A Gávea-Brown e a Cultura Luso-Americana

Vamberto Freitas

Deixemos a pornografia, e falemos dos imigrantes. A este respeito, há equívocos de vária ordem.

Jorge de Sena no primeiro número da Gávea-Brown, 1980.

A “pornografia” de que falava Jorge de Sena no ensaio “Ser-se Imigrante e Como” que abria o primeiro número da Gávea-Brown nos idos de 80, e dois anos após a sua morte na Califórnia, que teria sido um dos seus últimos escritos, não se referia à pornografia propriamente dita, era antes uma declaração metafórica pela qual ele descrevia a historicidade portuguesa e algumas relações institucionais em certas academias, mas poderemos estender todo o conceito a muito do que se passava e passa em nossa volta. Certamente que se o autor de Peregrinato Ad Loca Infecta estivesse ainda entre nós, a mesma fúria verbal, talvez de violência acrescida, caberia plenamente na descrição do muito que nos está a acontecer actualmente. O ponto aqui é outro: uma então “pequena” revista universitária que saia com um Jorge de Sena a abrir as suas páginas tratando do nosso histórico estatuto de imigrantes na América do Norte, naturalmente com intelectuais e outros escritores pelo meio, seria em qualquer parte mais do que uma chamada de atenção: foi a evidência que faltava de que tudo entre nós estava em mutação evolutiva, tal como havia acontecido no nosso país de origem poucos anos antes. Esse primeiro número da publicação aqui em foco ficava pelas 53 páginas, mas a sua qualidade formal não tinha antecedentes nos “hifenados” estudos lusos além-fronteiras, a vida criativa dos nossos imigrantes só não era considerada em parte alguma como até havia quem negasse essa sua faceta criativa. Éramos supostamente só força braçal e fiéis depositários de remessas para salvar a mãe-pátria, falando alto e mal todas as línguas, irrompendo espampanantemente por cá de quando em quando. Ao ensaio de Jorge de Sena, seguiam-se contos inéditos (e uma entrevista) de José Rodrigues Miguéis e George Monteiro, assim como poesia de outros nomes conhecidos e desconhecidos (Luís Amorim de Sousa, Alberto de Lacerda, Urbino de San-Payo), e ainda a arte do falecido pintor açoriano Rogério Silva, que também do Faial e depois da Terceira havia sofrido a sorte marítima da maior parte dos seus conterrâneos.

Acaba de sair o mais recente volume (XXX-XXXI 2009-2010) da Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, com o seu conteúdo cada vez mais diversificado, em duas línguas, mas com a escrita, arte e a caminhada histórica das nossas comunidades na América do Norte através da sua rica literatura em todas as formas a servirem de corpo a essa outra temática tão nossa como a fatalidade de sermos navegantes perpétuos em mar revolto. Falarei mais adiante desse conteúdo literário e cultural único entre nós, mas já é mais do que tempo para dedicarmos a esta publicação a atenção que bem merece. É certo que os estudos portugueses, por mais periclitantes que estejam sempre nas grandes academias do mundo, conheceram nas décadas pós-25 de Abril um certo florescimento nos países com quem matemos desde sempre relações políticas ou aos quais a história nos interligou para sempre, inclusive pela nossa emigração maciça durante os últimos dois séculos. São trinta e um números em pouco mais de trinta anos, desde há muito com mais de 240 páginas divididas por secções académico-científicas e criativas. Para uma publicação deste género poder-se-á falar de uma admirável persistência e contínua projecção e escavação da nossa produção literária, académica e intelectual em comunidades cujo modo de vida e aparência gerais à superfície não indicariam tão rico legado público. A verdade é que a nossa imigração, até mesmo a nossa presença na América durante os anos da fundação nacional, sempre deu conta da sua vivência ou passagem por terras longes e estranhas. A partir da segunda metade do século XX, essa literatura floresceu abundantemente, e hoje a Gávea-Brown dá ainda conta de um rol considerável e prestigiado no mundo literário norte-americano de luso-descendentes que nos escreveram e escrevem brilhantemente em inglês. A lusofonia é multilingue, e por certo tanto mais rica e consequente por isso.

A Gávea-Brown foi fundada, e ainda hoje dirigida, por Onésimo T. Almeida e George Monteiro no então Center for Portuguese and Brazilian Studies, hoje departamento, da Brown University, privada e democraticamente elitista, de onde têm saído algumas das mais proeminentes figuras da vida política, científica e intelectual americana. Não poderia, de modo algum, existir abaixo das exigências da sua instituição, não teria sobrevivido sem garantir à própria universidade uma mais-valia, prestigio, e sobretudo um reconhecido contributo a um crescente entendimento do mundo lusíada na sua vertente imigrante e luso-americana. Nem antes nem depois teríamos um projecto que nasceu na humildade dos verdadeiramente “grandes”, e continua sem desvios nos objectivos a que se propôs desde o começo.

“Inicialmente destinada a veicular em português a expressão literária e artística da experiência imigrante portuguesa nos Estados Unidos, — escreveu Onésimo T. Almeida no primeiro editorial de 1980 — cedo na sua fase de concepção se tornou evidente que só uma publicação bilingue se justificaria. Primeiro, porque não faria sentido o confinamento a uma só língua, quando a realidade-objecto da temática da revista acontece tanto em português como em inglês, ou simultaneamente em ambas; segundo, porque as potencialidades da revista seriam consideravelmente alargadas (colaboradores e leitores), com consequências directas nas possibilidades de aumento de qualidade do conteúdo, uma vez que se disporia de maior variedade de onde seleccionar”.

Lado a lado, uma vez mais, a um Jorge de Sena ou José Rodrigues Miguéis (dois grandes autores portugueses que residiram nos EUA durante boa parte da sua vida e também reflectiram o “contencioso” dessa existência diaspórica nas suas obras), outros escritores e poetas, tanto nas línguas portuguesa como inglesa, que permaneciam na penumbra e no silêncio comunitários, foram apresentados ao público com a sua poesia, ficção, ensaio ou crónica. Com um Conselho de Redacção e um Conselho Consultivo que se vão reajustando ao longo dos anos conforme especializações e provas dadas, a Gávea-Brown distinguiu-se sempre pela sua recusa a pretensiosismos da cultura dita canónica (sem nunca a descurar, naturalmente), e redefiniu a seu modo valores literários, leituras e reinterpretações da nossa experiência imigrante na América vista através da literatura. Pode uma revista universitária parecer por vezes um órgão hermético e dirigido a um reduzido grupo de especialistas, mas a dinâmica que lança entre os seus colaboradores e leitores irá inevitavelmente reflectir-se na produção literária, artística e intelectual de toda uma sociedade. Estou em crer que foram publicações como esta que acabariam por despertar o interesse académico a nível superior no nosso próprio país, hoje contando com estudiosos que, em quase todas as nossas universidades de norte a sul e ilhas, reafirmam o valor da escrita imigrante portuguesa em toda a parte, com especial atenção dedicada aos luso-descendentes de língua inglesa, alguns dos seus livros tendo sido já traduzidos e lançados em Portugal por pequenas e grande editoras.

“O que se tem passado de uns sete anos a esta parte nesta Califórnia – escrevia Jorge de Sena no ensaio inaugural da Gávea-Brown — quanto a despertar luso e luso-americano, parece mentira. E sou dos que menos têm feito, ainda que persistentemente, para isso: sem outros, nada”. Reconhecia o grande poeta, com toda a sua autoridade e dignidade intelectual, a crescente ebulição imigrante e luso-americana à sua volta. As suas palavras perduram entre nós, como devem perdurar, no que respeita a estes nossos projectos.

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Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Volume XXX-XXXI, 2009-2010. Department of Portuguese and Brazilian Studies,BrownUniversity,Providence,Rhode Island.

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