Deixemos de Chorar a Saudade

Olhemos esses desertos/onde é impossível deixar-se/mesmo o coração.

Cecília Meireles in Nem Sempre a Saudade Chora

 

Vamberto Freitas

Alguns livros açorianos saíram aqui há uns poucos anos em momentos de pouca atenção da nossa parte, e suponho que perante a alienação de uns tantos outros. Não será nunca uma ou outra crítica apreciativa a um qualquer livro que lhe proporcionará o lugar a que tem direito num determinado cânone literário, pois os processos de legitimação institucional e intelectual são muito mais complexos do que isso, o tempo sendo o outro grande (e talvez o mais decisivo) factor na consagração ou estatuto que qualquer obra passa a ter numa cultura ou distinta geografia humana. Só que, também todos saberão, sem este trabalho constante de comentar, criticar e apreciar um livro mesmo com alguma brevidade, seja de nome conhecido ou não, esse esforço criativo dificilmente fará parte da cultura literária viva de um povo, o seu autor ou autores quedando-se na solidão e na incerteza do valor ou da aceitação das páginas que quase sempre são inventadas entre a dor, solidão e a maior disciplina de corpo e mente frente a um computador ou a uma página em branco, a sua obra depois, na melhor das hipóteses, objecto de conhecimento de um muito reduzido grupo de leitores mais atentos ou de especialistas académicos. O acto crítico, acredito, deve incluir de quando em quando estas outras reflexões, e do mesmo modo tentar sabermos o que significam nalguns casos palavras demolidoras ante uma obra ou, pior ainda, ante o seu autor. A crítica negativa raramente perdura no tempo; a comunhão de prazeres da leitura e dos seus conteúdos, essa sim, permanece.

Veio tudo isto a propósito de Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia Açoriana sobre a Emigração, com selecção, introdução e notas de Diniz Borges, editado aqui nas ilhas em 2004. Nem falemos sequer da beleza artística do seu formato e qualidade da sua impressão, nem do prazer imenso que é tê-lo nas mãos ou num lugar especial das nossas estantes; fiquemo-nos antes pelo seu vasto conteúdo, um rol de poetas açorianos ou aos Açores ligados em várias partes do mundo e tempos por laços literários e/ou de sangue, como é o exemplo de Cecília Meireles de quem tirei os versos citados em epígrafe, e que significativamente abre esta longa rapsódia poética com o poema “Emigrantes” da nossa aventura no além-fronteiras. A grande virtude de uma antologia temática é que ficam justificadas todas as inclusões, poetas absolutamente anónimos convivendo com alguns dos mais conhecidos ou famosos entre nós. Mais do que a estética ou formalismos apurados ou não de uns e outros, é a narrativa simultaneamente desconexa no espaço e mesmo no tempo da nossa experiência e/imigrante nos mais dispersos países e recantos do mundo que nos orienta numa leitura sequencial ou ao acaso, conforme a página que aleatoriamente abrimos num dado momento. Disse-me um dia Eduíno de Jesus, presente aqui com o poema “Cais da Saudade”, que lia poesia em condições de absoluto relaxamento à noite, preferivelmente de copo na mão e com uma fina música ao fundo. Eis neste belo livro poetas populares das nossas comunidades norte-americanas (Estados Unidos e Canadá), poetas açorianos desde há muito residentes e com nome feito no continente português, poetas residentes no arquipélago mas para quem as partidas e chegadas dos seus comoveu-os com a mesma força emotiva que empurrou a maior parte da nossa gente para o exterior, como no grande poema de Álamo Oliveira, “Manuel 6 vezes pensei em ti”, necessariamente incluído nesta antologia.

Com efeito, Nem Sempre a Saudade Chora traz-nos essa outra oferta: o olhar duplo e cruzado dos que ficaram e dos que se foram rumo a todas as margens por onde nos dispersámos durante o século passado, a nossa muito antiga emigração entrando na modernidade, ou modernidades, que se estendem desde Toronto às terras ainda mais distantes do Brasil. Roberto de Mesquita, o genial florentino simbolista de Almas Cativas, por mais literariamente afrancesado que pareça na leitura de outros, nunca ficou alheio à sorte dos seus nem à sua própria condenação de “desterrado” desde a sua nascença à morte numa pequena ilha atlântica, então ainda mais isolada e só. Do poema em forma de soneto “Os que ficam”: Ao verem-me partir, as coisas familiares/tinham, assim o cria, um mudo olhar amargo./Já longe eu descobria os campos, os pomares/olhando para mim, saudosamente, ao largo. Muitos outros poetas aqui — desde Vitorino Nemésio e Pedro da Silveira a Urbano Bettencourt — poderão ter ficado sempre ou vivido fora das ilhas nas mais diferentes condições de profissão e cidadania, mas o seu profundo conhecimento da nossa história não lhes podia deixar alheios aos vectores social e económico que mais formaram e moldaram a existência dos ilhéus cá dentro e lá fora.

Uma literatura, em qualquer língua ou cultura, será sempre um corpo vivo e criativo contendo em si em termos de absoluta igualdade o que subjectivamente definimos como sendo “popular” ou “erudito”. O seu valor nunca poderá ser anunciado pela exclusividade de formas, ideias ou temas. Poderá ser que um qualquer poema não carregue em si qualquer sentido para além da beleza sequencial e sonora das suas palavras, como que num lindo quadro abstracto na nossa parede significando absolutamente nada. Do mesmo modo, creio que só muito raramente lemos exclusivamente pela música que algumas palavras nos evocam, pela genialidade da forma sem conteúdo. Uma antologia como Nem Sempre a Saudade Chora só poderia congregar em si esta multiplicidade de vozes que se completam num mosaico, uma vez mais, narrativo e que só pela arte, vista e entendida ao gosto de cada leitor, nos apresenta o outro lado da nossa história: a emotividade que o convencionalismo académico nunca permitiria, e só muito raramente teria a capacidade verbal de o expressar. Só a palavra poética perdura na memória colectiva de um povo ou de uma comunidade, oferecendo a base para as mais variadas representações e reinterpretações de toda a sua caminhada regida por leis, vontades ou fatalidades políticas, ou, com a mesma gravidade, pelos acidentes de percurso a que todos estão sujeitos e influem decisivamente nos nossos caminhos percorridos: a história dos Açores, por certo, inclui enfaticamente a sua geografia, o cerco e a inclemência da sua Natureza, e como toda a comunidade no século passado procurou um outro futuro nos países acolhedores e, por que não dizê-lo, solidários. De todas estas movimentações ao longo do século que ainda há pouco findou, nos dão conta as vozes reunidas por Diniz Borges. São poucos os poetas açorianos ausentes de Nem Sempre a Saudade Chora, tão raros como os que entre nós dirão que nunca foram pessoalmente afectados ou comovidos pelas nossas andanças em busca de cidadania e salvação.

A poesia açoriana tem sido larga e consistentemente antologiada nestas últimas décadas, e não só na nossa língua. Se é muito lida ou não nas próprias ilhas poucos saberão dizer, mas isso na verdade também pouco importa. Só que a memória colectiva de um povo é-lhe tão essencial como o pão que lhe alimenta e lhe permite a vida, ou como as fronteiras que definem o seu reinado de soberania e liberdade. Foram sempre as minorias que se encarregaram de interpretar, reinterpretar e arquivar depois a narrativa dos seus compatriotas, dando corpo à alma, que, chorando ou não, partilha a tragédia de se estar vivo e condenado à sobrevivência entre amigos e inimigos. Não se pode ser do mundo sem sermos primeiro de casa própria, não se pode conhecer nada nem ninguém antes de nos conhecermos portas adentro, e muito para além das meras intuições ou dos palpites de quem somos ou deixamos de ser. Poucos entenderão estes factos — e a arte que deles nasce — como os que embarcaram, ou estavam no cais a dizer-nos adeus.

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Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia Açoriana sobre a Emigração (Selecção, Introdução e Notas de Diniz Borges), Açores, Edição da Direcção Regional das Comunidades, 2004.

 

 

De Quando Portugal e Brasil Eram Um Só

…Homem de maneiras, desterrado na quentura brasílica, caído entre os bárbaros do sertão e os bárbaros do dinheiro, os dois portugais, o velho e o novo, o do passado do império e o do futuro do império.

Miguel Real, A Guerra dos Mascates

Vamberto Freitas

A Guerra dos Mascates, de Miguel Real, que saiu este ano no nosso país, é um extenso e actualizado diálogo, por assim dizer, com o romance homólogo clássico de dois volumes (1871/1873) do brasileiro José de Alencar. Creio que a obra presente será única adentro da literatura portuguesa também por esta audácia formal e temática do seu autor: reinventar a invenção inicial cento e quarenta anos depois, fazendo as personagens originais interagir com outros da história real ou por ele imaginadas, conectando ainda tempos e eventos que chegaram obscuramente até nós, insinuando para os leitores mais atentos que pouco ou nada mudou nem no mundo e muito menos no espaço da portugalidade ou lusofonia. Escrito entre 2003 e 2011, A Guerra dos Mascates como que desconstrói a nossa situação societal presente, mesmo que as nossas guerras sejam agora levadas a cabo por outros métodos mas pelas mesmas razões — o roubo organizado e a disputa entre os que querem tudo controlar, com a devassa e devastação de todos os outros menos avisados ou preparados. Bem-vindos à Lusitânia Eterna, bem-vindos à Condição Humana universalizada na versão dos trópicos em tempos bem pouco amenos. A pós-modernidade literária, para além do tudo o mais que abriu na ficção da nossa época, tem tido esta outra preocupação — um retrabalhar, repensar ou rever as estórias da História que formaram a nossa consciência de nação, de comunidade, de actores ou meros espectadores dos dias vividos, e as consequências de acontecimentos que ultrapassariam, sem que ninguém o pudesse prever, o imediatismo da sua própria época, motivações que pareciam de grupo localizado tornadas com o decorrer do tempo em ideologias determinantes para o futuro de uns e de outros. Não há uma única instituição política, social ou religiosa neste romance que pratique o que prega, a não ser a Inquisição controleira, com demasiadas congéneres nos nossos dias, todas do ou aliadas ao Estado ou procurando a sua conquista. Estamos nestas páginas ante um jogo de espelhos metafóricos sem igual na nossa literatura erudita mais recente, o público e o privado em convivência de amor e ódio, com a ganância de uns e a salvação de outros reafirmando verdades muito antigas, bíblicas. “Se o amor tudo vence, — escreve o narrador em determinado passo — o ódio também move montanhas, não raro levando mais à perdição do que à redenção”.

A Guerra dos Mascates situa-se em Pernambuco em 1710, setenta anos depois da expulsão dos holandeses e da sua pirataria no Brasil, quando os descendentes dos pioneiros portugueses, os senhores de engenho no seu auge, os chamados mazombos que enviavam o açúcar para Lisboa na frota real anual, refastelados em Olinda (que viriam a povoar muita da melhor literatura nordestina durante dois séculos), revoltando-se contra os mascates de Recife, estes os portugueses recém-chegados e maioritariamente oriundos do Minho, vendedores e negociantes que depressa se tornariam intermediários e credores da velha elite semi-rural brasílica, ameaçando assim toda a estrutura económica e social da colónia essencial à sobrevivência do reino no seu todo. A prosa de Miguel Real desenvolve-se e mistura um pouco de tudo o que a escrita ficcional nos legou desde o seu início — imaginação pura intercalada com ensaísmo e poesia, narrador omnisciente com intromissões do próprio autor, o passado confundindo-se com o presente. Num passo sem qualquer aviso prévio, traz-nos o narrador até ao século XX e à questão judia que tanto desestabilizou o reino lusíada, num gesto de reconhecimento de que as grandes tragédias nunca nos abandonam. Pelo meio, temos ainda as questões de todos os outros marginalizados e oprimidos, como os índios e os negros, com os matutos açorianos perdidos nos sertões do Maranhão, exílio absoluto dos não-eleitos que rumavam ou eram forçados a rumor até à terra de Vera Cruz em proveito, sempre, da aristocracia decadente sedeada em Lisboa, essa que nunca esquecia de alimentar as instituições vigilantes como a Inquisição, uma vez mais, actuante em todos os cantos império que eram fonte da sua riqueza absolutamente parasitária. Ler A Guerra dos Mascates é experimentar de novo a inovação linguística e metafórica de um Absalão! Absalão! de William Faulkner, Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez ou O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, para mencionar apenas três distintos exemplos da modernidade e pós-modernidade literária mais próxima de nós no tempo ou no espaço.

A Guerra dos Mascates, como aliás adverte o narrador e depois o autor, Miguel Real, ele próprio, intrometendo-se sem apologias na prosa para esclarecer a génese tanto do romance de José de Alencar como o presente volume da sua autoria, sobrepõe a Imaginação à História, recriando e unificando o que até então haviam permanecido eventos aparentemente desconexos na vida violenta de uma das mais importantes parcelas da gigantesca colónia, pelos engenhos que abasteciam o gosto e a ganância europeia, Pernambuco. Afirma ainda o autor na mesma secção do romance que “é espantoso como um texto literário (o original de Alencar) pode mudar a face de uma cidade, fazendo emergir, através da sua transparência, que não raro opaca é, um novo sentido para a história”. A memória dos povos não nasce dos “factos”, nasce das narrativas que deles se retiram. A mítica da civilização vem da sua arte, a que foi encontrada ou sobreviveu mais pela sua beleza do que pela sua “verdade”, esta sempre dependente da reinterpretação de cada geração. Alguns historiadores e até cientistas, principalmente do século passado, acabaram por recorrer à ficção romanesca para dizer o resto, ou mesmo o que consideraram o essencial dos acontecimentos e das motivações interiores de cada um dos seus protagonistas, a “evidência invisível” que não cabia na prosa supostamente científica das academias da nossa época. A prosa de A Guerra dos Mascates recorre à ironia e ao humor incessantes da grande literatura assim como ao prazer lúdico da poesia como que nos causos recontados na forma de cordel, à repetição constante de palavras e nomes ritmados da cultura popular brasileira herdada ou à religiosidade prática e sensual dos orixás afro-brasileiros. A “mãe-negra” e a “mulata” retomam aqui o seu lugar mítico na nossa fantasia ancestral: a dignidade da oprimida na Casa Grande, e a vítima ao mesmo tempo resistente e cooperante da Senzala.

A Guerra dos Mascates é esse extenso e magnífico mergulho historiográfico e linguístico na grande empresa que foi a colonização lusa única da América, que tinha como precedente muito mais contido e cercado a experiência do povoamento da Madeira e dos Açores. Foi de facto o primeiro grande embate na recriação da Europa sulista nos trópicos, que pela violência sem vergonha, alma ou redenção e astúcia de colonizadores apoderou-se de mares e terras sem fim desde o nordeste sertanejo aos cerrados e serras de São Paulo e do território que viria a ser chamado de Minas Gerais, sem olhar a meios ou questionamentos metafísicos, criando a maior nação sul-americana no mais bem sucedido caldo racial, étnico, cultural e religioso. A nossa Geração do Ressentimento poderá vociferar moralmente nos dois lados do Atlântico, mas não se conhece outras nações naquele grande continente, a norte ou a sul, que tenham nascido de maneira melhor ou mais pacífica, como nenhuma na Europa nasceu pelas conversas e tratados de salão. O romance de Miguel Real é um inteligentíssimo castigo e uma celebração artística desamarrada desse feito histórico.

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Miguel Real, A Guerra dos Mascates, Lisboa, D. Quixote, 2011.

Belas Palavras Significando Nada

Se você gosta da Yoko Ono, não vai gostar deste livro. Se além da japonesa maluca, também gostar da Bjork, esqueça. Ouviu? Esqueça.

Mónica Marques, Transa Atlântica

Vamberto Freitas

Mónica Marques pertence à nova geração de escritores e escritoras portuguesas. Este seu bravo romance de estreia, Transa Atlântica, foi originalmente publicado em 2009, tendo a segunda edição saído este ano. Não deixem que o sugestivo título lhes leve a mente para a boa zona, mais ou menos proibida, mesmo que seja perfeitamente natural começar por aí, as palavras significando o que significam. Só que um crítico aos sessenta anos de idade teria muito mais que fazer e ler se Transa Atlântica não nos levasse por outras vielas, também escuras mas muito mais seguras e pertinentes. Comecemos pelo óbvio em literatura: as novas gerações têm o dever de serem irreverentes, livres de falsos pudores e hipocrisias, destemidas no seu uso de novas linguagens para nos transmitirem o espírito do seu tempo, tal como o entendem na pluralidade de visões dos que nele se revêem, ou não; nós outros os condenados a subsistir ante a estranheza da sua própria casa e gente, mesmo que a geração de 60 ainda não tenha tido igual na sua radicalidade política e cultural. Edmund Wilson, o grande crítico do Modernismo norte-americano, dizia a certa altura na sua vida e carreira que abria uma revista tipo Life e em nada e ninguém nas suas páginas se reconhecia, o país que ele havia desconstruído brilhantemente através da arte do seu tempo era-lhe agora totalmente irreconhecível, estranho e, deduzia-se, repelente. Não quero de modo nenhum dizer que a alienação atinge a todos do mesmo modo, mas vamos fazendo os reajustamentos vivenciais — nem quero abusar do conceito ideologia — para um mínimo de paz interior e significado quotidiano de vida. Cada um de nós parte para a leitura de qualquer obra carregando as suas circunstâncias pessoais e saberes, com uma experiência total e única, com os valores que foi definindo e redefinindo para si. Nada que é humano, no entanto, como já muitos o disseram, nos é ou deve ser alheio. Quando olhamos de perto o que nos parece ser novo e radical, especialmente na literatura, descobrimos inevitavelmente que o mesmo de sempre está a ser dito por outras palavras, só que esse redizer das coisas e das gentes nas linguagens do seu próprio tempo e saindo de uma sensibilidade inimitável de cada artista é precisamente a fonte de originalidades, passe o paradoxo, repetidas.

Transa Atlântica oferece uma leitura — parem de pensar nisso, como adverte de quando em quando a própria narradora! — deliciosa. É quase uma bela paródia do romance erótico, esse geralmente de quinta apanha. Não é o que diz a sua protagonista, Marta, sobre si e sobre os seus mundos brasileiros (versão Copacabana) e português (versão Lisboa e arredores), por todos demasiado conhecidos e, vai-se lá saber, admissivelmente experimentados. A viveza da sua linguagem e o alegre despudor na confissão dos seus (in)desejos sexuais e andanças sem destino pelas ruas de Leblon fazem-nos sentir como a “normalidade” dos nossos dias e vida depende da definição que cada um lhe queira dar. Marta anda num psicanalista a quem mente constantemente, ou fica calada, sabendo muito bem que tudo isso não passa de uma bem urdida narrativa “científica” que não levará a lado nenhum, pois só quem fala, o suposto paciente, é quem precisaria de ouvir; a única coisa que ela ouve é que tem de pagar cada sessão marcada, quer apareça ou não. Transa Atlântica é narrado como se de diário se tratasse, com mais pensamentos do que momentos de cama. Está dividido em curtíssimos capítulos (a epígrafe aqui é um desses capítulos completos), e pode ser lido, como aliás sugeriu um recenseador da primeira edição, como se fosse um poema. Só que a leitura em sequência proporciona um retrato coeso da sua protagonista, desvenda à maneira anglo-saxónica o seu “carácter” ou vida interior, apresenta-nos uma mulher trintona e gostosa, que goza e é gozada, sem que nenhum dos seus personagens se dê conta de que está a ser desconstruído e depois novamente reinventado na sua escrita. Alguns dos passos mais hilariantes do romance é quando Marta toma nota de ideias, pessoas ou factos para incluir no livro, e imagina como reagirá o seu editor lisboeta, mandando cortar, adicionar ou recolocar a prosa. A sua incorrecção política sobre tudo e todos (vede o que diz de Paulo Coelho, o autor de língua portuguesa que mais vende no mundo, ou mesmo das suas próprias fantasias) é parte da comédia ou paródia: insulta eventuais leitores ou leitoras, e prevê que daquela página não passarão. Se a japonesa Yoko foi juntamente com Lennon símbolo da geração dos anos 60, a Bjork, suponho, é referência para outros mais novos: manda-nos a todos, sem apologias, para outro lado. Faz muito bem. Não há gente livre sem excluir da sua vida ou caminhada uns tantos outros e outras que tornam tudo insonso e infernizado. Marta pensa e diz, depois escreve brilhantemente o que muitos de nós gostaríamos de ter a coragem de pensar, dizer e depois escrever.

Transa Atlântica é um alegre exercício linguístico sobre Nada, para além do relato de vidas e dias vazios, sem rumo, a não ser a praia, cama, os botecos mal-cheirosos do Rio, ou o vago e já cansado desejo rotineiro da própria narradora. O único e grande prazer nestas páginas são a palavra atrevida e a frase fulminante e vingativa. Só que o reencontro com o Brasil simultaneamente de elite e favelado relembra-nos de quão próximos e distantes somos e estamos de uma língua e cultura comuns quando vistas por uma portuguesa com estatuto social para além de um marido portuga-dono-de-padaria, e com ambições intelectuais. A narrativa vai-nos situando no nosso tempo de vários modos, com chamamentos tanto da cultura popular como erudita. Aparecem aqui a passear no famoso calçadão artistas conhecidos como Chico Buarque e Caetano Veloso, Maria Bethânia no Jardim Botânico e João Gilberto estranhamente dentro e fora de casa, e até se faz uma referência cáustica a Leonard Choen, num outro comentário insinuativo da pretensiosidade intelectual de certa geração. Rubem Fonseca, o escritor-símbolo do Rio de Janeiro violento, sem vergonha e absolutamente corrupto, torna-se numa espécie de leitmotif: não precisamos de mais palavras e referências para quem conhece os seus livros no que respeita ao submundo da Cidade Maravilhosa; Marta, por um instante, avista também o autor a passear-se, imaginem, na Praça Antero de Quental, santos e demónios da literatura em comunhão, situando-nos de imediato no lugar real e imaginado. Dois dos livros de Rubem Fonseca são mencionados ainda para que ninguém se esqueça do paraíso junto ao inferno tropical e de língua portuguesa: A Grande Arte (ficção) e O Romance Acabou (ensaio). Rubem Fonseca parece uma outra referência angustiante para uma escritora dionisíaca em busca de voz e de algo para dizer, dizendo assim tudo.

Portugal fica longe, mas está sempre presente para que não esqueçamos a nossa pequenez e insignificância; uma portuguesa moderna nos trópicos lutando contra as ideias fixas dos brasileiros sobre quem somos, ou deveríamos ser nas suas recordações de outros tempos e mítica: “Mulher portuguesa não pode aparentar qualquer tipo de normalidade, ou tomar mais do que um banho por semana. Deve ser horrível e por certo povoa as fantasias mais secretas de homens que gostem de mulheres com pêlos”.

Transa Atlântica, pois. Dor fingida e divertimento sem limites.

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Mónica Marques, Transa Atlântica (2ª edição), Lisboa, Quetzal, 2011.

De Julie Drew e de Daughter of Providence

Construiremos o que for possível com as nossas estórias, confiando que pelo menos Deus nos compreenderá.

Julie Drew, Daughter of Providence

Vamberto Freitas

Por mais generoso que seja o meu espaço aqui nesta página, haverá sempre algo a acrescentar sobre um ou outro tema. É o caso presente do romance de Julie Drew já aqui recenseado, Daughter of Providence, surpreendentemente povoado por personagens anglófonas e, na mesma medida, por outras de descendência lusa. O caso não teria assim tanto de novo na literatura norte-americana não fora o inovador ponto de vista da sua narradora, que nos fala na primeira pessoa urdindo uma estória com referencial na Nova Inglaterra durante os anos da Grande Depressão, o tempo em que todos pensavam que não haveria saída para a inexorável queda do capitalismo corrupto desde sempre com sede e sede monumentais em Wall Street. Mas esse cenário é apenas sugerido no romance aqui em discussão, um outro referencial na luta quotidiana dos que tentam sobreviver com a alma intacta no meio da tempestade, essa, bem o sabemos, que regressa oportunistamente sempre que a ganância fica sem freio institucional. A América dos anos 30 oferece, como tem oferecido até hoje, um rico referencial para a arte em geral, a fome e a violência de vária natureza fundos ideais para se retratar o ser humano no seu melhor e no seu pior, ou, como nos diz Julie Drew noutra parte, na sua complexidade que descarta qualquer juízo a preto e branco, que mistura bons e maus na mesma pessoa, na mesma classe social, no mesmo reduto de bairro ou cidade. É esse o tema principal de Daughter of Providence, na sua linguagem simultaneamente claríssima contra o simplismo de pensamento e formalismos romanescos. A sua ironia reside tanto nas palavras como nos acontecimentos dramáticos que se vão desenrolando de página a página até à tragédia final de uns, até à sobrevivência permitida de outros.

A grande originalidade de Daughter of Providence, numa leitura declaradamente influenciada pelo facto de quem escreve aqui ser português e açoriano, é que, sem me querer repetir, subverte tudo a que estávamos habituados na criação de imagens nossas nas artes dos EUA desde muito cedo até hoje. Melville, por certo, conheceu baleeiros açorianos antes de os escrever; John Steinbeck residia em Salinas, a cidadezinha rural perto de Monterey, onde os ilhéus também curvaram as costas até ao cansaço total na colheita agrícola das suas fazendas antes que ele os “retratasse”  nalguma da sua ficção californiana. São apenas dois exemplos, em que poderíamos adicionar ainda Jack London no seu muito ambíguo e já esquecido The Valley Of The Moon. Nem falemos sequer na idiotice de certos filmes, como Mystic Pizza, que nos anos 80-90 haveria de tornar a Julie Roberts numa actriz famosa, tendo representado uma espécie de femme fatale luso-americana numa pequena comunidade de Connecticut, em que a linguagem de corpo dispensava qualquer outra forma de actuação ou inteligência. Era supostamente a mulher de ancestralidade euro-sulista em todo o seu esplendor sensual, fantasiada pelos de cara mais pálida, os que as próprias personagens lusas no mesmo filme, num dos momentos em que o realizador decidiu que os gringos da classe dominante deveriam ser colocados no seu lugar menos brilhante, comparam a pão-de-forma (white bread) — “rico por fora, vazio por dentro”. Estupidez com estupidez se paga.

Julie Drew situa-se num outro extremo, no qual a pós-modernidade da vida e da arte foram o que determinaram o conteúdo e a forma do seu romance. Não sendo descendente nossa na América, a sua experiência de vida só em parte ditou a sua opção artística — curiosidade intelectual e sensibilidade histórica e cultural trouxeram-na, uma vez que Daughter of Providence nos é conhecido, até nós. Oriunda da Costa do Golfo da Flórida, é hoje Professora Associada de Língua e Literatura Americana na Universidade de Akron, em Ohio. Toda a sua obra prévia está longe deste seu primeiro romance: crítica literária no diário The Cleveland Plain Dealer, tem escrito principalmente sobre cinema e estudos culturais em geral. Não resisti à minha curiosidade de como agora aparecia um romance da autora cheio de personagens luso-americanas e imigrantes, vistos não como um grupo nacional a tolerar pelo seu contributo braçal à economia do país ou das suas comunidades, mas como um grupo que se contrapõe ou pelo menos insiste em viver com o seu passado ancestral e a sua integridade cultural e humana; não como um grupo de gente com pele mais escura e suspeita pela sua diferença, mas sim como seres carregando em si toda a sua complexidade histórica e dignidade inata. Escrevi-lhe, pois, a pedir-lhe uma explicação à génese de Daughter of Providence.

“Fico muito contente por ter gostado de Daughter of Providence, e também por você o recensear. Infelizmente, não leio Português, portanto ficar-lhe-ei agradecida se lhe for possível proporcionar-me uma tradução em Inglês do seu trabalho.

O meu interesse em, e criação de personagens luso-americanas e imigrantes no romance chegou-me de duas maneiras, creio. Primeiro, as zonas litorais de Rhode Island e Massachusetts na Nova Inglaterra são queridas ao meu coração, e depois de decidir sobre o cenário geral do romance, as verdadeiras histórias daquele lugar — incluindo as histórias industrial, política e imigrante — seriam uma parte essencial e orgânica do romance. Segundo, eu queria contar uma estória na qual os indivíduos têm opções de vida, e nesse sentido “fazer” que coisas acontecessem nas suas vidas, mas ante as quais ficaria claro que estruturas e instituições societais enraizadas, também sempre actuantes, tanto oferecem privilégios a uns como os negam a outros, e as quais estão alicerçadas em forças muito mais vastas, que o indivíduo não pode controlar. As questões de identidade no romance — identidade cimentada em raça, classe social, género, etnicidade, e religião — são complexas e muitas vezes contraditórias, tal como são as nossas próprias vidas. Pareceu-me logo no início da minha investigação de que a rica história da emigração portuguesa para a Nova Inglaterra assim como o movimento feminista no inicio do século XX e a Grande Depressão ofereciam-me a tempestade perfeita, se assim se pode dizer, como pano de fundo para explorar tudo isso.

Por certo que me pode citar na sua recensão, se assim o deseja, e por favor sinta-se livre para me perguntar via correio electrónico sobre qualquer outra questão caso eu não lhe tenha respondido ao que procura enquanto escreve o seu ensaio. Aprecio profundamente o seu interesse”.

Eis, pois, um outro retrato de uma outra América. A ficção contemporânea, pelo menos nos Estados Unidos, parece ter retomado desde há algum tempo a esta parte o seu rumo formalmente realista, revendo e revisitando a complexa história do país, o indivíduo ora apanhado nas tais “estruturas” e “forças” societais fora do seu alcance e vontades ora agora, na nossa época, quase totalmente à deriva na fragmentação pós-modernista provocada exactamente pela ausência ou descrédito total dessas mesmas instituições, que tanto o oprimiam como ofereciam pontos de referência e apoio — Igreja, Comunidade, Estado. Não será mera coincidência com a nossa condição presente, aviltante e de todo amedrontadora das nossas sociedades, a saída constante de uma literatura de temática social, e logo política, quer assim seja entendida ou não pelos que insistem num suposto nicho isolado e egoísta do artista ante o vendaval que se aproxima, e que em muitos recantos do mundo já faz vítimas e alimenta a descrença e o desamparo generalizados. Só que nem toda a arte tem de ser um lamento, poderá celebrar de igual modo — e celebra — o ser humano, dignifica o nosso lugar entre todos os outros, reafirma a nossa identidade fluida no perpétuo ajustamento à convivência civilizada e sem fronteiras, contradiz o célebre Reino da Estupidez, que sempre tem servido os que nos olham como meros instrumentos dos seus propósitos.

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Julie Drew, Daughter of Providence,New York, NY, 2011.  A tradução livre da epígrafe e da carta de Julie Drew é da minha responsabilidade.

Filha do Destino Americano

Eu conheço as pequenas cidades. Nelas acontecem mais coisas do que suspeitamos sob a superfície.

Julie Drew, Daughter of Providence

Vamberto Freitas

O título deste romance de Julie Drew, Daughter of Providence, tem duplo sentido: tem a ver com a cidade em Rhode Island, uma das mais antigas dos EUA e onde pelo menos desde o século XIX existe uma grande comunidade portuguesa de origem açoriana, e tem a ver sobretudo com o destino de uma das suas duas personagens principais, ambas luso-americanas, Anne Dodge e Maria Cristina. Para nós, esta será a grande surpresa da época presente na literatura norte-americana contemporânea: a reinvenção de uma comunidade onde os nossos emigrantes e depois os seus descendentes aprenderam a partilhar e a “conviver” — na segregação mais ou menos amena de sempre — com todos os outros, aqui muito especialmente com a classe dominante antes e durante os anos 30, no processo de se reerguer da Grande Depressão. Não é um regresso ao chamado romance de protesto americano (o nosso neo-realismo), mas retoma eloquentemente muito da sua temática agora com a questão dos relacionamentos étnicos e de género pelo meio. De um lado, o patriarca Samuel Dodge, continuador de um dos clãs fundadores coloniais; do outro a classe trabalhadora de pau na mão, em que se incluem os luso-americanos, estes numa guerra dupla: pela sobrevivência económica e pela sua dignidade identitária num país ainda abertamente hostil aos que viríamos a chamar na pós-modernidade de outro, os de pele supostamente mais escura e lealdades a outros ou imaginários príncipes. Eis aqui, pois, essa outra América. Relembrá-la nos conturbados tempos que correm torna-se num acto estético e ético, esse, uma vez mais, regresso da literatura com a nossa mais profunda humanidade ao centro, o coração humano nos seus eternos conflitos, a guerra literalmente campal pela sobrevivência e honra de uns contra a ganância de outros.

Antes de mais, queria aqui recordar que a criação de personagens lusos, em que sempre estiveram incluídos os açorianos, na literatura canónica norte-americana foi quase sempre um acto de difamação pura, no qual a “arte” tentava esconder o preconceito e o racismo sem apologias dos seus criadores, desde Melville até tempos bem recentes. Não vou repetir aqui o muito que foi escrito sobre esse tema por vários estudiosos, mas também torna-se essencial relembrar a todos que foi só nas últimas décadas que os escritores e poetas luso-descendentes nos têm resgatado da comédia de mau gosto a que sempre sujeitaram o nosso nome nacional ou regional em páginas literárias de grande influência e poder sugestivo ante todos os seus leitores que nos desconheciam ou desconhecem. Nessas páginas, passámos do estatuto de “Portaghee” para “portugueses”. Só quem se preocupa com a imagem do nosso povo nessas paragens, saberá dar o valor a essa subversão literária e retomada ética, repita-se, inerente a qualquer obra de arte. Julie Drew, com Daughter of Providence, torna-se-nos noutra referência agradavelmente contraditória à Tradição norte-americana, e ainda de modo mais radical e humanizado do que alguns dos próprios escritores de descendência nossa.

Daughter of Providence decorre no ano de 1934, na pequena cidade de Milford, outrora centro de têxteis, que agora tenta ressuscitar da catástrofe económica em curso. Inez, que havia sido casada com Samuel Dodge, acaba de falecer depois de uma longa separação e ausência, e todos os tipos de rumores circulavam em sua volta. A filha mais velha, Anne Dodge, que havia permanecido sempre com o pai após o suposto abandono da mãe, está marcada em todos os sentidos, filha que era de uma “portuguesa” no mínimo difamada como “imoral”, falsamente tida como sexualmente promíscua, tudo o que tradicionalmente na realidade e na arte daquele pais se pensava do grupo, gente menor, o seu Catolicismo outro factor de profundo significado suspeito para os protestantes fundadores das mais antigas e tradicionais terras como a Nova Inglaterra, realidade e símbolo da bondade da Cidade na Montanha sempre invadida por outros que deveriam idealmente manter-se no seu canto isolado e fornecer mão-de-obra para o enriquecimento dos escolhidos por Deus e pela História. Narrado na primeira pessoa por Anne, sempre em busca da verdade sobre o seu passado português, ela vai deduzindo, ora com desprezo ora com absoluto cepticismo, que a história contada pelo pai e acreditada na comunidade sobre a partida e infidelidade da mãe e costumes dos seus não passam de poeira escura e contaminada para ofuscar outras e bem mais cruéis verdades. Uma família de dinheiro velho e fundadora da colónia anglo-saxónica não poderia nunca juntar-se com gente tão malvista e diferente. Por outras palavras, a narrativa que é Daughter of Providence reafirma pela voz do pai de Anne tudo quanto sempre esteve associado à nossa imagem na América do Norte, a nossa invisibilidade simultaneamente apreciada e desejada pelos poderes comunitários aonde também cedo chegámos sem nunca os conquistar para além dos elogios sobre a força e vontade trabalhistas no mar e em terra, em Milford e em cidades vizinhas onde labutavam caladamente esses outros imigrantes vindos da Europa sulista e exótica. Quando Estêvão, irmão da mãe de Anne, cedo demonstra a Samuel Dodge a decisão de ingressar numa faculdade e estudar Direito é de imediato como que corrido do sítio regressando a Portugal para concretizar os seus sonhos e capacidades intelectuais.

Eis aí, pois, uma narrativa de fôlego positivamente invertida quanto, senão ao nosso destino na América, à mentira perpetuada na fase histórica aqui em foco. Daughter of Providence é um mosaico extremamente bem construído sobre a luta de alma de cada um e a luta colectiva para se sair da condição em que se encontrava toda a sociedade. Ironia ou não, apanha-nos a todos, nos dois do Atlântico, numa realidade diferente, mas com ameaças muito semelhantes. No centro da comunidade re-imaginada por Julie Drew, desenrolam-se as lutas violentas entre trabalhadores e capitalistas à moda antiga, perante as quais a narradora mantém uma perspectiva multifacetada rejeitando o simplismo de muitos outros romances daquela própria época ou mesmo da nossa. Cada indivíduo debate-se com os seus conflitos interiores, o carácter de cada um minuciosamente esculpido mesmo na brevidade da observação ou do comentário momentâneo, cada personagem tornando-se conhecido e lembrado pelos leitores mais atentos. A tragédia anda sempre por perto, o mar dos portugueses em Daughter of Providence continua fonte de sustento e traição. Anne dedica-se, apesar do seu estatuto de filha de uma elite paternal, à construção de barcos, saber que herdara dos seus antepassados açorianos, os baleeiros que desbravaram a nossa presença no grande continente a oeste. Do mar nasceram e no mar morrerão, real e simbolicamente como no final deste romance. De resto, a ironia inclui ainda a salvação de Anne através do último legado dos seus avós lusos, e não de Samuel Dodge, que permanece e acabará como o patriarca caído e solitário no seu labirinto, orgulhoso do seu passado e prisioneiro da cegueira ignorante e preconceituosa.

Julie Drew não tem qualquer ligação a sangue ou passado português. Disse-me num recente e-mail, a meu pedido, que a história da emigração portuguesa para a Nova Inglaterra, o movimento feminista de então e a Grande Depressão constituíam a “tempestade perfeita” para abordar alguns destes temas mais pertinentes na sua narrativa.

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Julie Drew, Daughter of Providence,New York, NY, The Overlook Press, 2011.