A teia do pós-colonialismo português

Um dia haveria de retornar ao pó, como era forçoso que acontecesse. De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu único visto de residência. Da cidade de onde tinha vindo, e que em tempos se chamara Luanda, pouco restava depois do grande incêndio do tempo e, além disso, continuava a ser muito longe.

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso

Vamberto Freitas

     Já o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida, Esse cabelo, introduziu na literatura portuguesa contemporânea uma voz singular, justamente aplaudida por todos que sobre esse livro escreveram. A grande autora está de regresso com outra grande peça ficcional sob o título Luanda Lisboa Paraíso, e, uma vez mais, toma como referência histórica o colonialismo português visto e vivido em dois continentes, a teia humana urdida durante mais de quinhentos anos, e agora segurando os que nela saltam em busca não necessariamente de uma nova identidade, mas sim da cidadania a que têm direito tanto no seu país de origem como no velho país que não pode nem deve nunca ignorar a sua responsabilidade perante todos os que durante séculos tanto serviram como se revoltaram contra a indignidade de homens e mulheres praticamente invisíveis em qualquer uma das sociedades a que pertenceram ou continuam a pertencer. As personagens de qualquer um destes romances não andam a construír para si uma nova identidade, repita-se, sabem muito bem quem são e como são outros que os vêem ou não vêem na sua luta diária pela simples sobrevivência, neste caso Lisboa, relatando o seu quotidiano sem juízos de valor ou distanciamento numa terra que os acolhe quase indiferentemente, cada um deixado à sua sorte ou capacidade de luta pelo mínimo a que têm direito, e aqui o mínimo quer dizer uma barraca improvisada, alguma assistência médica que traz pai e filho, Cartola e Aquiles, à velha capital do império. “Paraíso” do título e da narrativa é absolutamente um termo irónico, onde na miséria lisboeta seres humanos tentam fazer de cada hora e dia a sua felicidade. Era esta soberba literatura que faltava em Portugal. Não falemos dos que já há anos escrevem sobre a experiência lusa nas suas antigas colónias, e cuja fama internacional está já consolidada, desde o Brasil às capitais europeias e noutras geografias. Falemos de uma grande escritora nossa (luso-angolana, se assim preferirem), que assume sem complexos o seu passado, mas tem o nosso país como sendo inteiramente seu, criada numa das mais prestigiadas cidades nos arredores de Lisboa, e formada em teoria da literatura pela Universidade de Lisboa. Cada palavra sua, na ficção, nunca apresenta essa vivência e vida intelectual. Já é simplesmente uma das nossas grandes escritoras. É um feito artístico pouco comum entre nós, só comparável a um Salman Rushdie, noutra língua e noutros tempos a partir de outra experiência.

     Luanda Lisboa Paraíso nunca “acusa” a história portuguesa em África. Aliás, não acusa nada e ninguém. As origens das suas personagens, os tempos que viveram antes e depois da sua libertação, servem tão-só para esculpir o seu interiorismo, bringing out character, como diriam alguns críticos americanos, a humanidade a saque e nunca dependente nem da História e da sua presente nacionalidade ou origens. Estão todos eles num campo de batalha pelo seu quotidiano, e lidando com a sua dor a sós ou então na companhia de outros aventureiros ou sobreviventes. A narradora recorta a sua prosa com cartas de e para Luanda, Cartola a falar com sua mulher a quem chama de Mamã, a mulher da sua vida e do seu filho em tratamento num hospital lisboeta. A sua correspondência faz-me lembrar o grande poema “Saudade” popular de Cabo Verde, e imortalizado primeiro por Cesária Évora e anos depois por Mariza e Tito Paris. Curioso e absolutamente original: nós somos vistos pelas personagens angolanas quase sempre ao longe e com olhares frios nas ruas de Lisboa, ou por outras andanças nos arredores. O seu maior amigo e convivente é um outro deslocado vindo de Espanha, de nome Pepe, proprietário de um pobre bar de bêbados e outros solitários no Paraíso, e que a certa altura leva Pepe a escrever a Cartola pouco tempo depois e em circunstâncias especiais: “Perdoa-me, Cartola, meu irmão preto”. Se a literatura é sempre um retrato de um tempo e das gentes nela inscritas, a racionalidade e a emoção andam também sempre lado a lado, a nossa humanidade, “o coração humano em conflicto consigo próprio”, como diria William Faulkner, os denotadores da nossa inteligência e da nossa emoção. Como em certos outros autores nacionais e internacionais, não encontramos aqui apenas jogos de palavras abstratas ou de pouco sentido, o escritor a querer mostrar a sua habilidade em brincar, sem graça alguma, com os seus leitores, que depressa perdem a paciência ou a memória das palavras lidas. Hesito em classificar a obra de Djaimilia Pereira de Almeida de “pós-colonialista”. Tal como outros escritores superiores de língua inglesa com um passado semelhante, a sua ficção estende-se por toda a nossa civilização, e recusa a vitimização seja de quem for.

“Tudo corria bem – diz a narradora a dada altura e já no fecho do seu romance – em Paraíso, salvo o que não podia correr pior. Não havia mais comida nas mesas nem menos agonias nem menos bolsos vazios. Pepe continuava a adormecer no pinhal, camuflado na caruma como um cadáver. Dava para imaginá-lo a ascender aos Céus sem ter de pagar por nada, levado pelos morcegos que perseguia na clareira antes de cair para o lado, atirando-lhes pedras, batendo palmas como se tentasse matar moscas. Regressava dessas tardes em que a companhia dos bichos o consolava da vinda do Inverno, como se no fundo desejasse nada ter de seu, nem casa a que voltar nem alguém a quem chamar amigo”.

Se cito aqui a condição vivencial de uma personagem não-africana é tão-só para demonstrar como a autora continua a ver mais mundo para além da sua própria história binacional, levando-nos a rever como estamos todos mergulhados no mesmo pântano humano em qualquer dos continentes que ela reclama como referências também primordiais. Há leitores que lêem esta prosa como um espelho de “identidades”. Prefiro lê-la, porque assim a entendo, como uma escritora que poderá ter em mente essas questões que abalam os nossos dias nas mais variadas fronteiras, mas é a humanidade sem cor, raça ou sequer diferenças culturais que habita cada página sua. O Paraíso de que nos fala aqui é o local da miséria e da opressão onde se encontram os que outro escritor português já chamou “os vencidos da vida”, e estão em igualdade total nas mais indesejáveis condições de vida. Por outro lado, toda a acção ou trama deste romance decorre durante os anos 80, e de Angola vamos acompanhado a luta quotidiana da restante família que lá ficou. Mesmo assim, o que vai na rua nunca se sobrepõe aos mais íntimos sentimentos e medo das personagens aqui inventadas, ou reinventadas. O que não poderemos nunca ignorar é que qualquer romance terá sempre algo de autobiográfico, ou, como já disse outro crítico, se não nos factos pelo menos nos sentimentos. Encontramos um pouco de nós próprios em qualquer uma destas figuras, dito de outro modo, o outro somos nós.

A obra de Djaimilia Pereira de Almeida está na categoria muito especialmente na comparável à de uma falecida escritora também de origem indiana, Bharati Mukherjee, autora de uma vasta obra que comecei a ler nos anos 80, especialmente os seus contos em The Middleman and Other Stories, que creio ter sido a primeira escritora imigrante na América do Norte a receber o National Book Critics Circle Award. Os temas são os mesmos. A humanidade deslocada na nossa época, o atravessar fronteiras não em busca de si próprios, mas da dignidade que lhes era devida. Mukherjee, que terminou a sua carreira brilhante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e era amiga da sua colega e escritora luso-americana Katherine Vaz, faleceu com o desgosto de nunca ser ter sido traduzida em Portugal. Perda nossa, não dela. Pelo menos agora ficamos com uma outra autora sublime chamada Djaimilia Pereira da Costa e publicada por uma famosa editora internacional. Falta só que essa subsidiária da Penguin Random House a traduza para o Inglês.

___

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso, Lisboa, Companhia das Letras, 2018. Pubicado hoje no Açoriano Oriental, 7 de Dezembro. 2018.

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Dos vencidos da Vida

Dos Vencidos da Vida

De modo que a minha vida não é boa nem má: corro para a frente e para trás, ao longo do quintal e a toda a extensão do meu arame.

João de Melo,

As Coisas da Alma e Outras Histórias em Conto

Vamberto Freitas

Não pretendo enumerar aqui a vasta obra de João de Melo, apenas mencionar alguns dos livros que mais me marcaram desde o início da sua carreira: O Meu Mundo Não É Deste Reino, Gente Feliz com Lágrimas, Lugar Caído no Crepúsculo, Os Navios da Noite, Dicionário de Paixões, O Mar de Madrid e Autópsia de Um Mar de Ruínas, este o seu conhecido e notável romance sobre a guerra colonial em Angola. De fora fica vária outra ficção, também marcante, bem como o seu belo livro de viagens Açores, O Segredo das Ilhas, ensaios literários e a poesia de Navegação da Terra. Menciono estes títulos porque corre neles toda uma temática consistente, seja em romances de grande fôlego, seja nestes contos de As Coisas da Alma e Outras Histórias em Conto, cuja 3ª edição acaba de ser publicada. A 1ª edição saiu na Dom Quixote em 2004, e a 2ª no Círculo de Leitores em 2006.

Vem escrito em nota de abertura que o autor retrabalhou a sua linguagem (sem contudo mudar as ficções originais) e que acrescentou ao volume três contos inéditos. Como esta é a minha primeira leitura, fiz questão de ignorar e não distinguir entre a os textos iniciais e os agora incluídos como acrescento à edição. O que pretendo fazer é simplesmente uma leitura sequencial e julgar sobre a coerência e a solidez da obra. Na verdade, trata-se de uma narrativa unificada, como já disse, pela sua temática e pela escrita, ou seja, histórias de vencidos da sociedade em várias geografias e tempos. Aliás, nunca João de Melo deixou de intercalar a vida das suas personagens por uma distribuição entre Lisboa e Açores, África e Europa.

Talvez por um certo complexo de inferioridade, alguns outros escritores açorianos, mesmo residindo no continente português a maior parte das suas vidas, parecem não conseguir dissipar esse facto na sua pulsão criativa. Sendo, porém, a força das raízes irresistível, mesmo esses autores raramente escreveram ou escrevem uma página que não expresse a sua açorianidade literária. Rejeitam as suas origens por acharem que isso os “diminui” perante os seus pares continentais. Nada de mais errado ou mal pensado. Lembremos Vitorino Nemésio, José Martins Garcia e Natália Correia e veja-se neles o contraponto a esta anomalia literária ou teórica.

Não creio ser necessário citar todos os títulos dos contos deste livro. Basta-me exemplificar com “O ouro em pranto”, “Pesa-me de vos ter ofendido” e “O enterro mais triste do mundo”. Todas as suas personagens, masculinas ou femininas, permanecem mal ajustadas ao seu meio social, que lhes inflige todo o tipo de humilhação, a braços com os seus falhanços pessoais, familiares ou amorosos. São vítimas do destino nas mais variadas circunstâncias. Em todas elas o leitor verá a ambiguidade e a ironia da própria vida no que em nós haverá ou não de bondade e maldade, na luta por uma sobrevivência que preserve a dignidade, ou nos permita enfrentar cada dia, dentro e fora de casa. Toda a escrita sai da moda contemporânea quando rejeita as grandes questões coletivas e se centra no interiorismo dos seres reinventados pelo escritor. Não fomos nós, nessa inversão existencialista, que criámos a sociedade. A História guarda-nos um lugar, mas só cabe a cada um lidar com a sua sorte.

“Da janela do quarto – diz o narrador acerca de uma personagem a viver a sua melancolia em Lisboa – e através das cortinas corridas, ela olha a rua sob o declínio da tarde, observa a luz, ama o dia. Segue o movimento da tarde com o olhar cansado e distraído; acompanho-o até onde, lá muito longe, ela se curva caindo sobre as crinas do mar. O poente é uma cauda de pavão: espalha sobre a água um arco-íris de penas sangrentas que ardem em sarça, como o sal no lume. Diz adeus ao dia, recolhe-se para o interior da casa – e põe-se a chorar. Chora num pranto convulso, cheia de paixão. O Outono sempre lhe trouxera sentimentos de mágoa acerca do mundo…”

A definição dos nossos valores, na circunstância existencial, está sempre em causa. Nestas páginas, por vezes sóbrias e pessimistas, ninguém escapa aos seus espelhos, que ora distorcem a imagem, ora a diminuem. Entre nós nos Açores há sempre a tendência, algo despropositada, para comparar Vitorino Nemésio a outros grandes romancistas e contistas. Se Nemésio “retratou” uma pequena e medíocre burguesia em ascensão a meados do século passado aqui nas ilhas, João de Melo, em linguagens cruas e claras, como acontece em quase toda a grande arte literária, recriou a pobreza real e o espírito de uma determinada geografia, tanto na sua ilha natal, São Miguel, como depois em Lisboa e outras paragens retratadas na sua obra. Se toda a ficção parte de territórios íntimos, a verdade é que João de Melo foi, tem ido e continua a ir, ao universalismo da condição humana nas mais variadas nações ou culturas, principalmente desde o Arquipélago ao Canadá, à Europa e à África – destinos principais da salvação histórica ou da nossa tragédia nos tempos em que este país era governado pelo piorio da política, da economia e da finança. Se a obra continua sem data e se mantém intemporal, isso só reconfirma a sua grandeza.

Edmund Wilson, o grande crítico americano do século passado, dizia que o que mais distinguiria a prosa moderna (agora pós-moderna) seria a poetização que até então era esperada no seu género mais próprio. João de Melo foi sempre esse escritor que entende a alma humana na sua condição contraditória. Uma vez mais tal acontece, em estado que nunca deixa de ser ambíguo, pelo menos entre as personagens e protagonistas mais conscientes dos seus dias e do seu ser. Já muito escreveu este autor após a edição inicial destes contos. Nunca, porém, deixou de nos ver a nós de um modo com tanto de trágico como de heroico. A sua obra está marcada por essa temática e pelo estilo das suas linguagens – categorizada como grande literatura. Nessa continuidade há como que uma visão algo obsessiva do que entende ser a nossa vivência solitária, insular, num mundo em caos contínuo e talvez perpétuo.

Resta dizer que muita da obra de João de Melo se encontra traduzida em vários países e línguas: Espanha, França, Itália, Holanda, Roménia, Bulgária, Alemanha, México, Colômbia, Croácia e Estados Unidos. Happy People In Tears (Gente Feliz com Lágrimas), o seu romance mais conhecido (agora a celebrar 30 anos de publicação) foi traduzido na América por Elizabeth Lowe, antiga colega nas aulas de Gregory Rabassa em Nova Iorque da minha mulher Adelaide Freitas (recentemente falecida), que também escreveria uma das primeiras séries de ensaios que depois foram reunidos no livro João de Melo e a Literatura Açoriana, publicado pela Dom Quixote em 1993. São poucos os autores portugueses da nossa modernidade que desfrutaram de tanta atenção em Portugal e no estrangeiro. Isso fala por si, quanto à grandeza da sua escrita e de um percurso literário com tanta consistência e lealdade às suas múltiplas geografias de afinidades eletivas.

___

João de Melo, As Coisas da Alma e Outras Histórias em Conto, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental, 30 de Novembro, 2018.

 

 

De Ângela Almeida e de Natália Correia: uma revisitação

De Ângela Almeida e de Natália Correia: uma revisitação

 

Cruzei o mar em direcções diferentes/Por quantas terras fui, por quantas gentes, nesta longa viagem que não finda.

Natália Correia, “Manhã Cinzenta”

Vamberto Freitas

     Estou em crer que a contínua fúria literária em volta de diários e de fotobiografias anunciadas entre nós, ou então anunciadas na altura em que este texto foi escrito, a cultivação de outro género literário desde sempre fundamental para a literatura no mundo anglo-americano: a biografia (e autobiografia), desenvolvida de escritores e outros literatos. Este á apenas um palpite, mas quer isso venha a acontecer ou não, creio que também já percebemos que quem gosta de livros também gosta de quem os escreve, assim como se percebe cada vez mais que toda a literatura contém uma boa dose de autobiografia, que a experiência vivencial de cada autor, que as suas origens geográficas e sociais são do mesmo modo fundamentais para a sua obra. Factos vividos, memórias da terra, famílias e toda a gente em redor, os que criaram e despertaram em cada autor um imaginário do mundo, um imaginário do passado, e particularmente os sonhos do futuro ou as utopias interiorizadas em cada um deles ou delas são as chaves, por assim dizer, indispensáveis à desconstrução e apreensão de signos e significações nas mais diversas e consequentes obras suas. Retrato de Natália, escrito e organizado pela poeta e escritora Ângela Almeida (que um pouco mais tarde viria a fazer a sua tese de doutoramento sobre a sua autora de preferência, entre outros e outras), que foi sua amiga e leitora atenta, vem uma vez mais comprovar que a introdução a uma obra literária como a de Natália Correia (poesia, em primeiro lugar, mas também teatro, ficção e poesia) poderá começar por aqui, num livro que tanto aproxima o leitor aos mundos diversos da autora como oferece um fio unificador que antes poderiam ter parecido livros desconexos, ideias avulsas ou, particularmente no caso de Natália, caprichos literários fugazes. Cada autor, pois, merece um biógrafo, e Natália encontrou em Ângela Almeida a sua cúmplice ideal.

Neste Retrato sobressaem, para além do que Ângela Almeida chama “O triângulo afectivo” da autora, constituído pela mãe, por uma irmã e por ela própria (muita da poesia de Natália é simultaneamente a exaltação do amor que daí nasceu e depois o registo comovido de sucessivas e inevitáveis perdas pelos vários caminhos cruzados e pelo afastamento do tempo), dois impulsos temáticos e metafóricos: ora o dialogismo e a dialéctica entre Poesia e o Poder e o insistente regresso à Ilha ou uma ilha de utopias interiores, uma tentativa de rebater a dessacralização do Homem, de recuperar o amor e o humanismo que ela começou a perder logo no início da sua carreira literária e a observar também a partir dessa etapa com a Segunda Guerra Mundial até aos dias da sua morte a 16 de Março de 1993. Se em Portugal uma obra literária se confunde quase por completo com a biografia do seu autor (não necessariamente nos factos mas sim quanto a atitudes), a de Natália Correia será uma das mais paradigmáticas. Lágrimas e irreverências, disciplina à mesa de escrever e puro prazer na companhia dos outros, melancolia e (creio no caso de Natália, a palavra correcta), algazarra, abraços ao Poder seguindo demolidores murros, o universalismo vivido e pensado, o apego sem apologias às suas ilhas açorianas, eis aqui o retrato de uma escritora e de uma mulher portuguesa em “tempos sombrios”, como diria Hannah Arendt num livro com o mesmo título acerca de outros grandes escritores europeus desta da mesma época. Natália Correia foi a nossa mulher de letras por excelência, atenta e envolvida no mundo da política conjugando sempre a intervenção e a reflexão, vendo o mundo como o seu palco de acção e, apesar das aparentes agressões verbais de quando em quando, a poeta e a escritora que escrevia para todos sem se preocupar com as modas académicas destas décadas mais recentes ou com uma crítica toda ela virada para as universidades e para um pretensiosismo formalista que imita, só isso, sem nunca recriar o que no estrangeiro foi acontecendo. Toda a sua força provavelmente vinha dessa posição fleumática ante uma cultura literária supostamente, e por vezes ridiculamente, elitista quanto a um outro mundo das ideias e da própria literatura, da sua postura cívica e do comportamento pessoal de cada cidadão consciente do seu lugar na sociedade.

“Só no fim – escreve Manuel Alegre num depoimento em Retrato de Natália Correia, essa magnífica fotobiografia de Ângela Almeida –, com Sonetos Românticos, conseguiu ganhar um prémio. E foi preciso ter escrito um livro que ficará como um dos grandes filmes da nossa poesia. Contra ela conspiravam os que pretendem fazer da poesia uma charada para especialistas e aqueles de quem nenhum verso e nenhuma frase serão sabidos de cor. Natália já está no nosso ouvido. Os catorze degraus de cada um dos seus sonetos forma também catorze degraus de uma ascese e de uma despedida. Ela sabia que estava a dizer adeus”.

Uma fotobiografia é feita de duas narrativas complementares: texto e fotos. Enquanto entramos na história visual da autora – nas suas andanças, nas suas companhias sociais e literárias, e nos seus templos íntimos de vivências quotidianas –, Ângela Almeida transporta-nos pelos cruzamentos mais significativos de Natália e da sua obra. Consegue assim, neste Retrato de Natália Correia, impôr uma ordem e uma visão a todo um corpo literário que começa a ser publicado na década atribulada do 40 e só termina nos últimos dias da autora. Os nomes invocados aqui são uma lista vital da literatura da nossa modernidade e pós-modernidade. Para mim, uma das componentes mais arrojadas desta narrativa de Ângela Almeida que se mantém equilibrada entre a linguagem do afecto e a historiadora de ideias e literatura foi o começo da recuperação de Natália Correia, de certo modo, para além da sua indiscutível açorianidade. Apesar do que acabo de afirmar, faço uma leitura metafórica de duas fotos na página 64: Natália a dançar com Sá Carneiro, numa postura respeitosa e distante, e outra com Vitorino Nemésio, a poeta a desfazer-se em carinhos, alegria e aproximações sem tréguas. Foram dois poetas portugueses idos e vindos das ilhas. Se a Pátria ou Mátria foi-nos sempre esta dispersão singular na Europa e no mundo, a força das raízes é-nos inegável, a sua lava tantas vezes escrita e descrita na obra de ambos, o nosso solo comum e memória indelével. Ângela Almeida, repetidamente, faz-nos lembrar que para a autora de A Pomba, O Dilúvio, Madona, Não Percas a Rosa e os já mencionados Poemas Românticos, assim como outras obras como Descobri Que Era Europeia (sobre a sua primeira viagem aos Estados Unidos), o regresso às origens e a tudo quanto esse gesto simbolizava foi uma constante, tal como todo um referencial humano e psico-histórico (a ficção de A Madona, por exemplo) na sua palavra escrita.

A Revolução de Abril, nos seus momentâneos delírios e loucura colocou-a abertamente ao lado de Nemésio nas movimentações políticas e emotivas quando certos quadrantes das forças vivas do arquipélago foram levados a repensar o futuro relacionamento dos Açores com o resto do país. Foi a autora do Hino dos Açores e, tal como está retratado e referido nesta obra de Ângela Almeida, nunca se retraiu publicamente em encontros com esses sectores açorianos, ou até como intermediária entre eles e altas figuras institucionais, como foi o caso de Ramalho Eanes e a sua tentativa de conhecer a fundo o que se passava a meio Atlântico. Uma vez mais, a artista e a cidadã, a Poesia e o Poder ora se aproximavam, ora poderiam a qualquer momento entrar em conflicto aberto. Não será de estranhar, pois, que Dórdio Guimarães, seu companheiro de longa data e seu marido dos seus últimos anos, tenha privilegiado desde logo o seu lugar de nascimento, a Fajã de Baixo em São Miguel, como ponto referencial a toda a vida da autora, e com a promessa de um dia trazer para cá o seu espólio. Portugal tem uma memória colectiva dispersa naturalmente por todos os seus recantos, e futuras investigações literárias, como levou a cabo durante anos a própria Ângela Almeida, só poderão tornar-se mais ricas e mais significativas quando estas e outras verdades forem inteiramente reconhecidas e respeitadas.

___

Ângela Almeida, Retrato de Natália Correia, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994. Parte deste trabalho foi retirado, com ligeiras modificações, de um outro ensaio meu publicado em 1994. Publicado no meu “BoderCrosings” no Açoriano Oriental, 23 de Novembro, 2018.

Do Holocausto e da nossa herança judaica

O pai desenvolvera uma teoria segundo a qual tudo o que acontece está interligado por finos filamentos de causa e efeito, que normalmente não conseguimos ver. Chamava-lhes os fios incandescentes, porque dizia que emitiam uma luz quente, pelo menos para os com visão mística suficiente para os verem.

Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco

Vamberto Freitas

     O novo romance de Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, o quinto livro do seu chamado ciclo Sefardita, aborda a (pouca) sorte dos judeus na Europa desde Lisboa no século XV à Polónia do século passado, e noutras imensas geografias até aos nossos dias em Nova Iorque. É uma obra prima, nada menos. A tradução de Daniela Carvalhal Garcia é tão competente que depressa esquecemos que foi originalmente escrito noutra língua. Raramente se vê esta capacidade literária entre nós, cada personagem uma descoberta do outro lado da nossa própria humanidade e desumanidade, a ironia, e mesmo o humor, dominam a narrativa. Por certo que o Holocausto judeu já mereceu centenas, ou milhares, de livros de todo o género, mas creio que ninguém como Richard Zimler ficcionou esta História tão sistematicamente, nem sequer os outros judeus americanos nos Estados Unidos, que a partir dos anos 30 praticamente revolucionaram toda a literatura do seu país, particularmente na forma de ensaio e ficção. Zimler tem outra distinção: detém a cidadania dupla americana e portuguesa, e foi a história e mítica judaica lusa que o apaixonou desde sempre a partir da publicação de O Último Cabalista de Lisboa. Tem ainda outra singularidade na publicação da sua escrita. Por vezes é a tradução portuguesa que é publicada primeiro, e só depois em inglês, recebendo de imediato recensões críticas em muitos dos melhores jornais do mundo, inclusive no seu país de nascença e adopção, na Grã-Bretanha e em todo o mundo de língua oficial inglesa, assim como no próprio Jerusalem Post. No centro de toda esta obra sefardita (Zimler tem outros romances com as mais variadas temáticas identitárias, por assim dizer) estão os descendentes da família Zarco, literalmente queimada na praça pública em Lisboa ou então exilada para os mais distantes países na Europa e nas Américas. Já li outros romances do autor, e sobre os quais escrevi, mas quanto aos quatro livros deste ciclo, este é o primeiro que leio. Não perdemos nada do fio à meada sem termos lido os primeiros volumes. Aliás, a encerrar Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco. o narrador inclui um documento fundador de todas estas histórias escritas pelo cabalista-mor lisboeta do século XV, de nome Berequias Zarco, referido de quando em quando nesta longa narrativa quando os personagens tentam entender a sua má sorte, particularmente durante a II Guerra Mundial e o poder nazi na sua tentativa de exterminação total de todo um povo, assim como de outras minorias dentro e fora da Alemanha.

Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco abre no ano de 2007, e vai oscilando no tempo até aos nossos dias, estando no centro a Polónia e o levantamento judeu no gueto de Varsóvia em 1944, que provocaria o resto da catástrofe total até ao fim da guerra a meados do ano seguinte. Cada capítulo é narrado pelos descendentes dos sobreviventes, que vivem assombrados por esse passado quase indizível em palavras. Ethan, nascido em Nova Iorque e agora professor e artista plástico em Boston, conta a história de Benni, seu pai já nos últimos anos da sua vida, recria ainda um dos mais fascinantes personagens da literatura contemporânea, de nome Shelly, primo do seu pai, bissexual mas vivendo a felicidade de um longo casamento com uma canadiana não-judia, depois de ter viajado e amado homens e mulheres desde os seus anos de refúgio em Argel, e o narrador reinventa, ostensivamente, dois cristãos polacos, um homem de nome Piotr que havia escondido o seu pai ainda menino, levando-o com pressa para casa de uma antiga professora sua de música, Ewa, cristã, que faz tudo para que os nazis ou os seus simpatizantes polacos nunca o levassem para um dos “campos da morte”. Eventualmente Benni e George, antigo amante de Shelly, vão à sua procura depois da guerra para levá-la para a América, já idosa, onde faleceu alguns anos depois. Que nenhum leitor se intimide com um grupo de protagonistas todos inter-relacionados, pois a prosa de Zimler é de uma clareza luzidia, levando-nos a virar página após página, cada uma com as maiores surpresas ou viragens na narrativa, como diriam os new critics (hoje fora de moda no mundo universitário) americanos acerca de qualquer grande romance. O título na versão original dá-nos precisamente essa ideia de linearidade: The Incandescent Threads, ou seja, os “os fios incandescentes” que iluminam estes mundos de vida, amor e morte. Zimler é formado em Religião Comparada pela Duke University, fez um mestrado em Jornalismo na Stanford University, e vive no Porto desde 1990, onde também deu aulas até se dedicar totalmente à escrita e ao diálogo imparável nas escolas e noutras instituições culturais. Creio que tudo isto faz dele o grande escritor que é. Nada ofusca, os seus passos metafóricos e simbolistas nunca nos deixam na dúvida, muito pelo contrário. Em passo após passo, o leitor quer ir lendo devagar para digerir toda esta riqueza de linguagens e imagens. Não se trata de um romance acusatório perante seja quem for. É a noção do amor e da redenção (aliás como se afirma na contracapa) dos seus seres inventados e de nós próprios que dominam toda a narrativa. Se a arte retrata frequentemente o pior de nós, também faz o contrário: reafirma o valor da vida e da luta. Algumas das cenas dos anos 60 neste livro envolve protestos activos desses sobreviventes contra a guerra no Vietname. Como que a dizer: nenhum povo merece a morte em nome seja do que for.

“Provavelmente para compensar o vazio – escreve Ethan, filho de Benni – dentro de mim – e que tinha a forma e o tamanho exato do meu pai –, em breve o meu trabalho começou a ficar mais habitado. Tudo o que sabia sobre ele e o seu passado entrou nos quadros e desenhos mitológicos – Glukl, a papagaia cor de esmeralda, a camisola de lã azul que Ewa tricotara para ele, os cigarros e o isqueiro, o Centro de Recrutamento Militar em Nova Iorque, as exigentes ereções de Shelly e as gravatas indianas de George, a fotografia de Louis Armstrong que era do avô Morrie, as tulipas que o pai e Shelly haviam plantado, as mantas de retalhos que a minha mãe recebera de presente de Belle, a sua fita métrica e a máquina de costura preferida, o tapete que Piotr o enrolara quando fugiram de Varsóvia… E os olhos dele – as noites sem luar em que eu iria viajar para sempre”.

Isto não é só prosa brilhante sobre a memória, a dor e a saudade. É sobretudo o relembrar de tragédia sem igual na modernidade, o relembrar dos que a sofreram em directo e na carne um dos maiores assassínios de toda a História, e depois a dor de filhos e de todos os que tiveram de reviver e reimaginar esses anos ainda bem recentes dos que passaram a uma realidade que nunca se tornou na normalidade após testemunhar a barbárie absoluta. Richard Zimler devolve-nos, uma vez mais, a redenção de um Portugal que tem nas suas páginas um passado bem cruel e desumano para com os seus filhos judeus. Mais do que uma vez neste romance, as vítimas dos nazis falam em procurar as suas famílias ancestrais no nosso país. Nos tempos de uma Europa nazi, e agora de novo em instantes de intolerância em vários outros Estados da suposta “União Europeia”, a temática do medo generalizado está de regresso. Assim mesmo, é de uma ternura sem igual na literatura perante tudo o que aqui é reinventado ou relatado. Este “ciclo sefardita” em quatro grandes romances merece mais do que críticas simpáticas ou acolhedoras, merece um outro tipo de reconhecimento que lhe é devido por este que é o país por ele livre e conscientemente adoptado.

___

Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco (tradução de Daniela Carvalhal Garcia), Lisboa, Porto Editora, 2018. Publicado no “Açoriano Oriental” de 2 de Novembro, 2018.

 

 

De Carlos Cordeiro e de nós

A metrópole tem certas generosidades consideráveis com as colónias. Assim, com os Açores – que não são uma colónia, mas que pela distância, pelo abandono, pela separação de interesses, têm toda a fisionomia colonial… Portugal para com os Açores é inesgotável – de desembargadores!

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre

Vamberto Freitas

I

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

II

     Na sequência desta homenagem a um grande amigo e colega, gostaria de dizer – repetir – algo mais. O nosso aparente complexo de inferioridade ante o restante país é de todo injustificável, e vai contra os factos da nossa história ao longo de mais de cinco séculos. Não recuemos mais, só iremos ao fim do século XIX e a todo o século XX, ficando com o mundo da arte literária. Já imaginaram a literatura portuguesa sem os açorianos mais distintos entre nós? Antero de Quental era tão universal e português que escolheu a sua terra de nascença para morrer. Não vou falar do primeiro presidente da república ou de outros na política, do jornalismo e das artes em geral. Que o façam os nossos historiadores, e têm-no feito, mesmo que lidos ou notados a nível nacional só em certas circunstâncias. A verdade é que sem o contributo constante dos nossos melhores escritores (e faltarão aqui alguns) a literatura portuguesa seria muito menos do é que hoje. Só para mencionar uns poucos, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel, se bem que as grandes letras de uma cultura e língua não dependem em nada de um prémio atribuído em Estocolmo. Falemos dos que ou já pertencem ao nosso cânone literário antes de essa confirmação de grandeza existir, ou de alguns mais novos que se identificam com a minha geração na escrita criativa ou na crítica literária pública. Só na nossa época Portugal conta com Vitorino Nemésio e Natália Correia, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel. Alguns outros, vivos e mortos, que menciono só parcialmente para não provocar rancores, são também de um outro alcance artístico nas nossas letras. Podem incluir estes e outros autores e poetas nesta lista algo curta, de grandes escritores e poetas, com ou sem prémios de qualquer espécie, como um Roberto de Mesquita, João de Melo, José Martins Garcia, J. H. Santos Barros, Emanuel Félix, Pedro da Silveira, Borges Martins, Carlos Bessa, Garcia Monteiro, Eduíno de Jesus, Luiz Fagundes Duarte, Renata Botelho, Madalena Férin, Leonardo Sousa, Manuel Tomás, Daniel de Sá, João Pedro Porto, Joel Neto, Marcolino Candeias, Nuno Costa Santos, Victor Rui Dores, Ivo Machado, Norberto Ávila, Cristóvão de Aguiar, Urbano Bettencourt, Manuel Machado, Rui-Guilherme de Morais, Emanuel Jorge Botelho, Álamo Oliveira, Eduíno de Jesus, Dias de Melo, Fernando Aires, Vasco Pereira da Costa, Diniz Borges, Francisco Cota Fagundes, José Manuel Dias de Melo, José Francisco Costa, Paula de Sousa Lima, Madalena San- Bento, Adelaide Freitas, Ângela Almeida, Judite Jorge, Fátima Borges, Maria Luísa Soares, Leonor Sampaio da Silva e Gabriela Funk. Merecem, todos eles e elas, muito mais reconhecimento a nível nacional do que têm recebido para além de uns poucos mas dos mais prestigiados intelectuais e outros estudiosos da literatura do nosso país sem fronteiras. São estes apenas os que conheço em profundidade, e não vou aos grandes escritores antes deles. Se Lisboa não fosse o centro editorial e publicitário do nosso país, quase ditatorial nestas questões, muito haveria ainda a dizer do eixo supostamente “cultural” Lisboa-Coimbra, e felizmente agora o Porto. Os outros nunca existem e nunca existiram. Na diáspora temos alguns dos mais importantes pensadores da portugalidade expandida no mundo, como Onésimo Teotónio Almeida, mas também ele e outros parecem excluídos dos grandes prémios literários. Isso vai sempre para os que vivem no outro lado da rua ou do bairro genial à beira Tejo. É só aparecer numa página ou num ecrã as palavras “Açores”, “açorianos” ou “açorianidade” para levantar todo o tipo de suspeitas nessa outra margem da nossa nação. Somos demasiado “ilhéus” na nossa escrita. Eles, mesmo que não saibam disso, são demasiado “lisboetas” para alguns nós, quando deveríamos ser apenas e só portugueses.

Actualmente, alguma da mais sofisticada escrita entre nós aqui destes lados conta com todo o apoio da nossa Imprensa. Foi-nos sempre mais do que evidente que seríamos nós a tratar da nossa própria identidade no contexto do país, ou cairíamos num poço de ignorância pura, e sempre em preconceitos que resultam dessa mesma ignorância. Por lá, mandam-nos baixar a bola, a fasquia, porque os novos leitores de jornais supostamente pouco sabem de literatura. Não tenho tanta certeza disso, não assumo nada sobre o que eu e todos os outros na realidade não conhecem. Poderão essas novas gerações simplesmente já não se identificarem com as nossas linguagens, mas ninguém tem provas definitivas que não lêem, ou são mais indiferentes do que foram muitos de todas as gerações ao mundo das artes em geral.

III

     Toda a grande escrita universal parte de ume geografia específica, de uma cultura, de uma língua, de uma História própria, e ainda intensamente das diásporas de cultivam uma identidade própria e indelével, esses que não têm nem consideram fronteiras de qualquer espécie. Raramente em Portugal se sabe valorizar a nossa riqueza literária e cultural praticamente no mundo inteiro. Ao contrário desses outros “metropolitanos” lusos de que já falei, o nosso arquipélago desde há muito que criou estruturas próprias de debate e divulgação de como somos e vivemos, de como chegámos aqui e sobrevivemos há mais de quinhentos anos. Não pedimos desculpa a ninguém, nem aceito que a se justifiquem perante os outros. Quem não conhece é que está em falta, não nós. Se levantamos suspeitas, ceptícismo ou descrença quando nos encontram de quando em quando nas mais variadas páginas ditas “nacionais”, corrijam a sua estreiteza de visões ou entendimento.

Estamos “longe” e fora da vista, bem sei. Mas quem diz ou se quer “universal” nunca poderá ignorar o vizinho ao lado, muito menos os seus compatriotas e a sua luta pela dignidade num pequeno país que nunca soube apreciar a sua própria riqueza humana em toda a parte, e os seus contributos à vida criativa ou, uma vez mais, identitária. A literatura é isso, e só isso. O resto são pretensões que acabam por nos diminuir a todos. Sim, quando leio um escritor do continente, leio-me a mim próprio ou revejo-me nas suas personagens e temática. Tal como quando leio um “estrangeiro” de qualquer país ou língua. Só assim vemos como vivem ou pensam todos os outros, que somos nós em qualquer outra parte ou tradição.

___

A primeira parte deste comentário foi publicada num suplemento do Correio dos Açores em homenagem a Carlos Cordeiro, Professor da Universidade dos Açores, e recentemente falecido. No Açoriano Oriental de 26 de Outubro, 2018.

 

De um outro existencialismo e de um mundo de sombras

     É simples: não há história sequencial. Cada novo texto revê o anterior. Cada noite a da véspera. Assim, tudo, para ele era borrão, excepto o último.

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível

Vamberto Freitas

     Da vasta obra de Ernesto Rodrigues, que inclui ensaio, poesia e ficção, retenho com especial interesse os seus romances Passos Perdidos (2014) e Uma Bondade Perfeita (2016), este que viria a vencer o Prémio Pen Clube Português no ano seguinte. Acabo agora de ler a sua mais recente peça de ficção, Um Passado Imprevisível, cujo título já contém em si essa ironia de nunca nos conhecermos por completo, muito menos os outros e os relacionamentos mais marcantes das suas e nossas vidas. Há aqui uma tentação de considerar, pelo menos parcialmente, este livro um romance um tanto autobiográfico, mas seria um erro elementar de leitor, como diriam certos críticos americanos acerca de textos ou narrativas complexas. De facto, Ernesto Rodrigues, hoje professor na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa e director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, foi também leitor de Português na Universidade de Budapeste nos anos 1981-1986, os anos de chumbo daquele país que ainda nem suspeitava, (suponho) que todo o sistema sócio-político estava prestes a ruir em pouquíssimo tempo como resultado da queda da União Soviética. É também verdade que o autor – que viria a tornar-se o mais distinto tradutor no nosso país da melhor literatura húngara — deixou por lá laços de amor e família, muito do que nos levaria à tentação de o ler interligando realidade presente e passado num acto de ficção como este. Só que na obra de Ernesto Rodrigues existem estruturas narrativas que à primeira vista nos parecem desligadas, e a sua escrita torna-se um exercício complexo da imaginação pura, e em que o leitor vai desfrutando de frases lapidares que podem ou não significar os múltiplos sentidos de um tema que esconde em si não só o mundo dos outros mas mais ainda o estado interior do seu narrador, que, tal como nós na tentativa de interpretação, nunca sabe claramente o que aconteceu ou vai acontecendo no seu próprio mundo ou noção de existência entre os mais diferenciados seres humanos aqui inventados ou reinventados. Estamos dentro de um enigma que vai da vida académica e amorosa em Budapeste a Moçambique dos nossos dias em busca de uma mulher de nome Andrea. Este é um romance de poucas personagens centrais, mas os seus relacionamentos e as respectivas implicações para as várias representações aqui encenadas são algo complexas, deixando o leitor como que num jogo de xadrez e a olhar demoradamente cada peça e cada movimento.

Um Passado Imprevisível faz-me lembrar, de certo modo, o Finnegans Wake, de James Joyce, que levaria o grande crítico norte-americano Edmund Wilson, que introduziu nos anos 20 o modernismo europeu aos seus leitores enquanto olhava atentamente os seus colegas que no país ou residentes na Europa também respondiam a uma literatura que havia sido até então provinciana, ignorando quase tudo que se passava além-fronteiras. Wilson, falecido em 1972, leu e releu a ficção de Joyce, e não teve meias medidas: se era praticamente incompreensível, ele procedeu a uma interpretação muito original, quer coincidisse ou não com o que o autor irlandês teria em mente quando o escreveu. Faço o mesmo agora aqui. Um Passado Imprevisível tem um narrador que se identifica com um personagem principal de nome J. C. no seu regresso a Budapeste no presente depois de lá ter sido professor de Português na universidade principal do país. Vai à jubilação de um colega oriundo da Eslovénia, mas que será devidamente homenageado, e neste caso chamado simplesmente de “Z”, pois o seu nome é tão longo e complicado que tira do leitor o primeiro riso e perplexidade, e que nem me atrevo a escrever neste texto, depois de um alerta, ou de quem leu com atenção, que se tratava de todas as letras do alfabeto, numa brincadeira algo gratuita com o leitor, creio eu. De resto, será lembrar os anos passados e as mulheres da sua vida, ambas de nome Nídia, mãe e filha, que nos levam a tentar decifrar quem é o pai, se J. C. ou Z. Seja como for, o romance leva-nos mais ao ambiente internacional dos nossos dias na Europa, e termina, como já referi, em Moçambique aonde se encontra Andrea, uma outra possível amante, numa missão humanitária e que não espera um encontro com esse seu passado amoroso na Hungria. Pelo meio, acompanhamos a viagem num navio criminoso, que se dedica ao tráfico de tudo, inclusive de crianças. A violência durante essa viagem entre a Europa e África é extrema, e constitui uma outra visão do mundo actual, do mundo que permitimos no silêncio ou na nossa indiferença. Entre o passado dos anos 80 do século XX num país comunista retornamos à actualidade, testemunhamos o pior dos mundos. Resta ao indivíduo consciente reorientar-se e actuar dentro do perigo perante o que vê e vive. É o regresso ao tal existencialismo filosófico, que combina realidade e arte para denunciar os infernos que criamos, e ao mesmo tempo a possibilidade de apagar os fogos quando pode e onde pode. Este é um livro de prosa simbólica e poética, com frases tão contundentes e significantes que prendem nos seus leitores a força de irmos de página em página à procura de significações escondidas, dos mistérios ou segredos da vida de cada personagem.

“Ora, outros perigos irrompem nesta distracção. A pólvora da História deixa resíduos em qualquer um. Seja palavra, na tabuleta da loja, seja nome de rua, ou música descida de longe, que a rádio filtra, o peso da vida volta, velado em passado, que a mão esquerda dela, numa paragem brusca, entoa melhor, ao tocar-lhe no joelho, dois dedos, indicador e média, pormenor que lhe lembra outros dedos, talvez outro tempo, o que nem sempre coincide…”

Por fim, Um Passado Imprevisível dá continuidade a essa obra ficcional de Ernesto Rodrigues de que já falei anteriormente, um mundo de sombras ominosas ou meramente pessoais, e na qual o leitor encontra na sua prosa o caos e os relacionamentos misteriosos entre uns e outros, especialmente o que se chama na sociologia de significant others. Certa Europa permanece algures entre a civilização e o desastre, com as relações de cada um ou uma servindo como que de metáfora a todo o tipo de ameaça indefinida. A viagem para a África acontece, uma vez mais, num navio de loucos, e Moçambique como memória de um passado português pouco feliz, e agora dependente da ajuda e da criminalidade dos que pensam levar todos à salvação.

____

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível, Lisboa, Gradiva, 2018.

 

 

 

 

 

 

 

Em memória de Carlos Cordeiro

Vamberto Freitas

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

____

De um outro desassossego interior

   Refere ser complicada a sua vida… E, com essa afirmação, sentenciou-se. Limitando-se ao pensamento redutor e à quietude paralisante, não deixa que a aventura lhe toque…

Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento

Vamberto Freitas

     Fernanda Mendes, psiquiatra, política e governante aposentada, publicou o seu primeiro livro em 2014, intitulado Sexualidade Redonda e Circular, que tive o prazer de apresentar publicamente num ambiente algo diferente para mim, precisamente no Hospital do Divino Espírito Santo, aqui em Ponta Delgada. O desafio que a autora então me lançou foi complexo: estivemos perante um público que combinava leitores vindos de todos os quadrantes da vida, mas também médicos e sexólogos híper-especializados vindos de outras sofisticadas paragens, como Allen Gomes. Também ela é uma conhecida sexóloga, e a sua prosa de então foi decididamente um acto de coragem numa terra habituada a literatura sisuda e quase toda de meras insinuações sexuais nas suas páginas. Em Sexualidade Redonda e Circular a linguagem era bem outra, integrava o desejo e prazer, ou a dor de cama numa tradição conservadora como a nossa e dominada ainda pela hipocrisia social e religiosa, uma cultura do silêncio que acha estranho falar-se publicamente nestas questões, que também já dominam quase obsessivamente, como se sabe, até o discurso político noutros países. Só que a surpresa para mim foi encontrar um grupo de leitores e pensadores que aceitaram abertamente esse desafio médico-intelectual lançado nessa singular obra entre nós.

Agora, neste seu Fios Tecidos Ao Vento temos uma escrita epigramática, mas retirando a parte que diz respeito à sátira ou a outras significações mais negativas, mesmo que em certas entradas essas linguagens prevaleçam, sem nunca a autora perder a sua inclinação poética e de generosidade perante a condição humana em que vivemos todos, e ela olha muito atentamente, ouve sem perder pitada dos que lhe comunicam ou ficam no silêncio. Estamos aqui noutro livro bem diferente. Parece um diário, mas não é. São os seus pensamentos e memórias que lhe comunicam situações e gente em tempos diferentes. Fernanda Mendes vai anotando não só o que ouve das mais diferenciadas experiências de vida, como ouve a daqueles que ela conhece ou com quem convive, registando sempre ou a solidão ou o desespero de cada encontro. Trata-se de uma narrativa em curtos parágrafos ou breves frases do que ela pensa sobre a sua própria vivência em tempos que são os nossos. Diz-nos de si e dos outros, sem nunca ninguém identificar. Uma escritora psiquiatra é sempre “perigosa”, mas no melhor sentido da palavra. Sobressai não aquela que “julga” ou “sentencia”, mas a de quem entende o coração humano nos seus dilemas e medos. A capacidade de amar, ou não, a liberdade ou prisão interior dos sujeitos que ela encontra na vida, uma mulher tanto dona do seu destino como observadora desses “prisioneiros” e das suas circunstâncias. As palavras que escreve a qualquer dia ou da noite carregam em si quase sempre a empatia solidária e um entendimento da alienação numa sociedade sem regras nem as referências institucionais reguladoras de outrora. Em qualquer das circunstâncias, há o seu humanismo e a tentativa de entrar na alma dos seus interlocutores, ou o dos que ela experiencia em pensamento, quer seja solidária, mas também por vezes castigadora sem os juízos de valor que geralmente o acompanham, ou de maldade a eles inerente. Como em certos escritores, é o estado de espírito, seu e dos outros, que definem a nossa sociedade e o que essa sociedade nos impõe, como seres humanos, como amantes, como conhecidos, como ocasionais faladores de si e da sua sorte. É, uma vez mais, o desassossego de estarmos vivos na infelicidade e na má sorte do nosso destino. Nesse processo, a autora vai-se definindo como vai definindo os outros. Não se trata de pessimismo ou de alegria ante a vida: trata-se, antes, da nossa existência num labirinto que frequentemente dificulta qualquer saída.

“Estranho sol – escreve Fernanda Mendes — que não queima, estranha dor que não mata, estranho momento que não morre ao vento, estranhas vozes que nascem do meu espanto… Tudo requer estranheza”.

Permitam-me abrir aqui um parêntese. Cada livro ou cada frase abre espaços e feridas pessoais que nunca poderemos esquecer, e nunca nos deixa ignorar o que nos dizem pessoalmente. Toda a prosa que lemos ou é pessoal, se torna pessoal, ou de nada vale, nem sequer a dos textos arrogantes de alguns grandes escritores, quer sejam a poesia ou prosa. Leio um texto como que se fosse sobre a minha própria vida, mas nisso não há nada de estranho ou novo. A autora trouxe-me ao mais profundo ser a minha vida pessoal na companhia da minha grande companheira, a Adelaide. Foi uma escritora, académica e política, e muito mais do que isso, muito mais significante, o meu grande amor. Não, não vou ser lamechas aqui, queria só apontar a verdade directa destas palavras da Fernanda Mendes. Assisti durante quase 20 anos a uma doença na minha casa que mata a vida antes de matar o corpo. Não haverá nada de mais cruel. Ainda hoje essas “estranhas vozes” assombram-me nos meus dias e nas minhas noites. Nunca saber se me reconheces, ou estás comigo. Isto só para dizer do que nós, os vivos, fazemos todos os dias, sejam amigos ou só conhecidos. Estás comigo, ou estás comigo sem me ver ou reconhecer? Não me reconheces? Reconheço-te eu a ti, e isso basta porque o teu regresso não é possível. Um sorriso, um olhar terno ou mesmo indiferente, um beijo mole e olhos no infinito, deixava-me feliz. Os vivos não sabem disto. Sabem só os poucos seres humanos verdadeiramente conscientes da nossa sorte. Queria só dizer que se a psiquiatria ou uma escritora não encontra solução para os que vivem alienados e descontentes poderá ser uma tragédia, mas com a qual eu não ofereço a mínima simpatia ou empatia. Se não, em saúde e em vida normalizada te afundas, bom, temos outros e muito piores problemas a tratar ou a resolver. Sei que outros não vão gostar destas palavras. Paciência. Eu também recebi a mais forte lição da Adelaide, não ter medo ou aceitar a minha sorte futura. Uma depressão de outros ou a incapacidade de amar até se trata com comprimidos. Se isso não for possível é, para mim, um problema menor.

“Estranha forma de vida”, como no fado de Pedro Homem de Mello, cantado em som e voz arrepiantes pela Amália. Que Fernanda Mendes se tornou uma autora tão original entre nós não me surpreende. A autora tem vidas em várias geografias do nosso ser, desde uma pequena aldeia algures em Portugal continental ao Brasil, e depois a sua vivência aqui nos Açores. Só olhar simultaneamente o exterior e a nossa própria casa nos permitem certas perspectivas de vida a que não estávamos de todo habituados. Alguma escrita de gente que passou por aqui algum tempo e depois deixou um “testemunho” tem uma relevância muito relativa. Os que de “fora” vivem entre nós fazem parte da cultura e da vivência inteiramente açorianas. É deles e com eles que nos revemos. A autora de Sexualidade Redonda e Circular e de Fios Tecidos Ao Vento é, uma vez mais, do Continente, do Brasil e dos Açores. O seu e nosso círculo fica completo na sua escrita. Esqueçam os clichés do costume. De bruma e basalto eu, pelo menos, já estou farto. Nunca da nossa humanidade na melhor da literatura.

___

Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2018.

 

Da nossa história e de outras distopias

De que servem, eu vos digo, as cóleras dos ventos e dos mares, as impassibilidades das calmarias, se os homens conseguem fazer tempestades mais tenebrosas dentro de uma casca de noz, buraco de Deus esquecido?

Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato

Vamberto Freitas

     Chego tardiamente ao grande romance de Ana Margarida de Carvalho, mas as grandes obras não têm prazo de validade ou de quando devem ser abordadas em termos críticos ou ensaísticos. Não se pode morar nos olhos de um gato, o seu segundo romance que venceu o Prémio APE depois De que Importa a Fúria do Mar. Vai aqui um pequeno passo que resume toda a sua temática e reinvenção do passado e presente. O romance é um misto de formas e técnicas narrativas. Estou a ler ficção ou poesia no seu melhor? Parece o poema “The Waste Land” de T.S. Eliot, agora no mar e em outras geografias, mas naturalmente muito mais elaborado e consequente adentro no contexto da nossa literatura, um outro olhar à história trágico-marítima, e não só a portuguesa. Tenho de confessar que este é a primeira obra de ficção que leio da autora. Não interessa assim tanto, ou como me diziam os meus mestres na Califórnia ligados ao New Criticism, que depois dos anos 40 e dos sulistas que o elaboraram para responderem aos nova-iorquinos e a todos os outros arrogantes da academia nacional. Muito pouco, pouquíssimo, viria depois na teoria da literatura. Cada texto, diziam eles, vale por si próprio, esqueçam a biografia do autor ou da autora, de nada vale, fixe a sua atenção no livro que lê. Tenho duas ou três mensagens a enviar aos que aqui nos Açores, Madeira e no Continente escrevem sobre livros, em forma de “crítica” ou de “ensaio”. Primeiro, a crítica judicativa é uma perda de tempo, é doloroso ler um livro de que não gostamos, e ainda mais doloroso escrever sobre essas mesmas páginas. Segundo, a inveja e os preconceitos são absolutamente anti-literários e de igual modo uma perda de tempo. Terceiro, julgar um autor ou autora pela sua biografia ou modo de ser entre tertúlias e outras situações informais é ainda pior. Um romance ou poema ou vale por si, ou não vale, e a vida é muito curta para gastarmos as nossas horas sem desfrutar do prazer do texto. De onde vem uma ideia para um grande romance não me interessa muito. Mas quando reconheço que vem da uma história pessoal reinventada ou ordem coleciva, reconheço logo a sua legitimidade e grandeza. Foi o que me aconteceu com esta peça ficcional: grandiosa, numa linguagem límpida sem nunca deixar de utilizar a metáfora e o símbolo como significantes de um acto literário original, dando continuidade ao melhor da literatura ocidental da nossa época. Ana Margarida de Carvalho não só consegue esse feito, como o leva um pouco mais longe. Não temos aqui apenas mais uma versão da história trágico-marítima lusitana, como temos fatias-de-vida da nossa maior tragédia expansionista, que desde há muito dá também pelo nome de Brasil, que continuou até aos fins do século XIX, quando aquele país já era independente e república, mas a presença de portugueses ainda se fazia sentir, e nos mais negros termos da nossa existência comum. Leio e admiro muitos dos críticos e ensaístas portugueses, do mesmo modo que cultivo um desprezo mais ou menos cómico pelas palavras de outros – fazem comentários sem ler os livros, a não ser descrições da contracapa, escrevem muitas vezes um chorrilho de asneiras não sobre o livro, que não leram, mas pelo ódio ou antipatia que têm pelos seus autores. A ética entre eles não existe, muito menos a seriedade literária.

Não se pode morar nos olhos de gato, ou seja, na indiferença ou calculismo oportunista de certas criaturas sem alma nem sequer maldade calculada. Cada homem e mulher tem de enfrentar o seu passado, e ainda mais o seu presente, que neste romance é simultaneamente de uma crueldade atroz, ou então um destino que não vem só ao acaso, mas sim de um passado que leva à “sorte” de cada personagem. Estamos aqui num barco negreiro, mesmo após a abolição da escravatura, que sai de Salvador da Baía rumo ao Rido de Janeiro mas depressa fica parado numa calmaria extrema, enquanto lá dentro se começam a agredir uns aos outros pelo medo e pela falta de tudo, em busca de bodes expiatórios, com uma santa de pau, Nossa Senhora das Angústias, que fica pousada na proa do navio a olhar o mar, também indiferente aos seres que a rodeiam. Temos nestas páginas uma amostra da miséria humana da época, desde escravos ilegalmente transportadas ainda para venda a “criados” mais ou menos já libertos, à esposa do proprietário da frota desses barcos (em fuga na companhia de uma filha) que é o próprio marido. Após o naufrágio do navio são estes poucos que escapam numa barcaça improvisada, levando ainda consigo, entre outros ainda mais pobres mas de coração nobre, um padre oriundo de família das serranias no norte de Portugal, e que havia sido criado no esterco de uma gruta de pedra algures numa pequena vila. Cada leitor que descubra os seus nomes e o modo como sobrevivem algumas semanas numa faixa de areia entre as escarpas da rocha e o mar, cujos alimentos se reduzem a algum peixe e mariscos que conseguem captar, com uma poça de água doce que a maré cheia consegue tornar inútil com a regularidade com que a natureza ora nos dá vida ora nos ameaça com a morte. É nessa pequena “comunidade” que vemos o coração humano na sua mais acentuada bondade e maldade, metáfora perfeita da sociedade de onde provém este grupo, que poderíamos ser todos nós numa determinada época histórica, ou então em qualquer período das nossas vidas em circunstância extremas na luta pela sobrevivência. Só existe aqui o presente, as horas que passam, ou a noite a destruir o dia e o dia a destruir a noite, como em certa canção americana. A possibilidade do canibalismo anda sempre a rondar naquele pedaço de areia, mas em vez disso comem um cavalo que já havia sido mutilado nos porões do navio e de repente dá à praia dos refugiados. Tem sido raro a criação de distopias na nossa literatura moderna, mas este é um livro único tanto na sua visão da História como no modo como poetiza o melhor e o pior da nossa (des)humanidade. Todos os grandes escritores recebem influências de várias línguas e obras, e este é um romance absolutamente faulknariano: cria-se uma situação de provação extrema, e de seguida vêmo-la através dos olhos, pensamentos e relatos na voz que o narrador dá a cada um dos seus personagens. Com o leitor fica a dúvida e interrogações de vária espécie, e, uma vez mais, a finura e crueza das linguagens que tornam a narrativa num longo poema anti-épico, ou, como diria a falecida americana Rebecca Catz, que provavelmente sabia mais do que ninguém da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, um dos melhores livros anti-cruzada, o contraponto perfeito, digamos, a Camões e ao seu diálogo com os deuses em defesa dos portugueses.

     “Na cavidade da rocha, — escreve o narrador já no fim e com uma certa salvação à vista para todos – concha da arriba, altar de santa amputada, já não havia uma correnteza de pedras brança e pretas, mas um montículo em equilíbrio instável, ameaçando derrocada. Muitas mais pedras negras do que brancas. Ultimamente, Marcolino sentia Teresa distante. Uma sucessão de dias maus, a que ele perdera, havia muito, a conta. Tinha esta sensação, mas podia estar equivocado, podia ser da doença, da febre, da fome. Essa, sim, uma pedra negra a crescer no estômago, tão pesada, retumbava, convocava todos os demónios para a praia. E lembranças mal soterradas, vindas ao de cima, ao mínimo deslizamento de terra, ou a erosão do mar bastava, sempre que uma onda embatia, alguma coisa bulia dentro deles…”

Não se pode morar nos olhos de um gato, repita-se, junta um pequeno grupo náufragos nesse exíguo espaço entre a terra e o mar, todos os avisos vindos de um céu tropical que tanto queima como poderá ameaçar com as maiores tempestades e tudo engolir. Creio que este é um romance mais afirmativo da vida do que da morte, apesar da tragédia marítima que lhe dá origem. Entre as noções do Bem e o Mal, um dos mais antigos temas de toda a grande literatura, ficamos nós numa prova constante de desafio aos deuses, a vontade de viver em luta perpétua contra a possibilidade real do fim definitivo. Estes são personagens também tornados símbolos de nós todos. Estamos em zonas cinzentas das nossas almas, somos anjos tal como somos demónios. Como se repete neste romance constantemente, tornando-se num leitmotiv: “Os deuses não dormem, nós é que os sonhamos”.

___

Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato, Lisboa Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Setembro de 2018.

 

 

Os Açores vistos da Califórnia por Diana Marcum

Li uma vez um estudo que distinguia quais os factores que nos trariam felicidade. Depois das questões de saúde e necessidades básicas, os investigadores acharam que não era dinheiro ou sucesso ou educação. Eles resumiram tudo a duas questões: um sentido de gratidão e dormidas tranquilas.

Diana Marcum, The Tenth Island

Vamberto Freitas

     Cada livro terá muitas leituras. Pode ser que a “informação” que este nos traga não seja nada de novo. Mas um “olhar” diferente também será sempre a originalidade das suas páginas. Quando não dizem o que esperamos ou sabemos, esse “olhar” nunca deixará de ser original, e tanto melhor. Afinal, toda a literatura é uma repetição do que sabemos desde os primórdios. Resta só ver o modo diferente como se olha um povo, uma comunidade, uma nação. Em quase toda a escrita sobre os Açores por escritores que estão fora, noto uma atitude algo estranha. A primeira geração de imigrantes acha que sabe tudo sobre as ilhas de origem. Depois, desconfiam dos da segunda ou demais gerações que escrevem já inglês. Há aqui, parece-me, um certo equívoco qualquer, pois a “realidade” terá sempre as mais diferentes interpretações. A visão dos que nunca cá viveram vem de outras fontes: memórias da família que lhes são passadas em conversa de cozinha, que lhes vêem de cartas, das fotos, e da pura imaginação. Isso não significa só a criatividade da imaginação desses escritores e poetas, significa a grandeza da geografia ancestral, ou uma descoberta ao acaso. Nunca vi um comentário igual sobre as asneiras e racismo puro de um Mark Twain em Innocents abroad dessas mesmas vozes, que chamou os faialenses de “porcos”. Esses escreveram sobre as nossas ilhas com certa hostilidade, e procuram logo o pior por falta de conhecimento. Vem tudo isto a respeito do recente livro de Diana Marcum, The Tenth Island, que aborda de modo racional e em prosa brilhante as nossas comunidades na Vale de São Joaquim, devido à seca que tem fustigado aquele estado norte-americano nestes últimos anos, essa vastíssima terra no interior central da Califórnia, e que de seguida lhe provoca duas visitas prolongadas aos Açores, principalmente à Ilha Terceira, e por uns dias a São Jorge na companhia de um velho companheiro americano. Escrevia ela então no Fresno Bee, e logo depois passou ao grande e referencial Los Angeles Times. Venceu o Pulitzer Prize por essas reportagens, e nunca mais a deixou sossegada até não conhecer em directo as ilhas distantes e misteriosas do nosso arquipélago. Poderá não me ter trazido nada de novo sobre a nossa vivência a meio mar, mas trouxe algo de mais precioso e relevante: o seu olhar exterior, o modo como nos viu, viveu e percebeu a nossa terra. Em poucos meses, Diana Marcum não foi apenas uma turista e escritora. Antes, tornou-se parte de nós. Vivendo na Serreta e arredores, nem sequer deixou de ir a lançamentos de livros, como foi o caso de Da Vida no Campo, de Joel Neto, em 2014, assim como tem conversas profundas com o grande artista terceirense Luís Gil Bettencourt sobre a natureza do amor, da arte e de outras questões humanas. Faz amizade com um bombeiro local, que lhe guia na ilha e lhe diz o que deve ver e absorver. Faz amizade com vizinhos, viaja pela ilha, tenta um sentido de pertença de quem havia chegado e faz destas ilhas como que uma segunda pátria. Raro, muito raro, nos nossos tempos. Não falo de estrangeiros entre nós há anos. Referi-mo a uma grande escritora que não deixa passar em branco os seus dias felizes numas ilhas até então desconhecidas para si, que no século XIX eram mero objecto de oportunismo, negócios de laranja ou responsabilidades diplomáticas. Esses construíram palácios, jardins, tomavam conta de cabos submarinos, e tinham escolas privilegiados para os seus filhos alemães, britânicos e americanos? Sim. Mas livros como este de puro afecto e descoberta, canto a canto, no nosso século, só este livro vem de surpresa e sem outros motivos para além da gentiliza das gentes, do cheiro e forma da natureza e da amizade pura.

A história começa de modo quase surrealista. Estava ela sentada na sua secretária de trabalho no Fresno Bee e aparece-lhe pela frente um dos fotógrafos do jornal, que lhe estende uma fotografia de um agricultor, que suponho ser da área de Tulare, a lavrar a terra nos anos da seca com uma espécie de arado de discos rolantes puxado por dois bois. Pergunta-lhe o dito fotógrafo: achas que há aqui uma história? Ela olhou e decidiu logo que sim. Foi à procura do dito cultivador da terra, e conseguiu encetar um diálogo com ele. A partir desse momento ficaram amigos ou pelo menos de confiança mútua. No seu trabalho de repórter ou escritora acaba por encetar uma incursão na nossa comunidade agrícola luso-americana, e começa a ser convidada para festas particulares em casa de um ou outro, ou para as festas comunitárias da nossa gente naqueles lados. Diana Carmum faz aqui uma confissão pouco habitual, diz que nem sabe da sua própria ancestralidade, pois os dois pais faleceram bem novos. A sua admiração pelas nossas comunidades toma tais proporções que ela decide ir conhecer as origens de tão forte gente, e vem aos Açores pela primeira vez. A sua paixão nunca mais a deixou, e cerca de sete anos depois, já a partir do ano 2014, resolve voltar, desta vez por um tempo prolongado. Compra um carro e viaja pela ilha toda, fazendo amizades, conversando com todos à sua volta, com o seu olhar sempre atento ao que nós por cá não vemos ou não queremos ver. Muitos da nossa primeira geração deveriam ter isto em mente – chegamos cá com ideias feitas, ou os referenciais da infância ou da adolescência nunca nos deixou ir além dessas nossas memórias. O visitante geralmente ocasional topa o que nunca topamos. Não percebemos o que os outros encontram pela primeira vez. Nem vizinhos, nem amigos, nem sequer lugares que antes nunca tinham sido vistos ou pensados. É isso mesmo que o estranho em terra estranha é capaz de olhar e ver, de nos dar outra interpretação ou de nos colocar universalmente entre todos os outros. Há quee diga quem emigra nunca, “sai” de cá. Isso é falso. Sai de cá, mas depois só se reencontra no regresso. O mistério da chamada “pertença” é muito mistificado, ou mitificado. Só os de fora nos completam. Seja na nossa maneira de ser, seja nos pormenorizados recantos das nossas origens. Há um complexo, repito, de que sofremos todos – sem os outros nunca saberemos quem somos. The Tenth Island é um misto de memórias e de ficção (a autora confessa que nunca consulta as suas notas e reinventa diálogos), tudo numa prosa escorreita, directa, como se de um relato jornalístico do chamado “human interest” se tratasse. Já ouvi algumas críticas a esta escrita, mas para mim é precisamente aonde reside a sua eloquência e prazer da leitura.

“Só estar aqui, tranquila, — escreve Diana Marcum num dado passo acerca da sua estadia na Ilha Terceira e recordando a sua Califórnia – fez-me dar conta que tinha passado a vida a manobrar entre as coisas-tal-como-elas-são, aceitando que a violência seria sempre uma possibilidade, nunca consciente de que existem outros lugares onde não nos sentimos assim. Por certo, o meu pai já me tinha dito isto: Os outros poderão ter outras maneiras de fazer as coisas no outro lado do rio”.

Tenho de referir aqui que Diana Marcum tem um grande amigo açoriano há muitos anos residente na Califórnia, e que no decurso das suas intenções e andanças atlânticas a foi guiando e sugerindo tanto a escolha de casas na ilha, como as idiossincrasias do seu povo. Elmano Costa é Professor de Educação na California State University, Stanislaus, na cidade de Turlock, uma das nossas mais conhecidas comunidades imigrantes naquele estado. De palavra em palavra, de frase em frase, a autora foi-se adaptando ao meio, desde Angra do Heroísmo à Praia da Vitória e a todas as freguesias que ficam pelo meio. Uma vez mais, poucos leitores encontrarão nestas páginas uma geografia desconhecida, e muito menos novidades culturais, sejam elas os já tradicionais festivais de verão ou as touradas-à-corda, que ela classifica como sendo algo de cómico e trágico. Uma leitura mais atenta trará o que de melhor nos oferece este livro, que tanto é literatura de viagens como um hino a uma outra terra só agora descoberta.

_____

Diana Marcum. The Tenth Island, New York, Little A. New York, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 7 de Agosto de 2018.