Vozes Poéticas Dos Açores Nas Palavras De Um Irlandês

Outra imagem dos Açores — a outra face de uma visão turística ou comercial — emerge da paisagem cultural e literária dos escritores açorianos.

John M. Kinsella, Voices From The Islands

Vamberto Freitas

     Voices From The Islands: An Anthology of Azorean Poetry, com selecção tradução e introdução de John M. Kinsella, Director do Departamento de Espanhol e Português da National University of Ireland, Maynooth, é a mais vasta, a mais inclusiva, antologia bilingue da poesia açoriana, e vem na sequência de The Sea Within (selecção, introdução e notas de Onésimo T. Almeida, e traduções de George Monteiro, Gávea-Brown, 1983), e de On a Leaf of Blue, traduzida e organizada por Diniz Borges (Institute of Governmental Studies, University of California, Berkely, 2003). Isto no que se refere a traduções para o inglês da nossa poesia, pois ainda recentemente outra antologia foi lançada na Letónia, Azoru Salu: Dzelas Antologija, organizada e traduzida por Leons Briedis. Menciono este trabalho de Briedis para dar a ideia de como lentamente a literatura açoriana tem conquistado, por mais humilde que seja, um lugar nas mais diversas geografias culturais. De resto, outras traduções vão saindo em revistas como a Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, aliás a publicação surgida em 1980, desde sempre dirigida pelos Professores Onésimo T. Almeida e George Monteiro, ambos do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, e que iniciou todo este movimento da nossa escrita em língua inglesa. Devo ainda referir que pela primeira vez entre nós o encontro patrocinado pela Direcção Regional das Comunidades na Universidade dos Açores a 27-29 de Outubro de 2009, “escritas dispersas. convergências de afectos”, reuniu escritores, editores, professores, divulgadores e tradutores da literatura produzida nas ilhas ou às ilhas referente. Do exterior, têm-nos sempre chegado estes “afectos” e estas “convergências” enquanto no próprio arquipélago (e restante país) ainda estamos na fase de ultrapassar os mais elementares, atávicos e anacrónicos complexos em volta de toda a nossa questão literária.

     Creio que posso afirmar que John M. Kinsella, no mundo anglófono, e Luiz Antonio de Assis Brasil, no grande país irmão, são os dois nomes (ambos colocados em universidades nacionais de grande prestígio) que mais têm feito pelo conhecimento entre outros públicos da nossa literatura, inclusive através de um bom número de teses de mestrado e doutoramento sob o seu estímulo e orientação. Se coloco aqui “estrangeiros” entre aspas é porque, no mundo globalizado em que vivemos, um irlandês, por afinidades electivas várias, aproximou-se e “ficou” entre nós. Antes da presente antologia já tinha traduzido alguma poesia de Emanuel Félix, reunida em The Possible Voyage: Poems (1965-1992). Assis Brasil, cujos antepassados saíram destas ilhas, é tão açoriano, no seu modo de ser e estar (e em muita da sua escrita), como é brasileiro de longas gerações. Enquanto entre nós a insistência ignorante numa suposta “universalidade” torna-se paralisante para os que nada na realidade conhecem da nossa literatura, os outros que de facto vivem e estão perfeitamente em casa em toda e qualquer parte recuperam a arte que “retrata” e “reafirma”, por assim dizer, a condição humana nas suas infindáveis originalidades, excentricidades, tudo o que enriquece sermos e fazermos parte da comunidade humana numa geografia global que felizmente cada vez mais se torna irrelevante, mas não anula o direito tanto à diferença dos povos como ao que une a todos. Quando até no Japão Kiwamu Hamaoka traduz e faz publicar os escritores açorianos Álamo Oliveira e Dias de Melo, ou, na Inglaterra, o Professor David Brookshaw, da Bristol University, traduz e publica Tales From The Tenth Island (2006), alguns contos “imigrantes” de (Sapa)teia Americana de Onésimo T. Almeida, ou ainda Peter Zsoldos (ex-embaixador do seu país em Lisboa, e especialista da obra de Fernando Pessoa), que aqui há uns anos traduziu e fez sair na Eslováquia outra antologia de poesia açoriana, Zakresl´ovanie do mapy: Azory a ich básnici (2000), fica tudo mais ou menos dito. Continuamos à espera dos livros dos nossos “universalistas”, dos críticos implacáveis da nossa geração, essa que começa a publicar nos anos 50-60 e continua ainda hoje a constituir a única voz literária consequente dos e nos Açores.

     Esta antologia de John M. Kinsella abre com Antero de Quental e encerra com Paulo Freitas, nascido nos EUA mas regressado ao Faial com um ano de idade e educado no seminário de Angra do Heroísmo. Entre eles, Voices From The Islands: An Anthology of Azorean Poetry inclui mais 45 poetas açorianos, que vão, insista-se neste ponto, também desde Vitorino Nemésio a outros menos conhecidos, mas que estão aqui presentes com todo o direito pela qualidade e significação dos seus trabalhos. Alguns supostos elitistas quedar-se-ão perplexos, talvez, mas Kinsella está absolutamente correcto nesta sua opção toda inclusiva, não fora a feliz abertura anglófona perante estas questões. Ele sabe muito bem que uma Tradição literária, aquilo a que tenho chamado de “arquivos criativos” de um povo, só existe se tiver uma continuidade perpétua pelas gerações que se seguirão. Poderá — e deverá, creio — haver o encontro e reencontro temático, assim como abalos estilísticos e de formas. Mas o essencial permanece: “ansiedade de influência” à parte, numa determinada geografia e história comuns os olhares concentrados ou minimamente atentos, como um dia disse a escritora luso-americana Katherine Vaz justificando as suas próprias afinidades com a literatura portuguesa, levarão sempre, por mais “distorcidas” que essas visões nos pareçam, a ver os mesmos objectos e sujeitos, como que a dizer, toda a história e mundividência de um povo que criou as suas comunidades, reais e imaginárias. Que grande poeta em qualquer língua não gostaria de ver a sua própria obra ser uma espécie de cenário imaginativo em que outros que o seguem retiram, adicionam, recolocam ou voltam a colorir diferentemente esse mesmo cenário? John M. Kinsella aborda e justifica as suas opções numa introdução historicizada e contextualizante, concentrando-se maioritariamente nos poetas mais perto de nós, como Álamo Oliveira, Eduíno de Jesus ou Madalena Férin (e noutros mais novos).

     Todas as traduções, sabemos, estão abertas a discussões, cada um, outro tradutor ou leitor, poderia ter optado por este ou aquele vocábulo, por esta ou aquela imagem que, no seu entender, mais aproxima a língua original à cultura-alvo. É exactamente por isso que certos clássicos, mesmo os da modernidade, são traduzidos e retraduzidos por sucessivas gerações. Neste caso (como nos outros acima referidos), o trabalho pioneiro de estudiosos e tradutores como John M. Kinsella é quase heróico, abrindo todo um novo mundo a outros, assim como a nós próprios, que agora nos espelhamos noutras línguas e, sim, tradições literárias. Ao redizer-nos na sua língua, Kinsella recorre necessariamente aos protocolos poéticos da sua própria tradição.

Não me surpreenderia nada se alguns poetas incluídos em Voices From The Islands: An Anthology of Azorean Poetry lessem os seus próprios versos como quem lê algo completamente novo e inesperado. Tem acontecido com grandes escritores internacionais, alguns deles dizendo, com certa ironia, preferir a tradução ao original. Essa atitude por parte dos que foram incluídos no presente volume só teria um significado: o original vale por si próprio e mereceu ser, bom, redito.

_______________________________

Voices From The Islands: An Anthology of Azorean Poetry (Selection, Translation and Introduction by John M. Kinsella), Gávea-Brown,Providence,Rhode Island, 2007.

Toda a Saudade, Agora

O que teria sido mais fácil:/Viver morrendo/no basalto morno?/Escrever ilhas de granito?/Riscar saudades na memória/húmida de vindouros?

José Francisco Costa, ficou-me na alma este gosto…

Vamberto Freitas

Este tem sido o ano de grande continuidade e regressos da minha geração literária nas ilhas e na Diáspora. A literatura açoriana, só nestes últimos meses, viu-se ainda mais enriquecida com obras de ficção, poesia, crónica e ensaio, principalmente com nomes já canónicos no nosso meio ou de outros que rodam lá perto ou por mera associação de profundas afinidades temáticas e estéticas: Urbano Bettencourt, Álamo Oliveira, Victor Rui Dores, Francisco Cota Fagundes, Artur Goulart, Vasco Pereira da Costa, Onésimo T. Almeida — e agora José Francisco Costa. Todos eles vinham desdizendo o que eu próprio havia anunciado, agora sei que muito precocemente, aqui há anos: que estávamos todos a entrar na nefasta idade do suposto cansaço, do cinismo, vamos lá, sabedor, e do Vazio quando “tudo” já tinha sido dito. Devia-me ter lembrado que a possível indiferença pessoal, momentânea, nunca foi boa conselheira do pensamento claro, não deve servir para contestar toda a história e teoria da literatura na nossa e noutras línguas. Foi precisamente esse equívoco que levou alguns escritores portugueses e de outras paragens, aparentemente exaustos, a “declarar” a morte do romance. Muito pelo contrário: não só está vivíssimo como finalmente retomou a linha realista que o havia consagrado entre grandes números de leitores a partir do fim do século XIX, reinventando a forma de grandes calhamaços, alguns dos quais ascendendo às listas dos mais vendidos. Quanto a nós, e também ao contrário do que afirmam alguns dos mais novos, nenhuma das velhas “questões” se tornou irrelevante. A emigração e a realidade social menos feliz, desgraçadamente, ainda vão comover muita da sua própria escrita, nem que seja a dos meninos de oiro que ainda embarcam todos os dias em busca de trabalho ou de mera realização pessoal. É a nossa condição lusitana: sempre com um pé no futuro e outro no passado; e com boa parte Europa a caminho da raiva e da ruína, ninguém sabe que outros temas regressarão às nossas páginas.

Veio tudo isto a propósito do presente ficou-me na alma este gosto…, poemas do micaelense José Francisco Costa, recentemente lançado aqui em Ponta Delgada. Emigrado nos EUA desde 1978, é professor de língua e literatura portuguesas numa universidade norte-americana (Bristol College) e especialista doutorado na obra de Jorge de Sena. Francisco Costa, que fora também aluno da Universidade Católica e depois docente do ensino secundário em Setúbal e Amadora, tem no seu invejável currículo académico e de andarilho perpétuo (regressa todos os anos à sua ilha natal e ao continente) alguma da melhor e mais significante da nossa literatura de imigração, principalmente a ficção de Mar e Tudo e a poesia de E da carne se fez verbo. Toda a sua temática envolve o quotidiano entre os seus conterrâneos comunitários e o chamamento contínuo à memória de si e dos seus na ilha, viajando entre o “eu” narrador introspectivo e o corpo colectivo que lhe deu vida, consciência e sentido. Leonor Simas-Almeida (Brown University), ela própria especialista em literaturas africanas de língua portuguesa, e que assina o prefácio ao presente volume, afirma num determinado passo que “Como Nemésio, como Garrett, como Camões (…) alcanças excelência na articulação das raízes da poesia oral com outras formas de sofisticação”. Serão exactamente essas formas de sofisticação que demarcam agora estes poemas da obra anterior — Francisco Costa na plena maturidade de vida e de escrita, em que a dialéctica do presente e do passado conseguem a sempre difícil síntese entre a forma e o conteúdo, reapresentando-nos de novo a uma ambiência existencialista na qual o autor vai procurando ou redefinindo os seus próprios valores e as respectivas consequências no seu posicionamento ante o grupo, quer o colectivo anónimo quer os das suas afeições e sangue. A última secção de ficou-me na alma este gosto… contém vários poemas dedicados e em diálogo com os da sua intimidade familiar, ainda outros dedicados a amigos e companheiros de viagem, mas é na sequência intermediária de quatro poemas intitulados “impressão” que Francisco Costa revisita outros “territórios do coração” fora das ilhas e da América, e reafirma conclusivamente as suas outras indeléveis e inquestionáveis lealdades: Não me desejo estranhado/nesta sala antiga de tantas visitas./Sou parte deste povo/confuso e nobre, escreve no poema inspirado pela cidade do Porto. Para os que reclamam de quando em quando “universalidade” na literatura açoriana (que alguns parecem nunca ler, sem que esse facto os impeça de tecerem as mais “sérias” considerações) fiquem por aqui. Se há uma literatura europeia, mesmo que não muito conhecida nem pelos de casa nem por outros, que viaja com todo o à-vontade pelo mundo — pense-se na pequenez de algumas outras nesse mesmo continente a leste para além de três ou quatro países maiores — será a nossa desde há séculos a esta parte. É ainda na referida sequência continental, noutra visita a Lisboa, que o poeta volta a deixar a sua “impressão”, reavivando a sua e nossa memória: Ainda a capital/num império de sonhos (…) /de um povo que/com olhos de água/comoveu o mundo/mas ficou-se quieto/ao canto da história/por tanto tempo.

Poderíamos muito bem relembrar alguma da poesia de imigração e de exílio de Jorge de Sena, com quem José Francisco Costa partilha, para além do profundo conhecimento da obra que lhe valeu a já mencionada tese, o próprio destino de português sem fronteiras. O autor de ficou-me na alma este gosto… faz agora o que um dos poemas principais deste livro tão bem descreve no seu título, “As contas de sempre”, poema, uma vez mais, emblemático da temática principal que congrega e unifica toda esta outra narrativa açoriana e imigrante. Mesmo que fulminantemente, Francisco Costa não esquece a nossa história recente, a que afinal nos fez navegar (como no poema “Sentido!” dedicado ao falecido capitão de Abril, Vítor Alves), mas é na memorialização do seu mundo ilhéu, para ele nunca inteiramente perdido, que reencontra o ajuste psíquico indispensável à aventura de ser, tanto por necessidade como por opção, estranho em terra estranha. O estar inteira e pacificamente integrado na sociedade de acolhimento, desfrutando da mais invejável posição que é também ser-se professor numa instituição do ensino superior norte-americano, não desfaz ou menoriza todos os mundos que carrega dentro de si. O passado, como diria o grande William Faulkner, nunca é passado, não só vive enraizado em nós como determina todos os nossos rumos, escolhas e sentimentos presentes, mesmo que sejam em primeiro lugar de perda ou de luto. Nenhum dos nossos melhores poetas e cronistas, desde Nemésio dos anos 50-60 a Emanuel Jorge Botelho em páginas mais recentes, deixam de o sublinhar quase obsessivamente. A poesia de José Francisco Costa é esse questionamento sem tréguas, a estética da memória tornada agora imagem e metáfora do caminhante sem rede sobre um beco emocional. É o continente reduzido ilha, é a ilha metamorfoseada em continente sem fim. Eis o equilíbrio de um e/imigrante açoriano consciente de si e do seu mundo, capaz de nos transmitir alguns dos mais prementes dilemas da nossa história, a de cada um de nós e a da comunidade no seu todo aqui e além-mar. É essa, para mim, a centralidade do poema em que se integram os versos que reproduzi aqui em epígrafe, e que tentam responder à indagação inicial de “As contas de sempre”: Que será mais fácil:/Pescar no Atlântico/Com neve na coberta/Coberto de frio gelado? (…) Ser-se de honra perdida escravo/Numa terra livre?”

Para os que, entre nós, têm todas as certezas sobre a nossa sorte, eis aqui um belo exercício socrático na melhor tradição de certa poesia de língua portuguesa, e assim entender um pouco mais o que é ser-se açoriano na modernidade da nossa época.

___________________________

José Francisco Costa, ficou-me na alma este gosto…, Ponta Delgada, Publiçor, 2011.

Da Quase Esquecida Velha Elite Carioca

A tragédia termina como terminam as tragédias, cada qual com as suas sombras, cada qual com as suas lágrimas, cada qual com o seu quinhão de lembranças e saudades.

Angela Dutra de Menezes, A Tecelã de Sonhos

Vamberto Freitas

A maravilhosa tragicomédia que é o romance A Tecelã de Sonhos, da luso-brasileira Angela Dutra de Menezes, encerra, como alguns outros romances entre nós, com a assinatura da autora e a precisão do lugar e data: “Rio de Janeiro, Julho de 2008”. À primeira vista poderá não significar nada, mas também poderemos fazer outra leitura dessa aparente banal informação dada ao leitor, que é simplesmente lembrar-nos, como afirmava José Saramago quando confrontado com demasiada teoria literária e outras pretensões da crítica universitária: por detrás de cada narrador/a existe, o que nunca devemos esquecer, um autor ou uma autora, pessoa real com mundos inteiros dentro de si, com história única, com vivências lembradas, com sentimentos e saberes, e sobretudo com uma visão da sua sorte e a de todos os outros em sua volta. Toda a boa ou grande escrita só pode nascer do mais íntimo do ser de cada artista. O resto é mero contexto: sem essa subjectividade não há arte que nos comova para além do serviço testemunhal que possivelmente presta à identidade de qualquer sociedade ou comunidade. Isto para dizer que A Tecelã de Sonhos, com todas as suas mistificações e despistes naturais ao acto de criação, tem força de mais para não ter como origem e referencial vidas vividas, vidas íntimas e laterais no percurso da sua autora; o que só lhe dá ainda mais beleza e profundidade, apresentando qualquer leitor atento à comunhão com, e à eventual estranheza de realidades diferentes com que somos confrontados nessa aprendizagem sobre a caminhada de outros num determinado tempo e espaço.

Se apontei aqui a condição de “luso-brasileira” da autora é porque (tal como noutros romances e não-ficção sua) esse passado ancestral torna-se demasiado claro e importante na cosmovisão e auto-imagem da sua narradora e de algumas outras personagens. A Tecelã de Sonhos reinventa a história de Berenice adentro de um clã luso-brasileiro antigo do Rio de Janeiro na última metade do século passado até à entrada nos dias presentes, financeiramente poderoso e socialmente influente naquela sociedade desde sempre. A história da família Vogel vai sendo revista no contexto de mudanças sociais e políticas, numa tradição romanesca tanto nossa como anglo-saxónica. Dinheiro velho e a antiga classe dominante (o pai de Berenice é advogado com aguda consciência social e sentido de responsabilidades ante os outros), acompanhamos a coexistência formalista entre os progenitores e as novas gerações do século XX. Como diz Berenice a certa altura, “nos anos 1960 já não existe mais espaço para mulheres dondocas”. Tradição e educação: é um equilíbrio sempre precário, mas a rebeldia dos mais novos leva-os a optarem por profissões que nem sempre agradam aos patriarcas e matriarcas do dito clã: a protagonista torna-se dentista, um irmão comandante da aviação civil transatlântica, e um outro forma-se na universidade norte-americana de Harvard. Saem, assim, do interior de uma poderosa dinastia para se juntarem à “gentinha”, na palavra depreciativa dos mais antigos. Há em A Tecelã de Sonhos uma qualidade rara na conflituosa sociedade sul-americana mas decididamente (para desgosto de muitos outros brasileiros) de origem ibérica: a luta de classes transforma-se aqui na aceitação fatalista da secular desigualdade do catolicismo piedoso, sem se perder nunca o sentido de justiça e da dignidade dos vizinhos menos felizes. Nalgumas cenas universitárias durante o golpe militar de 1964, são precisamente os filhos da elite que se juntam aos da classe média para a defesa geral contra a violência oficializada. De resto, é um romance que capta em linguagem leve e vivíssima a morte de uma época brasileira — ou ocidental — e o nascimento de outra, a nossa, a da sem-vergonhice absoluta Se, uma vez mais, esse contexto é essencial, A Tecelã de Sonhos é sobretudo uma magnífica tirada sobre as opções e os rumos de uma mulher apanhada descomplexadamente entre o dinheiro (“a rodos”, como ela própria nos relembra de quando em quando) e a sua própria inteligência e audácia, a contestação civilizada mas constante a esse mundo moribundo ou em fase de radical mutação. As imagens que se sucedem e sobressaem imparavelmente neste romance fazem-nos lembrar a melhor literatura deste género tanto da Europa como das Américas. Não existem aqui sentimentos de culpa, mesmo que Berenice, como muitas das suas comparsas, na ficção da nossa era e na “realidade” holywoodesca em toda a parte, sintam a necessidade de encher o saco a um qualquer analista, freudiano ou fantasista de outra espécie. Trata-se, aqui, de um elogio ao sentido de comédia da própria narradora.

Berenice autodesdobra-se interiormente logo à partida, desde a menina aventureira com os irmãos no mar de Ipanema e em famosas lagoas circundantes à mulher tranquila e mais ou menos feliz da pós-menopausa. Dentro de si existem irremediavelmente as outras que ela chama de Berenice Comportada, Berenice Maluca e Berenice Liberdade. Criada e educada pelos avós na sua mansão do Rio e por uma mãe indiferente e quase ausente da narrativa, é por esse artifício abertamente pessoano que a ela nos reconta a sua vida multifacetada em tudo; casamento feito e desfeito, faculdade e profissão, sexo e alguns amantes ocasionais e passageiros, entre os quais se distingue um cirurgião português como o preferido na cama mas também, pois claro, dispensável. Todas as regras da família são quebradas aqui na sua busca pela liberdade e pela felicidade, repetindo sempre o que parecerá uma banalidade mas contendo em si tanto de verdade como de cómico: o dinheiro, afinal, não compra tudo, não impede que morram, no decurso mesmo natural da vida e do tempo, os que amamos. Desde menina e pela vida fora imagina o pai falecido sentado num cavalo debaixo de uma mangueira à entrada de uma favela nos arredores. A lusitanidade, mesmo nascida e velha de gerações nos paradisíacos trópicos, não morre nunca — quando tudo nos falha, aí temos o redentor sebastianismo e a esquizofrenia criativa e poética. Mulher só mas que recusa perder por um instante a companhia reconfortante dos que com ela nasceram e partilham esse destino de aliar o dinheiro velho a uma existência profissional consequente, Berenice, as três ao mesmo tempo, viaja pelo mundo, vai trabalhar numa perdida aldeia africana onde a pobreza não tem par, reclama e recorda para si todo e qualquer momento nas mais extremas circunstâncias, inclusive ser apanhada por um tsunami asiático em 2004 enquanto enroscada no corpo do seu amante luso num hotel luxuoso. Num dos muitos e contínuos passos deliciosos de A Tecelã de Sonhos, relata-nos com certo sorriso escondido e sempre em linguagem cheia de humor e alguma ironia de como havia reagido o seu analista ao ouvir os temores da sua paciente quando se lembrara de fugir entre esfarrapados e mortos após o recuo da onda mortal: “O terapeuta coça a cabeça, indeciso… Psiquiatria ocidental cuida de abobrinhas afectivo-emocionais e desencontros sexuais”. Eis aí só um breve exemplo de prosa que nunca falha o seu alvo, a crueza da poesia pura.

Angela Dutra de Menezes tem editados no nosso país O Português Que Nos Pariu e Mil Anos Menos Cinquenta, ambos de temática luso-brasileira.

_________________________

 Angela Dutra de Menezes, A Tecelã de Sonhos, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2008.