Do Arquipélago De Escritores E Das Suas Vozes

A força dançante das ilhas. Mais do que a melancolia, mais do que a bruma, tão potente quanto o silêncio.

Nuno Costa Santos, Grotta 5

Vamberto Freitas

Não quero que isto seja um relato pormenorizado da revista literária Grotta 5, nem uma nota biográfica sobre alguns dos seus responsáveis, incluindo o seu director Nuno Costa Santos. Escritor de vários géneros, salta da comédia que um dia chamou de melancólica, ainda então residente e actuante a vários níveis em Lisboa, ao marcante romance Céu Nublado com Boas Abertas (2016), entre outros livros e escritos. Divide agora a sua vida entre São Miguel e Terceira, onde passou a residir há alguns anos. Só que ele, juntamente com outros da sua geração açoriana dentro e fora do arquipélago, representa algo que considero de quase extraordinário entre nós. Filhos e filhas destas ilhas, a sua ida para o Continente começa em diferentes faculdades, e parecia que, logo de início, quanto às suas carreiras na nossa capital, provavelmente julgávamos que iriam até ao fim da idade ou dos projectos culturais que uns e outros tinham escolhido ou abraçado. Os sinais contrários começaram desde logo, no entanto, a demonstrar algo de diferente. Ora na sua escrita – o singular confunde-se aqui com o plural – ora nos seus regressos constantes, tanto a “realidade” vivida cá dentro como nos seus chamamentos na escrita ocupam o centro dessas obras, algumas das quais já ombreiam com o que de melhor temos produzido ao longo de décadas, os seus nomes são já conhecidos entre o nosso público leitor mais atento em qualquer parte do país, e ainda entre outros no além-fronteiras, se é que esta expressão continua a significar alguma coisa. Já destaquei muitos desses outros escritores e jornalistas, mas é sobre Nuno Costa Santos que agora escrevo por ser emblemático, repito, de alguns outros que saíram e regressaram pessoalmente ou através da palavra simbólica que os remete às suas origens atlânticas, configurando com os que nunca partiram um espaço vital, digamos assim, no nosso extenso cânone das artes em geral. O presente número da Grotta é um eloquente testemunho dessa herança em constante movimento, o passado nunca esquecido dá lugar não a qualquer ruptura, antes é uma continuidade que não pede desculpas a ninguém quando, mesmo após o que acabo de afirmar, caminha necessariamente por outras vias, visões e entendimentos da sua própria experiência, essa que, por falta de imaginação, dizíamos ser a “pós-modernidade”. Afinal era tão “pós” como era “o fim da história” de Francis Fukuyama. Mais uma generalização ou duas sobre este tipo de publicações literárias não-institucionais: aparecem e desaparecem com certa frequência ao longo de toda a nossa história, mas quase todas deixam-nos memória firme, tornam-se referências essenciais ao que noutros tempos também se denominava Tradição artística, e não só na literatura nos seus géneros principais. Foram essas e estas revistas, assim como os suplementos culturais inseridos nos jornais diários e de periodicidade diversa, nas palavras de outros estudiosos, as nossas outras “universidades”. Foram e são-no.

O Arquipélago de Escritores tornou-se um grande encontro literário açoriano há cinco anos, e as suas inúmeras sessões contam com escritores vindos de vários países, de Portugal continental e de várias ilhas e comunidades espalhadas por quase todos os continentes. A cada ano, presta homenagem a um escritor, dando-lhe a honra da abertura do evento, com uma entrevista directa e alongada perante o público em geral, seguida eventualmente por outra entrevista conduzida especificamente para a revista, que dá voz e comemora a chamada vida da mente, desde a literatura contemporânea a praticamente todas as artes, sem sequer deixar de fora a caricatura amiga de outros nomes. Grotta 5 traz-nos Álamo Oliveira, o poeta, romancista, dramaturgo e ensaísta que da Ilha Terceira vê o mundo tão perto como a sua própria casa no Raminho, tal como em tempos estava situada em Angra do Heroísmo. Tudo o que eu poderia adicionar aqui sobre este autor maior seria redundante. As suas palavras, escritas ou ditas em circunstâncias mais ou menos formalizadas, tornam-se frequentemente um ponto de partida para alguns de nós. Como algumas outras palavras, representam o mais profundo sentido da geração que o acompanha na sua insistência de ver a própria literatura como sendo a memória identitária – não tenhamos medo da palavra – de todo um povo, acto ou qualidade que poderá nunca ser a sua intenção, mas assim é, creio, recebida e interiorizada pelos seus melhores leitores. Para ele os Açores são muito mais do que as nove ilhas, são continentes inteiros, são vidas consonantes com as mais longínquas e diferenciadas línguas e geografias. Uma revista cujo espaço está preenchido, página a página, narrativa a narrativa, poema a poema, fotografia a fotografia, ilustração a ilustração com os mais distintos novos e não tão novos nomes lusíadas e “estrangeiros”, é essa fonte de “astúcia” e, uma vez mais, “memória” literária em busca da História e do lugar que cada um ocupa no teatro global de tragédias e triunfos.

“Ler Álamo Oliveira – escreve Nuno Costa Santos na introdução à entrevista da Grotta 5 – é um desfruto. Porque a sua escrita é uma iguaria rara que junta estilo, lirismo e humor. A sua obra já não cabe numa badana. Mas isso não será motivo para nos perdermos. O leitor ainda não iniciado pode respigar um livro do autor ao acaso e encontra motivo para a fruição – e os volumes têm sido editados e reeditados pela Companhia das Ilhas. Cada um traz qualidades e pertinências. Nas ficção fixa-se em grande temas sociais, muitas vezes ligados à difícil condição económica açoriana na segunda metade do século XX. Na poesia, agora reunida, quase na totalidade, no volume Versos de Todas as Luas, pisa o chão diverso do seu planeta mais íntimo. Nos textos sobre arte a sua argúcia e o seu bom gosto cruzam-se de um conhecimento formado à conta da curiosidade”.

Os nomes dos colaboradores de Grotta 5 são muitos para que eu os inclua todos nesta página. Como a maioria das revistas do género no nosso país, esta não fica a dever nada no seu formato e estilismo gráfico, mas isso não me impede de compará-la, com gosto e admiração, a outras que tenho desde sempre na minha estante, vindo logo em primeiro lugar a mítica The Paris Review, americana, e a Granta, inglesa, desde há algum tempo com uma versão portuguesa, que na nossa língua também não reconhece geografias estranhas nem escritos alheios às nossas vivências e criações sem horizontes. Diga-se o mesmo da LER, noutros registos e projecções literárias, e na qual Nuno Costa Santos colaborou, com todo o seu humor, como “Provedor do Leitor: Ou Como Fazer Amigos Na Literatura”. Que isto acontece em ilhas com as nossas dimensões é outro sinal de que a casa do nosso ser (passe aqui a paráfrase) também se estende muito para além do azul do mar e do verde dos campos e florestas. Aliás, essa visão tem como uma das suas traves-mestra uma das melhores literaturas de língua portuguesa, que muita perplexidade tende a causar aqui por perto, dentro do próprio arquipélago e no resto do país em terra um pouco mais firme. Tudo isto já não nos causa complexos interiores de qualquer espécie. As nossas portas foram e estão sempre abertas, quer falem de bruma quer escrevam em versos ou prosa bem urdida por mestres de qualquer idade. Convencidos? Não. Só parte integrante do melhor que em toda a parte, por um meio ou outro, se faz em todas as línguas e recantos do mundo.

O escritor Diogo Ourique, autor do romance Tirem-me Deste Livro (2019), é responsável pela coordenação editorial da revista Grotta. Tem igualmente um pé em Lisboa e outro na Terceira. Estes têm sido os anos dos nossos melhores regressos e vozes.

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Grotta: arquipélago de escritores 5, Direcção de Nuno Costa Santos, Ponta Delgada, Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2021-2022. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Junho, 2022.

De Elaine Ávila E Do Nosso Fado:

Entrevista Com A Escritora Luso-Descendente (II)

Ela tinha rosas no seu jardim. A igreja tinha azulejos. As mulheres juntavam-se para cozer pão. Recordas aquele aroma?

Elaine Ávila, Fado: The Saddest Music in the World

Vamberto Freitas

Vão aqui outros passos da entrevista com a escritora Elaine Ávila, originalmente publicada em inglês na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, e da qual publiquei também numa primeira parte nesta página do Açoriano Oriental. A obra que despoletou a nossa conversa foi a publicação em livro da peça maior Fado: The Saddest Music in the World. A questão da identidade, nossa e a de qualquer outro povo, a redescoberta e o regresso às raízes ancestrais vistos como um profundo gesto identitário de cada um de nós, e sobretudo de tentar saber o nosso lugar num mundo simultaneamente globalizado e necessariamente, infinitamente, pluralista em tudo que diz respeito ao nosso enquadramento nos mais diversos mosaicos humanos, todos parecidos mas todos com as suas originalidades quanto a línguas, culturas e costumes, em cores diversas e nas suas histórias, reais e míticas, na definição das suas próprias origens, das origens de toda a Humanidade. Elaine Ávila, nesse seu processo de afirmação individual, familiar e colectivo, esteve na Universidade dos Açores em 2019 como Fulbright Scholar, uma bolsa só conferida a quem já deu substanciais provas do seu trabalho académico, literário ou intelectual. O círculo do seu reencontro com a açorianidade estava a completar-se, ou talvez melhor, a iniciar-se numa desejada viagem agora perpétua.

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Antes de abordarmos eventos importantes na sua vida como professora e escritora, fale um pouco da sua vinda à Universidade dos Açores como Fulbright Scholar, e a sua decisão de escrever uma peça teatral sobre a condição das mulheres açorianas, em vez de tentar abranger outros aspectos vida açoriana em geral?

Eu estava à procura de escrever uma peça teatral especificamente sobre ou para os meus antepassados. A minha peça, Fado, entenda, talvez não seja no fundo uma estória açoriana. Há estórias açorianas aí metidas, como a estória sobre Antônio (sim, uma personagem que homenegeia o meu primo) a pedalar uma bicicleta para fornecer corrente elécrita para a projecção de filmes na sua freguesia (era assim que os filmes eram vistos em Ribeiras, no Pico, a minha freguesia ancestral), e ainda a experiência de se viver abertamente como gay nesse pequeno meio português relembra um outro íntimo amigo meu. Quando li uma parte da peça no Encontro Pedras Negras Writing Festival na ilha das Flores em 2019, fiquei totalmente surpreendida no que se tornaria uma peça integralmente açoriana; os actores e a audiência depressa perceberam coisas que me tinham levado uma vida inteira a explicar no Canadá. O processo de de-assimilação da minha própria parte aconteceu em Lisboa, com o fado, a canção daquela cidade. Mas o fado é também cantado nos Açores, que os meus avós entoavam. Tinha ainda de o aprimorar mais.

Então, depois de escrever Fado, pensei que poderia escrever uma outra peça especificamente sobre as minhas terras ancestrais durante o meu Fulbright. Como iria fazer isto? Depois lembrei-me que um outro amigo chegado, o advogado e autor Manuel Azevedo, do Pico, tinha-me oferecido um livro que escrevera, e pediu-me que o tornasse numa peça de teatro. Não poderia ser mais claro do que isto! O livro é sobre Maria Lopes, a primeira mulher açoriana presa pela Inquisição. Portanto, dei-me conta que a minha próxima peça teria de a retratar.

Mas também recordei que o símbolo dos Açores, talvez um símbolo das mulheres, capelo e capote, o largo capelo, era vestido em estilos diferentes em quase todas as ilhas açorianas durante cerca de 400 anos. Actualmente, no Canadá (e nos Estados Unidos) estão a retirar às mulheres as burcas e os hijabe. Em Vancouver, uma mulher adolescente, foi atacada por vestir um hijabe no “comboio celestial”, o nosso metro. No aeroporto, outra mulher nova foi despida do seu hijabe pelos seguranças. No Quebec, há uma recente lei que nega a progressão na carreira de professoras se vestirem o hijabe. Em Alberta, uma mulher partilhou a sua experiência de viver no medo constante de ser atacada por vestir a burca em público. Entretanto, espera-se que mulheres americanas e canadianas geralmente denunciem as mulheres que usam estas roupas por viverem, acreditam, oprimidas. Decidi, pois, que este vestuário, um que é também, mais ou menos, originário da minha própria herança ancestral, seria também uma poderosa inspiração para uma peça teatral. Assim, para o meu Fulbright, investiguei a vida de Maria Lopes, e fui aos arquivos à procura de capotes (Na Terceira, Faial, São Miguel, Pico, e, durante a pandemia, no Corvo através do computador), e entrevistei mulheres e homens açorianos modernos sobre as suas experiências com capas. Como sabes, tanto homens como mulheres são trajados com um capote na Universidade dos Açores, a única universidade em Portugal que cultiva essa tradição, e há rituais complexos que envolvem os trajes académicos. Em grupos folclóricos e em sociedades históricas, os oradores principais sobre a história das capas são homens.

Maria Lopes, descobri, tinha pedido ajuda ao mais famoso escritor açoriano do século XVI: Gaspar Frutuoso. Mesmo que ele viesse também de um passado judeu (“Cristão Novo”), teve de a afastar, e ela no fim foi queimada na fogueira. Maria foi denunciada pelo próprio filho. Portanto, mesmo que as minhas peças teatrais começassem com a investigação sobre personagens femininas, em última instância, há muitos papéis a desenrolar por homens.

O meu Fulbright acabou por se tornar uma experiência incrível. A Dra. Graça Borges Castanho foi o meu contacto na Universidade dos Açores. Ela recebeu há pouco tempo o prémio “Outstanding Woman Listeners no Mundo”, a única portuguesa que conseguiu esta distinção (com 25 outras prestigiadas mulheres, tal como a Chanceler Alemã Angela Merkel, a Primeira Dama Jill Biden, e a Vice-Secretária das Nações Unidas Amina Mohammed, todas reconhecidas por promoverem a importância de saberem ouvir os outros para se alcançar a igualdade, inclusão, e justiça). Como deves saber, a Dra. Castanho teve o seu próprio programa televisivo durante algum tempo, e concorreu à Presidência de Portugal. Foi ela que me apresentou a alguns dos mais prestigiados historiadores e outros académicos de São Miguel, assim como a especialistas da investigação e tradições, pelo que estarei sempre grata.

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Da longa entrevista no original, acabei por perguntar a Elaine o que lhe motivava para continuar a escrever por entre uma actividade académica e artística que creio pouco habitual entre nós. Uma vez mais, a autora, concluiu uma extensa resposta com estas palavras, de todo esclarecedoras, em que sua ancestralidade está frequentemente no centro da sua vida: “ Escrevo – disse-me Elaine – porque acredito que cada um de nós tem algo a contribuir. Poderá ser a obra de uma vida tentarmos compreender exactamente o que é que isso significa. Escrever as estórias que nos faltam – a de mulheres, trabalhadores, a crise das mudanças climáticas, e sobre os portugueses, especialmente os açorianos – é o que tenho para dar… foi uma grande dádiva ter de contemplar as tuas perguntas, ajudam a manter o meu sentido alive.

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Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Vol.XLIV, Entrevista/Interview with Elaine Ávila, páginas 180-192, Brown University, Providence, Rhode Island, 2020. A tradução das palavras de Elaine Ávila é da minha responsabilidade. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Maio, 2022.

O Pó Da Desgraça Ou Los Angeles Nas Suas Tragédias

Vinha pelo caminho, aos pontapés na neve espessa. Era um homem zangado. Chamava-se Svevo Bandini e vivia nessa rua, três quarteirões mais abaixo.

John Fante, A primavera há de chegar, Bandini.

Vamberto Freitas

Li e escrevi há cerca de dois anos sobre um dos mais eloquentes e canónicos romances que têm Los Angeles como referência, e depois de ter lido outros autores da mesma estatura e grandeza na faculdade da California State University, Fullerton. Los Angeles e as suas misérias, Comecemos por The Lady In The Lake e The Long Goodbye, de Raymond Chandler, e de seguida The Day Of The Locusts (1939) de Nathanael West, sendo este romancista, no entanto, o mestre do surrealismo com base na loucura criativa de Hollywood. Depois veio o devaneio criativo de Charles Bukowski, que vivia em San Pedro, a cidade-porto bem ao lado da grande metrópole, muito perto de onde eu próprio fazia a minha vida profissional e pessoal, mas sempre sem a coragem de o visitar pelo que ouvia dos seus temperamentos diários ou horários. O grande romancista e poeta “maldito” era muito mais do que isso, era um marginal génio da então nova literatura americana, e as suas contradições eram mais do que evidentes. Denunciava vigorosamente os chamados escritores Beat, mas era na realidade um deles, só que nunca amado ou respeitado pela academia, sempre conservadora e seguidora das modas do momento. É ele que prefacia brilhantemente o romance Ask The Dust/Pergunte ao Pó, na tradução brasileira. Um pouco mais tarde um amigo de Lisboa dir-me-ia que esse mesmo romance tinha sido traduzido no nosso país por Rui Pedro Cabral e publicado em 2009, e que também, pelos vistos, está a traduzir agora todas as obras do mesmo autor. Mudou apenas uma letra no título para Pergunta ao Pó, que me parece pouco conhecido entre nós, mas isso está prestes a mudar, em condições mais abertas, a sorte dos clássicos do grande autor que é John Fante. Estamos num aparente revivalismo inesperado que agora nos traz A Penguin Random House Grupo Editorial. Bukowski, ele também redescoberto e sobejamente ampliado internacionalmente após a sua morte em 1994, escreveu em directo que “Os romances de John Fante são do melhor que a literatura americana alguma vez produziu. Fante teve uma grande influência em mim. Ele era o meu deus”.

John Fante (1909-1938), e que hoje é considerado, uma vez mais, um dos incontornáveis fundadores da geração Beat, antes do rótulo ser inventado, e isto ainda nos anos 30, muito antes do que viria duas décadas depois, com Allen Ginsberg e Jack Kerouac, entre outros. Na verdade, cheguei finalmente a John Fante através do meu amigo e escritor, de descendência luso-americana, picoense e russa (judia) Darrell Kastin, ele próprio um grande escritor e que conheceu e conviveu pessoalmente com Charles Bukowski quando abriu uma livraria em San Pedro, e que o tinha como vizinho. Darrell visita Portugal com certa frequência, e vem dando conta destes encontros com esta sua outra pátria em ficção diversa, entre o conto e o romance.

Pergunta ao Pó tem como narrador alguém que se confunde com o protagonista Arturo Bandini, um escritor italo-americano, e situa o seu romance em Los Angeles durante os anos 30, os anos da Grande Depressão. Ido para lá de Denver, Colorado, com vinte e poucos anos de idade e após terminar o seu curso universitário, em busca das luzes citadinas e da sua carreira literária, que havia começado há uns poucos anos com a escrita de contos, o mais famoso de todos, aqui nesta ficção, intitulado “The Little Dog Laughed”, publicado numa das então revistas que disseminavam este tipo de escrita e pagavam o suficiente para os seus autores sobreviverem modestamente. O seu agente estava em Nova Iorque, de nome Hackmuth, e o autor a viver num hotel de terceira categoria na baixa de Los Angeles, rodeado de marginais alcoólicos e esfomeados. Todas as outras personagens ficam reduzidas a pouca importância, ou a nenhuma, menos uma servidora num bar de categoria questionável. Camilla Lopez, de origem mexicana, e por quem ele se apaixona sem nunca concretizar na totalidade os seus desejos, ou por insegurança ou pelo facto de ela dizer estar apaixonada por outro homem, contagiado pela tuberculose, anglo-americano, e chamado simplesmente Willie, que acaba a vida numa barraca à beira do deserto Mojave, mais uma da suas metáforas sobre uma geografia em que Los Angeles foi roubado e construído na precariedade da vida miserável, feita de mortos ambulantes, como diria Thomas Wolfe num conto seu nova-iorquino que nada tenha a ver com esta obra. Entre uns e outros, Bandini vai escrevendo outro romance, que acaba publicado e lhe permite continuar só mas com algum dinheiro disponível para o seu dia-a-dia, e que então, mesmo em quantias hoje consideradas irrisórias e insultuosas, mas que altura permitiam continuar a sua carreira como artista da palavra.

O resto é um retrato devastador numa América à beira do Pacífico a viver as suas ilusões e a miséria num país caído. Ruas da criminalidade, pequena ou dura, em que só o sexo e a bebida, mesmo na indigência do tempo e do lugar, ainda eram minimamente possíveis. O romance termina sem ele mais saber da sorte de Camilla ou Willie, escondidos na solidão e sofrimento na Terra de Ninguém. Era tudo de uma de errância, insegurança do chamado Sonho Americano, que agora nos parece quase congelado num mundo novamente em ebulição.

Vem tudo isto a propósito da publicação, finalmente do “quarteto de Bandini”. A Penguin em Portugal acaba de publicar, A primavera há de chegar, Bandini. Sonhos de Bunker Hill, Pergunta ao Pó e Estrada para Los Angeles. Os leitores portugueses terão a oportunidade de conhecer uma obra literária absolutamente primorosa e toda centrada na grande cidade a sul da Califórnia, com o mítico Hollywood bem ao lado, o outro lado, uma vez, do chamado sonho americano.

“Sabia falar, sabia pensar. A sua inteligência – diz o narrador por entre uma conversa com uma das suas mulheres em A primavera há de chegar – debatia-se com problemas muito mais difíceis do que os dela. De livros, não – não percebia nada. A sua vida árdua, suada, não lhe dava tempo para os livros. Mas tinha tinha estudado a linguagem da vida mais a fundo do que ela, apesar dos seus ubíquos livros. Bandini tinha dentro de si todo mundo de coisas para dizer”.

Tinha e tem. Da vida vamos percebendo algumas coisas, caro Bandini. Existes sempre sem nunca existires. De livros, percebemos um pouco mais, mesmo os que raramente ou nunca lêem, mas insistem que percebem tudo. A tua ironia e humor ante a dureza do teu quotidiano em Los Angeles não nos passam de todo despercebidas. Eis o poder da arte literária de quem imagina e reinventa num misto de realidade e ficção. A literatura dita “autobiográfica”, dizem-me, tem má fama por aqui. Se a grandeza da geografia sul-californiana foi um castigo para alguns, a nossa pequenez atlântica, pelo contrário, parece uma bênção. Mas temos os “ubíquos livros” de que falavas. Os que nos são tardiamente relembrados farão um dia parte do nosso imaginário americano. Com eles haverá sempre mais vida para além da nossa história de imigração ou descendência presente no mundo inteiro, parte dele tão longínquo e próximo de nós todos.

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John Fante, A primavera há de chegar, Bandini (tradução de Rui Pires Cabral), Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, Alfaguara, 2022. Publicado no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 19 de Maio, 2022.

A (In)dignidade da Nossa Modernidade

..O silêncio também faz parte da condição de velho, pois é o silêncio uma ausência, no caso de som, e todas as ausências se estabelecem na velhice.

Paula de Sousa Lima, Os Velhos

Vamberto Freitas

O crítico e ensaísta americano Edmund Wilson (1895-1972), quando já pressentia o inevitável fim, escreveu um curto poema com o título “The Indignity of Old Age/A Indignidade da Velhice”. Dizia já das suas “saudades” dos livros que nunca mais iria ler e de alguns outros prazeres de que nunca mais desfrutaria no seu sono eterno. O novo romance de Paula de Sousa Lima, Os Velhos, traz-nos a original capacidade da autora de fazer arte com um tema quase proibitivo. À partida poderá arrepiar alguns dos seus leitores, mas essa compreensível reacção ao próprio título, a meu ver e após uma leitura atenta e até fulgurante, de modo algum se justifica. Ezra Pound (1885-1972), esse outro grande poeta americano e que até ao fim da vida desestabilizou, com a sua atrevida voz política, o que então não chamávamos de politicamente incorrecto, disse o que permanece uma grande verdade da melhor literatura: contém em si as mais frescas notícias da condição humana, desde os tempos imemoriais. No nosso país, pelo menos entre a nossa geração, continuamos a relegar para os meios da dita comunicação social certas notícias desagradáveis ligadas às radicais mudanças societais de uma desejada mas sempre inquietante modernidade, calando fundo quase tudo o que nos provoca desconforto, quase tudo o que desafia o que mais valorizamos. A saber, o carreirismo desenfreado e a prosperidade geral e alegre, casa, carro, conta bancária e os filhos, quando possível, nas melhores escolas para tudo isso garantir. Nada há, creio, a contestar quanto a esse desejo natural em toda a parte, muito pelo contrário. Sabemos, no entanto, das tremendas desigualdades sócio-económicas, e apontamos imediatamente o dedo ao Estado, como se cada um de nós não carregasse qualquer culpa por estas realidades. Trata-se de um outro género de ficção maldita, nunca escrita. Só que com as desejadas amenidades vem com igual força esse outro lado, o fechar de olhos e alma a tudo que fica mais ou menos escondido, ou pretendemos que são só os outros que devem levantar as mãos e o pulso em nome de uma humanidade a saque, apesar de todas as aparências. Eis em Os Velhos como a sua autora quebra com esse silêncio na literatura, quebra com o fingimento de nada sabermos da sorte final daqueles que dizemos ter amado toda a vida, sejam eles e elas pais e mães, ou outros sem qualquer rede de protecção durante os seus últimos anos de vida. Ricos e pobres, estes quase sempre tendo vivido nos seus melhores anos as piores das violências físicas e psicológicas, muitos dos idosos acabando nos chamados lares, a palavra que define toda a trama do presente romance, toda a sua fúria temática, toda a sua força estética.

Este romance de Paula de Sousa Lima está magnificamente estruturado como uma sonata do desespero da suas personagens engavetadas, uma vez mais, num lar cujas boas intenções inclui tudo menos a sensibilidade adulta perante ricos e pobres, que sofrem ora de debilidades físicas ou então da solidão do abandono total. Não conheço pessoalmente o que acontece na chegada ou no despejo de idosos institucionalizados, o seu dia-a-dia dependente de profissionais de bata médica ou avental de trabalhos afins, ou ainda os que estão sentados a dar ordens e a vigiar nas suas secretárias, mas confio na representação do narrador sem género da autora, no seu espaço literário entre a realidade e ficção. Os capítulos divididos em sequências e andamentos da narrativa relatam, ora em forma do que por vezes me parece outra espécie de ensaísmo, que encontramos em páginas diárias nalguns poucos periódicos ou revistas, ora em linguagens narrativas que oscilam página a página entre o discurso directo e indirecto, dando-nos assim o pensamento das vítimas – não há outra palavra aqui para os descrever – que sofrem o seu destino com coragem e mais frequentemente com desânimo e ansiedade, guardando o segredo, sim, da sua indignidade plenamente consciente mas sem recursos ou liberdade de se defenderem do suposto profissionalismo seco e atrevido de todos os que lhes rodeiam e assistem, desde médicos às mulheres e homens de limpezas dos que estão sob a sua responsabilidade, e tudo o resto. Somos assim colocados, pela voz omnisciente da narração, no corpo e mente de cada uma dessas personagens, utentes do lar e dos seus responsáveis a vários níveis. A partir do seu aprisionamento, as detalhadas analepses dão-nos conta de todo o seu passado de amor, raiva e violência. Nada existe agora para além da memória dos que ainda a têm. Na ficção de Paula de Sousa Lima adquirem todos e todas os seus nomes completos, que carregam a humanidade normalizada de alguns, ou a persistente e dilacerada memória de outros. Estão todos no centro da narrativa, com a imaginada directora do lar em foco, as suas contradições de ser e estar tornadas evidentes para quem as observa de perto e de longe. As visitas são poucas, nenhumas para alguns, em certos casos após os seus herdeiros se terem abastado dos legados de dinheiro ou propriedades, noutros casos dando apenas asas à sua maldade.

“E – diz-nos a narradora sobre a ironia da existência da personagem Ernestina dos Anjos, cujo marido a tinha castigado durante anos quando a colocou num curral de porcos – é um compasso de espera doloroso, tão longo como se a semana se distendesse por vários meses, e as horas se alongassem por vários dias, e os minutos formassem um caudal de horas, o tempo é tão longo, as tarefas são penosas. As auxiliares sentem o trabalho como um peso desmesurado que carregassem sobre as costas ou que trouxessem pendurado nas mãos, olham para os velhos e sentem vontade de lhes bater, de os esganar, malditos velhos, como se eles tivessem culpa de alguma coisa, que não têm, sequer têm culpa de estar vivos, se pudessem escolher não estavam, pelo menos não estava Ernestina dos Anjos, cuja única aspiração é morrer, mas nem isto a sorte a bafeja, está viva embora pouco, exala-se do seu corpo um odor a podridão, não é falta de higiene, não há detergente nenhum que lave a podridão do interior do corpo, desses corpos com tantos órgãos moribundos qual têm os velhos”.

Os Velhos é esse romance singular que pode ser lido como um dramático gesto de conhecimento empírico, mas em primeiro lugar como um exercício de imaginação pura. Li-o igualmente como uma metáfora das sociedades modernas, abertas, e que se querem decentes em todos os quadrantes pacíficos das nossas vidas – esquecendo o outro lado. Olhar o passado tanto tem de verdade como reinvenções que justificam o presente, depois a caminhada para o futuro. A literatura torna-se necessariamente num testemunho pessoal, mas a partir da experiência e circunstâncias de qualquer escritor que valha a pena acompanhar vemo-nos no jogo de espelhos que nos devolvem o nosso mais íntimo ser, forçando-nos a avaliar e a reavaliar as estradas que já percorremos, os significados de cada vida no nosso pensamento, no que têm de realismo, no que têm de absurdo. Paula de Sousa Lima escreve estas páginas em longas orações. Não me refiro só à gramática desta e de outras obras suas. Mantenho a polissemia da palavra na própria narrativa. Refiro-me a qualquer retrato que reflecte os seres humanos nas suas contingências, o pormenor que cabe numa palavra, numa frase, num diálogo, na sabedoria de quem partilha a poética ou a rasura de outras vidas imaginadas, a abertura ao Outro, mesmo que muito longe ou separado do que previamente vivemos ou conhecíamos.

Os andamentos deste romance têm o que a narradora chama de “agora” e “antes”. Mantêm o leitor em atenção com a resolução dos mistérios respeitantes aos velhos e aos seus cuidadores encartados. Vai como que dialogando com esse mesmo leitor sobre o que ele ou ela provavelmente está a pensar, só que avisa que poderá haver reviravolta inesperada ante esta ou aquela personagem em foco, quem fez o que e como. A curta secção “onde se encerra o livro”, nas palavras da narradora, começa com uma breve frase, a contrapor-se à restante narrativa: “Não encontrareis justiça neste mundo”. No mundo que foi reinventado aqui, no mundo real em que vivemos? A ficção, a arte em geral, nunca nos dá respostas: interpele-nos, leva-nos à dúvida, devolve-nos as imagens distorcidas que contradizem o que pensamos ser as certezas da vida quotidiana, não prega a ninguém, mostra o que provavelmente está no outro lado do espelho, sugere o melvilleano “choque do reconhecimento”, a nossa condição humana universal, o Bem e o Mal, em conflito perpétuo. Bem sei que isto rejeita a relativização imposta pela modernidade do se ser e estar aqui ou em qualquer outra parte. A leitura é sempre um acto de concordância como é de resistência. Desde há muito que Paula de Sousa Lima mantém este diálogo com os seus leitores através da escrita de grande fôlego em várias formas e géneros. Lembremos por agora que o seu romance O Paraíso foi finalista do Prémio LeYa, em 2016.

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Paula de Sousa Lima, Os Velhos, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2022. Publicado no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Maio, 2022.

De Elaine Ávila E Do Nosso Fado:

Uma Entrevista Com A Escritora Luso-Descendente (I)

And then, in the mirror, I saw her: Amália. Amália looking back at me/E depois, olhei-me ao espelho, e via-a: Amália. Amália olhando-me do outro lado.

Elaine Ávila, Fado: The Saddest Music in the World

Vamberto Freias

Não há muito mais que eu possa dizer sobre a escritora Elaine Ávila. Vive actualmente em Vancouver, mas cresceu e viveu em Maryland e no Silicon Valley onde, diz-me ela, estava quase proibida de ser triste. Compreendo-a perfeitamente, os meus 27 anos de vida no Sul da Califórnia foram, mais ou menos, semelhantes. O que aqui importa é a sua carreira, não só como professora universitária, mas especialmente como dramaturga e ensaísta. Quer seja o que eu diga aqui, será redundante, pois ela mergulha, na sua mente e coração no que respeita à sua experiência de escritora luso-descendente numa longa conversa como esta e por escrito. como eu nunca a tinha visto antes. A ilha do Pico é o ponto de referência das suas origens ancestrais, foi donde o seu bisavô saiu primeiro a meados do século XIX num barco baleeiro, passando as suas irmãs a trabalhar como agricultoras na América do Norte (Califórnia e Massachusetts), assim como o Canadá é hoje um dos seus territórios de vivência. O alcance da sua escrita é agora quase mundial. Portugal tem levado o seu tempo, talvez relutantemente, a reconhecer o seu povo na Diáspora, mesmo que Elaine Ávila agora já tenha recebido atenção em Lisboa e, espero a partir daqui para a frente, nos Açores, um outro centro da sua vida pessoal e intelectual. O resto da sua história e obra literária são directa e abundantemente abordadas na entrevista que se segue nestas páginas.

O que originou esta entrevista tardia foi o livro Fado: The Saddest Music in the World (magnífica peça de teatro), sobre a inspiração de Amália, a quem Elaine chama a Diva das divas. As respostas na entrevista original foram muita mais longas. Necessariamente seleccionei os passos que me pareceram mais contundentes para um espaço limitado neste e noutros jornais. Quando o seu primo de nome João leu a entrevista no original, dir-me-ia Elaine, sentiu todo o orgulho e paixão pelas palavras em parte reproduzidas aqui assim como o que já chamei noutros textos a “força das raízes”.

A entrevista foi conduzida em inglês para a revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, Vol. XLIV, 2022, Brown University.

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Elaine, escreves há muito tempo, em diversas formas. O que foi que lhe provocou o “regresso” às origens ao escrever Fado: The Saddest Music in the World?

Primeiro, devo agradecer ao meu primo, Dr. Antônio Terra, que trabalhou muitos anos em Macau, e recebeu uma boa pensão que lhe permitiu viajar, algo que ele e o amor da sua vida, Cristina Rocha, usaram para sabermos de quem descendíamos da famíla Terras (Alexandre, nascido em 1840 e Clara, nascida em 1865, do lado da minha avó, das Ribeiras, no Pico), incluindo de modo poderoso recuperar o que havia sido esquecido. Os Terras estão agora dispersos pelo Canadá, pelos Estados Unidos, Açores, Londres, Macau e Portugal Continental. Quando conheci Antônio, ele considerou que era uma grande tragédia eu nunca ter sabido de onde éramos ambos: dos Açores.

A tua pergunta toca em algo que é central na vida no Canadá e nos Estados Unidos, e nas nossas vidas em particular. Se todas as marcas do teu passado cultural têm sido, mais ou menos, efectivamente apagadas, como é que isso aconteceu? A quem serve essa ausência? O que é que acontece quando as nossas raízes são reclamadas? Ou se parentes como Antônio e Cristina nos aparecem para as reclamar?

Segundo, sim, Fado é a primeira vez que explorei uma personagem que tenta chamar a si as suas raízes ancestrais. Mas já escrevi outras peças com temas portugueses – conheces a minha peça Café A Brasileira, que venceu o Disquiet Prémio Literário Internacional de Pequenas Peças (Short Play), mas também explorei a soberania da culinária e mudanças climáticas em Portuguese Tomato, que foi encenado um pouco por todo o mundo, e especificamente em Portugal: Sintra, Covilhã/Belmonte e no Pico. Escrevi esta peça depois de ouvir dizer que a União Europeia estava a trabalhar para quebrar as tradições da agricultura tradicional em Portugal, e depois de eu tomar conhecimento do movimento pela defesa dessa soberania agricultural, La Via Campesina, fundada na Bélgica por 182 associações em 81 países.

Kitimat, que vai ser publicado brevemente, foi encenado em Lisboa, Los Angeles, e no oeste do Canadá. É sobre uma família da Achadinha imigrada no Canadá. Esta família açoriana desintegrou-se (torn apart), tal como muitas famílias e amigos se desfizeram, quando uma petroleira gastou quantias enormes de dinheiro numa tentativa de as convencer a apoiar o projecto de um oleoduto, oferecendo a transformação de uma cidade então a sofrer o mais rápido declínio no Canadá.

As razões que me levaram a escrever sobre temas portugueses, de vários modos, é uma pergunta misteriosa para mim própria, e só posso dizer que os meus avós açorianos plantaram as sementes em mim quando era nova, e essas sementes viriam a frutificar.

Vendo a sua extensa história como professora de escrita criativa em várias universidades do mundo, e uma também extensa lista de obras e actividades teatrais, nós em Portugal só conhecíamos um pouco de si. Isto foi deliberado, ou somente as suas circunstâncias de vida no Canadá?

Não posso dizer que foi deliberado, então devem ter sido as minhas circunstâncias pessoais. Durante as primeiras encenações de Fado, tive o privilégio de estar sentada numa mesa cheia de mulheres açorianas na casa dos 70 anos de idade, que tinham vindo assistir à peça vestidas no seu melhor. Elas estavam entusiasmadas por verem uma peça portuguesa de teatro – foi uma prenda. Enquanto me juntava à sua mesa, tentei explicar-lhes que eu era uma dramaturga, mas elas não compreenderam. Estava muito fora das suas circunstâncias. Tive uma experiência parecida como bolseira da Fulbright na Universidade dos Açores, em 2019. Tentei dizer às pessoas que encontrava que eu estava lá para trabalhar, e a maioria daquelas que regressavam tornavam-se turistas na sua própria cultura, e eu a trabalhar nos Açores era incompreensível para a maioria dessas pessoas. Então, se estás a fazer algo de novo, poderá não o parecer à primeira vista. O especialista para responder à tua resposta deveria ser a Dra. Anna M. Klobucka, que tem investigado a história das escritoras portuguesas. Assisti a uma das suas recentes conferências, na qual afirmou que não havia uma equivalente portuguesa de Jane Austen – as barreiras para as mulheres no século XVIII eram formidáveis. Ela é a actual Fulbright Scholar to Portugal e tratará a questão das escritoras portuguesas no princípio do século passado, incluindo a açoriana Alice Moderno.

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Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters And Studies, Vol. XLIV, 2022. Entrevistas/Interviews, Interview with Elaine Ávila, páginas 180-192, Brown University, Providence, Rhode Island. Publicado no Açoriano Oriental, 6 de Maio, 2022.

Toda A Alma Portuguesa Na Literatura E Na Música

There is no home. There is only the sea. But we sing anyway. This, this, prima, this is fado. This is what Amália said…/Não há pátria. Só o mar existe. Mas cantamos mesmo assim, Isto, isto, Prima, é o fado. Assim o disse Amália…

Elaine Ávila, Fado: A Música Mais Triste Do Mundo

Vamberto Freitas

Ouvi uma vez ao longe, fazendo-me distraído, dois escritores imigrantes portugueses de primeira geração, um deles um distinto ensaísta e cronista e um outro um poeta com os mesmos méritos. Publicavam só na língua portuguesa sobre a nossa experiência americana. Agora, ouvi eu meio atónito, andam a comentar os luso-americanos que só escrevem em inglês como se entendessem em directo e com profundidade das nossas vidas no Novo Mundo. Enganavam-se em todos os sentidos, estes meus colegas de primeira geração. Os escritores luso-americanos viveram e vivem a nossa experiência na Diáspora tão bem, e por vezes melhor, do que nós. Por outro lado, com a passagem do tempo e a falta de renovação de primeiras gerações, será a escrita deles que vai perdurar a longo prazo, serão eles que na escrita lembrarão o que foi toda a nossa vida na América do Norte. Nem em Portugal a prosa ou poesia na nossa língua penetra de maneira extensiva, e poucos leitores darão do seu tempo á essa nossa outra arte. O teatro de Elaine Ávila faz-me lembrar alguns destes momentos ou diálogos através desta incomparável peça Fado: The Saddest Music In The World. Muita desta encenação aqui em foco fez-me lembrar não só vivências pessoais depois de 27 anos de América, como me trouxe à memória outro evento cheio de significado para mim. Aqui há uns anos a minha filha Vanessa foi a Lisboa pela primeira vez, acompanhada pela minha companheira Ana Cabral e a minha sobrinha Lisa (ambas, Vanessa e Lisa, nascidas e que sempre viveram na Califórnia), e a Ana fez questão de irem as três ver/ouvir Amália, e adoraram a famosa produção em Lisboa de Filipe la Féria, mas este livro de Elaine Ávila vai a outras profundezas especialmente para luso-descendentes. É o que faz a peça de Elaine Ávila, em breves cenas e palavras, a emoção do “regresso” e da primeira visão da sua outra terra natal sobrepondo-se a todo o seu passado, memórias familiares, a música como que contando a sua própria história pessoal e colectiva. Fado: The Saddesst Music In The World tem poucos protagonistas e curtos diálogos, só que dizem tudo o que faltava dizer tanto sobre Amália como da sua cidade branca, a sua historicidade vincada nos fados mais conhecidos da grande artista lisboeta, a historicidade do nosso país que dá origem resumida de modo magistral na voz e no letrismo poético de Amália. Por vezes lembrava-me um conto de Raymond Carver (que nunca escreveu teatro), em que o silêncio, tal como aqui nestas outras palavras, era o grito de desespero, saudade do que se viveu ou queria viver-se, a suposta apologia de certos fados do regime salazarista encontrando como contraponto brilhante a denúncia do terror que tinham como tema principal a escravatura no Brasil e a crueldade do Tarrafal, as prisões à meia-noite. Fado começa no dia da morte de Amália, quando a mãe de Luísa a encontra estendida na sala em choro e agarrada ao último álbum da nossa diva maior. Diz-se aqui, que o ditador primeiro odiava o fado, para depois o permitir para que o povo tivesse algo de que se orgulhar no país das trevas, que foi quase sempre o nosso.

Podem citar várias canções sobre outras cidades, como Nova Iorque ou São Francisco, mas nenhuma delas se iguala a estas e a outras de artistas nossos, como Carlos do Carmo. A redescoberta que Luísa, nascida no Canadá e na companhia da sua mãe, de nome Rosida e com a memória da miséria das suas origens em Portugal, vem toda dentro do fado, e do seu desejo de se tornar uma cantora nos pequenos redutos do fado em Lisboa, vivo em vários dos bairros mais históricos como Mouraria (onde teve origem com a Severa e a sua guitarra deitado sobre o seu peito), Alfama e Bairro Alto. Por entre a trama desta peça, acontecem velhos amores reencontrados, novos amores surgidos por entre os fados cantados, novas personagens surgem de repente, como Rui,um transexual (drag queen) fadista que toma o nome aqui de Amaliana. Clausura e abertura, eis um novo Portugal com que se depara a Luísa na sua ansiedade de cantora e na sua personalidade despida de preconceitos. Quem quiser saber dos fados que dão colorido e tristeza a este livro, a Amália representada como uma fantasma de glória, que o leia e coloque as músicas em voz alta pela beleza da sonoridade que uma luso-canadiana de Vancouver vai conhecer pela primeira vez, e pela primeira vez também reconhecendo-se a si própria com uma alma dividida e uma sensibilidade universal como poucas outras personagens na nossa literatura luso-americana ou canadiana. Esta é a terceira grande escritora daquele país que tive o privilégio de ler, depois de Anthony de Sá e Erika de Vasconcelos. Sei que há outros, principalmente na parte francófona daquele país. A cena 12 intitula-se precisamente Estranha forma de vida. Nada como este fado-poema define a nossa sorte lusitana na voz de Amália, que a autora afirma aqui como sendo a grande diva do mundo, pois em que todo ela actuou perante as palmas de muitos que provavelmente não entendiam a letra. O coração da voz de Amália, e de tantos outros fadistas, até aos nossos dias, não precisa sempre do entendimento dos seus versos profundos: voz, corpo, amarga tonalidade bastam em qualquer palco. Já ninguém se lembra dos que um dia chamaram a Amália de “fascista”. A grande arte a tudo se sobrepõe. “Música – avisa a aspirante a fadista um grande guitarrista aqui de nome António – fado quer dizer destino. Fado junta-nos uns aos outros. Fado é a coragem de amar, mesmo ou sobretudo por entre corações magoados; a coragem para cantar a vida, mesmo que a morte aconteça. Desculpa se este fio não toca para ti. Não sei quem seria sem o nossa música, sem a nossa cultura”.

Fado: The Saddest Music In The World traz um prefácio de Oona Patrick, que do nosso país e na sua própria escrita já deu conta do conhecimento que tem de Lisboa e de toda a nossa cultura. Lembra-nos “uma noite memorável depois de Elaine chegar pela primeira vez, actores locais encenaram a sua peça premiada Café A Brasileira num famoso teatro ao lado do nossa sede do Centro Nacional de Cultura”. A sua bibliografia está toda toda publicada neste livro, mas não posso deixar de mencionar que ela esteve também na Universidade dos Açores em 2019 como Fulbright Scholar. Este, como outros livros seus, fazem parte de uma distinta lista da literatura canadiana, ou luso-canadiana. Não sei bem como fazer-lhe inteira justiça por este incessante trabalho literário, cénico e musical, pelo menos quanto ao seu contributo para uma mais aguda sensibilidade de todos nós perante a grandiosidade da arte num país simultaneamente feliz e trágico, com o riso amargo dirigido à nossa pobreza e a euforia sem tréguas no que toca à nossa humanidade sentida na cara desse destino, o que criou uma das mais velhas e lindas cidades do mundo, cantado com tanta força interior e voz que vem do fundo das nossas entranhas, gostos e desgostos. De resto, toda a sua actvidade teatral e grupos a que pertence vêm em longas listas neste seu livro.

“Certamente – escreve a mexicana Mercedes Bátiz-Benét, também residente e com filhos na Canadá – existe um vasto catálogo de sub-tristezas, sombras e variações para serem exploradas, mas na versão portuguesa, saudade, é provavelmente a mais famosa. Comunica-nos a saudade por uma pátria quando esta fica longe no mar, a saudade por algumas coisas que nunca sequer tiveste, que só os Portugueses conhecem, e por isso só os Portugueses têm uma palavra especial para o expressar”.

Por fim, e trata-se de toda a justiça, Mercedes Bátiz-Benét, que produziu esta peça de Elaine Ávila, movimenta-se quando Mercedes descobre que em Vancouver Island vivia e actuava uma das grandes fadistas do mundo, Sara Marreiros. A grande arte, uma vez mais, acontece assim: quando o dialogismo toma conta das nossas obsessões criativas, e a voz dos outros ou outras se torna a nossa. Não há fronteiras de qualquer espécie para a beleza da palavra. escrita, representada, cantada. Isso é a Diáspora em que vive Elaine Ávila, Oona Patrick, Mercedes. Somos todos portugueses, mexicanos, somos todos do mundo inteiro, quer gostemos ou não.

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Elaine Ávila, Fado: The Saddest Music In The World, The Canadian Copyright Licensing, 2021.

Ponta Delgada, ou a Cidade do Nosso (Des)contentamento

Ando por aí, com a memória magoada, desavindo com o presente, farto de palavras engomadas para o futuro.

Emanuel Jorge Botelho, Crónicas II e agora no 3º volume de Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada

Vamberto Freitas

O contexto primeiro. Este terceiro volume de Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada faz parte de um projecto da editora Artes e Letras, dirigida por Maria Helena Frias proprietária da Livraria SolMar juntamente com o seu marido José Carlos Frias, na cidade com o nome já repetido neste e noutros texto. A edição destes contos iniciou-se em 2019, e logo de seguida em 2020, com o presente volume lançado ainda há poucos dias entre uma numerosa audiência nas Portas do Mar, que já é um lugar referencial, creio, em todos os Açores, e isto com a devida desculpa perante os meus conterrâneos das outras ilhas. Bem sei dos encantos e desgostos com as cidades, vilas e freguesias em todo o nosso arquipélago, mas escrevo aqui de um caso literário com identidade própria. Sim, os livros também têm, para desgosto de alguns entre nós, uma definitiva ligação às suas mais diversas geografias. O tom de cada escritor nestes livros aqui em foco é tão diverso como diversas, felizmente, são as suas vozes para aqui convocadas. De salientar que a coordenadora deste projecto literário faz questão de juntar as várias gerações, a minha, assim como a que ainda está de permeio e as mais novas, num equilíbrio perfeito entre a visão e experiências pessoais de homens e mulheres. Desafia, deste modo, os nossos tradicionais cânones, como o diria o escritor e poeta Henrique Levy, que mais do que ninguém tem lutado para o reconhecimento de tantas escritoras e outras mulheres açorianas que se distinguiram e distinguem em todas as artes, e não só.

Permitam-me que dê um passo atrás, agora com o intuito de tentar sintetizar de como uma cidade é vista através de linguagens criativas por parte de quem absorveu o espírito dos tempos passados e da nossa actualidade. Não existem aqui amores sem fim, como não existem nestas páginas só o lamento de cada escritor ante vidas vividas, ou fingidas, ou essas que o destino levou a caminhos que gostaríamos todos de evitar. A cidade é raramente vista no seu esplendor e pluralismo humano, mas sim através de olhares moldados pela sorte de cada um, pela maneira como assistiram, de perto ou de longe, a alegrias ou tristezas dos que se atravessaram nos seus caminhos, ou por eles e elas próprias vivido. Emanuel Jorge Botelho, citado na minha epígrafe, e que sempre foi um apaixonado pela sua cidade natal, é um modernista agora temeroso da suposta “modernidade” em curso, confessando repetidamente o seu “afastamento” e a “ausência” de um reconhecimento de cidadão cujas raízes tornaram-se uma memória de dias bem mais felizes. Não foi meramente por acaso que é ele quem abre este volume de Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, com um brilhante e de todo significante texto vindo das suas inesquecíveis Crónicas II, publicadas há alguns anos.

Estes são contos, tal como anuncia o título, por vezes dando lugar a uma espécie de certas crónicas que oscilam entre a “ficção” e as “realidades” vividas ou testemunhadas por alguns dos seus autores. Em nada contornam o conjunto intencional dos seus autores, enriquecem a seu modo a leitura do livro. Memória, para nós e para os vindouros. Sim, a de como gerações sucessivas julgaram perceber o seu tempo e lugar segundo as leituras que faziam e fazem dos mais variados autores, de como qualquer texto moveu – e comoveu – o seu leitor conforme as suas circunstâncias de vida, sorte ou tragédia. Sabem muito bem de quem vem esta outra noção espanhola, esta verdade meio filosófica, a literatura-outra conjugando saberes e viveres singulares. É disso mesmo que tiramos em cheio das ficções e quase não-ficções de Avenida Marginal. Sobressaem todos os seus autores e autoras, com mais ou menos força, criando o que qualquer boa narrativa nos oferece: momentos de euforia estética, completando-se nos seus pontos de vista próximos ou diferenciados, na temática plural das suas palavras, na poética inerente de quem resolve partilhar ideias e sentimentos sobre o mesmo espaço, uma vez mais, o mesmo lugar e tempo. Uma pequena cidade dos Açores contém em si o mundo inteiro, a história enquadrando o nosso presente, as vidas que nunca passaram do horizonte azul, e depois misterioso, e os que levaram o seu sentir, existencial e sonhador, a outros países, línguas e culturas. Tanto somos construtores em qualquer parte, como destruidores em casa. Por outras palavras, a nossa condição humana não se afasta de qualquer outra cidade ou aglomerado humano. De um pedaço de terra e do que nos parece ser o infinito mar, em nada somos diferentes, em espírito, de outros em qualquer parte, transportamos em nós todos os sonhos, todos os delírios, todos os sofrimentos de quantos vivem numa casa ao lado ou mesmo na rua, dos que falam em códigos linguísticos que levamos tempo a compreender ou não, dos que connosco estão sempre mais perto do que longe. Ficamos e partimos, com alegria e dor, uma cidade que é simultaneamente realidade e metáfora do que está além dos nossos olhos, e nunca da nossa alma.

“Era uma cidade marginal – escreve Paula Cabral no conto “A Mula Sem Cabeça”, da abertura do livro – no espaço e no tempo. Fechada pelo mar e pela periferia da geografia, embora se situasse no centro do planisfério. Um ponto umbilical, infinitamente desamparado, onde cada habitante buscava, esquecido, uma razão para viver”.

Ponta Delgada, cá vai o cansado cliché, desenvolveu os gestos da modernidade sitiada pelo desespero de uns, e o aparente, quase só aparente, como todos sabem, bem-estar de outros. Há 30 anos que Ponta Delgada é a minha cidade, já vi e nela vivi o que me parece ser o resto do mundo, talvez menos o que um dia, quando já não estivermos cá, também dela reze a História da insegurança generalizada que se desenrolou ao longe durante os últimos dois séculos, e que sentimos na alma. Antes disso, foi igual; queriam tirar a nossa liberdade, fomos enforcados publicamente por forças superiores em Angra do Heroísmo, outros criminosos eram igualmente de uma nação vizinha, outros piratas traficantes, assassinos a seu modo: bem-vindos ao mundo em pequena e larga escala. Fomos e somos emigrantes, hoje recebemos imigrantes e refugiados, O medo e os vulcões continuam activos, a minha casa no Pacífico tremia em ameaça real, tal como aqui, de quando em quando. Ponta Delgada, ora vida grossa, ora vida amena. Rondam cá a vida e a morte, alegria e tristeza. Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, onde ancoram grandes navios em busca do sossego. Nós, por outro lado, sempre com as fantasias do fantasmagórico jardim além-mar.

Tudo isto está presente em Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada. Leiam de seguida o The Town, de William Faulkner, outra “ilha” a braços com a sua história e desespero, caída por uma das mais violentas guerras civis, e depois levantada pela vontade dos seus habitantes. Leiam este seu romance da trilogia dos Snopes, a ganância de uns e a dignidade de outros, a cena quando uma mulher linda atravessa a praça local, e, escreve o grande romancista, “os velhos olhavam-na como se ela levasse o corpo por fora do vestido”. Metáforas da beleza. Ponta Delgada – singular e do mundo. Sintam-se em casa com este belo livro.

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Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2022.

A Vida No Pópulo

A linha do horizonte leve fina/é o contrário de um limite./Dilata o espaço que imaginamos./Mia os destinos: salvam-se os de prata…

Eugénio Lisboa, matéria intensa

Vamberto Freitas

Cito em epígrafe o grande ensaísta e poeta Eugénio Lisboa, mas não me considero os de “prata”. Salvo sim, depois de anos entre aulas na Universidade dos Açores, onde leccionei durante 29 anos – felizes, produtivos e sobretudo com o respeito académico dos meus superiores, que foram muitos e a vários níveis na nossa hierarquia institucional. Queixa nenhuma, da minha parte, e creio que também deles todos pelo modo gentil a apreciador com que sempre me trataram. O tema aqui é outro. Desde que vim para São Miguel em Agosto de 1991 a minha morada foi sempre por estes lados, aqui em frente à chamada Praia Grande, e o meu cartão de cidadão diz que eu sou residente do Rosto do Cão, o que não deixa de ter a sua graça e ironia. Quando disse à minha filha Vanessa, nascida e que sempre viveu na Califórnia, ela achou uma coisa tão inusitada que me pediu uma fotocópia do que então era o nosso antigo bilhete de identidade. Queria dizer aos seus colegas que o pai vivia numa zona micaelense com o nome, em inglês, de “Dog’s Face”. Daqui eu ri com garganta alta e um tanto maliciosa. Eu fartei-me de brincar com ela, quanto a traduções de lugares ou paróquias, o que muita vez não é aconselhável com certas geografias. Dizia-lhe, olha cá tenho alunos e alunas que vivem em freguesias e vilas com outros nomes também interessantes. Riamos muito, eu e os meus alunos, mas depois eu advertia para, em certas geografias nunca dizer que havia tradução possível. A minha satisfação, após todos estes anos de viver em São Roque, de Ponta Delgada, só se tornou mais aguda e descarada. A minha filha ficou com a sua risada, e eu com o meu prazer de viver num dos mais interessantes sítios dos Açores. Creio ser o mais plural de todos, pelas melhores razões, e com o mar e as nuvens sempre em estado de aviso que tomemos certa cautela.

Não vou aqui fazer propaganda alguma de restaurantes e cafés, ou de outros sectores que é melhor não mencionar nem neste texto nem em parte alguma. Intelectuais, jornalistas, advogados, polícias (tinha de ser, já se sabe), trabalhadores de todas as profissões, empresários, especialistas na construção e noutras áreas técnicas, e depois o resto. O resto, entenda-se, é o resto: com cães amarrados e amigos, gente sempre boa, com os que andam de boleia, e constantemente numa alerta mais ou menos curiosa, parece que há um funil gigantesco no resto da ilha que despeja todos aqui. Como fui da administração do meu prédio várias vezes em anos já passados, sei muito bem do que se trata. Já agora, trata-se de boa comida e gentileza. Não quero falar nos anos antigos de agentes armados no que era então o nosso estacionamento, pois a limpeza foi razoavelmente rápida e pacífica. Temos gente que enfeita, dá graça, e faz da nossa zona uma de mistura de raças, etnias, “artistas” de todo o tipo, e agora de turistas calmos de toda a parte. Quem não quiser comer, que tome banho, quem não quiser tomar banho que se sente nas paredes adjuntas e, bom, faça lá o que quiser desde que não nos incomode. Nunca há distúrbios maiores por estes lados – só a Cabeça de Cão e areias maiores ou menores para quem quiser escolher. Não, nem tudo são rosas, como não são em parte alguma.

Só que é uma zona tão distinta que por vezes mete inveja. Nos meus momentos mais alegres e atrevidos, sugiro que declaremos o Pópulo uma Região Autónoma, irmanada com o resto da ilha e os Açores. É-me fácil e feliz viver aqui. Não me é fácil ou confortável saber que um dia no futuro vamos provavelmente à repetição dos terramotos destruidores na costa sul de São Miguel. Espero que nunca seja a repetição de Vila Franca do Campo em 1522. Reconforto. Disse um dia um Presidente da nossa Região, em resposta a um certo Presidente da República que odeia os Açores: “Povo, grande povo, que dorme todos os dias com a cabeça sobre vulcões no activo, e não tem medo algum”. O Pópulo é, uma vez mais, a única região que congrega pacificamente toda a gente, e trata-as sem preconceitos alguns. “Rosto do Cão”, daqueles que olhem para ti sem más intenções, e até com carinho. Ilha querida, que agora tem o maior número de grandes escritores, poetas, artistas plásticos, dramaturgos e, talvez, músicos. Zona querida que quase todos os dias recebe boa parte deles. Quem não gostar destas minhas afirmações, que dê um passeio de barco ou de avião, contando depois o que encontraram ou não encontraram. O Edifício do Pópulo tornou-se uma espécie de ex-libris, até quando mete medo a alguns. Paciência.

Quando cá cheguei ao apartamento onde ainda vivo e quero continuar a viver, disse que daqui só sairia para a residência fatal, mas sem IMI. A minha felicidade, enquanto a saúde me permitir, continua como sempre, e na companhia de quem me ama e me quer bem. Nunca esqueço a minha Ilha a Terceira, nunca deixo de a amar com toda a minha alma. O meu destino estava aqui, e ficará sempre aqui.

“A debandada para todo o lado – escrevi no Portuguese Tribune, em 1984, que depois viria a ser integrado no meu Pátria Ao Longe: Jornal da Emigração II, de 1992 – foi, de facto, quase completa. Eventualmente, a maioria dos que saíram passa a viver o que cá [na América] chamamos a ‘experiência americana’ – pé cá pé lá precariamente equilibrada entre dois mundos, numa imitação de vida por vezes dramática. Passe-se, aqui, do particular ao geral, e perceba-se que na realidade é esta a história de todo o nosso povo”.

Vivo em São Miguel, e muito para além do Pópulo. Reconheço toda a sua beleza, uns poucos restaurantes de primeira, e nem sequer vale a pena falar das suas paisagens, repito a palavra, dramáticas, únicas, a um tempo pacíficas e a qualquer momento temerosas. Nunca me arrependi da minha radical mudança de vida e regresso à minha casa natal, pois as nossas ilhas são um todo, e em todas elas reconheço as minhas origens e paixões culturais e literárias. Não entender isto é não entender que somos nós que nos fazemos pequenos, egoístas, estupidamente bairristas, tantas vezes em defesa do que nada vale nem nunca valerá. Muitos continentais confundem a nossa geografia de nove ilhas mais uma no outro lado da nossa imaginação e vivência, e nós confundimos um povo comum cujas diferenças em sotaque ou economia não passa da ignorância que teima em nos dividir. A geração seguinte vai tomar conta destas atitudes e aparente “fechamento” em cada uma das nossas ilhas. De resto, pouco mais tenho a dizer sobre esta teimosia de que somos um arquipélago dividido, mas mesmo assim cada vez mais de maior proximidade.

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Eugénio Lisboa, matéria intensa, Lisboa, Instituto/Camões/Colecção Lusofóna, 1999. Publicado no meu “BorderCossings” do Açoriano Oriental de 11 de Fevereiro, 2022.

De Álamo Oliveira E Da Sua Obra

O maldito tempo dentro de mim/como cobra de mármore/a roer-me o ventre.

Álamo Oliveira, Versos De Todas As Luas

Vamberto Freitas

A citação deste verso vem nas Obras Completas de Álamo Oliveira, e é abertura do seu poema intitulado “lugar comum”. A edição primorosa é da Companhia das Letras, a editora fundada e dirigida por Carlos Alberto Machado, hoje já de nome nacional pela qualidade dos seus livros, quer em conteúdo quer na apresentação gráfica. Este volume, citado na minha epígrafe, conclui tudo o resto: poesia, prosa, ensaio, dramaturgia, e vem em capa dura como merece a sua inconfundível produção literária ao longo de décadas. Não sequer possível tentar sintetizar a totalidade da sua escrita, tão grandiosa entre nós como a de uns poucos – poucos – outros. Digamos só o essencial. A sua escrita tanto faz parte da nossa memória como povo açoriano como se estende ao restante mundo, em que a nossa imigração nas Américas está igual e vigorosamente presente. Citar aqui todos os seus livros seria um abuso meu neste espaço necessariamente com as suas regras. Vou fugir do mesmo modo ao mandato dos meus mentores da Nova Crítica/New Criticism norte-americana, nascida nos anos 40, e nunca mais deixou de influenciar toda a teoria da literatura como conviria até aos nossos dias, menos as dos ressentidos e arrogantes da academia naquele país e em quase todos os outros. Álamo é muitíssimo conhecido entre nós, e muito provavelmente, como um dia me disse um Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, João Medina, escreveu o melhor “livro de guerra”, que transfigura a sua experiência como soldado na Guiné-Bissau: Até Hoje: Memórias de Cão. Tenho aqui em casa, em grande destaque na minha sala, um quadro seu que presta homenagem ao seu Raminho, e por inferência ao nosso passado mais ou menos comum como filhos de pais de vida remediada numa freguesia rural da Ilha Terceira. Ler o Álamo Oliveira – sei que me repito em relação a outros escritores açorianos – é ler-me a mim próprio. Com uma diferença: ele sabe criar arte literária e plástica, e eu apenas a sei apreciar, ora com a euforia de termos sido, ora com a nostalgia da tristeza mas também de alegria, gratos a tudo que nos legaram, grato eu à partilha com ele, que através das letras nos legou e contínua a legar.

Ultimamente recebo livros de açorianos e luso-descendentes que são autênticas obras-primas do “dialogismo” de Michael Bakhtin e Valentin Volóchinov. Não é só escrever sobre a sua pessoa em exílio pessoal, é sobretudo dialogar com os seus pares mais significantes em experiência de vida quotidiana e na sorte histórica de muitos de nós, até as dedicatórias que faz a alguns dos seus colegas constituem esse diálogo com os que partilharam a sua sorte ou desnorte. Há outros que fazem o mesmo, tendo os Açores como terra de adopção, como é o caso de Aníbal Pires, Henrique Levy e Virgílio Vieira, entre alguns mais, os verdadeiros cidadãos do mundo que encontraram nas nossas ilhas o seu poiso amado. Álamo Oliveira tanto escreve sobre o seu limitado espaço natal como viaja na sua literatura por países, só um exemplo aqui, que incluem a América do Norte, e especialmente as nossas comunidades lá residentes, como visita São Paulo, lembrando todos que se aproximaram de si ou se atravessaram nas suas andanças de descobertas e em busca do Outro. Para surpresa de alguns menos apreciadores da grandeza de outros, não se trata aqui de hagiografia ou coisa que se pareça. Trata-se, antes, não só do meu respeito pela obra suprema que me ultrapassa, como se trata de quem vive da grande arte literária (Rubem Fonseca, outra vez, aqui parafraseado), de tudo que lhe traz sentido à vida, à historicidade pessoal e de todo um povo que se pensa, suspeito por vezes, esquecido e menos prezado.

Escreve o ensaísta Diniz Borges na contracapa deste Versos De Todas As Luas, ele que é residente desde a infância na Califórnia: “Na poesia, no teatro, na ficção, narrativa e até mesmo no ensaio, o nosso poeta apresenta-nos um mundo onde a Humanidade poderá revestir-se de dignidade e justiça. Cada texto é composto por um lirismo que eleva o espírito humano. Em cada um dos seus textos existe um grito profundo que penetra os labirintos mais recônditos da nossa existência. Entre a miríade de temas que o autor tem explorado, e emigração e as marcas profundas na sociedade e na idiossincrasia açorianas têm tido relevo especial. É que Álamo Oliveira continua a ser um escritor do seu povo e do seu lugar e, por isso, um escritor de todos os povos e de todos os lugares”.

Sei muito bem a que se refere Diniz Borges em relação a certa parte da obra de Álamo Oliveira. Para além de tudo o mais na sua escrita que faz referência directa ao existencialismo das nossas comunidades principalmente na Califórnia, Foi Álamo que escreveu o romance Já Não Gosto de Chocolates, e tal como no romance de guerra já referido aqui anteriormente, é o nosso único autor que não teve medo – um escritor com medo vale pouco – a comportamentos até há pouco tabus entre nós, cá e lá. Já Não Gosto de Chocolates não é um romance controverso entre os seus leitores mais inteligentes. É um romance em que toda a vivência “normalizada” ou considerada pelos ignorantes como sendo algo “desviante”, está artisticamente retratada no seu todo. De outro modo em temáticas diferentes estão ainda poetas e prosadores como Vasco Pereira da Costa, este num livro de poemas intitulado My Californian Friends, um outro encontro com aqueles que provavelmente já o tinham esquecido ou ele a eles, e ainda outros que sempre foram seus companheiros de estrada nestas viagens de cultura e amizade. Espero que já tenham notado a ausência de escritores, poetas e ensaístas luso-descendentes, assim como outros imigrantes da primeira geração que, antes de todos, deram conta da nossa existência no outro lado do mar. São numerosos os seus nomes para que eu os menciono aqui a todos, mas nunca me esqueço deles e lei-os com toda a regularidade. Neste momento, é a obra de Álamo Oliveira que quero destacar aqui.

Para todos os outros que permanecem a viver a experiência americana e açoriana (portuguesa) só posso dizer um pouco do que me vai na mente e na alma. Estão todos presentes em mim, como pessoas amigas, como grandes autores, como aqueles que reinventaram toda a nossa História, a que continua fora dos “compêndios” aqui na nossa dita Pátria. Temos outras vantagens sobre os que nunca tiveram de navegar ou voar para a incerteza e aventura. Isso não deixa que os respeite como heróis que ficaram e sobreviveram. Quando vejo um deles ou delas citados num verso num pedaço de prosa vindo desses lados, sinto a emoção de saber que a nossa arte literária tem o mundo inteiro como tema e “sujeito”.

Ando a viajar por terras conhecidas para me perder./o perdido sempre se encontra à beira da fronteira-/,mapa mal desenhado por errático e despido.

É apenas uma estrofe de um dos seus poemas, palavras certeiras, elegantes, O poema a dizer-nos tudo. Este Versos De todas As Luas vira uma narrativa completa da sorte ou não de sermos quem somos. Toda a grande literatura é – deveria ser – exactamente o que nos escreve, o que nos faz entrar no mais profundo de nós próprios. Ou rimos ou choramos, ou rimos e choramos. Isso é a essência da arte, tome a forma que tomar.

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Álamo Oliveira, Versos De Todas As Luas, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental no dia 4 de Fevereiro, 2022.

Da Grande Poesia Existencialista e Dialógica

Os poemas não gostavam do meu bairro./A miséria era um arranha-céus,/por isso, quando me perguntavam onde morava,/dizia,/ Nova Iorque.

Alberto Pereira, neve interior

Vamberto Freitas

Que dizer de um poeta como Alberto Pereira, natural de Lisboa, e que já escreveu vários livros em pequenas editoras, no caso presente mais da sua poesia intitulada neve interior (já na 5ª edição) na editora Húmus. Que na história da literatura ocidental são estas as fontes dalguma da melhor literatura. Não esqueçamos – não quero aqui comparações – que James Joyce publicou o seu fundacional romance modernista Ulisses (1922) na livraria parisiense Skakespeare and company, que se tornaria antes e depois o poiso eleito de outros grandes escritores de língua inglesa, inclusive de alguns norte-americanos que hoje fazem parte do grande cânone do seu país. Raramente a nossa grande imprensa e outros periódicos de prestígio prestam qualquer atenção a estes escritores e poetas. Vão sendo descobertos pela melhor publicidade nas questões literárias: a palavra de boca em boca, o eventual conhecimento dos autores em eventos também sem grandes projecção. Conheci Alberto Pereira num recente concurso de poesia patrocinado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada e cujas apresentações entre uns e outros aconteceram no Centro Natália Correia, situado na sua terra natal, Fajã de Baixo. Os poemas que agora tento abordar aqui não foram os concorrentes ao prémio, mas sim uma outra obra. Tivesse Alberto Pereira apresentado este pequeno-grande neve interior e estou convencido que a história teria sido outra, e isto sem desfazer minimamente no poeta vencedor, José Pedro Leite com o seu Ascensor de Sombras. No meio de uma pandemia, acontecimentos como estes tomam um significado muito especial – a humanidade recusa-se, no seu melhor, a ceder ao medo e muito menos à morte. Neve interior vira-se para dentro de nós todos, vira-se para o que sentimos para além da coragem de cada um em enfrentar estes momentos de incerteza e distanciamento. Interpela-nos em directo sobre a dor de estarmos vivos mas não vencidos Pelo menos a 2ª edição saiu no tempo mais crítico de 2021. Digo tudo isto numa tentativa de introdução à grandeza destes versos, cada palavra parte do que mais intimamente vivemos ou sofremos. Sei que Alberto Pereira tem mais obra, que tentarei nomear mais adiante. A descoberta do livro de que agora escrevo foi-me fulminante a vários níveis quanto a composição poética. Há um grande crítico da New Yorker, James Wood, que diz que nos devemos meter “por dentro do texto”. Eu diria que deixemos o texto penetrar-nos até ao último sentimento e apreciação puramente estética. Foi o que deixei que neve interior me fizesse na mente e sobretudo no abalo que quando nos reconhecemos nas palavras e arte dos outros. Uma capa da maior simplicidade contém dentro de si um diálogo não só com o eventual leitor, como dialoga constantemente com os mais diversos artistas, desde a própria literatura à música e artes plásticas. Estamos aqui no mundo, no simbolismo supremo que se afasta de fronteiras e coloca-nos na universalidade autêntica da condição vivida por todos sem separações de qualquer espécie. Sublime? Sim. Sagrado, também.

Estes poemas de Alberto Pereira parecem-me uma espécie de existencialismo pós-moderno, muito pós-Sartre, e algo chegado a um Albert Camus, o contestatário das visões totalitárias do que ele entendia e nós entendemos por “condição humana”. Bem sei que é uma expressão usada e abusada constantemente, ainda nos nossos dias. Os nomes aqui convocados na poesia de Alberto Pereira são tantos que quase preencheriam este meu texto. Toda a modernidade e pós-modernidade está aqui em cada verso, desde Stravinsky aos deuses mais antigos, como Baco e o génio Dante, todos eles da mítica mundial, e pelo meio os grandes mestres da literatura como Dostoiévski e Gógol. Alberto Pereira nunca os deixa cair aqui como acto de erudição, mas sim como as suas referências ao seu próprio modo de ser, sentir e estar. Vêm portugueses por entre ou no meio deles todos como, por exemplo, os insinuados como Herberto Herlder, e uma dedicatória a Gonçalo M. Tavares (que prefaciou um outro livro de Alberto Pereira), e ainda outros como Ruy Belo. Deixemos, no entanto, que sejam os seus poemas em andamento que inevitavelmente nos faz pousar o livro por alguns instantes enquanto absorvemos a sua musicalidade, a sua macia destreza quando nos fala do seu bairro ou entra na imaginação de todos que o rodeiam. O dialogismo literário está aqui no seu melhor ou, como quem diz, eu sou eu mais os que me tocaram de perto e de longe, ao sair do seu prédio ou na memória de todos quanto nele entraram para nunca mais sair. A grande literatura nunca é meramente “nacional”: ou traz em conta toda a humanidade, ou queda-se apenas como nota de rodapé ou curiosidade sem grande interesse. Alberto Pereira, em neve interior, estende a mão e a alma a todos os que desde o longínquo passado até aos nossos dias a ele se irmanaram num convívio permanente e sem passado, presente ou futuro. Permanecemos, na sua poesia, o que sempre fomos desde tempos primórdios: iguais no desespero e no sorriso ante a tempestade que é estarmos vivos e conscientes da nossa sobrevivência, dor e morte.

Ninguém disse quantas árvores existem

num coração soterrado,

nem como se cala a casa.

As janelas já não dão para os pássaros

e Agosto deixou sangue nos retratos

Ninguém disse quantos gritos

podem subir um homem,

nem como aprendem as praias a ser facas.

Há nevoeiro onde as horas

não tinham sono

e o céu alvejou os poemas.

Escuta-me,

não te peço mais nada:

vamos repetir as aves.

Neve interior poderá ser, e creio que é, um dos melhores livros de poesia, pelo menos saído neste lado do Atlântico nos últimos anos. Que a maioria de nós não o conhecia por aqui nas ilhas, diz muito sobre os “escolhidos” que têm acesso à máquina editorial e publicitária ou crítica da nossa capital e arredores, como diria um outro poeta longe desses lados com a mar pelo meio. Se os escritores e poetas açorianos têm, desde sempre, produzido alguma da nossa melhor literatura em todos os seus géneros, a verdade é que muitos dos nossos conterrâneos continentais sofrem de igual modo da miopia ao lado do Tejo, assim como mais a norte, e todas as geografias nacionais ficam perto e distantes de uma Lisboa mais ou menos alheia ou ignorante do que vai à sua volta, ou mesmo em frente às suas portas. Não interessa, e longe de mim qualquer queixume que tem a ver com esta realidade. Vi durante décadas o mesmo acontecer num país como os Estados Unidos, em que Nova Iorque, na sua arrogância de “centro” literário. Só que alguma da melhor e mais duradoura da sua escrita naquele país brotou do Sul ou de autores que tiveram a sua origem no interior profundo do grande país. Não vale a pena culpar aqui ninguém, mesmo que eu próprio me contradiga nestas situações. Só sei que o meu país português tem uma das melhores obras artísticas de toda a Europa. Quem não conhece nada isto é que perde nas suas horas de silêncio e pensamento.

Neve interior traz uma nota de introdução muito esclarecedora, não sobre estas questões, mas, sim sobre a arte literária contida num livro como este. “Em Portugal, sobretudo – escreve António Carlos Cortez no prefácio a este livro – para quem anda nisto da poesia de há uns bons 25 anos a esta parte, quem não se lembra desses entre nós que se quiseram os Bukowski da terra lusa, os Rimbaud desta terrinha poética de trazer-por-casa, caminhantes do deserto da imaginação.”

Não o podia ter dito melhor. Resta-me só recordar aqui, uma vez mais, que Alberto Pereira tem muitas outras obras: O áspero hálito do amanhã (2008), Amanhecem nas rugas Precípios (2011), Poemas com Alzheimer (2013), Viagem à demência dos pássaros(2017), Bairro da Lata, O Deus que matava poemas (contos, 2017), entre outros. No entanto, acabei de receber um outro livro seu em que me tenho de decidir se me quero enfiar nas suas páginas: Como Num Naufrágio Interior Morremos (5ª edição, 2019), que vem prefaciado, uma vez mais, por Gonçalo M. Tavares e e Ronaldo Cagiano.

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Alberto Pereira, neve interior, Vila Nova de Famalicão, Edições Húmus, 2021. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Janeiro, 2022.