Terra Nova

Quando Dizemos Adeus aos Nossos

Os escritores canadianos criaram, como grande tema tradicional, o herói comunitário.
Robin Mathews, Canadian Literature

Terra Nova é a tradução de Barnacle Love (Doubleday Canada, 2008), o primeiro romance do luso-canadiano Anthony De Sá, lançado em Portugal há alguns meses. Certamente por um erro (acontece) da D. Quixote (Lisboa), o título original não consta da ficha técnica. De qualquer modo, estamos perante uma competentíssima tradução de Maria Eduarda Colares, que quase nos faz esquecer no decorrer da leitura que se trata de uma obra originalmente escrita em inglês. Bem o merece, este romance, que divide em duas partes o seu fundo referencial entre os Açores (Lomba da Maia, São Miguel) e a pátria primeira do autor. Eis aqui o herói, aquele que sai a princípio dos anos 50 de uma pequena ilha para a imensidão da América do Norte contra a vontade da família, a bordo de um barco chamado Argus da extinta Frota Branca que pescava bacalhau nas águas geladas dos Grandes Bancos, e o anti-herói, anos depois do seu salto clandestino em St. Johns, mais ou menos integrado na sua nova comunidade em Toronto, mas cujos sonhos maiores se desvanecem na corrosão lenta de espírito que a realidade inevitavelmente a todos vai impondo. A linguagem vigorosa e despojada de Anthony De Sá (a linguagem que os minimalistas americanos, como Raymond Carver, desde há muito “impuseram” a muitos escritores das gerações seguintes), esconde nos seus melhores momentos toda a ternura e compaixão com que o narrador de Terra Nova, já nascido no Canadá e a braços com todos os conflitos clássicos da sua geração ante a persistente “marginalidade” dos pais na nova sociedade, vai dissecando os seus próprios sentimentos por entre a perplexidade e tristeza de ver como um homem outrora forte não consegue, no exílio, não poderia conseguir, sobrepor-se à crueldade do pragmatismo vivencial que exige dos seus cidadãos disciplina absoluta na contínua caminhada de um suposto “progresso” material, cada um tendo de aceitar, sem reclamar, o seu lugar ou a sua condição de mera peça mecânica utilitária.

Um dos momentos mais melancólicos em Terra Nova é quando o protagonista-imigrante, de nome Manuel António Rebelo, totalmente alcoolizado com vinho caseiro e já sem “sonhos”, insiste em cantar ou ouvir de um velho e gasto gira-discos a alto som o hino canadiano durante um dia inteiro nos anos 70. Na América do Norte é sempre assim, os derrotados aceitam tudo sem qualquer questionamento: os falhanços são sempre nossos, a sociedade de nada tem culpa, nunca. Varre o nosso chão e cala-te, pois vieste de um país que nada te pôde dar. É verdade na maior parte dos casos, mas o coração e a inteligência humana são muito mais complexos e intimamente misteriosos do que essa suposição elementar, quando não de todo ignorante.

As palavras do velho nacionalista canadiano Robin Mathews citadas em epígrafe aqui numa tradução minha, tiradas de um dos seus livros publicados também nos idos de 70, de nada têm de irónico neste contexto ficcional de Terra Nova. Sobreviver no Novo Mundo foi de facto para a grande maioria dos imigrantes um acto de coragem, visionário, heróico, quer o comportamento de cada um obedecesse ou não aos ditames beatos, quase social e culturalmente totalitários (como no filme americano Pleasantville), daquelas sociedades. Texto e contexto, literatura e sociedade.

Terra Nova aparenta a “inocência” narrativa de um adolescente ante a sua tragédia familiar, enquanto vai pedalando a sua bicicleta pelas ruas da grande cidade, mas em que quase tudo e todos à sua volta lhe lembram as suas origens. Quando nos conta a sua estória, recua pormenorizadamente aos seus dias desde os seis anos de idade, altura em que vem à Lomba da Maia com a família toda enterrar a sua avó materna, matriarca açoriana cujos próprios sonhos e raivas maiores irão com ela para a cova. Ninguém escapa aqui às tragédias de uma geração em limbo na terra de origem, e depois lá fora. A única universalidade das nossas vivências terá sido tão-só a sangria perpétua, real e metafórica, dos que procuraram uma saída do Nada ilhéu, e depois pouco mais encontraram para além da luta quotidiana em busca de uma “vida melhor”  num choro sem fim. Esqueçam a literatura norte-americana cujo tema primitivo era ingenuamente a caminhada da “pobreza à riqueza”, pois foi toda ela escrita num tempo em que o mundo ainda não se conhecia mutuamente, e as novas sociedades ansiavam pela sua própria justificação e bondade, só imaginada, apesar do sangue e suor desgastantes dos que as construíam em regimes económicos praticamente escravizantes. A ficção de Anthony De Sá insinua de leve algo disto tudo, creio, mas vai à procura sobretudo do desgaste de alma de uma família bipartida entre os sonhos do passado e a dureza do presente enterrada em caves que proporcionam a momentânea fuga ao mundo, e a dissipação no reles vinho caseiro. Há quase uma metaficção no interior de Terra Nova: um pai auto-destrói-se vagarosamente, uma mãe refugia-se na invenção artística a partir de velhos objectos metálicos encontrados ao acaso, um filho pedala em fuga incessante, uma irmã tenta esconder a sua infelicidade no embelezamento do seu corpo e na sua ironia que eventualmente explode em crueldade e auto-defesa, uma estátua de um Cristo metido numa velha banheira empinada no jardim da casa vigia indiferente, sem emoção, e as cataratas de Niágara servem de fundo à última cena do romance numa noite de Natal, a metáfora perfeita da beleza e da ameaça aos que se aventuram a mundos fortes e desconhecidos.

Pensei n’O Sonho — o que os tinha trazido até ali. Eu sempre acreditara que fora pela mesma razão. A minha mãe tinha o seu sótão, o seu metal e tinha-nos a nós. Mas o meu pai não parecia ter coisa alguma; não parecia querer o que quer que fosse, como se não valesse a pena persistir n’O Sonho. Ele vivia no ‘nada’. E no entanto, ela –conclui o narrador acerca desta outra matriarca, sua mãe, agora aguentando o desgaste do Novo Mundo — protegia-o como se precisasse de o fazer, como se tivesse de o fazer.

Do Canadá emergiram nestes últimos anos dois grandes romancistas de descendência lusa — Erika de Vasconcelos (My Darling Dead Ones/Meus Queridos Mortos), e agora Anthony De Sá com Barnacle Love/Terra Nova. Menos conhecido, mas de igual poder narrativo, está Paulo da Costa (The Scent of a Lie), este um imigrante de primeira geração, nascido em Angola e criado em Portugal, escrevendo em português e em inglês, a sua temática oscilando sempre entre o memorialismo da terra natal e a sua existência perto das místicas e avassaladoras Montanhas Rochosas. Para uma e/imigração que tem o seu início maciço só a meados do século passado, o nosso imaginário na outra pátria americana a norte vem sendo construído com a maior profundeza e beleza artística. São efectivamente eles, com pouquíssimas excepções entre as primeiras gerações que escrevem em língua portuguesa a partir da Diáspora, que melhor têm comunicado a nossa odisseia em terras longínquas aos portugueses que por cá ficaram. Publicam em editoras de grande prestígio no seu país, e Portugal tem sabido tomar nota, de vez em quando. Que se traduza outros — e veremos como a portugalidade além-fronteiras é mais forte do que a nossa presente e medíocre angústia existencial cá dentro.

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Anthony De Sá, Terra Nova, D. Quixote, Alfragide, 2009.

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