Da Quase Esquecida Velha Elite Carioca

A tragédia termina como terminam as tragédias, cada qual com as suas sombras, cada qual com as suas lágrimas, cada qual com o seu quinhão de lembranças e saudades.

Angela Dutra de Menezes, A Tecelã de Sonhos

Vamberto Freitas

A maravilhosa tragicomédia que é o romance A Tecelã de Sonhos, da luso-brasileira Angela Dutra de Menezes, encerra, como alguns outros romances entre nós, com a assinatura da autora e a precisão do lugar e data: “Rio de Janeiro, Julho de 2008”. À primeira vista poderá não significar nada, mas também poderemos fazer outra leitura dessa aparente banal informação dada ao leitor, que é simplesmente lembrar-nos, como afirmava José Saramago quando confrontado com demasiada teoria literária e outras pretensões da crítica universitária: por detrás de cada narrador/a existe, o que nunca devemos esquecer, um autor ou uma autora, pessoa real com mundos inteiros dentro de si, com história única, com vivências lembradas, com sentimentos e saberes, e sobretudo com uma visão da sua sorte e a de todos os outros em sua volta. Toda a boa ou grande escrita só pode nascer do mais íntimo do ser de cada artista. O resto é mero contexto: sem essa subjectividade não há arte que nos comova para além do serviço testemunhal que possivelmente presta à identidade de qualquer sociedade ou comunidade. Isto para dizer que A Tecelã de Sonhos, com todas as suas mistificações e despistes naturais ao acto de criação, tem força de mais para não ter como origem e referencial vidas vividas, vidas íntimas e laterais no percurso da sua autora; o que só lhe dá ainda mais beleza e profundidade, apresentando qualquer leitor atento à comunhão com, e à eventual estranheza de realidades diferentes com que somos confrontados nessa aprendizagem sobre a caminhada de outros num determinado tempo e espaço.

Se apontei aqui a condição de “luso-brasileira” da autora é porque (tal como noutros romances e não-ficção sua) esse passado ancestral torna-se demasiado claro e importante na cosmovisão e auto-imagem da sua narradora e de algumas outras personagens. A Tecelã de Sonhos reinventa a história de Berenice adentro de um clã luso-brasileiro antigo do Rio de Janeiro na última metade do século passado até à entrada nos dias presentes, financeiramente poderoso e socialmente influente naquela sociedade desde sempre. A história da família Vogel vai sendo revista no contexto de mudanças sociais e políticas, numa tradição romanesca tanto nossa como anglo-saxónica. Dinheiro velho e a antiga classe dominante (o pai de Berenice é advogado com aguda consciência social e sentido de responsabilidades ante os outros), acompanhamos a coexistência formalista entre os progenitores e as novas gerações do século XX. Como diz Berenice a certa altura, “nos anos 1960 já não existe mais espaço para mulheres dondocas”. Tradição e educação: é um equilíbrio sempre precário, mas a rebeldia dos mais novos leva-os a optarem por profissões que nem sempre agradam aos patriarcas e matriarcas do dito clã: a protagonista torna-se dentista, um irmão comandante da aviação civil transatlântica, e um outro forma-se na universidade norte-americana de Harvard. Saem, assim, do interior de uma poderosa dinastia para se juntarem à “gentinha”, na palavra depreciativa dos mais antigos. Há em A Tecelã de Sonhos uma qualidade rara na conflituosa sociedade sul-americana mas decididamente (para desgosto de muitos outros brasileiros) de origem ibérica: a luta de classes transforma-se aqui na aceitação fatalista da secular desigualdade do catolicismo piedoso, sem se perder nunca o sentido de justiça e da dignidade dos vizinhos menos felizes. Nalgumas cenas universitárias durante o golpe militar de 1964, são precisamente os filhos da elite que se juntam aos da classe média para a defesa geral contra a violência oficializada. De resto, é um romance que capta em linguagem leve e vivíssima a morte de uma época brasileira — ou ocidental — e o nascimento de outra, a nossa, a da sem-vergonhice absoluta Se, uma vez mais, esse contexto é essencial, A Tecelã de Sonhos é sobretudo uma magnífica tirada sobre as opções e os rumos de uma mulher apanhada descomplexadamente entre o dinheiro (“a rodos”, como ela própria nos relembra de quando em quando) e a sua própria inteligência e audácia, a contestação civilizada mas constante a esse mundo moribundo ou em fase de radical mutação. As imagens que se sucedem e sobressaem imparavelmente neste romance fazem-nos lembrar a melhor literatura deste género tanto da Europa como das Américas. Não existem aqui sentimentos de culpa, mesmo que Berenice, como muitas das suas comparsas, na ficção da nossa era e na “realidade” holywoodesca em toda a parte, sintam a necessidade de encher o saco a um qualquer analista, freudiano ou fantasista de outra espécie. Trata-se, aqui, de um elogio ao sentido de comédia da própria narradora.

Berenice autodesdobra-se interiormente logo à partida, desde a menina aventureira com os irmãos no mar de Ipanema e em famosas lagoas circundantes à mulher tranquila e mais ou menos feliz da pós-menopausa. Dentro de si existem irremediavelmente as outras que ela chama de Berenice Comportada, Berenice Maluca e Berenice Liberdade. Criada e educada pelos avós na sua mansão do Rio e por uma mãe indiferente e quase ausente da narrativa, é por esse artifício abertamente pessoano que a ela nos reconta a sua vida multifacetada em tudo; casamento feito e desfeito, faculdade e profissão, sexo e alguns amantes ocasionais e passageiros, entre os quais se distingue um cirurgião português como o preferido na cama mas também, pois claro, dispensável. Todas as regras da família são quebradas aqui na sua busca pela liberdade e pela felicidade, repetindo sempre o que parecerá uma banalidade mas contendo em si tanto de verdade como de cómico: o dinheiro, afinal, não compra tudo, não impede que morram, no decurso mesmo natural da vida e do tempo, os que amamos. Desde menina e pela vida fora imagina o pai falecido sentado num cavalo debaixo de uma mangueira à entrada de uma favela nos arredores. A lusitanidade, mesmo nascida e velha de gerações nos paradisíacos trópicos, não morre nunca — quando tudo nos falha, aí temos o redentor sebastianismo e a esquizofrenia criativa e poética. Mulher só mas que recusa perder por um instante a companhia reconfortante dos que com ela nasceram e partilham esse destino de aliar o dinheiro velho a uma existência profissional consequente, Berenice, as três ao mesmo tempo, viaja pelo mundo, vai trabalhar numa perdida aldeia africana onde a pobreza não tem par, reclama e recorda para si todo e qualquer momento nas mais extremas circunstâncias, inclusive ser apanhada por um tsunami asiático em 2004 enquanto enroscada no corpo do seu amante luso num hotel luxuoso. Num dos muitos e contínuos passos deliciosos de A Tecelã de Sonhos, relata-nos com certo sorriso escondido e sempre em linguagem cheia de humor e alguma ironia de como havia reagido o seu analista ao ouvir os temores da sua paciente quando se lembrara de fugir entre esfarrapados e mortos após o recuo da onda mortal: “O terapeuta coça a cabeça, indeciso… Psiquiatria ocidental cuida de abobrinhas afectivo-emocionais e desencontros sexuais”. Eis aí só um breve exemplo de prosa que nunca falha o seu alvo, a crueza da poesia pura.

Angela Dutra de Menezes tem editados no nosso país O Português Que Nos Pariu e Mil Anos Menos Cinquenta, ambos de temática luso-brasileira.

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 Angela Dutra de Menezes, A Tecelã de Sonhos, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2008.

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