De Quando Portugal e Brasil Eram Um Só

…Homem de maneiras, desterrado na quentura brasílica, caído entre os bárbaros do sertão e os bárbaros do dinheiro, os dois portugais, o velho e o novo, o do passado do império e o do futuro do império.

Miguel Real, A Guerra dos Mascates

Vamberto Freitas

A Guerra dos Mascates, de Miguel Real, que saiu este ano no nosso país, é um extenso e actualizado diálogo, por assim dizer, com o romance homólogo clássico de dois volumes (1871/1873) do brasileiro José de Alencar. Creio que a obra presente será única adentro da literatura portuguesa também por esta audácia formal e temática do seu autor: reinventar a invenção inicial cento e quarenta anos depois, fazendo as personagens originais interagir com outros da história real ou por ele imaginadas, conectando ainda tempos e eventos que chegaram obscuramente até nós, insinuando para os leitores mais atentos que pouco ou nada mudou nem no mundo e muito menos no espaço da portugalidade ou lusofonia. Escrito entre 2003 e 2011, A Guerra dos Mascates como que desconstrói a nossa situação societal presente, mesmo que as nossas guerras sejam agora levadas a cabo por outros métodos mas pelas mesmas razões — o roubo organizado e a disputa entre os que querem tudo controlar, com a devassa e devastação de todos os outros menos avisados ou preparados. Bem-vindos à Lusitânia Eterna, bem-vindos à Condição Humana universalizada na versão dos trópicos em tempos bem pouco amenos. A pós-modernidade literária, para além do tudo o mais que abriu na ficção da nossa época, tem tido esta outra preocupação — um retrabalhar, repensar ou rever as estórias da História que formaram a nossa consciência de nação, de comunidade, de actores ou meros espectadores dos dias vividos, e as consequências de acontecimentos que ultrapassariam, sem que ninguém o pudesse prever, o imediatismo da sua própria época, motivações que pareciam de grupo localizado tornadas com o decorrer do tempo em ideologias determinantes para o futuro de uns e de outros. Não há uma única instituição política, social ou religiosa neste romance que pratique o que prega, a não ser a Inquisição controleira, com demasiadas congéneres nos nossos dias, todas do ou aliadas ao Estado ou procurando a sua conquista. Estamos nestas páginas ante um jogo de espelhos metafóricos sem igual na nossa literatura erudita mais recente, o público e o privado em convivência de amor e ódio, com a ganância de uns e a salvação de outros reafirmando verdades muito antigas, bíblicas. “Se o amor tudo vence, — escreve o narrador em determinado passo — o ódio também move montanhas, não raro levando mais à perdição do que à redenção”.

A Guerra dos Mascates situa-se em Pernambuco em 1710, setenta anos depois da expulsão dos holandeses e da sua pirataria no Brasil, quando os descendentes dos pioneiros portugueses, os senhores de engenho no seu auge, os chamados mazombos que enviavam o açúcar para Lisboa na frota real anual, refastelados em Olinda (que viriam a povoar muita da melhor literatura nordestina durante dois séculos), revoltando-se contra os mascates de Recife, estes os portugueses recém-chegados e maioritariamente oriundos do Minho, vendedores e negociantes que depressa se tornariam intermediários e credores da velha elite semi-rural brasílica, ameaçando assim toda a estrutura económica e social da colónia essencial à sobrevivência do reino no seu todo. A prosa de Miguel Real desenvolve-se e mistura um pouco de tudo o que a escrita ficcional nos legou desde o seu início — imaginação pura intercalada com ensaísmo e poesia, narrador omnisciente com intromissões do próprio autor, o passado confundindo-se com o presente. Num passo sem qualquer aviso prévio, traz-nos o narrador até ao século XX e à questão judia que tanto desestabilizou o reino lusíada, num gesto de reconhecimento de que as grandes tragédias nunca nos abandonam. Pelo meio, temos ainda as questões de todos os outros marginalizados e oprimidos, como os índios e os negros, com os matutos açorianos perdidos nos sertões do Maranhão, exílio absoluto dos não-eleitos que rumavam ou eram forçados a rumor até à terra de Vera Cruz em proveito, sempre, da aristocracia decadente sedeada em Lisboa, essa que nunca esquecia de alimentar as instituições vigilantes como a Inquisição, uma vez mais, actuante em todos os cantos império que eram fonte da sua riqueza absolutamente parasitária. Ler A Guerra dos Mascates é experimentar de novo a inovação linguística e metafórica de um Absalão! Absalão! de William Faulkner, Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez ou O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, para mencionar apenas três distintos exemplos da modernidade e pós-modernidade literária mais próxima de nós no tempo ou no espaço.

A Guerra dos Mascates, como aliás adverte o narrador e depois o autor, Miguel Real, ele próprio, intrometendo-se sem apologias na prosa para esclarecer a génese tanto do romance de José de Alencar como o presente volume da sua autoria, sobrepõe a Imaginação à História, recriando e unificando o que até então haviam permanecido eventos aparentemente desconexos na vida violenta de uma das mais importantes parcelas da gigantesca colónia, pelos engenhos que abasteciam o gosto e a ganância europeia, Pernambuco. Afirma ainda o autor na mesma secção do romance que “é espantoso como um texto literário (o original de Alencar) pode mudar a face de uma cidade, fazendo emergir, através da sua transparência, que não raro opaca é, um novo sentido para a história”. A memória dos povos não nasce dos “factos”, nasce das narrativas que deles se retiram. A mítica da civilização vem da sua arte, a que foi encontrada ou sobreviveu mais pela sua beleza do que pela sua “verdade”, esta sempre dependente da reinterpretação de cada geração. Alguns historiadores e até cientistas, principalmente do século passado, acabaram por recorrer à ficção romanesca para dizer o resto, ou mesmo o que consideraram o essencial dos acontecimentos e das motivações interiores de cada um dos seus protagonistas, a “evidência invisível” que não cabia na prosa supostamente científica das academias da nossa época. A prosa de A Guerra dos Mascates recorre à ironia e ao humor incessantes da grande literatura assim como ao prazer lúdico da poesia como que nos causos recontados na forma de cordel, à repetição constante de palavras e nomes ritmados da cultura popular brasileira herdada ou à religiosidade prática e sensual dos orixás afro-brasileiros. A “mãe-negra” e a “mulata” retomam aqui o seu lugar mítico na nossa fantasia ancestral: a dignidade da oprimida na Casa Grande, e a vítima ao mesmo tempo resistente e cooperante da Senzala.

A Guerra dos Mascates é esse extenso e magnífico mergulho historiográfico e linguístico na grande empresa que foi a colonização lusa única da América, que tinha como precedente muito mais contido e cercado a experiência do povoamento da Madeira e dos Açores. Foi de facto o primeiro grande embate na recriação da Europa sulista nos trópicos, que pela violência sem vergonha, alma ou redenção e astúcia de colonizadores apoderou-se de mares e terras sem fim desde o nordeste sertanejo aos cerrados e serras de São Paulo e do território que viria a ser chamado de Minas Gerais, sem olhar a meios ou questionamentos metafísicos, criando a maior nação sul-americana no mais bem sucedido caldo racial, étnico, cultural e religioso. A nossa Geração do Ressentimento poderá vociferar moralmente nos dois lados do Atlântico, mas não se conhece outras nações naquele grande continente, a norte ou a sul, que tenham nascido de maneira melhor ou mais pacífica, como nenhuma na Europa nasceu pelas conversas e tratados de salão. O romance de Miguel Real é um inteligentíssimo castigo e uma celebração artística desamarrada desse feito histórico.

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Miguel Real, A Guerra dos Mascates, Lisboa, D. Quixote, 2011.

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