Deixemos de Chorar a Saudade

Olhemos esses desertos/onde é impossível deixar-se/mesmo o coração.

Cecília Meireles in Nem Sempre a Saudade Chora

 

Vamberto Freitas

Alguns livros açorianos saíram aqui há uns poucos anos em momentos de pouca atenção da nossa parte, e suponho que perante a alienação de uns tantos outros. Não será nunca uma ou outra crítica apreciativa a um qualquer livro que lhe proporcionará o lugar a que tem direito num determinado cânone literário, pois os processos de legitimação institucional e intelectual são muito mais complexos do que isso, o tempo sendo o outro grande (e talvez o mais decisivo) factor na consagração ou estatuto que qualquer obra passa a ter numa cultura ou distinta geografia humana. Só que, também todos saberão, sem este trabalho constante de comentar, criticar e apreciar um livro mesmo com alguma brevidade, seja de nome conhecido ou não, esse esforço criativo dificilmente fará parte da cultura literária viva de um povo, o seu autor ou autores quedando-se na solidão e na incerteza do valor ou da aceitação das páginas que quase sempre são inventadas entre a dor, solidão e a maior disciplina de corpo e mente frente a um computador ou a uma página em branco, a sua obra depois, na melhor das hipóteses, objecto de conhecimento de um muito reduzido grupo de leitores mais atentos ou de especialistas académicos. O acto crítico, acredito, deve incluir de quando em quando estas outras reflexões, e do mesmo modo tentar sabermos o que significam nalguns casos palavras demolidoras ante uma obra ou, pior ainda, ante o seu autor. A crítica negativa raramente perdura no tempo; a comunhão de prazeres da leitura e dos seus conteúdos, essa sim, permanece.

Veio tudo isto a propósito de Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia Açoriana sobre a Emigração, com selecção, introdução e notas de Diniz Borges, editado aqui nas ilhas em 2004. Nem falemos sequer da beleza artística do seu formato e qualidade da sua impressão, nem do prazer imenso que é tê-lo nas mãos ou num lugar especial das nossas estantes; fiquemo-nos antes pelo seu vasto conteúdo, um rol de poetas açorianos ou aos Açores ligados em várias partes do mundo e tempos por laços literários e/ou de sangue, como é o exemplo de Cecília Meireles de quem tirei os versos citados em epígrafe, e que significativamente abre esta longa rapsódia poética com o poema “Emigrantes” da nossa aventura no além-fronteiras. A grande virtude de uma antologia temática é que ficam justificadas todas as inclusões, poetas absolutamente anónimos convivendo com alguns dos mais conhecidos ou famosos entre nós. Mais do que a estética ou formalismos apurados ou não de uns e outros, é a narrativa simultaneamente desconexa no espaço e mesmo no tempo da nossa experiência e/imigrante nos mais dispersos países e recantos do mundo que nos orienta numa leitura sequencial ou ao acaso, conforme a página que aleatoriamente abrimos num dado momento. Disse-me um dia Eduíno de Jesus, presente aqui com o poema “Cais da Saudade”, que lia poesia em condições de absoluto relaxamento à noite, preferivelmente de copo na mão e com uma fina música ao fundo. Eis neste belo livro poetas populares das nossas comunidades norte-americanas (Estados Unidos e Canadá), poetas açorianos desde há muito residentes e com nome feito no continente português, poetas residentes no arquipélago mas para quem as partidas e chegadas dos seus comoveu-os com a mesma força emotiva que empurrou a maior parte da nossa gente para o exterior, como no grande poema de Álamo Oliveira, “Manuel 6 vezes pensei em ti”, necessariamente incluído nesta antologia.

Com efeito, Nem Sempre a Saudade Chora traz-nos essa outra oferta: o olhar duplo e cruzado dos que ficaram e dos que se foram rumo a todas as margens por onde nos dispersámos durante o século passado, a nossa muito antiga emigração entrando na modernidade, ou modernidades, que se estendem desde Toronto às terras ainda mais distantes do Brasil. Roberto de Mesquita, o genial florentino simbolista de Almas Cativas, por mais literariamente afrancesado que pareça na leitura de outros, nunca ficou alheio à sorte dos seus nem à sua própria condenação de “desterrado” desde a sua nascença à morte numa pequena ilha atlântica, então ainda mais isolada e só. Do poema em forma de soneto “Os que ficam”: Ao verem-me partir, as coisas familiares/tinham, assim o cria, um mudo olhar amargo./Já longe eu descobria os campos, os pomares/olhando para mim, saudosamente, ao largo. Muitos outros poetas aqui — desde Vitorino Nemésio e Pedro da Silveira a Urbano Bettencourt — poderão ter ficado sempre ou vivido fora das ilhas nas mais diferentes condições de profissão e cidadania, mas o seu profundo conhecimento da nossa história não lhes podia deixar alheios aos vectores social e económico que mais formaram e moldaram a existência dos ilhéus cá dentro e lá fora.

Uma literatura, em qualquer língua ou cultura, será sempre um corpo vivo e criativo contendo em si em termos de absoluta igualdade o que subjectivamente definimos como sendo “popular” ou “erudito”. O seu valor nunca poderá ser anunciado pela exclusividade de formas, ideias ou temas. Poderá ser que um qualquer poema não carregue em si qualquer sentido para além da beleza sequencial e sonora das suas palavras, como que num lindo quadro abstracto na nossa parede significando absolutamente nada. Do mesmo modo, creio que só muito raramente lemos exclusivamente pela música que algumas palavras nos evocam, pela genialidade da forma sem conteúdo. Uma antologia como Nem Sempre a Saudade Chora só poderia congregar em si esta multiplicidade de vozes que se completam num mosaico, uma vez mais, narrativo e que só pela arte, vista e entendida ao gosto de cada leitor, nos apresenta o outro lado da nossa história: a emotividade que o convencionalismo académico nunca permitiria, e só muito raramente teria a capacidade verbal de o expressar. Só a palavra poética perdura na memória colectiva de um povo ou de uma comunidade, oferecendo a base para as mais variadas representações e reinterpretações de toda a sua caminhada regida por leis, vontades ou fatalidades políticas, ou, com a mesma gravidade, pelos acidentes de percurso a que todos estão sujeitos e influem decisivamente nos nossos caminhos percorridos: a história dos Açores, por certo, inclui enfaticamente a sua geografia, o cerco e a inclemência da sua Natureza, e como toda a comunidade no século passado procurou um outro futuro nos países acolhedores e, por que não dizê-lo, solidários. De todas estas movimentações ao longo do século que ainda há pouco findou, nos dão conta as vozes reunidas por Diniz Borges. São poucos os poetas açorianos ausentes de Nem Sempre a Saudade Chora, tão raros como os que entre nós dirão que nunca foram pessoalmente afectados ou comovidos pelas nossas andanças em busca de cidadania e salvação.

A poesia açoriana tem sido larga e consistentemente antologiada nestas últimas décadas, e não só na nossa língua. Se é muito lida ou não nas próprias ilhas poucos saberão dizer, mas isso na verdade também pouco importa. Só que a memória colectiva de um povo é-lhe tão essencial como o pão que lhe alimenta e lhe permite a vida, ou como as fronteiras que definem o seu reinado de soberania e liberdade. Foram sempre as minorias que se encarregaram de interpretar, reinterpretar e arquivar depois a narrativa dos seus compatriotas, dando corpo à alma, que, chorando ou não, partilha a tragédia de se estar vivo e condenado à sobrevivência entre amigos e inimigos. Não se pode ser do mundo sem sermos primeiro de casa própria, não se pode conhecer nada nem ninguém antes de nos conhecermos portas adentro, e muito para além das meras intuições ou dos palpites de quem somos ou deixamos de ser. Poucos entenderão estes factos — e a arte que deles nasce — como os que embarcaram, ou estavam no cais a dizer-nos adeus.

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Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia Açoriana sobre a Emigração (Selecção, Introdução e Notas de Diniz Borges), Açores, Edição da Direcção Regional das Comunidades, 2004.

 

 

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