Belas Palavras Significando Nada

Se você gosta da Yoko Ono, não vai gostar deste livro. Se além da japonesa maluca, também gostar da Bjork, esqueça. Ouviu? Esqueça.

Mónica Marques, Transa Atlântica

Vamberto Freitas

Mónica Marques pertence à nova geração de escritores e escritoras portuguesas. Este seu bravo romance de estreia, Transa Atlântica, foi originalmente publicado em 2009, tendo a segunda edição saído este ano. Não deixem que o sugestivo título lhes leve a mente para a boa zona, mais ou menos proibida, mesmo que seja perfeitamente natural começar por aí, as palavras significando o que significam. Só que um crítico aos sessenta anos de idade teria muito mais que fazer e ler se Transa Atlântica não nos levasse por outras vielas, também escuras mas muito mais seguras e pertinentes. Comecemos pelo óbvio em literatura: as novas gerações têm o dever de serem irreverentes, livres de falsos pudores e hipocrisias, destemidas no seu uso de novas linguagens para nos transmitirem o espírito do seu tempo, tal como o entendem na pluralidade de visões dos que nele se revêem, ou não; nós outros os condenados a subsistir ante a estranheza da sua própria casa e gente, mesmo que a geração de 60 ainda não tenha tido igual na sua radicalidade política e cultural. Edmund Wilson, o grande crítico do Modernismo norte-americano, dizia a certa altura na sua vida e carreira que abria uma revista tipo Life e em nada e ninguém nas suas páginas se reconhecia, o país que ele havia desconstruído brilhantemente através da arte do seu tempo era-lhe agora totalmente irreconhecível, estranho e, deduzia-se, repelente. Não quero de modo nenhum dizer que a alienação atinge a todos do mesmo modo, mas vamos fazendo os reajustamentos vivenciais — nem quero abusar do conceito ideologia — para um mínimo de paz interior e significado quotidiano de vida. Cada um de nós parte para a leitura de qualquer obra carregando as suas circunstâncias pessoais e saberes, com uma experiência total e única, com os valores que foi definindo e redefinindo para si. Nada que é humano, no entanto, como já muitos o disseram, nos é ou deve ser alheio. Quando olhamos de perto o que nos parece ser novo e radical, especialmente na literatura, descobrimos inevitavelmente que o mesmo de sempre está a ser dito por outras palavras, só que esse redizer das coisas e das gentes nas linguagens do seu próprio tempo e saindo de uma sensibilidade inimitável de cada artista é precisamente a fonte de originalidades, passe o paradoxo, repetidas.

Transa Atlântica oferece uma leitura — parem de pensar nisso, como adverte de quando em quando a própria narradora! — deliciosa. É quase uma bela paródia do romance erótico, esse geralmente de quinta apanha. Não é o que diz a sua protagonista, Marta, sobre si e sobre os seus mundos brasileiros (versão Copacabana) e português (versão Lisboa e arredores), por todos demasiado conhecidos e, vai-se lá saber, admissivelmente experimentados. A viveza da sua linguagem e o alegre despudor na confissão dos seus (in)desejos sexuais e andanças sem destino pelas ruas de Leblon fazem-nos sentir como a “normalidade” dos nossos dias e vida depende da definição que cada um lhe queira dar. Marta anda num psicanalista a quem mente constantemente, ou fica calada, sabendo muito bem que tudo isso não passa de uma bem urdida narrativa “científica” que não levará a lado nenhum, pois só quem fala, o suposto paciente, é quem precisaria de ouvir; a única coisa que ela ouve é que tem de pagar cada sessão marcada, quer apareça ou não. Transa Atlântica é narrado como se de diário se tratasse, com mais pensamentos do que momentos de cama. Está dividido em curtíssimos capítulos (a epígrafe aqui é um desses capítulos completos), e pode ser lido, como aliás sugeriu um recenseador da primeira edição, como se fosse um poema. Só que a leitura em sequência proporciona um retrato coeso da sua protagonista, desvenda à maneira anglo-saxónica o seu “carácter” ou vida interior, apresenta-nos uma mulher trintona e gostosa, que goza e é gozada, sem que nenhum dos seus personagens se dê conta de que está a ser desconstruído e depois novamente reinventado na sua escrita. Alguns dos passos mais hilariantes do romance é quando Marta toma nota de ideias, pessoas ou factos para incluir no livro, e imagina como reagirá o seu editor lisboeta, mandando cortar, adicionar ou recolocar a prosa. A sua incorrecção política sobre tudo e todos (vede o que diz de Paulo Coelho, o autor de língua portuguesa que mais vende no mundo, ou mesmo das suas próprias fantasias) é parte da comédia ou paródia: insulta eventuais leitores ou leitoras, e prevê que daquela página não passarão. Se a japonesa Yoko foi juntamente com Lennon símbolo da geração dos anos 60, a Bjork, suponho, é referência para outros mais novos: manda-nos a todos, sem apologias, para outro lado. Faz muito bem. Não há gente livre sem excluir da sua vida ou caminhada uns tantos outros e outras que tornam tudo insonso e infernizado. Marta pensa e diz, depois escreve brilhantemente o que muitos de nós gostaríamos de ter a coragem de pensar, dizer e depois escrever.

Transa Atlântica é um alegre exercício linguístico sobre Nada, para além do relato de vidas e dias vazios, sem rumo, a não ser a praia, cama, os botecos mal-cheirosos do Rio, ou o vago e já cansado desejo rotineiro da própria narradora. O único e grande prazer nestas páginas são a palavra atrevida e a frase fulminante e vingativa. Só que o reencontro com o Brasil simultaneamente de elite e favelado relembra-nos de quão próximos e distantes somos e estamos de uma língua e cultura comuns quando vistas por uma portuguesa com estatuto social para além de um marido portuga-dono-de-padaria, e com ambições intelectuais. A narrativa vai-nos situando no nosso tempo de vários modos, com chamamentos tanto da cultura popular como erudita. Aparecem aqui a passear no famoso calçadão artistas conhecidos como Chico Buarque e Caetano Veloso, Maria Bethânia no Jardim Botânico e João Gilberto estranhamente dentro e fora de casa, e até se faz uma referência cáustica a Leonard Choen, num outro comentário insinuativo da pretensiosidade intelectual de certa geração. Rubem Fonseca, o escritor-símbolo do Rio de Janeiro violento, sem vergonha e absolutamente corrupto, torna-se numa espécie de leitmotif: não precisamos de mais palavras e referências para quem conhece os seus livros no que respeita ao submundo da Cidade Maravilhosa; Marta, por um instante, avista também o autor a passear-se, imaginem, na Praça Antero de Quental, santos e demónios da literatura em comunhão, situando-nos de imediato no lugar real e imaginado. Dois dos livros de Rubem Fonseca são mencionados ainda para que ninguém se esqueça do paraíso junto ao inferno tropical e de língua portuguesa: A Grande Arte (ficção) e O Romance Acabou (ensaio). Rubem Fonseca parece uma outra referência angustiante para uma escritora dionisíaca em busca de voz e de algo para dizer, dizendo assim tudo.

Portugal fica longe, mas está sempre presente para que não esqueçamos a nossa pequenez e insignificância; uma portuguesa moderna nos trópicos lutando contra as ideias fixas dos brasileiros sobre quem somos, ou deveríamos ser nas suas recordações de outros tempos e mítica: “Mulher portuguesa não pode aparentar qualquer tipo de normalidade, ou tomar mais do que um banho por semana. Deve ser horrível e por certo povoa as fantasias mais secretas de homens que gostem de mulheres com pêlos”.

Transa Atlântica, pois. Dor fingida e divertimento sem limites.

_________________

Mónica Marques, Transa Atlântica (2ª edição), Lisboa, Quetzal, 2011.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s