De Julie Drew e de Daughter of Providence

Construiremos o que for possível com as nossas estórias, confiando que pelo menos Deus nos compreenderá.

Julie Drew, Daughter of Providence

Vamberto Freitas

Por mais generoso que seja o meu espaço aqui nesta página, haverá sempre algo a acrescentar sobre um ou outro tema. É o caso presente do romance de Julie Drew já aqui recenseado, Daughter of Providence, surpreendentemente povoado por personagens anglófonas e, na mesma medida, por outras de descendência lusa. O caso não teria assim tanto de novo na literatura norte-americana não fora o inovador ponto de vista da sua narradora, que nos fala na primeira pessoa urdindo uma estória com referencial na Nova Inglaterra durante os anos da Grande Depressão, o tempo em que todos pensavam que não haveria saída para a inexorável queda do capitalismo corrupto desde sempre com sede e sede monumentais em Wall Street. Mas esse cenário é apenas sugerido no romance aqui em discussão, um outro referencial na luta quotidiana dos que tentam sobreviver com a alma intacta no meio da tempestade, essa, bem o sabemos, que regressa oportunistamente sempre que a ganância fica sem freio institucional. A América dos anos 30 oferece, como tem oferecido até hoje, um rico referencial para a arte em geral, a fome e a violência de vária natureza fundos ideais para se retratar o ser humano no seu melhor e no seu pior, ou, como nos diz Julie Drew noutra parte, na sua complexidade que descarta qualquer juízo a preto e branco, que mistura bons e maus na mesma pessoa, na mesma classe social, no mesmo reduto de bairro ou cidade. É esse o tema principal de Daughter of Providence, na sua linguagem simultaneamente claríssima contra o simplismo de pensamento e formalismos romanescos. A sua ironia reside tanto nas palavras como nos acontecimentos dramáticos que se vão desenrolando de página a página até à tragédia final de uns, até à sobrevivência permitida de outros.

A grande originalidade de Daughter of Providence, numa leitura declaradamente influenciada pelo facto de quem escreve aqui ser português e açoriano, é que, sem me querer repetir, subverte tudo a que estávamos habituados na criação de imagens nossas nas artes dos EUA desde muito cedo até hoje. Melville, por certo, conheceu baleeiros açorianos antes de os escrever; John Steinbeck residia em Salinas, a cidadezinha rural perto de Monterey, onde os ilhéus também curvaram as costas até ao cansaço total na colheita agrícola das suas fazendas antes que ele os “retratasse”  nalguma da sua ficção californiana. São apenas dois exemplos, em que poderíamos adicionar ainda Jack London no seu muito ambíguo e já esquecido The Valley Of The Moon. Nem falemos sequer na idiotice de certos filmes, como Mystic Pizza, que nos anos 80-90 haveria de tornar a Julie Roberts numa actriz famosa, tendo representado uma espécie de femme fatale luso-americana numa pequena comunidade de Connecticut, em que a linguagem de corpo dispensava qualquer outra forma de actuação ou inteligência. Era supostamente a mulher de ancestralidade euro-sulista em todo o seu esplendor sensual, fantasiada pelos de cara mais pálida, os que as próprias personagens lusas no mesmo filme, num dos momentos em que o realizador decidiu que os gringos da classe dominante deveriam ser colocados no seu lugar menos brilhante, comparam a pão-de-forma (white bread) — “rico por fora, vazio por dentro”. Estupidez com estupidez se paga.

Julie Drew situa-se num outro extremo, no qual a pós-modernidade da vida e da arte foram o que determinaram o conteúdo e a forma do seu romance. Não sendo descendente nossa na América, a sua experiência de vida só em parte ditou a sua opção artística — curiosidade intelectual e sensibilidade histórica e cultural trouxeram-na, uma vez que Daughter of Providence nos é conhecido, até nós. Oriunda da Costa do Golfo da Flórida, é hoje Professora Associada de Língua e Literatura Americana na Universidade de Akron, em Ohio. Toda a sua obra prévia está longe deste seu primeiro romance: crítica literária no diário The Cleveland Plain Dealer, tem escrito principalmente sobre cinema e estudos culturais em geral. Não resisti à minha curiosidade de como agora aparecia um romance da autora cheio de personagens luso-americanas e imigrantes, vistos não como um grupo nacional a tolerar pelo seu contributo braçal à economia do país ou das suas comunidades, mas como um grupo que se contrapõe ou pelo menos insiste em viver com o seu passado ancestral e a sua integridade cultural e humana; não como um grupo de gente com pele mais escura e suspeita pela sua diferença, mas sim como seres carregando em si toda a sua complexidade histórica e dignidade inata. Escrevi-lhe, pois, a pedir-lhe uma explicação à génese de Daughter of Providence.

“Fico muito contente por ter gostado de Daughter of Providence, e também por você o recensear. Infelizmente, não leio Português, portanto ficar-lhe-ei agradecida se lhe for possível proporcionar-me uma tradução em Inglês do seu trabalho.

O meu interesse em, e criação de personagens luso-americanas e imigrantes no romance chegou-me de duas maneiras, creio. Primeiro, as zonas litorais de Rhode Island e Massachusetts na Nova Inglaterra são queridas ao meu coração, e depois de decidir sobre o cenário geral do romance, as verdadeiras histórias daquele lugar — incluindo as histórias industrial, política e imigrante — seriam uma parte essencial e orgânica do romance. Segundo, eu queria contar uma estória na qual os indivíduos têm opções de vida, e nesse sentido “fazer” que coisas acontecessem nas suas vidas, mas ante as quais ficaria claro que estruturas e instituições societais enraizadas, também sempre actuantes, tanto oferecem privilégios a uns como os negam a outros, e as quais estão alicerçadas em forças muito mais vastas, que o indivíduo não pode controlar. As questões de identidade no romance — identidade cimentada em raça, classe social, género, etnicidade, e religião — são complexas e muitas vezes contraditórias, tal como são as nossas próprias vidas. Pareceu-me logo no início da minha investigação de que a rica história da emigração portuguesa para a Nova Inglaterra assim como o movimento feminista no inicio do século XX e a Grande Depressão ofereciam-me a tempestade perfeita, se assim se pode dizer, como pano de fundo para explorar tudo isso.

Por certo que me pode citar na sua recensão, se assim o deseja, e por favor sinta-se livre para me perguntar via correio electrónico sobre qualquer outra questão caso eu não lhe tenha respondido ao que procura enquanto escreve o seu ensaio. Aprecio profundamente o seu interesse”.

Eis, pois, um outro retrato de uma outra América. A ficção contemporânea, pelo menos nos Estados Unidos, parece ter retomado desde há algum tempo a esta parte o seu rumo formalmente realista, revendo e revisitando a complexa história do país, o indivíduo ora apanhado nas tais “estruturas” e “forças” societais fora do seu alcance e vontades ora agora, na nossa época, quase totalmente à deriva na fragmentação pós-modernista provocada exactamente pela ausência ou descrédito total dessas mesmas instituições, que tanto o oprimiam como ofereciam pontos de referência e apoio — Igreja, Comunidade, Estado. Não será mera coincidência com a nossa condição presente, aviltante e de todo amedrontadora das nossas sociedades, a saída constante de uma literatura de temática social, e logo política, quer assim seja entendida ou não pelos que insistem num suposto nicho isolado e egoísta do artista ante o vendaval que se aproxima, e que em muitos recantos do mundo já faz vítimas e alimenta a descrença e o desamparo generalizados. Só que nem toda a arte tem de ser um lamento, poderá celebrar de igual modo — e celebra — o ser humano, dignifica o nosso lugar entre todos os outros, reafirma a nossa identidade fluida no perpétuo ajustamento à convivência civilizada e sem fronteiras, contradiz o célebre Reino da Estupidez, que sempre tem servido os que nos olham como meros instrumentos dos seus propósitos.

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Julie Drew, Daughter of Providence,New York, NY, 2011.  A tradução livre da epígrafe e da carta de Julie Drew é da minha responsabilidade.

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