O Regresso da (Sapa)teia

O conceito de identidade de Onésimo Almeida é fluido e plural, e esse facto está reflectido tanto na sua técnica narrativa como nos seus debates polémicos.

David Brookshaw no prefácio a Tales From The Tenth Island.

Vamberto Freitas

     Tales From The Tenth Island (com selecção, tradução e introdução de David Brookshaw) é um conjunto de contos tirados de (Sapa)teia Americana de Onésimo T. Almeida, originalmente publicados em Lisboa pela Editora Vega (1983), e depois numa segunda edição das Edições Salamandra em 2000. Perante a habitual desatenção de alguns entre nós, a verdade é que a literatura açoriana já inclui no seu cânone esta escrita-outra, a que nos dá conta, por vezes algures entre a ficção e a realidade, de como a açor-americanidade foi perpetuada pela geração que partiria das ilhas no início dos anos 60. Deu-se, com Onésimo T. Almeida e outros escritores da Diáspora um corte epistemológico radical, que um dia Eduardo Mayone Dias atribuiu a uma nova realidade da nossa imigração a oeste: a primeira geração formada em universidades portuguesas e norte-americanas, mas que eventualmente se viraria para as suas raízes e as transformações sociais e culturais que aconteceram na sociedade de acolhimento, a nova pátria luso-americana. Urbino de San-Payo, outro poeta português imigrado há longos anos naquele país,  também diria a respeito das nossas comunidades norte-americanas em geral: “Sim, somos os filhos de duas paisagens: a da memória e a da vista. A ausência de qualquer delas faz-nos sangrar”. Eis aí uma síntese perfeita de toda temática da literatura dos nossos autores em constante correrias e vivências profundas entre o e o .

     De onde vem este interesse (entusiasmo, diria) de alguns “estrangeiros” por literaturas tão pouco conhecidas como a nossa? Podem alguns intelectuais (especialmente em Portugal, na sua indisfarçada angústia de serem europeus “autênticos”) atirar contra o multiculturalismo e o politicamente correcto, mas foram exactamente estas novas “atitudes” primeiramente emanadas da América do Norte que viriam a permitir novos olhares ante as suas sociedades-mosaico. A partir daí, já ninguém poderia ignorar todos os povos que construíram o Novo Mundo, muito menos faltar-lhes ao respeito que sempre lhes foi devido, mas ofuscado pelo histórico etnocentrismo, quando não racismo aberto e directo. Tive a felicidade imensa de ter participado e testemunhado o início dos anos de transformação e humanização, por assim dizer, de uma sociedade que até aos anos cinquenta vedava aos imigrantes e/ou grupos étnicos minoritários o seu lugar de inteira pertença e cidadania. Dirão que alguma escrita imigrante antecedeu de longe todo este movimento societal. Só que foi a partir desse momento de viragem que essa escrita passa a ser parte de currículos e estudo sistemático nalgumas das mais prestigiadas universidades dos EUA e de outros continentes e países (Brasil e Europa, inclusive em Portugal), a sua divulgação lenta mas seguramente assegurada em publicações especializadas e gerais, acontecendo consequentemente a legitimação da mundividência, concreta e/ou transfigurada, dos que desde sempre haviam permanecido esquecidos nas margens, ou na tal “ponte” das tormentas de que nos falava o poeta já aqui citado. A nova literatura mundial teria de olhar para a complexidade humana que estava subjacente a todas as comunidades e, agora sim, vivências praticamente sem fronteiras.

     David Brookshaw é Professor de Estudos Luso-Brasileiros na University of Bristol (Inglaterra), especializado em literaturas pós-coloniais de língua portuguesa, e desde há alguns anos inclui nos seus estudos a literatura luso-americana e imigrante. Creio que o “fascínio” de Brookshaw, o que o leva a um esforço destes, provém não só do facto de ele não querer deixar passar em branco a mais significativa escrita em língua portuguesa nas suas muitas variantes, como do facto de neste caso se tratar da representação ficcional de gente de ilhas minúsculas em termos geográficos a braços com a sua adaptação num continente imenso, que é a América do Norte. Europeus da periferia, a América esteve desde sempre muito mais próxima de nós do que a restante terra dos nossos antepassados, a distância que nos separa um mero factor da imaginação. A nossa relação com o destino a oeste e a sul (Brasil) nunca foi totalmente pacífica, mas o facto é que os açorianos sempre enfrentaram todas as barreiras imagináveis para se tornarem cidadãos da sua outra pátria americana. Brookshaw conhece todos os nossos meandros culturais e até psíquicos, a sua tradução evidencia nuances de uma criatividade pouco habitual. Tales From The Tenth Island encerra, tal como a colectânea original (Sapa)teia Americana, com o conto “Adriano(s)”, o percurso de um adolescente terceirense na costa leste americana entre uma comunidade maioritariamente de micaelenses. Narrativa sob várias perspectivas, cada um “julgando” Adriano precocemente devotado ao Sonho Americano, rejeitando raivosamente todo o seu passado nas ilhas, logo em luta contra os próprios pais pelo que representam, no seu entender, de “marginalização” na nova sociedade, o mesmo adolescente enquanto visto e descrito nos mais depreciativos termos por outros imigrantes adultos é considerado um herói, um pequeno génio de altas potencialidades profissionais e económicas, pelos anglo-americanos que com ele se cruzam no dia-a-dia. O humor assim como uma certa postura trágico-cómica de Onésimo T. Almeida sobressaem aqui de modo muito especial, sem nunca retirar a seriedade com que um personagem é visto e tratado no drama em que se torna a sua própria reinvenção total. Traduzir as linguagens l(USA)landesas (o cruzamento fonético do português com o inglês, tão característico dos nossos imigrantes) de (Sapa)teia Americana é um tremendo desafio seja para quem for; Brookshaw reconhece-o na sua introdução, mas não hesita ante os mais “intraduzíveis” passos destas narrativas. Adriano, a certa altura, expressa grande antagonismo ante os seus conterrâneos oriundos de São Miguel, dizendo que nem sabia da existência dessa ilha até emigrar, chama-os pelo nome mais comum na Terceira do seu passado — coriscos. Tradução de Brookshaw: sons-of-bitches. Discutível, mas perto de uma semântica, por assim dizer, intencional na minha ilha natal, e vai aí só como um exemplo entre muitos outros das opções de um tradutor conhecedor e atento ao espírito preconceituoso de um povo como o nosso.

     Tales From The Tenth Island foi publicado na Inglaterra, e deduz-se que dirigido a um público reduzido, mas talvez curioso de como navegaram outros ilhéus para um país anglófono, historicamente muito caro a eles próprios. Mesmo que seja lido só por outros estudiosos da lusofonia, o seu contributo não deixa de ser menos importante. O mundo de língua portuguesa extravasa em muito para além dos PALOP. Para quem não pertence “oficialmente” a essa grande comunidade espalhada por todos os continentes e outros arquipélagos, a sua criatividade literária em nada nos fica a dever. Muito pelo contrário: completa os arquivos criativos e memoriais de um povo que sempre navegou e se soube (re)construir em toda a parte, reinventando as suas próprias tradições nos mais improváveis recantos do globo, em convivências pacíficas só permitidas pela criação de novas linguagens, que nos poderão parecer estranhas, mas funcionam plenamente na conjugação da portugalidade com todos os outros. Que estudiosos como David Brookshaw, o muito prestigiado e reconhecido tradutor também de Mia Couto, o reconhecem e valorizam só poderá servir de lição a nós todos. Um pouco mais de atenção à nação peregrina deveria continuar a ser uma exigência intelectual no país de origem.

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     Onésimo T. Almeida, Tales From The Tenth Island (Selection, Translation and Introduction by David Brookshaw), Seagull/Faoileán,England, 2006.

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