Antero em Nova Iorque

Se se realizarem os teus planos californianos, talvez um dia vá lá juntar-me contigo, buscando mais largos horizontes…

Antero de Quental em carta (1886) a João Machado de Faria e Maia

                         Vamberto Freitas

As palavras em epígrafe são retiradas do recente livro de Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental e a Viagem à América: Remando Contra a Maré. “Mas cinco anos mais tarde, — escreve a autora a dado momento neste seu outro olhar sobre um episódio muito conhecido mas totalmente deturpado desde o início na vida do autor de Odes Modernas — os ‘largos horizontes’ tiveram outro nome: Ilha de São Miguel, Ponta Delgada”. O acto final num banco do Campo de São Francisco em Ponta Delgada, sabemo-lo todos. O que não sabemos ainda e provavelmente nunca saberemos é o que de facto Antero de Quental fez ou não fez durante a sua estadia de um mês na então já grande metrópole em construção dos EUA, por onde andou, com quem falou, ou, mais importante do que tudo, o que pensou dessa sua experiência, singular e única então para um escritor e intelectual do seu tempo e do seu país, que só seria igualada nos anos mais ou menos imediatos por Eça de Queirós e, algumas três décadas depois, António Ferro. O que o livro de Ana Maria Martins, a mais reconhecida especialista nacional na obra anteriana, vem esclarecer é tão importante como se nos relatasse finalmente os passos do poeta em Nova Iorque: Antero de Quental e a Viagem à América desmente numa desconstrução implacável praticamente tudo o que foi dito e escrito sobre a aventura marítimo-americana do seu autor a partir do livrinho de António Arroio, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte (1916), todo ele dependente da informação fantasiada ou descaradamente inventada pelo proprietário e capitão do barco em que o poeta viajou a partir do Porto a 7 de Julho de 1869, Joaquim de Almeida Negrão. É claro que só a leitura atenta do presente volume poderá esclarecer os leitores dos nossos dias sobre o que aconteceu, ou melhor, poderá ter acontecido.

Lembro-me de, ainda como jovem universitário na Califórnia, ter lido o relato inicial da aventura americana de Antero de Quental, e me quedar perplexo com a “informação” de que o poeta quase não tinha saído para terra. Depois de tanta e longa tormenta nas agitadas águas do Atlântico, não teria Antero de Quental se passeado em Nova Iorque para olhar o vaivém frenético de etnias de muita Europa em convivência numa outra pequena ilha comprada a nativo-americanos, um poeta e pensador da sua estatura sem a mínima curiosidade da invenção do capitalismo moderno, e mais ainda da própria modernidade que ele em breve defenderia nas célebres e decisivas Conferências do Casino, a cidade infernal — Nova Iorque é um tour de force da brutalidade, escreveria Eça do Queirós, para mais adiante no mesmo texto dizer que, é necessário amá-la — declamada e amada por Walt Whitman, que Ana Maria Martins diz agora fazer parte de um trio de poetas e escritores americanos (Edgar Allan Poe e Henry W. Longfellow) na biblioteca pessoal de Antero de Quental? Antero de Quental e a Viagem à América: Remando Contra a Maré não vem nem poderia vir, repita-se, pormenorizar nada do que fez e pensou o poeta em Nova Iorque, mas vem pelo menos, insistentemente, desmascarar todas as incongruências do relato dessa viagem, desde o dia em que Antero de Quental decidiu entrar no patacho Carolina que o levaria ao Novo Mundo até às probabilidades das suas andanças em Nova Iorque: das suas visitas a uma exposição de novas tecnologias no Central Park aos seus passeios pelas ruas da cidade tomando nota da balbúrdia selvática à sua volta, tal como havia feito quando por uns meses visitou e trabalhou como tipógrafo em Paris. Com efeito, Ana Maria Martins convence-nos com todo o seu saber da vida e obra do autor que nada menos poderíamos esperar de uma inteligência e sensibilidade como a do açoriano que, para além da sua obra poética, teorizaria e fundaria o socialismo humanista em Portugal. A América era então para ele (juntamente com a Suíça) o exemplo perfeito das virtualidades de uma república federativa, por ele arreigadamente defendida para Portugal no contexto ibérico.

A leitura de Antero de Quental e a Viagem à América é um outro curioso acto de ironia: continuamos a não saber nada da experiência da sua aventura no continente a oeste, mas revisitamos o seu pensamento político e postura ideológica, as suas relações com algumas figuras literárias do nosso cânone, quedando-nos para sempre em conjecturas mais do que prováveis sobre o que na realidade teria sido a atitude de Antero de Quental face ao ser-se açoriano e ao nosso destino de navegadores seus contemporâneos, para quem precisamente a América havia despertado irremediavelmente como geografia da nossa salvação e regeneração. Ana Maria Martins escreve nestas páginas o que nunca tínhamos lido antes sobre o poeta: na linguagem actual, a sua açorianidade profunda, a ilha e o mar como génese do seu modo de ser e presente em muita da sua poesia, o entendimento e até cumplicidade, uma vez mais, nesta vertente do seu pensamento, do apelo que a América sempre representou para nós. Relembra-nos que as origens não são nem impedimento nem determinam qualquer apartamento na convivência com outros e vastos mundos; só que moldam decisivamente a cosmovisão de qualquer homem ou mulher que daí parta para o mundo. Mais do que as incertezas sobre o que ele experimentou na sua viagem a Nova Iorque, a citação da sua carta a Faria e Maia sobre a Califórnia demonstra a abertura a todas as possibilidades que Antero enfrentava, e o seu conhecimento da nossa necessidade de buscar a sorte noutras partes, ou pelo menos procurar além-mar uma vida que a terra natal nos negava.

A Viagem de Antero de Quental à América: Remando Contra a Maré aborda outra vertente no que concerne a obra anteriana e o que nos tem distanciado de um entendimento global mais realista, particularmente desde a publicação do famoso In Memoriam. Toda a sua vida, escreve Ana Maria Martins, permanece numa “névoa” de suposta “santidade”, que lhe nega a “normalidade” no seu tempo, agora mitificado, e no nosso. No fundo, Antero foi mais um grande poeta e pensador, que, como muitíssimos outros escritores em toda a parte, sofreu de “nevroses” e de humores radicais, tendo vivido para a arte e as ideias, mas profundamente radicado no seu meio e entre os seus. Nem foi filho de terratenentes micaelenses, nem gozou de privilégios fora do comum dos meio-abastados na sociedade da época. Foi o filho de uma elite mais educada do que rica ou poderosa. Quando na passagem aqui citada refere que a Califórnia poderia ser uma saída para o seu futuro de vistas alargadas, ou para o bem-estar das crianças adoptadas por quem era responsável, fica claro que Antero de Quental pouco difere historicamente dos seus conterrâneos ilhéus. Portugal foi-lhe o país que continua sendo para nós: um amor sofrido, um casamento instável e cruel, a casa pobre e caída que nunca deixa de sonhar ou fantasiar a sua gloriosa salvação. A tragédia maior foi um dos grandes poetas europeus ter um dia resolvido regressar à sua ilha natal para se sentar num banco e partir deste mundo.

O único erro foi não ter navegado para a Califórnia.

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Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental e a Viagem à América: Remando Contra a Maré, Lisboa, Tinta-da-China, 2011.

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