Português Reinventado Cá Dentro e Lá Fora

Digo-te uma coisa: a emigração deu cabo deste país! Mal ganham uns patacos, ninguém lhes pode com a chança! O homem desta trolha está na Alemanha.

J. Rentes de Carvalho, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia

Vamberto Freitas

Conhecia pouquíssimo da grande obra de J. Rentes de Carvalho antes de ler estes contos recentemente editados de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Já nos idos de 80 lia, como alguns outros colegas da Diáspora, contos ou crónicas avulsas do autor publicadas especialmente numa pequena revista literária, Peregrinação: Artes e Letras da Diáspora Portuguesa, fundada e dirigida pelo falecido José David Rosa e distribuída entre alguns de nós um pouco por toda a parte, incitados constantemente por Fernando Venâncio, que foi também seu colaborador assíduo desde a primeira hora, mais tarde crítico literário de jornais como o Expresso e JL, ele próprio (tal como Rentes de Carvalho) residente de longa data na Holanda, onde ambos cedo construíram uma vida académica em volta dos estudos portugueses nas universidades nacionais daquele país. Peregrinação, adicione-se ainda, circulava em todas os continentes, chamando a si um longo rol de nomes tão conhecidos entre nós como Eugénio Lisboa, Eduardo Mayone Dias e Mário Cláudio. Este é um caso literário, o de J. Rentes de Carvalho, fora de série entre nós, levou muito mais tempo do que o habitual para a sua escrita sair de uma espécie de nicho de culto que por ele alguns alimentavam desde há muito, e receber a atenção nacional ou internacional que bem merece. Toda a sua obra está actualmente a ser publicada em Lisboa pela Quetzal, na sua colecção apropriadamente intitulada Língua Comum, e que por certo nos vai brindar com outras surpresas da literatura lusófona. Felizmente, a obra de J. Rentes de Carvalho tem sido agora largamente divulgada na grande imprensa nacional; não haveria mais desculpas, tornar-se-ia mais um grande escritor por nós vergonhosamente desmerecido.

Nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, cedo na vida deixou um Portugal amordaçado e experimentou a sua sorte em países como o Brasil, os EUA e a Holanda, onde passou a residir a partir de 1956 e onde completou os estudos a nível superior, como já foi referido, tendo desde então leccionado por lá Literatura Portuguesa. Entretanto, foi publicando nos mais variados periódicos do nosso país assim como em jornais brasileiros, belgas e, naturalmente, holandeses. Cedo ainda sabíamos do seu bem sucedido romance, quer em termos críticos quer em aceitação geral, Com Os Holandeses (que Onésimo T. Almeida tinha lido então ainda em manuscrito e dele nos falava), mesmo ou sobretudo no seu país de adopção, assim como da ficção de Ernestina, A Amante Holandesa, Tempo Contado e La Coca.

A temática de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia integra-se por inteiro no destino lusíada durante toda a sua história mas muito especialmente no século passado quando as nossas andanças quase não conheciam geografias pré-definidas, se bem que centradas, sempre, nas Américas e depois na Europa. Ainda hoje poucos lá nos entendem e, pela nossa parte, ainda hoje eles pouco nos comovem para além da política financeira ou de escritores e poetas dominantes no diversificadíssimo pequeno-grande continente. Rentes de Carvalho faz o que fazem sempre os grandes escritores em qualquer língua ou cultura: parte da Tradição mais do que enraizada para rever ou reformular tudo o que pensávamos saber da nossa própria história e “destino”. Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia conjuga em si a nossa ruralidade nortenha (com a marcante presença dos seus emigrantes, inevitavelmente não só pela realidade desse espaço como pela visão e experiência do autor) com o cosmopolitismo de protagonistas e outros personagens desfilando no “estrangeiro” em busca de pão, liberdade e, neste caso muito singular, convivência e criatividade. As suas narrativas estão marcadas não por um falso experimentalismo formal que tentou fazer escola entre nós nos anos 80-90, e de que já poucos se lembram, mas sim pela contenção verbal, pela escorreiteza claríssima de quem tem uma estória para contar e sabe contá-la sem os subterfúgios de quem tenta reinventar tudo inventando absolutamente nada. Ler Rentes de Carvalho é por certo regressar ao melhor da nossa literatura a partir do realismo do século dezanove à geração que ainda conta entre nós com alguns escritores merecidamente reverenciados (Urbano Tavares Rodrigues, Alçada Baptista, Baptista Bastos, por exemplo, numa selecção aqui muito pessoal) por quem sabe distinguir entre um artista da palavra nato e um escritor “fabricado” nos e pelos, uma vez mais, formalismos vazios e sem sentido. O humor destes contos é imparável e sempre revelador do nosso modo de ser e estar num mundo ora em mudança vertiginosa ora parado no tempo; a mais leve e curta narrativa desta colectânea é precisamente a que dá o título ao livro, e vem mais ou menos a meio. É como se o narrador nos quisesse relembrar dos mundos escondidos mas reais que nos habitam: a luta lá fora pela sobrevivência e algum triunfo, e o desejo inconsequente ante a beleza e sensualidade humana (os pequenos detalhes onde a arte reside) que nos rodeia em solo próprio, e que nem sempre somos capazes de ver para além do que é demasiado óbvio ou espampanante. De resto, as narrativas de J. Rentes de Carvalho são esse vaivém constante entre a grandeza da cidade e a pequenez atávica e reconfortante do campo — como numa revisitação, por assim dizer, ao Cidade e as Serras de Eça de Queirós ou a qualquer um dos romances de Camilo Castelo Branco, suponho que outras referências irresistíveis ao presente autor, até pela experiência de escritor português simultaneamente andarilho entre tudo e todos sem nunca descurar ou evitar o regresso a casa.

É claro que da nossa ruralidade continental a meados do século passado, marcada mais ou menos pelo novo-riquismo dos emigrantes regressados da outra Europa e pelos “aristocratas” de aldeia, o narrador, que nesta prosa oscilante entre o que me parecem ser crónica pura e ficção, é ele próprio um visitante ocasional vindo dos mais movimentados e cosmopolitas centros do mundo, desde a Amesterdão da sua residência a São Paulo e Nova Iorque, lugares de facto vividos e bem conhecidos por J. Rentes de Carvalho onde exerceu o jornalismo de vários géneros. É também precisamente dessa condição de andarilho luso universalizado que nascem a ironia, comédia e perspicácia de todas as narrativas de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Como diria Thomas Wolfe, “não se pode regressar a casa”, pois a que abandonámos deixa-nos de existir para sempre. Só que se “volta” sempre, as nossas origens são poderosas demais para se diluírem em qualquer outra parte ou circunstâncias de vida. Quanto mais mundo conhece este narrador, mais lembranças reactiva em si, vem ao encontro dos seus fantasmas plasmados nos lugares e nas pessoas — revê mundos e seres que lhe parecem imutáveis, reconfirma como tudo mudou e ficou igual, como o tempo aqui estanca mesmo ante novas casas, riqueza e pobreza manifestadas nessa paisagem ancestral, agora parecendo tudo tão infantil e inconsequente como os primeiros anos antes da partida em busca de vida e aventura. Se uma aldeia perdida em Trás-os-Montes torna-se palco de todo o tipo de loucura humana, as cidades grandes da sua vivência apenas ampliam a neurose de cada um, cada movimento uma queixa dos que só procuram subir de estatuto ou sobreviver com alguma dignidade na selvática modernidade: portugueses e brasileiros fora do seu contexto natal pululam sem parar nestas páginas, nunca chegando, ou apenas tentando chegar, a um sonho ou a uma mania qualquer. Eis a humanidade no seu melhor e no seu pior, o choro confundindo-se, sempre, com o riso.

J. Rentes de Carvalho pertence a esse grupo de escritores portugueses expatriados durante quase todo século XX que marcaram e marcam brilhantemente a literatura portuguesa moderna.

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J. Rentes de Carvalho, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, Lisboa, Quetzal Editores, 2011.

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One thought on “Português Reinventado Cá Dentro e Lá Fora

  1. Onésimo Almeida Setembro 19, 2011 / 9:26 pm

    Ainda bem que a obra de J. Rentes de Carvalho vai finalmente recebendo a atenção que merece. Não exageraste nada.
    Abraço do
    onésimo

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