De Nuno Costa Santos e da sua poesia

 

A ironia é um animal de estimação./Por vezes deve ser deixada à solta./a espairecer.

Nuno Costa Santos, Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos

Vamberto Freitas

     De Nuno Costa Santos li Céu Nublado Com Boas Abertas, o seu impressionante romance publicado em 2016, e escrevi um ensaio a explicar o resto. Tinha já lido muitos outros textos seus, que creio não ser chamados para aqui. Guionista, protagonista, e autor de vários documentários sobre poetas e escritores maiores da nossa língua (Saudade Burra de Fernando Assis Pacheco, Ruy Belo, e outros que mencionarei mais adiante) e escritor de outros géneros, a sua escrita e realizações de documentários biográficos televisivos estão marcados por uma impressionante ausência de pretensiosidade ou vontade de protagonismo, ao contrário de muitos outros, inclusive aqui nos Açores, que passam a levantar a cabeça e a falar como se fossem estrelas de lugares maiores e mais famosos. Não é só um prazer ler este autor e homem das mais variadas artes transmitidas por todos os meios. É uma viagem literária tão simples como sofisticada nas suas palavras com múltiplos sentidos e sugestões quanto à nossa condição quotidiana ou eterna. Na sua linguagem poética faz-me de logo lembrar o americano Raymond Carver, que pontificou vigorosamente nos seus contos de What We Talk About When We Talk Abour Love (entre outras colectâneas), mas aqui ainda mais no seu livro de poemas New Path To The The Waterfall. Bem sei que há alguns escritores e poetas açorianos que se acham os mestres de mestres, mas esquecem uma coisa demasiado significativa: as novass gerações das ilhas não só lhes prestam homenagem, como lhe baixam a cabeça, apenas num acto de respeito e gratidão. Não, não vou falar em mais nomes maiores entre nós, eles conhecem-nos tão bem como eu. Nuno Costa Santos é um grande escritor, e agora mostra a sua capacidade na poesia. Não, não vou apreciar os que estão viciados por uma certa contemporaneidade, especialmente europeia, em que a maioria dos leitores mais inteligentes ficam perdidos. Nuno Costa Santos regressa ao melhor de nós: linguagem directa e uma filosofia de vida, talvez em cada um de nós, está transmitida na sua poesia, ou qualquer outra escrita sua. Poesia sem ideias não vale nada, não passa de um jogo de palavras e linguagens quase sempre indecifráveis. Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é o contrário disso tudo. Cada verso, cada poema no seu tudo, conta-nos o resto, conta-nos o que nos faz pensar e olhar para o espelho de cada dia. Isto é literatura. O resto fica pelo prazer de olharmos um quadro que não entendemos, mesmo que dele gostemos mas sem saber explicar porquê. Se Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é porque as nossas vidas são vazias de tudo que desejávamos, a poesia do quotidiano, como diria certo poeta português, por ora desaparecido do público por razões que só ele e os seus deuses sabem. Só que outros, esta nova geração de que alguns mal-dizem, não deixam de nos confrontar com a vazio das nossas vidas. Isso é literatura, uma vez mais, em prosa ou poesia. Leiam-nos, com critério e atitude crítica. Quem diz que a literatura “morreu” é porque está exausto, ou, ainda pior, acha que a arte acabou com eles. Esta atitude já vem de longe. É tão mentirosa, suspeito, como foram as suas vidas e supostas obras.

Se não tens vontade de escrever um poema, escreve-o.

                                       A poesia é a procura que o coração não quer fazer.

                                     Fácil é desviar os olhos das flores, impedir os perfumes

                                  de se revelarem, fechar o sol com a persiana.

                              Escreve, escreve como quem canta aquela canção

                            da qual só sabes metade da letra.

                          Escrever um poema é inventar a letra até ao fim.

        A obra de Nuno Costa Santos é, repita-se, diversificada, tal e qual um escritor que domina todos os géneros da literatura. Pertence pela idade e pela sua escrita a uma geração de açorianos que me surpreende com frequência. Como muitos outros entre os todos novos açorianos nas diversas faculdades em Lisboa, deu início a uma carreira fulgurante. Um a um, estão muitos a regressar à sua terra de origem, que se chama Açores. Ainda não entendi por inteiro essas razões, mas suspeito que Lisboa se tornou insuportável após o surto descabido do turismo, nalguns casos, ou então por motivos sentimentais. Percebo-os porque eu regressei pelas mesmas razões, pelo amor a uma mulher. Outros, vivem cá, nos Açores, parte do tempo e no Continente. Seja como for, a produção literária de todos eles assemelha-se à nossa diáspora em toda a parte: saudades das raízes e cansaço das grandes metrópoles, a sua criação literária manifestando tanto essa realidade como um outro sentido de pertença dos seus conterrâneos à sua geografia de nascença, a tudo que lhes dá sentido que uma terra de nascença nos proporciona. A literatura do autor presente junta-se a outros mais nessa condição existencial. Não sei muito da sua obra como guionista ou colaborador da televisão nacional. Sei que no caso de Nuno Costa Santos a sua memória resultou ainda em documentários como “Viagem Autonómica” açoriana e o respeito e lealdade aos que ficaram e viveram a nossa sorte arquipelágica. A sua poesia agora aqui em foco não deixa nunca de expressar a sua experiência nos dois lados do mar. Não regressou aos Açores por desgosto com o Continente, muito pelo contrário. Suspeito que tal como eu, outros quereriam ter a prática de uma vida já adulta na suas ilhas, para além das suas paixões pessoais. Vive neste momento numa da suas ilhas, Terceira, com sotaque diferente mas em frente ao mesmo mar. Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é uma das nítidas verdades que li até hoje. Quando Raymond Carver foi ao médico e estava condenado ao fim, o médico fez-lhe uma pergunta lapidar antes de lhe dar a notícia definitiva e fatal: “Do you believe in God?” Carver respondeu, “I do now”/“Acreditas em Deus?/”Agora sim”, respondeu Carver. Felizmente não é este o caso de Nuno Costa Santos. Só o discurso poético ditecto entre ele e os seus leitores.

       Não há escritor nosso mais perto do grande mestre norte-americano que tenho citado aqui. A linguagem poética, desde T.S.Eliot, é uma de vida vivida e dos dramas que foram as suas vidas, linguagens obscuras e directas na sua variada escrita. Uma outra questão em relação ao Nuno Costa Santos e a outros. A nova geração de grandes escritores açorianos, incluindo Joel Neto e Diogo Ourique, vem demonstrando uma certa tendência curiosa. Deixam Lisboa, pelo menos temporariamente, e regressam às suas origens nas ilhas, ora definitivamente ora de meses em meses. Isto significa qualquer coisa. Outros continuam a viver no Continente, mas a sua literatura nunca deixa de se situar, em grande parte, nos Açores, com regressos constantes mesmo que seja por uns dias ou palavras. Algo de novo está a acontecer entre nós. Não desdigo, nem aplaudo. Não esperava isto desta geração muito mais nova. Mas a ilha não sai deles, como não sai de nós. Podem interpretar com quiserem. A geografia humana tem muito poder. Por mais que digam os pseudo-intelectuais do nosso país, e especialmente da nossa região. Nuno Costa Santos é também autor de A Mais Absurda das Religiões, Às Vezes é um Insecto que Faz Disparar o Alarme, e peças de teatro como Condomínio da Rua, Em Mudanças, Mundo Distante, É Preciso Ir E Ver – Uma Viagem com Jacqes Brel, e ainda co-autor de I Don´t Belong Here.

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Nuno Costa Santos, Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2019. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 24 de Janeiro, 2020.

 

Memórias de um grande escritor americano

 

I’m not sure where my path will take me next, but through this exploration of my life of second chances and connecing the dots of my past, I know that I will find my way/ Não estou certo, depois de juntar os pontos de chegada e partida, para onde vai o meu destino, mas através deste mergulho no meu passado sei que vou encontrar o meu futuro…

Scott Edward Anderson, FALLING UP: A Memoir of Second Chances

Vamberto Freitas

FALLING UP: A Memoir of Second Chances, de Scott Edward Anderson, é o que chamamos um pequeno grande livro. O seu autor sempre sempre fez sair os seus livros numa ou numas pequenas editoras que se especializam em prestar atenção a autores especiais e que são capazes de sair da literatura chamada canónica ou de grande expansão nacional. Não se esqueçam que esta prática vem desde um James Joyce e alguns outros, como na América ainda de tempos recentes um Charles Bukowski, que só depois da sua morte os seus livros foram comprados por uma multinacional, mas só depois de viver toda a vida ligado a uma editora menor, ignorada por quase toda a academia dos Estados Unidos. Mais adiante mencionarei o resto da sua obra, mas por agora quero falar destas suas breves memórias, escritas com a maior contenção e indo só ao essencial do seu processo de vida. Pormenor mais do que importante: Scott Edward Anderson, apesar desse seu nome todo anglo-saxónico, é de origem açoriana, pelo menos em parte, e nos últimos anos tem vindo cá integrado em encontros de escritores enquanto investigava a vida dos seus antepassados. O seu percurso de vida, em poucas páginas, é fascinante de e cheio de actividades tão multifacetadas que me deixa estonteante e de admiração sem limites. Envolve, desde já, a sua dedicação a instituições dedicadas à protecção do ambiente no seu país e noutros, responsável editorial em várias editoras, com a sua vida pessoal e de pai em momentos críticos da sua vida, sem nunca lhe fazer perder a energia da sua vida pública e de intervenção. Não vou entrar por aqui porque é demasiada complexa e pluralista. Basta por agora dizer que por entre a sua dedicação aos mais vulneráveis entre nós nunca impediu a sua contínua dedicação à escrita, de que este seu mais recente livro é um exemplo eloquente, na sua capacidade de expressão e literária, da sua disponibilidade corajosa de despejar a sua alma e, uma vez mais, uma vida inteira plena de sentido e de ajuda ou colaboração como os mais fracos ante aqueles que detêm poder tanto político como financeiro. FALLING UP, como é evidente para qualquer leitor, é um título irónico mas muito significante, é de um autor que nunca se deixou derrotar nem por questões pessoais ou profissionais. Quando hoje se fala só em fraquezas físicas e mentais, cansaço no trabalho, desilusão com o rumo das nossas sociedades, desilusão com os nossos políticos democráticos, com corrupção de todo o género, ler um cidadão escritor que “cai para cima” apesar de tudo e de todos, é mais do que refrescante, é um sinal que no meio de todos ainda existe a decência e a coragem de enfrentar todo e qualquer contratempo pessoal ou colectivo. Este seu livro é mais do que um bocado prosa auto-biográfica – é um poema à possibilidade de mudança, é um testamento de esperança para nós todos. Escreve porquê? No quinto capítulo diz tudo: “Telling Stories To Change The World/Contar Histórias Para Mudar O Mundo”. Viaja por toda a parte, e nunca perde a oportunidade de falar com outros sobre a nossa comum humanidade e, ainda mais, a possibilidade real de contrariarmos a nossa má sorte, ou aqueles que a provocam e a cultivam: “An inspiring read for anyone seeking meaning in their work or in their life/Uma leitura inspirante de uma história em busca de sentido no seu trabalho ou na sua vida pessoal”, escreve na contracapa um dos seus apreciadores e críticos, Mark R. Terceck, CEO de Nature Conservacy.

Scott Edward Anderson tem uma vida tão multifacetada que não dá para contar todos os pormenores da sua andança profissional nos Estados Unidos. Dois casamentos, filhos, e a sua envolvência em várias agências de protecção ao meio-ambiente, assim como cooperação internacional com outros que partilhavam ou partilham as mesmas preocupações. Eventualmente, o autor deste livro abandona ou expande a sua actividade, sempre com o bem estar da sociedade nas suas preocupações e o bem estar dos outros. Combina as suas tribulações pessoais e familiares com uma actividade quase frenética noutros sectores da vida pública. Entre todos os activistas que nos estão ligados por laços familiares ou pessoais, Scott Edward Anderson é uma individualidade única entre nós. Por mais incrível que nos pareça, e por dentro de toda uma vida sem paragem, ele consegue escrever como poucos em todos géneros da literatura, sendo reconhecido entre um grupo pertencente às mais variadas editoras e revistas da especialidade. Para nós há algo que nunca mais poderá passar despercebido: a devoção à sua ancestralidade açoriana, que ele tem vindo a redescobrir nestes últimos anos. Um dia perceberemos a riqueza intelectual das nossas comunidades na América do Norte, que inclui necessariamente o Canadá. Um passo deste livro esclarece tudo muito melhor do que eu.

“Meses depois de eu sair da EY [uma organização de empresas dedicadas à protecção do meio-ambiente] comecei a pensar que talvez Harry e Samantha [a segunda esposa] estavam certos nas suas recomendações. Provavelmente o universo estava a dar-me uma outra oportunidade; Por certo que parecia que me estava a enviar mensagens nesse sentido: primeiro, uma editora escreveu-me para me comunicar que ela queria publicar um dos meus livros, Dwelling an ecopoem, que eu tinha escrito durante um mês na Millay Colony; depois, fui convidado para participar numa residência para escritores em Sào Miguel nos Açores, e para trabalhar num projecto de investigação sobre as raízes da minha família naquela ilha; e comecei a trabalhar neste pequeno livro que agora tendes nas vossas mãos”.

O autor nunca mais parou, e hoje tem uma obra substancial e de peso, que inclui, para além dos livros já aqui mencionados, Fallow Field e Walks in Nature’s Empire. Tem publicado consistentemente poesia em revsitas como The American Poetry Review, Alaska Quarterly Review, Cimarron Review, The Cortland Review e The Wsyfarer. P. Tem contribuído ainda com ensaios e recensões para os periódicos basalt, The Bloomsbury Review, Cleaver, the Philadelphia Inquirer e Scuylkill Valley Journal.

Como já se sabe entre nós, existem muitos mais escritores e poetas na nossa diáspora e nos seus arredores, espalhados todos pelo grande país. Não será descabido neste momento que, com os novos encontros literários em várias das nossas ilhas, e sempre que possível, temos variadamente uns e outras a partilhar esses momentos de reencontros e afinidades de todo o tipo e natureza. Engrandecem a literatura portuguesa, e a sua componente açoriana em especial. Devemos esse reconhecimento a grandes escritores e poetas nossos, mesmo que escrevam noutra língua mas sem nunca esquecerem e valorizarem a sua e nossa ancestralidade.

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Scott Edward Anderson, FALLING UP: A Memoir of Second Chances, Little Bound Books Essay Series, 2019. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Regresso a outro labirinto literário

Estranhará , quem ler este relato, a dinâmica entre dois homens de comando e quem era apenas um clandestino.

João Pedro Porto, Contos Bizarros

Vamberto Freitas

Já escrevi sobre os três primeiros romances de João Pedro Porto, O Rochedo que Chorou, O 2segundo Minuto e Porta Azul para Macau. Se estes e outros títulos da sua ficção parecem estranhos é porque o são mesmo. Nunca dos Açores saiu nada de igual, ou tão difícil de ler, e muito mais sobre todos eles escrever, a não ser os “críticos” que lêem a contracapa e depois dissertam como se conhecessem a prosa densa, surrealista, experimentalista, mais ou menos joyceana dos anos 20 e pouco depois, que são a característica primeira da sua escrita. João Pedro Porto é absolutamente original entre nós, e suspeito que poucos leitores aguentam até ao fim as suas estórias e prosa contorcida, deliberadamente. Psicólogo de profissão, creio que isso tem tudo a ver com uma espécie de loucura ou, uma vez mais, labiríntica sucessão de frases e construção narrativa das suas estranhas personagens e improváveis incidentes inventadas e inventados como que num transe ou pesadelo. Se nem os nossos sonhos acabam por não fazer qualquer sentido, o que ele ouve diariamente deve ser ainda mais obscuro e aparentemente sem nexo. A escrita de certos escritores não acontece para sossegar os seus leitores. Incomoda-os, confunde-os, como num puzzle ou então em palavras cruzadas. O autor não fornece aqui o conforto da psicologia “realista”, que tem dominado quase toda a literatura a partir do modernismo que tem as suas origens há mais de dois séculos. Trabalha as suas linguagens, por mais alheias que nos são ou serão, e creio de propósito artístico, tal como a maioria de nós vive todos os dias e pensamentos de olhos abertos ou fechados como um fluxo de consciência, que interliga o que nos é mais estranho ou banal. Não procurem nunca nos seus livros “temas” habituais ou prosa escorreita, que é da minha preferência e formação académica. Tudo aqui é “mentira”, tudo são as nossas verdades secretas, feitas de personagens que não existem mas são tornadas inteiramente humanas, todos os acontecimentos poderão nunca ter acontecido mas, do mesmo modo, são plausíveis e acreditáveis, tudo aqui, desde os seres reinventados à geografia não passa de um jogo do próprio autor em busca de leitores que saibam associar as suas próprias fantasias às do escritor de imaginação delirante, mas em que a literatura ganha novamente a sua missão modernista: as palavras serão por vezes soltas, o seu significado tornado claro como que na leitura do genial O Som e a Fúria de um William Faulkner, que inicia a sua narrativa com um demente a descrever o que vê sem nunca nada entender até à entrada de outros em capítulos sucessivos que nos vão explicando a realidade vista por esse outro narrador. A ficção de João Pedro Porto não é feita propriamente de “estórias”, é feita das mais inesperadas palavras e frases, que nos fazem abrir o dicionário e descobrir que não existem, que foram por ele inventadas, incluindo nomes de geografias misteriosas que vão de um lado do mundo ao outro. O mesmo que dizer: todos os lugares são fictícios, todos os nomes de escritores, compositores, artistas plásticos e outros saem só da minha imaginação, mas se não existem têm os seus pares na história da arte. Como um genial Jackson Pollock: os seus quadros nada significam mas forçam-nos a olhar para eles pela pura beleza, ou então pelo que neles ele escondeu. Pensem ainda num Jack Kerouac e no seu romance The Subterraneans, ainda mais num William S. Burroughs em The Book of the Dead. Difícil de ler? Sim. Só que o leitor que vai de palavra em palavra até fim de qualquer um destes romances sente que algo de especial lhe foi transmitido, a loucura, a sensibilidade, a inteligência, a beleza quase incompreensível que sabemos fazer parte de nós todos a qualquer hora ou dia da vida.

O silêncio maior – afirma o narrador no conto ‘Águas Assopradas’ – existe para darmos tento ao som quando esse acontece. Mesmo o tinir de uma farpa num infinito silêncio é um estrondo. Quando Bailor se repetiu, foi ouvindo como uma assuada numa ermida. A invasão, dantes não falada, era agora uma hipótese. Não uma certeza. Rostos estranhos cruzariam todas as ruas e fariam encosto a todas as vitrines. Carantonhas a ajuizar as casas longas ou as redondas, com as suas fachadas de batólito cornubiano de Delabobe, e a sujar as frontes caiadas. A imitar ridiculamente as danças, a Nos Lowen e os Troyls. A manducar os torrões e a rosca de açafroa…”

Hermético? Sim. Vocábulos fora do nos uso diário? Sim. Personagens incomparáveis? Sim. Um escritor como João Pedro Porto não está minimamente interessado nas nossas próprias limitações de leitura. Escreve como quer e entende, e quem folhear ou ler integralmente a sua escrita que se defenda ou não, conforme os seus gostos da palavra escrita, ou não. Nunca será o leitor a ditar a prosa de um escritor, mas sim o contrário. Como já disse aqui há uns tempos bem recuados um grande amigo e colega meu, “há o meu gosto, e o mau gosto”. Quem nos tenta impor as suas preferências literárias é quem está redondamente equivocado. A grande literatura tem esse indiscutível mérito: provocar adesão ou afastamento. O resto será sempre mera opinião. A diferença, como se sabe, dificilmente é aceite com unanimidade. Temos nos Açores um autor que se chama João Pedro Porto, e insiste em descobrir os seus próprios meios literários, sem nunca se preocupar com a opinião generalizada entre os seus pares ou leitores. Para isso não é preciso coragem, só determinação, segurança e talento. Tudo o que temos no autor aqui em foco.

Contos Bizarros vem, no mesmo volume, traduzido em inglês, com o título Odd Tales, pelo próprio João Pedro Porto. Não vou entrar por aí, e poderia com muita facilidade. Nunca conheci um escritor açoriano que dominasse a língua de Shakespeare tão bem como este autor. Que outros o façam, e não lhe faltarão leitores no mundo de língua inglesa, especialmente nos Estados Unidos. Fiquei surpreendido com o seu bilinguismo. João Pedro Porto “arrisca” sempre em cada livro que tem publicado até ao momento. Por enquanto, o silêncio local de quase todos os outros diz alguma coisa. A nível nacional recebeu as palavras que merecia sobre o seu romance A Brecha, públicas e privadas. Também sei que nos Açores são poucos os que falam de outros. Bem sei o que custa assistir aos que nos ultrapassam na literatura. O engrandecimento dos outros à nossa volta engrandece-nos a nós próprios. Quem não entende esse facto ou feito é que perde. O “silêncio” poderá ter vários significados. Um deles é mesmo não gostar dessa obra, com toda a honestidade. O outro poderá ser a inveja. Estamos todos habituados aos modos portugueses de ser e estar. Só uma última observação. João Pedro Porto sabe que Finnegan’s Wake (1939) de James Joyce quase como que encerrou o modernismo experimentalista literário em todo o Ocidente, ou pelo menos no mundo anglo-saxónico (que quase ninguém o percebeu), e quando lhe faz o autor de Contos Bizarros aqui uma chamada só nos demonstra que ele é um dos escritores mais eruditos entre nós. Gostava muito de ler, num próximo futuro, uma narrativa a partir do modernismo actual, mesmo que tenha a Mongólia, ou outra qualquer geografia distante, como referência primordial. Bem sei que um autor tem os seus projectos bem definidos. Os críticos e outros leitores também. Só isso.

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João Pedro Porto, Contos Bizarros/Odd Tales (original em Português e em Inglês do autor), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 10 de Dezembro de 2020.

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Esta colectânea de contos, que inaugura ‘Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada’, tem a grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.

Maria Helena Frias, coordenadora de Avenida Marginal

Primeiro esclarecimento sobre este Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, que foi pensado e dinamizado por Maria Helena Frias, da Livraria SolMar. Este é o primeiro livro numa série pensada para continuar com pelo menos mais um volume. Os que ficaram de fora ou adiados incluem alguns outros e outras escritoras que já têm nome e prestígio entre nós. O título desta série de contos vem do grande poeta e ensaísta Emanuel Jorge Botelho, como que substituiu o nome Avenida Infante D. Henrique desta cidade a partir dos anos 70, e será um dos contribuintes, estou em crer, em volumes próximos. Segunda questão, não há um conto ou pedaço de prosa nestas páginas que não engrandeça a literatura açoriana, partindo de uma geografia bem definida e de uma cidade onde nasceram ou os que vivem nela ou nos seus arredores. Não queria que isto imitasse uma lista telefónica, mas não resisto desde já a nomeá-los todos pela ordem em que aparecem na sequência em que foram dando entrada à sua organizadora: Joel Neto, Nuno Costa santos, Blanca Martín-Calero Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes e Maria Brandão. De seguida tenho de dizer algo mais: não me dava conta de que uma cidade como Ponta Delgada tinha tantos bons ou grandes escritores. Para quem exerce o meu tipo de escrita, essencialmente de crítica e ensaio, ou então de mera apreciação do melhor que se tem publicado entre nós geração após geração só me traz alegria saber que, para além desta sua escrita temos os mesmos como grandes leitores, ou pelo menos aqueles que nos vão lendo, ou, mesmo que não o façam, sabemos que estão entre nós. Qualquer um destes contos ou escrita-outra poderia ou poderiam ser publicados nas mais prestigiadas revistas ou outros periódicos de língua portuguesa no mundo lusíada. Peço a alguns deles que ultrapassem de uma vez por todas qualquer complexo de inferioridade perante os que fazem literatura noutras partes “maiores” do nosso país. A nossa tradição literária deu desde sempre, dá e continuará dar ao resto do país, ou repetindo-me aqui, à língua portuguesa, algumas das grandes peças da arte literária. São naturalmente várias as vozes que dão vida e grandeza criativa à literatura do nosso país. A dificuldade para mim ou para qualquer outro crítico é destacá-los um por um/a num espaço limitado como é a página de qualquer jornal ou revista. Quem citar? Ao dar espaço a qualquer um destes contistas nunca vai significar a menoridade de outros. As minhas surpresas durante esta leitura foram contínuas. Se eu já conhecia a obra de certos nomes e sempre os valorizei por me terem tocado de vários modos intelectuais e afectivos, outros foram-me agora a mais agradável surpresa. Não fico por aqui ainda. Que é um reconhecido e aclamado escritor terceirense como Joel Neto a abrir esta colectânea “centrada” em São Miguel deveria dizer-nos muito sobre a continuidade não só de muitas gerações desde sempre e a recusa às palavras sobre rivalidades dos mais ignorantes em todas ilhas. Que uma escritora de origem espanhola mas que vive cá e deu aulas durante vários anos na Universidade dos Açores também marca a sua presença nestas páginas é outro sinal da nossa alma verdadeiramente universal. Não é preciso nascer cá para também ser açoriano ou açoriana – basta adicionar mais um identidade de cultura e lealdade à nossa pequena-grande terra, que sempre teve o mundo inteiro como poiso e pertença.

Como já disse antes neste espaço, o primeiro conto que abre este livro é de um escritor com uma obra reconhecida entre os melhores entre nós, e não precisa de mais palavras minhas neste contexto especial. Já escrevi ainda sobre outros, como Nuno Costa Santos. Queria referir aqui não a grandeza da abertura deste livro, como acho de bom tom, mas mencionar e citar o texto de encerramento, que é da autoria de Maria Brandão, tendo publicado há algum tempo outros contos sob o título de Corpo Triplicado, e que recebeu as melhores críticas públicas e apreciações entre outros escritores, em privado ou em conversas de grupo. Falhei a leitura na devida altura (2018), mas não posso deixar de rectificar essa falta inteiramente minha. A prosa de Maria Brandão é de um humor e ironia implacáveis, de uma clareza luminosa, e por vezes de passos entre a dureza e a verdade da sua e nossa condição de vida e história.

“Os verdes – diz a narradora a dada altura sobre uma personagem e meio-ambiente onde passa os seus dias em companhia ou na doce e assim mesmo amarga solidão – parecem~lhe desbotados, as paisagens banais, as hidrângeas queimadas, as termas duvidosas, a gastronomia gordurosa, a cultura dormente, os habitantes selvagens, o superhost pavoroso, o bom corpo afinal mirrado, a boca sorridente e apetecível transformada num depósito fedorento de cigarros e cerveja. Só o mar era bonito, de um azul carregado como nunca vira. Uns dias transparente e liso, outros turvo e espigado, mas sempre volumoso e possante a impor o seu carácter contra as rochas ou a areia das praias. Só o mar a apaziguara nas semanas que passara em transe, chorando a sua precipitação”.

Eis aí um retrato perfeito do “paraíso” que temos como o princípio e fim do mundo, a sua perfeição reduzida a uma sensibilidade raramente expressas na nossa literatura mais recente. Alma a descoberto, desilusão com os dias que passam sempre iguais, o seu quotidiano feito de uma espera que nunca chega, numa escrita vigorosa, cada palavra no seu lugar, cada frase descaradamente descritiva tanto do seu interiorismo, como diria qualquer literato americano, como do mundo à sua volta. Não vale a pena pensar numa “ilha”, antes, isso sim, na condição humana de um ser inventado em qualquer parte do mundo. Isto é literatura no seu estado mais puro, a invenção da “mentira” ficcional tornada verdade, um espelho em que a maior parte dos seus leitores se reveem, em gesto de repulsa ou reconhecimento de si próprios.

Avenida Marginal vem na sequência de outros livros editados pela Artes e Letras, o último dos quais, O lugar da Maçã, de Tomaz Borba Vieira, foi também recenseado por mim pela sua sua soberba prosa em forma de crónicas/contos que nos surpreendem a cada entrada na sua obra que é já considerável, como que um complemento ao seu rico trabalho nas artes plásticas. Uma vez mais, estes e outros livros juntam e dão a continuidade a um vasto corpo literário açoriano. Avenida Marginal vai ter, por certo, um lugar especial nas nossas estantes. Oferece-nos uma leitura que tanto nos aproxima ainda mais dos nossos lugares de afectos como provoca a nossa imaginação acerca de outros mundos vistos ou não vistos, vividos ou não vividos, sentidos todos ora com carinho ora com repulsa, aliás como toda a grande arte. O meu exemplar está todo riscado tornando a minha própria escrita uma escolha difícil quanto às palavras de cada um dos seus escritores. Para mim, é o mais importante sinal das múltiplas significações e prazer de cada texto nele inserido.

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Avenida Marginal:Ficções, Ponta Delgada (coordenação de Maria Helena Frias), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental de 3 de Janeiro, 2020.

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Esta colectânea de contos, que inaugura ‘Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada’, tem a grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.

Maria Helena Frias, coordenadora de Avenida Marginal

Vamberto Freitas

Primeiro esclarecimento sobre este Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, que foi pensado e dinamizado por Maria Helena Frias, da Livraria SolMar. Este é o primeiro livro numa série pensada para continuar com pelo menos mais um volume. Os que ficaram de fora ou adiados incluem alguns outros e outras escritoras que já têm nome e prestígio entre nós. O título desta série de contos vem do grande poeta e ensaísta Emanuel Jorge Botelho, como que substituiu o nome Avenida Infante D. Henrique desta cidade a partir dos anos 70, e será um dos contribuintes, estou em crer, em volumes próximos. Segunda questão, não há um conto ou pedaço de prosa nestas páginas que não engrandeça a literatura açoriana, partindo de uma geografia bem definida e de uma cidade onde nasceram ou os que vivem nela ou nos seus arredores. Não queria que isto imitasse uma lista telefónica, mas não resisto desde já a nomeá-los todos pela ordem em que aparecem na sequência em que foram dando entrada à sua organizadora: Joel Neto, Nuno Costa santos, Blanca Martín-Calero Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes e Maria Brandão. De seguida tenho de dizer algo mais: não me dava conta de que uma cidade como Ponta Delgada tinha tantos bons ou grandes escritores. Para quem exerce o meu tipo de escrita, essencialmente de crítica e ensaio, ou então de mera apreciação do melhor que se tem publicado entre nós geração após geração só me traz alegria saber que, para além desta sua escrita temos os mesmos como grandes leitores, ou pelo menos aqueles que nos vão lendo, ou, mesmo que não o façam, sabemos que estão entre nós. Qualquer um destes contos ou escrita-outra poderia ou poderiam ser publicados nas mais prestigiadas revistas ou outros periódicos de língua portuguesa no mundo lusíada. Peço a alguns deles que ultrapassem de uma vez por todas qualquer complexo de inferioridade perante os que fazem literatura noutras partes “maiores” do nosso país. A nossa tradição literária deu desde sempre, dá e continuará dar ao resto do país, ou repetindo-me aqui, à língua portuguesa, algumas das grandes peças da arte literária. São naturalmente várias as vozes que dão vida e grandeza criativa à literatura do nosso país. A dificuldade para mim ou para qualquer outro crítico é destacá-los um por um/a num espaço limitado como é a página de qualquer jornal ou revista. Quem citar? Ao dar espaço a qualquer um destes contistas nunca vai significar a menoridade de outros. As minhas surpresas durante esta leitura foram contínuas. Se eu já conhecia a obra de certos nomes e sempre os valorizei por me terem tocado de vários modos intelectuais e afectivos, outros foram-me agora a mais agradável surpresa. Não fico por aqui ainda. Que é um reconhecido e aclamado escritor terceirense como Joel Neto a abrir esta colectânea “centrada” em São Miguel deveria dizer-nos muito sobre a continuidade não só de muitas gerações desde sempre e a recusa às palavras sobre rivalidades dos mais ignorantes em todas ilhas. Que uma escritora de origem espanhola mas que vive cá e deu aulas durante vários anos na Universidade dos Açores também marca a sua presença nestas páginas é outro sinal da nossa alma verdadeiramente universal. Não é preciso nascer cá para também ser açoriano ou açoriana – basta adicionar mais um identidade de cultura e lealdade à nossa pequena-grande terra, que sempre teve o mundo inteiro como poiso e pertença.

Como já disse antes neste espaço, o primeiro conto que abre este livro é de um escritor com uma obra reconhecida entre os melhores entre nós, e não precisa de mais palavras minhas neste contexto especial. Já escrevi ainda sobre outros, como Nuno Costa Santos. Queria referir aqui não a grandeza da abertura deste livro, como acho de bom tom, mas mencionar e citar o texto de encerramento, que é da autoria de Maria Brandão, tendo publicado há algum tempo outros contos sob o título de Corpo Trplicado, e que recebeu as melhores críticas públicas e apreciações entre outros escritores, em privado ou em conversas de grupo. Falhei a leitura na devida altura (2018), mas não posso deixar de retificar essa falta inteiramente minha. A prosa de Maria Brandão é de um humor e ironia implacáveis, de uma clareza luminosa, e por vezes de passos entre a dureza e a verdade da sua e nossa condição de vida e história.

“Os verdes – diz a narradora a dada altura sobre uma personagem e meio-ambiente onde passa os seus dias em companhia ou na doce e assim mesmo amarga solidão – parecem~lhe desbotados, as paisagens banais, as hidrângeas queimadas, as termas duvidosas, a gastronomia gordurosa, a cultura dormente, os habitantes selvagens, o superhost pavoroso, o bom corpo afinal mirrado, a boca sorridente e apetecível transformada num depósito fedorento de cigarros e cerveja. Só o mar era bonito, de um azul carregado como nunca vira. Uns dias transparente e liso, outros turvo e espigado, mas sempre volumoso e possante a impor o seu carácter contra as rochas ou a areia das praias. Só o mar a apaziguara nas semanas que passara em transe, chorando a sua precipitação”.

Eis aí um retrato perfeito do “paraíso” que temos como o princípio e fim do mundo, a sua perfeição reduzida a uma sensibilidade raramente expressas na nossa literatura mais recente. Alma a descoberto, desilusão com os dias que passam sempre iguais, o seu quotidiano feito de uma espera que nunca chega, numa escrita vigorosa, cada palavra no seu lugar, cada frase descaradamente descritiva tanto do seu interiorismo, como diria qualquer literato americano, como do mundo à sua volta. Não vale a pena pensar numa “ilha”, antes, isso sim, na condição humana de um ser inventado em qualquer parte do mundo. Isto é literatura no seu estado mais puro, a invenção da “mentira” ficcional tornada verdade, um espelho em que a maior parte dos seus leitores se reveem, em gesto de repulsa ou reconhecimento de si próprios.

Avenida Marginal vem na sequência de outros livros editados pela Artes e Letras, o último dos quais, O lugar da Maçã, de Tomaz Borba Vieira, foi também recenseado por mim pela sua sua soberba prosa em forma de crónicas/contos que nos surpreendem a cada entrada na sua obra que é já considerável, como que um complemento ao seu rico trabalho nas artes plásticas. Uma vez mais, estes e outros livros juntam e dão a continuidade a um vasto corpo literário açoriano. Avenida Marginal vai ter, por certo, um lugar especial nas nossas estantes. Oferece-nos uma leitura que tanto nos aproxima ainda mais dos nossos lugares de afectos como provoca a nossa imaginação acerca de outros mundos vistos ou não vistos, vividos ou não vividos, sentidos todos ora com carinho ora com repulsa, aliás como toda a grande arte. O meu exemplar está todo riscado tornando a minha própria escrita uma escolha difícil quanto às palavras de cada um dos seus escritores. Para mim, é o mais importante sinal das múltiplas significações e prazer de cada texto nele inserido.

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Avenida Marginal:Ficções, Ponta Delgada (coordenação de Maria Helena Frias), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 3 de Janeiro, 2029.

Memória romanceada de uma freguesia e uma família açorianas

Depois da saída de cada um, quem vem atrás não fecha a porta, ninguém é o último a sair ou o último a entrar. Há sempre mais alguém que vem e quer no abrigo do tempo sem princípio nem fim.

Dimas Simas Lopes, O Rapto

Vamberto Freitas

São muitos os nomes das gerações neste novo e belo romance de Dimas Simas Lopes, O Rapto, cardiologista de profissão que nunca deixou de ser também um notável artista plástico e escultor da Ilha Terceira, combinando com essas manifestações de grande criatividade a literatura. O presente romance vem sequência de outros dois livros memoráveis intitulados Sonata Para Um Viajante e Porto do Mistério do Norte, mais conhecido como freguesia dos Biscoitos (de onde é natural o autor), uma espécie de estância de férias dos mais ricos da ilha, especialmente a elite de Angra do Heroísmo, com um mar que bate em pedras negras e fonte de rendimento de pescadores e vinhateiros de grande qualidade, outrora terra e água de caçadores da baleia, os que deixavam a enxada nos campos e se atiravam ao mar após o sinal dado pelos vigias. No entanto, não é essa a história que nos interessa aqui num romance intenso mas de linguagens claríssimas, que frequentemente ao longo das suas páginas oscilam entre o realismo e o simbolismo da historiografia geral da ilha, e muito especialmente a genealogia de uma família distinta, não pela riqueza em si, mas sim pela dignidade com que viviam a partir do século XVIII até aos nossos dias. Aliás, o narrador traz-nos até ao pós-25 de Abril de 1974 numa prosa agora mais ou menos ensaística, já no fim da narrativa, citando vários pensadores internacionais que incluem Eduardo Lourenço e George Steiner, como que a reafirmar num balanço da sorte de todos que habitam este arquipélago desde o início. Antes de mais, gostaria de citar aqui o historiador doutorado José Guilherme Reis Leite, que apresentou e prefacia o livro: “Ora, no caso da historiografia açoriana, por ser o que agora nos interessa, mas possivelmente nas outras, esta visão parece-me redutora da realidade. Nas comunidades rurais não deixava de haver elites para além daqueles, que vivendo na ruralidade, cumpriam com os requisitos para serem considerados elites formais, homens da governança, fidalguia e nobreza”. Noutra parte do seu texto insinua que ficção vai além suposta “cientificidade”, deixa-a atrás – entra ma mente e alma das personagens, tornando-as símbolos vivos de todos nós em qualquer extracto social que ocupemos. Quem diz mal da nossa prosa moderna, não sabe o que diz, e aqui reduzo-me a apenas escritores açorianos. Se Vitorino Nemésio imortalizou a pequena burguesia no Faial em Mau Tempo no Canal, João de Melo viria mais tarde a fazer o mesmo com a nossa pobreza em romances como O Meu Mundo Não É Deste Reino, e mais um pouco adiante em Gente Feliz Com Lágrimas. O narrador de O Rapto faz o mesmo, dá outro passo em frente: reflecte sobre toda uma realidade que inclui as famílias de “bem” com os mais pobres ou marginalizados na mesma geografia limitada, cercada de mar e serras, vivendo ora desafogadamente, ora buscando o pão de cada dia por todos os meios ao seu alcance. O que parece meramente local aqui torna-se universal, a condição humana numa das suas infindáveis versões. Não se pode pedir ou esperar mais de uma obra fina e de todo significante como esta.

Das muitas personagens e vidas que O Rapto segue desde o Porto do Mistério do Norte até ao continente português, África e Estados Unidos, para onde parte da família inevitavelmente emigra já no século passado, é o casal Maria Carmina (da distinta família Simas) e Francisco, que aos 27 anos de idade foge com a sua futura esposa, naturalmente contra a vontade dos seus pais, porque o seu noivo vinha de famílias modestas, de uma viúva de nome Francisca com vários filhos, e o pretendente ficava-se por um pequeno negócio de distribuição de bens pelos recantos comerciais da ilha. Não levou muito tempo para que pai e mãe de Maria Carmina (nascida em 1912) aceitassem o casamento quase clandestino e com a cumplicidade de uns amigos em Angra do Heroísmo, eventualmente passando a viver todos na freguesia de origem, primeiro na casa modesta da mãe de Francisco e depois na casa grande dos pais de Maria Carmina, desde o casamento nos anos 30 até quase aos nossos dias ainda na memória. Pelo meio ficam brilhantemente as descrições do quotidiano destes e muitos outros à sua volta. Entretanto vão morrendo todos com a passagem do tempo, ficando os que fecharão a porta, mas fora da história contada. Desde agricultores e pescadores, até aos da rica família trabalharam para alcançar uma missão na vida, como um Celestino que se formaria em medicina, viu a morte da sua primeira mulher em Lisboa enquanto trabalhava para aliviar as doenças em São Tomé e Príncipe. Estas são vidas, todas elas, em equilíbrio precário mas honrado, ajudando os mais necessitados, e conscientes a todo o memento dos vários regimes públicos em que viviam. Tanto os anos da fome como de doenças mortíferas por falta de medicamentos, alguns deles por descobrir, vivemos com eles os momentos de alegria, tristeza e morte. O romance vira uma história do arquipélago, poderá, à semelhança dos outros autores já aqui mencionados, numa amostra da vida vivida em todo o país. Na emigração, uns trabalham duramente, outros alcançam sucesso e distinção na agro-pecuária, como Dimas, este que, como todas as outras personagens, foram reinventadas de indivíduos ou grupos que existiram na realidade. Já houve tentação de outros em considerar O Rapto algo mais do que um romance biográfico que evolui para uma autobiografia. Seja como for, a sua estrutura é perfeita, puxando o leitor para o seu interior mais escondido, ou então revendo-se esse leitor pessoalmente numa ou noutra figura retratada pelo narrador. Trata-se de uma polifonia faulkneriana, em o que o narrador, de passo em passo, dá a voz às figuras de gerações passadas e presentes, construindo-se assim todo um mundo completo, quase a história, uma vez mais, de todo um arquipélago que nunca se quedou mudo ou paralisado nem pela miséria nem pela ambição de alcançar algo maior e mais próspero nas suas vidas. Por outro lado, praticamente todos os rituais religiosos e profanos são minuciosamente mencionados, os que trazem só mais um pouco de alegria a ricos e pobres.

É isso Manuel, intervém o Deodoro, a gente passa a vida – dá o narrador a palavra a outro – a fazer-se e a acomodar-se ao meio e às circunstância, que são as realidades que se colam à realidade maior e não deixam um homem tentar voar, a nossa natureza vive à custa da natureza, que não tem os nossos sentimentos e emoções. E passa-se a vida em viagem, às vezes sem sair do mesmo lugar, a fugir e a retornar, sempre em viagem como Ulisses”.

Não encontro melhor definição do que nos habituámos a chamar de “açorianidade”, sem que isso nos reduza adentro do país ou do mundo. Ou, como diz o poeta e escritor Ivo Machado, referindo-se a outro romance já referido aqui do mesmo autor numa apreciação que vem na capa do livro: “Munido dum mar antiquíssimo que o habita e onde os ventos recebem todos os nomes, chega Dimas Simas Lopes do Porto do Mistério do Norte, esse lugar onde a memória é uma fogueira – quando a julgam extinta, reacende-se, para entendermos que nada se perdeu…”. Com este romance, o autor coloca-se ao lado dos melhores escritores que têm feito da nossa literatura uma componente artística que não pode nem deve ser ignorada adentro da língua portuguesa no mundo, quer sejam nações ou comunidades nossas espalhadas por toda a parte, o outro Portugal sem fronteiras em perpétua busca da sua identidade, felizmente em redefinições constantes mas sempre com o sentimento de pertença às suas origens e literalmente ao mundo inteiro.

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Dimas Simas Lopes, O Rapto, colecção transeatlântico, Companhia das Ilhas, Publicado na minha Coluna “BorderCrossings! no Açoriano Orienta, 27 de Dezembro, 2019.

Edmund Wilson e Nova Iorque nos anos 20

Não há uma única ideia ou um ideal que reste aos Estados Unidos. O melhor que temos como heróis nacionais são uns poucos aviadores imprudentes.

Edmund Wilson, The Higher Jazz

Vamberto Freitas

Alguns literatos lusos, poucos, já conhecem parte da obra Edmund Wilson (1895-1972), mesmo que nunca tenha sido traduzida no nosso país, mas pelo menos uma limitada mostra dos seus famosos livros foi publicada no Brasil: Rumo à Estação da Finlândia, 11 Ensaios e O Castelo de Axel, este último um livro que introduziu os norte-americanos ao modernismo literário europeu e as implicações para a própria literatura no seu país a partir dos anos 20. Também já referi noutra parte que até mesmo um elitista e tradicionalista como Harold Bloom, no seu muito citado Cânone Ocidental, considerava-o o crítico americano maior de quase todo o século passado. Era admirado imensamente por outros escritores de ficção e ensaios, como Gore Vidal e Joan Didion. por exemplo. Wilson nunca resistiu a tentar a sua sorte e talento noutros géneros: teatro, poesia e ficção. Não atingiu nunca o prestígio da sua obra crítica, sendo hoje mais biografado do que os famosos escritores sobre os quais começou a escrever cedo, e incluíam os seus amigos Ernest Hemingway, John Dos Passos, T. S. Eliot e F. Scott Fitzgerald, este seu colega e grande amigo na Universidade de Princenton, não resistindo a uma inveja inconsequente aquando da saída do romance O Grande Gatsby. Só que quando Fitzgerald faleceu precocemente aos 44 anos de idade em 1940, Wilson exerceria toda sua generosidade intelectual e humana. Tratou de imediato de rever o romance póstumo de 1941, The Last Tycoon (publicado no nosso país) e que tem como referência a vida de Hollywood e algumas das suas mais reconhecidas figuras do cinema da época. De seguida, reuniu em The Crack-Up (1945), os escritos soltos que Fitzgerald tinha deixado sobre os anos de grande sucesso até à sua decadência total, contendo ainda testemunhos de autores de grande repercussão literária, como Gertrude Stein e Edith Wharton, assim como os já mencionados aqui T. S. Eliot e John Dos Passos. Em forma de romance, Wilson publicaria I Thought of Daisy (1929), e Memoirs Of Hecate County (1946), este de imediato condenado em tribunal pelo que entenderam no país da liberdade conter demasiada “pornografia”. Tinha sido o seu livro de grandes vendas, o que lhe facilitou um certo desafogo financeiro durante um curto tempo. É um romance fragmentado em diversas estórias, quase todas elas baseadas em figuras reais mas disfarçadas com nomes ficcionais, e só regressaria às livrarias em 1959.

No início dos anos 40 escreveria The Higher Jazz, que deixou incompleto, mas com notas à margem, o que permitiu o seu editor juntar o puzzle de palavras e continuidade de frases e diálogos. Sairia em 1998, embrulhado em notas de diversa natureza e um longo prefácio explicativo das circunstâncias em que foi escrito e abandonado, levando o leitor à total compreensão da sua prosa linear e claríssima. Wilson já se tinha virado para outras literaturas e temas, especialmente de minorias de várias nações, inclusive de nativo-americanos, em Apologies To The Iroquois.

Entendamos: The Higher Jazz não é um romance superior, mas lio-o como quem lê um ensaio genial de Edmund Wilson. Como já li praticamente toda a sua vastíssima obra e quase tudo que sobre ele foi publicado em forma de livro ou ensaio, escrevo aqui com toda a segurança e boa memória. Wilson viveu os seus primeiros anos em Nova Iorque e escreveu toda a vida para algumas das melhores revistas, começando pela Vanity Fair, New Yorker e The New York Review of Books. Os seus três romances têm Nova Iorque e arredores como fundo, mas depressa deixou a cidade para ir viver na pequena cidade de Wellfleet, em Cape Cod, rodeado de outros escritores e artistas noutras áreas, e de luso-americanos, passando meses numa outra velha casa no campo da parte norte do estado de Nova Iorque, que ele chamava the old stone house/a velha casa de pedra, e onde eventualmente faleceria na sua solidão, pois sua quarta esposa recusava quase sempre ir para esse isolamento entre vilas menores e rodeado de terras agro-pecuárias. O significado de The Higher Jazz tem de ser explicado aqui porque a tradução na nossa língua tornar-se-ia ambígua. Situado nos anos 20 em Manhattan, é da vida boémia e sem rumo nos clubes nocturnos entre pseudo-intelectuais e artistas-outros, em que o álcool era a medicina da noite. O título do livro, no entanto, é polissémico: refere-se ao movimento que existia em que compositores modernistas da música clássica, com destaque para Ígor Stravinsky e Aaron Copland, tentavam, com maior ou menor sucesso, incorporar o jazz que ia surgindo nas suas próprias composições. Por outro lado, o mesmo título poderá significar a vida corrida extremada na grande cidade, quase sempre sem sentido ou então de alegria falsa. Pelo meio temos diversas personagens, ora em casamentos falhados, ora andando de namorado e namorada com frequência quando a vida de cama e outras diferenças interrompiam uma espécie de romantismo mais fabricado do que verdadeiramente vivido. Para Wilson, que era originário de uma certa aristocracia já meio desfeita de Nova Jersey, Nova Iorque era a cidade da grande finança, de espectáculos burlescos e da Broadway. Manteve-se uma espécie de neo-marxista até ao fim, e um dos seus mais lidos livros é precisamente uma biografia de Lenine e da admiração que Wilson mantinha pela experiência de um regime radical e sem par na História humana, tendo viajado durante meses na União Soviética em 1935. A política americana era para ele repugnante, a doméstica e a internacional, e escreveria um livro a explicar as suas razões quando deixou de pagar impostos porque não queria apoiar a guerra no Vietname nem alimentar a chamada corrida louca aos armamentos de destruição maciça. Pagaria caro por isso, mas nunca pediu desculpa, como pediu aos nativo-americanos pelo tratamento que recebiam tanto do estado de Nova Iorque como do governo federal. Escreveu The Higher Jazz no começo da sua fúria, aplaudiu a queda da bolsa em 1929, afirmando “antes eles do que nós”. Entrou com outros escritores estradas dentro do interior da América para testemunhar a miséria do povo e apoiar as suas greves em curso, que resultaria num dos seus mais dramáticos livros de reportagens, The American Earthquake: A Documentry Of The Twenties and Thirties (1959), no auge da Guerra Fria e da perseguição internamente desencadeada contra todos os dissidentes de esquerda, a época de um certo fascismo à moda americana. Reconhecemos nas páginas de The Higher Jazz alguns dos nomes, com a famosa e grande mas corrosiva crítica de Dorothy Parker, entre outras alusões a lugares da intimidade do próprio autor-narrador, que toma o nome de Fritz.

Acabei de dizer ao Frink, que me parecia um cão raivoso – diz uma personagem sobre outra – que o que este país precisa é de mais crédito financeiro. Poderemos produzir aqui mesmo nos Estados Unidos tudo que qualquer pessoa deseja – temos maiores recursos naturais do que qualquer outro país menos os da Rússia, e eles ainda não controlaram os seus. Porquê que é que o povo não desfruta disso? Porquê é que não podem gozar do que têm? Nem sequer têm o suficiente para comer – nem sequer têm roupas e uma casa – alguns deles não têm nada do que necessitam durante uma época supostamente próspera. A razão? A razão é simplesmente que os barões dos caminhos de ferro e das grandes corporações podem obter enormes empréstimos dos bancos a qualquer dia, e o povo não consegue o dinheiro para comprar os produtos que eles próprios estão a plantar para outros.”

The Higher Jazz, uma vez mais, poderá não ser um dos grandes romances americanos, mas para quem conhece a obra crítica de Edmund Wilson (e mesmo para os que não a conhecem) lê-lo é com o maior prazer. É como que um ensaio com diálogos pelo meio, um outro retrato da América que muitos gostariam de esquecer ou ignorar que nunca existiu, tal como existe hoje para quem mantém um mínimo de equilíbrio intelectual e consciência social e histórica.

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Edmund Wilson, The Higher Jazz, Iowa City, University of Iowa Press, 1998. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorederCrossings” do Açoriano Oriental, 20 de Dezembro, 2019.

Do fruto da queda e da nossa sobrevivência

A maçã, a eterna maçã, a chave de tudo o que nos acontece, o fortíssimo símbolo da queda e que ocupa o seu espaço com uma simplicidade avassaladora.

Tomaz Borba Vieira, O Lugar Da Maçã

Vamberto Freitas

De algumas das obras plásticas, das suas mais famosas pinturas e murais, eu já conhecia como leigo e apreciador da grande criatividade em todas as suas formas. A sua já considerável prosa, não sei bem porquê, passou-me ao lado, mas o desconhecimento é de quem ignora ou desconhece, e nunca do seu criador. Talvez por o considerar em primeiro lugar um pintor, mesmo que reconhecido em toda a parte, me tenha afastado da sua escrita, que agora sei primorosa, e ainda mais parte fulcral da literatura açoriana. Só que chegou o momento de eu não poder mais deixar de fazê-lo parte das minhas próprias páginas. Em boa hora me chegou às mãos este seu novo livro com um título aliciante, O Lugar Da Maçã. É todo ele feito de crónicas muito especiais, que combinam a pura auto-biografia e o seu percurso da vida artística com a imaginação do seu autor. A sua linguagem vem ao encontro do que mais valorizo em qualquer literatura em todos os seus géneros: clareza, simplicidade (que não quer de modo algum significar simplismo), e sobretudo as palavras que contam histórias desde as mais humildes personagens até à referência constante dos mais universalmente mestres de obras marcantes ou que influenciaram os seus aprendizes ainda em tenra idade. Tomaz Borba Vieira, ele próprio um desses grandes mestres, tanto teve as suas universidades e instintos nos mais diversos países como nunca esquece um oleiro micaelense já num tempo em que sua arte de barro estava fora de moda até à sua insistência chamando a si variados visitantes internacionais em busca de saber e das novidades artísticas em extinção mas sempre relevantes fora de fronteiras, pois os de cá nunca deixaram de querer ter nas suas casas um prato ou um vaso branco e azul que não os só os lembrava das suas origens como embelezava as suas residências. O autor vê e ouve todos sem qualquer preconceito ou falta de admiração. Lê-lo é ler o nosso passado e presente, e muito mais: a grande arte sai de todos os lugares, até mesmo, ou especialmente, dos chamados pequenos lugares. O autor faz desta faceta da açorianidade não algo de provinciano, mas sim parte da criação universal. Quem desconhece, uma vez mais, é quem perde. O artista e escritor que hoje vive numa casa e galeria num bairro mais ou menos periférico da sua ilha, mas muito privilegiado, de nome Caloura (São Miguel), continua, através de exposições de arte e fotografia, assim como de uma escrita em todas as formas e temas, alguns dos nossos maiores momentos de aprendizagem e prazer puro do que o mundo tem para nos oferecer – a representação da humanidade em todos os seus aspectos e variantes de cultura e línguas, condições de vida comum às variadas geografias que representam o mundo inteiro. Nele, como nesta obra do que falo agora, nada e ninguém ficam no escuro. A sua claridade e noção desse mundo evapora todas as fronteiras e maneiras de como nos retratamos a nós próprios e a todos os outros. Há livros de “crónicas” que se tornam em romances completos, e este é um deles. Ficamos a conhecer o seu autor, e depois o resto por onde passou e estudou, que vai desde a ilha natal até a outros países europeus e da América do Norte, nem sequer esquecendo a vivência menos clara da nossa imigração nessas distâncias cada vez mais aproximadas sem que os seus estilos de vida nos fiquem alheios. Tomaz Borba Vieira elogia e castiga, tanto o tempo que lhe tem sido dado viver, desde o fascismo salazarista, que ele viveu também em Lisboa como em São Miguel. O testemunho de grande artista e escritor será também inevitavelmente a memória do futuro. O academismo superior tem as suas regras, a maior das vezes restritivas devido a uma suposta cientificidade, ficam limitados a relatar datas, nomes e incidentes, sem o poder especulativo ou de juízos de valor. É deles que vamos pesquisar os factos. Nada mais. Só que a História ou histórias têm tudo isso, mesmo os estados de alma de quem os viveu, gozou ou sofreu.

No ambiente cultural de São Miguel [o mesmo que dizer das outras ilhas] vivia-se num esquecimento – escreve o autor a dada altura numa crónica intitulada ‘A Teia’ – forçado quanto às iniciativas da criatividade e das inovações próprias do nosso tempo.

Os escritores ou artistas cuja personalidade ou ideologia progressista não agrafava ao governo de então, jamais chegavam aos Açores. Esses autores eram igualmente banidos no continente, embora lá sempre fossem mais frequentes algumas ilegais iniciativas da oposição.

Em São Miguel a Oposição era muito fraca, pelo que o bloquear da Cultura era oficialmente favorável ao marasmo de uma sociedade acomodada”.

A maçã poderá ser o símbolo da nossa queda cristã, mas nunca impediu os homens e mulheres fortes de resistir aos tiranos e a toda a corrupção a eles associada, nunca tiveram medo de lhes baterem à porta à meia-noite e lhes confiscarem obras de arte ou livros. Foi sempre a arte que se contrapôs ao Poder, ou então registava e regista para sempre as suas injustiças e crimes. Os Açores poderão ter sido mais fracos nestas acções, mas nunca nos faltou uma minoria de coragem e acção decisiva. Alguns deles foram presos, torturados, perderam o seu emprego em escolas e fora delas, ou mesmo mortos. No futuro, os tiranos passam, com certas excepções, a pouco mais de uma breve nota na nossa História, mas a arte permanece eternamente. A este grupo pertence o autor aqui em consideração. Tinha como referência múltiplas realidades e experiências como pontos de partida. A educação humana e artística de Tomaz Borba Vieira passa por aí, a sua biografia é mais grandiosa de qualquer governante na nossa memória. Leio as notas da sua capa sobre os seus percursos internacionais com passagens por algumas das melhores universidade dos Estados Unidos e Canadá. Foi professor com treino em pedagogia de ponta, aluno de Belas Artes também na Europa, relembrou memoráveis palavras de outros, e agora dedica-se a produzir e a partilhar todo o seu saber com todos os outros que queiram visitar ou participar nos eventos que promove no seu lugar aqui na sua ilha, e não só. A sua grandeza, quer pessoal quer como artista ou escritor, transmite de imediato outra qualidade a tudo isso inerente – a humildade e disponibilidade para cooperar com quem dele se aproximar. A sua escrita vem ilustrada neste livro com várias reproduções e fotos dele e de outros. A palavra retratada a preto e branco, menos uma foto dele a cores da autoria de T.B.V., que não sei quem é. Mostra o seu sorriso, os pés num lago, e por perto uma mulher debaixo de água. É o Tomaz Borba Vieira com quem falo pouco mas muito valorizo e respeito. Ler a sua prosa é não apenas um acto de aprendizagem, é a delícia de cada frase, das suas memórias e de personagens totalmente inesperadas, como um Mestre Batata, um dos últimos oleiros ali para os lados de Vila Franca, que tem a paciência de permanecer na sua oficina, sem grandes encomendas mas sempre pronto a demonstrar como se faz ou funciona a sua arte. Tomaz Borba Vieira conhece o mundo mais do que alguns de nós porque conhece em primeira mão a sua terra natal. É disto que é feito um verdadeiro cosmopolita ou homem do mundo.

Há uma nova geração de escritores entre nós que muito teriam de aprender com estas páginas simultaneamente calmas e fulgurantes. Há outra casta, também entre nós, que apenas leu à força alguns compêndios, mas que se pensam conhecedores de tudo e todos, dentro e fora das nossas fronteiras. Para esses, não tenho nada a dizer. Escrever sobre o joelho não traz nem ideias e muito menos a arte da palavra claramente expressiva e significante. O pouco que escrevem nunca se aproximará deste saber sólido de um livro como O Lugar Da Maçã.

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Tomaz Borba Vieira, O Lugar Da Maçã (prefácio de José Maria Teixeira Dias, e texto de José Maria de França Machado), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019. Publicado no meu “BorderCrossings” no Açoriano Oriental a 13 de Dezembro, 2019.

 

Onésimo Teotónio Almeida nas Correntes da Póvoa de Varzim

 

Sim, as Correntes d’Escrita são um exemplo de como é possível remar-se contra a maré, não deixar cair os braços, não se deixar vencer por pessimismos derrotistas e inventar e reinventar algo diferente, criativo.

Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escrita & Correntes Descritas

Vamberto Freitas

Logo no início deste singular livro, o seu autor cita Norman Malcolm (1911-1990): “filósofo discípulo de Wittgenstein, garante ter o seu mestre dito uma vez que poderia escrever-se bom e sério trabalho filosófico consistindo inteiramente de anedotas (e ele não estava a brincar), assegura-nos no seu Ludwig Wittgenstein: A Memoir de 1958”. Não tenho a veleidade, afirma Onésimo Teotónio Almeida (logo de seguida), de estes meus textos constituírem um trabalho filosófico: mas sérios, isso são. Conheço o autor desde meados dos anos 70, e sei que ele nunca teve veleidades nenhumas quanto à sua escrita. A começar com os seus escritos desde o Seminário de Angra, tenho acompanho a sua obra desde de sempre. Aliás, o primeiro artigo que publiquei em Portugal foi sobre um dos seus primeiros livros da imigração, Ah! Mònim Dum Corisco, que publiquei na revista a Memória da água-viva, então criada e publicada em Lisboa por Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros nos anos 70, precisamente no número três da revista. Depois disso, veio muito mais: crónicas de todo o género, contos e especialmente ensaio. Publicou recentemente A Obsessão Da Portugalidade, e que veio a seguir, O Século dos Prodígios: A Ciência no Portugal da Expansão, sobre a ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, que venceu o Prémio da Fundação Gulbenkian História da Presença de Portugal no Mundo, da Academia Portuguesa de História; o Prémio Mariano Gago, da Sociedade Portuguesa de Escritores; e o Prémio D. Diniz, da Fundação Casa Mateus. Há 20 anos (desde o início do projecto sem igual entre nós) que participa activamente nas Correntes D’Escrita da Póvoa de Varzim.Com a toda a justiça e relevância. Este seu novo livro contém os seus ensaios (menos o de 2007, e deste ano por razões compreensíveis, pois o livro estava já a ser impresso antes da sua mais recente intervenção. Inclui – como Epílogo — ainda o seu discurso proferido na Universidade de Aveiro quando esta instituição lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa. Não queria falar aqui de modo negativo, mas a inveja da sua carreira é também notável entre nós. Pudera. O que ele faz nesta sua escrita, sempre original e inesperada, é o que anuncia numa citação de Wittgenstein: combina a seriedade e erudição universitárias de um incansável estudioso com as anedotas e histórias que simplesmente ilustram e clarificam de modo brilhante as suas mais pertinentes observações e dissertações sobre o nosso mundo do passado e o actual, a que voltarei mais adiante.

Na Póvoa, não costumo ser não eu próprio; apenas uso ultraje de praia, como convém a um local de veraneio, se bem que em Fevereiro lá estejamos fora de estação. Não posso ser assim em todo o sítio, é certo, mas ao menos ali é-me permitido andar de chinelos, ou mesmo de pé descalço. Por isso ocorreu-me fechar este volume com um outro texto que parecerá eventualmente descabido, embora eu creia fazer sentido a sua inclusão. Trata-se do que li na Universidade de Aveiro quando, certamente por distração ou erro, ali me atribuíram um doutoramento Honoris Causa. No texto vem tudo explicado. Aqui basta dizer, em resposta indirecta ao bom amigo Assis Brasil, que naquela intervenção apenas separei em duas partes as águas do humor e da conversa a sério, que nas Correntes misturo sem rebuço, tanto mais que, por razões que mais adiante ficarão claras, nele inseri três páginas da minha intervenção nas Correntes desse ano. Espero que esse escrito ajude a esclarecer o fundo que subjaz aos textos reunidos no presente volume. Foi sobretudo por esta razão que decidi incluí-los”.

A qualidade da escrita de Onésimo Teotónio Almeida, como aliás já foi mencionado aqui anteriormente, demonstra o que raramente acontece entre nós. É um investigador infatigável das questões portuguesas do passado e do presente (assim faz quando fala da América da sua longa estadia naquele país), mas com uma grande e notável diferença. Fala dos temas mais universais desde as muitas mundividências que tem testemunhado ao longo dos anos, mas numa prosa de verdadeiro escritor: escorreita, clara a que junta sempre o chamado “prazer do texto”. Tanto menciona as ideias de um grande filósofo ou especialista em ciência sociais como inclui as mais hilariantes anedotas ou histórias inesperadas que leu ou ouviu nas distantes geografias do mundo. Vindo de uma formação clássica, desde o seminário açoriano e Universidade Católica de Lisboa até à Brown University, o leitor entra em mundos ou realidades totalmente originais. Vai desde os antigos gregos ao mais recente escriba em português ou inglês, cita nomes de várias proveniências, inclui passos entre aspas, e deixa-nos numa espécie de êxtase ou até inveja. Dialoga com figuras, por exemplo, que vão de um Eduardo Lourenço ou Vergílio Ferreira até a um Woody Allen, dos filmes e de eventuais pronunciamentos sobre a ironia ou comédia da vida, até a Sócrates, o original da Grécia, que ele tão bem conhece, e Platão das sombras e da suposta realidade. Percebo agora a sua indispensabilidade nas Correntes D’Escrita. Tem uma memória de ferro, nada e ninguém esquece nas suas palestras, ou lá o que ele chama as suas intervenções na Póvoa. Trata-se de uma prosa simultaneamente tão fina mas sem nunca faltar, como já disse, a citação esclarecedora ou que faz rir sem nunca perdermos o significado do resto das palavras. Foi ele que me ensinou há muitos anos o conceito de “modernidade”, a evolução do Iluminismo no Ocidente. Só uma diferença com ele: “modernidade” e a sua evolução para “pós-modernidade”, ou seja a liberdade a que faltava, penso eu, a noção de justiça perante as minorias em toda a parte e os seus direitos. Posso estar enganado aqui, mas falei sobre isso. Um homem como eu formado nos últimos anos 60 e princípio de 70 sentia isso essa falta ou acrescimento à bem-estar, pelo menos nos Estados Unidos onde vivi esses anos de turbulência e revolta esquerdista na faculdade onde eu estava integrado, um dos primeiros açorianos a ter esse descaramento. Só isso. A prosa de Onésimo é de tal modo viva que apetece citá-lo de passo a passo. Tem passado a vida a falar bem de Portugal no estrangeiro, sem nunca esquecer os nossos defeitos ou atribulações com quase 900 anos como nação e estado muito antigo da Europa, que em dias muito longínquos teve a coragem e o saber para grande aventura, a criação da primeira globalização consequente. Aqui vai uma dessas suas recordações que vêm de 1991, na qual o humor se alia à pura verdade, denunciando a nossa atitude secular sempre ambígua perante a mãe-pátria.

Mas em Portugal – diz ele naquele seu estilo limpo e luminoso – não é preciso inventar razões para apreciarmos o que cá temos. Porque há muita coisa boa em Portugal. Não quero, no entanto, fazer como um amigo meu que, depois de viver vinte e sete anos em Los Angeles, ia regressar aos Açores, mas hesitava: Eu falo muito mal disto [disse ele], mas Los Angeles tem muita coisa boa. Por acaso, agora não me lembro de nenhuma”. Conheço muito bem esse amigo, e ele continua a pensar o mesmo.

Não vou enumerar aqui a numerosa obra de Onésimo Teotónio Almeida, precisaria de espaço que não cabe num jornal diário de Ponta Delgada. Limito-me a dar os parabéns às Correntes D’Escrita pela sua presença nestes 20 anos de realizações anuais. Têm sido um exemplo inspirador que agora é seguido por muitos festivais em todo o país, inclusive aqui nos Açores.

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Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escritas & Correntes Descritas (com prefácios de Luís Diamantino e Manuela Ribeiro), Guimarães, Opera Omnia, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental de 6 de Dezembro de 2019.

 

Dos Açores na memória e no presente da sua autora

Mas se ainda não tinham percebido, deixem-me dizer-vos que a minha ilha, lá no meio do oceano mar, é uma grande parte do melhor de mim.
Teresa Canto Noronha, Notas Da Ilha

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, creio ser este Notas Da Ilha o primeiro livro de Teresa Canto Noronha, todo ele publicado em primeira mão numa espécie de blogue do Facebook. Bem-vinda, cara autora. De seguida tenho necessariamente de vos relatar alguns dados sobre esta escritora. Deixou São Miguel aos 18 anos de idade, em 1985, para depressa deixar a Faculdade, e tornar-se-ia numa distinta jornalista televisiva. Primeiro – ou como factos biográficos de peso maior e aqui relevantes – tornou-se correspondente em Bruxelas e Roma entre 2000 e 2006. No seu regresso definitivo ao nosso país, entraria e permanece como repórter da SIC. Nunca mais viveu permanentemente na sua terra de origem, mas nunca deixou de a visitar sempre que possível, e vive em Lisboa com São Miguel na alma, até os seus cheiros a maresia e outras coisas na natureza não lhe saem nunca de si, do seu ser. Há uma frase recorrente na sua prosa, que oscila entre a crónica pura, a poesia ou então uma série de postais enviados constantemente de lá para cá, seja para família ou para os seus amigos e amigas mais aproximados. Essa frase, praticamente em cada página sua, todas breves, mas significantes, palavra a palavra, impressionaram-me sobremaneira pela sua sonoridade poética: “… na ilha no meio do oceano…” Que quer dizer ela com isto, nessa repetição poética do princípio ao fim? Que está no meio do nada ou no centro do mundo? Creio ser a última coisa, ou seja, sentir-se no centro do mundo, do seu mundo tanto profundamente privado como público. “Aqui, na ilha – escreve a autora num passo datado de Agosto de 2017 – no meio do oceano mar, estou-me nas tintas para o facto de já ser uma senhora de 50 anos”. Notas Da Ilha vai de Março de 2017 a Setembro de 2019, o tempo fresco na nossa memória e vivência, o que também faz deste inusitado (no bom sentido da palavra, claro está) uma outra espécie de um diário de nós todos, cada recanto desta terra, desde cidades e trilhos agrestes a geografias do nosso estar e ser, e por muitos de nós desconhecidos. Para quem, como a autora, tem uma vida consequente e inteira no presente, a memória continua a ser o que mais acaba por nos mover e comover. É raro um livro como este, uma declaração de amor (as palavras não são minhas) a um espaço limitado que todos os dias nos merece as maiores críticas mais negativas do que positivas, ou até de questionável de bom gosto. Para muitos de nós, a beleza e a vida supostamente desejada ou sonhada, está sempre no outro lado do horizonte. Certo brasileiro disse um dia que o seu país era só para “profissionais”, e estou em crer que também dizia-o pela negativa. Os Açores não são nem nunca foram para todos, e eu que o diga, até aos anos da minha reconciliação. Mas esta é na verdade um pedaço do mundo em que apetece viver, apesar quase sempre de ser vizinho ser o mau da fita, o má língua ou o invejoso. Teresa Canto Noronha vai ao contrário, diz-nos do que olhamos sem ver, do que sentimos sem sorrisos ou lágrimas, indiferentes a quase tudo e a todos. Vergílio Ferreira dizia que da sua janela via o mar, frase que nada tem de extraordinário e sobretudo menos de beleza. “Da minha janela – diz a autora de Notas Das Ilhas – vê-se o mundo”. Nada define o açoriano como esta breve e simples frase. Se ela fala do que vê e sente em Lisboa, a sua açorianidade está mais do que definida e sentida.
Ernest Hemingway dizia que o jornalismo escrito e outro ensinava um potencial escritor de ficção, mas passado num determinado tempo de aprendizagem era aconselhável a deixar essa forma de escrita. Teresa Canto Noronha não é – por enquanto – uma ficcionista, mas a sua longa carreira no jornalismo só aperfeiçoou a sua construção de uma prosa que, como já referi, não é de fácil classificação, e esse facto torna a sua escrita numa leitura deliciosa, escorreita sem nunca deixar de fora os passos mais simbólicos e que fazem dos seus leitores cúmplices, quase habitantes que na sua pequenez não só parecem que se desconhecessem, ou fazem por se desconhecer, quando por nós passam e viram cara. Li a sua “prosa” como quem lê um poema de amor generalizado, como quem se passeia com ela por todos os recantos da ilha a meio mar, o destino açoriano perpetuamente no exílio dentro e fora do arquipélago. Quanto mais aberta a sua prosa mais nos identificamos com ela. Nenhum livro tem de ser crítico de gente ou lugares (e ela também não foge a certas observações), mas também nenhum livro tem de ser um castigo seja a quem for. Esta é uma homenagem à saudade, à memória, para parafrasear neste momento um título de uma das nossas mais históricas revistas literárias, a das águas vivas que sempre determinaram a nossa sorte no mundo, desde a aventura marítima da Mãe-Pátria que chegou aos confins do mundo. Ter consciência de uma vida vivida é ter na alma e na mente todos os seus, família, amigos e conterrâneos. Ler Notas Das Ilha é ler-nos a nós próprios – no nosso melhor, na nossa bondade e na honestidade de admitirmos quem somos ou não somos. Escreve a autora quase no fim do seu livro:

“Creio que há um ciclo de vida que se fecha na minha vida.
Um ciclo de reconciliação com o passado.
De feridas completamente cicatrizadas…
Descobrimos que tínhamos nascido no mesmo sítio numa das muitas viagens, sem destino, que fazemos pelas estradas da ilha e que serve, também, para encontrarmos mais pontos em comum.
Coisas tolas, na maior parte das vezes.
Sobretudo do meu lado”.
Falar de Teresa Canto Noronha é falar de uma determinada personagem, mas que fala de nós todos. Um grande livro é sobretudo essa partilha de vidas que nos são, quer o aceitemos ou não, comuns. Geografia, cultura e linguagens combinam-se para provocar este efeito de empatia e leitura que mais parece uma sinfonia, sem sentido e com todo o sentido – para quem ouve ou lê.
“A ilha não mudou, – diz a autora numa recente entrevista ao Açoriano Oriental a propósito deste seu livro – mas a forma como a vivemos é diferente e as pessoas estão muito diferentes. Quando eu vivia na ilha, as pessoas viviam separadas. Havia as pessoas da cidade e as de fora da cidade. As pessoas não se misturavam, estavam divididas em grupos sociais e por uma série de regras que, felizmente, desapareceram. Hoje a ilha é de todos e é muito mais fácil viver na ilha, apesar de ainda haver dificuldades”. Aceito inteiramente e sem complexos o amor e a ausência, mesmo temporária ou que por curtos momentos nos causa.
Pois é. Ao contrário do que dizem os mais pessimistas (e eu próprio vivo dia-a-dia os dois lados), é bom, muito bom, ouvir a sua voz. A sua escrita não se lê (apenas), ouve-se como se todas as bandas dos Açores tocassem um número sobre a sua e nossa sobrevivência.
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Teresa Canto Noronha, Notas Da Ilha, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019.