A Narrativa Portuguesa de John Dos Passos

… Uma animada narrativa dos esforços do Homem para alargar os seus horizontes.
Da contracapa de The Portugal Story

 Vamberto Freitas

Não será necessariamente para descobrir algo de novo na história pátria que se lê The Portugal Story: Three Centuries of Exploration and Discovery, de John Dos Passos. Só que se trata de um livro importante, que creio nunca ter sido traduzido, e ainda hoje será pouco conhecido entre nós. Em primeiro lugar, importante porque foi escrito por um dos grandes escritores norte-americanos do século passado, consciência do modernismo literário do seu país, que teve como berço principal Nova Iorque nos anos 20, envolvendo escritores que lá viviam ou simplesmente giravam em volta daquele universo ainda hoje sem igual no mundo. A lista desses nomes é longa, e suspeito que a maioria dos leitores aqui conhece muito bem de quem falamos, pois muitos deles foram, em graus variáveis, traduzidos para a nossa língua. Ainda há bem pouco tempo, foi lançada cá a tradução de Manhattan Transfer, um dos principais e mais conhecidos romances do autor luso-americano, nascido em Chicago em 1896 e falecido em Baltimore em 1970.

Nos últimos anos da sua vida, Dos Passos fez questão de resgatar para si próprio a sua ancestralidade paterna de português de raízes madeirenses. Uma vez mais, o autor da trilogia canónica intitulada U.S.A. (ficção) e de outras inúmeras obras de história e reportagem sobre a sociedade americana que nascia após a Primeira Grande Guerra, receberia orgulhosamente a resposta e o reconhecimento das nossas comunidades americanas com uma condecoração especial, “Peter Francisco Medal” da Portuguese Continental Union. Muito antes disso, Edmund Wilson, o mais conhecido e respeitado crítico da sua geração e desde sempre amigo íntimo do autor, já tinha anotado com alguma surpresa e fascínio em cartas mais tarde publicadas essa atitude de John Dos Passos em valorizar sem complexos o seu lado de luso-americano. Dos Passos passaria a visitar tanto Portugal como o Brasil, ao qual já estava ligado desde os anos 40, tendo prestado homenagem a esse outro país-irmão com o livro, também pouco notado entre nós, Brazil On The Move, publicado alguns anos de The Portugal Story.

É certo que outros historiadores norte-americanos de renome internacional escreveram também sobre os Descobrimentos portugueses, mas nenhum deles o poderia ter feito como o fez John Dos Passos, pela perspectiva declaradamente afectiva e creio que correctiva de todo e qualquer anti-portuguesismo surgido na literatura académica e ficcional do seu país, que ele conhecia e reconheceria como poucos no seu tempo.

The Portugal Story resultou inequivocamente do seu respeito e, uma vez mais, afecto pelas raízes ancestrais, mas só depois de aturadas investigações um pouco por toda parte, especialmente no nosso país e através de contactos e diálogos com seus amigos e conhecidos historiadores e intelectuais portugueses. Um grande escritor da ficção modernista que se debruça sobre um tema tão abrangente e decisivo na história do Ocidente teria forçosamente de se dirigir a um grande público com uma escrita absolutamente contrária à suposta cientificidade do costume. The Portugal Story lê naturalmente como se um romance fosse, cada etapa da preparação da grande aventura deixando o leitor ansioso pelo que vem nas páginas seguintes, a linguagem fluindo como as cavarelas em ventos favoráveis, descomprimindo aqui e ali com informação contextualizante nas paragens de movimento, como que em preparação para novas navegações e encontros.

São quase quatrocentas páginas da mais fina e dinâmica prosa, levando o leitor de hoje a imaginar como terá sido para outros de língua inglesa este outro ou inesperado encontro com as figuras da nossa história. Dos Passos escreveu The Portugal Story numa fase da sua vida em que já tinha passado por várias fases políticas e ideológicas, vindo inicialmente da esquerda mais ou menos nova-iorquina até ao conservadorismo da aula mais direitista do Partido Republicano. Alguns destes factos no seu percurso intelectual, à primeira vista sem importância, terão sido cruciais no que mais enforma a sua narrativa lusa: sem apologias ou condenação “imperialista”, sem complexos nos confrontos civilizacionais entre uma Europa quinhentista então liderada por Portugal na sua aventura além-mar, em que venciam nos negócios em novas feitorias aqueles cujas frotas à vista faziam meio mundo fugir de medo e reverência. De resto, no ambiente multicultural em que a América começava já a viver durante a escrita de The Portugal Story, o início da valorização de cada grupo étnico na construção do país americano, não lhe terá sido alheio nem por mero caso a sua descrição da formação mista da nossa nacionalidade lusitana desde os tempos pré-romanos até ao Infante D. Henrique.

Toda a escrita acaba por ser autobiográfica, mesmo uma narrativa histórica? Raramente um autor escapa à intromissão da sua “biografia”, real ou imaginada, naquilo que cria ou interpreta. No já mencionado Brazil On The Move, Dos Passos, muito antes dos brasilianistas que em breve surgiriam em força nos EUA, dava especial ênfase ao carácter étnico e culturalmente misto do maior país lusófono, convivia pessoal e intelectualmente nas suas prolongadas visitas com vários escritores, especialmente com Gilberto Freyre, o autor de Casa Grande e Senzala, significativamente escrito e publicado nos anos em que alguma Europa se autodestruía em violentos espasmos racistas. The Portugal Story, pois, oferecia aos seus leitores anglófonos uma grande narrativa bem diferente das que porventura teriam conhecido vagamente em medíocres e tendenciosos programas escolares. Os portugueses deixavam agora de ser aquele povo esquecido na Península Ibérica e Ilhas para se tornar no mais corajoso descobridor e pioneiro, na nossa linguagem actual, da globalização. Toda a violência nos encontros entre nós e os outros povos no decorrer de cada chegada a portos longínquos e desconhecidos é vista como um inevitável imperativo de cada época, em nada diferente do que o próprio autor, séculos mais tarde, conhecera pessoalmente nas guerras da Europa, inclusive na Espanha republicana a saque. Do mesmo modo, Dos Passos realça o outro lado, o diálogo e a compreensão ante as mais distantes e desconhecidas culturas, escolhe certos episódios e geografias que mais dramatizam esses encontros que para sempre mudariam o mundo conhecido e inventariam outros na modernidade ambígua que se desenvolve a partir do século XVI.

Atentemos no próprio título do livro: The Portugal Story, e não A History of Portugal. Uma “estória” e não uma “história”. Sem uma única nota-de-rodapé, a sua longa narrativa flui na linguagem a que só um grande escritor terá acesso: cada personagem, cada incidente, cada descoberta, cada confronto metaforizados como se entre a arte e a escrita realista não pudesse nunca existir qualquer separação, a poetização da memória inerente a qualquer acto de narração. Os factos aqui servem como informação pura, sim, e depois servem sobretudo como contexto ou moldura explicativa à imaginação do próprio escritor e dos seus leitores. Na incerteza ou nebulosidade em que todo o passado reside, uma grande narrativa será sempre o que os Antigos já tinham descoberto: uma lição dramática da grandeza dos homens e/ou da sua inevitável ou eventual vilania, da duplicidade da nossa alma e feitos. O livro está ilustrado com algumas gravuras de lugares-chave da narrativa, mas também com alusões a figuras e obras de arte, toda a sugestão da completude e riqueza de um povo quase esquecido nos séculos que seguiram à aventura Trágico-Marítima.

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John Dos Passos, The Portugal Story: Three Centuries of Exploration and Discovery, New York, Doubleday, 1969.

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Sobre a Crítica Literária e Cultural

Como se posiciona hoje o critico interessado nas grandes questões – estéticas, culturais, morais?

Coordenadores do The New York Times Book Review
Vamberto Freitas

Em Portugal raramente se discute ou questiona a crítica literária nas publicações de grande projecção, assume-se que mais ninguém terá interesse, é uma questão guardada para revistas da especialidade, ou pelo menos para revistas de outro tipo dirigidas a elites académico-literárias. Creio ser um equívoco da nossa parte, pois se a imprensa lusa no seu todo, nacional e regional, sempre foi extremamente generosa para com os seus leitores mais sofisticados, sempre abrigou recensões e outros ensaios em suplementos e outras páginas dedicadas à literatura séria, deveria assumir que quem as lê provavelmente também se interessa pelo acto singular que é apresentação pública de livros, autores e questões afins.

Serão muito poucos os escritores que passavam ou passam uma vida a escrever só para os iniciados e detentores de códigos literários tão misteriosos como o sexo dos anjos. Quem escreve, é razoável assumirmos, escreve para o maior número possível de leitores no seu país, na sua região ou na sua língua, não se queria ou não se quer reduzido aos poucos para quem a leitura é quase um acto egoísta, uma espécie de declaração de sabedoria que provavelmente julgam inacessível a todos os outros fora dos seus círculos de amigos e conhecidos. De qualquer modo, a crítica no nosso país tem sido pouco diferente da que se pratica noutros países ocidentais: lado a lado aos teóricos e críticos académicos que se dirigem quase exclusivamente aos seus colegas e aos seus alunos de literatura e cultura, a comunicação com o grande público foi, pelo menos desde o século passado, uma constante; basta citar dois nomes de todo emblemáticos do melhor na nossa crítica “prática” dirigida à classe culta em geral: Gaspar Simões, que estava presente nas páginas do Diário de Notícias quando faleceu nos anos 80, e, ainda hoje escrevendo como mais ninguém, Eugénio Lisboa, principalmente no JL de Lisboa, difundindo o seu vasto conhecimento da literatura nacional e internacional, escrevendo com uma abertura tão iluminada e informada que não esconde nunca as influências que recebeu do mundo anglófono. O seu recente Indícios de Oiro, dois densos volumes de crítica ensaística, funciona como um prolongado seminário acerca de tudo o que se refere ao mundo das letras, deste e doutros tempos.

Veio o breve intróito de acima a propósito de um recente número do suplemento literário do The New York Times, que dedicou o seu espaço nobre na edição de 2 de Janeiro deste ano precisamente a esta questão, sob o título de capa “Why Criticism Matters”. Como em toda a parte, a imprensa atravessa dias difíceis, especialmente tendo a net como concorrente quase esmagadora. Nas questões literárias, pelas mesmas razões, o grande diário questionava um grupo de críticos no activo sobre o “que fazem” e “como o fazem” nestes tempos de incerteza e quando toda a gente, em meios diversos, já emite “opiniões”. Para o grande diário nova-iorquino, a crítica literária em geral continua a ser fundamental para a cultura no seu país. Os críticos e jornalistas literários de renome nacional — Stephen Burn, Katie Roiphe, Panka Mishira, Elif Batuman, entre alguns outros — responderam em ensaios a essa questão. Para quem e com que fins se escreve “crítica” humanística em geral? Ainda existem leitores suficientemente interessados e empenhados no conhecimento e na leitura de textos, digamos, consequentes e significantes, exigindo do mesmo modo discussões e diálogos consistentes na grande imprensa? Que papel desempenha na cultura nacional o debate literário e cultural nas suas próprias páginas e na de outros? As respostas foram diversas, mas convergentes nalgumas conclusões afirmativas.

A reflexão sobre o papel da crítica é já uma velha tradição anglo-americana. Nos EUA, foi retomada à grande escala durante o século passado, quer no projecto de certas publicações quer em colóquios de escritores e críticos, particularmente entre o grupo que viria a ser denominado como The New York Intellectuals, constituído na sua maioria por judeus-americanos de segunda geração, o grupo que girava em volta de publicações literárias como Partisan Review e Dissent. Uma das suas vozes destacadas no recente número do Times foi exactamente a do falecido Alfred Kazin, particularmente devido ao seu ensaio a meio do século que voltava contundentemente à questão, “The Function of Criticism Today”. Por seu turno, Edmund Wilson, que se recusou a assimilar até mesmo o New Criticism surgido de um distinto grupo de escritores e poetas sulistas e elaborado com força intelectual nos 40, e que influenciaria toda uma geração de estudiosos, é outro dos nomes evocados pela vastidão da sua obra, sobretudo pela sua contestação durante uma vida inteira à crítica académica e hermética, teorizante e não explicativa ou dialogante com aqueles que ele presumia serem os leitores cultos mas não “especializados” do seu tempo. A passagem do tempo viria a dar-lhe toda a razão: é ele que continua a ser lido e vastamente biografado, enquanto os seus antigos detractores universitários jazem no pó de estantes pouco ou nunca visitadas.

Na sua nota introdutória às páginas em questão, os coordenadores do The New York Times Book Review começam por denunciar as modas nalguma crítica do momento. Apontam a inutilidade de “vozes instantâneas, efusiva e crescentemente estridentes”, pois “vivemos numa época de opinião”, “muita dessa escrita auto-denominando-se como crítica, e no sentido mais superficial está correcto”, dado o temperamento crispado da nossa época, escrevem eles próprios com algum azedume. Perguntam depois que lugar cabe à crítica abrangente e competente em qualquer publicação dedicada à literatura, aos que se recusam a sentenciar raivosamente e a catalogar uns e outros, permanecendo firmemente dedicados às questões “estéticas, culturais e morais”, isto é, à função da própria obra de arte em qualquer um dos seus géneros.

As respostas dos seus convidados vêm espalhadas pelos vários textos dos seus autores, e sem haver unanimidade, a palavra que resta é clara: resistir a tudo o que na nossa época trivializa e desfaz a nossa cultura em geral. Se existem escritores que produzem obras de grande valor para leitores que continuam a ler com seriedade e em busca de verdade e beleza, os críticos devem continuar a sua missão de não deixar cair no esquecimento aqueles que guardam a nossa memória, e garantem a nossa identidade de cidadãos de cada país e língua, do mundo. Literatura e sociedade são ainda e sempre indissociáveis, cada texto um retrato-outro do nosso tempo e lugar, de nós. A leitura é para prazer puro e clarificação, ensinamento, aproximação ou conhecimento do outro e da vida na sua infinita diversidade. Sim, o crítico tem o dever de separar águas, e sobretudo resgatar a literatura, pelo menos nas palavras de um destes colaboradores do Times, do domínio de supostos especialistas que vivem à parte da sociedade, e devolver a dignidade ao leitor formado, de um modo ou outro, no gosto da arte e das ideias.

Os escritores, os leitores e os críticos não desapareceram. A outra grande questão, que não foi abordada pelo Times, é se continuarão ou não a resistir ao chamado “espírito do tempo”, em que imperam “os mercados” e o seu mortífero vampirismo, se as ideias humanistas e o seu principal meio de transmissão, os livros, forçam o seu regresso às cavernas de onde descaradamente se soltaram outra vez.

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        The New York Times Book Review, “Why Criticism Matters”, January 2, 2011.

Terra Nova

Quando Dizemos Adeus aos Nossos

Os escritores canadianos criaram, como grande tema tradicional, o herói comunitário.
Robin Mathews, Canadian Literature

Terra Nova é a tradução de Barnacle Love (Doubleday Canada, 2008), o primeiro romance do luso-canadiano Anthony De Sá, lançado em Portugal há alguns meses. Certamente por um erro (acontece) da D. Quixote (Lisboa), o título original não consta da ficha técnica. De qualquer modo, estamos perante uma competentíssima tradução de Maria Eduarda Colares, que quase nos faz esquecer no decorrer da leitura que se trata de uma obra originalmente escrita em inglês. Bem o merece, este romance, que divide em duas partes o seu fundo referencial entre os Açores (Lomba da Maia, São Miguel) e a pátria primeira do autor. Eis aqui o herói, aquele que sai a princípio dos anos 50 de uma pequena ilha para a imensidão da América do Norte contra a vontade da família, a bordo de um barco chamado Argus da extinta Frota Branca que pescava bacalhau nas águas geladas dos Grandes Bancos, e o anti-herói, anos depois do seu salto clandestino em St. Johns, mais ou menos integrado na sua nova comunidade em Toronto, mas cujos sonhos maiores se desvanecem na corrosão lenta de espírito que a realidade inevitavelmente a todos vai impondo. A linguagem vigorosa e despojada de Anthony De Sá (a linguagem que os minimalistas americanos, como Raymond Carver, desde há muito “impuseram” a muitos escritores das gerações seguintes), esconde nos seus melhores momentos toda a ternura e compaixão com que o narrador de Terra Nova, já nascido no Canadá e a braços com todos os conflitos clássicos da sua geração ante a persistente “marginalidade” dos pais na nova sociedade, vai dissecando os seus próprios sentimentos por entre a perplexidade e tristeza de ver como um homem outrora forte não consegue, no exílio, não poderia conseguir, sobrepor-se à crueldade do pragmatismo vivencial que exige dos seus cidadãos disciplina absoluta na contínua caminhada de um suposto “progresso” material, cada um tendo de aceitar, sem reclamar, o seu lugar ou a sua condição de mera peça mecânica utilitária.

Um dos momentos mais melancólicos em Terra Nova é quando o protagonista-imigrante, de nome Manuel António Rebelo, totalmente alcoolizado com vinho caseiro e já sem “sonhos”, insiste em cantar ou ouvir de um velho e gasto gira-discos a alto som o hino canadiano durante um dia inteiro nos anos 70. Na América do Norte é sempre assim, os derrotados aceitam tudo sem qualquer questionamento: os falhanços são sempre nossos, a sociedade de nada tem culpa, nunca. Varre o nosso chão e cala-te, pois vieste de um país que nada te pôde dar. É verdade na maior parte dos casos, mas o coração e a inteligência humana são muito mais complexos e intimamente misteriosos do que essa suposição elementar, quando não de todo ignorante.

As palavras do velho nacionalista canadiano Robin Mathews citadas em epígrafe aqui numa tradução minha, tiradas de um dos seus livros publicados também nos idos de 70, de nada têm de irónico neste contexto ficcional de Terra Nova. Sobreviver no Novo Mundo foi de facto para a grande maioria dos imigrantes um acto de coragem, visionário, heróico, quer o comportamento de cada um obedecesse ou não aos ditames beatos, quase social e culturalmente totalitários (como no filme americano Pleasantville), daquelas sociedades. Texto e contexto, literatura e sociedade.

Terra Nova aparenta a “inocência” narrativa de um adolescente ante a sua tragédia familiar, enquanto vai pedalando a sua bicicleta pelas ruas da grande cidade, mas em que quase tudo e todos à sua volta lhe lembram as suas origens. Quando nos conta a sua estória, recua pormenorizadamente aos seus dias desde os seis anos de idade, altura em que vem à Lomba da Maia com a família toda enterrar a sua avó materna, matriarca açoriana cujos próprios sonhos e raivas maiores irão com ela para a cova. Ninguém escapa aqui às tragédias de uma geração em limbo na terra de origem, e depois lá fora. A única universalidade das nossas vivências terá sido tão-só a sangria perpétua, real e metafórica, dos que procuraram uma saída do Nada ilhéu, e depois pouco mais encontraram para além da luta quotidiana em busca de uma “vida melhor”  num choro sem fim. Esqueçam a literatura norte-americana cujo tema primitivo era ingenuamente a caminhada da “pobreza à riqueza”, pois foi toda ela escrita num tempo em que o mundo ainda não se conhecia mutuamente, e as novas sociedades ansiavam pela sua própria justificação e bondade, só imaginada, apesar do sangue e suor desgastantes dos que as construíam em regimes económicos praticamente escravizantes. A ficção de Anthony De Sá insinua de leve algo disto tudo, creio, mas vai à procura sobretudo do desgaste de alma de uma família bipartida entre os sonhos do passado e a dureza do presente enterrada em caves que proporcionam a momentânea fuga ao mundo, e a dissipação no reles vinho caseiro. Há quase uma metaficção no interior de Terra Nova: um pai auto-destrói-se vagarosamente, uma mãe refugia-se na invenção artística a partir de velhos objectos metálicos encontrados ao acaso, um filho pedala em fuga incessante, uma irmã tenta esconder a sua infelicidade no embelezamento do seu corpo e na sua ironia que eventualmente explode em crueldade e auto-defesa, uma estátua de um Cristo metido numa velha banheira empinada no jardim da casa vigia indiferente, sem emoção, e as cataratas de Niágara servem de fundo à última cena do romance numa noite de Natal, a metáfora perfeita da beleza e da ameaça aos que se aventuram a mundos fortes e desconhecidos.

Pensei n’O Sonho — o que os tinha trazido até ali. Eu sempre acreditara que fora pela mesma razão. A minha mãe tinha o seu sótão, o seu metal e tinha-nos a nós. Mas o meu pai não parecia ter coisa alguma; não parecia querer o que quer que fosse, como se não valesse a pena persistir n’O Sonho. Ele vivia no ‘nada’. E no entanto, ela –conclui o narrador acerca desta outra matriarca, sua mãe, agora aguentando o desgaste do Novo Mundo — protegia-o como se precisasse de o fazer, como se tivesse de o fazer.

Do Canadá emergiram nestes últimos anos dois grandes romancistas de descendência lusa — Erika de Vasconcelos (My Darling Dead Ones/Meus Queridos Mortos), e agora Anthony De Sá com Barnacle Love/Terra Nova. Menos conhecido, mas de igual poder narrativo, está Paulo da Costa (The Scent of a Lie), este um imigrante de primeira geração, nascido em Angola e criado em Portugal, escrevendo em português e em inglês, a sua temática oscilando sempre entre o memorialismo da terra natal e a sua existência perto das místicas e avassaladoras Montanhas Rochosas. Para uma e/imigração que tem o seu início maciço só a meados do século passado, o nosso imaginário na outra pátria americana a norte vem sendo construído com a maior profundeza e beleza artística. São efectivamente eles, com pouquíssimas excepções entre as primeiras gerações que escrevem em língua portuguesa a partir da Diáspora, que melhor têm comunicado a nossa odisseia em terras longínquas aos portugueses que por cá ficaram. Publicam em editoras de grande prestígio no seu país, e Portugal tem sabido tomar nota, de vez em quando. Que se traduza outros — e veremos como a portugalidade além-fronteiras é mais forte do que a nossa presente e medíocre angústia existencial cá dentro.

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Anthony De Sá, Terra Nova, D. Quixote, Alfragide, 2009.

Dez Anos da Revista neo

Um outro mundo à nossa porta

A thing of beauty is a joy for ever.
Verso de John Keats, citado na neo10

O número dez da revista neo acaba de sair no Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, e por isso merece um breve apontamento sobre a sua já “longa” existência. A história deste género de publicação, little magazine, que os escritores americanos aperfeiçoaram nos anos 20, a grande  década do modernismo literário naquele país, é quase sempre muito mais curta. A neo, como quase todas as suas congéneres em qualquer país, tem características muito próprias. De formato clássico e papel meio amarelado e macio, já nasce com toda a idade da nossa civilização e cultura. O prazer de a folhear cresce com o tempo que passa nas nossas mãos e estantes, convida mesmo a uma relação quase sensual, física: virar o canto da página, sublinhá-la em todas as cores, anotá-la no que resta de margens, consultá-la quando um livro nos chama a atenção e lembramos vagamente as origens do escritor/a nessas outras páginas.

A neo é como todas essas revistas hiper-letradas e maravilhosas: acolhe um pouco de tudo na literatura que tenha a qualidade ou a temática previamente definida ou desejada pelos seus responsáveis editoriais. O grafismo é o mais simples possível, poderá ou não ser ilustrado com fotos ou quadros, especialmente a preto e branco quando os meios são — e são-no quase sempre, até mesmo na América farta — limitados, cada “contribuição” financeira utilizada com o maior cuidado e prioridades de quem não corre com ou pelo dinheiro, mas sim pela beleza, emoção e ideias que só a arte pura pode conter e transmitir.  O seu arranjo é mais ou menos — deliberadamente, pensadamente — meio caótico, faz parte da sua criatividade e capacidade de surpreender os seus leitores. A um conto de abertura, poderá seguir-se um poema, uma crónica, uma recensão, uma foto, ou até um ensaio académico com notas-de-rodapé e aparato bibliográfico. É um fórum de uma democracia literária absoluta, mas nunca cede à banalidade ou a favores: nas suas páginas poderão surgir um nome famoso, nacional ou internacional, lado a lado com o de um/a poeta começando a sua carreira, abrindo as portas às suas obsessões, ou o ensaísta de todo desconhecido, mas reconhecido pelos seus pares locais ou mesmo além-fronteiras, que poderão ser dez ou cem ou mil “especialistas”. Em suma, cada palavra, cada frase, cada parágrafo vale por si, e nunca pelo nome que assina a peça em questão. O leitor português pense na Orpheu (nos seus três números, apenas) de Fernando Pessoa: lá aparece uma Violante de Cysneiros, o pseudónimo de um dos escritores açorianos mais famosos e capazes, ainda hoje ignorado no restante país, e que conhecemos também pelo nome de Armando Côrtes-Rodrigues; “Poemas dum anónimo ou anónima que diz chamar-se Violante de Cysneiros”, indicavam eles no segundo número da revista do primeiro modernismo lusitano.

Antes de mais, façamos justiça. A neo foi inteiramente pensada e até hoje coordenada e dirigida por John Starkey, meu colega na secção de inglês da Universidade dos Açores. Luso-americano casado e residente no arquipélago há uns bons anos, tem as suas raízes no estado de Nova Iorque e afinidades literárias em todo o país, ele próprio é um poeta de admiráveis recursos linguísticos e temáticos. Não cabe aqui uma análise da sua obra, diga-se só que parece ser um sustentado mergulho na condição existencialista de um americano nos seus dias pós-modernos, uma outra voz da sua geração em equilíbrio entre a tradição e a inovação de linguagens e imagens que transmitem o seu lugar numa sociedade em mudança constante. De pouquíssimas palavras fora da sala de aula, formado em Escrita Criativa, são raros os que entre nós sabem da sua própria poesia, restringindo-se ele a um ou outro poema publicado na própria neo. Rodeou-se cá de alguns colegas e alunos com vocação literária, contactou os seus colegas na América, chamou a si os escritores açorianos disponíveis para a eventual colaboração na revista, inclusive os luso-americanos, abriu as páginas da neo a uma multiplicidade de vozes e géneros, em que um professor catedrático poderá aparecer ao lado de um dos seus próprios pupilos, ou de um escritor já recenseado no The New York Times ou publicado numa revista da Harvard ou da Brown University, assim como conhecido nas mais prestigiadas revistas literárias norte-americanas. A neo é naturalmente transnacional, um texto ou poema em português seguido de outro em inglês, um referencial ilhéu convivendo com mundos que vão desde uma grande cidade à pradaria norte-americana, a sua capa desenhada por um artista nosso, de cá ou no outro lado do mar, tendo o pintor Michael Hudec sido responsável pela maioria das suas edições. O seu primeiro número saiu em 2001, e inclui trabalhos de Katherine Vaz, Urbano Bettencourt, Álamo Oliveira, Adelaide Freitas, Cristóvão de Aguiar, Mary Harvard e Richard Simpson. Nele aparecem já dois jovens, então alunos de línguas e literaturas na nossa universidade, e que agora dão belíssima conta literária de si, merecendo aqui todo o destaque: o micaelense Hélder Medeiros, que mais tarde viria a escrever o romance Solução Primária, para além do seu trabalho de humorista largamente conhecido entre nós, e o terceirense Rogério Sousa, que em variados periódicos vem publicando uma série de contos e crónicas, ambos construindo o seu espaço literário entre nós com originalidade, com estéticas renovadas, muito próprias, não deixando nunca em branco a memória cultural e histórica que do seu arquipélago natal herdaram e assimilaram.

A neo10 aí está. Quantos leitores tem, ninguém sabe, e na verdade pouco interessa. As little magazines orgulham-se sempre do seu nicho anti-massas. Reservam-se à missão, por assim dizer, de confirmar o que na literatura é bom, e sobretudo a propor o que é novo, de como em qualquer Tradição se dá o inevitável salto em frente. Para os seus leitores privilegiados, tornam-se publicações quase de culto. Décadas depois, os estudiosos recorrem às suas páginas para saberem como nomes consagrados iniciaram os seus actos criativos e rebeldes, a quem se dirigiam e com quem se relacionavam. A sua simplicidade gráfica é nos nossos dias, passe o paradoxo, revolucionária: rejeitam e atiram fora os estéreis exercícios de estilo, as macaquices de cor e formas, o asqueroso e inútil papel de luxo no qual o texto é habitualmente relegado a mera ilustração das fotos e  de outros riscos supostamente artísticos. O presente número da neo continua felizmente na sua linha de sempre com poesia, ficção e ensaio: açorianos, luso-americanos, continentais, anglo-americanos, e até um famoso escritor norueguês, traduzido para o inglês por outro colaborador da revista, marcam a sua presença.

De quando em quando, um número é dedicado é um escritor/a recentemente falecido/a, e este traz na sua abertura Rosa Lobato Faria (April 20, 1932-February 2, 2010) In Memoriam.

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Neo10 (direcção e coordenação de John Starkey, imagem da capa de Art Coelho, impressão de Coingra-Companhia Gráfica dos Açores, LDA.), Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 2010.