Sobre a Crítica Literária e Cultural

Como se posiciona hoje o critico interessado nas grandes questões – estéticas, culturais, morais?

Coordenadores do The New York Times Book Review
Vamberto Freitas

Em Portugal raramente se discute ou questiona a crítica literária nas publicações de grande projecção, assume-se que mais ninguém terá interesse, é uma questão guardada para revistas da especialidade, ou pelo menos para revistas de outro tipo dirigidas a elites académico-literárias. Creio ser um equívoco da nossa parte, pois se a imprensa lusa no seu todo, nacional e regional, sempre foi extremamente generosa para com os seus leitores mais sofisticados, sempre abrigou recensões e outros ensaios em suplementos e outras páginas dedicadas à literatura séria, deveria assumir que quem as lê provavelmente também se interessa pelo acto singular que é apresentação pública de livros, autores e questões afins.

Serão muito poucos os escritores que passavam ou passam uma vida a escrever só para os iniciados e detentores de códigos literários tão misteriosos como o sexo dos anjos. Quem escreve, é razoável assumirmos, escreve para o maior número possível de leitores no seu país, na sua região ou na sua língua, não se queria ou não se quer reduzido aos poucos para quem a leitura é quase um acto egoísta, uma espécie de declaração de sabedoria que provavelmente julgam inacessível a todos os outros fora dos seus círculos de amigos e conhecidos. De qualquer modo, a crítica no nosso país tem sido pouco diferente da que se pratica noutros países ocidentais: lado a lado aos teóricos e críticos académicos que se dirigem quase exclusivamente aos seus colegas e aos seus alunos de literatura e cultura, a comunicação com o grande público foi, pelo menos desde o século passado, uma constante; basta citar dois nomes de todo emblemáticos do melhor na nossa crítica “prática” dirigida à classe culta em geral: Gaspar Simões, que estava presente nas páginas do Diário de Notícias quando faleceu nos anos 80, e, ainda hoje escrevendo como mais ninguém, Eugénio Lisboa, principalmente no JL de Lisboa, difundindo o seu vasto conhecimento da literatura nacional e internacional, escrevendo com uma abertura tão iluminada e informada que não esconde nunca as influências que recebeu do mundo anglófono. O seu recente Indícios de Oiro, dois densos volumes de crítica ensaística, funciona como um prolongado seminário acerca de tudo o que se refere ao mundo das letras, deste e doutros tempos.

Veio o breve intróito de acima a propósito de um recente número do suplemento literário do The New York Times, que dedicou o seu espaço nobre na edição de 2 de Janeiro deste ano precisamente a esta questão, sob o título de capa “Why Criticism Matters”. Como em toda a parte, a imprensa atravessa dias difíceis, especialmente tendo a net como concorrente quase esmagadora. Nas questões literárias, pelas mesmas razões, o grande diário questionava um grupo de críticos no activo sobre o “que fazem” e “como o fazem” nestes tempos de incerteza e quando toda a gente, em meios diversos, já emite “opiniões”. Para o grande diário nova-iorquino, a crítica literária em geral continua a ser fundamental para a cultura no seu país. Os críticos e jornalistas literários de renome nacional — Stephen Burn, Katie Roiphe, Panka Mishira, Elif Batuman, entre alguns outros — responderam em ensaios a essa questão. Para quem e com que fins se escreve “crítica” humanística em geral? Ainda existem leitores suficientemente interessados e empenhados no conhecimento e na leitura de textos, digamos, consequentes e significantes, exigindo do mesmo modo discussões e diálogos consistentes na grande imprensa? Que papel desempenha na cultura nacional o debate literário e cultural nas suas próprias páginas e na de outros? As respostas foram diversas, mas convergentes nalgumas conclusões afirmativas.

A reflexão sobre o papel da crítica é já uma velha tradição anglo-americana. Nos EUA, foi retomada à grande escala durante o século passado, quer no projecto de certas publicações quer em colóquios de escritores e críticos, particularmente entre o grupo que viria a ser denominado como The New York Intellectuals, constituído na sua maioria por judeus-americanos de segunda geração, o grupo que girava em volta de publicações literárias como Partisan Review e Dissent. Uma das suas vozes destacadas no recente número do Times foi exactamente a do falecido Alfred Kazin, particularmente devido ao seu ensaio a meio do século que voltava contundentemente à questão, “The Function of Criticism Today”. Por seu turno, Edmund Wilson, que se recusou a assimilar até mesmo o New Criticism surgido de um distinto grupo de escritores e poetas sulistas e elaborado com força intelectual nos 40, e que influenciaria toda uma geração de estudiosos, é outro dos nomes evocados pela vastidão da sua obra, sobretudo pela sua contestação durante uma vida inteira à crítica académica e hermética, teorizante e não explicativa ou dialogante com aqueles que ele presumia serem os leitores cultos mas não “especializados” do seu tempo. A passagem do tempo viria a dar-lhe toda a razão: é ele que continua a ser lido e vastamente biografado, enquanto os seus antigos detractores universitários jazem no pó de estantes pouco ou nunca visitadas.

Na sua nota introdutória às páginas em questão, os coordenadores do The New York Times Book Review começam por denunciar as modas nalguma crítica do momento. Apontam a inutilidade de “vozes instantâneas, efusiva e crescentemente estridentes”, pois “vivemos numa época de opinião”, “muita dessa escrita auto-denominando-se como crítica, e no sentido mais superficial está correcto”, dado o temperamento crispado da nossa época, escrevem eles próprios com algum azedume. Perguntam depois que lugar cabe à crítica abrangente e competente em qualquer publicação dedicada à literatura, aos que se recusam a sentenciar raivosamente e a catalogar uns e outros, permanecendo firmemente dedicados às questões “estéticas, culturais e morais”, isto é, à função da própria obra de arte em qualquer um dos seus géneros.

As respostas dos seus convidados vêm espalhadas pelos vários textos dos seus autores, e sem haver unanimidade, a palavra que resta é clara: resistir a tudo o que na nossa época trivializa e desfaz a nossa cultura em geral. Se existem escritores que produzem obras de grande valor para leitores que continuam a ler com seriedade e em busca de verdade e beleza, os críticos devem continuar a sua missão de não deixar cair no esquecimento aqueles que guardam a nossa memória, e garantem a nossa identidade de cidadãos de cada país e língua, do mundo. Literatura e sociedade são ainda e sempre indissociáveis, cada texto um retrato-outro do nosso tempo e lugar, de nós. A leitura é para prazer puro e clarificação, ensinamento, aproximação ou conhecimento do outro e da vida na sua infinita diversidade. Sim, o crítico tem o dever de separar águas, e sobretudo resgatar a literatura, pelo menos nas palavras de um destes colaboradores do Times, do domínio de supostos especialistas que vivem à parte da sociedade, e devolver a dignidade ao leitor formado, de um modo ou outro, no gosto da arte e das ideias.

Os escritores, os leitores e os críticos não desapareceram. A outra grande questão, que não foi abordada pelo Times, é se continuarão ou não a resistir ao chamado “espírito do tempo”, em que imperam “os mercados” e o seu mortífero vampirismo, se as ideias humanistas e o seu principal meio de transmissão, os livros, forçam o seu regresso às cavernas de onde descaradamente se soltaram outra vez.

____________________________

        The New York Times Book Review, “Why Criticism Matters”, January 2, 2011.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s