Dez Anos da Revista neo

Um outro mundo à nossa porta

A thing of beauty is a joy for ever.
Verso de John Keats, citado na neo10

O número dez da revista neo acaba de sair no Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, e por isso merece um breve apontamento sobre a sua já “longa” existência. A história deste género de publicação, little magazine, que os escritores americanos aperfeiçoaram nos anos 20, a grande  década do modernismo literário naquele país, é quase sempre muito mais curta. A neo, como quase todas as suas congéneres em qualquer país, tem características muito próprias. De formato clássico e papel meio amarelado e macio, já nasce com toda a idade da nossa civilização e cultura. O prazer de a folhear cresce com o tempo que passa nas nossas mãos e estantes, convida mesmo a uma relação quase sensual, física: virar o canto da página, sublinhá-la em todas as cores, anotá-la no que resta de margens, consultá-la quando um livro nos chama a atenção e lembramos vagamente as origens do escritor/a nessas outras páginas.

A neo é como todas essas revistas hiper-letradas e maravilhosas: acolhe um pouco de tudo na literatura que tenha a qualidade ou a temática previamente definida ou desejada pelos seus responsáveis editoriais. O grafismo é o mais simples possível, poderá ou não ser ilustrado com fotos ou quadros, especialmente a preto e branco quando os meios são — e são-no quase sempre, até mesmo na América farta — limitados, cada “contribuição” financeira utilizada com o maior cuidado e prioridades de quem não corre com ou pelo dinheiro, mas sim pela beleza, emoção e ideias que só a arte pura pode conter e transmitir.  O seu arranjo é mais ou menos — deliberadamente, pensadamente — meio caótico, faz parte da sua criatividade e capacidade de surpreender os seus leitores. A um conto de abertura, poderá seguir-se um poema, uma crónica, uma recensão, uma foto, ou até um ensaio académico com notas-de-rodapé e aparato bibliográfico. É um fórum de uma democracia literária absoluta, mas nunca cede à banalidade ou a favores: nas suas páginas poderão surgir um nome famoso, nacional ou internacional, lado a lado com o de um/a poeta começando a sua carreira, abrindo as portas às suas obsessões, ou o ensaísta de todo desconhecido, mas reconhecido pelos seus pares locais ou mesmo além-fronteiras, que poderão ser dez ou cem ou mil “especialistas”. Em suma, cada palavra, cada frase, cada parágrafo vale por si, e nunca pelo nome que assina a peça em questão. O leitor português pense na Orpheu (nos seus três números, apenas) de Fernando Pessoa: lá aparece uma Violante de Cysneiros, o pseudónimo de um dos escritores açorianos mais famosos e capazes, ainda hoje ignorado no restante país, e que conhecemos também pelo nome de Armando Côrtes-Rodrigues; “Poemas dum anónimo ou anónima que diz chamar-se Violante de Cysneiros”, indicavam eles no segundo número da revista do primeiro modernismo lusitano.

Antes de mais, façamos justiça. A neo foi inteiramente pensada e até hoje coordenada e dirigida por John Starkey, meu colega na secção de inglês da Universidade dos Açores. Luso-americano casado e residente no arquipélago há uns bons anos, tem as suas raízes no estado de Nova Iorque e afinidades literárias em todo o país, ele próprio é um poeta de admiráveis recursos linguísticos e temáticos. Não cabe aqui uma análise da sua obra, diga-se só que parece ser um sustentado mergulho na condição existencialista de um americano nos seus dias pós-modernos, uma outra voz da sua geração em equilíbrio entre a tradição e a inovação de linguagens e imagens que transmitem o seu lugar numa sociedade em mudança constante. De pouquíssimas palavras fora da sala de aula, formado em Escrita Criativa, são raros os que entre nós sabem da sua própria poesia, restringindo-se ele a um ou outro poema publicado na própria neo. Rodeou-se cá de alguns colegas e alunos com vocação literária, contactou os seus colegas na América, chamou a si os escritores açorianos disponíveis para a eventual colaboração na revista, inclusive os luso-americanos, abriu as páginas da neo a uma multiplicidade de vozes e géneros, em que um professor catedrático poderá aparecer ao lado de um dos seus próprios pupilos, ou de um escritor já recenseado no The New York Times ou publicado numa revista da Harvard ou da Brown University, assim como conhecido nas mais prestigiadas revistas literárias norte-americanas. A neo é naturalmente transnacional, um texto ou poema em português seguido de outro em inglês, um referencial ilhéu convivendo com mundos que vão desde uma grande cidade à pradaria norte-americana, a sua capa desenhada por um artista nosso, de cá ou no outro lado do mar, tendo o pintor Michael Hudec sido responsável pela maioria das suas edições. O seu primeiro número saiu em 2001, e inclui trabalhos de Katherine Vaz, Urbano Bettencourt, Álamo Oliveira, Adelaide Freitas, Cristóvão de Aguiar, Mary Harvard e Richard Simpson. Nele aparecem já dois jovens, então alunos de línguas e literaturas na nossa universidade, e que agora dão belíssima conta literária de si, merecendo aqui todo o destaque: o micaelense Hélder Medeiros, que mais tarde viria a escrever o romance Solução Primária, para além do seu trabalho de humorista largamente conhecido entre nós, e o terceirense Rogério Sousa, que em variados periódicos vem publicando uma série de contos e crónicas, ambos construindo o seu espaço literário entre nós com originalidade, com estéticas renovadas, muito próprias, não deixando nunca em branco a memória cultural e histórica que do seu arquipélago natal herdaram e assimilaram.

A neo10 aí está. Quantos leitores tem, ninguém sabe, e na verdade pouco interessa. As little magazines orgulham-se sempre do seu nicho anti-massas. Reservam-se à missão, por assim dizer, de confirmar o que na literatura é bom, e sobretudo a propor o que é novo, de como em qualquer Tradição se dá o inevitável salto em frente. Para os seus leitores privilegiados, tornam-se publicações quase de culto. Décadas depois, os estudiosos recorrem às suas páginas para saberem como nomes consagrados iniciaram os seus actos criativos e rebeldes, a quem se dirigiam e com quem se relacionavam. A sua simplicidade gráfica é nos nossos dias, passe o paradoxo, revolucionária: rejeitam e atiram fora os estéreis exercícios de estilo, as macaquices de cor e formas, o asqueroso e inútil papel de luxo no qual o texto é habitualmente relegado a mera ilustração das fotos e  de outros riscos supostamente artísticos. O presente número da neo continua felizmente na sua linha de sempre com poesia, ficção e ensaio: açorianos, luso-americanos, continentais, anglo-americanos, e até um famoso escritor norueguês, traduzido para o inglês por outro colaborador da revista, marcam a sua presença.

De quando em quando, um número é dedicado é um escritor/a recentemente falecido/a, e este traz na sua abertura Rosa Lobato Faria (April 20, 1932-February 2, 2010) In Memoriam.

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Neo10 (direcção e coordenação de John Starkey, imagem da capa de Art Coelho, impressão de Coingra-Companhia Gráfica dos Açores, LDA.), Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 2010.

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