Toda a Saudade, Agora

O que teria sido mais fácil:/Viver morrendo/no basalto morno?/Escrever ilhas de granito?/Riscar saudades na memória/húmida de vindouros?

José Francisco Costa, ficou-me na alma este gosto…

Vamberto Freitas

Este tem sido o ano de grande continuidade e regressos da minha geração literária nas ilhas e na Diáspora. A literatura açoriana, só nestes últimos meses, viu-se ainda mais enriquecida com obras de ficção, poesia, crónica e ensaio, principalmente com nomes já canónicos no nosso meio ou de outros que rodam lá perto ou por mera associação de profundas afinidades temáticas e estéticas: Urbano Bettencourt, Álamo Oliveira, Victor Rui Dores, Francisco Cota Fagundes, Artur Goulart, Vasco Pereira da Costa, Onésimo T. Almeida — e agora José Francisco Costa. Todos eles vinham desdizendo o que eu próprio havia anunciado, agora sei que muito precocemente, aqui há anos: que estávamos todos a entrar na nefasta idade do suposto cansaço, do cinismo, vamos lá, sabedor, e do Vazio quando “tudo” já tinha sido dito. Devia-me ter lembrado que a possível indiferença pessoal, momentânea, nunca foi boa conselheira do pensamento claro, não deve servir para contestar toda a história e teoria da literatura na nossa e noutras línguas. Foi precisamente esse equívoco que levou alguns escritores portugueses e de outras paragens, aparentemente exaustos, a “declarar” a morte do romance. Muito pelo contrário: não só está vivíssimo como finalmente retomou a linha realista que o havia consagrado entre grandes números de leitores a partir do fim do século XIX, reinventando a forma de grandes calhamaços, alguns dos quais ascendendo às listas dos mais vendidos. Quanto a nós, e também ao contrário do que afirmam alguns dos mais novos, nenhuma das velhas “questões” se tornou irrelevante. A emigração e a realidade social menos feliz, desgraçadamente, ainda vão comover muita da sua própria escrita, nem que seja a dos meninos de oiro que ainda embarcam todos os dias em busca de trabalho ou de mera realização pessoal. É a nossa condição lusitana: sempre com um pé no futuro e outro no passado; e com boa parte Europa a caminho da raiva e da ruína, ninguém sabe que outros temas regressarão às nossas páginas.

Veio tudo isto a propósito do presente ficou-me na alma este gosto…, poemas do micaelense José Francisco Costa, recentemente lançado aqui em Ponta Delgada. Emigrado nos EUA desde 1978, é professor de língua e literatura portuguesas numa universidade norte-americana (Bristol College) e especialista doutorado na obra de Jorge de Sena. Francisco Costa, que fora também aluno da Universidade Católica e depois docente do ensino secundário em Setúbal e Amadora, tem no seu invejável currículo académico e de andarilho perpétuo (regressa todos os anos à sua ilha natal e ao continente) alguma da melhor e mais significante da nossa literatura de imigração, principalmente a ficção de Mar e Tudo e a poesia de E da carne se fez verbo. Toda a sua temática envolve o quotidiano entre os seus conterrâneos comunitários e o chamamento contínuo à memória de si e dos seus na ilha, viajando entre o “eu” narrador introspectivo e o corpo colectivo que lhe deu vida, consciência e sentido. Leonor Simas-Almeida (Brown University), ela própria especialista em literaturas africanas de língua portuguesa, e que assina o prefácio ao presente volume, afirma num determinado passo que “Como Nemésio, como Garrett, como Camões (…) alcanças excelência na articulação das raízes da poesia oral com outras formas de sofisticação”. Serão exactamente essas formas de sofisticação que demarcam agora estes poemas da obra anterior — Francisco Costa na plena maturidade de vida e de escrita, em que a dialéctica do presente e do passado conseguem a sempre difícil síntese entre a forma e o conteúdo, reapresentando-nos de novo a uma ambiência existencialista na qual o autor vai procurando ou redefinindo os seus próprios valores e as respectivas consequências no seu posicionamento ante o grupo, quer o colectivo anónimo quer os das suas afeições e sangue. A última secção de ficou-me na alma este gosto… contém vários poemas dedicados e em diálogo com os da sua intimidade familiar, ainda outros dedicados a amigos e companheiros de viagem, mas é na sequência intermediária de quatro poemas intitulados “impressão” que Francisco Costa revisita outros “territórios do coração” fora das ilhas e da América, e reafirma conclusivamente as suas outras indeléveis e inquestionáveis lealdades: Não me desejo estranhado/nesta sala antiga de tantas visitas./Sou parte deste povo/confuso e nobre, escreve no poema inspirado pela cidade do Porto. Para os que reclamam de quando em quando “universalidade” na literatura açoriana (que alguns parecem nunca ler, sem que esse facto os impeça de tecerem as mais “sérias” considerações) fiquem por aqui. Se há uma literatura europeia, mesmo que não muito conhecida nem pelos de casa nem por outros, que viaja com todo o à-vontade pelo mundo — pense-se na pequenez de algumas outras nesse mesmo continente a leste para além de três ou quatro países maiores — será a nossa desde há séculos a esta parte. É ainda na referida sequência continental, noutra visita a Lisboa, que o poeta volta a deixar a sua “impressão”, reavivando a sua e nossa memória: Ainda a capital/num império de sonhos (…) /de um povo que/com olhos de água/comoveu o mundo/mas ficou-se quieto/ao canto da história/por tanto tempo.

Poderíamos muito bem relembrar alguma da poesia de imigração e de exílio de Jorge de Sena, com quem José Francisco Costa partilha, para além do profundo conhecimento da obra que lhe valeu a já mencionada tese, o próprio destino de português sem fronteiras. O autor de ficou-me na alma este gosto… faz agora o que um dos poemas principais deste livro tão bem descreve no seu título, “As contas de sempre”, poema, uma vez mais, emblemático da temática principal que congrega e unifica toda esta outra narrativa açoriana e imigrante. Mesmo que fulminantemente, Francisco Costa não esquece a nossa história recente, a que afinal nos fez navegar (como no poema “Sentido!” dedicado ao falecido capitão de Abril, Vítor Alves), mas é na memorialização do seu mundo ilhéu, para ele nunca inteiramente perdido, que reencontra o ajuste psíquico indispensável à aventura de ser, tanto por necessidade como por opção, estranho em terra estranha. O estar inteira e pacificamente integrado na sociedade de acolhimento, desfrutando da mais invejável posição que é também ser-se professor numa instituição do ensino superior norte-americano, não desfaz ou menoriza todos os mundos que carrega dentro de si. O passado, como diria o grande William Faulkner, nunca é passado, não só vive enraizado em nós como determina todos os nossos rumos, escolhas e sentimentos presentes, mesmo que sejam em primeiro lugar de perda ou de luto. Nenhum dos nossos melhores poetas e cronistas, desde Nemésio dos anos 50-60 a Emanuel Jorge Botelho em páginas mais recentes, deixam de o sublinhar quase obsessivamente. A poesia de José Francisco Costa é esse questionamento sem tréguas, a estética da memória tornada agora imagem e metáfora do caminhante sem rede sobre um beco emocional. É o continente reduzido ilha, é a ilha metamorfoseada em continente sem fim. Eis o equilíbrio de um e/imigrante açoriano consciente de si e do seu mundo, capaz de nos transmitir alguns dos mais prementes dilemas da nossa história, a de cada um de nós e a da comunidade no seu todo aqui e além-mar. É essa, para mim, a centralidade do poema em que se integram os versos que reproduzi aqui em epígrafe, e que tentam responder à indagação inicial de “As contas de sempre”: Que será mais fácil:/Pescar no Atlântico/Com neve na coberta/Coberto de frio gelado? (…) Ser-se de honra perdida escravo/Numa terra livre?”

Para os que, entre nós, têm todas as certezas sobre a nossa sorte, eis aqui um belo exercício socrático na melhor tradição de certa poesia de língua portuguesa, e assim entender um pouco mais o que é ser-se açoriano na modernidade da nossa época.

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José Francisco Costa, ficou-me na alma este gosto…, Ponta Delgada, Publiçor, 2011.

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