Do intelectual público no nosso tempo – III

Por algum tempo os nossos líderes, tanto os demagogos como os honestos, andam a dizer-nos que nos movimentemos para um grande projecto, nacional e privado. Walter Lippmann sugere que os Estados Unidos se comportam como uma sociedade que se pensa completa, realizada, com nada mais a construir; que somos, para o mal e para o bem, quem somos, e os únicos perigos para o nosso conforto vêm do exterior.

Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992

Vamberto Freitas

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. Topemos apenas a sua corrosiva ironia. O seu discurso de intelectual público poderia não ser lido pela maioria dos americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república”, dizia, para um “império” arrogante e naturalmente dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do lugar que o império todo poderoso do século XX impunha ao mundo, e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temperava a raiva e o desgosto que ele sentiu durante quase toda a sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays (Daniel Shays liderou uma revolta armada poucos anos depois da independência contra o novo governo em Washinghton e o que eles perceberam ser já suas injustiças e políticas de desigualdade económica e financeira) não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso, é uma acusação sem resposta aos que se apoderaram do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria, fazendo dessa sua imortalidade como que um outro desafio sorridente aos que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo, e derramará sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados Unidos.

A visão de um rico continente vazio – escreve Gore Vidal em 1972, no ensaio que dá o título ao livro aqui citado – ainda faz parte do inconsciente americano apesar da sua numerosa população e consequentes misérias; e esta persistente crença num céu em que cada homem pode enriquecer através do seu trabalho duro e vivência puritana é a chave para entendermos o inabalável e aparentemente inalterável ódio da maioria para com os pobres, que mantém fora da sua visão aqui em terra própria, assim como no estrangeiro”.

Não sei o que pensaria Gore Vidal da actual e estranha experiência económico-financeira em curso no seu país, mas creio que as suas palavras carregam em si um pouco comum entendidemto ideológico dos Estados Unidos, ou melhor, da mítica que nunca deixou de ser alimentada. A maioria revoltada continua a acreditar que todos os seus falhanços são provocados pelos marginalizados e oprimidos, e nunca pela classe dominante, que Vidal dizia ter só um partido político escondido ou disfarçado nas palavras democrático e republicano – o Partido da Propriedade. Tal como Edmund Wilson já aqui referido quando dizia que já não se reconhecia naquele país, Vidal faria as malas e partiria mais ou menos permanentemente para a Itália após a reeleição de Richard Nixon. Manteve casa, sempre, na sua América, e até chegou a concorrer para governador da Califórnia nos anos 80. Só que nunca cedeu na sua visão da história dos EUA, e nunca poupou a classe política ao serviço dos grandes interesses e verdadeiros “donos” do país. Entre as previsões fictícias de um Sinclair Lewis em It Can´t Happen Here (1935), e os ensaios de Homage to Daniel Shays (1972) de Gore Vidal, a única mudança foi um surrealismo aprofundado da recente eleição presidencial e a estranha figura que dela sairia vencedora.

Edward W. Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo (escrito entre 1975-1976, e de que Noam Chomsky, entre outros, foi um dos seus primeiros leitores antes da publicação) transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com que olhávamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção essencialmente subjectiva que os escritores ocidentais, particularmente alguns autores britânicos, nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender outros mundos e povos. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria imagem, a nossa maneira de ser e estar num grandioso mosaico humano. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há naquelas páginas qualquer pretensiosismo cosmopolita, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as nossas linguagens comuns. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda estão juntos e andam por aí, actuam nos mais diversos países. Não será por mero acaso que Edward Said aparece bem no centro do recente romance Bússola, do francês Enard Mathias, uma brilhante ficção precisamente sobre as fantasias ocidentais de amores e desamores perante o Médio Oriente, no seu passado e presente.

Ao contrário dos americanos, dos franceses e dos britânicos – muito menos do que dos alemães, russos, espanhóis, portugueses, italianos, e suíços – têm uma longa tradição que chamarei aqui de orientalismo, um modo de encontro com o Oriente fundamentado num no lugar especial que esse Oriente – escreve Said precisamente na sua obra intitulada Orientalimo ocupa na experiência ocidental. O Oriente não é uma mera geografia adjacente à Europa; é também a geografia das suas mais antigas e ricas colónias, a fonte da sua própria civilização e línguas, o seu concorrente cultural, uma das mais profundas e recorrentes imagens do Outro”.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder, para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com quem dei início a estes meus textos. Obrigado, não só por seres quem foste e és sempre. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu na minha juventude ensaiava a minha própria reinvenção, redefinia a minha identidade luso-americana – e enfrentava desse modo a luta por uma nova vida californiana.

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Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992, New York, Random House, 1993.

Edward W. Said, Orientalism, New York, Vintage Books Edition, 1979.

Edward W. Said na foto.

Do intelectual público no nosso tempo – II

Eu sempre me pensei um patriota e sempre tive, no passado, a preocupação de comparar favoravelmente os Estados Unidos com a Europa e com a União Soviética; mas o nosso país tornou-se agora um gigantesco poder desatinado e controlado mais e mais por burocracias cujo governo está cada vez mais difícil de justificar numa tradição de individualismo americano; e porque não posso aceitar este poder ou estes propósitos ou os seus modos de o financiar, tenho finalmente sentido que este país, quer eu continue a viver nele ou não, já não é para mim.

Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest.

Vamberto Freitas

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência regional? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas dirigidas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e a seriedade intelectual e de cidadania. Nunca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica literária pura, ou mesmo uma de mera escrita circunstancial numa periódico generalista, como a revista Vanity Fair, ou na deliciosamente elitista The New York Review of Books, ou ainda na The New Republic, revista erudita onde ele acabaria a sua carreira, lugar que só George Steiner viria a ocupar depois da sua morte. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que queria dizer sobre o modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the 1870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties), indo ainda em busca da vida e das tradições culturais de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, uma tribo nativo-americana do norte do estado de Nova Iorque sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento económico, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essênios, tentando demonstrar a dignidade, valor artístico e lugar histórico na modernidade que marginalizava e esquecia essas nações isoladas num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as Caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publicando de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aberto aos seus leitores – The American Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar durante cinco anos nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este fazia em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pela Internal Revenue Office (IRS), condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, condenava-o a uma penúria quase absoluta, e por isso foi aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada significa, acima de tudo, a derrota que os nossos pais fundadores queriam para um novo país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exacto de que necessitamos”.

Wilson, nos seus últimos dias de vida, folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia nesse país, aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele nunca tinha sido fã, pois não se esquecia que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido ingloriamente a vida numa Hollywood que ele, uma vez mais, nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinham levado a ver sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

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Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest, Straus, Farrar And Company, 1963.

Do intelectual público no nosso tempo – I

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em que a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Um pouco depois de aluno já com licenciatura em Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, de um autor que me era então totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizado na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara severamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e nunca tinha visto o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e sabia muito bem o significado de “lusalândia”. Pensei de imediato que isto tudo tinha a ver também comigo, já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente ou indiferente ao que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvilleano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali escrito. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha, mas já mais minha do que eu pensava. Era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e as conseguia exprimir sem complexos ou medos públicos. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia ocupa um dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever comentários críticos sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu ambivalente relacionamento com o restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso, particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts. Escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios, A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinante no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, sendo acusados de “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinham de uma certa e pouco moderada esquerda residente em Lisboa e arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é que persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos anos de separação da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, vale tanto quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens, da sua terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua voz pública no continente, e muito menos nas ilhas.

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Onésimo Teotónio Almeida, Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, Coimbra, Atlântica Editora, 1975.

Ser um estranho em casa própria

A chegada a Lisboa, a vista do cais foi um desapontamento. Tudo aquilo me pareceu feio, desarrumado, mal-amanhado.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II

Vamberto Freitas

Não estou certo se a palavra “pátria” aparece neste volume das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/MemóriasIILisboa (1947-1955), mas sei que as palavras “pelintra” e “pelintrice” abundam nesta sua magnífica prosa autobiográfica em praticamente tudo que diz respeito à vida quotidiana e intelectual do nosso país na época que vem demarcada no próprio título do livro. Antes de mais, será preciso explicar ou relembrar a alguns seus leitores que sendo este o segundo volume das suas memórias, foi o último a ser escrito, tal como nos explica o próprio autor numa nota inicial, por razões de idade e querendo ele “assegurar” os períodos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento em Moçambique até aos diferentes períodos da sua vivência na terra natal, que terminaria como resultado do 25 de Abril de 1974, e de seguida a sua vinda definitiva para Portugal. Não vou repetir aqui o que já escrevi sobre esses seus outros momentos e incidentes numa longa viagem repartida por dois continentes e diversos países. Relembrarei só que estamos perante uma das mais originais e longas caminhadas de um português, desde a sua carreira em petrolíferas em Moçambique até a Adido Cultural na nossa Embaixada em Londres, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, a Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, por entre outras paragens internacionais e actividades intelectuais. Eugénio Lisboa fez das ideias e da arte literária a sua verdadeira e mais significante “pátria”, ou ainda um exemplo de como um filho relutante de um império caído teve de se movimentar para a salvação da própria família e insistência na concretização de uma realização literária. A diáspora lusitana contou sempre com alguns dos seus filhos e filhas mais distintas um pouco por toda a parte, mas Eugénio Lisboa foi dos poucos que acabaria, apesar da sua visão crítica da terra-mãe, por regressar e levar a bom porto a maior parte da sua obra literária, feita do mais sério e esclarecedor ensaísmo sobre muitos outros escritores, assim como a sua própria poesia em que sobressai A Matéria Intensa. O presente volume destas memórias é marcante de vários modos, pois relata-nos o seu primeiro embate com o que ainda era a capital do império, e depois a sua experiência “militar”, desde Mafra a Portalegre como relutante cadete e aspirante a oficial no nosso exército, aqui tratado como uma agremiação kafkiana, na altura sem guerra e provavelmente pensando-se sem inimigos à vista, até ao início, que viria poucos anos depois, da nossa última aventura sangrenta e decisiva em África.

Nunca tinha lido uma visão tão negra e deprimente da nossa terra, mas a sua prosa é de tal modo viva e genialmente estruturada que se torna arte pura – memória e imaginação que mais caracterizam um grande romance de época e de ideias, que acaba por nos lançar o “clarão” histórico de que nos falava Walter Benjamin, ou muito do que nos explica os dias que hoje vivemos, ou sofremos.

Era a primeira vez que o jovem africano de pais portugueses vinha a Lisboa, a cidade que nos diz ter imaginado dos livros, tal como já tinha imaginado Paris nas obras de outros escritores. Leitor omnívoro desde a infância, o mundo fora do Índico constituía um imaginário de pura grandeza e sofisticação em tudo que as artes retratavam ou transfiguravam. Nesse ano de 1947 encontra uma cidade que ele diz decrépita, claustrofóbica, de ruelas e bairros sujos, e acima de tudo triste. A II Guerra Mundial tinha acabado há dois anos, mas a sociedade salazarista pedia que não se falasse no “coitadinho” do Hitler, pois já tinha morrido. Quando ingressa no Instituto Superior Técnico haveria de viver uma das suas mais desesperantes experiências académicas – desde colegas de uma ignorância que ele nunca tinha presenciado nos seus estudos secundários laurentinos a professores de uma mediocridade quase indizível, ou então de uma arrogância e vinganças mesquinhas que pouco ou nada tinham a ver com a formação dos mais altos quadros técnicos do Estado ou de qualquer grande empresa cá ou nas colónias. De qualquer modo, Eugénio Lisboa continua a ler os mais diversos escritores estrangeiros, privilegiando sempre os clássicos ou os modernos franceses (Montherlant e Stendhal sempre na primeira linha), mas raramente encontra um colega que o acompanhe no seu irreprimível fervor intelectual. Passa quase todo o seu tempo a ir ao teatro, ou a comprar os livros da sua preferência que ia encontrando numa ou noutra livraria lisboeta, ou por onde passava e ficava por uns dias ali por perto. Quando chega ao quinto ano do curso é obrigado a continuar o seu treino militar em Mafra, e o que diz dessa experiência seria mais do que suficiente para qualquer polícia política de uma ditadura o encarcerar numa cela, desde a estupidez dos seus oficiais até aos treinos sem tino na artilharia daquele campo aonde D. João V tinha escravizado e gastado a fortuna maior de Portugal num “palácio”, que só séculos depois José Saramago (que Eugénio Lisboa me desculpe aqui a referência) descreveria no Memorial do Convento. O autor passa os seus dias com África na alma e na memória, a saudade vivida, que só as esporádicas visitas da família ou um ou outro reencontro com algum conterrâneo ou conhecido vai atenuando. Após uma relação mais ou menos amiga e íntima e a consequente a gravidez de uma companheira, que lhe daria o seu primeiro filho, regressa a Lourenço Marques destroçado por algum tempo, e antes de terminar a sua licenciatura.

Não queria aqui apenas resumir a parte fulcral desde volume de Acta Est Fabula, mas sim fazer perceber as razões principais que trazem o seu autor a Portugal, até então um país imaginário. Que me desculpem os meus conterrâneos continentais, mas tenho de dizer que um ilhéu açoriano lê estas páginas com uma empatia que só a portugalidade à distância permite. Do mesmo modo, este embate com o território historicamente “pátrio” provoca-nos uma sensação de “estrangeirados”, não como os que saem para o estrangeiro e depois regressam, mas sim entre os que lá nunca tinham estado. Só muito devagar, e só com a mesma língua acontece a aproximação ao país no seu todo e na sua diversidade, mesmo no contexto da pequenez territorial. Mais do que qualquer outro factor de suposta “identidade”, será talvez a literatura numa língua comum que nos permite ou oferece uma “comunidade imaginária”, um sentido de pertença.

O momento maior e, para mim, mais brilhante desta narrativa de Eugénio Lisboa é quando conhece e encontra em Portalegre pela primeira vez o escritor que ele já tinha lido minuciosamente, e cuja obra, até hoje, o levaria a escrever algumas das suas mais memoráveis e fundamentais páginas ensaísticas, – José Régio. Quer em tertúlias de café quer em visitas a sua casa, a presença e o diálogo constantes com o autor de O Jogo da Cabra Cega e Poemas de Deus e do Diabo permitiram-lhe aturar o resto dos dias em tarefas do que ele chama uma “tropa fandanga” encarregada de defender o país de uma hipotética e nunca vinda invasão castelhana. Absorvi estas páginas pelo seu humor, sarcasmo e ironia sem par nesta incomparável escrita autobiográfica. Retive destes seus momentos na presença de Régio algo muito parecido com o que eu próprio senti na presença de Eugénio Lisboa pela primeira vez, quando a escritora Teresa Martins Marques aqui há uns anos, na Costa da Caparica, me apresentou ao próprio autor de Acta Est Fabula, que já era um mestre meu sem ele saber, que eu já o tinha na conta dos que me haviam servido de exemplo em tudo que à literatura e à leitura diz respeito, um “significant other”, que me deixou quase sem palavras e receio de me espalhar com qualquer observação menos própria ou minimamente inteligente. O que Eugénio Lisboa diz desses dias com José Régio, e depois de uma vida a estudar e a comentar a sua obra, é mais do que literatura no seu pleno poder, é muito mais do que confessionalismo literário e existencial. Deveria servir de exemplo às gerações presentes que se esquecem ou nunca sequer ouviram dizer que ao seu lado estiveram e estão alguns dos melhores escritores do mundo, que não há a mínima contradição em admirá-los como parecem admirar outras referências literárias e culturais nas mais longínquas e até desconhecidas geografias. Ficariam pelo menos a saber que a chamada globalização é mais um conceito abstracto do que uma realidade, que não há como fugir a uma história, a uma língua, e sobretudo a uma Tradição que nada tem de superior ou inferior a qualquer outra, mas é a nossa.

Os cinco volumes de Acta Est Fabula ficarão, assim, como uma obra literária referencial. Vai além da mera manipulação da nossa língua. Distingue-se pelo uso da palavra exacta, da frase escorreita, da citação acertada e pertinente, da mais profunda ideia tornada clara para qualquer leitor atento. É uma fonte de sabedoria sobre como ter-se sido um português à distância e em casa, será talvez um imaginário da nossa mais vincada maneira de ser e estar no mundo. Muitos de nós saímos para uma diáspora. Outros regressaram com esses mundos para sempre presentes, e viveram Portugal simultaneamente como “pátria” ou “exílio” renovado. É o preço que pagamos pela história que fizemos, e teremos, cada vez mais, de aguentar.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/Memórias-II-Lisboa (1947-1955), Guimarães, Opera Omnia, 2016.

Do amor e da loucura

Os livros esquecidos, as autores ignorados são artífices do destino que subsiste debaixo da superfície.

Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam

Para a Adelaide, que voa sempre comigo

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, Nem Todas As Baleias Voam, o mais recente romance de Afonso Cruz, tem pouco ou mesmo nada a ver com um desses adoráveis mamíferos marítimos que faria de Herman Melville o mais canónico de todos os autores americanos canónicos, nem sequer nos fica na memória como símbolo ou metáfora maior deste inusitado romance na nossa língua. A sua audácia temática e as suas linguagens, tão claras como obscuras, como que num poema de um T. S. Eliot menos sisudo, são uma espécie de exercício entre um modernismo literário cada vez mais distante e um pós-modernismo que insiste em combinar a habitual revisitação à História, tanto imaginada como real, por entre a ambiguidade de significações que os quase esquecidos new critics consideravam uma das marcas maiores de qualquer texto que valesse a pena ser lido, meditado, dissecado. Se é verdade que na realidade a CIA tentou as maiores e frequentemente cómicas loucuras para derrotar a ex-União Soviética, o narrador de Afonso Cruz desdobra-se brilhantemente em contador de estórias privadas e arquivista de supostos “documentos” em que o protagonista Erik Gould é recrutado para organizar concertos de jazz no outro lado da Cortina de Ferro durante os anos 70 do século passado, e assim tentar cativar “corações e mentes” (como diziam no tempo escuro do Vietname) para a traição ao comunismo e de seguida adesão ao Ocidente, querendo dizer aos Estados Unidos, a cidade de Deus e do Wall Street. Só que Nem Todas As Baleias Voam é muito mais do que isso. Por detrás da História estão os seres humanos na sua solidão, no seu destino pessoal entre quatro paredes ou passeado numa rua em que mais ninguém conta ou exerce sequer a mínima interferência ou influência nas obsessões ou no coração que quem olha sem ver, de quem sonha sem esperança. Gould, diz o relatório da CIA escrito em secções intermitentes na narrativa, tinha só música dentro de si, e não a queria, magoava-se a si próprio numa tentativa de redenção pelo pecado que era a sua arte, que nele residia e que o oprimia. Arte e amor eram a sua dor. Colocar os dedos num teclado do seu piano para conquistar outros e fazê-los abandonar o seu mundo, sofrer a angústia de não ter a mulher que ama e que o havia deixado, levando-o a uma perseguição obsessiva de um reencontro, como um Ahab atrás da baleia branca que também o havia mutilado para sempre. Ódio e amor, restando todos os outros num palco sem mais enredo ou desfecho. Erik Gould tem um filho de nome Tristam, e que vive em Paris com um casal amigo, também eles reduzidos a encontros ocasionais dentro da mesma casa, a cama mero poiso de descanso ou onde se espera mais morte do que vida. Este é um romance feito de memórias deliceradas, mas em que o humor das palavras e das acções são o contraponto à impossibilidade de vidas com sentido ou da normalidade com alguma felicidade no dia ou na noite. No centro de tudo e todos está a espera do protagonista pela sua amada, Natasha Zimina. Já a meio do romance estamos em 1969, “Quando [Neil] Armstrong – relembra o narrador – pisou a Lua pela primeira vez… A Lua dos amantes nunca mais seria a mesma”.

O que mais impressiona num romance como Nem Todas As Baleias Voam é a quase ausência do sentido ou “espírito do lugar”, dado o momento histórico que que lhe serve de referência e a política da loucura que na realidade nos ameaçava a todos. Estamos, naturalmente, na América, na Europa deste deste lado, e depois na outra então no lado de lá. É impressionante como quase não sentimos, não vivemos, essas geografias já meio lembradas meio esquecidas. Afonso Cruz faz-me repensar o que tinha sido sempre o mais fundamental na arte literária – o lugar era um mero lugar, as personagens, a sua vida interior, os seus lamentos ou as suas lutas pela sobrevivência, pela sua integridade, pelo seu sentimento de culpa ou pela tentativa de salvação é sempre o que mais lembramos de uma significante peça literária. Nunca será a tentativa de uns serviços secretos sem nome nem identidade definida que retemos destas suas páginas. Muito menos será a luta entre um bloco ideológico ou militar e outro que o leitor vai registar na memória numa leitura deste romance. Vão ser as poucas as figuras (re)inventadas e os seus dizeres e desejos que ficarão connosco, a dor da perda, o desespero do nada num mundo em que adivinhamos em ebulição, a música como refúgio, a arte em geral como a obra maior da nossa própria humanidade. O registo histórico destas páginas, incluindo o que poderá ser parte dos arquivos reais de um tempo e fúria, servem apenas como como referência secundária e, de certo modo, palco esclarecedor de certas motivações de cada um, um tempo que provocou ou não decisões e comportamentos, um tempo que tinha outras e bem diferentes modos de ser e estar. A História é uma abstração para cada um de nós. As nossas vidas quotidianas, os nossos desejos, os nossos sonhos são quase sempre demasiado íntimos. Por entre as chamadas massas e as vozes dominantes, permanece a nossa alma, a nossa vontade de uma normalidade feita à nossa medida e na companhia de quem amamos, ou são os nossos mais íntimos outros. Erik Gould tem a falta da sua mulher amada, o seu filho não tem nem presente nem passado, guarda numa caixa de sapatos objectos banais, o que mais o vai definir após a morte, o casal amigo com quem vive, Tsilia e Isaac Dresner tenta redescobrir o amor e o desejo. Dresner tem uma livraria que se chama Humilhados & Ofendidos. Pois. Fiódor Dostoievski, ou o chamamento à nossa humanidade, em todas as geografias de afectos e memórias, de loucura, raiva e solidão.

O Escritor – escreve o narrador sobre ele próprio, ou sobre um outro ser imaginário – dizia que não era ele quem escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia de veículo. Muitos escritores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos, como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor, era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava”.

Desde há alguns bons anos, e nas mais variadas línguas, que que se fala na “morte do romance”. No nosso país, Vergílio Ferreira também fez questão de o afirmar por mais de uma vez. Nunca entendi bem de onde vem esta ideia, de onde vem a ideia que a arte literária acaba com uma qualquer geração. Não queria ser injusto aqui, mas creio que certos autores de renome nos seus países, ao chegar a certa idade ou exaustão, ou, mais problemático ainda, para ser delicado aqui, achavam-se os últimos mestres da forma e do conteúdo. Pior ainda, um Francis Fukuyama afirmava no seu famoso O Fim da História E O Último Homem que tínhamos chegado ao fim da caminhada político-ideológica, o liberalismo sócio-económico tinha-se tornado o futuro, a universalidade da vontade humana atingia o seu auge, a sua meta final. As fantasias académicas também são frequentes, e conseguem por algum tempo impor-se. Nem a história chegou ao fim, nunca, nem arte deixará, nunca, de transfigurar a condição humana. Em todas as línguas e culturas a literatura parece estar cada vez mais viva. Em Portugal, há uma nova geração de escritores que nada devem a ninguém. Sabem dos seus antecessores nacionais, e sabem dos outros. Sabem agora que há mais mundo para além do seu. Sabem que a sua língua pode e deve dizer do mundo sem fronteiras e preferivelmente sem preconceitos de qualquer espécie. Viram o dito de Fernando Pessoa ao contrário: Sou de toda a parte, como sou daqui. Já falei de alguns deles que publicaram em tempos muito recentes. Lembro agora também Afonso Cruz. O resto da sua obra, na literatura, nas artes plásticas, filmes de animação, músico e cineasta completam a sua visão do tempo que é o nosso, da condição humana em sociedades globalizadas enquanto reafirmam a sua individualidade, a sua diferença no mosaico humano que, apesar de certa retórica política do momento, a grande arte literária representa nas mais variadas línguas e tradições.

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Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam, Lisboa, Companhia das Letras/Penguin Random House, 2016.

Quando lemos quem amamos

E o dia acordava radioso; gotas suspensas, como rosário de contas, compunham um rendilhado incerto entre as folhas da madrugada.

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

Vamberto Freitas

Não será nunca só a indizível saudade que me faz reler a mulher que amo, não será só querer recordar a sua viva voz nos dias que foram os nossos. Da sua silenciosa existência, agora sei eu, acompanha-a todos os dias, e nem sempre o choro me faz abraça-la e dizer-lhe boa noite, olho-a como quem olha para o luar no lado de fora da nossa janela, mas vendo a sua cara, a sua alma a flutuar perto e longe de mim. Fecho-me numa outra sala, e reabro os seus livros, fixo-me por longos instantes nas suas palavras, e todo um mundo renasce em mim. Sou agora a sua memória, mas a sua prosa e poesia continuam a ser uma parte indelével da minha vida. Não é pouco, é todo um universo a que pertenço, esse que foi nosso e só nosso, que me deixou sem nunca nada me pedir, que me dá e dará sempre sentido a eu ter sido alguém a quem foi permitido estar junto dela, a luz a colorir a nossa casa e a noite a calar fundo as palavras inúteis, fazendo do seu toque e olhar tudo o que significava vida vivida e o desejo de um outro amanhã.

Não, não se foi, nunca partiu, apenas adiou um nosso reencontro num infinito sem dor, o que numas das suas poesias chamou Viagem ao Centro do Mundo. Adormece agora sem mais se recordar desses momentos ou das palavras, ditas e escritas não para qualquer glória futura, só para que permanecesse o “instante suspenso”, como diria de si próprio um outro amigo nosso nas suas horas de inquietude e desejo. Já não chora nem sei se sonha, olha apenas o invisível, o Nada que é o seu mundo sem princípio nem fim, não sei se me conhece ou se me lembra alguma vez, do beijo que dou fico só com o sabor da sua cara e os seus olhos sem expressão. Está aí, e nela me vejo, sei e saberei sempre quem é. Sei que sou a sua memória. As palavras que me deixou escritas são o seu ser inteiro e intacto. Derrama em mim não só a mulher que é, entrega-me a única razão de estarmos aqui, entrega-me o mundo que só alguns tiveram e têm a felicidade de conhecer e de viver. É muito, quer seja o espaço todo na sua escuridão misteriosa ou na sua luminosidade celeste. Tudo o resto nada diz, nada significa, ninguém nos salva ou nos condena. A sua escrita não são meras palavras para mim. São todo o seu ser na beleza que de quando em quando vivemos num passado que se afasta cada vez mais. Esqueçamos o resto. Já não me conhece, como me parece algumas vezes? Conheço-a eu, e um beijo meigo, a minha voz entrando no seu quarto, ainda lhe faz sorrir e tentar olhar-me. Que mais poderia desejar um homem?

Quando releio o seu Viagem ao Centro do Mundo, publicado em 1994, revisito com ela não só o seu mais profundo ser, o seu interior em estado de felicidade e saudade, como revejo todas as geografias dos seus grandes afectos, das suas saudades, das suas perdas, da sua infância, e sobretudo da mulher em busca de si própria. Não, não me entristece, faz-me caminhar a seu lado, faz-me admirar ainda mais uma vida feita de partidas e chegadas, relembra-me dos seus mais íntimos desejos, dos seus mais sentidos desgostos e amores. Ela e a natureza estiveram sempre em comunhão sagrada, cada pedaço da terra de Deus o seu porto seguro, cada memória dos seus em longínquas paragens americanas, mais do que uma presença, faziam-na reviver um tempo que havia sido, mas nunca por mim esquecido. Entrava nas suas aulas para transmitir não apenas o saber dos livros, mas também a sua pessoa como ser vivo e personagem. A literatura não eram só palavras, era vida, era história, era arte, era empatia por quem a ouvia e com ela aprendia. Entrou na política com a convicção de que o mundo também era de todos, e todos o deveriam reconstruir, um pobre não era um pobre, era um homem ou uma mulher em busca da dignidade e da vivência a que tinha direito. O poder era para ser combatido ou utilizado no bem comum, não admirado e muito menos bajulado. Tinha os seus maus momentos e raiva momentânea? Entrava numa igreja, só, e meditava.

Eu quero viver desesperadamente

Pôr emoções em movimento

Marcar rituais idos e por vir

Festejar o entusiasmo e a alegria.

Quero subir escadas, partir perna

Vogar no mar, livre e etérea.

Quero o palpitar do coração

No rosto uma flor em cada festa.

Quero cair, levantar, sair,

Ao estático nunca pertencer

Gargalhada quero em eco vibrante

Ressoar mundos dentro de mim.

Quero o choro em catadupa volante

Seguido de um sorriso de marfim

Quero o gesto do tacto desenhado

em doação e entrega sem fim.

Alguns anos depois viria a injusta sentença, mas antes de resumir toda a sua sorte de vida no quase profético e mais ou menos autobiográfico romance Sorriso Por Dentro Da Noite debruçava-se sobre toda uma vida açoriana e americana transfiguradas, outra metáfora da história do povo açoriano no seu destino de andarilho, e de rejeição à miséria, à injustiça, à prepotência medíocre de terra-tenentes e comunidades sujeitas às maiores indignidades e isolamento. Como em quase toda a literatura da nossa geração, eram só os navios vistos à distância em mares bravos e rumo à América que significavam e metaforizavam a nossa salvação. A sua autora muitos anos antes insistiria em regressar aos seus Açores, e aqui desafiar essa história e esse destino que agora prometiam uma outra maneira de viver a terra que é a nossa. Na sua outra poesia De Emigração Tecido havia de dizer da dor de uma “exilada” numa Nova Iorque que tudo prometia, mas a um preço, por vezes, quase desumano. Cada um de nós viveu e vive a sua própria sorte. Quando nos conhecemos, essa poesia mexeu comigo de modo muito especial, e ela não a publicava. Ser professora de literatura numa universidade portuguesa trazia certos constrangimentos (que hoje, parece, já não existem), era a inveja de uns e certa petulância de outros. Entretanto, haveria eu de a convencer a tirá-la da gaveta, numa carta enviada ainda Califórnia, e que agora está na sua contracapa.

Li De Emigração Tecido – escrevi então – e felicito-me por uma poesia do tempo perdido e apreendido, esse inescapável tema da nossa existência e arte atlânticas, esse quebrar o isolamento físico e psíquico, para uma vez mais tão brilhantemente agarrar de novo a vida. Estarei muito fora da tua escrita poética quando aí vejo a dor como passo fundamental para uma renascença e contínua aventura que é a vida de cada um e de todos nós? Quando nessa tua linguagem límpida e não-sentimental negas o niilismo que a muitos está corroendo nos confusos dias (como diria o falecido James Baldwin) de indizível caos da colectividade? Vejo ainda nas tuas comovidas páginas De Emigração Tecido uma tremenda luta entre o indivíduo que insiste em sobreviver bem vivo e uma Natureza que, no meio desse mar, conspira perpetuamente para amordaçar o Homem, ora aterrorizando-o, ora oferecendo-lhe miragens da sua indescritível beleza. É um triunfo absoluto da Vida e da Beleza; uma ode linda à força humana, ao seu optimismo, determinação e vontade de viver”.

Por agora, não lhe queria dizer mais nada. Tenho aqui à minha frente todos os seus outros livros, e aberto, uma vez mais, O Sorriso Por Dentro Da Noite.

Oh, vovó, Quem me dera, quem me dera – escreve Adelaide – ser pequenina, feita de nada; regressar aos tabiques da parede, esconder-me como quando era criança, voltar ao velho quintal, respirar o aroma de cada flor, sorver o rosa-lilás do pessegueiro, e saborear o araçá da cor do girassol, Eu quero é desaparecer daqui, vovó”.

Tenho, repito, todos os seus livros em minha frente, para além dos inúmeros escritos espalhados pelas mais diversas revistas universitárias e literárias. Está no seu descanso no quarto ao lado – e eu na minha turbulência de saudade, respeito, homenagem e gratidão.

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Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite, Braga, Editora Ausência, 2004. Publicado a minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Março, 2017.

O Mundo e a ilha

David estava a chegar a Ponta Delgada, a principal cidade da mais populosa ilha dos Açores. Visitara vários locais no mundo, mas era o vislumbre daquela pacata urbe que o preenchia com um calor apenas transmitido por um lar.

Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi

Vamberto Freitas

Ao ler o novo romance de Hélder Medeiros, A Balada Do Ouro Nazi, Vencedor do Prémio Literário Letras em Movimento 2016, nunca tinha sentido Ponta Delgada, a vivência açoriana mais ou menos pós-moderna, como a sinto e a revejo nesta prosa. Há muito de genial nesta sua representação da vida actual, aqui e noutras partes. Tenho de dizer duas coisas sem quaisquer reticências ou qualificações: que entre os escritores de romances policiais em língua portuguesa dou preferência ao brasileiro Rubem Fonseca e, desde alguns anos, a este açoriano. Hélder nasceu aqui ao lado na freguesia de S. Roque, o lugar que adoptei para viver há mais de um quarto de século. Refiro estas circunstâncias pessoais sem grande importância para que, simplesmente, na ansiedade de grandeza que parece definir alguns ilhéus, não deixarmos de olhar para a nossa própria rua, e relembrar que lei ou história nenhuma diz que o que está para além do horizonte é que deve ser sempre bom, ou até “legítimo”. A arte literária aconteceu sempre nas mais variadas geografias, por vezes em cercos continentais muito mais isolados do que um pedaço de terra rodeada de mar por os todos. Parafraseando Pedro da Silveira, a quem roubei o título de um dos seus grandes livros de poesia para o inverter intencionalmente neste meu texto, na literatura soubemos sempre dar conta de nós, e não vou repetir mais nada sobre o cansativo tema, como também diria José Martins Garcia, que de quando em quando é trazido à baila. Não. Hélder Medeiros pertence a uma nova geração de escritores portugueses espalhados pelo continente, ilhas e até na diáspora que estão a mudar inevitável e irremediavelmente os nossos imaginários do arquipélago. A residir aqui nas ilhas, só para falar dos que mais atenção têm recebido nestes últimos anos, estão João Pedro Porto, Joel Neto e Nuno Costa Santos, que anda sempre entre o Livramento, também aqui ao lado da minha casa, e Lisboa.

A Balada do Ouro Nazi, estou em crer, confirma esse seu estatuto, e algo mais, ao lado dos melhores que entre nós estão a dar um novo fôlego à nossa literatura, ou pelo menos a levá-la para todos os lados, a quebrar o pequeno referencial que havia servido de imagens e metáforas a muita escrita nossa do passado. Para ele, como para os seus colegas, o mundo inteiro não passa de uma série de ilhas, às quais eles pertencem e vivem em directo ou à distância, sem ter de anunciar ou falar sequer do “universalismo” que tanto obceca alguns leitores e críticos portugueses, como se não soubéssemos que o coração ou a condição humana difere só no seu grau de bem-estar ou sofrimento, ou que os nossos medos e ansiedades são partilhadas por todos os outros. As ilhas em todos os oceanos têm estado sempre na melhor literatura ocidental, numa continuidade temática e estética que Édouard Glissant chamaria de “poética da relação”. Recebem os mais inesperados visitantes, e absorvem na sua cultura um pouco de todos, o seu olhar para além do horizonte um misto de saber e curiosidade, filhos e filhas saudavelmente híbridas que lhes vem desse pluralismo de relacionamentos. Só que os nossos imaginários passaram, uma vez mais, dos reflexos de ilhas pobres e que alguns supunham isoladas para os de convivência diária de línguas e tradições sem fronteiras. Se continuamos a olhar, como sempre o fizemos na nossa historicidade, para o exterior como espaços da nossa salvação em tempos de crise generalizada, a verdade é que a passagem para a esse quotidiano inclui os que já não são os “outros”, estejam eles fisicamente na ilha, ou a milhares de quilómetros. A ilha é, mais do que nunca, o mundo. Tudo o que tínhamos assumido no passado caiu com a globalização, no bom e mau sentido. O romantismo com que alguns viam o suposto isolamento dos ilhéus já não pode ser o eixo axiológico do nosso pensamento, e muito menos da nossa literatura. Fernando Aires falava-nos “numa cidade cercada”. Hélder Medeiros reinventa a Ponta Delgada dos nossos dias como sendo a cidade solitária, sentida e reconhecida imagisticamente pelo leitor que a conhece, e ainda mais, talvez, por quem não a conhece. Dentro dela, coexistem todos os personagens de qualquer outra urbe maior ou menor – os oportunistas bem formados ou encartados, a presunção de uma elite nativa que já não existe, o poeta regressado às origens mas incapaz de fugir do seu labirinto interior, um ex-polícia desiludido mas sempre atento ao seu meio, pequenos e grandes criminosos nados e criados na ilha ou de outras nacionalidades, a mulher raivosa e a amante generosa, a violência que cada um destes personagens auto-inflige a si próprio, ou então, como na trama deste belo romance, lhes é infligida por outros até à morte mais banal ou a assassínio mais requintado. Achei de grande astúcia o facto de uma série de eventos imaginados, mas de todo plausíveis, que abalam Ponta Delgada nos nossos dias, a palavra “repratriado” aparece uma só vez, e mesmo assim só para o descartar como um dos responsáveis pela violência em curso, como que num deliberado e civilizado combate a estereótipos que classificam à priori este e outros grupos, aqui e em toda a parte. Se nas nossas páginas mais antigas era o barco que partia com os nossos pobres e inconformados, é agora o inverso – o navio caminha para cá, mas nem sempre traz tudo de bom. Só que são outros de cá que colaboram, os seus motivos vindos de fraquezas pessoais e desde logo reconhecíveis pelos mais letrados, ou os que optaram por viver e enriquecer fora do sistema e da sociedade a que pertencem. O autor consegue a proeza de piscar o olho, ora com seriedade ora num riso de quem sabe que o “passado nunca morre” mas tudo se modificou ou evoluiu na nossa sociedade, o que tínhamos sob o conceito de açorianidade permanece mas crescentemente só por entre sombras ominosas nas calçadas das nossas cidade, e até nos campos da nossa ruralidade, toda a bagagem boa e má das últimas décadas aqui também descarregada.

Por certo que não vou estampar aqui qualquer pormenor deste romance, só insinuar os seus contextos e estilo muito próprio. A caminho da América vai um carregamento ilícito de ouro nazi pertencente a um aristocrata inglês que simpatizara com o regime hitleriano e o seu projecto. Isso antes de ser desviado a meio atlântico para Ponta Delgada o navio de nome Hepatica por um bando criminoso denominado Os Fantasmas de Paris, e depois em São Miguel O Carniceiro do Bosque das Crianças. A corrupção e a infiltração criminosa são generalizadas, desde o Banco de Portugal às polícias nacionais e locais. Andam todos à procura do dinheiro e do prestígio social dominante, aqui metaforizado numa secreta Ordem do Arcanjo, que vai buscar as suas fantasias ao jesuíta açoriano dos séculos XVI e XVII, Bento de Góis. Intermitentemente, o narrador vai comentando a História, e crê que o ouro nazi nada tem a ver com nacionalidade ou regime de qualquer espécie – tem tudo a ver com o poder universal do metal brilhante, que para nós a Ocidente vem de tempos imemoriais até ao Velho Testamento, a mensagem do castigo dando sempre lugar à fantasia da luxúria. Em Ponta Delgada juntam-se indivíduos açorianos e de outras nacionalidades, principalmente franceses, italianos e suecos para levar a cabo o grande roubo de ouro que havia sido roubado a outros, preparado para tudo que garantisse o seu sucesso, o sonho de se tornarem multi-bilionários, termo que entrou ultimamente em quase todas as nossas conversas políticas. Tal como no caso do “repatriado” sem nome, a nacionalidade de cada um reduz-se a um mero detalhe sem qualquer importância. Há momentos aqui de humor hilariante, como aliás seria de esperar de um autor como Hélder Medeiros. Um deles, para mim, é o poeta regressado de Lisboa à ilha e metido num gabinete bancário a olhar para folhas de excel que nada lhe dizem, e que vira cúmplice e assassino do bando, culpando todos e todos em seu redor pelo seu falhanço literário em ser reconhecido cá dentro ou lá fora.

Tinha de contextualizar em vários espaços e tradições A Balada do Ouro Nazi. Os pormenores e o prazer do texto só poderão ser retirados da suas páginas. Juntamente com os seus dois primeiros romances, Solução Primária e Elemento Alpha: A Origem, Hélder Medeiros está a cavar fundo o seu e nosso viveiro literário. Criador de personagens inesquecíveis, regressam quase todos eles do mundo para casa – mas nunca se livram dele.

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Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Uma outra América e as suas outras raparigas

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Disse que o sítio para onde íamos tinha a ver com um modo de vida. Russell estava a ensiná-las a descobrir um caminho para a verdade…

Emma Cline, As Raparigas

Vamberto Freitas

Estamos em Julho de 1969, um pouco a norte de São Francisco e da revolução psicadélica e política em curso no bairro Haight-Ashbury, e um pouco mais a norte na famosa e única lembrança digna e duradoura ainda existente, a City Lights Bookstore, do poeta beat Lawrence Ferlingheti, esse que conjuntamente com a outra figura icónica da época social e cultural mais tremida da América, Allen Ginsberg, terão sido dos primeiros escritores daqueles lados a conhecerem e a reagirem à obra maior de Fernando Pessoa. Menciono estes factos relacionados com o romance aqui em foco, As Raparigas, de Emma Cline, para que me permitam uma breve intrusão de quem nunca teve nada a ver nem com aquelas geografias, com a filosofia de vida que dominava aquelas ruas, e muito menos ainda com a imaginária estética geral daqueles tempos.

Eu tinha emigrado para os EUA com toda a minha família aos 13 anos de idade, em 1964, e no tempo ficcional desta ficção creio ter sido o ano em que entrei numa pequena faculdade muito mais a sul, a alguma distância de Los Angeles, e vivia numa cidade chamada Chino, cuja única fama maior era sua grande prisão nos campos também rodeados de vacarias maioritariamente de imigrantes e luso-descendentes, e onde o meu pai trabalhava como um escravo. Eu via, ouvia e lia o que ia à minha volta, e fugia de tudo e de todos, um rapaz açoriano inseguro do seu lugar numa nova e estranha sociedade, mas convicto que o futuro residia nas páginas dos livros e na carreira convencional que então sonhava ser a minha um dia. Podia ouvir e admirar os Doors, com o seu estrondoso sucesso Light my fire, podia até delirar com Purple Haze, de Jimmy Hendrix (excuse me while I kiss the sky), podia ainda saber que o White Rabbit dos Jefferson Airplane (também mencionado neste romance) tinha tudo a ver com os trips da heroína ou do ácido em voga, mas eu tinha optado pelo conhecimento à distância, mesmo que em festas bem mais amenas era impossível evitar o cheiro da erva constantemente fumada, com uma lata de cerveja na outra mão.

Recordo-me do que, anos mais tarde, já numa fase de estudos pós-graduados e como professor numa boa escola secundária me diria um antigo colega: chegámos aqui mais ou menos saudáveis, não fritamos o nosso cérebro, e nunca vimos o interior de uma cadeia por razões de malfeitoria a outros. Éramos sem dúvida o outro lado da revolução: os filhos de uma classe média baixa ou remediada a aproveitar o que o Sistema nos oferecia, mas sem nunca deixarmos que uma consciência política à esquerda deixasse de nos guiar em certos valores existenciais, na visão de uma sociedade sem guerra nem fome, com mais igualdade e menos materialismo acéfalo. Los Angeles representava isso mesmo para nós nesse outro lado da barricada. Alguns sábados à noite visitávamos a Sunset ou a Hollywood Boulevard para apreciarmos as alegres andanças de uns que pregavam a paz e o amor livre, topando outros em assustadoras comas químicas nos passeios da cidade, a mesma mítica Hollywood que passava para o resto do mundo uma imagem bem diferente: ruas limpas e ladeadas de grandes casas, as palmeiras a abanar romanticamente ao vento, o suposto glamour do cinema e teatros adjuntos. Sim, sabia e conhecia essa América, mas nada com ela queria. De cabelo cortado, calças limpas e sapatos engraxados, nós é que então deveríamos parecer os freaks quadrados de uma sociedade a arder.

As Raparigas informa os seus leitores que se trata de um primeiro romance, mas não deixemos que isso influencie a leitura de cada uma das suas páginas, da sua prosa estilística algures entre memórias reinventadas e poesia pura. A sua autora é uma jovem nascida em 1989, mas já traz no currículo literário algum trabalho na The New Yorker e outra ficção publicada em revistas tão prestigiadas e exigentes como The Paris Review ou Tin House. O romance tem como referência primeira o caso de Charles Manson e as mulheres jovens que com ele viviam nas mais degradantes condições algures no norte da Califórnia, num rancho abandonado e fora de vista. A sua narradora chama-se Evie Boyd, e foi uma das sobreviventes daquela noite em Julho, em que duas famílias foram barbaramente assassinadas à faca, a sangue frio e sem qualquer remorso até aos dias de hoje, mesmo que seja referido que Suzanne, aqui o seu nome ficticio, se tenha convertido e praticado uma religiosidade cristã. O que mais deverá interessar os seus leitores, para além da prosa brilhante de Emma Cline, é uma outra originalidade adentro da tradição literária americana. A narrativa parte do presente, quando Evie já está só e vive por alguns dias na casa de um amigo juntamente com o filho e namorada desse amigo, e relembra os seus dias de fascínio, aproximação e eventual convivência com o grupo do rancho, absolutamente apaixonada por Suzanne, a que viria, numa viragem singular dos acontecimentos, a impedir que a sua admiradora participasse na carnificina de Los Angeles. Por certo que já é a mulher muito mais velha a relembrar o que então sentia aos catorze anos de idade, mas força-nos a mergulhar na nossa própria consciência e memórias, o que torna toda a estória pessoal da narradora ainda mais plausível, acreditável, a normalidade dentro da anormalidade que são os dias de qualquer adolescente numa sociedade que então encenava as mais radicais mudanças de vida interna enquanto prosseguia com a dilacerante guerra no Vietname, e perpetuava a luta ideológica entre dois blocos mundiais cujas armas poderiam obliterar para sempre boa parte da humanidade. A falsa revolta das seitas, como a de Charles Manson (de nome Russell nesta ficção) que  proliferavam na Califórnia como ervas daninhas num jardim vergado à tempestade que então parecia apocalítica, como na poesia cantada de Jim Morrison, tinha a morte como culto, a violência como vingança contra uma sociedade que exigia de cada um de nós, acima de tudo, serenidade e a força interior que permitia aos nossos pais lutar dia e noite pela vida, e a nós a persistência livresca ou intelectual para a felicidade pessoal e para o contributo possível a um novo e mais tranquilizante modo de vida, o sentido de pertença aos que escreviam e liam os livros para algo mais do que o prazer egoísta da solidão na companhia de meros personagens ou na espreita de vidas e geografias imaginárias. As Raparigas é isso, e muito mais. Creio tratar-se de um romance que ficará como um clássico de época, permitindo-nos mergulhar não só no seu momento histórico, mas sobretudo, uma vez mais, na consciência de adolescentes e dos seus “mentores” nos anos loucos e de vidas à deriva.

“Ele tinha querido – diz a narradora a dada altura, numa reavaliação do seu relacionamento com o próprio pai, a memória reavivada daqueles dias e da maneira de estar na vida de uma adolescente rebelde – alguma coisa. Como queria Suzanne. Ou a minha mãe queria Frank. Queríamos coisas e não podíamos fazer nada contra isso, porque havia a nossa vida, que tinham-nos apenas a nós mesmos, e como poderíamos alguma vez convencer-nos de que aquilo que queríamos estava errado?”.

Há qualquer coisa no tom destas linguagens, contextualizações ligadas à arte daqueles momentos e subtis chamamentos históricos que tornam a prosa de As Raparigas numa das poucas obras literárias norte-americanas da actualidade como uma peça inclinada a um regresso ao existencialismo de Jean Paul Sartre dos anos de radicalidade política e busca por uma saída tanto ideológica como pessoal. A redefinição consciente de valores que permitissem a cada indivíduo decidir o seu próprio destino, e ainda mais a sua pertença a um mundo maior no processo de rejeição total de todo um passado e na reinvenção de outro. A prosa de Emma Cline faz-me ainda relembrar as consequências da violência de O Homem Unidimensional, do alemão Herbert Marcuse, que leccionava e escrevia ali bem perto na mesma Califórnia aqui representada. Isto não é só um romance. É um testemunho entre a realidade e a ficção dos tempos que abalaram o mundo, e nos fizeram o que somos hoje, mesmo perante as claras ameaças de um regresso brutal a sociedades que nos pareciam ter aprendido com a história e a literatura que são indeléveis na nossa memória magoada.

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Emma Cline, As Raparigas (tradução de José Vieira de Lima), Lisboa, Porto Editora, 2016.

 

 

Idas e vindas: à conversa com Victor Rui Dores*

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O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Victor Rui Dores, “Conversas Açorianas”

Vamberto Freitas

Professor universitário, intelectual, ensaísta, crítico literário e cultural, cronista e tradutor, o meu convidado de hoje é sinónimo de vocação ensaística cultivada com paixão, e de crítica literária séria e generosamente partilhada. É um autor que possui sensibilidade estética e capacidade criativa, está bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, sabendo incorporar nos seus discursos culturais os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação literária.

São décadas de labor estatístico que fazem dele um dos melhores estudiosos da literatura norte-americana e de expressão açoriana. Eu vou estar aqui à conversa com o terceirense Vamberto Freitas.

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Victor Rui Dores Bem-vindo ao programa, Vamberto Freitas. Tenho muito gosto em ter-te hoje aqui comigo. O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Vamberto Freitas – Não. Só provavelmente irrelevantes num contexto de bancos criminosos, dinheiro e preocupações afins de uma estúpida e odiosa classe dominante, sem valores, sem dignidade, e muito menos sem sensibilidade para o tudo o resto que nos faz seres humanos merecedores da vida.

VRD És reconhecidamente um ensaísta de primeira grandeza. Em jornais, em livros e em fóruns de debate, estudas autores de ambos os lados do Atlântico, de forma contínua e continuada. Posso saber quantos livros, em média, lês por mês?

VF – Depende. Mas na generalidade são quatro livros. Há semanas que leio menos, outras ainda mais. Durante as férias de verão reentro sempre no Açoriano Oriental (e agora no jornal “I” e semanário “SOL”) com cinco ou seis textos já em carteira. Isso permite-me uma certa folga.

VRD O que é para ti um bom livro?

VF – Para mim literatura e sociedade são indissociáveis. O bom livro será uma representação artística ou uma poetização do seu lugar e tempo, ou então ainda um ensaio ou ensaios de fôlego que nos reinterpretam esse mesmo tempo e lugar, que pode ser a nossa rua ou o mundo inteiro.

VRD Só escreves sobre os livros de que gostas incondicionalmente?

VF – Sim. A determinada altura, aqui há uns anos, decidi que a vida era curta demais e o mundo (incluindo naturalmente os países de língua portuguesa), está cheio de grandes livros, de grande literatura. O resto não traz mal nenhum a ninguém, mas não lhes presto atenção. É claro que não tenho tempo de escrever sobre muitos livros bons, e que me são referências essenciais.

VRD – Nasceste nas Fontinhas, ilha Terceira e, em 1964, com 13 anos de idade, emigraste com a tua família para os Estados Unidos da América. Na California State University, em Fullerton, completaste a tua licenciatura em Estudos Latino-Americanos e uma especialização em Inglês. Leccionaste línguas e literaturas no ensino secundário norte-americano, ao mesmo tempo que desenvolvias profícua atividade nos jornais da comunidade, na rádio portuguesa, na organização de congressos estaduais sobre o ensino bilingue e sobre a problemática da imigração. Durante largos anos foste correspondente e colaborador do suplemento literário do Diário de Notícias (Lisboa). Diz-me uma coisa: onde é que, neste filme, surge, na tua vida, o incontornável Onésimo Teotónio Almeida?

VF – A meados dos anos 70, num congresso sobre a educação luso-americana na Califórnia. Creio que foi o último em que participou Jorge de Sena, em 1978. Um dos meus primeiros textos críticos publicados em Portugal foi precisamente sobre o Ah! Mònim Dum Corisco, do Onésimo, e saiu na extinta revista A Memória da Água-Viva, então coordenada e dirigida pelo Urbano Bettencourt e pelo J. H. Santos Barros. Onésimo foi e será sempre, a partir desse momento, para além de um queridíssimo amigo, uma das minhas maiores influências e referências intelectuais.

VRD – Com quem mais fizeste a tua recruta literária? Que autores te marcaram e influenciaram no campo da ensaística?

VF – Em primeiro lugar, o grande Edmund Wilson. Depois George Monteiro e a minha antiga e falecida professora e mentora Nancy T. Baden. Mais tarde, os portugueses João Gaspar Simões, Eduardo Lourenço, Teresa Martins Marques e, nos últimos anos, o professor e ensaísta João Barrento. Noutro registo estritamente literário, Eugénio Lisboa. Entre uns tantos outros, evidentemente.

VRD Por amor a uma mulher, chamada Adelaide Freitas, regressas aos Açores, fixas residência na ilha de São Miguel, onde és, desde 1991, Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores. Entre 1995 e 2000 desenvolveste, a par de outras actividades, papel de grande relevo no suplementarismo cultural, pois criaste e coordenaste o SAC, Suplemento Açoriano de Cultura, no jornal Correio dos Açores, projecto que te permitiu estudar o imaginário dos escritores açorianos e contribuiu, decisivamente, para dar a conhecer a força da afirmação cultural açoriana. Nunca te arrependeste de ter regressado às ilhas?

VF – Nunca. Não trocaria as minhas ilhas açorianas por nenhum outro lugar no mundo. Desde o início aqui em São Miguel tive provas de amizade e afectos que nunca tinha tido em mais lugar algum por onde passei e vivi.

VRD Com o boom das novas tecnologias da comunicação e da informação, os jornais deixaram de ter suplementos culturais e espaços de referência para a crítica literária. Entre nós, a excepção vai para o jornal Açoriano Oriental, onde manténs uma coluna literária e cultural, borderCrossings: leituras transatlânticas de que resultaram estes 3 volumes; e é também no Açoriano Oriental onde, juntamente com o Álamo de Oliveira, manténs a página literária “Artes & Letras”. É um trabalho que… não te paga a renda da casa…

VF – Não. Mas é uma obrigação minha contribuir para os arquivos criativos e literários da minha terra, e do meu país no seu todo. Recebo um ordenado como docente universitário que paga a minha existência como professor e ensaísta.

VRD Continuemos a lançar alguns olhares sobre os teus restantes livros.

VF – São esse meu tal contributo ao registo literário, e não só, do meu tempo e dos lugares por onde passei e vivi. Resta a outros avaliar o seu valor. Posso dizer-te que até hoje só tenho razões para sentir gratidão pelo que sobre o meu trabalho têm escrito alguns outros no meu país, nos Estados Unidos e no Brasil.

VRD – Vivemos um tempo em que o gosto literário vai dando espaço à moda literária. Passaram agora ao ataque os “repórteres culturais” que formam lobbies na grande imprensa e são aspirantes a gestores de opinião. Geralmente pertencem ao jet set literário da capital, e é óbvio que não fazem apreciação estética, limitam-se a escrever notas de leitura… Ou seja, estão preocupados com tudo, menos com intrínsecos critérios de qualidade das obras analisadas. Mas há pior: refiro-me a uma certa crítica académica, pouco ou nada acessível ao leitor comum, enrolada em hermenêuticas e que vai morrendo a falar sozinha… Ora, tu não vais por aí e não te encaixas nestas duas tendências, e quero louvar-te por isso. E depois escreves num português vivíssimo, em estilo limpo, de grande finura lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias. Foi a tua formação anglo-americana que te fez ser assim?

VF – Não só, mas estou em crer que foi a minha formação americana que mais me influenciou, em primeiro plano, em tudo o que faço na escrita.

VRD Nunca te deu para experimentar a ficção narrativa? Não é obviamente o teu caso, mas há quem diga que os críticos literários são romancistas frustrados…

VF – Não, não sou um romancista frustrado. Só frustrado.

VRD O reconhecimento público do teu trabalho está no facto de a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores te ter conferido, em 2015, a Insígnia Autonómica de Mérito Profissional. E agora, Vamberto?

VF – Agora vou continuar a trabalhar ainda com mais energia e respeito na divulgação crítica da nossa cultura e tradição literária. Sinto-me muito honrado, muito grato, por os representantes máximos do nosso povo na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, os representantes da nossa sociedade democrática, terem reconhecido o meu trabalho. Acredite-me, um gesto oficial destes vindo de casa vale por tudo o resto.

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*Este diálogo com Victor Rui Dores destina-se ao programa “Conversas Açorianas”, a ser transmitido pela RTP/Açores. O que então disse em directo e está gravado poderá não coincidir com algumas das minhas respostas aqui, mas estas são por certo um complemento que acho legítimo.

Revisitação a Edmund Wilson: literatura e crítica americana

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Evitem os cânones académicos, pois tendem sempre manter a literatura como um acto provinciano.

Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

Vamberto Freitas

Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Com efeito, Wilson é o único crítico que Harold Bloom, no seu O Cânone Ocidental, inclui como um possível ou previsível estatuto canónico nos Estados Unidos. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20, e o segundo o que muitos consideram ser o seu magno opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a guerra secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase da escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem e influência, como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita, mas sempre dirigidos à “classe culta” norte-americana, de que falava o ensaísta Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro, das condições políticas, culturais e literárias de determinados grupos nacionais e étnicos de preferias dentro e fora dos Estados Unidos. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos, em recensões ou ensaios de fôlego acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle e de To The Finland Station.

No início da sua carreira nos anos 20 do século passado Wilson andou no percalço luminoso de F. S. Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Dawn Powell e Dorothy Parker, entre outros da modernidade norte-americana. Edmund Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança aos próprios escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido até aos dias de hoje tantos dos seus livros em circulação activa contínua. A sua vastíssima obra de crítica e história literária e cultural – que já foi postumamente organizada e publicada por vários estudiosos que a ela se dedicam – vai desde a prosa e poesia de The Undertaker’s Garland, de 1922, até à ficção que permanecia na gaveta, e que um dia fora um grande projecto de Wilson, o romance The Higher Jazz. Entre algumas outras obras biográficas publicadas durante vários anos, saiu finalmente em 2005 a grande e autorizada biografia Edmund Wilson: A Life In Literature, do também já falecido Lewis M. Dabney. professor durante décadas no Departamento de Inglês na Universidade de Wyoming.

No que toca ao presente dos estudos sobre Wilson e a sua obra, assim como ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, a obra de Wilson na sua generalidade, permanece como referência obrigatória entre algumas das figuras literárias de renome mundial, que também têm escrito sobre ele com consistência ao longo dos anos, como, por exemplo, o recentemente falecido romancista John Updike e o crítico Frank Kermode. Em 1995 celebrou-se na Universidade de Princeton, a alma mater do autor, e em certas instituições nova-iorquinas, o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados na sua obra, intelectuais públicos, críticos literários, e romancistas como Toni Morrison. As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Com efeito, para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo literário europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos no já referido Axle’s Castle), ele viria a exercer, repita-se, a mais profunda influência e a ser por outros considerado a “consciência” maior entre os escritores modernistas americanos da sua época, e mais tarde ainda como que a principal referência dos chamados New York Intellectuals, quase todos descendentes de judeus europeus imigrados, em que se reviam particularmente o já referido Lionel Trilling e Alfred Kazin. Foi ainda uma presença relevante nos referenciais literários de escritores tão icónicos do século passado americano como Gore Vidal e Joan Didion. Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e objecto de teses e outros estudos, ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral. A sua obra começava já na década de 60 a receber a atenção merecida em várias universidades do país, em obras que depois seriam publicadas em editoras prestigiadas. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua herança literária e cultural. The American Library, fundada em 1982, e agora especializada, um tanto ironicamente, em edições críticas mas simples e atraentes da obra completa de autores norte-americanos escolhidos, havia sido idealizada por ele próprio, e começou há poucos anos a juntar em grossos volumes algumas das suas mais significantes páginas ensaísticas, as que se tornaram efectivamente fonte inescapável da sua prosa crítica e criativa.

A obra de Wilson como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto todo o seu projecto crítico e historicista. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento assim como, ou sobretudo, a Tradição da sua língua e cultura, enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização, ou seja, à necessidade compulsiva de contestação e criação do que é novo, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um corajoso historiador da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou talvez seja o que mais nele hoje esquecemos”.

Se Edmund Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e divulgador das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, na precisa altura em ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição, se bem que extremamente produtivo, em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural. Wilson regressa eventualmente à ribalta, principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta crítico. No fim dessa década, até à sua morte em 1972, o que só se poderá chamar aqui uma espécie de antevisão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional que tanto o haviam rejeitado e marginalizado, Wilson começava a dar sinais desse pós-modernismo a que alude Bromwich, na sua fase menos desconstrucionista e mais afirmativa, na defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca tão-só por uma omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e ante algumas modas passageiras na arte e em certo “culturalismo” redutor e, agora sim, provinciano.

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Edmund Wilson: Literary Essays And Reviews Of The 1930s & 40s, New York, The Library of America, 2007. Este é o II volume destas edições definitivas.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Janeiro de 2017.