Filamentos da Herança Atlântica

Defender a dignidade humana, em todas as suas vertentes, é de facto um conceito radical.

Diniz Borges, Uma Outra América: Textos Do Real e Do Utópico

Vamberto Freitas

Uma das instituições que mantém coesas as nossas comunidades e para sempre ligada à sua cultura ancestral foi e é a Igreja. Não escrevo aqui como crente ou como praticante dos seus ritos, mas sim como cidadão que sabe muito bem quão difícil e quão valoroso é sobreviver com o nosso ser intacto quando se é estranho em terra estranha. Aliás, nos Estados Unidos ainda se utiliza oficialmente uma expressão de medonha semântica para designar os emigrantes legais ou ilegais, como se a existência da pessoa humana estivesse sujeita em primeiro lugar a definições arbitrárias de cidadania adiada: legal alien e ilegal alien. É certo que o mesmo país tem hoje uma legislação que respeita no seu todo a integridade de qualquer um dos seus cidadãos ou “convidados”, mas as palavras têm um poder inegável de classificar, de arrumar, por assim dizer, na consciência dos outros lá nascidos, os que chegam em busca de pão e espaço. É certo que a partir da década de 70, a própria política dos países de acolhimento e de origem iniciaram medidas com vista à integração de todos sem que isso implicasse dentro do possível um corte radical com a língua e cultura multi-secular que haviam deixado na Europa, ou noutros velhos continentes. O bilinguismo e multiculturalismo escolares muito contribuíram para a educação dos que antes permaneciam nas margens, mas o sentido de comunidade foi sempre um projecto interno liderado pelas instituições aqui referidas.

Veio este breve intróito a propósito de um encontro literário e cultural que foi iniciado na cidade de Tulare (Vale de São Joaquim) em 1990 e só terminou em 2002, Os Filamentos da Herança Atlântica. Foi dinamizado pelo Centro Português de Evangelização e Cultura daquela cidade cercada por uma das maiores extensões agrícolas e de agro-pecuária no mundo, que agora comemora um quarto de século de existência. Pela primeira vez numa das mais “longínquas” comunidades açorianas realizou-se este simpósio anual que juntava um grupo de intelectuais e outros estudiosos ligados a universidades ou independentes, idos principalmente dos Açores e Continente ou residentes em diversas e não menos distantes áreas da Diáspora. Os Filamentos foram sempre organizados e liderados pelo professor e escritor Diniz Borges, terceirense que emigrou aos dez anos de idade sem nunca abandonar a cultura e língua que havia transportado consigo e em si da sua ilha natal. Mestre em literatura e cultura, recebedor de inúmeros prémios na sua profissão e de cidadania, raramente se viu na nossa geração alguém com tanta directriz e força para levar avante uma espécie de renascimento e geminação entre os que aqui ficaram e os que para lá se foram. Autor de vários livros que recolhem as suas peças jornalísticas e ensaísticas publicadas na imprensa de língua portuguesa, o seu liberalismo (à americana) que desde sempre orienta toda a sua vida intelectual, incluiu enfática e ideologicamente um agudo sentido de inclusão, ou a recusa de que a cultura dita erudita tem de permanecer arredada do comum dos mortais. Se não sabem, ensina-se; se têm algo a dizer, digam; se perguntam, responde-se; e se discordarmos, inicie-se o diálogo esclarecedor. Diniz Borges, ao liderar os colóquios dos Filamentos insistiu sempre em desenvolver os dois ou três dias de trabalhos não numa faculdade mas sim no centro da própria comunidade, os convites e actividades-outras, desde concertos de música clássica oferecidos por prestigiadas filarmónicas das cidades circundantes, exposições de artes plásticas, folclore ou actuações de artistas idos do nosso país, deveriam sem quaisquer apologias ou explicações incluir todos aqueles que quisessem participar ou intervir criativamente de um modo ou outro. A estrutura dos encontros em Tulare consistia em comunicações que abordavam as mais variadas questões literárias, culturais e históricas dos Açores e das próprias comunidades. Escritores, poetas, professores universitários, jornalistas ou investigadores por conta própria levavam à comunidade a informação e o pensamento em volta do que teria sido o nosso passado, do que era o nosso presente — e do que poderia ser o nosso futuro. Sem academismos ou subjugações ideológicas de qualquer espécie, os Filamentos tornaram-se num fórum de diálogo, também sem par entre nós no outro lado mar. Visitas dos escritores e poetas às escolas do ensino oficial nas proximidades que incluíam nos seus currículos os estudos portugueses, dinamização das artes cénicas entre os jovens imigrantes e luso-americanos assim como um jantar que juntava comunidade e participantes convidados, coroavam esses dias, como diria Diniz Borges num texto recente, de ensino e aprendizagem entre todos.

As questões culturais açorianas e diaspóricas só começaram a ter um espaço institucional a nível superior quando Onésimo T. Almeida na Brown University em 1978 organizou o primeiro simpósio com o título abrangente de The Portuguese Immigrant Experience in the United States as Revealed Through Literature/A Experiência Imigrante Portuguesa nos Estados Unidos Vista Através da Literatura. Já na altura juntou escritores e estudiosos dos dois países. Foi de facto um momento marcante, que não só iniciava a legitimação institucional dos estudos açorianos nos EUA como motivou um considerável movimento criativo expresso no teatro, sessões de publicação e lançamentos de livros nas duas línguas um pouco por toda a parte, o que ainda hoje continua a fazer parte integrante da vida nas nossas comunidades. O velho, inútil e castrador elitismo intelectual português era irremediavelmente subvertido num país que desde sempre valorizou e acolheu o mundo das ideias nas suas infindáveis faces. A escrita “étnica”, cuja temática insistia em chamamentos múltiplos e transnacionais, começava a impor-se no establishment literário e académico do país. Era o novo cosmopolitismo que se contrapunha à noção do suposto intelectual fechado no seu reduto claustrofóbico, sofrendo um existencialismo fabricado, e depois lançando ao mundo algumas das mais ilegíveis e irrelevantes obras. Como diriam muitos dos novos teóricos em todas as línguas e tradições: estavam a responder — talking back — a essa minoria iluminada e já exausta, sem nada ter para dizer sobre o que de mais positivo e grandioso trazia a nova globalização que dignificava a noção de margens ante um centro já inexistente. O que se passava entre nós na Diáspora e o que os Filamentos da Herança Atlântica viriam a consolidar integrava-se perfeita e atempadamente em todo este movimento cultural transfronteiriço. Das nossas melhores universidades aqui em Portugal, não só chegavam novos estudiosos a esses encontros como depressa introduziriam nas suas próprias instituições, nalguns currículos e publicações, questões culturais e literárias que ainda há poucos anos eram tidas como “menores” ou inconscientemente ignoradas porque nunca ninguém as havia pensado ou projectado. Diniz Borges e os seus colegas na Califórnia, pela força da sua razão e consciencialização intelectual, representam o que de melhor nos aconteceu cá e no além-fronteiras durante estas últimas décadas.

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Filamentos da Herança Atlântica, Tulare, Califórnia, 1990-2002. Diniz Borges tem vários livros publicados, incluindo algumas antologias de poesia açoriana que traduziu e organizou. Destaco aqui On a Leaf of Blue: Bilingual Anthology of Azorean Contemporary Poetry (2003) e Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia Açoriana sobre a Emigração (2004).

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