Entre Mar e Serra: Um Açoriano em Setúbal

Capelas Imperfeitas, um monumento português, as tomei por pessoal ex-libris do viver, do meu destino, do meu estar, entender e agir.

Resendes Ventura, Papel A Mais

Vamberto Freitas

Do meu lugar aqui nos Açores, associo sempre três nomes da nossa vida criativa no continente, talvez porque são, mais ano menos ano, da mesma geração e com um passado e presente intelectual muito semelhante, apesar das diferentes estações de vida que têm ocupado: Olegário Paz, Artur Goulart e Manuel Pereira Medeiros, este que assina o livro aqui em foco, Resendes Ventura, um “pseudónimo”, os nomes dos seus dois avós. Para além disso, representam para mim, que um dia pertenci à geração seguinte mas hoje já nem tanto, a dignidade cívica e intelectual que nos deveriam ser exemplar e servir de bússola: ilhéus sem esquecimento das origens, andarilhos e construtores de mundos-outros, combinando os mais inabaláveis valores na convivência entre todos os seus com uma existência poética escrita e vivida. Olegário Paz, crítico e ensaísta, desenvolve um projecto que é seleccionar poesia inédita de açorianos e dizê-los maravilhosamente com música de fundo divulgando-os durante meses pela net, e espero que venham a ser editados brevemente em livro e cd; Artur Goulart publicou recentemente a poesia memorialista de no fio das palavras, a que dediquei uma apreciação crítica aqui neste espaço; e Resendes Ventura que, um pouco antes dos seus colegas (2009), publicou Papel A Mais: Papéis De Um Livreiro Com Inéditos De Escritores, um belo misto de memórias, poesia e diálogo com outros dos seus afectos e admiração, convidados a incluir textos de vários géneros e formas neste seu livro. Papel A Mais, um título de todo irónico, ficará também como um dos mais originais documentos da literatura açoriana contemporânea, tanto por uma boa parte do seu conteúdo como pela perspectiva ou ponto de vista do seu autor em busca perpétua do seu lugar no mundo e do sentimento de pertença em que a geografia natal não se esvai na memória nem impede nunca a partilha e identificação com todos os outros.

Nascido em Água Retorta em 1936, Resendes Ventura cedo descobriu a sua vocação para o mundo das ideias, até mesmo através de um avô, Ventura de Medeiros, mestre de romeiros e que havia regressado do Brasil com algo mais do que o habitual trazendo também livros na bagagem, e assim indicando ao neto mais mundo para além das pastagens e dos vulcões. Foi aluno no Seminário de Angra do Heroísmo — tal como os seus dois outros colegas aqui referidos — nos anos 50-60, época em que a pequena cidade terceirense fervia com ideias e os projectos literários e intelectuais possíveis adentro do regime sócio-político reinante, tendo José Enes, o filósofo, e Artur Cunha de Oliveira, então desdobrado em poeta sob o pseudónimo de Silva Grelo, como dois mentores marcantes em directo ou por exemplo, e com o suplemento cultural Pensamento do diário diocesano A União a congregar em sua volta alguns dos nomes que mais tarde viriam a destacar-se na academia, na literatura e nas artes em geral. Todos eles, inclusive alguns da geração que os seguiria na mesma instituição e na mesma cidade, levariam ainda para a nossa Diáspora um novo fôlego que nos faria sair pela primeira vez do mundo quieto das nossas comunidades norte-americanas para as respectivas academias reivindicando para todos o estatuto da nossa dignidade étnica no grande esquema das coisas novo-mundistas. Resendes Ventura, no continente, tornar-se-ia no mais criativo livreiro de Setúbal a partir de 1973 com a fundação da sua livraria Culsete (que evoluiu da projecto inicial de 1970, a Culdex), ainda hoje de portas abertas, ainda hoje desenvolvendo a sua actividade de templo literário entre os maiores nomes da literatura dita nacional e das ilhas, muitos deles naturalmente presentes, de vários modos, em Papel A Mais. Sempre na companhia da sua mulher, Fátima Ribeiro de Medeiros (especialista em literatura infanto-juvenil, autora de Do Fruto À Raiz), a Culsete, já com acima de quarenta anos de existência, foi sempre a mais “açoriana” de todas as livrarias, comparando-a mesmo com outras nos Açores, às excepções únicas da SolMar Artes e Letras e d’O Gil em Ponta Delgada.

Creio que Papel A Mais será um dos pouquíssimos testemunhos literários e na generalidade sobre as mais complexas questões do livro e da leitura no nosso país, só possível com a vocação total de um homem como o seu autor. Livreiros como Resendes Ventura existem muito poucos em qualquer língua ou latitude, particularmente nesta idade massificada e na qual a cultura em geral se tornou em mais um negócio, o atendedor vendendo de tudo, de tudo mesmo, nos grandes e até nos pequenos espaços comerciais, sabendo pouco seja do que for a não ser da hora da entrada e saída do emprego. A obra presente traz ainda poemas previamente publicados pelo autor com os títulos Passos de Viagem (Ponta Delgada, 1963) e Mãe d’Alma (Setúbal, 1993), mais outra escrita em diversas plaquettes; Resendes Ventura está ainda representado na Antologia Poética dos Açores (1979), em Setúbal Terra de Poetas e Cantadores (2001) e A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa (2002). Iniciado com uma longa introdução autobiográfica que nos relata a vida e andanças de Resendes Ventura, Papel A Mais prossegue com uma espécie de diário sobre as actividades e acções da Culsete em tudo o que se refere à dinamização da leitura na sua área de actuação, estando o autor extremamente bem informado sempre sobre o que nos faz a sociedade que somos em termos intelectuais e educacionais, e a problemática e políticas do livro no meio de atrasos e avanços das mais recentes décadas. Lançamentos constantes, sessões de leitura e recitais de poesia, visitas a escolas especialmente dirigidas às crianças e o seu despertar para o mundo das ideias, Resendes Ventura e Fátima Ribeiro de Medeiros quase não pensam na venda de livros na Culsete, mas sim na sua presença generalizada entre todos, para que o país, começando ou acabando na sua área de residência e actuação directa, saia um dia do seu estatuto de analfabetismo funcional. Seria longa aqui a lista de nomes famosos e respeitados que consagraram a livraria Culsete em Setúbal, e entre os quais nunca faltaram os açorianos residentes nas ilhas, no continente e na Diáspora. Resendes Ventura, sempre agarrado às suas raízes açóricas, dedica o mesmo carinho e identidade à sua cidade de adopção, desde a beleza e potencialidades da sua Natureza circundante e altiva à sua nada menos riquíssima história literária (a terra de Bocage e de Sebastião da Gama), que por sua vez o tem reconhecido de vários modos, a Culsete sendo uma instituição património daquela cidade.

A meio de Papel A Mais, como indica o próprio título completo do livro, vem a secção denominada “Escrita Amiga: Inéditos de Escritores”, os que contribuíram a pedido do autor com um texto inédito sobre qualquer tema da sua escolha. Tal como no resto da obra, encontramos um pouco de tudo escrito por autores açorianos e outros nomes da nossa literatura. É de facto um livro de livreiro: nunca um autor existe à parte de nada e ninguém, pertence a um todo, mesmo que alguns, felizmente fora de Papel A Mais, se pensem tão grandiosos que só nos Jerónimos caberiam. “O livro tornado comum? — escreve Resendes Ventura na introdução a essas páginas colectivas, reproduzidas aqui em formato ligeiramente modificado — Que hoje qualquer um se sinta escritor? Muito Bem. Basta que a abundância não obnubile a consciência de que a terra que nos dá pão dá a palha e dá o grão”.

Na história da leitura, para quem acredita que só nos livros e nas ideias poderemos existir de modo profundo e consciente, o “vendedor” como poeta da palavra, ele próprio, não é nada comum entre nós. Eis aqui o admirável nicho intelectual de Manuel Pereira Medeiros-Resendes Ventura. Papel a mais? Muito pelo contrário.

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Resendes Ventura, Papel A Mais: Papéis De Um Livreiro Com Inéditos De Escritores, Lisboa, Esfera do Caos, 2009.

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2 thoughts on “Entre Mar e Serra: Um Açoriano em Setúbal

  1. Onésimo Almeida Setembro 11, 2011 / 3:15 pm

    Não gastaste letras a mais neste retrato do Manuel Pereira Medeiros. Ficou ao vivo. Bem hajas.
    É o princípio do reconhecimento na terra dele a que, como dizes, ainda continua agarrado. O passo seguinte deverá ser uma homenagem a nível dos Açores. E não deverá ser nada impossível porque há muita gente aí e na diáspora açoriana que conhece bastante bem e admira a obra do Manuel Medeiros, quer a realizada em Ponta Delgada, quer na Região de Setúbal. Inclusivamente o Presidente do Governo Regional, que já o visitou na Culsete, uma livraria conhecidíssima nos meios culturais do Continente.
    A Universidade Sénior de Setúbal concedeu recentemente ao MPM um doutoramento Honoris Causa.

    onésimo

  2. Urbano Bettencourt Setembro 12, 2011 / 2:42 pm

    Entre o mar dos Açores e a Serra da Arrábida: duas fronteiras geográficas e simbólicas de uma «vida-em-livros» como vem (muito) resumida em «Papel a Mais». Boa «leitura» a tua, a dar conta disso tudo.
    Setúbal já reconheceu publicamente o papel de MPM na vida da cidade, numa homenagem de há anos; falta agora o lado de cá (os Açores) cumprir o que lhe compete, como refere o Onésimo no seu comentário.
    No texto que enviei por ocasião dessa homenagem a MPM dei conta do mundo cultural e literário que, via Culdex, se me abriu em Setúbal quando lá cheguei em1970 .
    Pessoalmente, não é tudo. Na introdução ao livro a sair no próximo ano para assinalar os 40 anos do meu primeiro livro, deixo escrito o seguinte: «’raiz de mágoa’, o livro, não teria ganhado forma se não fosse a insistência e, depois, o cuidado paternal de Manuel Pereira de Medeiros, que acompanhou a sua gestação técnica nas oficinas da Culdex, em Setúbal.» Um registo a mais para memória futura.
    Urbano

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