“Brasil” de John Updike

…eram um casal discordante, mas o Brasil fora povoado por casais discordantes.

John Updike, Brasil

Vamberto Freitas

A citação de acima poderá explicar em parte algumas das objecções que a crítica brasileira e mesmo alguma nos EUA opôs ao romance do grande escritor John Updike, Brasil, aquando da sua publicação original em 1994, versão que viria a ser traduzida e publicada em Portugal pela Civilização Editora em 2009, o ano da morte do autor. Comece-se aqui por dizer que a vastíssima obra de Updike a partir dos anos 50 nunca foi, como as grandes obras nunca não foram, pacíficas para a crítica, especialmente a crítica e ensaísmo que combinam desconstrução textual e ideológica em consonância com o politicamente correcto ou incorrecto de épocas recentes. De qualquer modo, Updike, ele próprio ensaísta e recenseador de outros escritores da sua geração, nunca cedeu em nenhum dos seus romances profundamente americanos na sua ética e cosmovisão, a classe-média em foco nas suas tribulações e hipocrisias sem fim, em que o sexo, ou a falta dele, se torna quase na metáfora dominante das suas narrativas. Se faleceu sem receber o Prémio Nobel (ganhou todos os grandes e prestigiados reconhecimentos públicos do seu país) poderá ter a ver com outros juízos ou circunstâncias, mas a acusação persistente de uma suposta postura demasiado machista, por um lado, e levemente racista, por outro, raramente estiveram ausentes de muitas apreciações que não poderiam deixar de reconhecer a grandeza da sua arte formal, a pertinência universalizada da sua temática modernista, as estórias genialmente contadas por quem desde há muito se havia tornado num dos mais distintos escritores de largo alcance, e associado em primeiro plano a publicações como a revista The New Yorker.

Brasil (Brazil, no original, a versão que li apesar da nota bibliográfica da edição lusa aqui, consultada por questões de tradução), foi o segundo romance em que o autor sai do seu território natal (The Coup/O Golpe foi o outro, situado num fictício país africano), torna-se como que num exercício de comparação com tudo o que de mais íntimo o movia e comovia, os Estados Unidos do século vinte na sua comoção geral, essa outra sociedade (que sempre se teve por ser excepcional) na sua perpétua reinvenção novo-mundista. Não admira que o outro grande país a sul despertasse o interesse envolvente de John Updike (tendo nascido num dos mais puritanos dos estados americanos, Pensilvânia, e vivido quase toda a vida noutro, em Massachusetts, ambos nos antípodas de tudo o que se refere ao Brasil) não pelas semelhanças mas sim, creio, pelas diferenças profundas e naturais recebidas das heranças históricas de dois extremos civilizacionais da Europa. Aliás, de quando em quando na sua narrativa Updike alude directa ou indirectamente ao passado e à influência lusa sem rival no Brasil colonial, indelével e que continua a definir, para o bem e para o mal, os contornos político-económicos e sociais daquela grande sociedade. Não faz juízos de valor, sobressaindo o seu fascínio pela mistura racial mesmo que a convivência, contrariando muitas ideias feitas, não seja de modo algum pacífica ou de todo democrática. Para além do seu conhecimento pessoal do país, Updike anota num posfácio a Brasil os escritores que leu em preparação para o seu romance, todos eles hoje canónicos na cultura literária brasileira, desde Machado de Assis e Euclides da Cunha a Jorge Amado e Nélia Piñon. Gilberto Freyre é directamente mencionado na própria narrativa, tal o impacto e influência desde sempre que Casa Grande e Senzala exerceu entre os brasilianistas e uns outros tantos estudiosos e intelectuais norte-americanos.

Brasil abre numa praia de Copacabana nos anos 60, já com o país sob a ditadura que o haveria de governar até 1985, e encerra nos anos 80, após a reinstauração da democracia. Acredito ser de grande importância o tempo ficcional da narrativa, pois vivia-se ainda numa contradição natural no decorrer do tempo e dos acontecimentos. O velho convive com o novo, a descrença com a esperança — pessoal e colectiva. Estamos efectivamente no Brasil da música inovadora e rebelde de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que fintavam os poderes de vários modos, como na época do nascimento de uma outra literatura urbana após o longo domínio do regionalismo literário nordestino, e, sim, estamos no país do Carnaval e do sexo, onde até as árvores parecem fazer amor e molhar os pés na espuma branca das ondas sul-atlânticas um orgasmo sem fim. Poderá ser esta última insistência de Updike numa mítica geografia irremediavelmente sensual uma das maiores objecções dalguma crítica brasileira e, até, repita-se, norte-americana. Mas também a sensualidade sem freios linguísticos ou sociais do romance deverão ser vistos, no seu andamento brilhante entre cidade e selva durante o qual tanto o passado histórico como o detalhe da paisagem e gentes nativas do interior são descritos minuciosamente, como uma metáfora da vida e morte, do desejo e do pecado original não dos brasileiros, mas da Humanidade no seu todo. Que resta, afinal, aos contestatários de uma sociedade cimentada na sua Tradição segregada em classes sociais e raça, apesar da ideia do Brasil constituir a maior democracia racial do planeta não ser de todo desprezível? O romance tem início no encontro casual entre dois jovens do Rio de Janeiro, um adolescente, Tristão, negro, de faca na mão e dedicado ao crime do roubo a gringas desprevenidas, residente numa das favelas circundantes, e de Isabel, branca e filha da classe média alta, virgem de corpo e experiência de vida. Trata-se de uma representação fortemente inspirada nos trópicos europeizados, como refere o próprio autor, em The Romance of Tristan and Iseult de Joseph Béder, ou em Tristão e Isolda da famosa ópera de Richard Wagner. Por entre os batuques afro-brasileiro e ameríndio e o domínio violento da classe dominante brasileira, a tragédia inclui o amor total mas será inevitável neste outro contexto sócio-político e cultural.

Brasil, uma vez mais, é essa representação de um país em transição, ao mesmo tempo amordaçado e a despertar vivamente para as mudanças radicais que o viriam a colocar na sua actual etapa histórica. Tudo aqui — as cidades gigantescas, centros da indústria e do comércio internacional, como São Paulo, um Rio de Janeiro romântico mas parado no tempo e servindo quase só de poiso luxuoso à classe dominante mas fora da política, o sertão totalmente selvagem ou abrigo de pequenas e perdidas povoações nas quais, no entanto, já se vêem sinais de caminhos em construção que levarão a outros horizontes e vontades — serve de fundo humano e político à tentativa de sobrevivência de dois jovens rebeldes que não aceitam o lugar que lhes haviam reservado no mundo, nem no mais alto escalão social nem no inferno das ruelas faveladas. Ninguém associará qualquer obra de John Updike a intenções ideológicas, e muito menos revolucionárias. Mas será precisamente essa capacidade narrativa, aqui entre a observação despida de complicações formais, a efabulação e até mesmo certo realismo mágico, que torna um romance como Brasil algo mais do que prazer puro da leitura e do voyeurismo sexual das suas páginas tornando-se num retrato duradouro e, sim, crítico, de um determinado lugar e tempo. Quando Updike é acusado de estar constantemente a comparar o pais a sul com o seu a norte, comete-se uma injustiça preconceituosa, se bem que aqui ao contrário. Que esperar de um narrador que se assume estrangeiro, especialmente quando nunca insinua superioridade ou inferioridade de um lado ou outro, apenas diferença?

Por vezes, toda a ironia de uma longa narrativa poderá estar escondida numa simples palavra, passo ou incidente. O fecho de Brasil é esse momento neste romance, já para não mencionar que a viragem de toda a narrativa acontece quando se dá uma mudança mágica no corpo de Tristão e de Isabel, já adultos e aprisionados nas florestas ou cerrados do interior fundo e escondido, acabando tudo na mesma praia de onde tinham partido muitos anos antes.

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John Updike, Brasil (Tradução de Carmo Romão), Porto, Civilização Editora, 2009.

 

 

 

 

Português Reinventado Cá Dentro e Lá Fora

Digo-te uma coisa: a emigração deu cabo deste país! Mal ganham uns patacos, ninguém lhes pode com a chança! O homem desta trolha está na Alemanha.

J. Rentes de Carvalho, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia

Vamberto Freitas

Conhecia pouquíssimo da grande obra de J. Rentes de Carvalho antes de ler estes contos recentemente editados de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Já nos idos de 80 lia, como alguns outros colegas da Diáspora, contos ou crónicas avulsas do autor publicadas especialmente numa pequena revista literária, Peregrinação: Artes e Letras da Diáspora Portuguesa, fundada e dirigida pelo falecido José David Rosa e distribuída entre alguns de nós um pouco por toda a parte, incitados constantemente por Fernando Venâncio, que foi também seu colaborador assíduo desde a primeira hora, mais tarde crítico literário de jornais como o Expresso e JL, ele próprio (tal como Rentes de Carvalho) residente de longa data na Holanda, onde ambos cedo construíram uma vida académica em volta dos estudos portugueses nas universidades nacionais daquele país. Peregrinação, adicione-se ainda, circulava em todas os continentes, chamando a si um longo rol de nomes tão conhecidos entre nós como Eugénio Lisboa, Eduardo Mayone Dias e Mário Cláudio. Este é um caso literário, o de J. Rentes de Carvalho, fora de série entre nós, levou muito mais tempo do que o habitual para a sua escrita sair de uma espécie de nicho de culto que por ele alguns alimentavam desde há muito, e receber a atenção nacional ou internacional que bem merece. Toda a sua obra está actualmente a ser publicada em Lisboa pela Quetzal, na sua colecção apropriadamente intitulada Língua Comum, e que por certo nos vai brindar com outras surpresas da literatura lusófona. Felizmente, a obra de J. Rentes de Carvalho tem sido agora largamente divulgada na grande imprensa nacional; não haveria mais desculpas, tornar-se-ia mais um grande escritor por nós vergonhosamente desmerecido.

Nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, cedo na vida deixou um Portugal amordaçado e experimentou a sua sorte em países como o Brasil, os EUA e a Holanda, onde passou a residir a partir de 1956 e onde completou os estudos a nível superior, como já foi referido, tendo desde então leccionado por lá Literatura Portuguesa. Entretanto, foi publicando nos mais variados periódicos do nosso país assim como em jornais brasileiros, belgas e, naturalmente, holandeses. Cedo ainda sabíamos do seu bem sucedido romance, quer em termos críticos quer em aceitação geral, Com Os Holandeses (que Onésimo T. Almeida tinha lido então ainda em manuscrito e dele nos falava), mesmo ou sobretudo no seu país de adopção, assim como da ficção de Ernestina, A Amante Holandesa, Tempo Contado e La Coca.

A temática de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia integra-se por inteiro no destino lusíada durante toda a sua história mas muito especialmente no século passado quando as nossas andanças quase não conheciam geografias pré-definidas, se bem que centradas, sempre, nas Américas e depois na Europa. Ainda hoje poucos lá nos entendem e, pela nossa parte, ainda hoje eles pouco nos comovem para além da política financeira ou de escritores e poetas dominantes no diversificadíssimo pequeno-grande continente. Rentes de Carvalho faz o que fazem sempre os grandes escritores em qualquer língua ou cultura: parte da Tradição mais do que enraizada para rever ou reformular tudo o que pensávamos saber da nossa própria história e “destino”. Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia conjuga em si a nossa ruralidade nortenha (com a marcante presença dos seus emigrantes, inevitavelmente não só pela realidade desse espaço como pela visão e experiência do autor) com o cosmopolitismo de protagonistas e outros personagens desfilando no “estrangeiro” em busca de pão, liberdade e, neste caso muito singular, convivência e criatividade. As suas narrativas estão marcadas não por um falso experimentalismo formal que tentou fazer escola entre nós nos anos 80-90, e de que já poucos se lembram, mas sim pela contenção verbal, pela escorreiteza claríssima de quem tem uma estória para contar e sabe contá-la sem os subterfúgios de quem tenta reinventar tudo inventando absolutamente nada. Ler Rentes de Carvalho é por certo regressar ao melhor da nossa literatura a partir do realismo do século dezanove à geração que ainda conta entre nós com alguns escritores merecidamente reverenciados (Urbano Tavares Rodrigues, Alçada Baptista, Baptista Bastos, por exemplo, numa selecção aqui muito pessoal) por quem sabe distinguir entre um artista da palavra nato e um escritor “fabricado” nos e pelos, uma vez mais, formalismos vazios e sem sentido. O humor destes contos é imparável e sempre revelador do nosso modo de ser e estar num mundo ora em mudança vertiginosa ora parado no tempo; a mais leve e curta narrativa desta colectânea é precisamente a que dá o título ao livro, e vem mais ou menos a meio. É como se o narrador nos quisesse relembrar dos mundos escondidos mas reais que nos habitam: a luta lá fora pela sobrevivência e algum triunfo, e o desejo inconsequente ante a beleza e sensualidade humana (os pequenos detalhes onde a arte reside) que nos rodeia em solo próprio, e que nem sempre somos capazes de ver para além do que é demasiado óbvio ou espampanante. De resto, as narrativas de J. Rentes de Carvalho são esse vaivém constante entre a grandeza da cidade e a pequenez atávica e reconfortante do campo — como numa revisitação, por assim dizer, ao Cidade e as Serras de Eça de Queirós ou a qualquer um dos romances de Camilo Castelo Branco, suponho que outras referências irresistíveis ao presente autor, até pela experiência de escritor português simultaneamente andarilho entre tudo e todos sem nunca descurar ou evitar o regresso a casa.

É claro que da nossa ruralidade continental a meados do século passado, marcada mais ou menos pelo novo-riquismo dos emigrantes regressados da outra Europa e pelos “aristocratas” de aldeia, o narrador, que nesta prosa oscilante entre o que me parecem ser crónica pura e ficção, é ele próprio um visitante ocasional vindo dos mais movimentados e cosmopolitas centros do mundo, desde a Amesterdão da sua residência a São Paulo e Nova Iorque, lugares de facto vividos e bem conhecidos por J. Rentes de Carvalho onde exerceu o jornalismo de vários géneros. É também precisamente dessa condição de andarilho luso universalizado que nascem a ironia, comédia e perspicácia de todas as narrativas de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Como diria Thomas Wolfe, “não se pode regressar a casa”, pois a que abandonámos deixa-nos de existir para sempre. Só que se “volta” sempre, as nossas origens são poderosas demais para se diluírem em qualquer outra parte ou circunstâncias de vida. Quanto mais mundo conhece este narrador, mais lembranças reactiva em si, vem ao encontro dos seus fantasmas plasmados nos lugares e nas pessoas — revê mundos e seres que lhe parecem imutáveis, reconfirma como tudo mudou e ficou igual, como o tempo aqui estanca mesmo ante novas casas, riqueza e pobreza manifestadas nessa paisagem ancestral, agora parecendo tudo tão infantil e inconsequente como os primeiros anos antes da partida em busca de vida e aventura. Se uma aldeia perdida em Trás-os-Montes torna-se palco de todo o tipo de loucura humana, as cidades grandes da sua vivência apenas ampliam a neurose de cada um, cada movimento uma queixa dos que só procuram subir de estatuto ou sobreviver com alguma dignidade na selvática modernidade: portugueses e brasileiros fora do seu contexto natal pululam sem parar nestas páginas, nunca chegando, ou apenas tentando chegar, a um sonho ou a uma mania qualquer. Eis a humanidade no seu melhor e no seu pior, o choro confundindo-se, sempre, com o riso.

J. Rentes de Carvalho pertence a esse grupo de escritores portugueses expatriados durante quase todo século XX que marcaram e marcam brilhantemente a literatura portuguesa moderna.

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J. Rentes de Carvalho, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, Lisboa, Quetzal Editores, 2011.

Entre Mar e Serra: Um Açoriano em Setúbal

Capelas Imperfeitas, um monumento português, as tomei por pessoal ex-libris do viver, do meu destino, do meu estar, entender e agir.

Resendes Ventura, Papel A Mais

Vamberto Freitas

Do meu lugar aqui nos Açores, associo sempre três nomes da nossa vida criativa no continente, talvez porque são, mais ano menos ano, da mesma geração e com um passado e presente intelectual muito semelhante, apesar das diferentes estações de vida que têm ocupado: Olegário Paz, Artur Goulart e Manuel Pereira Medeiros, este que assina o livro aqui em foco, Resendes Ventura, um “pseudónimo”, os nomes dos seus dois avós. Para além disso, representam para mim, que um dia pertenci à geração seguinte mas hoje já nem tanto, a dignidade cívica e intelectual que nos deveriam ser exemplar e servir de bússola: ilhéus sem esquecimento das origens, andarilhos e construtores de mundos-outros, combinando os mais inabaláveis valores na convivência entre todos os seus com uma existência poética escrita e vivida. Olegário Paz, crítico e ensaísta, desenvolve um projecto que é seleccionar poesia inédita de açorianos e dizê-los maravilhosamente com música de fundo divulgando-os durante meses pela net, e espero que venham a ser editados brevemente em livro e cd; Artur Goulart publicou recentemente a poesia memorialista de no fio das palavras, a que dediquei uma apreciação crítica aqui neste espaço; e Resendes Ventura que, um pouco antes dos seus colegas (2009), publicou Papel A Mais: Papéis De Um Livreiro Com Inéditos De Escritores, um belo misto de memórias, poesia e diálogo com outros dos seus afectos e admiração, convidados a incluir textos de vários géneros e formas neste seu livro. Papel A Mais, um título de todo irónico, ficará também como um dos mais originais documentos da literatura açoriana contemporânea, tanto por uma boa parte do seu conteúdo como pela perspectiva ou ponto de vista do seu autor em busca perpétua do seu lugar no mundo e do sentimento de pertença em que a geografia natal não se esvai na memória nem impede nunca a partilha e identificação com todos os outros.

Nascido em Água Retorta em 1936, Resendes Ventura cedo descobriu a sua vocação para o mundo das ideias, até mesmo através de um avô, Ventura de Medeiros, mestre de romeiros e que havia regressado do Brasil com algo mais do que o habitual trazendo também livros na bagagem, e assim indicando ao neto mais mundo para além das pastagens e dos vulcões. Foi aluno no Seminário de Angra do Heroísmo — tal como os seus dois outros colegas aqui referidos — nos anos 50-60, época em que a pequena cidade terceirense fervia com ideias e os projectos literários e intelectuais possíveis adentro do regime sócio-político reinante, tendo José Enes, o filósofo, e Artur Cunha de Oliveira, então desdobrado em poeta sob o pseudónimo de Silva Grelo, como dois mentores marcantes em directo ou por exemplo, e com o suplemento cultural Pensamento do diário diocesano A União a congregar em sua volta alguns dos nomes que mais tarde viriam a destacar-se na academia, na literatura e nas artes em geral. Todos eles, inclusive alguns da geração que os seguiria na mesma instituição e na mesma cidade, levariam ainda para a nossa Diáspora um novo fôlego que nos faria sair pela primeira vez do mundo quieto das nossas comunidades norte-americanas para as respectivas academias reivindicando para todos o estatuto da nossa dignidade étnica no grande esquema das coisas novo-mundistas. Resendes Ventura, no continente, tornar-se-ia no mais criativo livreiro de Setúbal a partir de 1973 com a fundação da sua livraria Culsete (que evoluiu da projecto inicial de 1970, a Culdex), ainda hoje de portas abertas, ainda hoje desenvolvendo a sua actividade de templo literário entre os maiores nomes da literatura dita nacional e das ilhas, muitos deles naturalmente presentes, de vários modos, em Papel A Mais. Sempre na companhia da sua mulher, Fátima Ribeiro de Medeiros (especialista em literatura infanto-juvenil, autora de Do Fruto À Raiz), a Culsete, já com acima de quarenta anos de existência, foi sempre a mais “açoriana” de todas as livrarias, comparando-a mesmo com outras nos Açores, às excepções únicas da SolMar Artes e Letras e d’O Gil em Ponta Delgada.

Creio que Papel A Mais será um dos pouquíssimos testemunhos literários e na generalidade sobre as mais complexas questões do livro e da leitura no nosso país, só possível com a vocação total de um homem como o seu autor. Livreiros como Resendes Ventura existem muito poucos em qualquer língua ou latitude, particularmente nesta idade massificada e na qual a cultura em geral se tornou em mais um negócio, o atendedor vendendo de tudo, de tudo mesmo, nos grandes e até nos pequenos espaços comerciais, sabendo pouco seja do que for a não ser da hora da entrada e saída do emprego. A obra presente traz ainda poemas previamente publicados pelo autor com os títulos Passos de Viagem (Ponta Delgada, 1963) e Mãe d’Alma (Setúbal, 1993), mais outra escrita em diversas plaquettes; Resendes Ventura está ainda representado na Antologia Poética dos Açores (1979), em Setúbal Terra de Poetas e Cantadores (2001) e A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa (2002). Iniciado com uma longa introdução autobiográfica que nos relata a vida e andanças de Resendes Ventura, Papel A Mais prossegue com uma espécie de diário sobre as actividades e acções da Culsete em tudo o que se refere à dinamização da leitura na sua área de actuação, estando o autor extremamente bem informado sempre sobre o que nos faz a sociedade que somos em termos intelectuais e educacionais, e a problemática e políticas do livro no meio de atrasos e avanços das mais recentes décadas. Lançamentos constantes, sessões de leitura e recitais de poesia, visitas a escolas especialmente dirigidas às crianças e o seu despertar para o mundo das ideias, Resendes Ventura e Fátima Ribeiro de Medeiros quase não pensam na venda de livros na Culsete, mas sim na sua presença generalizada entre todos, para que o país, começando ou acabando na sua área de residência e actuação directa, saia um dia do seu estatuto de analfabetismo funcional. Seria longa aqui a lista de nomes famosos e respeitados que consagraram a livraria Culsete em Setúbal, e entre os quais nunca faltaram os açorianos residentes nas ilhas, no continente e na Diáspora. Resendes Ventura, sempre agarrado às suas raízes açóricas, dedica o mesmo carinho e identidade à sua cidade de adopção, desde a beleza e potencialidades da sua Natureza circundante e altiva à sua nada menos riquíssima história literária (a terra de Bocage e de Sebastião da Gama), que por sua vez o tem reconhecido de vários modos, a Culsete sendo uma instituição património daquela cidade.

A meio de Papel A Mais, como indica o próprio título completo do livro, vem a secção denominada “Escrita Amiga: Inéditos de Escritores”, os que contribuíram a pedido do autor com um texto inédito sobre qualquer tema da sua escolha. Tal como no resto da obra, encontramos um pouco de tudo escrito por autores açorianos e outros nomes da nossa literatura. É de facto um livro de livreiro: nunca um autor existe à parte de nada e ninguém, pertence a um todo, mesmo que alguns, felizmente fora de Papel A Mais, se pensem tão grandiosos que só nos Jerónimos caberiam. “O livro tornado comum? — escreve Resendes Ventura na introdução a essas páginas colectivas, reproduzidas aqui em formato ligeiramente modificado — Que hoje qualquer um se sinta escritor? Muito Bem. Basta que a abundância não obnubile a consciência de que a terra que nos dá pão dá a palha e dá o grão”.

Na história da leitura, para quem acredita que só nos livros e nas ideias poderemos existir de modo profundo e consciente, o “vendedor” como poeta da palavra, ele próprio, não é nada comum entre nós. Eis aqui o admirável nicho intelectual de Manuel Pereira Medeiros-Resendes Ventura. Papel a mais? Muito pelo contrário.

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Resendes Ventura, Papel A Mais: Papéis De Um Livreiro Com Inéditos De Escritores, Lisboa, Esfera do Caos, 2009.

O Regresso da (Sapa)teia

O conceito de identidade de Onésimo Almeida é fluido e plural, e esse facto está reflectido tanto na sua técnica narrativa como nos seus debates polémicos.

David Brookshaw no prefácio a Tales From The Tenth Island.

Vamberto Freitas

     Tales From The Tenth Island (com selecção, tradução e introdução de David Brookshaw) é um conjunto de contos tirados de (Sapa)teia Americana de Onésimo T. Almeida, originalmente publicados em Lisboa pela Editora Vega (1983), e depois numa segunda edição das Edições Salamandra em 2000. Perante a habitual desatenção de alguns entre nós, a verdade é que a literatura açoriana já inclui no seu cânone esta escrita-outra, a que nos dá conta, por vezes algures entre a ficção e a realidade, de como a açor-americanidade foi perpetuada pela geração que partiria das ilhas no início dos anos 60. Deu-se, com Onésimo T. Almeida e outros escritores da Diáspora um corte epistemológico radical, que um dia Eduardo Mayone Dias atribuiu a uma nova realidade da nossa imigração a oeste: a primeira geração formada em universidades portuguesas e norte-americanas, mas que eventualmente se viraria para as suas raízes e as transformações sociais e culturais que aconteceram na sociedade de acolhimento, a nova pátria luso-americana. Urbino de San-Payo, outro poeta português imigrado há longos anos naquele país,  também diria a respeito das nossas comunidades norte-americanas em geral: “Sim, somos os filhos de duas paisagens: a da memória e a da vista. A ausência de qualquer delas faz-nos sangrar”. Eis aí uma síntese perfeita de toda temática da literatura dos nossos autores em constante correrias e vivências profundas entre o e o .

     De onde vem este interesse (entusiasmo, diria) de alguns “estrangeiros” por literaturas tão pouco conhecidas como a nossa? Podem alguns intelectuais (especialmente em Portugal, na sua indisfarçada angústia de serem europeus “autênticos”) atirar contra o multiculturalismo e o politicamente correcto, mas foram exactamente estas novas “atitudes” primeiramente emanadas da América do Norte que viriam a permitir novos olhares ante as suas sociedades-mosaico. A partir daí, já ninguém poderia ignorar todos os povos que construíram o Novo Mundo, muito menos faltar-lhes ao respeito que sempre lhes foi devido, mas ofuscado pelo histórico etnocentrismo, quando não racismo aberto e directo. Tive a felicidade imensa de ter participado e testemunhado o início dos anos de transformação e humanização, por assim dizer, de uma sociedade que até aos anos cinquenta vedava aos imigrantes e/ou grupos étnicos minoritários o seu lugar de inteira pertença e cidadania. Dirão que alguma escrita imigrante antecedeu de longe todo este movimento societal. Só que foi a partir desse momento de viragem que essa escrita passa a ser parte de currículos e estudo sistemático nalgumas das mais prestigiadas universidades dos EUA e de outros continentes e países (Brasil e Europa, inclusive em Portugal), a sua divulgação lenta mas seguramente assegurada em publicações especializadas e gerais, acontecendo consequentemente a legitimação da mundividência, concreta e/ou transfigurada, dos que desde sempre haviam permanecido esquecidos nas margens, ou na tal “ponte” das tormentas de que nos falava o poeta já aqui citado. A nova literatura mundial teria de olhar para a complexidade humana que estava subjacente a todas as comunidades e, agora sim, vivências praticamente sem fronteiras.

     David Brookshaw é Professor de Estudos Luso-Brasileiros na University of Bristol (Inglaterra), especializado em literaturas pós-coloniais de língua portuguesa, e desde há alguns anos inclui nos seus estudos a literatura luso-americana e imigrante. Creio que o “fascínio” de Brookshaw, o que o leva a um esforço destes, provém não só do facto de ele não querer deixar passar em branco a mais significativa escrita em língua portuguesa nas suas muitas variantes, como do facto de neste caso se tratar da representação ficcional de gente de ilhas minúsculas em termos geográficos a braços com a sua adaptação num continente imenso, que é a América do Norte. Europeus da periferia, a América esteve desde sempre muito mais próxima de nós do que a restante terra dos nossos antepassados, a distância que nos separa um mero factor da imaginação. A nossa relação com o destino a oeste e a sul (Brasil) nunca foi totalmente pacífica, mas o facto é que os açorianos sempre enfrentaram todas as barreiras imagináveis para se tornarem cidadãos da sua outra pátria americana. Brookshaw conhece todos os nossos meandros culturais e até psíquicos, a sua tradução evidencia nuances de uma criatividade pouco habitual. Tales From The Tenth Island encerra, tal como a colectânea original (Sapa)teia Americana, com o conto “Adriano(s)”, o percurso de um adolescente terceirense na costa leste americana entre uma comunidade maioritariamente de micaelenses. Narrativa sob várias perspectivas, cada um “julgando” Adriano precocemente devotado ao Sonho Americano, rejeitando raivosamente todo o seu passado nas ilhas, logo em luta contra os próprios pais pelo que representam, no seu entender, de “marginalização” na nova sociedade, o mesmo adolescente enquanto visto e descrito nos mais depreciativos termos por outros imigrantes adultos é considerado um herói, um pequeno génio de altas potencialidades profissionais e económicas, pelos anglo-americanos que com ele se cruzam no dia-a-dia. O humor assim como uma certa postura trágico-cómica de Onésimo T. Almeida sobressaem aqui de modo muito especial, sem nunca retirar a seriedade com que um personagem é visto e tratado no drama em que se torna a sua própria reinvenção total. Traduzir as linguagens l(USA)landesas (o cruzamento fonético do português com o inglês, tão característico dos nossos imigrantes) de (Sapa)teia Americana é um tremendo desafio seja para quem for; Brookshaw reconhece-o na sua introdução, mas não hesita ante os mais “intraduzíveis” passos destas narrativas. Adriano, a certa altura, expressa grande antagonismo ante os seus conterrâneos oriundos de São Miguel, dizendo que nem sabia da existência dessa ilha até emigrar, chama-os pelo nome mais comum na Terceira do seu passado — coriscos. Tradução de Brookshaw: sons-of-bitches. Discutível, mas perto de uma semântica, por assim dizer, intencional na minha ilha natal, e vai aí só como um exemplo entre muitos outros das opções de um tradutor conhecedor e atento ao espírito preconceituoso de um povo como o nosso.

     Tales From The Tenth Island foi publicado na Inglaterra, e deduz-se que dirigido a um público reduzido, mas talvez curioso de como navegaram outros ilhéus para um país anglófono, historicamente muito caro a eles próprios. Mesmo que seja lido só por outros estudiosos da lusofonia, o seu contributo não deixa de ser menos importante. O mundo de língua portuguesa extravasa em muito para além dos PALOP. Para quem não pertence “oficialmente” a essa grande comunidade espalhada por todos os continentes e outros arquipélagos, a sua criatividade literária em nada nos fica a dever. Muito pelo contrário: completa os arquivos criativos e memoriais de um povo que sempre navegou e se soube (re)construir em toda a parte, reinventando as suas próprias tradições nos mais improváveis recantos do globo, em convivências pacíficas só permitidas pela criação de novas linguagens, que nos poderão parecer estranhas, mas funcionam plenamente na conjugação da portugalidade com todos os outros. Que estudiosos como David Brookshaw, o muito prestigiado e reconhecido tradutor também de Mia Couto, o reconhecem e valorizam só poderá servir de lição a nós todos. Um pouco mais de atenção à nação peregrina deveria continuar a ser uma exigência intelectual no país de origem.

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     Onésimo T. Almeida, Tales From The Tenth Island (Selection, Translation and Introduction by David Brookshaw), Seagull/Faoileán,England, 2006.