De Jerry e de Nancy Terry Baben: ele Meu Amigo, ela Minha Professora e Mentora

O meu marido Jerry e teu amigo faleceu há poucos dias. Estou como deves imaginar.

Nancy T. Baden, minha falecida Professora, numa carta dramática que me enviou para São Miguel nos seus anos de chumbo, e hoje guardo de maneira sagrada.

Vamberto Freitas

Ele tinha falecido uns poucos anos antes. Ela viria a falecer depois, a 6 de Março de 2004, ainda muito nova, nos seus 60 e poucos anos de idade. Foi verdadeiramente a minha primeira grande perda, por tudo que ela tinha feito por mim como Professora e Mentora em Estados Latino-Americanos na Faculdade da California State University, em Fullerton. Durante esses muitos tempos antes do seu falecimento, ia-me seguindo na carreira que eu próprio tinha escolhido no ensino secundário oficial daquele estado no Pacífico americano. Sobre ela escrevi extensamente sobre várias facetas da sua actividade académica. Era doutorada na obra de Jorge Amado. Norte-americana de gema, mas nem sequer a literatura imigrante luso-americana e açoriana lhe eram indiferentes. Longe disso. Quando Onésimo T. Almeida fundou e dirigiu juntamente com o também já falecido Professor luso-americano George Monteiro (a partir de 1980) a revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, publicada na Brown University, convidou Nancy T. Baden para ser a primeira editora das suas páginas literárias. Uma vez mais, já escrevi um extenso ensaio sobre tudo isto no meu Imaginários Luso-Americanos E Açorianos: do outro lado do espelho, e não me vou repetir aqui. Mais adiante falarei do seu livro sobre a perseguição a escritores e intelectuais em geral durante a ditadura que governou o Brasil desde 1964 até às chamadas “directas” em 1986. O que me provoca a escrever este texto é algo muito diferente, e que eu devia a mim próprio há muitos anos. O percurso das nossas vidas está tanto cheio de curvas, como de tudo que também é bom, muito bom, e as memórias e a gratidão devem, creio eu, fazer parte não só do presente, como nos fazer baixar a cabeça perante os que se atravessaram nas nossas vidas. Com bondade e dignidade. Num texto recente abordei as minhas visitas à livraria comunista em Los Angeles. Vou agora numa direcção muito diferente e de sentido contrário.

A determinada altura durante os meus estudos com Nancy e outros mestres de primeira tive um acidente de carro. Cheguei à faculdade num autocarro, e contei a Nancy que estava num buraco sem solução à vista, de 1.500 dólares, que para um estudante sem emprego, e logo sem crédito em qualquer banco, foi-me um momento de grande ansiedade. Jerry era um banqueiro local (Fullerton), e Nancy disse-me de imediato: vai falar com ele. Eu fazia parte da sua casa como convidado e constante e amigo, em encontros sociais, e não só. Nancy era de “esquerda”, ele era do Partido Republicano, se a memória não me falha aqui. Só que esse partido da esfera do Poder nos anos 70 nada tinha a ver com o que conhecemos hoje, constituído em grande parte por canalha, e os seus militantes de então eram “democratas” autênticos em ideologia e respeito pelo chamado “adversário”. Viviam, Jerry e Nancy, num palacete com vista deslumbrante para as cidades em frente. Entro, e Nancy retirou-se para a sua sala de estudo e trabalho. Jerry, como sempre, traz-nos uns wiskys, e disse-me: Nancy falou-me nuns problemas financeiros que estás a enfrentar. Sim, respondi. O que é que pretendes fazer, ou pretendes de mim? Disse-lhe que queria ir ao seu banco e pedir um empréstimo. Ele olhou-me fixamente, entre uma golada de bebida. Vamberto – finalmente colocou as cartas na mesa. Sei da dedicação aos teus estudos, da tua seriedade. Riu-se. Caramba, és um “comunista” na minha casa (não era, não, e ele sabia disso). A Nancy não tem solução, politicamente não tem solução, nem entende destas coisas, disse-me ele com todo o seu humor. Não podes ir ao meu banco porque, para te ser directo, não tens emprego nem qualquer colateral para garantir um empréstimo. Tomei mais um golo de wisky (a ortografia é americana, não britânica). Paciência meu amigo, disse-me ele. Olhou-me novamente com muita atenção, encolheu os ombros, e disse que a vida não era fácil em certas circunstâncias. Acabamos o primeiro copo, e ele, que era, como eu já então na minha pobreza estudantil, um bon vivant. Levantou-se e disse que ia buscar mais um copo. Achei a demora fora do habitual. De repente, ele regressa à mesa. Colocou-me o outro copo na mesa, e tira da algibeira um cheque pessoal (lembrem-se que estamos no início dos anos 70) exactamente de 1.500 dólares, que era uma quantia muito maior do que é hoje. Olhei com algo mais do que surpresa, não me lembro se ri ou chorei, a perplexidade minha foi total. Arruma isso, disse ele. Trata dessa tua “urgência” financeira. Não sabia o que dizer, mas pedi-lhe que escrevesse uma nota especificando a hora, o dia e o lugar deste empréstimo. Riu-se, e disse-me com toda a clareza: se eu achasse que isso era necessário, nem um cêntimo te emprestava. E pagar agora? Quando te formares. Olha, pode ser às prestações, ou tudo de uma vez – e sem juros nenhuns, não preciso disso.

Nancy aparece entre nós os dois. Vejo, disse-me ela, que estás com melhores cores e com um sorriso que me agrada. Jerry simplesmente abanou a mão, como quem diz, isto foram outras conversas, que não sobre literatura, que ele adorava. Deve ser a bebida que estamos a tomar e a falar de coisas que nos fazem rir, disse Jerry. Vamos outra vez para a varanda olhar as cidades aqui de cima. Uns dias pouco mais tarde Jerry e Nancy receberiam em sua casa uma comissão de Cuba, que tinha visitado a nossa faculdade para se inteirarem do que lá se fazia. Mais comunistas, segredou-me o Jerry, com aquele seu sorriso de quem nem se importa nem tem medo, tal o seu poder na sua sociedade e banco.

Uns anos depois, Nancy publicaria o seu mais importante livro: The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil, 1964-1985/Gritos Silenciados: Os Escritores e a Literatura no Brasil Autoritário, 1964-1985. É hoje um clássico. Na Amazon, em capa dura, no original, custa quase mil dólares. Dou-lhe um beijo de quando em quando. Ela viajava muito pela Europa, e num desses anos veio a São Miguel visitar-me, saber se estava tudo bem comigo e na minha carreira de Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores.

Quando me falam em “esquerda” e “direita” raramente respondo. Foi preciso um homem sério e de “direita” para me esclarecer a consciência de democrata, para me ensinar tolerância e respectivos gestos e atitudes. Como diria Nietche, somos todos “humanos, demasiado humanos”. O Partido Republicano de hoje nada tem a ver com o de Jerry nos anos 70, nada tem a ver como alguns dos seus bandalhos de hoje. Nem com os banqueiros ladrões em toda a parte do mundo. Não sou reaccionário, de modo algum. Tenho saudades e respeito, entretanto, por esse passado de gente séria, generosa e de ética inquestionável.

____

Nancy T. Baden, The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil, 1964-1985, Lanham, Maryland, University Press of America, 1999. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 15 de Outubro,2021.

Visitas à livraria em Los Angeles do Communist Party USA nos anos 70

Estamos a oferecer aos leitores uma selecção de contos contemporâneos que têm sido recebidos muito bem pelo nosso público leitor multinacional.

Savva Dangulov, Soviet Russian Stories of the 1960’s and 1970’s.

Vamberto Freitas

Primeira observação, que me parece essencial neste contexto. Só estive inscrito no Partido Democrático Americano, e em mais nenhum, nem sequer em Portugal. Segunda questão: a epígrafe que cito neste texto é uma tradução minha do livro que aí vai nomeado, e comprado na livraria em Los Angeles que vai nomeada no meu título. Acontece que ainda na minha Faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton, por volta de 1972-73, fui convidado por um amigo açoriano da minha ilha Terceira, também universitário noutra faculdade muito mais prestigiada, aqui necessariamente sob o nome de “X”, a visitar a livraria do Communist Party USA em Los Angeles. Ia com ele com todo o gosto, mas comprar clássicos russos (e não só) traduzidos ao inglês numa perfeição pouco habitual, mas publicados na União Soviética em edições de luxo, naturalmente subsidiadas por Moscovo, de capa dura, ilustrados e a preço mais do que conveniente para as nossas posses de estudantes. Mais. Eu vivia no condado (conselho) de Orange County, talvez o mais conservador, no pior do termo, e que na altura nem conseguia comprar revistas literárias de Nova Iorque, tal o seu provincianismo e/ou arrogância. Mais tarde tudo mudaria, mas a minha vida já tinha dado outras voltas. Tenho aqui em casa alguns desses livros soviéticos que são cobiçados por certos amigos meus mais chegados. Não levam, nunca os levarão. Desculpem, as memórias mais significantes nem têm preço, e muito menos a minha bondade. Só que esta não é a história que agora quero contar. Há episódios muito mais interessantes do que isto. Fui instado a publicar isto, episódios da minha vida na América, por certas pessoas que não sofrem de preconceitos ou dogmatismos doentios. Portugal é um país simultaneamente de orgulhos (justificados, é certo), e do mesmo modo de uma ignorância aterradora sobre o resto do mundo. Nem os nossos líderes, pelo menos uma parte deles, ao que me parece, atinam com esta diversidade democrática e ideológica.

Era, pois, a altura em que eu visitava a livraria do Communist Party USA. Penso que é o único Partido Comunista cuja raiva ao sistema capitalista é tão grande que se recusa a utilizar o nome de Partido Comunista Americano. Seja como for, as minhas visitas ou frequentação à sua livraria era ainda antes do 25 de Abril de 1974. Eu estava a ser formado em Estudos Latino-Americanos, com especialização na língua inglesa. Portugal já pouco me dizia, e os meus conhecimentos do que se passava por estes lados eram ainda muito menos. A livraria era frequentada predominantemente por velhos comunistas, alguns deles tinham lutado em Espanha pela república na Brigada Lincoln. Certo dia um deles, depois de tomarem alguma confiança comigo e com “X”, perguntou-me o que eu pensava de Álvaro Cunhal, que ele definiu como o teórico mais importante “do nosso partido”, pois eles não distinguiam o movimento comunista internacional por nacionalidades, era simplesmente o “nosso partido” no mundo inteiro. Eu respondi que não sabia quem era, nunca tinha ouvido o seu nome. Levei a maior lição hostil da minha vida. Que te ensinam nestas universidades da burguesia e da classe dominante? Mantive-me calado. Ele explicou-me a importância de Álvaro Cunhal no “seu” partido. Entendeu de imediato que eu era, nessas circunstâncias, um inocente político apesar de eu então já me identificavar com a chamada Nova Esquerda americana, que lutava na rua independentemente contra a guerra em curso no Vietaname, mas passou a tratar-me com todo o respeito. Recebiam, todos eles, revistas e jornais em tradução da União Soviética, mas não os recebiam nos seus endereços pessoais. Atrás do balcão da livraria eram só cacifos. Os correios entregariam ao FBI os seus nomes e endereços. Passaram a receber-nos com a maior delicadeza e civilidade. Outro aviso deles dentro da livraria: quando estiver a folhear livros, revistas ou jornais, se alguém, por nós desconhecido, tentar conversar ou fazer perguntas, dar-lhe-iamos um sinal. Se me perguntassem o que gosto de ler, nunca lhes responderia, ou responderia de uma maneira inócua: jornais literários de Nova Iorque, nunca pegue no Daily Worker (o diário oficial do Communist Party USA) diante deles. Outro alerta útil.

A melhor estava para vir tempos depois. Um dia entro novamente com “X” na nossa livraria preferida, porque era verdadeiramente cosmopolita e transversal a tudo que era de “esquerda”, mas nunca dogmática no sentido desgraçado e mais ou mesmo generalizado em Portugal. Os velhos chamaram-nos à parte, na maior confidência. Suspeitamos, disseram-me eles em linguagem fria e urgente, que a polícia de Los Angeles tinha a sua secção de espionagem a fotografar às escondidas mas de perto todos os que entravam no seu santuário. Solução? Mesmo no Verão, a 100 graus Farenheit, cheguem ao passeio no outro lado da rua, com um guarda-sol preto, aberto. Eles que vão para o inferno, mas não nos apanham. Lembrem-se que estávamos no auge da Guerra Fria e na Idade da Paranóia. Assim fizemos, e eles do outro lado batiam palmas e abraçavam-nos com o maior carinho e solidariedade. Contavam-nos histórias de abrir chão. Nunca vou esquecer essas visitas e esse momentos de pura alegria e, sim, “vingança” ao fascismo disfarçado, que, como todos sabemos, teria o seu apogeu com um bandalho chamado Donald J. Trump.

Depois da minha formação e já como professor antes e depois do 25 de Abril continuei a visitar os meus velhos amigos comunistas. Agora já sem medo, sem guarda-sol e conversa aberta. Em Ponta Delgada tenho alguns dos mais preciosos livros vindos de Moscovo: de M. Gorky, Childhood, Mother, My Apprenticheship My Universities e The City of the Yellow Devil (Nova-Iorque); de Alexandre Pushkin, Selected Works in Two Volumes; de Anton Chekhvov, Selected Works in Two Volumes; de Lev Tolstoy, Short Stories; de Ivan Turgenev, Fathers And SonsA Nest Of the Gentry; de Avner Zis, Foundations Of Marxist Aesthetics; de K. Zelinsky, Soviet Literature: Problems And People. Rejeitar o passado é rejeitar-nos a nós próprios. Estes não me trazem quaisquer complexos, muito pelo contrário. Tenho orgulho – por vezes dor – da vida que tenho vivido e continuo a viver aqui em São Miguel, que se tornou o chão dos meus maiores afectos.

“X” visitou-me de surpresa aqui há uns bons anos. Falámos muito sobre as nossas vivências e aventuras intelectuais. Guardo isso na minha alma com a maior comoção e alegria. Queria-lhe dizer “Obrigado” pelas portas “travessas” em que entrámos juntos, mas de uma riqueza inigualável. Procurei o nome da livraria de Los Angeles, mas não encontrei. O chamado poder democrático da América tem das suas. Não sei o que aconteceu, mas permaneço em contacto com os colegas de São Francisco, e isso só aconteceu através do meu grande amigo, poeta e escritor, Luís Filipe Sarmento. Foi ele que publicou um poema na nossa língua, e depois traduzido por mim (Sou Um Homem Feito De Mulheres Em Verso/I Am A Man Borrn Of Women In Verse)num livro intitulado e já publicado em São Francisco pelos Revolutionary Poets Brigade, sob o título Building Socialism.

____

Yuri Bochkarev, Soviet Russian Stories of the 1960’s and 1970’s, Moscow, Progress Publishers, 1977. Os títulos dos livros soviéticos que menciono aqui vão também na tradução inglesa, tal como os comprei. A foto é de M. Gorky nos seus anos mais novos. Pulicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 1 de Outubro de 2021.

De Mário Mesquita, do Diário de Notícias, e de mim

É, por isso, que o vemos passar do jornalismo para a comunicação, da intervenção política para a conceptualização política, das redacções dos jornais para as escolas de ensino superior e universidades, da construção pragmática para a convicção programática.

Jaime Gama, A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem A Mário Mesquita

Vamberto Freitas

Começo com esta epígrafe do Dr. Jaime Gama porque, para mim, sintetiza o mais claro imaginável a caminhada profissional de Mário Mesquita durante toda sua carreira, que começa logo com a sua partida de Ponta Delgada para Lisboa aos 17 anos de idade. Este grandioso livro de homenagem ao homem cuja carreira ainda continua numa universidade portuguesa contém 814 páginas, com a colaboração de inúmeros nomes associados a várias profissões ligadas aos media em geral e à academias em diversos países, desde antigos alunos e colegas a alguns dos mais conhecidos e respeitados intelectuais um pouco de toda a parte. Primeira conficção minha: fui convidado para colaborar, mas apanharam-me nos meus anos de chumbo e num tremendo bloqueio mental quanto a escrita e mesmo leitura. Já passou, e este meu texto é tanto uma recensão ao livro que li muito atentamente, assim como essa homenagem que eu lhe devo, e por razões maiores. São ainda, estas palavras, um gesto de agradecimento a todos os que responderam à chamada. Mário vai achar o que se segue aqui é um exagero da minha parte, mas não é. Que se diz de um grande homem e jornalista, entre todas as outras posições que ainda ocupa na academia, inclusive os seus anos no estrangeiro, onde estudou, fez conferências e estruturou cursos de jornalismo e de comunicação pública em geral no nosso país? Falam disso tudo os colaboradores de A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem a Mário Mesquita. Pela minha parte tenho de o dizer pela primeira vez: foi ele e o Onésimo Teotónio Almeida que, sem nunca suspeitarem, mudaram todo o meu destino, até ao meu regresso definitivo aos Açores, onde vivo há mais de 30 anos.

No fim de 1979 recebo um telefonema de Mário, já depois de ele ter assumido a direcção do Diário de Notícias. Pensei que um dos meus amigos estava a pregar-me uma partida, e acho que respondi à medida, duvidando se era ele ou não. Era ele, sim, e acalmou-me dizendo que o grande jornal que estava sob o seu comando precisava de um correspondente oficializado na Costa Oeste americana, mais precisamente na Califórnia, e que eu tinha sido altamente recomendado por um amigo comum, que vou citar um pouco mais adiante. Até então eu só tinha publicado uma recensão em Portugal, em 1978, na extinta revista A Memória da Água-Viva, fundada e dirigida em Lisboa pelos poetas e escritores Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros, e o meu texto abordava o livro de Onésimo Teotónio Almeida, Ah! Mónim Dum Corisco!… publicado em 1978. Só que eu já dava aulas numa secundária no Sul da Califórnia e também já colaborava com programas de rádio em língua portuguesa e publicava reportagem e comentários em jornais da nossa imigração. Que pretendia o Diário de Notícias de mim? Explica aos nossos leitores, diz-me então Mário Mesquita, o que são e como vivem as nossas comunidades açorianas naquela parte do grande país. Depois logo se veria. Dali a poucos dias acontecia o abalo de terra desastroso na Terceira, a minha ilha natal, e que desse a conhecer aos leitores do jornal como tinha sido ou era a reacção ao grande desastre do nosso povo. Foi a minha primeira reportagem, creio que com chamada na primeira página. Respirei de alívio, e continuei praticamente todas as semanas. Pouco depois eu abria o leque, tal como tinha sugerido ao Mário o nosso amigo Onésimo, e agora relembra-o no livro aqui em foco.

Escreve Onésimo Teotónio Almeida sobre um tempo ainda antes disto tudo e dirigindo-se a Mário Mesquita, “algum tempo depois, revelando uma consciência preclara [Mário Mesquita] para a época,,. solicitou-me sugestões de nomes para correspondentes do jornal na Costa Leste e na Califórnia, onde residem fortes comunidades portuguesas, maioritariamente açorianas. Recomendei-lhe Eurico Mendes, jornalista do Portuguese Times, de New Bedford, que durante décadas se fez presente no Diário de Notícias, de New Bedford, com bem informadas crónicas, e Vamberto Freitas, na Califórnia. Sobre este último, acrescentei na altura que dele se poderia esperar colaboração mais alargada, uma vez que estava já fazendo notáveis incursões no campo da crítica literária especialmente dedicada à escrita luso-americana e também à norte-americana”.

Mário Mesquita demitiu-se da direcção do Diário de Notícias em 1986, e perseguiu a sua carreira por algum tempo no Diário de Lisboa, e depois como comentador em várias outras publicações e como Professor em diversas universidades. Eu permaneci no Diário de Notícias até 1994, agora sob a direcção de Diniz de Abeu e Mário Bettencourt Resendes. Só que logo no início da minha presença no Diário de Notícias comecei a ser convidado para encontros literários aqui nos Açores e no Continente, pelo conhecimento que alguns escritores já tinham de mim da minha correspondência no Diário de Notícias, e agora noutros periódicos do nosso país. Foi na Maia, aqui em São Miguel, que conheci a minha falecida mulher Adelaide, que um pouco mais tarde mudaria o nome para Adelaide Freitas. O meu destino ficou traçado. Ou ela ia para a América (já era doutorada em estudos literários norte-americanos), ou eu vinha ter com ela para São Miguel. Foi quase atirar a moeda ao ar. Fui eu que optei por voltar ao meu país, sem nunca me ter arrependido, fora da minha tragédia pessoal que foi a partida da mulher que me acompanhou sempre até seu fim. Não era para estar aqui a falar de mim. Se eu não contasse estas curvas radicais no percurso da minha vida não estaria a prestar homenagem e a agradecer a Mário Mesquita aquele telefonema nos tempos idos, e muito menos nas portas profissionais que ele me abriu, e creio que sem nunca pensar nisso. Tenho escrito sobre alguma da sua grande obra, e tenho aqui na secretária o seu genial O Quarto Equívoco: O Poder dos Media Na Sociedade Contemporânea. Tenho ainda de referir que neste A Liberdade Por Princípio Mário Mesquita incluiu um ensaio sem igual e traduzido ao inglês por Peter Ingham e revisto por Clotilde Mesquita, um ensaio que analisa ao mais ínfimo pormenor o funeral de Francisco Sá Carneiro após o “acidente” em Camarate. Nunca tinha lido palavras tão claras, descritivas e analísticas que me colocaram passo a passo, sob todos os ângulos, no dito evento histórico, quando eu ainda residia muito longe no extremo do Pacífico nos Estados Unidos.

“Como é sabido, – escreve a Professora da Universidade dos Açores, Pilar Damião De Medeiros num ensaio deste livro intitulado acertadamente ‘Mário Mesquita: O Jornalista Doublé De Intelectual’ – Mário Mesquita nunca se absteve de ‘falar a verdade ao poder’ e não é, nunca foi ‘um apaziguador nem um fazedor de consensos, mas alguém que investiu todo o seu ser no sentido crítico, na indisponibilidade para aceitar fórmulas fáceis, sempre-tão conciliadoras, sobre o que os homens poderosos ou convencionais têm a dizer, e sobre o que fazem [Edward Said, 2000: 35)”.

Pilar Damião De Medeiros, creio eu, sintetiza aqui toda a essência de Mário Mesquita, uma vez mais, como jornalista e intelectual. A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem a Mário Mesquita inclui ainda uma longa nota biobibliográfica e tudo o resto que este tributo nos poderia oferecer. O livro foi coordenado por Carlos Guilherme Riley, Cláudia Henriques, Pedro Marques Gomes e Tito Cardoso e Cunha.

____

A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem A Mário Mesquita, Vários Autores, Lisboa, Tinta da China, 2021. Publicado hoje na minha página”BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Setembro,2021.

De Mário Mesquita, do Diário de Notícias, e de mim

É, por isso, que o vemos passar do jornalismo para a comunicação, da intervenção política para a conceptualização política, das redacções dos jornais para as escolas de ensino superior e universidades, da construção pragmática para a convicção programática.

Jaime Gama, A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem A Mário Mesquita

Vamberto Freitas

Começo com esta epígrafe do Dr. Jaime Gama porque, para mim, sintetiza o mais claro imaginável a caminhada profissional de Mário Mesquita durante toda sua carreira, que começa logo com a sua partida de Ponta Delgada para Lisboa aos 17 anos de idade. Este grandioso livro de homenagem ao homem cuja carreira ainda continua numa universidade portuguesa contém 814 páginas, com a colaboração de inúmeros nomes associados a várias profissões ligadas aos media em geral e à academias em diversos países, desde antigos alunos e colegas a alguns dos mais conhecidos e respeitados intelectuais um pouco de toda a parte. Primeira conficção minha: fui convidado para colaborar, mas apanharam-me nos meus anos de chumbo e num tremendo bloqueio mental quanto a escrita e mesmo leitura. Já passou, e este meu texto é tanto uma recensão ao livro que li muito atentamente, assim como essa homenagem que eu lhe devo, e por razões maiores. São ainda, estas palavras, um gesto de agradecimento a todos os que responderam à chamada. Mário vai achar o que se segue aqui é um exagero da minha parte, mas não é. Que se diz de um grande homem e jornalista, entre todas as outras posições que ainda ocupa na academia, inclusive os seus anos no estrangeiro, onde estudou, fez conferências e estruturou cursos de jornalismo e de comunicação pública em geral no nosso país? Falam disso tudo os colaboradores de A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem a Mário Mesquita. Pela minha parte tenho de o dizer pela primeira vez: foi ele e o Onésimo Teotónio Almeida que, sem nunca suspeitarem, mudaram todo o meu destino, até ao meu regresso definitivo aos Açores, onde vivo há mais de 30 anos.

No fim de 1979 recebo um telefonema de Mário, já depois de ele ter assumido a direcção do Diário de Notícias. Pensei que um dos meus amigos estava a pregar-me uma partida, e acho que respondi à medida, duvidando se era ele ou não. Era ele, sim, e acalmou-me dizendo que o grande jornal que estava sob o seu comando precisava de um correspondente oficializado na Costa Oeste americana, mais precisamente na Califórnia, e que eu tinha sido altamente recomendado por um amigo comum, que vou citar um pouco mais adiante. Até então eu só tinha publicado uma recensão em Portugal, em 1978, na extinta revista A Memória da Água-Viva, fundada e dirigida em Lisboa pelos poetas e escritores Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros, e o meu texto abordava o livro de Onésimo Teotónio Almeida, Ah! Mónim Dum Corisco!… publicado em 1978. Só que eu já dava aulas numa secundária no Sul da Califórnia e também já colaborava com programas de rádio em língua portuguesa e publicava reportagem e comentários em jornais da nossa imigração. Que pretendia o Diário de Notícias de mim? Explica aos nossos leitores, diz-me então Mário Mesquita, o que são e como vivem as nossas comunidades açorianas naquela parte do grande país. Depois logo se veria. Dali a poucos dias acontecia o abalo de terra desastroso na Terceira, a minha ilha natal, e que desse a conhecer aos leitores do jornal como tinha sido ou era a reacção ao grande desastre do nosso povo. Foi a minha primeira reportagem, creio que com chamada na primeira página. Respirei de alívio, e continuei praticamente todas as semanas. Pouco depois eu abria o leque, tal como tinha sugerido ao Mário o nosso amigo Onésimo, e agora relembra-o no livro aqui em foco.

Escreve Onésimo Teotónio Almeida sobre um tempo ainda antes disto tudo e dirigindo-se a Mário Mesquita, “algum tempo depois, revelando uma consciência preclara [Mário Mesquita] para a época,,. solicitou-me sugestões de nomes para correspondentes do jornal na Costa Leste e na Califórnia, onde residem fortes comunidades portuguesas, maioritariamente açorianas. Recomendei-lhe Eurico Mendes, jornalista do Portuguese Times, de New Bedford, que durante décadas se fez presente no Diário de Notícias, de New Bedford, com bem informadas crónicas, e Vamberto Freitas, na Califórnia. Sobre este último, acrescentei na altura que dele se poderia esperar colaboração mais alargada, uma vez que estava já fazendo notáveis incursões no campo da crítica literária especialmente dedicada à escrita luso-americana e também à norte-americana”.

Mário Mesquita demitiu-se da direcção do Diário de Notícias em 1986, e perseguiu a sua carreira por algum tempo no Diário de Lisboa, e depois como comentador em várias outras publicações e como Professor em diversas universidades. Eu permaneci no Diário de Notícias até 1994, agora sob a direcção de Diniz de Abeu e Mário Bettencourt Resendes. Só que logo no início da minha presença no Diário de Notícias comecei a ser convidado para encontros literários aqui nos Açores e no Continente, pelo conhecimento que alguns escritores já tinham de mim da minha correspondência no Diário de Notícias, e agora noutros periódicos do nosso país. Foi na Maia, aqui em São Miguel, que conheci a minha falecida mulher Adelaide, que um pouco mais tarde mudaria o nome para Adelaide Freitas. O meu destino ficou traçado. Ou ela ia para a América (já era doutorada em estudos literários norte-americanos), ou eu vinha ter com ela para São Miguel. Foi quase atirar a moeda ao ar. Fui eu que optei por voltar ao meu país, sem nunca me ter arrependido, fora da minha tragédia pessoal que foi a partida da mulher que me acompanhou sempre até seu fim. Não era para estar aqui a falar de mim. Se eu não contasse estas curvas radicais no percurso da minha vida não estaria a prestar homenagem e a agradecer a Mário Mesquita aquele telefonema nos tempos idos, e muito menos nas portas profissionais que ele me abriu, e creio que sem nunca pensar nisso. Tenho escrito sobre alguma da sua grande obra, e tenho aqui na secretária o seu genial O Quarto Equívoco: O Poder dos Media Na Sociedade Contemporânea. Tenho ainda de referir que neste A Liberdade Por Princípio Mário Mesquita incluiu um ensaio sem igual e traduzido ao inglês por Peter Ingham e revisto por Clotilde Mesquita, um ensaio que analisa ao mais ínfimo pormenor o funeral de Francisco Sá Carneiro após o “acidente” em Camarate. Nunca tinha lido palavras tão claras, descritivas e analísticas que me colocaram passo a passo, sob todos os ângulos, no dito evento histórico, quando eu ainda residia muito longe no extremo do Pacífico nos Estados Unidos.

“Como é sabido, – escreve a Professora da Universidade dos Açores, Pilar Damião De Medeiros num ensaio deste livro intitulado acertadamente ‘Mário Mesquita: O Jornalista Doublé De Intelectual’ – Mário Mesquita nunca se absteve de ‘falar a verdade ao poder’ e não é, nunca foi ‘um apaziguador nem um fazedor de consensos, mas alguém que investiu todo o seu ser no sentido crítico, na indisponibilidade para aceitar fórmulas fáceis, sempre-tão conciliadoras, sobre o que os homens poderosos ou convencionais têm a dizer, e sobre o que fazem [Edward Said, 2000: 35)”.

Pilar Damião De Medeiros, creio eu, sintetiza aqui toda a essência de Mário Mesquita, uma vez mais, como jornalista e intelectual. A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem a Mário Mesquita inclui ainda uma longa nota biobibliográfica e tudo o resto que este tributo nos poderia oferecer. O livro foi coordenado por Carlos Guilherme Riley, Cláudia Henriques, Pedro Marques Gomes e Tito Cardoso e Cunha.

____

A Liberdade Por Princípio: Estudos E Testemunhos Em Homenagem A Mário Mesquita, Vários Autores, Lisboa, Tinta da China, 2021. Publicado na minha página “BorderCrossings” no Açoriano Oriental. 24 de Setembro, 2021.

Centenário do PEN Internacional e do seu livro comemorativo

A luta do homem contra a opressão, a adversidade e a morte são matéria-prima da melhor literatura que transforma em força a fragilidade humana.

Teresa Martins Marques, Presidente do Pen Clube Português

Vamberto Freitas

Os Dias da Peste/Centenário do PEN Internacional é um grosso volume de mais de seiscentas páginas, escrito em várias línguas, em breves comentários ou mais alongados e com poemas em diversas formas relatam-nos, por assim dizer, de como cada escritor ou poeta viveu e vive a pandemia actual que assola o mundo inteiro. Não vou proceder aqui à história do PEN (Poets, Essaysts and Novelists/Poetas, Ensaístas e Romancistas), digo apenas que estão presentes em mais de cem países, como aliás refere a Presidente do PEN Clube Português, com sede em Lisboa, Teresa Martins Marques. A organização nasceu na Inglaterra em 1921, mas só foi permitida em Portugal após o 25 de Abril de 1974. Pela primeira vez na nossa vida literária foi, por vontade da sua actual direcção executiva e principalmente de Teresa Martins Marques, constituído um núcleo de escritores açorianos que residem no arquipélago e na diáspora, alguns deles e delas presentes neste volume, que também traz uma introdução da nossa Presidente Internacional em Nova Iorque, a escritora Jennifer Clement, e palavras ainda de Emamanuel Pierrat, Presidente do Comité dos Escritores para a Paz, assim como outras palavras de abertura de Graça Fonseca, Ministra da Cultura de Portugal. Para além de eventos e prestigiantes prémios literários, o PEN Internacional tem de estar atento e de denunciar qualquer perseguição, prisão, tortura e morte de intelectuais e artistas nas mais variadas geografias políticas. A lista actual dos membros do PEN, como sempre, contém alguns dos nomes mais famosos na literatura e em todas as outras artes. Quem desejar saber dos pormenores da nossa associação tem tudo ao seu dispor no digital. Num livro tão variado em conteúdos como este torna-se difícil ou mesmo impossível destacar qualquer nome, pois foi precisamente a qualidade da escrita que permitiu a sua inclusão. Por outro lado, os autores de tantos outros países ou escreveram nas suas próprias línguas, ou então optaram pelo inglês por ser a actual língua franca. Os portugueses de várias paragens no mundo lusófono, naturalmente, escreveram na sua língua, assim como outros nos países que têm o português como língua oficial. Vão todos eles nestas páginas mais além da sua condição pessoal, e dedicam as suas palavras a todos quantos já sofreram, em graus diferentes, do vírus sem fronteiras, ou descrevem como a vida das colectividades literalmente espalhadas por todos os recantos do mosso mundo vivem na angústia e no medo. Estranhamente, toda a leitura destas páginas não deprime, antes cria solidariedade, elimina questões políticas, de raças, etnias, de condições económicas.

Por outras palavras, a ausência de rancores ou ressentimentos é o próprio tema predominante em Os Dias da Peste, que já está a ser divulgado por outras editoras colaborantes no mundo inteiro, suponho que menos nos países ultra-autoritários, ou então entra neles clandestinamente. Tudo mudou nas nossas mundividências, mas mantém-se, página a página, a esperança de melhores tempos porvir. Alguns destes escritores vão ao mais antigo dos tempos para nos relembrarem que os seres humanos de toda a parte sobreviveram às piores doenças, ou ameaças de doenças, se bem que todos sabemos que por vezes na História algumas delas ceifaram a vida a milhões de pessoas, e já no século passado. Isto para não mencionar guerras totais que aterrorizaram civilizações no seu todo, sem dó nem piedade. A luta pela nossa sobrevivência possível é constante, diária, e são também milhões os que sofrem no o seu bem-estar com todos os tipos vícios. Os Dias da Peste não é, já neste momento, o único livro de alerta, ou mesmo de algum conforto, mas é um dos maiores, e talvez mais abrangentes entre todos e todas, globalmente falando. Sem dúvida que estas obras vão continuar a aparecer em maior número em toda a parte. Por agora, é este que me traz orgulho de participante e na companhia de outros que se dignaram contribuir com os seus pensamentos, dores e, uma vez mais, certos que agora temos, para parafrasear um dos grandes líderes portugueses quando Lisboa foi destruída em 1755 – de honrar os mortos e cuidar dos vivos.

“A luta do homem – escreve Teresa Martins Marques na sua introdução intitulada ‘Internacionalismo Literário Nos Dias da Peste’ – contra a opressão, a adversidade e a morte são matéria-prima da melhor literatura que transforma em força a fragilidade humana. Por isso, a literatura será sempre o lugar onde a esperança se preserva. Nos nossos dias, a revolta do homem já não é apenas filosófica, histórica ou política, como em L’Homme Révolté. Os pestiferados são também os do dióxido de carbono, do metano, do óxido nitroso, dos gases fluorados, das florestas destruídas, do aquecimento global, que põe em risco a sobrevivência do nosso planeta, em que a temperatura média é de 0,85 graus centígrados, superior à do século XIX, segundo dados do European Climate Change Programme. Noam Chomsky, em Internationalism or Extinction, chamava a atenção para a necessidade de acordos internacionais sobre as questões que ameaçam a sobrevivência da nossa civilização, muito antes da peste covídica”.

Aí está, para contrariar os alarmistas hipócritas ligados à grande finança, a multinacionais que nada protegem para além dos seus obscenos lucros e poluição da Terra, e às próprias farmacêuticas, quase todas elas ligadas a fortes interesses capitalistas, com os seus laboratórios e cientistas medicinais que se contradizem todos os dias, e praticam a chantagem com muitos países e governos mais pobres, culpam uns e outros como se pandemias nunca tivessem origem nas suas próprias terras. Morrem os mais pobres e os ignorantes. Não quero dizer que hoje ou amanhã outros mais bem colocados na vida – porque tem também acontecido – não sofram do mesmo modo, os que têm doenças associadas, sem que ninguém leve isso em conta. No nosso país são os médicos e enfermeiros e enfermeiras injustamente mal pagas e a aturar um cansaço que parece sem fim. Estão cansados também de um sistema que gasta milhões com eleições teatrealizadas, mas nunca com aqueles que nos salvam ou tornam o nosso fim mais ameno e digno. Sei do que falo, infelizmente, e só agradeço aos que estão na linha da frente e têm mais consciência de que os abutres poderosos em todas as sociedades. Quantos e quantas morrem de outras doenças ainda mais graves por falta de assistência ou de lugar nos hospitais?

Os Dias da Peste/Centenário do PEN Internacional coloca muito disto tudo em pratos limpos – ou sujos. Agradeço a todos os meus colegas no mundo que deram forma às suas palavras neste precioso livro. Agradeço aos nossos colegas do Continente que fizeram questão, pela primeira vez, repito, em convidar muitos escritores e poetas açorianos para participarem nesta e noutras actividades literárias, de testemunho pessoal, e de denúncia de atropelos à nossa liberdade de expressão quando justificada. À um grande livro açoriano, Tudo O Que Não Se Pode Dizer, de Pedro Arruda, que aborda fortemente alguns destes temas. Leiam este também, mesmo, ou especialmente, que alguns dos nossos governantes não gostem, Quanto menos gostarem, melhor.

____

Os Dias Da Peste/Centenário do PEN Internacional 1921-2021. Vários autores, Lisboa, Gradiva e Pen Clube Português, 2021. Publicado na minha página “BorderCrossings! do Açoriano Oriental, 17 de Setembro, 2021.

Dentro de um outro labirinto ficcional

Voltamos ao Rio, ao mesmo hotel, ao mesmo cenário, para celebrar duzentos anos de um Grito, cem dos quais vividos por minha mãe.

Ernesto Rodrigues, A Terceira Margem

Vamberto Freitas

Edmund Wilson, uma muito antiga referência minha quanto a crítica ou ensaísmo sobre qualquer escritor, costumava ter como ritual inicial lavar as mãos num gesto simbólico de limpar a consciência para que fosse justo com o autor e particularmente com o livro em causa. Desde há muito que o imito, mas para ainda acertar o meu cérebro à escrita que devo tentar – tentar – fazer justiça à obra em análise e o “julgamento” sempre inevitável nestes instantes. A obra ensaística, poética e romanceada de Ernesto Rodrigues tem sido um acto substancial em todos os sentidos, e escrevi sobre alguns dos seus romances, e com o maior prazer da leitura ou do texto em si próprio. Ler um grande romance deste autor é, como indica o título deste meu texto, entrar irremediavelmente num labirinto literário cujo desafio nunca será procurar uma saída, uma conclusão declarada, mas sim a caminhada entre o desconhecido, e nunca necessariamente a vontade de ver a luz ao fundo da aventura de estarmos meio perdidos entre palavras, diálogos, tempos ou parágrafos narrativos, por vezes tão obscuros como os mistérios verdejantes dos míticos corredores demasiado antigos, mas que representa a condição humana na sua incerteza quanto ao seu destino, sorte, salvação ou morte na nossa incapacidade de encontrarmos de novo uma outra vida e a bondade dos deuses. A Terceira Margem – título feliz dado o nosso crescente hábito de falarmos em povos irmãos mas distantes – tem aqui outra significação: a bondade, a justiça que sempre falta, e muito especialmente a crueldade dos homens e mulheres entre si. Estamos aqui não só ante uma história de séculos, que se estendem de por duzentos e sessenta e seis anos, como avançamos para um futuro que se aproxima, 2020.

A nova crítica americana que vem desde os anos 40 do século passado, sugeria algumas pistas, ou deveres, da ficção, digamos maior: ironia, tom de linguagem, ponto de vista, ambiguidade, tempo histórico, palavras inusitadas na narração, entre outras peças para a análise ou aproximação a textos poéticos e ficcionais. Eliminaram a biografia do autor, e ainda mais a sua reputação entre os seus iguais ou colegas. Toda a teoria da literatura que vem até aos nossos dias não passa de cópia, versão-outra ou “cientificidade” dos mestres sulistas iniciais. O texto, qualquer texto criativo, tinha de se auto-sustentar, ou de nada valia. Só discordo do meu mentor livresco de uma coisa: a biografia de um autor tem tudo a ver com as suas invenções, nenhum deles poderá fugir a esse inevitável pormenor, dos seus sentimentos ou experiência de vida. Foi assim que certa literatura norte-americana se impôs ante os modernistas nova-iorquinos, e elevou os escritores das mais díspares geografias ao seu devido lugar, em pouco levando William Faulkner ao Prémio Nobel (era considerado até então um escritor mais ou menos “regionalista” ou obscuro). Resisto a comparar os nossos escritores a outros, seria como retirar a sua originalidade e capacidades próprias, como ombrearam com os seus pares no restante mundo sem nada dever-lhes. Bem sei que isto poderá ser um exagero da minha parte, pois os escritores lêem-se uns aos outros e consequentemente recebem influências várias. A chamada “universalidade” de uma peça literária é muito difícil de definir. Só a condição humana é universal, as boas obras que nascem de qualquer língua ou cultura poderão ser categorizadas, mas a sua originalidade, repetindo-me aqui, permanece ante qualquer leitor minimamente bem informado ou lido, dentro e fora das geografias em que nasce e vive.

A Terceira Margem tem como fundo referencial sete gerações que descendem de Pedro Álvares Cabral, o navegador que parte para Índia mas antes de lá chegar deixa o padrão português no que viria a ser o Brasil. Como diria José Saramago: a divisão entre autor e narrador é uma invenção dos académicos, que a certa altura nas décadas passadas caíram na ilusão de se sobreporem arrogantemente aos próprios verdadeiros artistas da palavra ou da narração ficcional. Neste mais recente romance de Ernesto Rodrigues não só existem tempos distanciados da narrativa, como também a movimentação do seu narrador ou narradores. Partimos do Brasil, naturalmente, de Portugal e ainda de Budapeste, a que o autor está para sempre ligado por razões de ensino universitário, assim como relacionamentos íntimos e cujo sangue do seu sangue, creio, continua por lá. Uma das características deste seu labirinto vai muito além da história inicial da nossa eterna ligação ao grande país que descobrimos – desculpem, “achamos” – que tanto podem ser relembradas já nos anos 60 do século XX, como dos anos mais próximos de nós. Tudo é contado ou meramente imaginado pelas gerações seguintes. De grandes e estranhos acontecimentos dos seus ou das suas alegrias é feito esta história, sempre com a tragédia de um ou uma a espreitar a sua vida corrente ou sugerindo um outro futuro. Não, não se trata da história inicial da nossa chegada ao Novo Mundo que está aqui em causa. É o futuro dos que seguiriam século após século que os narradores nos transmitem em linguagens ora claras, ora sugestivas, ora ambíguas ou incertas, umas acreditáveis outras parecendo-nos pura invenção ou desorientação mental. Amores e desamores, felicidade, ou dor se se estar vivo e, ainda em perpétuas andanças, mesmo quase todos vindos do longínquo antecessor maior e herói de uma pátria que hoje, bom, não está nunca desfeita, mas sempre à procura de uma outra identidade e integração num mundo que outrora ligou, globalizou com a conhecida violência e com a saudade das praias quietas no seu Ocidente nunca totalmente aceite, ou aceite com perplexidade e mesmo com desconfiança. Cada palavra em A Terceira Margem é de uma viveza inusitada, prendendo o leitor adentro das suas voltas entre “paredes” e à procura da tal luz de saída e conclusão.

“Quando assim, em ferida aberta, os regressos são lentos, sem interesse pela paisagem, que também cansa o corpo desejoso de cicratizar no Tejo. O Expresso d’Orient, no seu luxo de fantasia, fê-lo descer em Paris. O Sud Express, em Lisboa e no Hotel l’Europe, onde chegou a 7 de Dezembro, e soube que também a família imperial. Após dor e indiferença, serenava”.

Fala-se aqui de um dos protagonistas que havia visitado a Exposition Universelle em Paris. Pouco antes disso, fala nos brasileiros que, ouviu discursar em 1880, em festa dedicada a Camões. O círculo está a fechar-se, sem o corte, sempre sem corte, entre uns e outros. Eu tive um outro mentor na faculdade da Universidade Estadual da Califórnia que nos exigia sempre responder à pergunta: isto é um romance optimista ou pessimista? Respondia que nem uma coisa nem outra. Era mais uma representação do estado imemorial em que a Humanidade sempre viveu. As glórias e a tragédias de cada ser humano nunca estariam desligadas. É isso mesmo o que o leitor pensa ou pensará deste grande romance A Terceira Margem. A bondade de uns e a maldade de outros, o carinho de uns sempre seguido da crueldade de outros, a liberdade em convivência com a escravatura, de que nós portugueses somos e sempre fomos mestres, a culpa e a inocência tantas vezes indecifrável.

Já escrevi sobre outros romance de Ernesto Rodrigues e conheço mais ou menos bem a sua obra sobre várias facetas da nossa História, e até os seus livros sobre a nossa imprensa durante regimes muito diferentes. Lê-lo é a aprendizagem de factos, opiniões e, sim, de certo modo, fantasia. Só que há opiniões totalmente baseadas na ignorância, e outras fundamentadas no conhecimento dos factos, ou saídas de relevantes obras de arte, relembro uma vez mais. É esta última afirmação que se aplica por inteiro à presente ficção de Ernesto Rodrigues.

____

Ernesto Rodrigues, A Terceira Margem, Lisboa, Guerra & Paz, 2021. Publicado na minha página “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 10 de Setembro, 2021.

Dos Segredos de Armando Côrtes-Rodrigues e da “sua” Violante De Cysneiros

Parco conhecimento de alguns autores, ou de autores não tão “reconhecidos” nas habituais praças demarcadas pelas leis do mercado livreiro e da crítica, dificulta, sobremaneira, a tentativa, amiúde frustrada, de fomentar o gosto pela leitura e pela análise literária.

Pedro Paulo Câmara, Violante De Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues ?

Vamberto Freitas

Acabei de ler Violante De Cysneiros: O Outro Lado do Espelho de Côrtes-Rodrigues? Dizer que é o maior contributo à minha geração literária é pouco sobre um escritor quase esquecido entre nós A sua carreira de escritor, poeta e cronista desde os anos da mítica Orpheu de Fernando Pessoa em 1915, (o seu melhor amigo de sempre) até ao seu regresso aos Açores é de uma grandeza quase indescritível. Pedro Paulo Câmara, que vive aqui ao lado no Ginetes (São Miguel, freguesia mais ou menos rural), traz-nos agora um livro supremo sobre um dos nossos maiores autores açorianos e nacionais que estava quase totalmente esquecido, uma vez mais, pela minha geração, e por razões também quase inexplicáveis, mas que tentarei neste ensaio esclarecer. “Violante de Cysneiros” um pseudónimo marcante de Armando Côrtes-Rodrigues”, continuou a publicar em jornais açorianos, se bem que mudando de tom e “ideologia”, por assim dizermos, e estética. Já com currículo substancial na academia superior e até na ficcão, que mencionarei mais adiante, este livro de Pedro Paula Câmara, toma uma importância ainda imprevista no seu tempo para os escritores açorianos e continentais que viveram em directo o antes imediato e o pós de Abril de 1974. Trata-se aqui de uma tese recentemente defendida com sucesso numa universidade de Lisboa sobre não só um dos maiores escritores dos Açores, como o amigo mais chegado a Fernando Pessoa, e que começa a publicar na mítica Orpheu a partir de 1915, e que logo no segundo número da revista inquietante para a época assina com a pseudónimo de “Violente”, por vontade do próprio Pessoa, que lhe sugeriu o nome feminino porque a revista precisava da poesia de uma “mulher doentia”, dado que todos os outros colaboradores eram homens. Estamos aqui no mundo de génios, que espantaram toda a nossa tradição literária com o seu modernismo sem amarras nem vergonha. Quando Côrtes-Rodrigues regressa aos Açores para ficar para sempre em 1915, após a sua formação superior em Lisboa, é com com ele que Fernando Pessoa despeja toda a sua alma, a dele próprio e dos seus heterónimos. Numa das suas cartas, quando lhe envia o segundo volume da Orpheu dá-lhe uma notícia deliciosa: Levamos, diz-lhe do outro lado do mar, uma tareia espantosa na primeira página do diário A Capital. A publicidade para um grupo de rebeldes literários e culturais em geral não podia ser melhor. Mudariam em pouco tempo todas as linguagens da nossa literatura, as que vinham desde longe do chamado realismo a partir do fim do século XIX até ao neo-realismo dos anos 30. Nunca mais na nossa melhor escrita seria o mesmo.

Atreve-mo a dizer que a carreira literária de Armando Côrtes-Rodrigues é das menos conhecidas entre nós em todo o nosso país, à excepção de alguns nomes de obras canónicas do nosso ensaísmo e na crítica, como Eduíno de Jesus, que aliás enche justamente a contracapa Violante De Medeiros: O Outro Lado do Espelho De Côrtes- Rodrigues? E ainda outros amigos chegadas aqui após o seu regresso a São Miguel. Ezra Pound dizia que toda a boa literatura era a “notícia fresca” sobre a condição humana. O que Pedro Paulo Câmara faz neste seu livro é isso mesmo. Está mais do que claro que não vou reproduzir aqui esse livro. Só muito poucos entre nós sabia que no seu regresso aos Açores, tanto como professor, ficcionista, poeta e ensaísta em jornais desta sua ilha e na Terceira o seu combate era outro, não totalmente diferente da Orpheu, mas ele retomaria a sua vivência açoriana, e por completo. Em jornais locais e na Terceira defenderia, após Vitorino de Nemésio, o conceito de açorianidade, em prosa e poesia que dava continuidade a todas as as tradições, religiosidade e modo de estar e ser português à nossa maneira. Assinava com nome próprio, com vários pseudónimos, mas sua violante, já aqui nas ilhas, nunca se distanciou da sua pessoa, do proeminente escritor que foi e permanece entre nós. Não vou ocupar o meu espaço limitado nem títulos desses jornais já idos, nem com os nomes fictícios que utilizou, sempre em defesa do seu povo. Pedro Paulo Câmara acaba o seu grandioso livro com essa listagem completa. Digamos só e por agora que a sua grandeza vem desse facto, entre nós precioso: defendeu o modo de vida, as alegrias, as tristezas, e as tragédias de sermos um povo valente, separados da Mâe-Pátria, e sem nada a devermos. Muito pelo contrário. Quando opta pelo seu regresso à sua ilha natal, opta por si próprio. Deixar um pequeno grupo de génios em Lisboa, se bem que mal tratados numa das épocas mais ignorante de Portugal, mais ou menos liderado ou influenciado por Fernando Pessoa (ele próprio com uma costela açoriana na Ilha Terceira), opta pela sua autenticidade tanto como indivíduo e como membro da sua comunidade insular. Nem Nemésio chega lá perto como pessoa, ou talvez sim como autor, que utilizou brilhantemente o seu passado para se para se aproximar das correntes literárias da época, e ao mesmo tempo não ser excluído. Foi assim, no entanto, e durante muitos e muitos anos. Ao ler o livro de Pedro Paulo Câmara ficamos a saber algo mais. Foi Armando Côrtes-Rodrigues que assumiu por completo esta que é a nossa terra, e não precisou de andar a cavalo em Porto Martins e a pretender que sabia tocar viola para ser considerado um dos nossos.

Armando Côrtes-Rodrigues regressa e inicia logo esse seu novo projecto literário em vários jornais açorianos, e dedica-se a tudo o resto das artes que representam a alma do seu povo. Quer sobretudo uns Açores unidos, com História autónoma, e sobretudo sem apologia a mais ninguém na sua multi-secular existência como um outro Portugal, ou um Portugal à distância, com o mar como fronteira e passadeira para o resto do mundo. Pedro Paulo Câmara fez o que mais ninguém faria depois: nomeia alguns dos seus diversos pseudónimos, muitos dos jornais em que publicou, a sua educação desde criança no Convento de Vila Franca e depois em Ponta Delgada fica mais do que patente na sua obra, nunca nega ou seu passado ou as crenças nesse percurso genial de reafirmar os Açores e a sua gente no labirinto da chamada Portugalidade. Ler este livro Violante De Dysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues? é ficar a saber muito mais da nossa modernidade literária, primeiro a partir de Lisboa e de seguida nos Açores, é compreender muito mais ainda não só da nossa profunda caminhada artística, como da história do pensamento e da coragem intelectual. Não se pode pedir mais, temos aqui as páginas completas e um dos acervos mais vivos de toda a nossa literatura.

Pedro Paulo Câmara tem uma já uma admirável carreira académica e literária. Orgulha-me especialmente que começou na Universidade dos Açores, tornando-se hoje um dos mais consequentes dinamizadores da cultura no nosso arquipélago, desde a sua intervenção constante nos Colóquios da Lusofonia, fundados por Chrys Chrystello, a Académico correspondente da Academia de Letras e Artes de Portugal, assim como da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas, e membro do PEN Clube Português (liderado por Teresa Martins Marques) desde 2020.

Falta-me agora ler os seus Contos da Imprudência, livro publicado pelas Letras Lavadas no ano passado.

Uma advertência: Violante DE Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues? Também saiu nesse ano. Só num meio de tricas literárias e “desatenções” de outros escritores impediu, por desconhecimento também, no qual me incluo, de não ter sido declarado e premiado como o nosso maior livro desse ano – nos Açores e em todo o nosso país.

_______

Pedro Paulo Câmara, Violante De Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Armando Côrtes-Rodrigues?, Câmara Municipal De Vila Franca Do Campo, Ilha Nova, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 30 de Julho de 2021.

BORDERCROSSINGS 6

O TANGO LITERÁRIO DE VAMBERTO FREITAS

Henrique Levy

do redor de um tempo recuperado para a vida

A crítica literária tende a ordenar o que literatura concebeu numa expressão de veracidade afastada da lisura do motivo para o surgimento de um poema ou da trama traçada numa novela.

Em primeira instância, o crítico literário remete-se a criar a disposição para supor leitores, permitindo-se, assim, participar da vida das obras recenseadas com o olhar de um místico arrebatador em defesa das palavras, quantas vezes, imprudentemente, deixadas a navegar pelos leitores desolados na gélida infinitude de leituras melancólicas, frágeis, aguerridas e que buscam na construção literária a resposta para ausências ou o simples deleite de um tempo não-esgotado na leitura de um livro. Ao crítico literário cabe decidir da justeza de certas construções sintáticas para construir ou alterar o inefável lugar das palavras ora surgidas como ouro, ora desprezadas como no episódio de Babel. Assim se vão decidindo novas referências aos leitores, mesmo sem eles disso darem conta. Um bom crítico deve propor novas estruturas à volta de um jogo literário em que o autor e o leitor se encontram não em campos opostos, mas num caos complementar. Um não vive sem o outro, e ambos não se sugerem sem que a crítica venha golpear a infinita tentativa para recuperar o sentido e a força das palavras. Assim se destaca uma nova interpretação da estrutura da obra, quantas vezes perdida em partituras, que o tempo da leitura faz avançar sobre a arte de criar Literatura. Se um texto balança num aglomerado de sentidos, e se a mudança de outro desempenho dos significados se cola à dúvida do leitor, então a desconstrução da crítica reveste-se da essência vertida nos íntimos desígnios dos versos, das tramas ficcionadas nos romances e dos leitores, cuja capacidade de indignação surge muito antes da leitura. Toda a interpretação de uma obra tem mais valor quanto mais longe do conceito verdade o leitor se encontrar.

da revelação da vida ao acesso a distintas probabilidades

Não foi sem surpresa que recebi o convite de Vamberto Freitas para me referir ao sexto volume de borderCrossings.

Para um poeta, habituado a consagrar o pensamento a horizontes escoados de versos, a tarefa de escrever sobre uma obra do mais inspirado e respeitado crítico literário da nossa Região afigura-se íngreme e sempre incompleta.

A minha amizade e admiração por Vamberto Freitas não me permitiu renunciar a tão imerecida tarefa.

Vamberto Freitas, através do seu borderCrossings editado regularmente no jornal Açoriano Oriental, vai revelando a importância da Literatura e da sua capacidade de representação da cultura. Abrangendo, também, as preocupações dos leitores em perseverar a possibilidade do conhecimento, dos movimentos das Sociedades Humanas e da Natureza, contido nestas nove ilhas e devolvido nos quatro Continentes, a par de uma indossincrática forma de olhar o mundo.

Vamberto Freitas emerge na crítica literária como uma voz singular dedicada a suprimir, com êxito, as escassas notícias ou artigos sobre Literatura publicados nos jornais dos Açores, tentando resgatar do olvido alguns escritores açorianos, por nascimento ou por opção, que deram vida a textos poéticos ou de ficção, a que Vamberto Freitas procura, através das suas recensões, criar a curiosidade necessária para cativar futuros leitores.

Um dia, Vamberto confessou-me que só escreve sobre livros de que gosta, que presumem mudança ou a feliz continuidade ao aparato literário açoriano.

do bolso que leva as chaves de várias casas

Com sofisticada linguagem, Vamberto Freitas empresta-nos a sua visão do mundo, surgida em textos de maior ou menor literariedade. Cada texto deste borderCrossings desencadeia um novo processo onde o crítico literário se reinventa cultivando no leitor, da sua coluna no Açoriano Oriental, a amplitude desejável para a uma diferente compreensão do universo dos mais variados autores, onde enaltece a habilidade linguística, a criatividade e a transfiguração ideológica do texto a que entrega a possibilidade de uma nova leitura, nunca desvendando o essencial da trama narrativa, ou as possibilidades que um poema tem de nos fazer sentir.

Dotado de inteligência metódica e rigorosa, Vamberto Freitas, sempre generoso para com os autores, cujas recensões publica neste tomo, é dos poucos intelectuais que se entrega à crítica literária publicada regularmente nos jornais da nossa Região.

Inseparável da convicção que só pela instrução o Homem alcança a verdadeira liberdade, Vamberto Freitas em todos os seus textos propõe-se reclamar, para os Açores, Cálice Sagrado da Literatura, o berço do que de melhor se escreve em Portugal. Fascinado pela alma humana, exposta em poemas ou em obras de ficção, o autor deste borderCrossings 6usa um estilo cuidado ao expor ideias e ao indicar diversificadas possibilidades de leitura, concebendo as obras estudadas como construção da existência humana através da uma original criatividade da produção literária. Vamberto Freitas empresta-nos a arte de persuadir a leitura, oferendo-nos uma interpretação que se inspira na distinção entre as essências do universo psicológico e as experiências emocionais vividas pelos autores estudados/apresentados.

Vamberto Freitas encontra sempre a tendência para confiar nos efeitos benéficos da atividade da leitura, não deixando de abordar as obras de um ponto de vista ideológico, tendo em vista a importância da publicação dos seus estudos para a difusão da Literatura produzida nos Açores.

da indiferença e do sentido da ausência

A divulgação das especificidades da Cultura Açoriana não pode estar plasmada nas iniciativas de meia dúzia de deslumbrados por si próprios. O arquipélago é formado por nove ilhas em espaço atlântico e não por uma concha fechada sobre aqueles a quem certa Comunicação Social resolveu conferir espaço de divulgação em detrimento de todos os outros que, respeitando a História e a Cultura do povo açoriano, demonstram coragem de pensar pela sua própria cabeça, desprezando o aceitável e o politicamente correto.

Quando nos propõem apresentar a candidatura de Ponta Delgada e dos Açores a Capital Europeia de Cultura 2027, lembramos um horizonte próximo centrado na discussão de um boi empalhado e no arremesso insultuoso de um responsável político ao digníssimo director de um museu. Não esquecemos querelas mesquinhas entre intervenientes culturais ao serviço de interesses mais ou menos obscuros, enquanto a maioria das ilhas não tem uma livraria e mantêm ao abandono cineteatros e outros recintos que deviam ser ocupados com eventos culturais. Construíram-se espaços museológicos que estão vazios. Não se investe na educação cultural. A dinâmica das bibliotecas municipais e/ou escolares limita-se a convidar autores, a propor horas de leitura e pouco mais. Não podemos esquecer que, segundo estatísticas, (9,4%) dos açorianos são analfabetos. Quase 1/3 dos alunos entre os 18 e os 24 anos não termina os estudos, numa população onde a esmagadora maioria não consegue concluir o ensino secundário. A política cultural dos sucessivos governos da Região Autónoma dos Açores consistiu no receio de saber que um povo com livre acesso à cultura é um povo livre e por isso dificilmente manipulado por realidades externas ao progresso das suas competências culturais, nada acrescentando à autodeterminação cultural, direito consagrado a todos os povos.

da consciência e do refúgio

Mais uma vez, ao publicar o sexto volume de borderCrossings, Vamberto Freitas leva-nos a refletir que a ausência de certas capacidades do cidadão comum está diretamente relacionada com a escassez de bens culturais. Em metáforas sublimadas nos seus textos, o autor aponta a recusa dos sucessivos governos da Região em incrementar uma atenção especial a políticas públicas voltadas para a cultura, especialmente, na divulgação da cultura popular açoriana.

Os textos de Vamberto Freitas relevam, na dinâmica interna da nossa Literatura, um umbral que sustenta a cultura da chamada açorianidade, na medida em que é pela Literatura de temática açoriana que Vamberto Freitas articula o diálogo entre as existências literárias e a História de um heróico povo por elas exaltadas.

Através das suas apreciações críticas, Vamberto Freitas realça as disposições do valor estético na Literatura Açoriana, tornando-o no mais vivo crítico literário disposto a compreender e dar a conhecer as tradições histórico-culturais da Literatura produzida no nosso arquipélago ou que a ele se dirige. Assim se sustém a referência ao ensaio do crítico literário, como ator cultural que não se suspende numa interpretação neutra afastada das pertenças virtudes da obra analisada, mas, pelo contrário, fundamenta-as em critérios articulados por uma metodologia teórica expressa numa linguagem de fácil acesso ao comum dos leitores. Vamberto Freitas junta a este processo a sua capacidade de acerto, intransigência, firmeza e coesão, condições próprias da epistemologia da investigação.

das nítidas aves em voo

Em Nota Breve a borderCrossings 6, Vamberto Freitas afirma: Todos estes trabalhos fazem parte do meu imaginário.

Henrique Levy

Casa da Mediana

junho de 2021

Publicado no “Açoriano Oriental”, 25 de de Junho de 2021.

A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (II)

Emigrou com os pais e os irmãos, aos quinze anos de idade. Saiu da Terceira com o entusiasmo imberbe de quem quer vencer depressa, embalando a imaginação com as estórias de encantamento que ouvira, como essa de sacudir as árvores e delas cair um Outono de dólares.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

I

Contos D’ América contém uma prosa caracterizada sobretudo pela ironia, comédia e pelo drama, tanto dos que se foram como dos que ficaram. Mexeu com a alma de nós todos. Nem deixa passar em branco que as crianças de um bem conhecido bairro da lata ao lado da Base das Lajes, e não só, as que foram dadas ou vendidas à tropa americana de vários escalões. Quem optou por nunca partir sofreu do mesmo modo dos que se foram. Por vezes, o narrador faz como que um riso vivo a auto-referências de outros romances seus que foram denunciados pela Igreja, como Murmúrios Com Vinho De Missa e Marta De Jesus (A Verdadeira), goza com a ficção de ter de se justificar perante o Vaticano. Não faltam sequer nestas páginas uma prostituta ou prostitutas com ganas dessa vida para dar de comer aos seus ou por gosto próprio, nos dois países que passariam a ser os seus, como no conto “A minha Estela”, e que em parte satisfaziam a fome sexual de americanos e de outros numa casa terceirense com o belo nome de Paz e Sossego.

Fiquemos por aqui, e sigamos com uma citação do conto “João, John Juan”, que nos mostra a transfiguração de uma personagem que percorre as mais variadas e inesperadas profissões e mundos nada comuns entre os nossos imigrantes, começando na ilha Terceira, passa alguns anos pela América e acaba no México. Trata-se de uma caminhada de vida singular, tão corajosa como cómica aos olhos de outros, aos que lerão estas novas páginas de Álamo Oliveira.

“João Pereira (nos Açores), John Perry (na Califórnia e Juan EL Portugês (no México) foi uma pessoa bastante conhecida… Da inteligência, dir-se-ão os sucessivos cursos tirados em Faculdades insuspeitas, todos voltados para a necessidade poética do ganha-pão, que fizeram com que mudasse de profissão como quem muda de camisa, numa cadência social muito alternada com prestígios, ora altos ora baixos. Começou por ordenhar vacas numa leitaria do Chino; vendeu automóveis e bolachas dietéticas na área da grande Los Angeles; preencheu declarações de indeclarantes que não sabiam ler nem escrever empurrando-os para o fisco; deu aulas de americano a indocumentados; foi orador sacro em concurso ganho pelo seu muito saber e talento: acabou num porta-a-porta cirúrgico, promovendo a venda de acrescentos de pénis a quem se sentisse mal servido…”.

Todos estes Contos D’América são um riso constante, sem nunca denegrir as personagens, a sua legitimação como seres ficcionais completos, nunca trespassam o drama ou a comédia que são, afinal, as vidas de nós todos. A capacidade poética do Álamo Oliveira é quase sempre transferida para a sua prosa desde os seus primeiros romances. Aliás, Emanuel Félix, o falecido supremo poeta açoriano, escreveu na contracapa da primeira edição do romance Não Gosto de Chocolates, referido anteriormente aqui. “Alguém o assinalou, de resto, com absoluta pertinência, ao falar de Álamo Oliveira e referindo já o sentido de humor, a tensão dramática e outras situações implícitas na prodigiosa humanidade com que o autor povoou centenas de páginas, todas elas marcadas por um incontestável virtuosismo estilístico”.

Todas estas palavras aqui citadas sinalizam essa sua consistência literária em toda a sua obra. Uma vida inteira a pensar a sua e nossa sorte entre dois mundos bem diferentes, mas que desde há muito fizeram parte do nosso destino. Sei que não se deve catalogar ou enredar um autor numa determinada visão da vida, em mutação constante. Álamo Oliveira é, no entanto, um existencialista, um escritor cujas personagens e escolhas do seu lugar na comunidade ou sociedade onde vivem é sempre da sua própria responsabilidade. Só que, desse modo, acaba por retratar um pouco de nós todos, e nesse processo de reinvenção, sim, a natureza da cultura ou mundividências colectivas.

II

Esta foi a estação de Álamo Oliveira. De uma vez publicou quatro livros. Para além dos contos que venho recenseando, tem ainda O Sábio Da Miragaia (romance), Caderno Das Letras (ensaios sobre literatura predominantemente açoriana), e Telas & Cores (sobre vários pintores das ilhas ao longo dos tempos). Um pouco antes mas ainda este ano saio Poemas Vadios, todos eles da Companhia das Ilhas, das Lajes do Pico, a editora empenhada também, creio, na reedição de toda a sua obra. Em qualquer um deles, directa ou indirectamente, as nossas comunidades de além-mar estão sempre presentes, fazendo das nossas ilhas continentes repartidos e alongados. Um dia vamos todos perceber que não é possível qualquer história credível da nossa contemporaneidade sem esse facto levarem em conta todo e qualquer historiador/a. O tempo dos nossos complexos quanto a um estatuto de e/imigrante desde há muito foi ultrapassado. Tal como os brasileiros já falam de “comunidades” abertamente, e de “favelas” só às escondidas, entre nós recusamos essa dualidade meramente linguística. Ser “emigrante” ou “migrante” é, outra vez, a condição de vida mais universal. Já não poderemos esquecer ninguém, nem sequer os luso-descendentes em toda a parte. O poeta, também ele vadio ou andarilho, sabe disso, e na sua escrita raramente lhe escapa. Eis aqui “as amigas de taunton”:

as amigas de taunton gostam

da américa devagar como se fosse de mim

sabem cantar como se bordassem a ponto cruz

e choram como se tomassem um remédio.

As minhas amigas de taunton descem

dos altares até perderem a inocência

e vão trabalhar porque o pão não é de graça

na américa têm tempo para beijar os filhos

amar os companheiros sempre que necessário

odiar os ventos maus da fita que bem merecem

o desprezo das minhas amigas de taunton

não se julgam de julgadas não se perdem

de perdidas e sempre se dão bem em cada estação.

Deixam ao passar um sorriso pacífico

– pássaros em formação de fuga para os açores.

As minhas amigas de taunton são guerreiras

de água e sal. Quando se juntam

formam um lindo ramo de sonhos.

As minhas amigas de taunton estão

como deve ser: velhas amigas como eu.

Eis aí, no plural, “como deve ser” toda a nossa história de povo que sempre embarcou ou voou não só em busca do Sonho, mas também – o que poucas vezes é dito ou escrito – em fuga a um país que apesar dos seus séculos de existência nunca se definiu ou acomodou com justiça e igualdade a maior parte da sua gente. Virado para dentro ou para fora da Europa e do Atlântico, pertenceu sempre a uma minoria de privilegiados, e o resto que se fosse amanhando como podia ou sabia. A emigração terminou? Isso só se deve às circunstâncias da globalização que se abre para a grande finança e se fecha para a humanidade. Como açorianos temos boa parte da Europa aos nossos pés, mas sem a nossa história de povo que chamam de periférico. Olhamos desde sempre para o grande Oeste. Não? Cabe agora à literatura reavivar a nossa longa e funda memória – individual ou colectiva. O que vai dar no mesmo para quem souber ler e reflectir o que está e não está escrito. Toda a arte é essa dualidade perante mente e olhos: domínio da nossa dignidade ou o susto da nossa sorte, toda a humanidade nas suas contingências de vida e morte, de felicidade e tristeza.

____

Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. A segunda parte deste texto não foi parte do meu ensaio. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental do dia 14 de Maio de 2021.

A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (I)

Penso na grande viagem a que me propus, sujeitando-me a um continente de grandes fortunas e de não menores usurpações, revendo uma geografia até agora, por mim conhecida apenas em filmes.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

Escrever sobre Álamo Oliveira e a sua obra não é nada fácil dada a sua grandeza literária e o número de livros já publicados (mais de quarenta), muitos dos quais são uma espécie de dialogismo bakthiano uns com os outros e com a própria sociedade, ou então fundamentados em histórias que ele próprio viveu, transfigurando-as em personagens que não nos leva a reconhecer a origem da sua criação. Acontece que desde há muitos anos as suas visitas e estadias nos Estados Unidos são frequentes, indo lá como escritor e encenador, ou então para conviver com a família. A verdade é que a América tornou-se-lhe incontornável por essas, e ainda outras razões. É a partir dessas suas andanças e convivências que começam a brotar de si as mais variadas histórias da nossa imigração naquele país, incluindo alusões directas e indirectas nalguns dos seus poemas. Antes de mais, este autor pertence a um grupo que cortou na literatura com os então retratos caricaturais dos que tinham saído das nossas ilhas em busca do sonho americano, esses que se limitavam a meramente transcrever o que pensavam ser os seus compatriotas vivendo e fixando-se permanentemente no grande país a ocidente, de quando em quando, muitos deles regressando à sua terra atlântica de origem com roupas naturalmente muito próprias e linguagens recortadas entre duas línguas. Foi Álamo, tal como Vasco Pereira da Costa num brilhante livro de poesia intitulado My American Friends, que em Portugal cortaram com toda essa visão supostamente cómica, devolvendo aos seus compatriotas toda a sua humanidade e direito à diferença.

Hoje nos Açores esse modo de estar e ser tornou-se comum entre nós: estilo de vestir entre os mais novos, e um discurso que, de frase em frase, mete uma palavra em inglês, a maior das vezes mal pronunciada mas fazendo do seu falador um rapaz ou rapariga que acha conhecer o mundo através de uma ou outra canção anglo-saxónica, de filmes e séries televisivas. Nem conhecem a América, e muitos historiadores queixam-se que nem sequer a história do seu próprio país. Tudo isto só para reafirmar aqui que a décima ilha existe, desde o Canadá e os EUA até no Maranhão ao extremo sul do Brasil. Cabem à arte e a outros discursos recolocar tudo no seu lugar, enriquecendo o nosso cânone literário nacional, e manifestando a seriedade dos seres humanos que optaram por vidas diferentes, economia e cultura geral, tudo que determina o modo de estarmos no mundo, e isso não implica nada com o lados cómico ou existencial de vidas reinventadas, de linguagens diferentes mas cuja mistura fazem parte do mais íntimo ser e vivência quotidiano em qualquer sociedade. Toda a literatura, em qualquer dos seus géneros, é a memória de um povo ou povos, essa que vai além de nomes e datas, guerra ou paz, que são dado vivermos. Relembro neste momento que também a escrita em inglês por imigrantes de primeira geração acontece desde há muito, e a partir dos anos noventa entre muitos dos nossos descendentes, um pouco por toda a parte, muito especialmente na América do Norte e, uma vez mais, no Brasil. Em inglês ou português, são eles que nos perpetuam ou replantam as nossas raízes noutros solos.

Em Contos D’América Álamo Oliveira dá, de certo modo, continuidade a um outro romance seu situado na Califórnia, Já não gosto de Chocolates, primeiro editado em Lisboa pela extinta Salamandra em 1999, depois reeditado pela Companhia das Ilhas (que vem republicando muita da obra de Álamo Oliveira), das Lajes do Pico, em 2017. A relevância da primeira edição não só estava assim reconhecida, como muitos anos depois viria a ser traduzida na América para o inglês, e em Tóquio para o japonês. Apresenta-nos nesse outro romance a vida de fortuna e desfortuna de uma família imigrante e de luso-descendentes liderada por um protagonista de nome Joe Sylvia, com todos os gostos e desgostos de filhos que tanto andam na linha tradicional dos pais e dos seus antepassados num de trabalho contínuo e duro na agro-pecuária na sua época dourada californiana, como divergem nas suas orientações pessoais no que diz respeito a opções divergentes que, entre outras, envolvem a sexualidade de um dos seus filhos. É uma obra que fica como marco indelével da nossa existência longe da casa natal numa das nossas ilhas, que “humaniza”, repito, ou devolve a cada personagem a complexidade que é o existencialismo de qualquer ser humano. Sendo uma visão da América vinda simultaneamente de fora e de dentro (lembrando-me outro romance que foi escrito muito perto de mim), Álamo Oliveira disse definitivamente, uma vez mais, adeus à brincadeira de outros que residiam no arquipélago e nos olhavam como seres exóticos e igualmente ignorantes sobre o quanto aconteceu nos Açores após a nossa partida. Cheguei a ouvir que “a América era agora aqui” durante os anos iniciais da ajuda financeira europeia. É certo que hoje vivemos todos numa grande arca devastada, de vida e morte que pode acontecer no dia-a-dia. Também é certo que o nivelamento parece vir por baixo para todos os países, mas desconfio. Muitos emigrariam amanhã para a América se fosse de todo possível. Só que já (no momento em que escrevo) não aceitam os nossos transatlânticos aterrar nas suas pistas, e choram do mesmo modo a Base das Lajes sem grandes números de “américas” e sem os empregos e investimentos que mudaram uma ou mais ilhas açorianas para sempre.

O próprio título Contos D’América denota de imediato (ao contrário do que seria “Contos Americanos”) que se trata de uma visão dupla do nosso destino entre os Açores e os Estados Unidos, com a acção e personagens como que entaladas entre duas realidades, uma influenciando decisivamente a outra. São onze contos que criam ou reinventam personagens nas duas sociedades. Na minha leitura permanece a ideia de que dominam as mulheres na sorte de todos, famílias e relacionamentos pessoais, questões de um povo dividido por bens e lutas nos dois lados das suas vivências. O narrador, ele próprio, vai-se surpreendendo com o desfecho de cada narrativa, ironia e humor puro presentes em cada uma das suas histórias. Estou em crer, como muitos outros leitores, que a forma do conto é uma das mais difíceis para qualquer escritor. Tem de revelar, em pouquíssimas páginas, toda uma história com princípio, meio e fim, enquanto nos transporta para o interior de cada ser por ele inventado. Retira ainda em transfiguração total “personalidades” e o seu viver tanto da imaginação pura como utiliza, suponho, pedaços de vida que ele conheceu em directo tanto nos Açores como nas suas visitas à América. Como no seu já referido romance anterior sobre o mesmo tema, o narrador olha para as duas sociedades com a frieza e o calor que as duas sociedades lhe provocam. Dos Açores, serão pouquíssimos os que emigraram como “aventura”, e a vasta maioria por necessidade económica ou financeira. A pobreza da nossa terra contrasta gritantemente com o que ele encontra na América, mas não fica por aí. Olha e vê vivamente o outro lado da sociedade que sempre mais nos atraiu: vidas falhadas, famílias desfeitas, a comédia existencial de alguns personagens que fogem ao estereótipo que temos das comunidades a oeste.

Contos D’América não é só sobre os que se foram, mas boa parte também sobre os que ficaram na pasmaceira de décadas passadas, a braços com a sobrevivência e tendo depois de partilhar as suas propriedades com os que os visitam periodicamente, e têm de dividir a pouca ou muita terra e casas de que desfrutaram na ausência longínqua das suas famílias

_____

Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente e mais extensiva, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. Publicado ontem (7 de Maio, 2021) no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.