Nós e Eles, Portugueses e Brasileiros

O sonho do Reino Unido alimentado por inúmeros brasileiros e portugueses até 1822 ainda se mantém vivo.

Laurentino Gomes, 1822

Vamberto Freitas

Permitam-me começar aqui com um pouco da ira anti-europeia do momento. Aqui há umas semanas, um periódico inglês muito bem considerado e citado nos círculos do reinante banditismo financeiro internacional sugeria, naquele tom sempre triste do humor britânico, que o Brasil deveria anexar Portugal como colónia resolvendo assim todos os nossos problemas de caixa. No presente estado luso debilitado ninguém respondeu, que eu saiba, e teria sido fácil: só eles na Europa conhecem da submissão a ex-colónias, servindo de pouco mais do que um cachorro de ataque dos Estados Unidos um pouco por toda a parte. É claro que o recente 1822, do brasileiro Laurentino Gomes, nada tem a ver com esta tristeza velho-mundista — ou talvez tenha — mas coloca-nos uma série de questões ainda não rsolvidas no nosso relacionamento íntimo com o grande país a sul, por nós inventado, por nós expandido até aos limites extremos naquele continente, e pelos luso-brasileiros também eventualmente libertado num quase surrealista jogo de interesses bragantinos nos dois lados do atlântico, tendo o Brasil se tornado na primeira e única monarquia e império nas Américas. Foi preciso muita imaginação e audácia para tornar o Brasil numa realidade íntegra, soberana e segura ante os apetites de muitos outros na época, hoje a postos para se tornar na quinta maior economia do mundo, um país que à data da sua independência tinha tudo “para dar errado”, nas palavras do próprio Laurentino Gomes. Deixemos, pois, os ingleses no isolamento da sua ilha frígida: o seu relacionamento com o Brasil foi sempre um de mercenários e pirataria (Thomas Alexander Cochrane, como exemplo primeiro, levou o ex-Presidente e escritor José Sarney a pisar raivosamente o seu túmulo em Westminster, segundo o autor deste livro) disfarçada de códigos económicos durante todo o século XIX. Apesar de tudo, e é precisamente isso que 1822 nos vem relembrar, é que a saga portuguesa na América não só deu certo, como ainda pode no futuro vir a dar mais frutos aos dois países-irmãos.

Vale a pena repetir: ler história pelas mãos de um bom escritor, com larga experiência na comunicação com públicos cultos mas não especializados numa determinada área, é um acto de prazer intelectual inigualável, um acto de civismo e consciência identitária essencial à nossa auto-imagem e sobretudo ao entendimento aprofundado dos outros à distância mas que connosco partilham tudo, língua e cultura sendo tão-só mais uma peça fundamental para a aproximação comum, mesmo tantas vezes contra a vontade de outros cidadãos desse mesmo país cuja empatia e solidariedade histórica se dirigem a pátrias da sua origem que não a nossa. Estou em crer que 1822 (data da Independência do Brasil, que aconteceu a 22 de Setembro com o Grito de Ipiranga em São Paulo) é o segundo volume do que parece vir a ser uma trilogia que foi brilhantemente iniciada com 1808, levando-nos eventualmente até à declaração da República Brasileira em 1889. Por certo que nessa data, Portugal e os portugueses já se encontrarão muito mais ausentes do que nos acontecimentos anteriores, pelo menos até à chegada de meados século passado, quando Getúlio Vargas imitaria também, formalmente, o Estado Novo salazarista, e outros se envolveriam, por afinidades várias, ora aberta ora secretamente, na vida da sua antiga ex-metrópole.

A história de D. Pedro I (D. Pedro IV de Portugal) é bem conhecida por quem leu um mínimo da história pátria desde os Descobrimentos até ao descalabro generalizado que resultaria na nossa mais cruel e sangrenta guerra civil no século XIX. Não serão, talvez, os contornos gerais desses acontecimentos no Brasil ou cá que mais vão aliciar os leitores portugueses, mas sim detalhes e eventos desconhecidos que melhor nos explicam e oferecem outras pistas de reflexão política e cultural, desde a preparação e educação dos primeiros governantes luso-brasileiros a partir da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro até às manobras, só hoje inteiramente conhecidas, que levariam ao acordo entre pai e filho para tornar o Brasil independente sem que Portugal, ou a Casa de Bragança, perdesse por completo a mina da nossa maior fortuna americana. De resto, a narrativa de Laurentino Gomes desfaz alguns mitos e reafirma outros em tudo que concerne a criação, desenvolvimento e “separação” dos dois países, desde a indizível estupidez e ignorância das Cortes em Lisboa no ano fatídico de 1821, em que a decepada delegação brasileira foi tratada abaixo de toda a decência e com a habitual arrogância lusitana que se pensava ainda, à altura, dona de meio mundo, à violência que antecedeu os dias da Independência e durante dois anos de guerra nas ruas das principais cidades brasileiras. O nível de ódio entre os portugueses e brasileiros atingiu um paroxismo de que nunca nos falaram os nossos próprios compêndios de história.

“Brasileiros e portugueses que hoje se encontram — junta Laurentino Gomes o presente ao passado — nas padarias de São Paulo, tomam cerveja juntos nas praias de Natal e Fortaleza, confraternizam nos jogos do Vasco da Gama no Rio de Janeiro ou se encantam com as mesmas telenovelas e minisséries de TV transmitidas nas duas margens do Atlântico não fazem ideia do clima de ódio e confronto que envolveu esses dois povos no ano da Independência do Brasil. Enquanto na metrópole e em sua antiga colónia crescia a radicalização dos discursos e documentos, nas ruas as pessoas eram caçadas a golpes de porretes, pontapés ou até assassinadas a sangue-frio”.

Da primeira à última página (sempre fundamentado na historiografia clássica dos dois países e em pesquisas próprias) 1822 está cheio de informação que a maioria de nós, portugueses, uma vez mais, raramente conhecia. Os açorianos estão mais presentes do que seria de esperar: a passagem de D. Pedro pela Terceira, onde organizou os Bravos do Mindelo e onde, caracteristicamente, fez um filho a uma freira, teve como amante principal e decisiva na corte do Rio de Janeiro a que viria a ser a Marquesa de Santos, Domitila de Castro Canto e Melo, filha de outro terceirense, e destacou depois no Porto, com afecto e muito respeito, um dos seus soldados ilhéus, Manuel Pereira, natural de S. Jorge. Imagine-se a sedução do seu porte de Imperador e do seu sotaque carioca ali em Angra do Heroísmo até à não menos gloriosa Praia da Vitória.

Esqueçamos de uma vez por todas alguns resíduos bacocos de anti-portuguesismo alimentados, ainda hoje, por alguns brasileiros. Alguns dos mais amigos de Portugal têm origem noutras etnias; os mais doentes nas suas atitudes anti-lusas, parece, são quase sempre os de ancestralidade nossa. Tudo isso, crê Laurentino Gomes, está mais ou menos ultrapassado, terminando a sua magnífica narrativa com uma listagem de proeminentes conterrâneos seus nas artes, no desporto e no empresariado actual que descendem e proclamam com orgulho as suas ligações à pátria ancestral europeia. Alguns deles são-nos nomes íntimos: Fernanda Montenegro, Fafá de Belém, Ana Maria Braga, Zico, Abílio Diniz, e um dos melhores escritores de língua portuguesa, Rubem Fonseca. Os outros, que persistam na infantilidade psiquiátrica que é o seu anti-lusitanismo; não devem contar para nada nos projectos que continuam a unir com força Portugal e o Brasil.

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Laurentino Gomes, 1822, Porto, Porto Editora, 2010.

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