Paula Cabral na apresentação de ““borderCrossings: leituras transtânticas 4”

Antes de assumir a função de porta-voz de Carlos Bessa, queria felicitar o Prof. Vamberto pela 4.ª edição de BorderCrossings.

É efetivamente um trabalho de inestimável mérito na consagração da literatura com raiz açoriana, na divulgação de novos valores e no apoio que a sua palavra de referência representa para muitos desses novos escritores.

Eu sei o que representou para mim a sua aprovação. Sinto-me igualmente reconhecida por estar aqui a partilhar este momento consigo de forma tão particular.

Um amigo comum, que muito admiramos e estimamos, Onésimo Almeida, disse-nos uma vez que o Vamberto era a única pessoa que ele conhecia que tinha uma janela com vista para o mar tapada com livros!
Não é de espantar. O Prof. Vamberto vive o mundo através dos livros.

A literatura revela o mundo, é diálogo inato, é a vida a construir-se. O próprio afirma-o:
Para mim, a literatura foi sempre um ato profundamente identitário, através da qual vemos o outro, o que nos obriga à autorreflexão de quem somos e como somos”.
Escreve, pois, sobre os livros, janelas sobre o mundo, como quem discorre sobre paisagens de mar infinito. Abrindo caminhos de leitura, as suas abordagens são parapeitos onde nos debruçamos com a confiança da referência e da orientação num mundo em que, no dizer do autor,  “ o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países (…), é quase, felizmente, um acontecimento diário”.

Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo“, defende o autor em desacordo com outras correntes da crítica, pois interessa-lhe essencialmente essa marca humana do indivíduo integrado no todo. “Toda a literatura é memória” e “a crítica é também a memória de quem a escreve”, pelo que o mar, por pouco que se aviste da sua janela, representará sempre o horizonte da memória por detrás dos inúmeros escritos transatlânticos que ainda, decerto, nos irá oferecer. Obrigada, Professor Vamberto, pela generosidade de os partilhar connosco.

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Paula Cabral no lançamento do meu livro borderCrossibgs: leituras transatlânticas $ a 17 de Novembro de 2017, a 17 de Nvembro de 2017, na Livraria Solmar em Ponta Delgada.

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VAMBERTO FREITAS — borderCrossings: leituras transatlânticas 4

 

BORDERCROSSINGS: LEITURAS TRANSATLÂNTICAS 4

 

Carlos Bessa

 

Comecemos pelo óbvio, Vamberto Freitas é um caso raro. Porquê? Porque faz da literatura um métier. Porque escreve sobre os livros de que gosta e está atento às novidades. Porque o faz num tempo em que se publica muito, mas parece ler-se pouco, como se deduz pelas baixas tiragens e também pelo tipo de livros que se publica. Porque é um reconhecido especialista em literatura contemporânea de língua inglesa produzida por luso ou açor–descendentes na América do Norte e um leitor atento do que a açorianidade produz. Por muitas outras razões que têm tudo a ver com literatura, mas também com a sua generosa maneira de ser e de ler.

Com este intróito pretende-se, pois, desde logo destacar o que nos junta hoje aqui, a publicação e apresentação de mais um tomo, o quarto, de BorderCrossings: leituras transatlânticas. Tomo em que o autor colige mais um extenso conjunto de ensaios literários e culturais, a maior parte publicados na coluna homónima que mantém no Açoriano Oriental, mas também noutros jornais.

Ensaios onde constantemente se evidenciam as operações complexas que a literatura e a leitura solicitam de nós, leitores, aliando, às especificidades estéticas, problemáticas éticas, assim como um rol de interrogações e inquietações indissociáveis do tempo e do espaço que são os nossos. Um tempo e um espaço que, precise-se, não se circunscrevem ao imediato, pois a literatura há muito nos preparou para incluirmos nessas duas dimensões aspectos como a imaginação, a diferença, a alteridade, o outro. Ora é precisamente neste ponto que creio residir um dos momentos altos de BorderCrossings, de que as suas quatro secções, intituladas “Ilhas da Diáspora, Diáspora nas Ilhas”, “Do Nosso Tempo”, “Outros Imaginários Americanos” e “Coda” são bem a prova.

 

Vamberto Freitas é há muito um exegeta destas questões e podia fazer dele as palavras que Eduardo Lourenço disse em tempos: “o problema da cultura portuguesa não é o da censura que vem do exterior ou do poder político, mas da censura que nós próprios fazemos uns aos outros”. Pois, como muito bem sabem os leitores de Vamberto, ele vai para lá do ensimesmamento, abre fronteiras, amplifica o que é nosso e lê o agora através dos livros que comenta. E, ao fazê-lo, descobre afinidades ou sublinha diferenças, ri-se ou zanga-se, confronta-se com inquietações particulares ou com questões universais. Mostra-nos que escrever nos Açores ou a partir dos Açores é tão vasto como escrever a partir de qualquer outro lugar. Recorda-nos que o que é nosso é do mundo e o que é do mundo é nosso. Ler assim é estar receptivo ao novo, é reconhecer os meandros da sedução e os labirintos da manipulação, porque a literatura também se faz entre estes pólos. Ler, como Vamberto o faz, é receber e reconhecer vozes e ecos de outras vozes, e fazê-lo com método, com rigor, com paixão. Porque hoje, como ontem, continua a partilhar connosco os autores e as obras que descobre e continua incansável no árduo trabalho de divulgar autores, de criar leitores, de aumentar o raio de acção dos escritores açorianos.

Cada tomo de BorderCrossings é não só uma viagem pelo mundo da língua portuguesa, como também pelo universo anglo-saxónico. Uma viagem cujo diário de bordo nos relata, a par das inflexões do tempo, as vicissitudes do isolamento, o anseio de evasão, as aventuras e as anedotas do entrementes, o regresso às origens ou a casa. Cada tomo de BorderCrossings constitui-se como uma narrativa que tem como ponto de partida a literatura que, em português ou inglês, reflecte, representa e reinventa a nossa experiência de vida, mormente no arquipélago, mas também nos Estados Unidos da América, no Canadá, no Brasil e até noutras paragens ou latitudes.

Vamberto é, pois, um autor ecléctico, quer no que toca a géneros, quer quanto a autores, gerações ou línguas. Um autor que pratica aquilo que poderemos designar como um verdadeiro serviço público. Que semanalmente reflecte sobre um livro, para prazer de tantos. E que o faça nos dias que correm, em que os livros já não têm nem o espaço público nem o lugar remuneratório de outrora, é algo que a todos nos enche de júbilo. Porque se Vamberto tem espaço para muitos caracteres, num tempo em que os livros são

corridos nos meios de comunicação a notas de rodapé ou a algo que se assemelha a twitters, isso acontece pelo valor que lhe é reconhecido pelos seus pares e pelos seus leitores.

E permitam-me que faça aqui um parênteses para recordar que, quando os meios de comunicação reduziram o espaço da literatura e do ensaio, muitos foram os que se regozijaram (silenciosa ou alarvemente) com o sucedido. Mas quando começar a saber-se que as elites políticas e financeiras de todo o mundo estão a ler os clássicos, estão a ler os grandes autores e os ensaístas, os filósofos e os historiadores, os poetas gregos e latinos, não se espantem da reviravolta. Veremos, então, os que hoje se auto-comprazem com a mediocridade a fazer-se esquecidos e a aparecer na linha da frente dos que acham que é necessário ler-se mais e ler-se melhor. Então poderemos dizer ainda mais alto, nós temos o Vamberto. Com ele descobrimos obras e autores. Com ele percebemos o quanto a literatura fornece chaves para a condição humana. Com ele sabemos que “quem não conhece é que é ignorante”. É preciso que alguém nos diga coisas assim tão simples para percebermos que nos livros, como em tudo o mais, há regras básicas e que se o negócio se faz com números, também se faz com minorias, porque sem minorias resta a banalidade. As minorias revivificam, acrescentam, abrem horizontes. E cada comunidade de leitores, por ínfima que seja, faz mais pela vida do que hordas de ignorantes. Abençoado Vamberto que partilha com várias comunidades de leitores as suas impressões de leitura, as suas análises atentas de obras. Somos vários os que colecionamos os seus textos e lhe agradecemos a oportunidade de os ter reunido em livro. Podemos guardar os recortes do Açoriano Oriental mas não é a mesma coisa. O livro facilita a consulta e a releitura.

Nele, no BorderCrossings, podemos saber quem são os autores luso-descendentes, quais as obras de temática açor-americana, que autores nacionais ou regionais publicaram obras de relevo. E ficamos também a par das filias do autor. Um autor que pode começar um texto assim: “Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50.” Ou seja, um leitor que é capaz de estar tão atento ao novo da literatura açoriana, como àqueles autores que ganharam já estatuto de

 

canónicos. E são muitos. Enumerá-los agora aqui seria retirar o prazer dos que já estão com o livro nas mãos. Refira-se apenas que cada autor e cada livro recenseados são analisados sem modelos prévios e sem pressupostos académicos, como se Vamberto reconhecesse à partida que cada livro é único na sua diferença, pelo que cada leitura é também única e diferente. Não há cardápio. Há sim um prazer contínuo, o de acompanhar o livro nos seus meandros e o de situar os autores nos seus lugares. Um prazer com algo anárquico, dionisíaco, para usar uma expressão grata a um poeta madeirense que faleceu há dois anos. O prazer de uma leitura crítica ou que reflecte a partir de questões levantadas por cada texto específico, modo de Vamberto evocar os seus mestres neste tipo de leitura, sejam Edmund Wilson, Michael Holland, William Koon ou até Harold Bloom.

Não menos relevante é que Vamberto Freitas, tal como Plínio, o Velho (ou Caio Plínio Cecílio Segundo), cumpre essa máxima que diz nulla dies sine linea, ou seja, nem um dia sem ler ou escrever pelo menos uma linha. De facto, para os grandes leitores e para os grandes escritores, a escrita é algo afim da vida. É a grande batalha que se trava contra o mundo e a sua natureza finita.

Vamberto, como justamente se assinala no fim deste BorderCrossings, foi distinguido pelo Congresso dos Estados Unidos da América e pelo Tulare County Board of Supervisors pelo seu trabalho em prol da literatura e da divulgação de autores de ambos os continentes, americano e europeu. Está, portanto, de parabéns. Duplamente de parabéns. Pelos prémios e por mais este interessante volume de leituras.

E eu queria deixar aqui o meu vivo agradecimento por ter feito questão que eu partilhasse com ele e com todos os presentes este momento, a alegria de estar perante uma vasta e sábia comunidade de leitores, a quem endereço um bem-haja.

 

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas 4, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Este texto foi lido na apresentação do meu novo livro “borderCrossings: leituras transatlântica 4”, na Livraria SolMar no dia 17 de Novembro de 2017.

 

Dos nossos tempos e das nossas vidas

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do prefácio ao presente

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do meu prefácio ao presente livro.

Da crónica como poesia, da poesia como memória

Por causa de um texto que me foi pedido sobre Ponta Delgada, dou passos amargos no chão da cidade. Como se da alma caíssem lágrimas feridas e o caminho fosse, apenas, o recorte de uma lembrança.

Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas

Vamberto Freitas

Primeira afirmação: escrevo sobre parte da obra de Emanuel Jorge Botelho, agora a 2ª edição do em dois volumes do que ele decide chamar de “crónicas”, desde os anos 80, poesia e escrita-outra. Se digo “escrita-outra” é porque a classificação de formas e géneros que não consigo distinguir. Os versos da sua dita prosa criativa, formalmente ambígua (no melhor sentido da palavra), são, uma vez mais, quase inclassificáveis, como suponho ser toda a grande literatura moderna, ou mesmo de todos os tempos em que a palavra foi grafada de vários modos. Emanuel Jorge Botelho não é um escritor qualquer, é dos melhores manipuladores da nossa língua em qualquer parte a que já nos habituamos a chamar de lusofonia. Que o faz a partir de uma pequena ilha açoriana, tanto melhor, só demonstra que a grande literatura não tem geografia nem circunstâncias especiais. Sai do artista a palavra significante em qualquer parte, com ou sem divulgação especial, com ou sem a palavra supostamente decisiva dos “críticos” ou “ensaístas, institucionais ou independentes. Raramente a grande escrita é reconhecida no seu próprio tempo, e muito menos ainda no seu próprio lugar ou país. James Joyce sabia, suponho, tal como William Faulkner o sabia, entre tantos outros e em toda a parte. Faz parte da ironia da própria arte, faz parte da nossa desatenção e tendência para as modas do momento ou, ainda pior, para atenção que prestamos às máquinas publicitárias, especialmente da pós-modernidade, nas grandes cidades onde se localizam as editoras e periódicos de voz supostamente de autoridade inquestionável. As ironias que marcam a obra do micaelense Emanuel Jorge Botelho são muitas, e todas a seu favor. Dos mais “açorianos” de todos os escritores açorianos é ele que nunca escreve certas palavras que delimitam a sua geografia e, no entanto, é ele que mais intensamente a vive, tornando a ilha o mundo inteiro, e o mundo inteiro a sua ilha. Rua a rua, prédio a prédio, personagem a personagem, vida real e a vida imaginada, passado nunca esquecido, perda a perda, quer de entes queridos amigos chegados ou mentores escolares, a sua poesia e “prosa” é uma de memória indelével e de alma aberta, que nenhum leitor poderá deixar de se rever, de se repensar, de se reinventar mesmo, nos seus recantos perdidos e reencontrados sob outras formas e modos de vida. Dito de outra maneira, o mais açoriano de todos os escritores açorianos poderá só ter Vitorino Nemésio como figura comparável, na poesia ou no acto artisticamente universal. Só com uma grande diferença: Nemésio vivia a saudade ao longe e um tanto sentimental. Emanuel Jorge Botelho vive a saudade no meio da sua cidade de nascença e vivência quotidiana. Desde sempre, e até hoje. De Nemésio temos o cheiro a mero sentimentalismo à distância. A do autor aqui em foco, Emanuel Jorge Botelho, vive a sua ilha diariamente nas ruas que foram suas, e já não são. A “verdade” da palavra faz toda a diferença. A arte literária não tem nada de ser “honesta”. A verdade da palavra não tem nada de corresponder ao momento da sua criação. Só tem de ser autêntica, a “autenticidade” de que nos falava o nova-iorquino Lionel Trilling. É o que temos nesta incomparável obra do autor de 30 Crónicas (em dois volumes), e de inúmeros livros de poesia pura.

Pela enésima vez peço ajuda a Edmund Wilson numa tentativa de entrar dentro desta fabulosa escrita de Emanuel Jorge Botelho. Wilson acreditava (erradamente, como o tempo veio a comprovar) que a prosa modernista acabaria por absorver a poesia até então só entendida em forma de versos. Só que não errou na recorrência mais diversa, entre os melhores autores do seu e do nosso tempo, à poetização da palavra em prosa. Emanuel poderá chamar o que quiser, em termos de género, à literatura que produz desde há muito, mas estas 30 Crónicas são algo muito mais do que isso. Foram publicadas originalmente como tal no extinto quinzenário Terra Nostra, e já então por esse meio eu lia-o com outro espírito e interpretação. São como que poemas em verso livre, todos eles com um determinado fio condutor, e um tom elegíaco a gente amada desaparecida, aos lugares da sua infância, ao sentido mais profundo de pertença a uma pequena cidade açoriana que virava um continente imenso de vida e afazeres, e todos os continentes se tornavam, parafraseando um filósofo de cá, a “casa do seu ser”. Nada e ninguém lhe escapava na felicidade ou na tristeza do momento ou do que ficou para sempre no seu sangue, no seu modo de ser e estar, quer no passado quer nos dias presentes. São as “crónicas” das suas perdas, de um mundo sem retorno, mas que nele vive o seu olhar sobre as coisas e as gentes. Poderá falar de uma vizinha costureira, simplesmente, mas torna-a uma personagem inesquecível, busca e encontra a sua humanidade, com a qual o leitor se identifica sem complexos nem sentimentos absurdos do riso sem razão ou da lágrima sentimental. Ler a descrição de uma rua que já nada tem do seu tempo de infância e juventude, é como passearmo-nos numa cidade que nunca conhecemos, mas que se torna parte de nós. Essa Ponta Delgada de outrora não era apenas uma pátria que nos dá vida – é todo um universo que desperta a nossa imaginação e nos dá um outro sentido de saudade, em que o remorso das perdas convive com a alegria dos que nos rodeavam e protegiam, faziam de nós algo mais do que seres isolados, irrequietos, alienados, marcados por ódios e invejas provindas de nunca vermos o outro como nosso par ou vizinho e que comunga da nossa sorte na vida. A palavra não dita tem tanto poder significante como a que ele escreve, inserida numa prosa poética tão curta como vasta. Numa entrevista que lhe fiz nos idos de 1993, dizia-me algo de semelhante, e a que recorro agora.

“O intimismo é uma conquista solitária ou, pelo contrário, uma síntese sitiada, da solidariedade?

Quando pouso (ouso pousar…) os punhos no papel, sei que os tenho fechados, e que estou sozinho.

Mas desconheço por completo, se estarei só”.

Esse “intimismo” de que nos fala está sempre guardado nos seres e nos lugares que lhe deram vida, e sobretudo significado de vida, nos seus dias perdidos. Mantém uma memória viva das suas irremediáveis perdas, mas que continuam presentes no seu “silêncio”. Algumas das páginas mais contundentes não só se dirigem à família que o rodeia no seu quotidiano, mulher, filhos e até os bichos que se passeiam nos quartos da sua casa, como muito especialmente à recordação do olhar do seu falecido pai. Recria nestas páginas o seu companheirismo em cenas inesquecíveis. Ir à praia com ele diariamente pelas seis e pouco da tarde, e sentar-se na areia a vê-lo dar os mergulhos da saúde, e mais tarde lembrar que a sua carreira exemplar de carteiro seria menosprezada por uma comissão de gente que entendeu reduzir-lhe a quantia da reforma a que tinha direito pela sua dedicação e profissionalismo. Di-lo, como sempre, em pouquíssimas palavras, mas abre-nos o retrato de todo um país doente e injusto desde sempre. A primeira parte da sua dedicatória neste segundo volume das “crónicas” não deixa dúvidas a ninguém: “em memória de José Maria Botelho, o meu pai”. Para um poeta e prosador como Emanuel Jorge Botelho, que tem o mundo inteiro na mente e na alma, não deixa de ser irónico, ou então o mais honesto de todos os nossos escritores. Somos os nossos mais chegados antepassados, e a nossa terra o chão de todos os afectos e memórias, a terra que nos define e nos proporciona a nossa mais profunda identidade. Nenhum escritor será do mundo antes de ser da sua casa e do seu “território do coração”, como diria outro escritor numa outra língua.

Por fim, diga-se que os dois volumes sob o título de 30 Crónicas são ilustrados pelo não menos genial Urbano, cuja biografia e vida artística vêm anotadas nas últimas páginas. O melro preto pousado ou em voo está em perfeita sintonia com esta escrita da terra açoriana e do espaço sem fim com símbolos predominantes. Ler Emanuel Jorge Botelho e olhar a beleza desta edição é um reencontro com nós próprios, com tudo o que nos traz memória e vida vivida. É raro na nossa literatura encontrar tanta beleza e verdade.

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Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas (com ilustrações de Urbano), Ponta Delgada, Letras Lavadas/Artes e Letras, 2017.

Crime e castigo dos inocentes durante a ditadura salazarista

O que Carlos Ildefonso Tomé não sabia era que esse mesmo exemplar do Diário de Lisboa iria ter importância decisiva no seu futuro.

Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por dizer que este é o primeiro livro de ficção de Carlos Tomé que leio, se bem que lia atentamente aqui há uns bons anos as suas crónicas na revista dominical do Açoriano Oriental, e já cultivava então a minha admiração pela sua prosa limpa e curta sem nunca defraudar os seus leitores quanto à relevância dos seus temas em foco. Autor sempre atento à História e ao seu próprio envolvimento na vida dos nossos tempos, este seu novo romance Um Perigoso Leitor De Jornais foi uma das melhores surpresas da literatura açoriana de temos recentes. Se digo literatura açoriana claro que também, como sempre, quero dizer literatura portuguesa, até porque o seu tema é a injustiça, arbitrariedade e o sofrimento tanto dos militantes como dos inocentes durante os piores anos do regime salazarista, nestas páginas todo ele situado na cidade de Ponta Delgada, e depois no Castelo de São Baptista em Angra do Heroísmo, em “celas” tão demoníacas como cruéis, denominadas de Poterna. O tempo ficcional desta narrativa política e ideológica vai de 1937 a 1940, mas quero realçar que se trata de uma obra literária que ultrapassa essas questões no retrato que nos devolve da nossa própria humanidade e desumanidade, particularmente na criação de alguns personagens inesquecíveis. Aliás, são poucos os escritores entre nós que conseguem fugir das ideias e focar-se no interiorismo dos seus seres inventados ou reinventados, como é definitivamente o caso de Um Perigoso Leitor De Jornais. A última nota deste romance, curta e escrita em itálico, não deixará dúvidas a ninguém. Trata-se de uma espécie de biografia romanceada, sem o sentimentalismo ou pregação de um neorrealismo que dominou a nossa literatura há umas poucas décadas. Na verdade, a trama política dá lugar aqui a descrições que por vezes parecem quadros das vidas naquela época, e de todos os estratos sociais, com o seu protagonista micaelense como excepção predominante, que vai permanecer como um vivo símbolo da pobreza, da seriedade, da aceitação do seu lugar na comunidade, mas sem que nada dessa realidade o proteja da perseguição cega de uma ditadura que actuava permanentemente na desconfiança e paranóia. É o perfeito contraponto – particularmente quando ainda alguns tentam afirmar a benevolência do regime em relação a outros do mesmo continente europeu e em vários países que nos levariam ao holocausto e a um inferno que queimou milhões de seres humanos.

Que houve aturada investigação histórica para este romance, não tenho qualquer dúvida, por melhor que seja o conhecimento do autor do passado da sua família e o seu instinto de jornalista-escritor. Do mesmo modo, as suas conotações ideológicas estão claríssimas para qualquer leitor, a defesa da liberdade está implícita no tratamento dos que o regime entendia como inimigos, ou meros colaboradores desses dissidentes, todos os que não alinhavam activamente com o chamado Estado Novo. Dito isto, tenho agora de afirmar que poucos escritores entre nós têm a capacidade de construir personagens e protagonistas tão inesquecíveis, pela capacidade do autor em fazer o que a crítica americana diz ser bringing out character, ou seja, deixar que entremos no seu interiorismo emocional ou em qualquer outro estado de ser e estar num dado momento do seu percurso de vida. Carlos Ildefonso Tomé é um humilde carteiro na cidade de Ponta Delgada, com nove filhos e uma esposa para sustentar dia-a-dia, criando juntamente com eles nos seus serões da noite açoriana daquele tempo pequenos soldados de chumbo para certos colecionadores. É leitor de jornais locais, e a dada altura topa que de quando em quando entrega o Diário de Lisboa, que chega sempre num nome que não corresponde ao habitante de certo endereço. Começa a questionar quem recebe o jornal, que sabe muito bem cujo verdadeiro nome difere do que vem na badana colocada em Lisboa, e ameaça deixar de entregar o jornal por pensar que se trata de uma ilegalidade que lhe pode trazer problemas com os seus superiores. Por outras palavras, Carlos Ildefonso Tomé não se envolve ou sequer discute política, é um cidadão que convive como pode e sabe numa sociedade amordaçada. Só que o habitante de nome falso não pode nem quer deixar de receber um outro jornal que vem escondido dentro do periódico permitido pelo governo de António Oliveira Salazar e a sua primeira polícia política, PVDE (antecedente da não menos tenebrosa PIDE), a que tinha olhos e ouvidos em todos os recantos do país, não fora o tempo da mais feroz guerra civil ali no outro lado da fronteira, e toda a Península Ibérica e as suas possessões ameaçadas pelo mais feroz dos exércitos sob a aliança do Eixo.

Dentro do jornal que o carteiro entrega vem escondido o Avante!, voz oficial, como todos sabemos, do Partido Comunista Português, e o verdadeiro nome do seu destinatário aqui em Ponta Delgada chama-se António Faria, jovem, discreto, e sem qualquer mandato para “recrutar” novos militantes. Tem de o confessar a Carlos Ildefonso Tomé, que se vê agora numa situação muito ambígua pelo respeito que parece cultivar pelo cidadão em causa. Em sucessivas conversas, o carteiro pede e aceita ler alguns números antigos da publicação comunista, o que lhe traz uma outra e radicalmente diferente versão da realidade, folhas que o expõem a uma retórica até então completamente desconhecida pela sua radicalidade oposicionista interna e pelos seus relatos de acontecimentos históricos na batalha entre espanhóis na defesa da república, que incluía comunistas pró-soviéticos, contra os fascistas liderados pelo General Francisco Franco. Após uma delação local, são inevitavelmente todos presos, uns enviados para Angra do Heroísmo, outros para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde, construído, relembra-nos aqui o narrador, segundo os que já existiam nos países esmagados pelo regime de Berlim. O dilema do carteiro Carlos Ildefonso Tomé fica redobrado, pois também desde há muito que recebe o Diário de Notícias, jornal histórico publicado em New Bedford e enviado por uma irmã sua lá residente. A prosa de Carlos Tomé é de uma clareza e linearidade exemplares, toda ela dividida em pequenos capítulos, que mais parecem contos autónomos mas interligados e levando o leitor à totalidade da história de ficção biográfica, deixando sempre que símbolos e metáforas despertem as mais variadas interpretações. Nem sequer alguns dos colaboradores do regime acreditavam na sua missão. A “vida em ilha”, como um dia me diria um alto dirigente político açoriano, requeria certo palavreado, e, quando necessário, boca calada perante a brutalidade oficializada, tal como em Peniche ou em Caxias, por exemplo.

“O polícia – diz a o narrador no momento da má sorte do carteiro – continuou a falar, sempre no mesmo tom de quem quase pede desculpa. Carlos é que deixou de o ouvir, atingindo a brutalidade pela certeza de que lhe estava a acontecer irremediável. Sentia-se desfalecer, as pernas mal aguentando o peso do corpo, e a cabeça parecia-lhe estar deslocada, pairando no meio da espécie de neblina que lhe invadira o campo de visão. Sabia estar na Rua do Lameiro, já terminando a distribuição daquele dia, e ainda lhe parecia ouvir o polícia com aquele ‘Boa tarde, senhor Tomé’ tão constrangido quanto anacrónico”.

Carlos Tomé é um dos escritores menos falados entre nós, por razões que nem eu sei explicar, e muito menos justificar. Sei que esta é a sua terceira obra de ficção, e uma delas foi mesmo estudada periodicamente na Universidade de Brown, nomeadamente o seu romance de “guerra” Morreremos Amanhã (2007). Tem ainda A Noite dos Prodígios e outras histórias (2002). Para além de jornalista aposentado e reconhecido por várias entidades, a sua vida profissional foi uma das mais distintas entre nós, tendo recebido a honra de Cidadão Honorário de Porto Alegre, Brasil, e a Medalha da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Muito do seu trabalho tem sido premiado aqui e ao longe. Falta-nos agora, falta-me a mim, pelo menos, ler o resto da sua obra, e sobretudo dar-lhe o lugar merecido ao lado dos nossos melhores escritores açorianos.

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Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2017.

 

 

 

De mim e do meu trabalho – II

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

Vamberto Freitas

 

 

Aqui está o borderCrossings: leituras transatlânticas IV. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é a condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão também as literaturas açoriana e luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegámos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e os seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas ou do grande continente a oeste, que é a sua primeira pátria. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana,e a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estarão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma mais alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como nos casos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que já recordei aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderem a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer. Por outro lado, a literatura tem de ser algo mais do que “forma” ou mero acto “estético”.

Para mim não há beleza sem significado, não há beleza sem o olhar humano, sem a perspectiva de quem recebe palavras, imagens e sons. Creio que era Jorge de Sena quem dizia que uma foto espacial, sem qualquer indício da presença do humano, não lhe interessava minimamente. Poderá ser um modo discutível de colocar a questão, mas a verdade é que toda a nossa exploração do Universo parece ter esse o primeiro e último objectivo – encontrar sinais de vida, de qualquer vida, nessa distância galáctica. A literatura é esse registo de como vivemos e sobrevivemos, sobretudo em comunidade, parte de um todo simultaneamente como sujeitos activos e decisivos e como indivíduos cujas obrigações incluem decididamente a “obediência” a regras de convivência e justiça entre todos os que connosco partilham os nossos espaços, cada vez mais, como já referi, sem fronteiras de qualquer espécie. A crítica é também a memória de quem a escreve, o registo de como vemos e vivemos o nosso tempo transfigurado na literatura mais séria, numa tradução mais ou menos livre da epígrafe que aqui vai tirada de um texto de Harold Bloom. Toda a literatura é memória.

É isso a essência do que tento fazer nestas páginas semanalmente. A vida é curta e preenchida de mais para que eu gaste um segundo com livros sem qualidade estética ou relevância temática, ou simplesmente livros que não me dizem seja o que for adentro dos meus interesses ou preocupações sócio-culturais e políticas, o que, para mim, é o todo, ou o quase todo, de uma sociedade. Entretenha-se quem quiser com jogos de palavras vazias, com acrobacias formais tão ao gosto de certas teorias da literatura – e sabemos aonde nos levaram estas, dentro e fora dos seus contextos institucionais.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas IV, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Parte deste texto serviu de prefácio ao meu volume BorderCrossings: leituras transatlânticas III, publicado em Março de 2016, e agora, em forma mais longa, a este IV volume do livro.

 

 

De Álamo Oliveira e da grande literatura

De caminho foi pensando na inutilidade do seu martírio intelectual. Afinal, havia o Camões que era o mestre da Língua, o Vicente dos autos e das farsas, o Eça da imoralidade romanesca, o Pessoa da arca mais milagrosa que a do ilusionista, o Nemésio da açorianidade.

Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite

 

Vamberto Freitas

Acaba se ser publicada a 2ª edição do romance Pátio D’Alfândega meia noite de Álamo Oliveira, pela Companhia das Ilhas, sobre a direcção de Carlos Alberto Machado, romance que tinha sido publicado em Lisboa pela editora Vega em 1992. A prosa deste autor açoriano oferece-nos grande brilhantismo ficcional e um certo historicismo, ora revisitado ora reinventado, de todo apto a refazer e a redizer “realidades” velhas de séculos. Desde há algum tempo está de volta em Portugal o romance dito de ideias, se é que alguma vez ele possa desaparecer. Toda a literatura, em graus variáveis, já se sabe, é esse interminável jogo entre facto e ficção. É também na habilidade artística de cada escritor que reside a diferença entre a escrita que perdura no tempo e a que não deveria nunca sequer ser lida – a diferença, nada menos, entre o saber mitificar a memória histórica e colectiva de um povo, criando o próprio escritor novos mitos e iniciando miticidades, assim como o mero estilismo na construção de frases antes ocas, frias e naturalmente vazias. Cada leitor terá a sua lista de livros a que nunca mais voltará, sabendo muito bem porquê. Este, estou em crer, não será um deles. Existe algo mais em Pátio D’Alfândega meia noite, e que, em ficções anteriores deste mesmo autor, havia sido só sugerido – a metaficção como tema inteiramente desenvolvido, e aqui servindo-se a várias vozes para se refazer ou, uma vez mais, redizer o passado, longínquo ou mais recente. Jericó é Angra do Heroísmo, todos saberão. No entanto, tudo o resto, contado e recontado pelos protagonistas Patachão e o Poeta Porreirinho, este que deixou um romance inédito e o outro que tenta interpretá-lo e editá-lo após a morte do seu amigo, é uma festa de história revisionista, de sismos e de ciúmes, de aristocratas e de plebeus, de xenofobia e de universalismo, de fantoches e fantasmas, de céus, de infernos e do pátio D’Alfândega – o lugar onde uma cidade e uma certa população se passeava e se dava conta, séculos fora, que no além existia um mundo e (insinua agora o escritor) a ilha que era e é apenas outro canto desse universo total.

Um livro saído de qualquer escritor com obra feita deve ser – devia ser sempre – um marco nesse original percurso artístico, e este, por certo, vai gozar desse estatuto. Todo este romance está estruturado à volta de um crime e da reconstrução de Jericó após um violento sismo. O romance dentro deste romance, o que foi deixado pelo Poeta Porreirinho, é aparentemente uma tentativa de se recontar como toda uma cidade, na fúria que é a sobrevivência de um povo ante violentos avisos da natureza atlântica e a genética ganância de quem em tudo manda e desmanda, se auto-convence da sua virtude e percebe a sua continuidade histórica. Das páginas legadas por esse autor desaparecido e das que o seu amigo vem tentando pôr em ordem para uma publicação, que nunca chega a acontecer, a realidade-realidade é apreendida só em pedaços desconexos e a-históricos enquanto suas excelências sabem muito bem que a realidade ficcional é a mais completa – e logo perigosa. Nestes múltiplos diálogos está a dissecação das tramas, obsessões e memória colectiva da dita comunidade. Um fantasma estrangeiro (um holandês que àqueles portos arribou como náufrago e que se apaixonaria pela cidade e por uma das suas freiras) desce à terra para com o Poeta Porreirinho ir comparando notas com o passado e presente. O resto, repita-se, é uma festa de humor, sarcasmo e das mais lapidares frases.

“Ele vi-a – diz o narrador acerca de Patachão, o protagonista que tenta desvendar o romance do Poeta Porreirinho, e neste caso específico, a mãe deste, que também figurava na prosa póstuma do seu amigo – como que emergindo em todos os tempos, heroína anti-convencional e resplandecente, desdenhando dos castelhanos nos fins dos séculos XVI, debochando, no século seguinte, com um pirata na rua Baixinha, comendo favas de molho d’unha, rifando numa tasca de Santo Espírito a sorte numa noite bem passada, enquanto um liberal se cura de sífilis na Misericórdia do hospital. Ela veio desses tempos esquisitos e mal sabidos vencendo todas as batalhas da vida, até que desaguou no banco verde do Pátio D’Alfândega, velha, gorda e suja, dormitando pachorrenta ao som da música do seu transistor. Sujidade, gordura e velhice é tudo quanto basta para ser pitoresco. Como glória última, lutou pela liberdade com valentia aristocrática, dando ao diabo a virgindade com um major sidonista. Tão afrontoso desfecho não ficaria impune numa cidade de igrejas e de casas senhoriais.”

A rebeldia feminina açoriana poderá acontecer – e acontece – de vários modos, mas tem sido na ficção que esse libertador acto se vem enquadrando em toda a história social muito mais viva do que geralmente temos consciência – desde Vitorino Nemésio e Mada lena Férin a Álamo Oliveira. Aliás, este vivo diálogo com a história, que é essencialmente Pátio D’Alfândega meia noite, vai ainda além disso e constantemente alude a outras figuras culturais nossas, a partir de Gaspar Frutuoso do século XVI às gerações dos nossos tempos. Romance também alegórico, interliga dias, semanas, meses, anos e séculos para nos brindar com o “facto” de que tudo e todos permanecem o mesmo, a história de Jericó simultaneamente uma de pasmaceira e vivacidade, de ladrões e de santos. Por outras palavras, a humanidade em toda a sua simplicidade e complexidade, vista por mais este contributo a um riquíssimo corpo literário português que se chama literatura açoriana.

Desta circularidade e desejo de fuga, características tão marcantes da escrita açoriana, o espírito do lugar é como que outra viva voz deste romance, tornando-o (o próprio lugar) protagonista, terra, mar e céu determinando comportamentos e pensamentos, também. Açorianidade e, ao mesmo tempo, historicismo e mítica lusitana. O homem das ilhas, enfim, ocupando inteiramente o seu espaço num universo que ele sabe estar longe, mas que é seu.

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Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Este texto foi retirado e reescrito de um ensaio meu publicado em 1992, e que agora é o prefácio desta edição do romance de Álamo Oliveira.

De uma América amedrontada e perigosa

 O grande ator Buzz Windrip falou apaixonadamente, sem nunca soar grotesco ou feroz. Não tinha gestos extravagantes; limitava-se, como Gene Debs muito tempo, a esticar um dedo indicador ossudo que parecia espetar-se em cada um dos ouvintes e cativar os seus corações.

Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui

Vamberto Freitas

Em 1935, a América sob a mais violenta depressão económica e social da sua história, prepara-se para reeleger Franklin D. Roosevelt, o que não acontece nesta ficção de It Can’t Happen Here/Isso não pode acontecer aqui, de Sinclair Lewis, que acaba de ser traduzido no nosso país. Lewis receberia Prémio Nobel em 1930 da literatura daquele país. Romance, este aqui em foco, esquecido do autor de Main Street e Babbitt? Nem tanto. De quando em quando, reproduzem-se publicamente aqui e ali um ou outro dito ou passo das suas páginas, numa tentativa de aviso, ou simplesmente para não se deixar esquecer a “outra” história, a que está fora dos compêndios escolares e universitários, escritos por académicos bem-pensantes ou aprisionados pela mítica da história nacional. Seja como for, a ideia deve ficar bem vincada aqui: até mesmo numa das mais bem-sucedidas e antigas democracias a preocupação com o impulso totalitário nunca está ausente, a conquista da liberdade deverá ser uma luta permanente. Os escritores, como “cronistas” das suas sociedades, têm recorrido desde sempre à ficção, à “mentira”, por assim dizer, para chegar às mais prováveis e profundas verdades. É neste contexto que deveremos ler ou reler Isso não pode acontecer aqui, e é sobretudo tendo em conta o contexto político destes dias por todos “inesperados” na América que o deveremos também ler como reflexão que vá além do ruído constante dos telejornais ou conversas afins nas televisões, que dominam o debate público e toda a propaganda dos que giram em volta do chamado arco do Poder naquela e em muitos outros países na Europa e no além-fronteiras. Está-se na América deste romance, agora tornado profético – como se estava na Europa nos anos entre as duas Grandes Guerras – em que os génios da economia e dos mercados mergulharam a sua sociedade na escuridão quase absoluta, levando milhões à miséria e ao desespero. Sinclair Lewis olhava em sua volta naquela época, e já escutava a retórica tanto dos opressores como dos oprimidos, estes últimos esfomeados num chão sem pão. Isso não pode acontecer aqui tem como protagonista Doremus Jessup, o proprietário e director de um pequeno jornal, Daily Informer, da também pequena vila Fort Beulah, no estado de Vermont. Neste lado do Atlântico já se vive e morre sob Hitler e Mussolini, e certas forças norte-americanas não desdenham da aparente “estabilidade”, do crescente “emprego”, da repressão ante os grupos historicamente suspeitos, aqui os judeus de então assim como todas as outras minorias étnicas e sociais, tal como os negros e outros de cor no outro do Atlântico.

Por detrás do novo “estado corporativo” americano, estão os banqueiros e industriais, que as forças extremistas, principalmente o próprio partido democrático de Roosevelt, dizem querer controlar e até castigar, mas as suas palavras encobrem o outro lado da mentira – serão eles os beneficiários da nova ordem, pois são eles que controlam o dinheiro nos “mercados”, e serão eles a distribui-lo entre os que vão, nas urnas, apoderar-se do Estado. Hitler havia sido eleito, e chegado ao poder com a cumplicidade da burguesia alemã. Na América, um Berzelius Windrip consegue ser eleito, e depressa põe em prática o que havia escondido nas palavras do seu livro intitulado Zero Hour, em que o seu “patriotismo” vinha do mesmo modo adornado pelas declarações avulsas, sem nexo, sem pensamento desenvolvido e ponderado, beatas e patrióticas tanto da elite tradicional como das massas mais ou menos indigentes e caídas. O palco está montado para que, através de um congresso submisso e de todo controlado, a ditadura corporativista seja fundada, por entre os vivas generalizados de uma população massacrada e de um poder financeiro-industrial sedento do seu lugar sem leis nem regras, tudo em nome da “prosperidade” e “liberdade”. Emprego em subida, crime limpado nas ruas pelas milícias denominadas Minute Men, uma polícia tipo Gestapo, aqui de nome Corpos numa abreviação de Estado Corporativista, encarrega-se da repressão e assassínio político e dos campos de concentração e de trabalhos forçados. O proposto muro separando os EUA e o México agora proposto representa o quê? O prefaciador de uma edição americana recente de Isso não pode acontecer aqui, Michael Meyer, afirma que o romance teve impacto imediato no seu tempo Não é de crer que tenha sido entre a maioria dos leitores mais eruditos ou bem informados, mas sim tão-só entre os que percebiam que a retórica oficial da intolerância saída de Washington tornava a situação no seu país explosiva e politicamente perigosa. Depois de um certo alheamento ideológico dos escritores modernistas dos fulgurantes anos 20 (o seu cansaço vinha também de muitos deles terem participado e sobrevivido magoados à Primeira Grande Guerra), apareciam agora alguns que já não podiam ignorar o que um sistema sem regulação ou qualquer moralidade provocava e criava.

A luta contra o jornalista Doremus Jessup e da resistência à grande Imprensa séria denunciam com igual fervor os comunistas e os fascistas, situam-se na tradição do liberalismo de esquerda americano, acreditando firmemente num individualismo e cidadania cívico-humanista, uma sociedade em que todos seriam iguais perante a lei, e não terá sido por mero capricho literário que Sinclair Lewis dá voz no seu romance a algumas mulheres que contrariavam então a acomodação das donas de casa, crentes e praticantes de uma religiosidade puritana, como dá voz a outros militantes e cidadãos então sob ataque e historicamente excluídos da vida pública. O romance termina sem resolução a votos para que os cidadãos seus apoiantes “fossem prósperos, nos bolsos e na mente”, e que só era brutal com certas situações demasiado parecidas com a presente situação, repita-se, vivida na América , mas a liderança da resistência parte para o Canadá, numa alusão deliberada à história de refúgio que aquele país tem oferecido aos seus vizinhos a sul (tal como hoje), desde a Revolução de Setecentos aos escravos libertados antes e durante a Guerra da Secessão e para lá mandados em comboios clandestinos patrocinados pelos Abolicionistas. Algumas décadas depois, o mesmo país receberia os resistentes exilados da guerra do Vietname.

“Dia após dia, exigia cada vez mais ‘sins’ de todos à sua volta, e sempre mais convincentes. Como podia prosseguir com a sua difícil missão se nunca o encorajavam, interrogava-se. Suspeitava que qualquer pessoa que não alimentasse o seu ego (desde Sarason ao estafeta interno) conspirava contra ele. Aumentava continuamente o número de guarda-costas e, com igual frequência, desconfiava dos seus guardas atuais e dispensava-os. Certa vez chegou mesmo a disparar sobre dois deles. Portanto, em todo o mundo não tinha nenhum companheiro, exceto o seu antigo assessor, Lee Sarason, e talvez Hector Macgoblin, com quem podia falar à vontade… Sentia-se desacompanhado quando queria livrar-se das obrigações do despotismo juntamente com os seus sapatos e o seu novo e belo casaco”.

Como apontam alguns críticos, este poderá não ser o melhor romance de Sinclair Lewis, em termos estritamente literários ou formais, mas é por certo um dos mais relevantes e proféticos para os nossos dias. Em certas páginas, quase esquecemos que estamos a ler uma ficção norte-americana, e pensamos de imediato na Europa de outros tempos, na retórica que, uma vez mais, inunda boa parte da política, e não só a “extremista” ou “populista”.

Isso não pode acontecer aqui relembra-nos que, sim, poderá acontecer outra vez, até porque, enquanto na América, só na ficção daquela época, mesmo enquanto a raiva aos afro-americanos e a outras minorias estava no auge, e acontecia na realidade entre nós, o passado e o presente estão frescos na nossa memória e nos nossos presentes medos. Não foi também sem mais nem menos que o filósofo holandês Rob Riemen publicou há uns poucos anos um livro assustadoramente intitulado O Eterno Retorno do Fascismo. Falava da Europa em que vivemos actualmente, e antes das vitórias da extrema direita nas recentes eleições europeias. A América, parece, vai agora por um caminho semelhante, o do medo e de certo autoritarismo manifestado em sucessivas “Ordens Executivas” saídas da Casa Branca. Restam os tribunais e um sistema sólido e consciente da sua própria história.

A literatura é acima de tudo memória. É fonte de prazer, mas também deverá ser fonte de informação e pensamento. Ninguém lê ou olha para um quadro sem pensar no contexto em que se integra, ou até na sociedade que o inspirou. Nesse sentido, a literatura deveria ter as suas consequências – não necessariamente como previsão do futuro, mas sim como aviso contra a repetição do passado.

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Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui (tradução de José Roberto) , Lisboa, D. Quixote. 2017. Esta recensão foi em parte retirada de uma outra que eu já tinha publicado em 2014, ainda antes da campanha presidencial norte-americana.

 

 

Sonhos americanos de agora e de sempre

São o carinho e a memória que demarcam a sinceridade deste livro, o seu carácter e o seu denso significado… Este livro é escrito por uma democrática selecção de autores, não se limita a escritores profissionais, mas nasce de gente vinda das mais diversas facetas da vida.

Frank X. Gaspar, na introdução a Untamed Dreams: Faces Of América

Vamberto Freitas

Antes de falar sobre este livro como um dos mais belos títulos que eu li nestes últimos tempos, Untamed Dreams: Faces Of América/Sonhos à Solta: Rostos da América, organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues, não posso nem quero deixar de dar os parabéns, na pessoa de Tony Goulart, picoense imigrado nos EUA há muitos anos, pela iniciativa que foi a fundação de uma editora que tem como objectivos principais motivar a investigação nos mais variados campos da nossa vida naquela sociedade. Portuguese Heritage Publications of California é dirigida por indivíduos ligados a várias associações comunitárias, e o seu catálogo já contém um número substancial de títulos em todos os géneros, desde história, ficção e poesia, assim como algumas biografias e autobiografias., abrangendo os mais variados temos: baleação, agricultura, indústria lacticínia, e Festas do Espírito Santo, esses ritos religiosos e profanos celebrados anualmente em todos os aglomerados de maioria açoriana, e talvez o evento que mais coesão traz ao nosso povo naquelas vastas paragens, promovendo a cultura ancestral entre os luso-descendentes, e desse modo permitindo sobretudo a continuidade da nossa cultura, da nossa memória histórica, mesmo que em língua inglesa e por outras formas de actuação e estilos de vida. Olho para essa lista editorial e fico espantado com o número de autores, uma lista longa de mais para que eu possa destacar nomes e títulos, uns mais conhecidos do que outros, e que inclui ainda escritores residentes nas ilhas mas viram algumas das suas obras mais pertinentes para o tema da imigração traduzidas e divulgadas entre todos os leitores da nossa diáspora americana. Para entendermos inteiramente a audácia de tal projecto bastará lembrar a todos que tudo isto é feito sem subsídios oficiais, o que não exclui, como me diria um dos seus responsáveis, a ocasional distribuição gratuita por escolas e bibliotecas numa boa parte do estado da Califórnia, e não só. Raramente estes livros chegam ao arquipélago, e isso passa a ser indesculpável – são essenciais para os nossos próprios investigadores e escritores, fazem parte do cânone literário e cultural português, com especial relevo para as ilhas dado que a grande parte dos nossos imigrantes no oeste americano é de origem açoriana. Só que entre esses nomes e obras estão também presentes autores e bem-feitores de origem continental. Pelo menos deixo aqui os rótulos das colecções que venho mencionando neste texto: Heritage Collection, Colecção Décima Ilha (onde encontramos também os livros de poesia), Pioneer Collection, Fiction Collection e Children’s Collection. Não, não é pouco. O que me leva, uma vez mais, a apelar aos responsáveis pelos diversos sectores oficiais do Governo Regional dos Açores a tomar a iniciativa de fazer chegar a nós, às nossas instituições de ensino a todos os níveis, todo este rico arquivo da nossa história e criatividade no além-fronteiras, na lonjura do Pacífico, que nunca nos esquece ou ignora, que sempre perpetuou voluntária e orgulhosamente a nossa memória colectiva dentro e fora do território nacional. Por uma questão de pura justiça intelectual, não posso deixar de mencionar as inúmeras edições de autores luso-americanos e açorianos, no original ou em tradução, das editoras Gávea-Brown Publications (Brown University) e Tagus Press at UMass Darthouth. Foi a partir de todos eles que muitos dos nossos autores nos Estados Unidos foram publicados e tornaram-se parte do que já é a nossa Tradição Literária.

A crescente dupla nacionalidade dos filhos e netos da primeira geração imigrada quase torna sem significado a expressão“território nacional”. Untamed Dreams: Faces Of America leva-nos dos primórdios da nossa emigração para a América, os que nadavam furiosamente até aos barcos baleeiros no Corvo e noutras ilhas aos que partiam via Pan American, de Santa Maria, e os que ainda hoje dão um salto em busca da sua sorte. A imagem primeira que sobressai deste livro é como um pequeno povo, numericamente falando, construiu algumas das mais prósperas e bem organizadas comunidades no oeste americano. Não se trata só de trabalhadores em busca do ouro no século XIX, mas ainda dos que hoje estão colocados nos mais distintos e importantes sectores do estado mais rico da nação mais rica do mundo. Não falo aqui nem de nacionalismo nem de sobrevalorização do chamado “sucesso” novo-mundista. Falo da coragem e determinação de um povo ilhéu que nunca se deixou intimidar pela mais avançada e sofisticada economia e sociedade do Ocidente. De um extremo de um estado como a Califórnia, dos baleeiros de San Diego em tempos idos aos nossos contemporâneos nos mais diversos ramos de vida e actividade económica a norte, desde o Vale de São Joaqueim no centro interior ao Sillicon Valley e San José e arredores, falo dessa audácia e desse destemor na sua permanência e formação numa complexa sociedade multi-étnica e cultural. Agricultura, invenção da mais avançada indústria lacticínia planetária, de bem-feitores comunitários, uma vez mais, através de associações de seguradoras até aos professores universitários, a comunidade portuguesa na América é de uma organização e segurança estrutural como muito poucas outras. Os primeiros aventureiros açorianos, quase sempre sem entender uma frase completa em inglês, até aos seus descendentes de segunda e demais gerações criaram uma vida sem par na Diáspora, sem nunca esquecer e muito menos trair as suas origens. Estão neste livro uma boa parte exemplificativa do que acabo de dizer. O homem de botas altas a trabalhar a terra dando lugar aos que, em inglês, celebram, memorizam, dignificam essa história. Untamed Dreams: Faces Of America desmente muitos dos mitos que rodeiam a nossa presença na América. Pais analfabetos e uns poucos outros com formação formalista mandaram para os estudos, a todos os níveis, os seus filhos e filhas. O resultado está mais do que à vista: cientistas, empresários, escritores e poetas marcam o seu lugar na grande tradição intelectual da América, que a maioria dos europeus ainda faz e prega que não existe, os vaidosos medíocres de um continente sem rumo nem ideias a olhar com desdém os fazedores de tudo. Frank X. Gaspar, nascido em Providence de famílias piscatórias é hoje um poeta publicado pela grande revista The New Yorker. Katherine Vaz, grande escritora das melhores editoras nova-iorquinas e já traduzida no nosso e noutros países, segue os passos de um pai de nome August Mark Vaz, nascido na Califórnia, crescido na Agualva, da Ilha Terceira, e que anda hoje me é uma referência no seu livro sobre a história da nossa emigração no Pacífico, Lara Gularte traça as suas origens até aos caçadores do ouro em tempos muito recuados nalguma da melhor poesia publicada em língua inglesa, e Millicent Borges Accardi, de pai italiano e mãe açoriana, desenvolve uma poética quase sem precedentes entre nós, se esquecermos por um instante um George Monteiro, nascido na Costa Leste americana de pais continentais, e que desbravou antes de todos nós este território da imaginação e arte. Nem por um segundo esqueço, e muito menos ignoro, os que em língua portuguesa poetizaram, sublimaram, a nossa vivência naquelas partes. As suas palavras são um espelho claríssimo, o qual deveríamos todos espreitar, e revermo-nos nas suas imagens e metáforas. Este é um livro em língua inglesa, e o seu lugar espera novas traduções. Os que nos vão seguir terão a obrigação de conhecer as suas origens, e são nessas páginas que reside para sempre parte do seu ser e sorte.

Então uma só vida – escreve Katherine Vaz sobre o seu recentemente falecido pai, que para além do ensino e da escrita, também pintava quadros – poderá ser uma lição paternal única, a salvação de uma pequena criatura como eu, um espaço desenhado, uma insistência em que deveremos sonhar a vida a cores, uma rosa que brota do nada e se torna milagrosa. August Mark Vaz escreveu os seus livros sobre a sua adorada herança açoriana, mas foi-tão só a sua existência que, para mim, musicou a melhor nota de como devemos agarrar e refazer o mundo. Viajo sempre com um dos seus quadros inacabados, uma rapariga abraçada a uma bandeira portuguesa e a chorar”.

Untamed Dreams: Faces Of America passa a ser uma das nossas mais eloquentes fontes sobre a vida quotidiana e da imaginação do nosso povo na distante Callifórnia. Curiosamente, foi António Ferro, que após uma viagem àquele país nos anos 20, e em que ele insistiu, muito antes de muitos, em visitar essas nossas comunidades, escreveria em termos muito semelhantes no seu singular Novo Mundo Mundo Novo (1930) sobre como os portugueses precisavam de espaços livres e grandiosos para exercer o seu talento e coragem no trabalho quotidiano, quer fosse em terras cultivadas, quer fosse nas mais criativas profissões e instituições a que se dedicavam. Viu, como vemos neste livro agora, a capacidade de reinventarmos o nosso ser e modo de estar. Era e é um Portugal cuja modernidade só agora começa a ser vivida na nossa geografia natal. É isto e muito mais que nos espelha este livro.

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Untamed Dreams: Faces Of America (organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues), San José, Portuguese Heritage Publications of California, 2017. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Outubro, 2017.

Revisitação à obra de Eduardo Mayone Dias e a nossa imigração na Califórnia

Provindo de um ambiente escasso de experiências vitais diferentes, o típico emigrante português nos Estados Unidos encerrra-se no seu pequeno casulo de preocupações materiais, enquista-se na sua comunidade linguístico-cultural e receia contactos com outros grupos ou evita-os mesmo por dificuldade com comunicação verbal ou conceptual.

Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa

Vamberto Freitas

Para os que não o conhecem aqui nas ilhas: Eduardo Mayone Dias nasceu em Lisboa em 1927, e após a sua licenciatura na Universidade de Lisboa, depressa partiria para o estrangeiro, primeiro para o México e depois para os EUA em 1961, onde se viria doutorar na Universidade do Sul Da Califórnia em Literaturas Hispânicas, de seguida iniciando a sua carreira na Universidade da Califórnia, Los Angeles, a leccionar língua e literatura portuguesas. Este texto é tirado de um prefácio que escrevi para o seu livro Miscelânia Lusalandesa, publicado em Lisboa pelas Edições Cosmos em 1997. Acaba de apresentar em Artesia, uma cidade nos arredores de Los Angeles onde vivem milhares de açorianos, e à qual ele sempre manteve uma relação de grande afecto e que agora lhe prestou homenagem no passado dia 8 de Outubro pela recente publicação Memórias De Um Burocrata Invisível: Autobiografia e Algo Mais, da autoria de Eduardo Alberto De Oliveira Rocha. Não o li ainda mas não podia adiar estas minhas palavras, pois referia-me já então à sua bibliografia debruçada sobre a nossa imigração e vida em toda a parte. Foi um dos meus mentores através da sua escrita em livros e jornais, e nunca hesitava em convidar os seus amigos à casa onde sempre viveu no centro da grande metrópole. Há dívidas que nunca se pagam, não é possível retribuir certas dádivas. O trabalho de Mayone Dias, de que Miscelânia Lusalandesa é apenas uma leve mas viva amostra, à semelhança de Coisas da Lusalândia, também publicado no nosso país, constitui uma raridade sobre a vida dos portugueses no além-fronteiras. Acompanhou sempre de perto a caminhada da imigração portuguesa na América. Poderia muito bem ter optado exclusivamente pela torre de marfim que uma instituição como a Universidade da Califórnia oferece aos seus docentes. Sempre entendeu ele, no entanto, que a presença cultural portuguesa nos EUA deveria ir além das conferências universitárias sobre os ditos vultos do nosso mundo e incluir a actualidade de todo um povo que começou a chegar lá a fins do século XIX, aquando da lendária Corrida ao Ouro. Foi assim que a “Portufórnia” – o curioso e diversificado mundo dos portugueses na Califórnia – se tornou, creio, a mais estudada e divulgada parcela da nossa diáspora, e que hoje tem muita gente a dar continuidade a esse trabalho, especialmente através de edições da própria Portuguese Heritage Publications of California, com sede em San José, a cidade no coração do Silicon Valley.

Miscelânia Lusalandesa é constituído pela série de estudos, crónicas e comentários acerca da nossa visa californiana de ontem e de hoje, anteriormente publicados em vários periódicos de Portugal e da nossa imigração, integra uma obra unificada pela sua temática, mas que tem tomado formas bem diferentes. Para Mayone Dias, eis aí uma faceta da sua discreta “revolta” contra o tal nicho universitário fechado. O estudo de qualquer grupo humano, por mais inconsequente que pareça em termos político-culturais, não necessita de desculpas ou justificações. Somos todos, quer como indivíduos quer como comunidade em qualquer canto deste mundo, espelhos vivos da nação – ou, como neste caso americano, das nações – a que pertencemos. Todas as suas intervenções neste campo tentam essencialmente responder a questões que são de máxima importância, indispensáveis a um entendimento, o mais completo possível, de quem somos nesse mosaico de gentes que continua a ser a América. Desde o Havai de tempos idos, onde estão sepultados também ossos portugueses e onde ainda hoje alguns tentam reavivar a sua memória ancestral lusa nos mais escondidos lugarejos daquelas ilhas e da Califórnia, Mayone Dias, quase só, insiste em perceber o que é ser-se português transplantado em viveiros radicalmente diferentes das nossas origens. “A Presença Portuguesa no Havai”, por exemplo, traça com todo o rigor académico do historiador a chegada àquelas ilhas de um grupo ido da Madeira e dos Açores para trabalhar nas plantações da cana de açúcar, descreve minuciosamente a sua sobrevivência étnica até a tempos recentes, aponta aí o que pode acontecer a outros que não se rejuvenescem através da chegada contínua de novos imigrantes – o seu apagamento quase total como entidade nacional devido à assimilação inevitável das gerações nos grandes meios que os rodeiam. Do mesmo modo, “Baleeiros Portugueses na América” conta a epopeia dos primeiros imigrantes açorianos que chegaram à América há mais de 100 anos e se foram enraizando até desenvolverem, juntamente com outras etnias, a rica agricultura e indústria lacticínia da Califórnia. O livro Açorianos na Califórnia (1997), por sua vez, é um conjunto de entrevistas feitas ao longo dos anos a “pioneiros” ainda de boa memória e a outros mais novos sobre o que foi e ainda é a vida das nossas comunidades. A obra de Eduardo Mayone Dias, como já disse, de tudo contém um pouco. Debruça-se sobre aspectos da vida imigrada tão variados como uma série de abordagens que vão desde os portugueses de San Diego que participaram pela América na II Guerra Mundial com os seus barcos da grande pesca à crise que eventualmente haveria de atravessar essa comunidade devido ao declínio da indústria piscatória norte-americana, a comentários e coloridos “instantâneos” que nos apanham nos momentos tragicómicos inerentes à condição de “estranhos em terra estranha”, a investigações e análises da escrita de imigração que sempre produzimos desde as nossas primeiras aventuras a oeste, tudo o que poderá explicar e permanecer na memória das gerações vindouras..

A esta quase incrível persistência e dedicação à história e registo da presença portuguesa na Califórnia, juntam-se qualidades como uma natural capacidade de empatia que Mayone Dias sempre demonstrou pelo grupo e, ao mesmo tempo, a ausência de qualquer condescendência ante o que ele entende ser defeitos ou meras fraquezas colectivas nossas. As nossas comunidades açor-californianas estão dispersas por todo o estado, separadas pela geografia e pelo seu desenvolvimento autónomo. Existem centros de operários e comerciantes (San José e arredores de Artesia na Grande Los Angeles), assim como centros rurais onde naturalmente predominam a agricultura e lactcínios, Na maioria de origem açoriana, as diferenças e divisionismos trazidos das ilhas esbatem-se mesmo neste diversificado rumo sócio-económico. Pertence quase toda a primeira geração à grande vaga emigratória que foi retomada nos anos 50 e 60, tendo estancado, como se sabe, em tempos recentes. Foi precisamente este grupo que encetou vigorosamente uma autêntica regeneração sócio-cultural à beira do Pacífico. Reergueram-se sociedades comunitárias, agudizou-se entre todos o interesse e respeito pela cultura e tradições ancestrais, começou-se a insistir, mesmo que sem grandes repercussões no meio americano, no reconhecimento pela obra total e contínua das nossas comunidades desde os primeiros tempos na Califórnia. É considerando este período histórico – o próprio 25 de Abril abalou em vários sentidos a nossa imigração – e os outros antecedentes que se deve perceber os dramas e comédias tanto em Miscelânia Lusalandesa como em inúmeras outras colectâneas da sua vasta obra.

Miscelânia Lusalandesa faz parte dessa grande obra-espelho de todo um povo. Ficará nos nossos arquivos para sempre, e aí relembrar e ensinar levemente a quem queira saber de um Portugal geograficamente reduzido mas de onde saiu um povo heterogéneo e que foi capaz de se reinventar quando colocado nos mais longínquos e estranhos recantos do nosso mundo. Traz-nos, é certo, apenas uma parcela do mundo lusíada e uma que nunca teve o lugar merecido na História da nação. No entanto, os factos e a reavaliação das nossas realidades vão-se impondo com esforços como este. Os milhões de portugueses que saíram do nosso país não poderão permanecer para sempre como fontes de remessas e objecto de um ou outro discurso governamental em datas já tornadas banais, não devem ser apenas um ocasional apêndice da retórica política nessas ocasiões.

Junto aqui a minha voz à de outros (Diniz Borges em particular, a quem Eduardo Mayone Dias já entregou parte do espólio) que têm reclamado o reconhecimento da obra do autor pelo Governo e Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Seria um acto de pura justiça, um gesto digno e oficial de gratidão a quem não só produziu uma obra superior sobre os açorianos na Califórnia, como foi um mestre de toda uma geração, a minha, no incentivo e apoio às nossas próprias tentativas de dinamizar as nossas comunidades para uma melhor integração na grande sociedade norte-americana.

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Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa, Lisboa, Edições Cosmos, 1997. Parte deste texto foi retirado do prefácio que escrevi para este livro no ano da sua publicação. A foto foi tirada em Artesia, a 8 de Outubro, aquando da homenagem que esta nossa comunidade lhe prestou. Publicado  no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 20 de Outubro de 2107.