Da Diáspora, de Nós e do Diário de Notícias

Eu sou eu e as minhas circunstâncias.

José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914

 

                                                                          Vamberto Freitas

Há momentos nas nossas vidas que, por mais insignificantes que nos pareçam quando nos acontecem, mudam para sempre os nossos rumos, tornando-os definitivos e de maior importância pessoal. Foi o que me aconteceu no fim do ano de 1979 quando recebi em minha casa um inesperado telefonema de Mário Mesquita, então director do Dário de Notícias, diário lisboeta que eu lia só esporadicamente na Califórnia, mas já conhecia suficientemente alguma da sua história, e sabia da sua influência entre as classes políticas e cultas do país. Timidamente, ouvi Mário Mesquita dizer que tinha falado com um amigo comum e que ele lhe havia passado o meu contacto — queria convidar-me para correspondente do jornal. Lembro-me bem não só da euforia criativa que isso trazia à minha actividade jornalística em geral, como, sobretudo, uma abertura de possibilidades intelectuais pouco habituais para quem vivia (ou ainda vive) na Diáspora. Eu tinha 28 anos de idade, formado em Estudos Latino-Americanos (com o Brasil no centro do currículo), professor efectivo do Ensino Secundário da Califórnia, colaborador de vários jornais comunitários, especialmente, nessa precisa altura, do Portuguese Tribune (fundado e dirigido pelo falecido João Brum), no qual mantinha, para além de eventuais reportagens de fôlego, uma coluna denominada “Temas e Crítica”. Nunca pensei que alguém fora daquele espaço l(USA)lândes a oeste de tudo tomasse nota do meu ou do nosso trabalho num pequeno semanário de língua portuguesa. Só que um ano antes eu tinha conhecido Onésimo T. Almeida, que, afinal, seguia da Brown University a minha actividade em volta do jornal, e não só — tinha sido ele a recomendar-me como correspondente do DN com base naquela longínqua parte dos EUA. Digo “longínqua parte” porque a “presença” da Diáspora estava nos primórdios, a sua importância ainda não tinha despertado em Portugal, pelo menos entre alguns círculos públicos, a consciencialização de que era essencial um maior envolvimento entre o país e o seu povo disperso pelo mundo inteiro.

Foi essa nova etapa da nossa história nacional que cedo Mário Mesquita percebeu, e decidiu abrir as páginas do DN a essas realidades então quase desconhecidas por completo. O interesse principal, no que dizia respeito à minha correspondência, seriam as comunidades portuguesas, maioritariamente oriundas dos Açores e dispersas pela vasta geografia da Califórnia, do extremo sul ao extremo norte do estado. A primeira e fundamental questão a considerar seria como “explicar” este outro mundo luso totalmente afastado e desconhecido dos leitores continentais, que nem do nosso arquipélago sabiam muito. A única orientação que eu tinha era que o DN era lido desde o Presidente da República ao mais anónimo cidadão. Queria dizer que, para além do estilo jornalístico clássico, haveria ainda uma essencial componente puramente didáctica. Alguns destes requisitos, portanto, não seriam encontrados nos habituais manuais académicos da profissão, e a nossa noção de “objectividade” pouco tinha a ver com a dos anglo-saxónicos. Depressa ultrapassei algumas dúvidas, e iniciei o meu trabalho: seria uma escrita entre a “reportagem” pura e o “ensaio”, os factos entremeados com as explicações necessárias, uma outra espécie de crónica, que sempre foi o género preferido da escrita imigrante lusa em geral. Ia esperando as reacções da direcção do DN, que se reduziam, sempre, a uma palavra – “continue”. Muito mais tarde, num prefácio a um dos meus livros — Pátria ao Longe: Jornal da Emigração II — constituído também por muitos destes  trabalhos, Onésimo T. Almeida refere que havia dito a Mário Mesquita, mais ou menos, que me dessem ou abrissem espaço, o que sempre fizeram. Assim, fui alargando a temática muito para além das questões comunitárias: comecei a focar a política e cultura norte-americanas, e esporadicamente eventos de grande gravidade, como um terramoto devastador na área de San Francisco a fins dos anos 80, e de seguida a primeira guerra do Golfo, em que fui encarregado da cobertura sistemática da ”frente interna”, já sob as direcções de Dinis de Abreu e depois de Mário Bettencourt Resendes. Foram grandes desafios para mim em primeiros trabalhos verdadeiramente de campo e, por vezes, com os minutos a ditar o envio de despachos diários através de fax.

Foi, como insinuei aqui no início, um percurso mais do que enriquecedor. A certa altura Mário Mesquita sugeriu-me que escrevesse sobre a literatura açoriana contemporânea, pois eu tinha dado conta — o que continuaria a fazer ainda durante alguns anos no mesmo jornal, mesmo já a residir definitivamente nos Açores a partir de 1991 — dalguma literatura norte-americana. Foi para mim a cereja num deliciosíssimo bolo. Era a minha intenção tentar melhor perceber, através da escavação profunda de textos, o chamado close-reading, toda uma geração literária, tanto na Diáspora como nos Açores. Aliás, o primeiro mini-ensaio literário (em forma disfarçada de recensão com o título de “Depois da Gargalhada”) que publiquei em Portugal foi sobre o teatro Ah! Mònim Dum Corisco!… de Onésimo T. Almeida na revista A Memória da Água-Viva, sob a direcção de Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros. Como estava longe e praticamente isolado na Grande Los Angeles, os meus únicos contactos eram com alguns amigos espalhados por dois continentes, não conhecia pessoalmente a maior parte dos escritores sobre quem escrevia, tendo por isso a liberdade (que em pequenos meios está constrangida também por motivos diversos) de deixar a prosa e os juízos correrem com toda a despreocupação de quaisquer consequências a nível pessoal ou profissional. A certa altura, o escritor João de Melo dir-me-ia que eu estava a criar anti-corpos em duas frentes simultâneas: entre os leitores continentais que não queriam — ou invejavam — ouvir falar das ilhas com tanto e nobre espaço, e entre alguns dos escritores açorianos, estes por comissão e omissão minhas. Com uma mentalidade essencialmente norte-americana, pouco me preocupavam uns e outros. Seguia o que nos dizia, mais ou menos, um antigo professor de literatura na minha faculdade californiana: escrever sem desagradar a alguns é uma perda de tempo, uma falha contrária às razões inerentes à própria escrita. Importava-me, só, a dignidade e justiça do Diário de Notícias ante as responsabilidades jornalísticas e intelectuais que me iam atribuindo.

Foi também em parte por esse trabalho de crítica literária no Diário de Notícias que me convidaram a participar nos Encontros de Escritores Açorianos da Maia, sobre os quais escrevi recentemente nestas páginas. Pela primeira vez, eu conhecia alguns autores “nossos”, fazia e reafirmava umas quantas amizades, estendia ainda mais toda uma geografia, real e imaginária, de afectos e interesses literários. Deixando condições profissionalmente privilegiadas numa América que desde há muito se tornara outra pátria minha, encontraria as mesmas bem-aventuranças nas ilhas do meu ser, vivendo nessa altura, como agora, os sobressaltos do seu progresso e merecida vingança histórica.

Escrevi no Diário de Notícias durante mais de catorze anos. Após o meu regresso aos Açores, continuei com a colaboração no suplemento Cultura, com crítica e ensaios, sempre, sobre as literaturas norte-americana e açoriana. Raramente folheio esse monte de páginas amareladas, evito a nostalgia dos tempos em que a palavra escrita, sobretudo a literatura, ainda ocupava a centralidade da nossa cultura e valores. Resta-nos, por enquanto, a força da tradição intelectual açoriana nas páginas dos nossos próprios jornais. Cada vez mais reduzidas, por certo, mas ainda com uma abertura única no país.

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Paulo Simões, director do Açoriano Oriental, pediu-me esta meditação sobre a minha experiência como correspondente e colaborador do Diário de Notícias. Em vez de pormenores sobre o trabalho de oficina, preferi dizer-lhe o que essa experiência “significou” para mim.

 

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