mar azul e raso.

Um livro sobre política e questões de Estado pode também ser literatura. Creio este ser um deles, que raramente aparecem entre nós. Lê-lo foi além do prazer da boa escrita, foi de aprendizagem e de novas perspectivas ligadas à nossa vida de açorianos, aqui e em toda a parte. Não admira. Desde jovem que escreve e é crítico nos jornais regionais e do Continente. Quase todos conhecem a sua carreira fulgurante em instituições do topo em Lisboa, inúmeras demais para nomeá-las neste espaço. Estão na capa do livro. Falamos com frequência, e Álvaro Dâmaso diz-me sempre que não lê literatura portuguesa para além de Camões. Depois diz-me, sem qualquer vergonha na cara, que eu só escrevo sobre livros que não “prestam”. Bem-vindo ao clube, Álvaro.

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Álvaro Dâmaso, Autonomia Política E Razão De Estado: Quinhentos Anos De Antinomia, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2020. Publicado no Açoriano Oriental, 4 de Dezembro de 2020.

Quando a História se Torna Ficção e a Ficção História

E agora parecia que Pitigliano se ia aprontando aos poucos para qualquer coisa espantosa. Sei que ninguém deu por isso, nem mesmo eu era capaz de dizer o que seria, mas bastava ver as ruas para perceber os sinais.

João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir

Vamberto Freitas

Um Tempo A Fingir, o mais recente dos romances de João Pinto Coelho, faz parte de uma trilogia ficcional pouco ou nada comum em Portugal, por várias razões. Começou com os primeiros dois romances, que roçam a genialidade literária: Perguntem A Sarah Gross (2015) e Os Loucos Da Rua Mazur (2017), este recebeu o Prémio anual da Leya num júri sob a presidência de Manuel Alegre. Não deixem que o título da obra presente os levem a conclusões fora do contexto. O autor, cuja biografia principal deixo aqui de fora para não me roubar espaço limitado na página de um jornal, mas tenho de referir inevitavelmente um facto essencial, que vou buscar à própria capa dos seus livros. Entre 2009-2011 pertenceu ao Conselho da Europa que investigou em pormenor, juntamente com outros, o Holocausto, tendo proferido várias conferências sobre a maior tragédia do século passado. Sim, todos os seus livros abordam esses tempos e acontecimentos. Se os primeiros dois volumes se situam na Polónia, o primeiro em Auschwitz, o segundo foca o mesmo país, só que agora a perseguição e assassínio dos judeus por católicos polacos simpatizantes ou ao serviço dos nazis alemães. Um Tempo A Fingir muda toda a sua trama para a Itália sob o comando de Benito Mussolini, e o modo como a forma eventualmente tratados os mesmos os judeus: prisão e pela morte sob ordens primárias de Hitler. Mussolini chegou a ser preso, mas a Resistência não pôde evitar que comandos às ordens de Berlim o libertassem e ele regressasse aos seus crimes políticos e cívicos. Este novo romance de João Pinto Coelho traz-nos outras “verdades” e “humanidade”. Cria personagens na sua vida quotidiana e familiar, um romance de amores imaginados e dias que nos parecem normais, mas o leitor sabe que o não são, o medo uma constante, e sobre tudo amores imaginários pela protagonista de nome Annina. Não vou aqui levantar o teor principal do romance, tal as suas surpresas de frase a frase e de página a página, tal a grandeza das suas linguagens, que estão entre a pura poesia e a prosa mais dura. Não conheço outro escritor português que tenha escrito tão brilhantemente sobre temas que nos dizem respeito só quase indirectamente no período em questão, a audácia de tratar de uma história europeia mais ou menos ao longe, e de modo tão corajoso como com tanta criatividade e verdade histórica. As personagens são muitas, mas parecem ou são saídas só da imaginação da sua figura principal, de nome Annina. Vai tudo desde os 1934, com uma passagem por 1952, em que ficamos sem saber se ainda continuam quase todos vivos e de memória clara sobre as tremendas circunstâncias que viveram ou sofreram. É um romance de vozes diferentes, falam no presente do seu tempo tal como memorizam outros passos da sua vida que haviam deixado escritos. O amor é aqui algo de muito especial. Annina vive conflictos sexuais entre ela e uma outra personagem imaginária, com que sonha ter relações sexuais às escondidas. Só que cabe ao leitor seguir o que é ficção no seu estado mais puro, e o que na realidade foi a história de um país latino apanhado entre a bandidagem política que ia dado cabo de todo um continente.

Há uma viragem na narrativa que diz respeito aos três romances de João Pinto Coelho. Da Polónia para a Itália, pensem os que quiserem pensar, quanto à História (assim com letra maiúscula) e à ficção que lhe correspondem nesse momento de desgraça e crueldade. Acontece aqui uma mudança quase radical: o assassínio generalizado e sem tréguas da Alemanha sob o comando de um louco sanguíneo e a tradição humanística de um país do sul europeu, mesmo que eu saiba, como toda a gente, da violência de Espanha na Guerra Civil e na crueldade da nossa própria colonização de vários povos pertencentes a outros continentes. A “verdade” desta ficção de João Pinto Coelho não deixa alguns desses factos pelo caminho. Mesmo que Mussolini tenha acabado pendurado publicamente de cabeça para baixo numa praça pública, o livro aqui em questão nunca o menciona, está patente aqui outro tipo de crueldade, mas também de uma humanidade que faz as personagens sentarem-se constantemente a lamber gelados e em conversas pessoais que nada têm a ver com o inferno mais a norte ou parcialmente a sul. Um Tempo A Fingir nunca foge à sua temática principal: o amor real ou fingido, desejos, como diria o outro, “demasiado humanos”, ao dia-a-dia da luta pela sobrevivênciamútua de cada um em trabalhos mal pagos e de vária natureza. A certa altura, já em 1952, Ulisse, o irmão de Annina, visita as memórias que ela também ia escrevendo sobre si e outros, e conta-nos um passado já quase esquecido por todos. Não há ódio constante neste romance, antes a existência ora brutal, ora amena, do trabalho diário de cada um, ou então das loucuras de gente nova, que reconhecemos como naturais até nos nossos dias. Um Tempo A Fingir, como diria certo autor ou autores norte-americanos, é mais uma “afirmação da vida” do que a morte ou o sofrimento do coração de cada um. Não, não levanto aqui o véu total do romance, nem mesmo um sumário do seu conteúdo, que seria também uma espécie de crítica ou outro posicionamento meu perante Um Tempo A Fingir. Cada um dos passos, em parágrafos narrativos ou em diálogo faz-nos querer virar as páginas em busca do que acontecerá a seguir. Muitos outros escritores raramente o conseguem. Este, como as outras narrativas deste escritor, nunca nos leva para o tédio, muito menos para querer deixar o livro a meio. Chegamos às últimas palavras com vontade de mais. A própria capa mostra-nos uma estilização de um bela mulher com um comprido vestido vermelho. Ela, a protagonista, veste-o, assim como uma outra, quase o tornando uma outra “personagem”. Palavras e arte juntam-se num conjunto de mistérios e obsessões – sensuais, desejosas, cada leitor as querer ser reais e vir ter connosco. A mestria da grande prosa, repito. O resto fica com cada leitor.

“Para melhor a idealizar – diz-nos Annina sobre a sua grande amiga, que fazia duvidar da sua sexualidade, e mais – é ir excluindo uma a uma todas as características que me davam o encanto: se eu tinha a altura certa e formas incendiárias, Alessia era alta demais e estreitinha por igual; se eu tinha o meu cabelo preto acabava a meio das costas, o dela, tão mal cortado, lembrava repas de palha que nem chegavam aos ombros. Ainda assim, era bonita; estranha, mas fascinante, muito por culpa do rosto grosseiramente entalhado nalguma madeira exótica, ou daqueles olhos rasgados sempre um pouco contraídos, como quem olha para o mundo com suspeição”.

Quase todos – não todos, entenda-se, especialmente em Portugal, e sem dúvida noutros países e línguas – são humildes e tantas vezes inseguros, é o que me tem parecido ao longo dos anos na América e aqui no nosso país, perante a sua própria grandeza. Foi isso, a humildade que encontrei em João Pinto Coelho, e não preciso dizer em que circunstâncias ou lugar. A verdade é que espero sempre um novo livro dele. Leva-me a mundos que desconheço quase por completo. É na ficção que vem toda a verdade de um povo, acontecimentos históricos, os seus demónios, raivas e ódios, e, sim, amor e desamor. A sua obra contém tudo isso, o quotidiano dos que sofrem e dos que mandam. O castigo de uns e outros é sempre implacável. Toda a grande literatura é um testemunho dos nossos destinos, de boa ou má sorte. Quando a literatura atinge o seu melhor, é nós que somos os seus protagonistas. Não se pode pedir mais dos artistas das palavras ou das outras grandes artes em qualquer género ou forma.

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João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Novembro, 2020

Contra a nossa tristeza e ansiedade

Porém, as palavras são o que temos/e só com elas ao nosso dispor/iremos fazer o que podemos:/dar ao nosso mundo alguma cor.

Eugénio Lisboa, poemas em tempo de peste

Vamberto Freitas

Muito tenho escrito sobre a obra prolífica e de grande alcance, quer no ensaísmo, volumes de diários, memórias e poesia. Para mim, tornou-se um mentor, tal como Edmundo Wilson na América, com a sua eloquente prosa, e, sim, o humor que também o mais famoso e respeitado crítico americano dirigia a si próprio e a outros, especialmente nalguma da sua poesia. Há aqui uma diferença grande: enquanto Wilson nunca foi levado a sério neste género de escrita, Eugénio Lisboa já recebeu grande reconhecimento da sua poesia com o livro de há alguns anos A Matéria Intensa. Reconhecido internacionalmente, foi-lhe conferido um doutoramento honoris causa pela Universidade de Aveiro, onde leccionou como Professor Catedrático Convidado durante alguns anos, assim como pela Universidade de Nottingham, da Grã-Bretanha, onde viveu 17 anos como conselheiro cultural na nossa Embaixada em Londres. Não me vou alongar mais com a sua numerosa bibliografia, só dizer que o especialista sobre a obra de escritores como José Régio e Jorge de Sena já tem a apreciação superior da comunidade intelectual de língua portuguesa e estrangeira, e poucos entre nós conhecerão as mais variadas literaturas do mundo, entre as quais a francesa e anglófona predominam e são constantemente citadas nos seus escritos em quase todos os géneros. Em pessoa, muito falei e aprendi com ele em esporádicas conversas na Costa da Caparica, quando ele visitava a sua amiga Teresa Martins Marques, e depois num ou dois almoços na sua casa de São Pedro do Estoril. Falamos à distância sobre um pouco de tudo com alguma frequência. Escreve agora estes poemas satíricos, cómicos, destemidos, com a sua ferve de sempre, que nunca poupa situações caricatas, e mesmo determinadas figuras na literatura e em outros sectores públicos da nossa sorte em todos os tempos, agora coléricos e de “peste” que nos ameaça a todos com doença e morte. Já passou os seus grandes desgostos e dores pessoais, mas nada disso o verga ao que temos por “destino”. Poemas em tempos de peste não é só helariante, é uma gargalhada para se opor à tristeza e ansiedade que todos sentimos no confinamento forçado e sem quase a convivência de amigos e conhecidos.

Nunca se ri dos que já sofrem na pele o maldito vírus: ri-se da pretensiosidade inconsciente de outros, de Christine Lagarde (A Senhora Christine Lagarde/acha que os velhos vivem de mais;/ pra que a economia se resguarde/há que apressar os ritos finais); Gonçalo M. Tavares (o que diz não faz sentido/e põe-me os olhos em bico) por com 50 anos de idade já ter alguns 60 livros que, goza Eugénio, nada dizem, e ainda de Pinto da Costa (mas a pandemia estraga o engenho/e faz-nos uma data de negaças/que fornicam o mais completo empenho), porque o futebol de ontem já não é possível hoje. O resto são as suas boas memórias em África, fazendo chamamentos a antigos amigos na sua Lourenço Marques do passado, alguns dos quais já não estão entre nós, como, por exemplo os inesquecíveis Reinaldo Ferreira e Rui Knofli. De resto, vai ainda à cabeça de Nuno Melo, que Eugénio diz ser do Cê Dê Esse. Por outro lado, dá pancada noutros pequenos partidos, como o Chega, e a jovens conservadores (Não há coisa mais ridícula/que ser jovem de direita/a esse nem a clavícula/sequer se lhe aproveita!). Um escritor da velha guarda não desarma nunca nestes poemas. Ficam-lhe, em termos positivos ou de elogio, Camões, a língua portuguesa e um lamento sobre a sorte e a solidão de Fernando Pessoa em vida e na morte em Lisboa (plantado em pedra aqui no Chiado./Palhaço de turistas me fizeram,/ só, entre papalvos, alarpardado!…). Eugénio Lisboa tem, uma vez mais, uma escrita totalmente única entre nós: ninguém teme na literatura nacional ou de além fronteiras. Num dos seus ensaios, publicado mais tarde noutro volume, confessa: relembra, só como exemplo, que Jorge Amado tinha sido uma das suas referência maiores em jovem, mas anos depois corrigiu essa atitude para nos dizer do seu quase afastamento da obra do autor brasileiro. Em Portugal, nos últimos anos tem levado à parede nomes de grande “prestígio” entre nós, como António Lobo Antunes, e, com mais azedume subtil, como noutro texto que não este, a Eduardo Prado do Coelho, ainda em vida e até mesmo quando este já se encontrava sepultado há um bom tempo. No entanto, nunca poupa elogios ou meiguice ao seu passado e às pessoas da sua vida, com grande destaque saudoso da sua mulher Maria Antonieta, aos seus autores eleitos, e à sua única companheira de agora, a gata Ísis e as suas traquinices nesta mesma poesia carregada de sátira ardente e humor generalizado, em versos fulminantes e sempre numa linguagem livre do habitual jargão ou teorias da literatura em moda. É, uma vez mais, mestre na citação de inúmeros escritores quando quer reforçar um ponto de vista sobre determinados textos críticos os ensaístas. Os leitores, mesmo os que só se ficam pela sua coluna no JL lisboeta, sabem muito bem disto. As crónicas e ensaios de outro livro publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em 1996, para além de tudo mais que menciono aqui, Eugénio Lisboa reforçou indelevelmente a sua credibilidade e capacidade literária. Poemas dos anos da peste indica que andamos todos rodeados dela, mesmo que de outra natureza, desde a sua juventude em Lourenço Marques (nunca o vi escrever “Maputo” nos anos seguintes), já em Portugal. Neste poemas em tempo de peste escreve em formas várias, decassílábicos (mais ou menos, como ele próprio afirma), em redondilhas maiores, heptassílabos, sonetos, e ainda no que ele chama pentassílabos. Vai desde as antigas figuras, como referi, a outros dos nossos dias em acções variadas na nossa sociedade.

Quando o seu grande amigo Rui Knopli, repito aqui, faleceu, Eugénio Lisboa lutou convictamente para que o seu espólio fosse poupado e devidamente arquivado. Eis aqui o seu outro lado de generosidade e respeito absoluto pelos que o mereciam em quaisquer circunstâncias.

“Em tempos de peste e de confinamento – escreve o autor na introdução ‘Poemas para baratinar a peste’ – mais ou menos rigoroso, tendemos todos à melancolia, quando não ao desespero. É nestas alturas que se recorre e deve recorrer ao humor e à faceirice, para desanuviar o ambiente. [Recorda o célebre Decamoron de Giovanni Boccassio, 1313-1375], segundo o qual aqueles protagonistas, para fugirem aos horrores e ao perigo da peste negra, se isolaram num cerco isolado a contarem-se histórias ladinas, picarescas, apimentadas, licenciosas, para afastarem do espírito a mortandade que, lá fora, assolava as populações”.

Eugénio Lisboa não é só um dos nossos grandes críticos e ensaístas literários, como de tudo o resto que lhe causa asco e desgosto. Como já ficou vincado aqui, vai além da literatura, desde políticos aos mais corruptos em altas posições, especialmente em bancos e outros sectores. O ter vontade de rir e da sátira não é novo, especialmente a partir de Eça de Queirós e outros da mesma geração. Eugénio Lisboa enxerga toda a nossa e outras sociedades que conhece de perto ou intimamente. Por entre as suas muitas palavras de acidez, vai sempre ao ponto com o resto. A sua disponibilidade generosa são firmes em defender os mais pobres e indefesos, os mais velhos ou os que caíram na rua sem rede. Rebelde e humanista durante uma longa vida, que felizmente continua a passear-se vivamente ali nos arredores mais apetecíveis de Lisboa, não desarma nunca perante a escuridão que tem sido parte das nossas vidas, e agora ameaça-nos com uma cama no hospital e, nalguns casos, a morte. Nunca se rende a nada e ninguém. Do poema “Versinhos De Um Poeta Com Algumas Dificuldades de Conjugação”, e em que ele brinca com e louva a própria língua portuguesa, com uma das suas muitas notas de rodapé para divertir os seus leitores, pede como que uma desculpa a quem ler este seu livro: “com um muito humilde pedido de desculpas por isto não ser tão bom como, digamos, Os Lusíadas”:

O Trump, fodido, irá-se

embora se a peste vá-se.

Que chatice se ele ficasse

no governo e nos lixasse!

Que bom se ele se fixasse

na sua Torre e se calasse!

Se o Almada ainda falasse,

diria que o Trump, sem classe,

cheira mal da boca – Hélas!

O semanário Expresso resolveu há umas semanas publicar alguns outros destes poemas. Fizeram bem. Imagino que alguns dos seus leitores muito se riram, e por uns momentos esqueceram a nossa presente situação e tragédia. Rir de nós próprios é outro sinal de saúde e alguma esperança que nem tudo vai correr mal.

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Eugénio Lisboa, poemas em tempo de peste, Lisboa, Guerra & Paz, 2020.

Um romance açoriano que está dentro e fora da nossa literatura

Um coro de risos e de aplausos irrompe espontâneo. Estão felizes até mais ver, as filmagens acabaram. Antecipam os festejos. Abraçam-se. Levam a comoção até às lágrimas.

Artur Veríssimo, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas.

Vamberto Freitas

Artur Veríssimo, terceirense que já reside há muitos anos em Sâo Miguel e sempre se dedicou a questões do ensino público, com publicações na sua especialidade, é um dos nossos grandes romancistas. Como me disse há dias um conterrâneo da minha ilha natal, nunca deu ou nunca quis dar nas vistas. Só que isso se torna impossível a dada altura na sua carreira também de escritor. Premiado por alguns dos seus trabalhos, a sua atitude distante ou aversa a questões da publicidade das obras de literatura, por assim dizer, quer ele queira ou não, não vai durar muito mais tempo daqui em diante. Aliás, vem na sequência de outro grande romance seu, Uma rapariga celta sentada num javali, e que na altura também sobre ele escrevi. Calado, discreto, sem qualquer ambição de fama ou outros reconhecimentos, este seu recente romance, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas, vai inevitavelmente dar nas vistas e encontrar alguns leitores que estão habituados a outro tipo de ficção entre nós. Hesito em mencionar “literatura açoriana”, e prefiro aqui literatura saída dos Açores, mesmo que se enquadre inevitavelmente no corpo literário referente às nossas ilhas, a prosa inquestionavelmente parte da “vida em ilha”, parte das nossas andanças por toda a parte mas sempre com o regresso previsto. Há uma originalidade neste corajoso livro de Artur Veríssimo. A maior parte da nossa paisagem física fíca de fora, e reside quase exclusivamente na alma de cada personagem, parte delas em movimento constante entre Lisboa, Terceira, São Miguel, Tailândia e América. É no interiorismo da cada personagem que residem os seus mundos, os mundos que determinam o seu destino, a alegria e a tristeza da sua existência. A forma do romance foge também do mesmo modo da escrita a que estamos habituados. Um jornalista-escritor aqui de de nome Gabriel Rocha, que é uma personagem meio calma e melancólica, vai escrevendo o seu romance duplamente, pois o romance vai dar lugar a um filme já em produção. Está desde sempre apaixonado por Clara, que acaba por partir para a Bélgica e outros países durante dez anos, deixando o narrador-autor em angústia constante pelo seu retorno. Enquanto constrói o seu romance vai tirando nesse texto o tal guião, que ora obedece ao romance, ora parte para os desejos do realizador, de nome José Santa-Marta (que desconfio quem é na vida real), que o vai filmando aos poucos, na ilha e noutras partes do mundo aqui mencionadas, em Lisboa e depois com imagens no estrangeiro e nos Açores. Aliás, toda esta narrativa de Artur Veríssimo parece um diálogo vivo com certos escritores açorianos, alguns deles citados em nome com epígrafe em certos capítulos (como João de Melo, Onésimo Teotónio Almeida e José Martins Garcia, por exemplo), assim como outros escritores e poetas nossos que reconhecemos nas alusões mais crípticas do romance, e depois com referências a outros autores estrangeiros, a filmes e peças musicais, tanto populares como eruditas.

A personagem mais curiosa inventada nestas páginas é um luso-tailandês, Anuchyd Pòr, um dos protagonistas principais do romance e do filme em progresso. De resto, temos outros e outras figuras de importância secundária, mas sempre inquietantes. A certa altura o narrador deixa cair na sua prosa, em forma pelo menos dúbia, mas sem deixar de ser uma cortesia, que se vai aludir a duas outras escritoras conhecidas entre nós, e que se referem ao seu helariante penúltimo romance, já aqui mencionado, Uma rapariga celta sentada num javali, desta vez pela sua amada Clara que, diz o narrador, “passou-o a um outro, Gilberto Melrinho, à socapa, a um primo das Fontinhas que, por sua vez, o deixou nas mãos de um tal Freitas, crítico literário, amigo do congressista que, em Angra do Heroísmo, o tresleu, ao jeito de uma cavalgada erótica. Não se pode pode confiar em terceirenses. Querem todos ser capinhas”. Claro que ri à brava como leitor, observador, e interpretador das palavras, quase sempre as dos outros. O humor deste autor é constante, como constante é a delícia de o ler.

A Felicidade Das Coisas Imperfeitas (a história que já vinha nos búzios) é um romance escrito na primeira e segunda pessoas pelo mesmo narrador, narrativa e filme à sua conta. Abre com uma citação de Friedrich Nietzsche, e com um passo do livro de Urbano Bettencourt, Que paisagem apagarás. Este romance de Artur Veríssimo traz-nos algo pouco comum entre nós. Nunca demora na descrição das geografias das ilhas, mas antes concentra-se emcenas e em paisagens que estão na alma de cada personagem, nelas vivem e os obceca a todos os momentos. Vai por certo certo espantar os habituais leitores da nossa literatura com as cenas imparáveis de sexo, ou desejo dele. Trata, sem complexos, durante todo o seu percurso narrativo, uma vez mais, de sexo, bissexualismo e homossexualismo numa desconstrução implacável das sociedades que lhe servem de fundo, de angústias, de prazer e, sim, de felicidade e ansiedade de uma nova geração que se segue à minha. Os seus leitores não podem sofrer dos mais estúpidos preconceitos contra a natureza humana. O mesmo que dizer: o presente romance é um acto de coragem artística, dado ainda, creio eu mas poderei estar errado, à nossa pequenez como à suposta “tradição” de silêncio e faz-de-conta, ainda impressiona sobre vivências diferentes das que nos ensinaram nos anos mais ignorantes de um passado que nunca nos saiu da memória. Artur Veríssimo leva anos a publicar uma nova obra, mas quando se senta a escrever é sem amarras e fica com o mundo a seus pés. Um escritor com medos, não é um escritor, é apenas alguém que quer partilhar palavras e frases inócuas. A arte fica longe de si.

“Tenho muita dificuldade – confessa o narrador a dada altura – em ouvir José Santa-Marta. Penso em Maria Amália, no meu filho, em Clara, em Anuchhyd Pòr e não me fico por aí. Em tudo menos naquilo que o realizador quer. Não me apetece nada discutir com ele a cena de cama em que Gabriel e Désirée vêem, na televisão, O Retrato de Dorian Gray. Acho mesmo que não devia ter proposto. Na verdade, nunca vimos o filme juntos. Nunca vimos sequer um filme na cama… Desejo antes falar da fotografia que ela tem à sua frente. É da atriz que faz de Clara, no filme. O fotógrafo surpreendeu-a, de sorriso largo e confiante, a sair de The Egg. Adivinha-se, por detrás dos óculos escuros da personagem, que a ficção de José de Santa-Marta levou à América, um piscar de olhos à realidade. É Clara que regressa, pelo menos no filme”.

Como já referi, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas é um outro tipo de diálogo com variados escritores açorianos e estrangeiros, entre outros artistas estrangeiros da pintura e da música, nem sequer esquecendo o folclore das nossas ilhas. Nesse sentido, é um romance profundamente açoriano, mas igualmente algo muito mais. Não posso nem quero passar isto no nada: por duas vezes neste longo romance o narrador menciona, em itálico, Sorrido Por Dentro Da Noite, o título do romance da Adelaide Freitas. Fiquei perplexo nessas páginas – até chegar ao fim da obra. Na crítica de língua inglesa chama-se foreshadowing, ou uma insinuação do que está para vir no resto do romance. Clara, o amor de Gabriel, regressa finalmente à ilha. Todos os amigos que se sentam com ela em conversas de ocasião e sobre a sua ausência estranham algo que bem conheço fora da ficção: os seus olhos distantes, o seu silêncio ou palavras desconexas, e de seguida a retomada da sua atenção sem desvios. Tinha uma doença degenerativa, mas não a da falecida autora de Sorriso Por Dentro Da Noite. Não quero mencionar o que me pareceu. Afinal, trata-se de ficção rente às piores realidades. Os búzios atiram-se às mesas, e nem sempre mentem. Como as nossas vidas: um mistério de sorte, dor ou morte. Uma das

suas referências vem logo numa segunda epígrafe na abertura do romance, como já referi, e é da autoria de Urbano Bettencourt, tirada do seu livro Que paisagem apagarás – “O narrador observou demoradamente as personagens. E foi peremptório: Recuso-me a andar com gente destas”. Ironia, pois, sobre ironia, humor sobre humor.

A um tempo um romance sobre a tragédia de um amor perdido e da morte anunciada, e comédia pura nalgumas páginas, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas é sem qualquer dúvida uma das mais distintas narrativas dos nossos dias. Vai muito além das suas próprias geografias para se tornar ainda um dos principais romances de língua portuguesa publicados nos tempos mais recentes.

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Artur Veríssimo, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2020. Publicado no Açoriano Oriental a 13 de Novembro, 2020.

Da riqueza e da miséria existencial no nosso tempo

Margarida Rosa anda pela casa na desenvoltura de uma ave de grande porte, das que podem voar milhares de quilómetros que sabem sempre como voltar.

Rodrigo Guedes de Carvalho, Margarida Espantada

Vamberto Freitas

Margarida Espantada, o mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, é brutal tanto no sentido como agarra o leitor e como desenvolve uma história sobre a família do patriarca Carlos Duval, sócio rico de uma grande empresa nunca nomeada e residente com a mulher e seus quatro filhos em Colares, algures nos arredores de Sintra. Esta é uma estória em que o dinheiro não evita dentro daquela casa-mansão violência doméstica do marido com a mulher, Maria do Carmo, alcoólica inveterada e fumadora imparável. Mesmo assim aceita a sua sorte durante uma vida inteira, tendo o seu fim trágico de que falarei mais adiante. Os quatro filhos são todos diferentes uns dos outros como os dedos de uma mão. Nenhum segue as passadas dos pais, com a excepção de António Carlos, o mais velho entre os outros, que cedo se torna um encenador de renome em Lisboa, e exerce sobre as suas amantes e atrizes a mesma violência física e psicológica que nos leva a crer que é o resultado de uma vivência anterior em que tudo isso era a norma da sua infância e adolescência. A outra, ou talvez a principal protagonista, chama-se precisamente Margarida Rosa, e é ela que também nos vai guiando pelas palavras de um narrador omnisciente, cujos pormenores de cada personagem e incidentes nas suas escolhas de vida leva-nos ao interior não só do seu presente como aos antecedentes singulares de cada um. Os outros dois são de nome Manuel Afonso, quase escondido entre tudo e todos, e Joana Ofélia, a mais nova, que no início acha o seu próprio nome muito estranho, mas nós não, pois é um velho nome da nossa civilização, como está associado a uma mulher que foi uma espécie de namorada do nosso mais conhecido poeta do século passado, Fernando Pessoa. Sem surpresa, é ela que está no lado oposto a Carlos como de Margarida e das suas condições existenciais: torna-se uma académica dedicada ao estudo e raramente se metendo no que vai à sua volta dentro e fora de casa. Eventualmente, todos encontram um caminho cheio de curvas, e a tragédia é-nos prevista desde a primeira à última página, à morte de quase todos eles em circunstâncias sempre misteriosas, inclusive a dos pais. No entanto, este é um romance de “amor” desejado, e cujas vidas raramente são encontradas pelas personagens, tal como é o longo casamento e convivência dos pais. O dinheiro e a casa-grande de pouco valem aqui, só se torna motivo de mais mortes e mistérios que desvendamos nas últimas páginas, mas só até certo ponto. Tudo nos parece uma sociedade corrupta de alto a baixo, toda a narrativa parece ou é uma desconstrução da nossa mítica nacional e da condição humana em toda a parte. Temos assistido, em paralelo e na realidade, a tudo isto entre os mais bem-postos e supostamente bem pensantes e inteligentes da nossa sociedade.

Não se trata de uma ficção estritamente mimética, mas sim de um grande acto de reinvenção em que, como já disse vezes sem fim, tem a literatura como sendo indissociável da sociedade, uma qualquer geografia física e humana tornando-se inevitavelmente, desde que o romance foi inventado pelos antigos, um retrato-outro da condição humana, neste caso numa actualidade que todos conhecemos. A linguagem do autor é sempre marcada pela seu vigor, e apesar da extensão em número de páginas, trata-se de uma linguagem contida, sugestiva, sem respostas mas a cada passo nos interpela à reflexão e às mais variadas conclusões de cada um que as lê. Num comentário do próprio do autor relembra-se que a dureza aparente de uma narrativa não exclui, uma vez mais, o amor – e eu diria a compaixão – ante a existência ficcional dos seres reinventados. Devemos sempre resistir a uma leitura autobiográfica, que o pode ser ou não. Creio que neste romance isso está fora de causa. Só que cada autor carrega dentro de si gente e situações entre outros que lhe poderão não ser alheias. Mesmo assim, qualquer artista é capaz de imaginar e desenvolver o que pessoalmente lhe é desconhecido, ou então resultado da generalidade de vidas, dos mais ricos aos mais pobres que podem viver ao nosso lado e que pretendemos desconhecer numa atitude de indiferença ou um sentimento de que nos são alheios. O próprio autor está totalmente consciente do que acabo de dizer, e tem a audácia de o escrever na contracapa de Margarida Espantada. “Gosto da ficcão que é número arriscado de circo, com fogo e espadas, que nos faz chegar muito perto da queimadura que não vamos realmente sentir. Mas reconhecemos”.

Vamos acompanhando estas vidas mais ou menos desestruturadas, quase sempre evidenciando esses problemas mentais de que nos fala o próprio autor. Quando suspeitamos que será a personagem Carlos que detonará o desfecho infeliz da família por uma combinação de genialidade teatral (encena quase só os clássicos gregos e as suas tragédias), será Margarida Rosa que no fim nos “espanta” após a morte dos pais num voo saído de Moçambique, onde o patriarca tinha lutado na guerra colonial, e esse avião é deliberadamente atirado ao chão na máxima velocidade pelo piloto que se queria suicidar, fazendo lembrar (eis a memória da realidade) um co-piloto alemão que fez exactamente a mesma coisa há alguns anos na Europa, também num acto louco de suicídio. No caso de Margarida Espantada, é o co-piloto que vai à casa de banho e o comandante tranca a porta para levar a cabo o desastre. O narrador passa a conjecturar o que se havia passado, se a presença de um grande empresário português a bordo com a sua esposa, se se teria tratado de uma qualquer conspiração envolvendo os sócios para ficarem com a parte do malogrado homem de Colares. Esta é o que se chama uma viragem (radical) na narrativa. É o que já quase todos conhecemos nas nossas vidas: as partilhas entre os filhos. Margarida Rosa decide voltar às origens e morar na casa com o assentimento dos irmãos. Tal como em todo o romance, coisas estranhas e absolutamente inesperadas começam a acontecer: a morte ou desaparecimento misterioso de alguns seus irmãos, quer em frente à própria casa quer numa praia, como no caso do Carlos que sai destas páginas nesse momento, sem que o narrador perceba o que se terá passado, deixando ao leitor num fim indeterminável. É o lado escuro que se interliga entre o que temos por realidade e ficção, na qual só o leitor poderá imaginar ou opinar sobre qualquer incidente. Como um dia escreveu Ezra Pound, a grande literatura traz-nos sempre “notícias frescas”, talvez melhor do que os jornais e toda imprensa junta. Para além dos “factos” da vida diariamente relatados, só a arte é capaz de entrar na alma de seres fictícios, de introduzir todas as ambiguidade do coração humano que, como disse de igual modo William Faulkner, está sempre “em conflito consigo próprio”, a verdadeira essência da arte literária no seu melhor. Se disse que este era um romance “brutal” em todos os sentidos, é porque um pouco de nós todos está representado por qualquer uma das suas personagens, sempre a captar momentos estáticos em fotografias do presente, assim como as outras do passado guardadas na casa rica de Colares, e escondidas a sete chaves da restante família pelo pai na sua sala-escritório. Suspeita-se que é Margarida Rosa que quer ficar com toda a herança. O “amor” aqui fica sempre disfarçado entre pais e filhos, entre filhos e as mulheres e homens que vão para a cama com cada um dos irmãos.

“Margarida – diz-nos o narrador já fim no romance, quando o irmão desaparece sem sabermos o que lhe aconteceu – jurou em pequena que nada nesta vida lhe causaria dano. Portanto, se não surgir nenhuma alma reconhecível, qualquer corpo falante ou só aparecido num fugaz clarão, então que seja um silêncio bruto… Ocorre-lhe que não previu tudo, que não basta pensar que as coisas vão de de uma maneira e tudo se cumpre. Não antecipou que podemos sofrer bastante no processo de terminar com o sofrimento… Que venha a pedra sobre o assunto. O fim da dor.”

Toda a bibliografia de Rodrigo Guedes de Carvalho vem na capa. Relembro apenas que desde que começou a escrever ficção de fôlego em Daqui a Nada, de 1992, tem recebido os mais variados prémios nacionais e internacionais pela sua já substancial obra, assim como foi premiado em França pelo seu jornalismo televisivo. Ernest Hemingway disse um dia que o melhor treino para um escritor seria mesmo o jornalismo, em que ele próprio trabalhou algum tempo, pois a clareza e brevidade da palavra é o que faz sair vivamente uma ideia ou uma notícia. Não deveria era durar muito tempo, pois eventualmente estragaria a escrita de grande fôlego. Estou convencido que isso nunca aconteceu com Rodrigo Guedes de Carvalho. Pelo contrário. Faz da sua prosa como que um quadro de felicidades e infelicidades muito claras, levando cada leitor ao fundo da alma humana. Da sua considerável obra já li Casa Quieta (que me doeu a valer pelas circunstâncias da minha pessoal naquela altura e anos depois da sua publicação), O Pianista de Hotel (é uma personagem sem nome que é mencionado novamente aqui, assim como outras), e Jogos de Raiva. Impõe-se-me agora ir ao resto.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, Margarida Espantada, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 30 de Outubro de 2020.

Da melancolia da ilha e de uma fuga louca em busca da América

Apesar da brisa daquela noite clara, Mané sentia-o debaixo da pele: os tempos da pobreza iam acabar.

Almeida Maia, IlhaAmérica

Vamberto Freitas

Permitam-me e desculpem-me de começar com uma auto-referência. Em 1999 publiquei um livro sob o título A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, mas trata-se de uma mera selecção de ensaios maiores e menores que eu havia publicado sobre a condição vivida nos Açores durante aquela época ou no passado. Menciono-o aqui só para vos dizer que este novo grande romance de Almeida Maia, IlhaAmérica, é precisamente sobre a mesma ideia de que os Açores são o tal “viveiro” nemesiano, onde se planta parte da humanidade para logo a seguir tentar ser replantada noutras geografias, que no nosso caso, logo desde quase o início da povoação queria dizer as Américas, e a partir do século dezoito até aos nossos dias isso queria dizer os Estados Unidos e mais adiante o Canadá. É certo que outros escolheram ou foram forçados a outros destinos, mas a América permaneceu sempre a nossa “miragem”, como um dia escreveu José Martins Garcia. Essa miragem levou em 1960 à mais dramática e corajosa tentativa de chegar a esse outro destino de vida nossa. Também é certo que Manuel Ferreira escreveria O Barco e o Sonho, depois tornado filme, mas essa foi uma aventura de mar que acabou bem, ao contrário do que acontece neste romance de Almeida Maia. Um rapaz, aqui de nome Mané, natural das Furnas mas cedo mudado para Santa Maria com a família para que o pai trabalhasse no então mais importante aeroporto dos Açores, pois era lá que a aviação da época fazia escala rumo ao Novo Mundo, de norte a sul. Este romance tanto insinua a então pobreza dos Açores como por vezes a brutalidade das vidas domésticas, e é a isso que um jovem de 16 anos de idade quer fugir a todo o custo. Antes de mais, esta ficção histórica é o resultado de uma aturada investigação do autor (de que dá conta em quase quatro páginas de notas e agradecimentos), que cruzou de novo continentes e outras ilhas, é baseada num caso verídico que suspeito muitos outros sabem dele. Se já mencionei outros autores que escreveram sobre a aventura americana é com o intuito de colocar a narrativa presente no seu devido contexto, mesmo que as circunstâncias sejam as mais dramáticas imagináveis, em que a realidade e a ficção se juntam numa prosa brilhante, colocando desde já este IlhaAmérica no cânone superior da literatura açoriana ou entre a melhor ficção contemporânea de língua portuguesa. Outra questão que me parece de importância vital: no fim do romance vemos como os nossos apregoados “brandos costumes” não passam de um mito que séculos de vivência sobre os mais variados absolutismos quis fazer passar para dentro e para fora. Um adolescente poderia não saber disso, mas sentia-o na pele desde a vida em casa e o que ia à sua volta. O título deste livro não se refere à América, mas sim à própria ilha de Santa Maria devido ao seu trânsito aéreo e à presença dos americanos, que na Terceira e de outro modo se fechavam na Base arredores lá perto. Era da ilha mariense que saíamos todos em busca de nova vida numa América, que nada tem a ver com o que hoje lá acontece. Eu também parti de lá em 1964, mas no conforto de uma cadeira e rodeado pela minha família imediata. Nada disso tem a ver com a sorte de Mané que se meteu no vão da roda da frente de um Locheed Super Constellation venezualano que ia para Caracas e escala na Bermuda. Mané poderá não se ter dado conta disso,e aterraria no que aqui se chama a Terra Prometida.

Mané está no aeroporto e espreita o avião. Quando ninguém aparecia à sua volta mete-se, só com a roupa do corpo e três papo secos, uma vez mais, no vão que lhe poderia ter sido fatal por várias razões. Diria mais tarde o co-piloto, quando o avião levanta voo, “Fue esta luz que me avisó… Pensábamos que era una avería, porque oímos um ruído áspero, como alguien golpeando algo”. O jovem teve a inteligência de recuar ou se mover mais um pouco, a roda fechou segundos antes de o comandante decidir abortar o voo e regressar à pista. Quando aterram na Bermuda, o jovem saiu e foi logo descoberto pelos pilotos, que ficaram atónitos com a coragem do jovem. O comandante, aqui de nome Diego, dir-lhe-ia o resto, já em sua casa de Caracas, onde o acolheu com a maior admiração e carinho, que foram de tal grau que até brincou com a possibilidade de Mané casar com uma das suas filhas. Fez-lhe entender ainda, agora nas palavras do narrador de IlhaAmérica, a enorme sorte do rapaz foi que não tinham voado à altitude habitual de 20.000 pés mas sim a 8.000 pés. “Se voassem uma nisquinha mais acima, o oxigénio teria faltado”. Sem quaisquer documentos, Mané foi entregue ao consulado português naquela cidade, e de imediato enviado para Lisboa sob a acusação de emigração ilegal, e ele acabou no Aljube, em que a PIDE, nos seus comportamentos muito conhecidos entre nós, o interrogou numa das suas salas frias e intimidativas sobre a façanha, mas sem qualquer simpatia e muito menos admiração, dirigindo-lhe palavras duras, acabando por o reenviar para a ilha. Contraste-se este comportamento com a empatia e paixão dos pilotos venezualanos. Acaba por fazer a tropa na guerra colonial, mas o sonho americano nunca o deixaria, e este, descobrimos nas últimas páginas, é um romance de fim feliz. Disse-me o autor e outro amigo que Almeida Maia tentou por todos os lados entrar em contacto com ele, que hoje deve ter 75 anos, e pensa-se que vive algures na zona de Fall River. Almeida Maia acrescentou que ele não quer falar com ninguém sobre a sua imensa aventura em anos já muito idos. O resto, creio, deve ficar para a leitura e interpretação de cada um. É claro que todos os nomes aqui são fictícios, por isso não os mencionei todos neste texto. Sobre a linguagem deste inusitado romance só tenho a dizer que é de um brilhantismo que atravessa toda a narrativa, caracterizada pela sua clareza e contenção verbal, é um romance de frases lapidares raiando a tragédia não só de um jovem de coragem quase sem par entre nós, recria enfaticamente a condição existencialista do desespero e da escuridão que dia-a-dia caía sobre a maioria dos açorianos aquela época. Não diz nada sobre a vida de Mané que finalmente e legitimamente chega anos mais tarde ao que o narrador chama várias vezes a Terra Prometida, sendo o próprio autor também tocado por familiares que emigraram para aquele país. Por outras palavras, a América, apesar destes últimos anos, repito, continua no nosso coração, o símbolo e a realidade da nossa salvação em tempos ainda muito próximos.

“Deu o primeiro passo – diz o narrador quando Mané consegue concretizar a sua vontade inabalável anos depois, e agora entra legitimamente noutro avião, sentado e engravatado – na escada, e sentiu o destino a corresponder-lhe, o coração a abastecer-lhe os músculos com raiva boa, os pés a desejarem dançar, a boca a sorrir em espasmos. Desceu, degrau a degrau: aquele chão sobrenatural a aproximar-se, degrau a degrau, a Terra Prometida ali mesmo, degrau a degrau, a vontade de a beijar a tomar conta de si… até que pisou a pista. Mané tinha firmado os pés no solo sagrado. Tinha chegado à América”.

Como muitos leitores de Almeida Maia já sabem, e talvez muito melhor do que eu, o autor tem uma sólida formação universitária, especialmente como psicólogo organizacional, e via-o quase todos os dias na nossa faculdade da Universidade dos Açores. Nunca se coloca em bicos de pé, mas merece desde algum tempo toda a nossa atenção como leitores, vai ficar como um notável escritor português a partir dos Açores. Na contracapa deste IlhaAmérica o crítico-mor do JL lisboeta diz que “Maia ampliou o género policial no romance açoriano”. Só que é, no mesmo espaço, Santos Narciso que coloca as coisas no seu verdadeiro lugar. “Relativamente – escreve Santos Narciso – a Almeida Maia, ele tem a capacidade de, no urdir do enredo, associar um saudável regionalismo a um assumido universalismo, fugindo de lugares comuns, sem nunca abandonar a matriz insular que enforma a sua escrita”. Cito aqui colegas meus que crescentemente têm valorizado a nossa literatura. Cada grande livro tem de estar aberto a variadas interpretações, e quanto mais activa for a nossa crítica ficaremos a saber que os escritores açorianos não ficam a dever nada a ninguém. Crítica literária, como um dia citei Harold Bloom, o autor de livros como O Cânone Ocidental, é também “memória”. Memória de um lugar e tempo da condição humana em toda a parte. Almeida Maia já tem uma considerável obra em vários géneros, tendo continuamente recebido os mais variados prémios literários. Destaco neste momento dois desses livros também contundentes: Capítulo 41: A Redescoberta da Atlântida e A Viagem de Juno, que já fazem justamente parte do Plano Regional da Leitura. Pedro Almeida Maia já passou, com IlhaAmérica, de uma promessa a um autor consolidado. Não queria estar no seu lugar. A sua responsabilidade literária está agora mais pesada, os seus leitores à espera de outros livros, como este, marcantes no seu percurso literário. Pela minha parte, vou ler ou reler parte da sua obra anterior. Está ele agora ao lado dos nossos melhores escritores, e nunca só dos Açores. O seu engrandecimento deveria ser também o de nós todos.

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Almeida Maia, IlhaAmérica, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 23 de Outubrode 2020.