Jorge de Sena (também) sobre os Açores e as Comunidades

Silêncio, pois, discretíssimo silêncio quanto aos emigrantes e ao seu dinheiro.

Jorge de Sena, Rever Portugal

Vamberto Freitas

Não poderia vir num momento mais apropriado na situação actual do nosso país, este grosso volume de ensaios e outra escrita de Jorge de Sena, falecido em Junho de 1978 na Califórnia. Rever Portugal: Textos Políticos e Afins, faz parte do grande projecto da viúva Mécia de Sena e do estudioso Jorge Fazenda Lourenço de finalmente editar a sua obra completa. Rever Portugal é o primeiro volume em que vemos e acompanhamos um percurso dramático do poeta, ensaísta, crítico e “político” que efectivamente foi Jorge de Sena desde o seu exílio no Brasil a partir de 1959 até aos seus últimos dias da e na Diáspora desses dois países americanos, pátrias-outras do nosso destino e sorte. A imagem que Jorge de Sena deixou entre alguns em Portugal está radicalmente no oposto do homem real, do cidadão e do artista. Entende-se essa imagem deixada entre os menos informados (ou entre os corroídos pela inveja) pelos seus últimos textos, especialmente em forma de cartas abertas aos maiores jornais e revistas lisboetas da época. Jorge de Sena, socialista democrata sem transigências de qualquer espécie durante toda uma vida repartida, dialogante com todas as forças e pensadores à sua volta, tinha, anos mais tarde, caminhado da euforia do redentor 25 de Abril à desilusão que depressa viria pouco tempo depois. O presente volume inclui textos dos seus dias de docente catedrático na Universidade de São Paulo, em Araraquara, e do seu envolvimento político imediato à sua chegada ao Brasil com a oposição democrática portuguesa no exílio, que incluía Adolfo Casais Monteiro entre outros nomes conhecidos entre nós, aos textos sobre a comunidade açoriana na Califórnia e à questão política então vivida no e pelo nosso arquipélago. Trata-se de um volume testemunhal sem igual entre nós, o intelectual do século XX em combate nas várias frentes da luta pela nossa dignidade e libertação.

Aqueles que conhecem somente a obra criativa e ensaística de Jorge de Sena por certo que vão ser surpreendidos por este volume, no qual Jorge de Sena nunca deixa de reflectir e intervir sobre a sorte do seu povo quer esteja dentro de Portugal quer viva Portugal na Diáspora, principalmente nas Américas. Nem por um dia na sua vida vacila na defesa da liberdade contra a ditadura de Salazar, que ele publicamente e a partir de São Paulo chamou de “rato”. Para o leitor açoriano de Sena será a sua dedicação e apego, mesmo que distante, à sorte e ao lugar das nossas comunidades da Califórnia que mais atenção chamará. É precisamente essa sua faceta de intelectual comprometido até aos seus últimos dias que quero destacar aqui, pois receio que será pouco conhecida entre nós.

Jorge de Sena chega aos Estados Unidos em 1965, após o golpe militar em Brasília, e ingressa como professor de literatura portuguesa na Universidade de Wisconsin, já como poeta e ensaísta de renome internacional. Em 1970 transfere-se para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde depressa assume a direcção do Departamento de Espanhol e Português, adicionando assim às suas pesadas responsabilidades de docente e escritor com uma produção torrencial preocupações e desgaste burocrático. Geograficamente a alguma distância das nossas comunidades, maioritariamente oriundas das ilhas centrais, pensar-se-ia que o eminente poeta não teria nem tempo nem mesmo predisposição para qualquer participação ou reflexão sobre a história e sorte novo-mundista dos seus conterrâneos. Era da sua natureza e consciência de português no exílio, no entanto, prestar toda a solidariedade e comunhão cultural e nacional com a sua gente, mesmo que entre os ilhéus nunca tivesse vivido de perto. A chegada de Jorge de Sena à Califórnia coincide com o movimento bilingue e multiculturalista das comunidades étnicas minoritárias, e os portugueses do oeste americano reivindicaram de imediato os seus novos direitos a uma educação primária e secundária harmoniosa com o passado e tradições dos seus filhos e filhas. Onde houvesse uma comunidade açoriana de números substanciais, as escolas teriam de responder a essa nova exigência cultural e linguística dos que haviam desde sempre permanecido nas margens daquela sociedade. Jorge de Sena nunca rejeitou um convite para se pronunciar sobre tudo isto em vários congressos sobre a educação e outros encontros intelectuais com base nas nossas comunidades e realizados em grande parte tanto pelos que se dedicavam ao ensino da nossa língua a nível superior um pouco por toda a parte como por um emergente grupo de professores recém-formados e convocados, por assim dizer, para dirigir e constituir os novos corpos docentes do ensino bilingue oficial. Foram tempos de grandes mudanças na nossa Diáspora norte-americana, e Jorge de Sena acompanhava de Santa Barbara com visível satisfação toda esta ebulição educacional e intelectual sem precedentes entre os nossos imigrantes, e que na Costa Leste outros intensificavam e aprofundavam ainda mais todo  o projecto, com a vantagem da Brown University, com todo o seu prestígio e influência, a fundar o primeiro grande centro de estudos açorianos e luso-americanos. Como diz Jorge Fazenda Lourenço na introdução a Rever Portugal, após a euforia inicial do 25 de Abril, a desilusão do poeta manifesta-se com a crise de 1975, mas as suas intervenções públicas entre os imigrantes vinculavam sempre a esperança num Portugal novo e livre.

“As palestras, as conferências, as mensagens que Jorge de Sena dirige aos luso-americanos e aos imigrantes portugueses nos Estados Unidos — escreve Fazenda Lourenço — veiculam uma confiança inabalável na afirmação e no desenvolvimento da democracia portuguesa”.

Efectivamente, em todas as suas intervenções nesses referidos eventos comunitários assim como nos seus textos em forma de ensaios ou cartas, particulares e abertas, dos seus últimos anos, Jorge de Sena incute sempre nos seus ouvintes e leitores luso-americanos o orgulho pátrio e a necessidade de revermos sempre a nossa ligação a tudo que diz respeito ao país ancestral. Se os políticos em Lisboa o deixavam exasperado pelo que faziam acontecer ou não acontecer, a Diáspora deveria sempre manter a sua lealdade e esperança na regeneração global da lusitanidade. Alguns dos seus textos dirigem-se descomplexadamente à questão separatista nos Açores, ante o qual ele se opunha na totalidade. Só que num texto incluído noutro volume da obra completa (América, América), um dos últimos que ele teria escrito antes da sua morte e publicado postumamente no número inaugural da revista Gávea-Brown (1980), Jorge de Sena regressa à questão dos nossos imigrantes na costa oeste americana, e afirma com alguma ironia ante certos factos que se passavam em Lisboa que se os Açores declarassem a independência, ele seria o primeiro continental a pedir a nova cidadania. A sua costela açoriana (micaelense) pelo lado paterno permanecia lembrada e respeitada como em nenhum outro grande intelectual continental do seu ou agora do nosso tempo. É de pura justiça intelectual que os outros dois grandes especialistas da obra de Jorge de Sena são dois açorianos, Francisco Cota Fagundes e José Francisco Costa.

Ler este Rever Portugal: Textos Políticos e Afins é penetrar na tragédia lusa de todo o século passado, e prevendo, até, os nossos tristes dias actuais.

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Jorge de Sena, Rever Portugal: Textos Políticos e Afins (edição coordenada por Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço), Lisboa, Guimarães/BABEL, 2011.

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