Sociedade, Literatura e Crítica

…apresento o espantoso poeta português Fernando Pessoa, que, enquanto invenção fantástica, ultrapassa qualquer criação de Borges.

Harold Bloom, O Cânone Ocidental

Vamberto Freitas

Acaba de ser publicado no nosso país O Cânone Ocidental: Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos, de Harold Bloom, numa grande tradução de Manuel Frias Martins, como aliás seria de esperar de um crítico e estudioso da sua estatura entre nós. Trata-se de um inestimável contributo à mais saudável controvérsia literária dos nossos tempos e ao nosso puro prazer da leitura. A palavra “cânone”, principalmente nos Estados Unidos, continua ainda hoje com uma função muito própria, para além da sua semântica habitual: enfurecer quem ainda é capaz de se apaixonar pela literatura, por escritores, pela arte em geral, e muito especialmente pela ideologia ou ideologias que desde sempre determinam a posição de indivíduos ou grupos em qualquer sociedade. A discussão em volta da noção de um “cânone literário” envolve essencialmente propostas que têm a ver com o direito, digamos, à multiplicidade de valores societais: fechar, alargar ou simplesmente acabar com a presunção ideologicamente viciada de determinadas instituições ou vozes supostamente mais “autorizadas” do que outras, através de obras seleccionadas, alimentar e guardar a memória colectiva de todos os grupos nacionais que, mais ou menos, constituem a Nação. Não é de hoje que o professor e crítico Harold Bloom tem a capacidade de provocar as mais violentas e entrincheiradas reacções no establishment académico norte-americano. Aliás, Bloom tem feito carreira disso, o que de modo nenhum quer dizer que a sua eminência não venha antes de tudo da sua quase incrível capacidade de ler, reflectir e escrever como poucos dos seus colegas em qualquer parte, e como fica cabalmente demonstrado no Cânone Ocidental, que Manuel Frias Martins diz ser um resumo de toda a sua obra prévia. Bloom sobressai nestas páginas, e ao contrário do que diriam muitos dos seus detractores, menos reaccionário do que já então se esperava pela altura da publicação original nos EUA do The Western Canon: The Books And School Of The Ages (1994), aberto a inúmeros escritores aparecidos nas décadas recentes, e até no que diz respeito a nós portugueses.

 Esta é uma selecção pessoal de Bloom, denunciada veementemente, no que se refere à totalidade do livro, por muitos dos seus colegas. Entretanto, é a primeira vez que a expressão Portuguese Literature entra na consciência de um consideravelmente alargado grupo de leitores, profissionais ou não. Existe um lado que creio ser pacífico: no centro do cânone português estão Fernando Pessoa e Camões, tendo Bloom incluído juntamente com o autor de Os Lusíadas António Ferreira (Poetry, in The Muse Reborn, traduzido por T. F. Earle). Harold Bloom havia declarado pela altura da saída do seu livro ao extinto semanário O Independente que Camões é o primeiro entre os primeiros, mas é antigo demais para vir à frente do autor de Mensagem, que recebe honras de algumas quatro páginas ensaísticas e é colocado entre os maiores poetas internacionais do nosso tempo, tendo, à semelhança de Neruda e outros ibero-americanos, assimilado e depois reagido ao poeta central do cânone norte-americano, Walt Whitman. Logo de início, Bloom insinua algumas das raízes da grandeza de Fernando Pessoa, numa nota biográfica e intelectual nada inocente: tinha sangue judeu e até aos vinte e um anos de idade escrevia só em inglês, deduzindo-se também daí que o poeta bilingue português saía primeiramente da tradição anglo-saxónica e supostamente cosmopolita.

O Cânone Ocidental está dividido por secções que Bloom foi buscar ao historiador italiano Giambattista Vico: “A Idade Aristocrática”, “ A Idade Democrática” e “A Idade Caótica”; antes e depois destas páginas fulcrais, o autor insere outros ensaios, rebatendo a luta pós-moderna contra o cânone tradicional e justificando as suas posições; na última parte, vêm as listas de leitura para cada um dos períodos abordados, incluindo ainda o que ele chama de uma “profecia canónica”, que contém os autores e as obras século XX ( “A Idade Caótica”). Camões e António Ferreira, uma vez mais, estão na primeira secção; Eça de Queirós, com Os Maias, na segunda; depois, por ordem e obras, estão: Fernando Pessoa (The Keeper of Sheep, Poems, Selected Poems, Always Astonished: Selected Prose, The Book of Disquiet), Jorge de Sena (Selected Poems), José Saramago (Baltasar and Blimunda), José Cardoso Pires (Ballad of a Dog’s Beach) Sophia de Mello Breyner (Selected Poems) e Eugénio de Andrade (Selected Poems). Harold Bloom diria nessa altura que lia português, mas que havia reagido em primeiro plano a obras nossas que já se encontravam traduzidas. Quanto a outros portugueses, lá provavelmente estariam se existissem traduções em inglês. Por que é que South Of Nowhere (Random House, New York, 1983), a magnífica tradução de Elizabeth Lowe de Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, não está na lista quando por muitos outros foi considerado um dos melhores romances pós-modernos de guerra? O único outro escritor de língua portuguesa presente no Cânone Ocidental é o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Quando se chega ao caso dos Estados Unidos e à sua literatura do nosso tempo, inevitavelmente, o fogo contra Bloom destruiria de imediato um ego menos seguro ou arrogante. O nosso país sobressai neste livro de Harold Bloom, de qualquer modo, em posição de grande vantagem, mesmo comparando-o com outras línguas e culturas europeias. Pelas palavras de Bloom, fica-se a saber no mundo de língua inglesa que em Portugal não só se escreve como também se estuda literatura e sobre ela se teoriza competentemente.

O crítico canónico norte-americano deste mesmo período é Edmund Wilson, que faleceu em 1972, mas começou a escrever nos anos 20 até à sua morte, tendo sido um dos primeiros homens de letras norte-americanos a apresentar os modernistas europeus ao grande público do seu país, com Axel’s Castle. Nos seus últimos tempos, travou uma ruidosa guerra contra a crítica universitária, e até hoje é persona non grata nalgumas academias, mas os seus livros póstumos continuam a ser (re)publicados, sendo um dos escritores americanos ainda hoje mais biografados, referidos e estudados. Os seus livros escolhidos por Bloom são The Shores of Light e Patriotic Gore. William Faulkner, F. Scott Fitzgerald e Hemingway são os seus três romancistas canónicos norte-americanos do século passado. Outros ainda, como Raymond Carver (Where I’m Calling From) e Don DeLillo (Mao II) são de igual modo recomendados. Até mesmo o profundamente ideológico The Grapes of Wrath, de John Steinbeck, é positivamente sinalizado aos leitores de hoje. Harold Bloom, numa introdução a esta última lista, adverte o leitor de que só o tempo irá consagrar definitivamente estes outros escritores modernistas e pós-modernistas.

O Cânone Ocidental, com toda a fúria que provocou ao longo destes anos, vem-nos demonstrar, creio, que, ao contrário de todas as previsões, nem houve a “morte” do autor nem a “morte” da literatura. Muitos escritores, inclusive no nosso país, de quando em quando profetizaram e profetizam o fim da literatura. Confundem, ao que parece, a sua exaustão pessoal com a história milenária. Nos Estados Unidos, poucos temas literários despertam como o cânone nacional entre as classes cultas tanta emoção e interesse profundo. Tal como no famoso e temível caso de Salman Rushdie no fim dos anos 80, que está representado por Bloom com Os Filhos da Meia-Noite, as palavras impressas e as suas significações abertas ou fechadas continuam a mover e a comover toda a comunidade letrada e civilizada.

______________________

Harold Bloom, O Cânone Ocidental: Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos (Tradução e Introdução de Manuel Frias Martins), Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011. 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s