Música Perdida,

de Luiz Antonio de Assis Brasil:

Um Segundo Olhar

Gritava contra o destino, esse ente imune às blasfémias.

Luiz Antonio de Assis Brasil, Música Perdida

 

Vamberto Freitas

     Ficção e História têm uma longa tradição no Brasil, especialmente nos seus dois pólos mais geográfica e culturalmente longínquos: o Nordeste dos sertões e o Sul das pampas. Não creio tratar-se aqui de qualquer ironia imposta no processo que levou à criação da nação imensa e dividida por distintas áreas territoriais, nem sequer pelo processo guerreiro e caótico traçado desde a colonização iniciada em Quinhentos. No entanto, a força e o dramatismo, quase sempre trágico, da literatura brasileira correspondente a essas duas realidades, encontra um paralelo no outro país americano a norte, com a experiência sulista e a literatura que dela brotaria imparavelmente desde a Guerra Civil até aos nossos dias. Ou, como diria Edmund Wilson, que andava sempre atento a estes fenómenos de várias sociedades, os centros do poder são sempre hegemónicos e as outrora periferias sangravam real e espiritualmente pelo seu lugar digno no parto da nação a que fatalmente teriam de pertencer, com ou sem o seu consentimento. O ensimesmamento provocado por esses tremores violentos e pela solidão “redime-se” historicamente em literaturas que saltam dos seus recantos para a humanidade em toda a parte. Melhor do que a História convencional, já muitos outros o disseram, só a arte tem sido capaz de retratar o coração humano em épocas de grandes conflitos colectivos, ou em guerra “consigo próprio”.

     A vasta obra ficcional de Assis Brasil é como que uma gigantesca tela de cores sombrias na qual o indivíduo nos olha e silenciosamente e nos interroga, sem nunca deixar de perceber que por detrás dele e cercando-o em todas direcções estão os seus mundos em comoção violenta, ameaçadora.  

     Música Perdida recorre a figuras marcantes ou esquecidas da vida cultural brasileira a meados do século XIX, acompanhando-os nos seus agitados ou apagados percursos de vida, e sobretudo recorre à própria arte, a criação aqui um acto ou gesto simultaneamente demoníaco e sagrado, o jogo de espelhos que nos devolve a “nossa” própria imagem, a epifania do leitor ao reconhecer-se nas obsessões do artista reinventado nessas páginas. A certa altura neste romance o narrador diz que os grandes escritores são aqueles que dizem o que queremos ouvir ou o que reconhecemos como sendo parte de nós. É certo que o protagonista de Música Perdida é compositor e músico, Maestro Joaquim José de Mendanha, que parte de Minas Gerais para o Rio de Janeiro e depois para Porto Alegre, sempre à procura do seu lugar de artista numa sociedade em comoção. De sangue negro e de origens ainda esclavagistas, a sua potencial genialidade, real ou imaginada, reconhecida e apoiada por aristocratas, burgueses ou outros artistas, nunca supera nem a sua condição pessoal nem a turbulência colectiva em curso. Acaba os seus últimos quarenta anos em Porto Alegre, amado mas incompleto, como instrutor, maestro de bandas e pequenos grupos musicais de vária ordem, sonhando com os seus ídolos europeus, esses num pedestal inatingível, alicerçados numa mítica da grandeza europeia que se encarregava de marginalizar todos e qualquer um fora do círculo geográfico escolhido pelos deuses. Música Perdida não é um romance sobre música (se bem que o leitor desconhecedor muito sobre ela aprende), como Moby Dick não é sobre baleias; se este sugere como a natureza indiferente pode actuar e corromper o coração humano, Música Perdida traça os elementos societais que, por mais alheios que sejam aos projectos ou à genialidade de cada um, acabam por cercear toda a força e vontade de um artista. Não há, parece, como fugir ao Destino. Até a mulher amada por Mendanha aparece um dia por mero acaso, ou pelo menos sem que ele a esperasse. É a única força do romance que traz ao protagonista a felicidade calma, a que mais nada pede nem requer senão companhia e cumplicidade. O resto é Tropa e Igreja, “aceitando” quem lhes convém, e assim condicionando, sempre, o seu destino, essa suprema “blasfémia”.

     A estrutura narrativa de Música Perdida leva-nos ao passado e presente do tempo ficcionado, os passos decisivos na vida de Joaquim José de Mendanha são traçados desde a sua juventude para que o acompanhemos no último dia, nas últimas horas que precedem a sua morte em Porto Alegre a 28 de Agosto de 1885. Da “voz” ambígua do narrador retiramos com toda a precisão o estado interior do protagonista encarando a morte eminente, uma torrente ao mesmo tempo de angústia e aceitação. Esta fluidez de “factos” e conjecturas leva-nos a esquecer o tempo recuado da narrativa, colocando-nos (no próprio tempo dos leitores, hoje) diante desses espelhos, ora claros ora distorcidos, devolvendo-nos a nossa própria humanidade, a nossa própria condição entre a felicidade das coisas realizadas e o desespero das dúvidas. Depressa esquecemos a geografia, as circunstâncias históricas, as estrelas do Sul, o próprio Brasil. “Sim, aqui é longe”, observa o narrador a determinada altura referindo-se ao estado de espírito do seu protagonista. Como que a dizer: a nossa casa, o nosso “território do coração”, as nossas circunstâncias, uma vez mais, ficam sempre “longe” dos nossos sonhos, das nossas angústias de querer viver a promessa que se mantém sempre, para todos, a promessa. É esse o confronto eterno entre a genialidade que a poucos ilumina e a trivialidade circundante dos restantes. “Queimem esta casa”, escreveu um dia o romancista sulista norte-americano William Styron. Mendanha tem nas suas últimas horas de vida um desejo muito parecido, concretizado por completo, num acto elegíaco pelos que o amavam. Deixem que a memória de tudo e de todos pereça comigo.

          Música Perdida de Luiz Antonio de Assis Brasil faz parte do tríptico iniciado com O Pintor de Retratos (2001) e A Margem Imóvel do Rio (2003). A Grande Arte não tem, nunca teve, geografias exclusivas. Só língua e linguagens.

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     Luiz Antonio de Assis Brasil, Música Perdida, L&PM Editores, Porto Alegre, 2006.

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