A Europa Vivida e Visitada

 

Os países, quanto maiores forem, mais insolentes parecem aos olhos dos pequenos.

João de Melo, Açores, Europa

Vamberto Freitas

*

A citação em epígrafe vem do romance O Mar de Madrid, de João de Melo, publicado muito antes da crise que assola o nosso país por todos os lados, ante a indiferença ou então o oportunismo aberto dos maiores que nos rodeiam. Dar uma boa lição aos “anões” ou expulsá-los da irmandade? Os europeus têm sido exímios, entre todos os povos de outros continentes, neste jogo de vaivém com os seus sempre supostos amigos ou mesmo vizinhos. É a ordem muito antiga das coisas, dirão os fatalistas. Creio, no entanto, que os pequenos países (que dizer de “regiões”?) olham mais pelas lentes da história e da ideologia de cada época do que pelo tamanho geográfico ou poderio político-económico de cada nação. O caso dos Açores, adentro da pátria portuguesa, deverá ser exemplar nesta questão. A maioria dos açorianos olharam sempre para a Europa como uma realidade muito distante, que, por usa vez, como reafirma José Guilherme Reis Leite nas páginas aqui em questão, nunca decidiu se éramos parte real dela ou mero “eco”, como já escreveram alguns trogloditas, perdido a meio Atlântico e a ser sofrido e financiado quando as coisas correm bem para todos. Que é ou o que tem sido, afinal, a Europa para nós? É esse o tema fulcral da recentemente editada Açores, Europa: Uma Antologia, seleccionada e organizada por Onésimo Teotónio Almeida. Trata-se de um grosso volume que, diz o seu responsável, exclui textos escritos por açorianos ao longo de toda a nossa história que dariam mais alguns livros. Não poderia vir num momento, como todos sabemos, mais apropriado, particularmente sintetizado pelas palavras de João de Melo.

Açores, Europa: Uma Antologia contém textos desde o século XVI (Gaspar Frutuoso em Saudades da Terra) até aos nossos dias, e inclui nomes em todas as esferas profissionais, desde escritores, cientistas e políticos a meros viajantes ou admiradores da literatura canónica do velho continente, ao qual alguns deles chamavam de “Europa-mãe”. De facto, a elite açoriana sempre se auto-definiu como europeia, e sempre teve a cultura que de lá trouxemos como o seu principal ponto referência intelectual e espiritual. O nosso cordão umbilical ao continente vai longe e é profundo: os Açores foram efectivamente um dos primeiros territórios a ser povoado na época dos Descobrimentos, a sua experiência servindo para a mesma empresa nos mais longínquos recantos e continentes do mundo. A antologia não está organizada cronologicamente, mas sim por quatro áreas temáticas: “História com a Europa em pano de fundo”, “Viajando pelo espaço europeu”, “Viajando pelo universo europeu” e “ A fechar, com o futuro em aberto”. Por certo que será a última secção a que mais alicia o leitor contemporâneo por razões óbvias e pelo dramatismo, uma vez mais, dos dias que estamos a viver. O que parecerá estranho ou surpreendente são as palavras que ainda há poucos anos expressavam a nossa esperança e orgulho de pertença agora total ao continente a leste, e o que nos tem dito e feito a Europa de Ângela Merkel e outros esquecidos das velhas tragédias na memória viva de milhões de cidadãos. Quando alguns nas presentes páginas escrevem ou insinuam que ainda em 2010 constituíamos “um trunfo para a Europa”, poderão repensar agora se a Europa pensa do mesmo modo no seu corrente provincianismo tribal à finlandesa e fechamento egoisticamente economicista. Quando se esquece a história, como aparentemente alguns poderosos da Europa esqueceram ou fingem esquecer e apenas contam moedas, incluindo mesmo a nossa velha “aliada” Grã-Bretanha, que outra coisa nunca fez senão sugar Portugal dos Açores ao Brasil, a ignorância de toda uma geração instala-se, e o valor do território periférico só dirá respeito aos peixes em volta e aos que nele vivem angustiados.

É claro que não é sobre as nossas ofensas e queixas presentes que trata Açores, Europa. Muito pelo contrário, são os textos dos que nunca esqueceram as suas raízes e glórias continentais, inclusive a nossa admiração intelectual por certa Europa, com a França em primeiro plano mesmo depois da selvajaria e rapinagem da invasão napoleónica, que nunca nos foi paga. A antologia inclui textos de vária natureza, cartas trocadas com figuras proeminentes ao longo dos tempos, descrições e impressões de viagens, homenagens a pensadores, escritores e artistas que já estavam ou entrariam nos panteões dos imortais. Onésimo Teotónio Almeida volta aqui a falar na “pirâmide atlântica” invertida ou deitada, que para ele sempre representou as relações açorianas com o exterior: a elite sócio-económica e intelectual no topo e decididamente virada para a Europa, e a esmagadora maioria do nosso povo virado a oeste, para as Américas. Durante estes últimos anos, complicou-se, a meu ver, quem mais teria “razão” ou mesmo “visão”, se é que se pode abordar a questão nestes termos simultaneamente racionais e emotivos. A euforia destes tempos mais recentes com a entrada no euro e estradas novas um pouco por todo o arquipélago levou muitos de nós a considerar como que fechado certo capítulo americano da nossa história, deixando perplexos muitos dos nossos intelectuais imigrantes com este desfecho, que na verdade nos parecia feliz e irreversível. Os Estados Unidos e o Canadá, por seu lado, tinham colocado quase todas as barreiras ao nosso movimento rumo às suas fronteiras e a nova nacionalidade. Só que a imigração, que teria finalmente estancado como resultado da nossa encontrada prosperidade na Europa, já está a ser retomada em grandes números (que fazem lembrar a sangria dos anos 60) quando considerada a nível nacional. Se os açorianos ainda não fazem fila à porta do Consulado Americano aqui em Ponta Delgada, já não será por vontade própria mas sim porque essas portas continuam encerradas. Por outras palavras, tudo indica de novo que o nosso destino entre o continente europeu e o americano continua em aberto. A Europa actual poderá tornar-se para a maioria da nossa gente uma mera abstracção, como o fora para a nossa intelectualidade em busca de identidade e conforto histórico.

Eis aí, creio, um dos grandes contributos de Açores, Europa: Uma Antologia para a nossa geração: obrigar-nos a repensar e a reflectir disciplinadamente o nosso lugar no grande e suposto esquema europeu, para além de tomarmos conhecimento do que entre nós as elites sempre pensaram ou fantasiaram acerca do seu lugar num mundo que desde há muito se globalizou definitivamente. O trabalho que imagino insano que terá sido juntar e seleccionar este enorme conjunto de textos (deixando outros tantos de fora, repita-se) está mais do que justificado. Os livros têm também por vezes esse destino feliz: sair em momentos tão dramáticos quanto o seu conteúdo, tornando-os ipso facto referência obrigatória. A surpresa destas páginas diz respeito sobretudo ao número de açorianos de todas as épocas que deixaram gravados os seus pensamentos e aproximação a um continente que cá sempre esteve presente só quando lhe convinha por razões de algum comércio ou segurança, e que, por nosso lado, sempre “visitámos” conforme a reinvenção que cada um ia fazendo de si e das suas vivências reais ou interiores. Nada chegou a fim nenhum: teremos de rever tudo de novo.

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Açores, Europa: Uma Antologia (selecção, organização e introdução de Onésimo Teotónio Almeida), Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2010.

 

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One thought on “A Europa Vivida e Visitada

  1. Vamberto Freitas Junho 21, 2011 / 1:23 am

    Mais uma joia nessa caixa de preciosidades….Fantástico!
    Beatriz Veiga

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