Os Açores no Mapa do Mundo

                           Vamberto Freitas

O bem precioso da unidade estratégica do arquipélago dos Açores (…) não é um dado adquirido tendo em conta a evolução mundial.

José Medeiros Ferreira, Os Açores Na Política Internacional

 

Creio que nas palavras citadas acima está expressa uma das teses fundamentais de Os Açores Na Política Internacional, de José Medeiros Ferreira, volume acabado de sair em Lisboa. Que a República Portuguesa, adverte, não o esqueça nunca. O autor (cujo papel na nossa vida pública e extensa obra historiográfica dispensa aqui qualquer apresentação) aborda de novo a posição dos Açores na cena internacional a partir do agitado fim do século XIX até aos nossos dias, chegando a conclusões declaradamente optimistas quanto ao nosso futuro, mas lembrando passo a passo o que nem sempre nos tem sido óbvio ou claro, e como que lançando assim alguns avisos aos responsáveis mais directos pelo nosso destino. “A importância internacional dos Açores — escreve José Medeiros Ferreira logo de início — foi-lhe atribuída pelo jogo das potências, pela configuração das estradas comerciais marítimas e aéreas, pelo desenvolvimento técnico das artes da navegação, pelas invenções tecnológicas, em suma, pelo contexto da política internacional”. Por outras palavras, a legítima e activa defesa da soberania portuguesa no nosso arquipélago raramente dependeu da vontade ou acção do centralismo lisboeta em qualquer uma das suas versões. Os próprios açorianos, só séculos depois, com o advento dos movimentos autonómicos, começaram a ter uma ou outra palavra a dizer, de como e para o bem de quem queríamos os Açores, e mesmo assim nos nossos dias já no alargado e “manietado” contexto dourado da União Europeia. No fim deste seu livro, o autor relembra ainda aos poderes nacionais a quase incalculável riqueza que detêm no Atlântico com uma região unida, pela extensão dos mares em volta e pela força de negociação que essa nova realidade deveria representar em defesa da pátria no seu todo.

É evidente que a História não pode ser feita por todos — mas é, ou deveria ser, para todos, começando pelas classes cultas de uma sociedade que pretende manter a sua identidade. Se as monografias académicas são essenciais para o diálogo e investigações sectoriais entre colegas, e depois para a transmissão de conceitos teóricos no ensino a nível superior, a narrativa em linguagem clara e inteligente, num equilíbrio entre preconceitos ideológicos epocais, será o que mais profundamente determina a auto-imagem de todo um povo, a osmose de informação e ideias eventualmente direccionando as decisões esclarecidas numa democracia representativa. A prosa de José Medeiros Ferreira é esse diálogo aberto com todos os seus colegas, com todos os que estão conscientes de que no passado fomos sempre “objecto usado por outros”; reafirma logo de início esta sua escrita como sendo um “testemunho público, se bem que parcelar”. Encontrar e analisar documentos até há pouco secretos e espalhados por vários países ou entidades nacionais, alguns deles escondidos em caixas e estantes cobertas de poeira e indiferença, juntar datas, nomes e declarações, contextualizar acontecimentos e rever certas personagens de um passado recente para chegar a uma possível “explicação” do nosso presente comum, exige a disciplina e o saber que só um académico autêntico possui, sem esquecer todos os outros que entre nós se dedicaram e dedicam à divulgação histórica. Partilhar tudo isso com um público mais vasto e à partida já parcialmente informado e por certo com ideias próprias sobre o drama vivido, tornou-se efectivamente um imperativo dos estudos humanísticos contemporâneos.

 Os Açores Na Política Internacional contextualiza a “utilização” das ilhas pelas diversas potências mundiais a partir, curiosamente, da guerra hispano-americana em 1889, quando a Espanha e os Estados Unidos lutaram pelo controlo de Cuba. Revisita a seguir algumas das figuras cimeiras na nossa vida pública, passando necessariamente pelas movimentações provocadas pelas duas guerras mundiais, resultando na presença norte-americana, que tudo indica agora ser “permanente” na Terceira. Daí viria, sem dúvida, o impacto decisivo de outros entre nós: se as afinidades açorianas com o grande país a oeste já eram historicamente profundas, o pós-Guerra conheceria ainda a emigração em massa a partir da década de 50, aparentemente só estancada artificialmente há pouquíssimo tempo. Mais do que as implicações de natureza soberana ou política, é este facto que provavelmente mais nos deveria comover: a influência indelével dos americanos nas ilhas, não só entre os terceirenses, mas sim entre e para a sorte de todos os açorianos. Não é uma questão de gratidão, e muito menos de servidão — com a chegada da grande potência deu-se nada menos do que a salvação económica e social de milhares de ilhéus. José Medeiros Ferreira não entra nem tinha que entrar por estas questões, só que uma leitura atenta do seu livro levará qualquer leitor açoriano a rever toda a sua própria vida, quer tenha partido rumo ao além-fronteiras quer tenha ficado, como resultado das sucessivas “ocupações” da sua terra por estrangeiros. Nenhum deles nos oprimiu, todos eles contribuíram para um mínimo de dignidade nas nossas vidas, que desde sempre estiveram condenadas ao isolamento, e depois ao bem-querer desses outros que nos abriram as portas em momentos de vida e morte. Nunca nenhum intelectual das ilhas ignorou a nossa solitária deriva, inevitavelmente levando ao momento em que os açorianos exigiram a meados do século passado, finalmente com sucesso, um governo próprio.

Algumas das páginas mais fascinantes de Os Açores Na Política Internacional são as que analisam de como as ilhas só se tornaram uma região com órgãos de governo próprio, e de como igualmente cada potência estrangeira pensava-nos até então ilha a ilha, conforme os seus interesses ou emergências do momento. José Medeiros Ferreira procede depois à visão da nossa situação euro-americana do momento, e de como projectos científicos avançados a nível mundial, já no terreno, previstos ou em estudo e avaliação, nos estão recolocar no mapa do mundo. Se as questões militares e de defesa permanecem actuais no caos presente da multi-polaridade global emergente, reafirmam do mesmo modo a participação sem precedentes dos açorianos no seu próprio destino, particularmente no campo de estudos oceanográficos e atmosféricos, com outras ilhas servindo de base à vigia nuclear e espacial, albergando as mais sofisticadas tecnologias. No momento de crise em que vivemos, não deixa de ser reconfortante um livro que nos aponta algumas luzes no fundo do negro túnel. Os Açores já não serão só geografia estratégica. 

Se as ilhas voltam a ser um mero conjunto de terrinhas dispersas a meio-atlântico, dependerá sempre do que viverão os mais poderosos nas contingências de um complexo novo mundo em movimento político-económico vertiginoso. Pior do que essa eventualidade, seria a nossa incapacidade de nos entendermos como um todo, e o resto do país continuar na sua ignorância e retórica descabidamente provinciana ante as dificuldades presentes de uma das suas mais distantes e, talvez por isso mesmo, influentes regiões.

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José Medeiros Ferreira, Os Açores Na Política Internacional, Lisboa, Tinta-Da-China, 2011.

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