Filha do Destino Americano

Eu conheço as pequenas cidades. Nelas acontecem mais coisas do que suspeitamos sob a superfície.

Julie Drew, Daughter of Providence

Vamberto Freitas

O título deste romance de Julie Drew, Daughter of Providence, tem duplo sentido: tem a ver com a cidade em Rhode Island, uma das mais antigas dos EUA e onde pelo menos desde o século XIX existe uma grande comunidade portuguesa de origem açoriana, e tem a ver sobretudo com o destino de uma das suas duas personagens principais, ambas luso-americanas, Anne Dodge e Maria Cristina. Para nós, esta será a grande surpresa da época presente na literatura norte-americana contemporânea: a reinvenção de uma comunidade onde os nossos emigrantes e depois os seus descendentes aprenderam a partilhar e a “conviver” — na segregação mais ou menos amena de sempre — com todos os outros, aqui muito especialmente com a classe dominante antes e durante os anos 30, no processo de se reerguer da Grande Depressão. Não é um regresso ao chamado romance de protesto americano (o nosso neo-realismo), mas retoma eloquentemente muito da sua temática agora com a questão dos relacionamentos étnicos e de género pelo meio. De um lado, o patriarca Samuel Dodge, continuador de um dos clãs fundadores coloniais; do outro a classe trabalhadora de pau na mão, em que se incluem os luso-americanos, estes numa guerra dupla: pela sobrevivência económica e pela sua dignidade identitária num país ainda abertamente hostil aos que viríamos a chamar na pós-modernidade de outro, os de pele supostamente mais escura e lealdades a outros ou imaginários príncipes. Eis aqui, pois, essa outra América. Relembrá-la nos conturbados tempos que correm torna-se num acto estético e ético, esse, uma vez mais, regresso da literatura com a nossa mais profunda humanidade ao centro, o coração humano nos seus eternos conflitos, a guerra literalmente campal pela sobrevivência e honra de uns contra a ganância de outros.

Antes de mais, queria aqui recordar que a criação de personagens lusos, em que sempre estiveram incluídos os açorianos, na literatura canónica norte-americana foi quase sempre um acto de difamação pura, no qual a “arte” tentava esconder o preconceito e o racismo sem apologias dos seus criadores, desde Melville até tempos bem recentes. Não vou repetir aqui o muito que foi escrito sobre esse tema por vários estudiosos, mas também torna-se essencial relembrar a todos que foi só nas últimas décadas que os escritores e poetas luso-descendentes nos têm resgatado da comédia de mau gosto a que sempre sujeitaram o nosso nome nacional ou regional em páginas literárias de grande influência e poder sugestivo ante todos os seus leitores que nos desconheciam ou desconhecem. Nessas páginas, passámos do estatuto de “Portaghee” para “portugueses”. Só quem se preocupa com a imagem do nosso povo nessas paragens, saberá dar o valor a essa subversão literária e retomada ética, repita-se, inerente a qualquer obra de arte. Julie Drew, com Daughter of Providence, torna-se-nos noutra referência agradavelmente contraditória à Tradição norte-americana, e ainda de modo mais radical e humanizado do que alguns dos próprios escritores de descendência nossa.

Daughter of Providence decorre no ano de 1934, na pequena cidade de Milford, outrora centro de têxteis, que agora tenta ressuscitar da catástrofe económica em curso. Inez, que havia sido casada com Samuel Dodge, acaba de falecer depois de uma longa separação e ausência, e todos os tipos de rumores circulavam em sua volta. A filha mais velha, Anne Dodge, que havia permanecido sempre com o pai após o suposto abandono da mãe, está marcada em todos os sentidos, filha que era de uma “portuguesa” no mínimo difamada como “imoral”, falsamente tida como sexualmente promíscua, tudo o que tradicionalmente na realidade e na arte daquele pais se pensava do grupo, gente menor, o seu Catolicismo outro factor de profundo significado suspeito para os protestantes fundadores das mais antigas e tradicionais terras como a Nova Inglaterra, realidade e símbolo da bondade da Cidade na Montanha sempre invadida por outros que deveriam idealmente manter-se no seu canto isolado e fornecer mão-de-obra para o enriquecimento dos escolhidos por Deus e pela História. Narrado na primeira pessoa por Anne, sempre em busca da verdade sobre o seu passado português, ela vai deduzindo, ora com desprezo ora com absoluto cepticismo, que a história contada pelo pai e acreditada na comunidade sobre a partida e infidelidade da mãe e costumes dos seus não passam de poeira escura e contaminada para ofuscar outras e bem mais cruéis verdades. Uma família de dinheiro velho e fundadora da colónia anglo-saxónica não poderia nunca juntar-se com gente tão malvista e diferente. Por outras palavras, a narrativa que é Daughter of Providence reafirma pela voz do pai de Anne tudo quanto sempre esteve associado à nossa imagem na América do Norte, a nossa invisibilidade simultaneamente apreciada e desejada pelos poderes comunitários aonde também cedo chegámos sem nunca os conquistar para além dos elogios sobre a força e vontade trabalhistas no mar e em terra, em Milford e em cidades vizinhas onde labutavam caladamente esses outros imigrantes vindos da Europa sulista e exótica. Quando Estêvão, irmão da mãe de Anne, cedo demonstra a Samuel Dodge a decisão de ingressar numa faculdade e estudar Direito é de imediato como que corrido do sítio regressando a Portugal para concretizar os seus sonhos e capacidades intelectuais.

Eis aí, pois, uma narrativa de fôlego positivamente invertida quanto, senão ao nosso destino na América, à mentira perpetuada na fase histórica aqui em foco. Daughter of Providence é um mosaico extremamente bem construído sobre a luta de alma de cada um e a luta colectiva para se sair da condição em que se encontrava toda a sociedade. Ironia ou não, apanha-nos a todos, nos dois do Atlântico, numa realidade diferente, mas com ameaças muito semelhantes. No centro da comunidade re-imaginada por Julie Drew, desenrolam-se as lutas violentas entre trabalhadores e capitalistas à moda antiga, perante as quais a narradora mantém uma perspectiva multifacetada rejeitando o simplismo de muitos outros romances daquela própria época ou mesmo da nossa. Cada indivíduo debate-se com os seus conflitos interiores, o carácter de cada um minuciosamente esculpido mesmo na brevidade da observação ou do comentário momentâneo, cada personagem tornando-se conhecido e lembrado pelos leitores mais atentos. A tragédia anda sempre por perto, o mar dos portugueses em Daughter of Providence continua fonte de sustento e traição. Anne dedica-se, apesar do seu estatuto de filha de uma elite paternal, à construção de barcos, saber que herdara dos seus antepassados açorianos, os baleeiros que desbravaram a nossa presença no grande continente a oeste. Do mar nasceram e no mar morrerão, real e simbolicamente como no final deste romance. De resto, a ironia inclui ainda a salvação de Anne através do último legado dos seus avós lusos, e não de Samuel Dodge, que permanece e acabará como o patriarca caído e solitário no seu labirinto, orgulhoso do seu passado e prisioneiro da cegueira ignorante e preconceituosa.

Julie Drew não tem qualquer ligação a sangue ou passado português. Disse-me num recente e-mail, a meu pedido, que a história da emigração portuguesa para a Nova Inglaterra, o movimento feminista de então e a Grande Depressão constituíam a “tempestade perfeita” para abordar alguns destes temas mais pertinentes na sua narrativa.

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Julie Drew, Daughter of Providence,New York, NY, The Overlook Press, 2011.

 

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