Dois Grandes Escritores Americanos ao Largo dos Açores

 

Grandes navios verdes/eis que navegam/ancorados para sempre/sob as águas

John Updike, Açores

 

 

    Vamberto Freitas                               

Os portugueses, muito especialmente os açorianos, marcaram presença com frequência na literatura norte-americana a partir do século XIX até aos nossos dias. Ora como personagens decisivas ora meramente decorativas, foram quase sempre representações marcadas pela má fé, ignorância e racismo aberto desses escritores, que vão desde Mark Twain a John Steinbeck. No entanto, pelo menos dois grandes escritores norte-americanos “viram” os Açores e os açorianos de modo radicalmente diferente,  demonstrando que certas “sensibilidades” e “racionalidade” nem sempre cedem a preconceitos culturais e históricos. Dois casos curiosos são o de John Updike e de Edmund Wilson, o primeiro na sua maturidade absoluta, o outro na sua meninice curiosa e creio que já prevendo o crítico de vistas largas e, sim, multicultural da sua sociedade. Updike passou ao largo dos Açores a meados do século passado, e fez um poema que chamaria até a atenção de Jorge de Sena, que o traduziu; Wilson, também nos viu ao longe adentro de um navio a caminho da Europa, mas escreveria no oposto absoluto a um Mark Twain, este desorientado e americanamente feroz para com os faialenses no seu Innocents Abroad aquando da sua passagem pelas ilhas a meados do século XIX. Aliás. Onésimo T. Almeida, que organizou a colectânea de poesia açoriana (The Sea Within, 1983), traduzida em grande parte por George Monteiro e publicada pela Gávea-Brown, dedicaria o livro “to Melville, who understood the Azoreans, and to Mark Twain, who did not.” Eis John Updike, no seu poema “Açores”:

Grandes navios verdes

eis que navegam

ancorados para sempre

sob as águas

 

enormes raízes de lava

prendem-nos firmes

a meio do atlântico

ao passado.

 

Os turistas, pasmando

do convés,

proclamam aos guinchos lindas

as encostas malhadas

 

de casinhas

(confetti)  e

doces losangos

de chocolate (terra),

 

Maravilham-se com

os campos graciosos

e os socalcos

feitos à mão para comer

 

os modestos frutos

das vinhas e das árvores

importadas pelos

portugueses:

 

paisagem rural

vindo à deriva

de há séculos;

a distância

 

amplia-se.

O navio singra.

Outra vez a constante

música alimenta

 

um vazio à popa,

os Açores sumidos.

O vácuo atrás e o vácuo

à frente são o mesmo.

 

*

 

Edmund Wilson em A Prelude: Landscapes, Characters and Conversations from the Earlier Years of my Life  (1967), numa tradução livre minha:

“8 de Maio de 1908  [O meu aniversário. Tinha treze anos de idade]

As Ilhas dos Açores.

Durante a tarde passámos ao largo de três ilhas dos Açores. Primeiro passámos ao largo do Faial, e depois pelo Pico [Peko, como aí escreve Wilson]. O Pico tem uma montanha com 7.613 pés de altura, o cume do qual está nas nuvens. Depois disso avistámos a ilha de São Jorge, que é muito bonita.

Podíamos ver [o que pareciam ser] palmeiras ao cimo das montanhas. As casas eram esbranquiçadas com telhados avermelhados e havia muitos moinhos, que mais pareciam gigantescos brinquedos de criança. De São Jorge, chegou até nós um homem fardado, o Cônsul americano, na companhia de alguns portugueses, vindo todos ao navio para receberem o correio, que lhes foi atirado barco abaixo enquanto o comandante falava através de um megafone com o cônsul, que usava um monóculo.

O povo dos Açores é quase todo português, (porque as ilhas pertencem a Portugal) e é muito asseado. Tão asseado que alguns emigrantes dos Açores não estavam autorizados a misturarem-se com outros, tendo um lugar reservado só para eles.

As ilhas são muito diferenciadas entre si e montanhosas e pareciam rodeadas por falésias muito  altas, com as ondas a  galgar meia  rocha.

Uma senhora disse-nos que tinha três filhos, todos rapazes, que nunca tinham visto os Açores.

Passámos ao largo de São Miguel às quatro da manhã.”

*

Wilson viria, muito mais tarde na sua vida, já como crítico e ensaísta famoso, a ser um dos melhores amigos e admiradores de John dos Passos. Demonstra na sua correspondência já publicada que se dava conta do momento em que Dos Passos se tornava consciente, por assim dizer, da sua costela lusa, começando então a virar-se mais atenta e emotivamente para esse lado da sua ancestralidade. Mas Wilson alimentava por sua parte fortes preconceitos contra outros. Dos espanhóis, por exemplo, só falava com desdém, e dizia que nem conseguia uma leitura completa de D. Quixote. Aos Árabes, chamava-os “dopey”. Ante os portugueses, Wilson manteve-se quase sempre calado, mas vários factores, de mais ou menos importância, contribuíram para uma atitude, digamos que mais tolerante: a sua profunda amizade com o autor de Manahattan Transfer e de The Portugal Story, e ainda a consciência ética e estética do Modernismo norte-americano; o facto de ter vivido durante anos e anos em Wellfleet, vizinho portanto de alguns imigrantes nossos e de muitos luso-americanos, dando diariamente preferência ao pão das nossas padarias – e algo mais. Wilson era o grande crítico americano do seu (longo) tempo a que nada e ninguém lhe escapavam na área da literatura. Já na década de setenta, Wilson confessa-se ao escritor e crítico britânico V. S Prittchet (que acabava de publicar um longo ensaio sobre Eça de Queirós, mais tarde reproduzido no seu livro The Mythmakers) dizendo-lhe que sempre tinha querido ler o romancista português, mas simplesmente não confiava em traduções (ele que lia em várias outras línguas, incluindo hebreu e húngaro). Confessou ainda noutro texto dos anos60 a sua “injustiça” perante todo o mundo hispânico e as suas literaturas nas Américas. Mas já era tarde de mais para se redimir. Wilson faleceu aos 77 anos em 1972.

A “construção” de “imagens” étnicas numa sociedade multicultural como os Estados Unidos (ou Canadá) é algo de muito complexo, contraditório, envolvendo “grandes” e “pequenos” factores intelectuais e afectos vários, acasos do nosso dia-a-dia, processo no qual tanto a literatura como o cinema têm influência decisiva, principalmente numa sociedade tão mediatizada como os EUA.

Por mim, no que a nós portugueses diz respeito, prefiro John Updike e Edmund Wilson a Mark Twain e a John Steinbeck. Mesmo em poemas ou em textos aparentemente de pouco “alcance” como os que aqui referi e citei. Criticar ou deformar uma cultura em representações de todo ignorantes ou de pura má-fé não deve nunca ser desculpado. Gostos e estética também são assim — subjectivos e preconceituosos. Ainda hoje leio com proveito e prazer qualquer um dos escritores norte-americanos aqui mencionados, mas sabendo pelo menos escavar o preconceito escondido no que tenta passar por arte ou mero exercício intelectual.

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The Sea Within (Translation by George Monteiro, Selection, Introduction and Notes by Onésimo T. Almeida),Providence, Gávea-Brown, 1983.

Edmund Wilson, A Prelude: Landscapes, Characters and Conversations from the Earlier Years of my Life,London, W. H. Allen, 1967.

Da Diáspora, de Nós e do Diário de Notícias

Eu sou eu e as minhas circunstâncias.

José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914

 

                                                                          Vamberto Freitas

Há momentos nas nossas vidas que, por mais insignificantes que nos pareçam quando nos acontecem, mudam para sempre os nossos rumos, tornando-os definitivos e de maior importância pessoal. Foi o que me aconteceu no fim do ano de 1979 quando recebi em minha casa um inesperado telefonema de Mário Mesquita, então director do Dário de Notícias, diário lisboeta que eu lia só esporadicamente na Califórnia, mas já conhecia suficientemente alguma da sua história, e sabia da sua influência entre as classes políticas e cultas do país. Timidamente, ouvi Mário Mesquita dizer que tinha falado com um amigo comum e que ele lhe havia passado o meu contacto — queria convidar-me para correspondente do jornal. Lembro-me bem não só da euforia criativa que isso trazia à minha actividade jornalística em geral, como, sobretudo, uma abertura de possibilidades intelectuais pouco habituais para quem vivia (ou ainda vive) na Diáspora. Eu tinha 28 anos de idade, formado em Estudos Latino-Americanos (com o Brasil no centro do currículo), professor efectivo do Ensino Secundário da Califórnia, colaborador de vários jornais comunitários, especialmente, nessa precisa altura, do Portuguese Tribune (fundado e dirigido pelo falecido João Brum), no qual mantinha, para além de eventuais reportagens de fôlego, uma coluna denominada “Temas e Crítica”. Nunca pensei que alguém fora daquele espaço l(USA)lândes a oeste de tudo tomasse nota do meu ou do nosso trabalho num pequeno semanário de língua portuguesa. Só que um ano antes eu tinha conhecido Onésimo T. Almeida, que, afinal, seguia da Brown University a minha actividade em volta do jornal, e não só — tinha sido ele a recomendar-me como correspondente do DN com base naquela longínqua parte dos EUA. Digo “longínqua parte” porque a “presença” da Diáspora estava nos primórdios, a sua importância ainda não tinha despertado em Portugal, pelo menos entre alguns círculos públicos, a consciencialização de que era essencial um maior envolvimento entre o país e o seu povo disperso pelo mundo inteiro.

Foi essa nova etapa da nossa história nacional que cedo Mário Mesquita percebeu, e decidiu abrir as páginas do DN a essas realidades então quase desconhecidas por completo. O interesse principal, no que dizia respeito à minha correspondência, seriam as comunidades portuguesas, maioritariamente oriundas dos Açores e dispersas pela vasta geografia da Califórnia, do extremo sul ao extremo norte do estado. A primeira e fundamental questão a considerar seria como “explicar” este outro mundo luso totalmente afastado e desconhecido dos leitores continentais, que nem do nosso arquipélago sabiam muito. A única orientação que eu tinha era que o DN era lido desde o Presidente da República ao mais anónimo cidadão. Queria dizer que, para além do estilo jornalístico clássico, haveria ainda uma essencial componente puramente didáctica. Alguns destes requisitos, portanto, não seriam encontrados nos habituais manuais académicos da profissão, e a nossa noção de “objectividade” pouco tinha a ver com a dos anglo-saxónicos. Depressa ultrapassei algumas dúvidas, e iniciei o meu trabalho: seria uma escrita entre a “reportagem” pura e o “ensaio”, os factos entremeados com as explicações necessárias, uma outra espécie de crónica, que sempre foi o género preferido da escrita imigrante lusa em geral. Ia esperando as reacções da direcção do DN, que se reduziam, sempre, a uma palavra – “continue”. Muito mais tarde, num prefácio a um dos meus livros — Pátria ao Longe: Jornal da Emigração II — constituído também por muitos destes  trabalhos, Onésimo T. Almeida refere que havia dito a Mário Mesquita, mais ou menos, que me dessem ou abrissem espaço, o que sempre fizeram. Assim, fui alargando a temática muito para além das questões comunitárias: comecei a focar a política e cultura norte-americanas, e esporadicamente eventos de grande gravidade, como um terramoto devastador na área de San Francisco a fins dos anos 80, e de seguida a primeira guerra do Golfo, em que fui encarregado da cobertura sistemática da ”frente interna”, já sob as direcções de Dinis de Abreu e depois de Mário Bettencourt Resendes. Foram grandes desafios para mim em primeiros trabalhos verdadeiramente de campo e, por vezes, com os minutos a ditar o envio de despachos diários através de fax.

Foi, como insinuei aqui no início, um percurso mais do que enriquecedor. A certa altura Mário Mesquita sugeriu-me que escrevesse sobre a literatura açoriana contemporânea, pois eu tinha dado conta — o que continuaria a fazer ainda durante alguns anos no mesmo jornal, mesmo já a residir definitivamente nos Açores a partir de 1991 — dalguma literatura norte-americana. Foi para mim a cereja num deliciosíssimo bolo. Era a minha intenção tentar melhor perceber, através da escavação profunda de textos, o chamado close-reading, toda uma geração literária, tanto na Diáspora como nos Açores. Aliás, o primeiro mini-ensaio literário (em forma disfarçada de recensão com o título de “Depois da Gargalhada”) que publiquei em Portugal foi sobre o teatro Ah! Mònim Dum Corisco!… de Onésimo T. Almeida na revista A Memória da Água-Viva, sob a direcção de Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros. Como estava longe e praticamente isolado na Grande Los Angeles, os meus únicos contactos eram com alguns amigos espalhados por dois continentes, não conhecia pessoalmente a maior parte dos escritores sobre quem escrevia, tendo por isso a liberdade (que em pequenos meios está constrangida também por motivos diversos) de deixar a prosa e os juízos correrem com toda a despreocupação de quaisquer consequências a nível pessoal ou profissional. A certa altura, o escritor João de Melo dir-me-ia que eu estava a criar anti-corpos em duas frentes simultâneas: entre os leitores continentais que não queriam — ou invejavam — ouvir falar das ilhas com tanto e nobre espaço, e entre alguns dos escritores açorianos, estes por comissão e omissão minhas. Com uma mentalidade essencialmente norte-americana, pouco me preocupavam uns e outros. Seguia o que nos dizia, mais ou menos, um antigo professor de literatura na minha faculdade californiana: escrever sem desagradar a alguns é uma perda de tempo, uma falha contrária às razões inerentes à própria escrita. Importava-me, só, a dignidade e justiça do Diário de Notícias ante as responsabilidades jornalísticas e intelectuais que me iam atribuindo.

Foi também em parte por esse trabalho de crítica literária no Diário de Notícias que me convidaram a participar nos Encontros de Escritores Açorianos da Maia, sobre os quais escrevi recentemente nestas páginas. Pela primeira vez, eu conhecia alguns autores “nossos”, fazia e reafirmava umas quantas amizades, estendia ainda mais toda uma geografia, real e imaginária, de afectos e interesses literários. Deixando condições profissionalmente privilegiadas numa América que desde há muito se tornara outra pátria minha, encontraria as mesmas bem-aventuranças nas ilhas do meu ser, vivendo nessa altura, como agora, os sobressaltos do seu progresso e merecida vingança histórica.

Escrevi no Diário de Notícias durante mais de catorze anos. Após o meu regresso aos Açores, continuei com a colaboração no suplemento Cultura, com crítica e ensaios, sempre, sobre as literaturas norte-americana e açoriana. Raramente folheio esse monte de páginas amareladas, evito a nostalgia dos tempos em que a palavra escrita, sobretudo a literatura, ainda ocupava a centralidade da nossa cultura e valores. Resta-nos, por enquanto, a força da tradição intelectual açoriana nas páginas dos nossos próprios jornais. Cada vez mais reduzidas, por certo, mas ainda com uma abertura única no país.

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Paulo Simões, director do Açoriano Oriental, pediu-me esta meditação sobre a minha experiência como correspondente e colaborador do Diário de Notícias. Em vez de pormenores sobre o trabalho de oficina, preferi dizer-lhe o que essa experiência “significou” para mim.

 

A Gávea-Brown e a Cultura Luso-Americana

Vamberto Freitas

Deixemos a pornografia, e falemos dos imigrantes. A este respeito, há equívocos de vária ordem.

Jorge de Sena no primeiro número da Gávea-Brown, 1980.

A “pornografia” de que falava Jorge de Sena no ensaio “Ser-se Imigrante e Como” que abria o primeiro número da Gávea-Brown nos idos de 80, e dois anos após a sua morte na Califórnia, que teria sido um dos seus últimos escritos, não se referia à pornografia propriamente dita, era antes uma declaração metafórica pela qual ele descrevia a historicidade portuguesa e algumas relações institucionais em certas academias, mas poderemos estender todo o conceito a muito do que se passava e passa em nossa volta. Certamente que se o autor de Peregrinato Ad Loca Infecta estivesse ainda entre nós, a mesma fúria verbal, talvez de violência acrescida, caberia plenamente na descrição do muito que nos está a acontecer actualmente. O ponto aqui é outro: uma então “pequena” revista universitária que saia com um Jorge de Sena a abrir as suas páginas tratando do nosso histórico estatuto de imigrantes na América do Norte, naturalmente com intelectuais e outros escritores pelo meio, seria em qualquer parte mais do que uma chamada de atenção: foi a evidência que faltava de que tudo entre nós estava em mutação evolutiva, tal como havia acontecido no nosso país de origem poucos anos antes. Esse primeiro número da publicação aqui em foco ficava pelas 53 páginas, mas a sua qualidade formal não tinha antecedentes nos “hifenados” estudos lusos além-fronteiras, a vida criativa dos nossos imigrantes só não era considerada em parte alguma como até havia quem negasse essa sua faceta criativa. Éramos supostamente só força braçal e fiéis depositários de remessas para salvar a mãe-pátria, falando alto e mal todas as línguas, irrompendo espampanantemente por cá de quando em quando. Ao ensaio de Jorge de Sena, seguiam-se contos inéditos (e uma entrevista) de José Rodrigues Miguéis e George Monteiro, assim como poesia de outros nomes conhecidos e desconhecidos (Luís Amorim de Sousa, Alberto de Lacerda, Urbino de San-Payo), e ainda a arte do falecido pintor açoriano Rogério Silva, que também do Faial e depois da Terceira havia sofrido a sorte marítima da maior parte dos seus conterrâneos.

Acaba de sair o mais recente volume (XXX-XXXI 2009-2010) da Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, com o seu conteúdo cada vez mais diversificado, em duas línguas, mas com a escrita, arte e a caminhada histórica das nossas comunidades na América do Norte através da sua rica literatura em todas as formas a servirem de corpo a essa outra temática tão nossa como a fatalidade de sermos navegantes perpétuos em mar revolto. Falarei mais adiante desse conteúdo literário e cultural único entre nós, mas já é mais do que tempo para dedicarmos a esta publicação a atenção que bem merece. É certo que os estudos portugueses, por mais periclitantes que estejam sempre nas grandes academias do mundo, conheceram nas décadas pós-25 de Abril um certo florescimento nos países com quem matemos desde sempre relações políticas ou aos quais a história nos interligou para sempre, inclusive pela nossa emigração maciça durante os últimos dois séculos. São trinta e um números em pouco mais de trinta anos, desde há muito com mais de 240 páginas divididas por secções académico-científicas e criativas. Para uma publicação deste género poder-se-á falar de uma admirável persistência e contínua projecção e escavação da nossa produção literária, académica e intelectual em comunidades cujo modo de vida e aparência gerais à superfície não indicariam tão rico legado público. A verdade é que a nossa imigração, até mesmo a nossa presença na América durante os anos da fundação nacional, sempre deu conta da sua vivência ou passagem por terras longes e estranhas. A partir da segunda metade do século XX, essa literatura floresceu abundantemente, e hoje a Gávea-Brown dá ainda conta de um rol considerável e prestigiado no mundo literário norte-americano de luso-descendentes que nos escreveram e escrevem brilhantemente em inglês. A lusofonia é multilingue, e por certo tanto mais rica e consequente por isso.

A Gávea-Brown foi fundada, e ainda hoje dirigida, por Onésimo T. Almeida e George Monteiro no então Center for Portuguese and Brazilian Studies, hoje departamento, da Brown University, privada e democraticamente elitista, de onde têm saído algumas das mais proeminentes figuras da vida política, científica e intelectual americana. Não poderia, de modo algum, existir abaixo das exigências da sua instituição, não teria sobrevivido sem garantir à própria universidade uma mais-valia, prestigio, e sobretudo um reconhecido contributo a um crescente entendimento do mundo lusíada na sua vertente imigrante e luso-americana. Nem antes nem depois teríamos um projecto que nasceu na humildade dos verdadeiramente “grandes”, e continua sem desvios nos objectivos a que se propôs desde o começo.

“Inicialmente destinada a veicular em português a expressão literária e artística da experiência imigrante portuguesa nos Estados Unidos, — escreveu Onésimo T. Almeida no primeiro editorial de 1980 — cedo na sua fase de concepção se tornou evidente que só uma publicação bilingue se justificaria. Primeiro, porque não faria sentido o confinamento a uma só língua, quando a realidade-objecto da temática da revista acontece tanto em português como em inglês, ou simultaneamente em ambas; segundo, porque as potencialidades da revista seriam consideravelmente alargadas (colaboradores e leitores), com consequências directas nas possibilidades de aumento de qualidade do conteúdo, uma vez que se disporia de maior variedade de onde seleccionar”.

Lado a lado, uma vez mais, a um Jorge de Sena ou José Rodrigues Miguéis (dois grandes autores portugueses que residiram nos EUA durante boa parte da sua vida e também reflectiram o “contencioso” dessa existência diaspórica nas suas obras), outros escritores e poetas, tanto nas línguas portuguesa como inglesa, que permaneciam na penumbra e no silêncio comunitários, foram apresentados ao público com a sua poesia, ficção, ensaio ou crónica. Com um Conselho de Redacção e um Conselho Consultivo que se vão reajustando ao longo dos anos conforme especializações e provas dadas, a Gávea-Brown distinguiu-se sempre pela sua recusa a pretensiosismos da cultura dita canónica (sem nunca a descurar, naturalmente), e redefiniu a seu modo valores literários, leituras e reinterpretações da nossa experiência imigrante na América vista através da literatura. Pode uma revista universitária parecer por vezes um órgão hermético e dirigido a um reduzido grupo de especialistas, mas a dinâmica que lança entre os seus colaboradores e leitores irá inevitavelmente reflectir-se na produção literária, artística e intelectual de toda uma sociedade. Estou em crer que foram publicações como esta que acabariam por despertar o interesse académico a nível superior no nosso próprio país, hoje contando com estudiosos que, em quase todas as nossas universidades de norte a sul e ilhas, reafirmam o valor da escrita imigrante portuguesa em toda a parte, com especial atenção dedicada aos luso-descendentes de língua inglesa, alguns dos seus livros tendo sido já traduzidos e lançados em Portugal por pequenas e grande editoras.

“O que se tem passado de uns sete anos a esta parte nesta Califórnia – escrevia Jorge de Sena no ensaio inaugural da Gávea-Brown — quanto a despertar luso e luso-americano, parece mentira. E sou dos que menos têm feito, ainda que persistentemente, para isso: sem outros, nada”. Reconhecia o grande poeta, com toda a sua autoridade e dignidade intelectual, a crescente ebulição imigrante e luso-americana à sua volta. As suas palavras perduram entre nós, como devem perdurar, no que respeita a estes nossos projectos.

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Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Volume XXX-XXXI, 2009-2010. Department of Portuguese and Brazilian Studies,BrownUniversity,Providence,Rhode Island.

Sociedade, Literatura e Crítica

…apresento o espantoso poeta português Fernando Pessoa, que, enquanto invenção fantástica, ultrapassa qualquer criação de Borges.

Harold Bloom, O Cânone Ocidental

Vamberto Freitas

Acaba de ser publicado no nosso país O Cânone Ocidental: Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos, de Harold Bloom, numa grande tradução de Manuel Frias Martins, como aliás seria de esperar de um crítico e estudioso da sua estatura entre nós. Trata-se de um inestimável contributo à mais saudável controvérsia literária dos nossos tempos e ao nosso puro prazer da leitura. A palavra “cânone”, principalmente nos Estados Unidos, continua ainda hoje com uma função muito própria, para além da sua semântica habitual: enfurecer quem ainda é capaz de se apaixonar pela literatura, por escritores, pela arte em geral, e muito especialmente pela ideologia ou ideologias que desde sempre determinam a posição de indivíduos ou grupos em qualquer sociedade. A discussão em volta da noção de um “cânone literário” envolve essencialmente propostas que têm a ver com o direito, digamos, à multiplicidade de valores societais: fechar, alargar ou simplesmente acabar com a presunção ideologicamente viciada de determinadas instituições ou vozes supostamente mais “autorizadas” do que outras, através de obras seleccionadas, alimentar e guardar a memória colectiva de todos os grupos nacionais que, mais ou menos, constituem a Nação. Não é de hoje que o professor e crítico Harold Bloom tem a capacidade de provocar as mais violentas e entrincheiradas reacções no establishment académico norte-americano. Aliás, Bloom tem feito carreira disso, o que de modo nenhum quer dizer que a sua eminência não venha antes de tudo da sua quase incrível capacidade de ler, reflectir e escrever como poucos dos seus colegas em qualquer parte, e como fica cabalmente demonstrado no Cânone Ocidental, que Manuel Frias Martins diz ser um resumo de toda a sua obra prévia. Bloom sobressai nestas páginas, e ao contrário do que diriam muitos dos seus detractores, menos reaccionário do que já então se esperava pela altura da publicação original nos EUA do The Western Canon: The Books And School Of The Ages (1994), aberto a inúmeros escritores aparecidos nas décadas recentes, e até no que diz respeito a nós portugueses.

 Esta é uma selecção pessoal de Bloom, denunciada veementemente, no que se refere à totalidade do livro, por muitos dos seus colegas. Entretanto, é a primeira vez que a expressão Portuguese Literature entra na consciência de um consideravelmente alargado grupo de leitores, profissionais ou não. Existe um lado que creio ser pacífico: no centro do cânone português estão Fernando Pessoa e Camões, tendo Bloom incluído juntamente com o autor de Os Lusíadas António Ferreira (Poetry, in The Muse Reborn, traduzido por T. F. Earle). Harold Bloom havia declarado pela altura da saída do seu livro ao extinto semanário O Independente que Camões é o primeiro entre os primeiros, mas é antigo demais para vir à frente do autor de Mensagem, que recebe honras de algumas quatro páginas ensaísticas e é colocado entre os maiores poetas internacionais do nosso tempo, tendo, à semelhança de Neruda e outros ibero-americanos, assimilado e depois reagido ao poeta central do cânone norte-americano, Walt Whitman. Logo de início, Bloom insinua algumas das raízes da grandeza de Fernando Pessoa, numa nota biográfica e intelectual nada inocente: tinha sangue judeu e até aos vinte e um anos de idade escrevia só em inglês, deduzindo-se também daí que o poeta bilingue português saía primeiramente da tradição anglo-saxónica e supostamente cosmopolita.

O Cânone Ocidental está dividido por secções que Bloom foi buscar ao historiador italiano Giambattista Vico: “A Idade Aristocrática”, “ A Idade Democrática” e “A Idade Caótica”; antes e depois destas páginas fulcrais, o autor insere outros ensaios, rebatendo a luta pós-moderna contra o cânone tradicional e justificando as suas posições; na última parte, vêm as listas de leitura para cada um dos períodos abordados, incluindo ainda o que ele chama de uma “profecia canónica”, que contém os autores e as obras século XX ( “A Idade Caótica”). Camões e António Ferreira, uma vez mais, estão na primeira secção; Eça de Queirós, com Os Maias, na segunda; depois, por ordem e obras, estão: Fernando Pessoa (The Keeper of Sheep, Poems, Selected Poems, Always Astonished: Selected Prose, The Book of Disquiet), Jorge de Sena (Selected Poems), José Saramago (Baltasar and Blimunda), José Cardoso Pires (Ballad of a Dog’s Beach) Sophia de Mello Breyner (Selected Poems) e Eugénio de Andrade (Selected Poems). Harold Bloom diria nessa altura que lia português, mas que havia reagido em primeiro plano a obras nossas que já se encontravam traduzidas. Quanto a outros portugueses, lá provavelmente estariam se existissem traduções em inglês. Por que é que South Of Nowhere (Random House, New York, 1983), a magnífica tradução de Elizabeth Lowe de Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, não está na lista quando por muitos outros foi considerado um dos melhores romances pós-modernos de guerra? O único outro escritor de língua portuguesa presente no Cânone Ocidental é o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Quando se chega ao caso dos Estados Unidos e à sua literatura do nosso tempo, inevitavelmente, o fogo contra Bloom destruiria de imediato um ego menos seguro ou arrogante. O nosso país sobressai neste livro de Harold Bloom, de qualquer modo, em posição de grande vantagem, mesmo comparando-o com outras línguas e culturas europeias. Pelas palavras de Bloom, fica-se a saber no mundo de língua inglesa que em Portugal não só se escreve como também se estuda literatura e sobre ela se teoriza competentemente.

O crítico canónico norte-americano deste mesmo período é Edmund Wilson, que faleceu em 1972, mas começou a escrever nos anos 20 até à sua morte, tendo sido um dos primeiros homens de letras norte-americanos a apresentar os modernistas europeus ao grande público do seu país, com Axel’s Castle. Nos seus últimos tempos, travou uma ruidosa guerra contra a crítica universitária, e até hoje é persona non grata nalgumas academias, mas os seus livros póstumos continuam a ser (re)publicados, sendo um dos escritores americanos ainda hoje mais biografados, referidos e estudados. Os seus livros escolhidos por Bloom são The Shores of Light e Patriotic Gore. William Faulkner, F. Scott Fitzgerald e Hemingway são os seus três romancistas canónicos norte-americanos do século passado. Outros ainda, como Raymond Carver (Where I’m Calling From) e Don DeLillo (Mao II) são de igual modo recomendados. Até mesmo o profundamente ideológico The Grapes of Wrath, de John Steinbeck, é positivamente sinalizado aos leitores de hoje. Harold Bloom, numa introdução a esta última lista, adverte o leitor de que só o tempo irá consagrar definitivamente estes outros escritores modernistas e pós-modernistas.

O Cânone Ocidental, com toda a fúria que provocou ao longo destes anos, vem-nos demonstrar, creio, que, ao contrário de todas as previsões, nem houve a “morte” do autor nem a “morte” da literatura. Muitos escritores, inclusive no nosso país, de quando em quando profetizaram e profetizam o fim da literatura. Confundem, ao que parece, a sua exaustão pessoal com a história milenária. Nos Estados Unidos, poucos temas literários despertam como o cânone nacional entre as classes cultas tanta emoção e interesse profundo. Tal como no famoso e temível caso de Salman Rushdie no fim dos anos 80, que está representado por Bloom com Os Filhos da Meia-Noite, as palavras impressas e as suas significações abertas ou fechadas continuam a mover e a comover toda a comunidade letrada e civilizada.

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Harold Bloom, O Cânone Ocidental: Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos (Tradução e Introdução de Manuel Frias Martins), Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011.