De Gaspar de Froes e de Colonos e Coronéis

Espero que não falhe a capacidade de improvisar, que sempre foi uma virtude dos portugueses históricos.

        Luiz António de Assis Brasil, Um Quarto de Légua em Quadro

 

Vamberto Freitas

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Estou em crer que a “sorte” crítica inicial de Um Quarto de Légua em Quadro, o romance de estreia de Luiz António de Assis Brasil, publicado originalmente em 1976, terá muito a ver com a sua época distintamente brasileira, e depois latino-americana em geral. O país estava aprisionado, ou pelo menos sequestrado, por uma das mais duras ditaduras na sua história, a qual se dedicava a um suposto milagre económico mantendo a classe média aparentemente satisfeita e obediente, pelo menos no teatro do absurdo em que se sempre se tornam os regimes autoritários. Mantinham-se as sacrossantas estruturas societais históricas desde a colonização, só que chamando agora a si as novas forças económicas e tecnologicamente modernizadas, as que supostamente serviriam de escudo a qualquer futura mudança radical. Para um leitor português, acaba por ser uma história demasiado próxima, familiar. O romance de Assis Brasil, mais do que ser visto como o magnífico acto linguístico e estético que é, era usado quase só como ponto de partida para mensagens ideológicas e políticas possíveis que rebatiam claramente a opressão devastadora que então reinava violentamente no país. A arte também serve, e deve servir, como retrato ou representação na luta pela dignidade humana. Um Quarto de Légua em Quadro receberia naturalmente toda a atenção em variada imprensa, e o seu jovem autor largamente elogiado pela sua audácia revisionista do cenário histórico rio-grandense tornado metáfora de todo um país-continente, e da América ibérica no seu todo.

Feliz da obra romanesca cuja força ideológica em nada desfaz na sua outra e bela verdade artística. Uma leitura açoriana de Um Quarto de Légua em Quadro não poderá nunca descurar a sua historicidade, o seu ajuste de contas com o falhanço de uma sociedade, a nossa, e a heroicidade desse mesmo povo na construção de outra, sofrendo exactamente a mesma estrutura raivosa de capitães e capitanias, de colonos e coronéis. O romance parte dos factos históricos que foi retirar das ilhas a meados de Setecentos centenas de famílias rumo ao Brasil, com a promessa de nova terra e vida, indefesos escudos humanos na luta pela demarcação de novas fronteiras contra a Espanha. Essa é a trama principal do romance de Assis Brasil, a revisitação desconstrutivista, uma vez mais, da história sulista brasileira — seguida pelo percurso consciente e filosoficamente existencialista do seu inesquecível protagonista, o Dr. Gaspar de Froes, médico natural da Ilha Terceira, este em fuga não há miséria dos colonos com quem viajou em pequenos barcos para o Brasil, mas sim à infelicidade pessoal e descrença irremediável na vida das ilhas. Froes, cujo diário aqui inventado vai de 2 de Janeiro de 1752 a 17 de  Junho de 1753, torna-se num dos nossos mais eloquentes símbolos do intelectual paralisado pelas incontáveis afrontas sociais e políticas em seu redor, incapaz de qualquer intervenção enquanto convive por igual com os opressores e oprimidos, incapaz, sequer, aos quarenta e poucos anos de idade, de novos amores ou satisfação na companhia de outrem. Resta-lhe uma única saída, uma única redenção: escrever obsessivamente o seu diário registando tudo quanto vê nos outros e particularmente em si próprio, castigando e auto-anulando-se num processo sem retorno de dor e culpa até ao seu desaparecimento total e misterioso. Os colonos seus compatriotas, entretanto, morrem mas não perecem. Tinham saído das ilhas com a promessa oficial dessa porção de terra, alfaias e demais condições à sua sobrevivência e prosperidade. Os que haviam chegado antes, idos de todo o Reino, já se tinham apoderado de tudo e do melhor, já se tinham tornado nos imbatíveis “coronéis” terratenentes que a colonização lusa criou e alimentou em toda a parte, começando pelos Açores alguns séculos antes. Quando o fictício diário é “descoberto” e “editado”, a sua última página traz, no entanto, a breve notícia no português do seu tempo que resume e redime toda a história e sorte açoriana no Brasil e nas Américas, do extremo norte ao extremo sul:

“Os ilhéos, — escreve o editor inventado de Um Quarto de Légua em Quadro – huma vez que as missoens nam se desocuparam, já se accomodam & alguns athe tornaram-se grande proprietários & abastados fazendeiros. (…) Já nam querem mais voltar para o Archipelago, apezar de jamais esquecerem os padecimentos sem conta que passaram”.

Para além desta historicidade social e política revisionista, fundamentada e feita antítese dos verdadeiros arquivos da construção nacional daquela parte do Brasil, Um Quarto de Légua em Quadro é sobretudo construído através de linguagens que simultaneamente nos remetem para a mundividência e olhares da sua época referencial como nos remetem para o intimismo psicológico do protagonista na sua avançada modernidade. Gaspar de Froes, por outro lado, é como que um Fernão Mendes Pinto, andando à descoberta do outro e de si, só que aventurando-se na loucura entre os seus, na sua língua e num mundo demasiado antigo e por ele bem conhecido. Médico formado em Coimbra e ilhéu de bem, as suas leituras são inteiramente europeias, as suas respectivas heresias vindas do Iluminismo que quase nos passou ao lado mas não impediram a construção de novas e ricas nações, onde imperava – onde impera — a desigualdade sem apologias ou vergonha mínima. Pelo contrário, dir-se-ia que foi a recusa absolutista lusitana em construir riqueza casa adentro que nos levou sempre a navegar e a tentar reproduzir o pequeno e cercado reino guerreiro em terras distantes — e para benefício dos mesmos. Há no romance um humor muito refinado, subtil: de página a página aparecem os “paulistas” em acção, esses bandeirantes luso-brasileiros cuja violência dizimou índios e empurrou fronteiras até aos seus limites, deixando-nos um legado que é aquele mapa fantástico no domínio de todo um continente. Não há grandeza sem pecado, original ou fabricado. O Desterro, hoje Florianópolis, capital ilhada de Santa Catarina, e Rio Grande, hoje Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, são uma criação de memória tão magoada como esplendorosa. Que um pequeno povo como o açoriano viria a merecer o maior monumento no centro da maior cidade do sul do Brasil é, quer alguns brasileiros se lembrem ou não, obra. Algumas das apreciações feitas ao romance pela altura da sua publicação falavam na desmontagem de mitos e, uma vez mais, na revisão da história. Se a última afirmação era inevitável, já a miticidade não é desfeita, mas sim reposta; se a arte literária, segundo muitos dos seus teóricos, é também, ou mesmo sobretudo, o contínuo fazer de mitos, Um Quarto de Légua em Quadro mantém a magnífica grandiosidade que foi a sobrevivência de um povo desde sempre enganado e espoliado. Que este romance viria a ser republicado nos Açores pela Direcção Regional das Comunidades já em 2005, deve significar alguma coisa de importante para a nossa memória colectiva.

À paralisação intelectual de Gaspar de Froes junta-se a paralisação afectiva. A distância que mantém ante a miséria que testemunha entre os colonos encarregados de construir e legitimar a nova geografia brasileira é a mesma que mantém ante a possibilidade do amor e da paz interior. Todos aqui estão num nicho de frieza e fingimento, inclusive a mulher, vinda de Portugal, que lhe desperta paixão mas não coragem. A deriva do coração parece a metáfora da deriva do próprio continente em disputa entre portugueses e espanhóis. A solidão e o desamparo dos nossos colonos no sul do Brasil são quase irrespiráveis na magistralidade destas páginas.

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Luiz António de Assis Brasil, Um Quarto de Légua em Quadro (5ª edição), Editora Movimento, Porto Alegre, 1986. O romance tornar-se-ia no filme Diário de Um Novo Mundo, em 2005.

 

A Europa Vivida e Visitada

 

Os países, quanto maiores forem, mais insolentes parecem aos olhos dos pequenos.

João de Melo, Açores, Europa

Vamberto Freitas

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A citação em epígrafe vem do romance O Mar de Madrid, de João de Melo, publicado muito antes da crise que assola o nosso país por todos os lados, ante a indiferença ou então o oportunismo aberto dos maiores que nos rodeiam. Dar uma boa lição aos “anões” ou expulsá-los da irmandade? Os europeus têm sido exímios, entre todos os povos de outros continentes, neste jogo de vaivém com os seus sempre supostos amigos ou mesmo vizinhos. É a ordem muito antiga das coisas, dirão os fatalistas. Creio, no entanto, que os pequenos países (que dizer de “regiões”?) olham mais pelas lentes da história e da ideologia de cada época do que pelo tamanho geográfico ou poderio político-económico de cada nação. O caso dos Açores, adentro da pátria portuguesa, deverá ser exemplar nesta questão. A maioria dos açorianos olharam sempre para a Europa como uma realidade muito distante, que, por usa vez, como reafirma José Guilherme Reis Leite nas páginas aqui em questão, nunca decidiu se éramos parte real dela ou mero “eco”, como já escreveram alguns trogloditas, perdido a meio Atlântico e a ser sofrido e financiado quando as coisas correm bem para todos. Que é ou o que tem sido, afinal, a Europa para nós? É esse o tema fulcral da recentemente editada Açores, Europa: Uma Antologia, seleccionada e organizada por Onésimo Teotónio Almeida. Trata-se de um grosso volume que, diz o seu responsável, exclui textos escritos por açorianos ao longo de toda a nossa história que dariam mais alguns livros. Não poderia vir num momento, como todos sabemos, mais apropriado, particularmente sintetizado pelas palavras de João de Melo.

Açores, Europa: Uma Antologia contém textos desde o século XVI (Gaspar Frutuoso em Saudades da Terra) até aos nossos dias, e inclui nomes em todas as esferas profissionais, desde escritores, cientistas e políticos a meros viajantes ou admiradores da literatura canónica do velho continente, ao qual alguns deles chamavam de “Europa-mãe”. De facto, a elite açoriana sempre se auto-definiu como europeia, e sempre teve a cultura que de lá trouxemos como o seu principal ponto referência intelectual e espiritual. O nosso cordão umbilical ao continente vai longe e é profundo: os Açores foram efectivamente um dos primeiros territórios a ser povoado na época dos Descobrimentos, a sua experiência servindo para a mesma empresa nos mais longínquos recantos e continentes do mundo. A antologia não está organizada cronologicamente, mas sim por quatro áreas temáticas: “História com a Europa em pano de fundo”, “Viajando pelo espaço europeu”, “Viajando pelo universo europeu” e “ A fechar, com o futuro em aberto”. Por certo que será a última secção a que mais alicia o leitor contemporâneo por razões óbvias e pelo dramatismo, uma vez mais, dos dias que estamos a viver. O que parecerá estranho ou surpreendente são as palavras que ainda há poucos anos expressavam a nossa esperança e orgulho de pertença agora total ao continente a leste, e o que nos tem dito e feito a Europa de Ângela Merkel e outros esquecidos das velhas tragédias na memória viva de milhões de cidadãos. Quando alguns nas presentes páginas escrevem ou insinuam que ainda em 2010 constituíamos “um trunfo para a Europa”, poderão repensar agora se a Europa pensa do mesmo modo no seu corrente provincianismo tribal à finlandesa e fechamento egoisticamente economicista. Quando se esquece a história, como aparentemente alguns poderosos da Europa esqueceram ou fingem esquecer e apenas contam moedas, incluindo mesmo a nossa velha “aliada” Grã-Bretanha, que outra coisa nunca fez senão sugar Portugal dos Açores ao Brasil, a ignorância de toda uma geração instala-se, e o valor do território periférico só dirá respeito aos peixes em volta e aos que nele vivem angustiados.

É claro que não é sobre as nossas ofensas e queixas presentes que trata Açores, Europa. Muito pelo contrário, são os textos dos que nunca esqueceram as suas raízes e glórias continentais, inclusive a nossa admiração intelectual por certa Europa, com a França em primeiro plano mesmo depois da selvajaria e rapinagem da invasão napoleónica, que nunca nos foi paga. A antologia inclui textos de vária natureza, cartas trocadas com figuras proeminentes ao longo dos tempos, descrições e impressões de viagens, homenagens a pensadores, escritores e artistas que já estavam ou entrariam nos panteões dos imortais. Onésimo Teotónio Almeida volta aqui a falar na “pirâmide atlântica” invertida ou deitada, que para ele sempre representou as relações açorianas com o exterior: a elite sócio-económica e intelectual no topo e decididamente virada para a Europa, e a esmagadora maioria do nosso povo virado a oeste, para as Américas. Durante estes últimos anos, complicou-se, a meu ver, quem mais teria “razão” ou mesmo “visão”, se é que se pode abordar a questão nestes termos simultaneamente racionais e emotivos. A euforia destes tempos mais recentes com a entrada no euro e estradas novas um pouco por todo o arquipélago levou muitos de nós a considerar como que fechado certo capítulo americano da nossa história, deixando perplexos muitos dos nossos intelectuais imigrantes com este desfecho, que na verdade nos parecia feliz e irreversível. Os Estados Unidos e o Canadá, por seu lado, tinham colocado quase todas as barreiras ao nosso movimento rumo às suas fronteiras e a nova nacionalidade. Só que a imigração, que teria finalmente estancado como resultado da nossa encontrada prosperidade na Europa, já está a ser retomada em grandes números (que fazem lembrar a sangria dos anos 60) quando considerada a nível nacional. Se os açorianos ainda não fazem fila à porta do Consulado Americano aqui em Ponta Delgada, já não será por vontade própria mas sim porque essas portas continuam encerradas. Por outras palavras, tudo indica de novo que o nosso destino entre o continente europeu e o americano continua em aberto. A Europa actual poderá tornar-se para a maioria da nossa gente uma mera abstracção, como o fora para a nossa intelectualidade em busca de identidade e conforto histórico.

Eis aí, creio, um dos grandes contributos de Açores, Europa: Uma Antologia para a nossa geração: obrigar-nos a repensar e a reflectir disciplinadamente o nosso lugar no grande e suposto esquema europeu, para além de tomarmos conhecimento do que entre nós as elites sempre pensaram ou fantasiaram acerca do seu lugar num mundo que desde há muito se globalizou definitivamente. O trabalho que imagino insano que terá sido juntar e seleccionar este enorme conjunto de textos (deixando outros tantos de fora, repita-se) está mais do que justificado. Os livros têm também por vezes esse destino feliz: sair em momentos tão dramáticos quanto o seu conteúdo, tornando-os ipso facto referência obrigatória. A surpresa destas páginas diz respeito sobretudo ao número de açorianos de todas as épocas que deixaram gravados os seus pensamentos e aproximação a um continente que cá sempre esteve presente só quando lhe convinha por razões de algum comércio ou segurança, e que, por nosso lado, sempre “visitámos” conforme a reinvenção que cada um ia fazendo de si e das suas vivências reais ou interiores. Nada chegou a fim nenhum: teremos de rever tudo de novo.

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Açores, Europa: Uma Antologia (selecção, organização e introdução de Onésimo Teotónio Almeida), Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2010.

 

Num Outro “Regresso” A Casa

Mares imensos águas sem fim/antes de um porto a oeste.

Vasco Pereira da Costa, O Fogo Oculto

Vamberto Freitas

Nos trinta e três poemas que compõem O Fogo Oculto, de Vasco Pereira da Costa, são poucos os que não se seguram nas palavras “ilhas”, “mar”, “mareante”, água”, “porto” “baía”. Como diria um qualquer novo crítico, atenção à repetição de palavras, expressões ou leitmotivs, muito provavelmente denotam as significações que mais interessam no interior do poema, carregam temáticas e imagísticas que da fragmentação dos versos fazem um todo, um “livro”. Tira o poeta da ilha mas ilha não sai do poeta? Poderá ser. Há qualquer coisa quase genésica, atávica, na concentração da humanidade em pequenos e cercados espaços. Uma falecida escritora americana sulista, Eudora Welty, dizia que era mais fácil observar toda a humanidade em pequenas comunidades, como que, digamo-lo de outro modo, numa ratoeira que prende mas não mata. Outros grandes escritores do Ocidente recorreram frequentemente a esse recurso geográfico ilhéu para construir ou inventar utopias e distopias. A ilha que esboço (onde sempre renasço/fica na redondez do mundo/infindo/onde me prefiguro e me recorto), reafirma o poeta em “Lição de Montaigne”. O mundo todo é também aqui, relembremos — sem tirar nem pôr. Só os provincianos, só os que nunca viveram prolongadamente noutras partes continentais não sabem nem reconhecem este simples facto. Eis a nossa “universal” contingência: nem se pode regressar a casa nem se pode fugir ao passado. Existe o presente e o futuro, e depois existe a saudade. A viagem é perpétua para todos, nem vale a pena falar aqui de Ítaca, de epopeias ou anti-epopeias. Se as nossas naus não afundam, regressam sempre ao cais de origem, nem que seja só para tomarmos consciência de que somos daqui como de toda a parte. Só que ninguém escapa, repita-se, à sua própria memória.

Toda a obra de Vasco Pereira da Costa aponta nesse sentido, está resumida até nos seus títulos. O simbolismo na melhor poesia açoriana sempre recorreu ao lugar e aos fenómenos da nossa Natureza como imagística e metáfora da vida interior de cada poeta, e O Fogo Oculto perpetua esse formalismo no qual cada verso contém em si o visível e o invisível, toda evidência existencial de que é feita a narrativa da vida aqui reinventada ou fingida, memorializada. Se o poeta naturalmente é o centro dessa memória que reconstrói a sua caminhada de vida e pela vida, a sua voz não deixa de convocar esses lugares e sobretudo todos os que agora se tornam “personagens” na reconstituição de um mundo perdido ou, pelo menos, esquecido. A poesia pode ser tanto um acto narcísico como generoso ou de comunhão. A dor do intelectual ou poeta fechado na sua redoma já deu alguma bela literatura nos primórdios da modernidade, mas a ausência total de um outro  a quem o leitor se aproxima num acto de pertença identitária depressa nos faz esquecê-la. Será na criação de mundos e memórias partilhadas, na historicidade comum, que procuramos esse espelho em que toda arte é contemplada e nos contempla: Meu avô traz nas mãos suadas/um sol maduro/colhido para que eu leia o meu destino de mar/-que ele quer fecundo. Tal como eventualmente no “regresso”, cita o poeta num outro passo que diz ser da partida das nossas origens que se inicia a viagem em busca de outros mundos e gente. É na descoberta desse espaço que Vasco Pereira da Costa continua a encontrar os que lhe lembram o passado, outra vida, outros sonhos. É do seu ser mais íntimo e escondido de que fala o poeta, de que nos fala; ao redizer-se, rediz-nos pelos chamamentos a sítios e eventos de imediato reconhecíveis que se desenrolaram em palcos que nos são comuns, sinalizados em códigos simbolistas que universalizam toda a sua experiência e, uma vez mais, a nossa memória colectiva.

O Fogo Oculto vem na sequência de my californian friends/poemas, cuja primeira edição saiu em 2001. Numa, para mim, inesquecível entrevista a Vasco Pereira da Costa, perguntaram-lhe numa rádio local quando é que poderíamos ter o prazer de ler esse livro “em português”, quando é que seria “traduzido”. Foi um momento hilariante mas muito demonstrativo de como alguns “lêem” entre nós, de como alguns depois comentam veementemente o que nunca leram. Tivesse o entrevistador pelo menos folheado o livro, verificaria que só o título vinha em inglês. A questão aqui, no entanto, é outra, mas o que aí fica dito terá algum significado. O poeta, nascido em Angra do Heroísmo, reside em Coimbra desde os anos da faculdade. Se alguma dessa vivência continental portuguesa encontra uma ou outra expressão na sua prosa e poesia, o certo é que o seu “regresso” tem sido constante, e não só às ilhas. O seu contacto e intervenção literária na nossa Diáspora norte-americana influenciaram decididamente toda a sua obra destes últimos anos. Em my californian friends (reeditado numa edição bilingue em 2009), esse exercício poético não é sobre o lugar mas sim sobre si próprio, olhando-nos no contexto de um passado partilhado que tem a ilha como centro indelével de partida e chegada. São as figuras encontradas ora ocasionalmente ora procuradas nos rituais comunitários que lhe despertam outras memórias, as que marcam vidas e sortes individuais ou colectivas. As dedicatórias de alguns desses poemas são de igual modo um gesto de aproximação afectiva. Não sei se o presente volume encerra um ciclo de escrita, mas o tom da sua linguagem quase nos leva a crer que sim. Se for esse o caso, Vasco Pereira da Costa já construiu um cânone literário pessoal que espelha as andanças que mais o “definem”, e que nos devolvem múltiplas imagens e memórias dispersas em geografias que tanto nos são estranhas como nos são pátrias, pela nossa força e vontade adquiridas.

Muita da nossa literatura parte da ilha para o exterior, mas outra tanta, como O Fogo Oculto, parte do exterior para a ilha em revisitações que constituem uma narrativa completa. Perguntam-me onde nasci/-Numa ilha, por cima do mundo, diz o breve poema de abertura, “Certidão”;  Não pode a ilha ser o limite, encerra o último, “O Fogo Oculto”. Os imaginários da literatura portuguesa em geral nunca estiveram limitados nem pela geografia nem pela história num pequeno mas disperso e diversificado país como o nosso. Se a caminhada histórica lusa, por outro lado, teve sempre o mundo inteiro como destino, a nossa literatura teria de ser, como é desde Camões e Fernão Mendes Pinto à presente geração muitos séculos depois, uma das mais universais e de cenários humanos mistos e abrangentes. Estamos numa tradição quase sem paralelo na Europa, para além da Grã-Bretanha, e, mesmo comparada com esta, sem os seus constrangimentos ou chauvinismos de toda a ordem que levaram à criação já na nossa época de uma literatura pós-colonial que essencialmente tem sido uma “resposta” ao racismo e à difamação que aquele outro imperialismo lançou sobre esses seus outros súbditos.

Vasco Pereira da Costa pertence a um rol de escritores oriundos dos Açores que, nos nossos dias, melhor têm retratado ou transfigurado a nossa experiência pluri-continental a partir da sua mundividência e simbologia atlântica. A poesia de O Fogo Oculto, na sua indisfarçada melancolia da ilha, é acima de tudo um íntimo testemunho de si e do seu tempo, mas também outro vigoroso registo e celebração dessa nossa sorte colectiva.

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Vasco Pereira da Costa, O Fogo Oculto, Vila Nova de Gaia, Calendário de Letras, 2011.