Ainda Sobre Jorge de Sena na América

Eu sempre disse que, em Portugal, se a saída fosse inteiramente livre, ficavam lá umas centenas de ingénuos e de pobres pedintes, e uns milhares de ladrões a roubar-se uns aos outros.

Jorge de Sena, América, América

 Vamberto Freitas

Não deixem que as palavras de entrada citadas acima condicionem a leitura deste outro volume de ensaios de Jorge de Sena acabado de sair em Lisboa, América, América, ou o vosso ponto de vista sobre o estado de cidadania ante Portugal durante toda a sua vida. Poucos (grandes) intelectuais portugueses do seu tempo terão sido tão firmemente patrióticos como o autor de Sinais de Fogo, só que colocando, sempre, a Nação e a sua História no centro da nossa existência e identidade, e nunca o Estado, que raramente correspondeu à grandeza global do seu povo nos tempos modernos. Se tenho vindo a escrever sobre e a citar com insistência estas colectâneas de ensaios que pela primeira vez tomam a forma de livro é porque com Jorge de Sena, quanto à nossa imigração na costa oeste dos Estados Unidos, nunca havíamos tido um defensor do seu estatuto literário tão acérrimo, tão firme e tão dignificado, para além de outro autor lisboeta de nome Eduardo Mayone Dias. Se digo aqui “do seu estatuto”, não me refiro à posição cimeira que a sua obra criativa e crítica ocupa no panteão da cultura portuguesa; refiro-me, sim, ao facto de ele ter chegado tardiamente de Portugal e do Brasil aos EUA, sempre figura cimeira no país de origem, imigrante que era e não era por todas as razões que enformavam a sua vida diária e intelectual. Não cabe no limite deste espaço explicar o quê ou como o próprio autor (se) entendia no mosaico diaspórico luso a que passou a pertencer com a sua partida definitiva de Portugal em 1959 rumo ao Brasil e, pouco depois, em 1965, à América do Norte. Bastará, creio, reafirmar com todas as letras que Jorge de Sena nunca se viu separado ou acima do resto do seu povo (maioritariamente açoriano) na Califórnia. Falava de nós com a sua inimitável ironia empática e humor são, quase auto-depreciativo:

“De modo que — escreve acerca da sua situação no ensaio “Ser-se Imigrante e Como” — a gente chegou catedrático professor, instalou-se, ganha na verdade uma miséria a comparar com o que um português da Califórnia ganhará a ordenhar honestamente vacas que não falam língua nenhuma. Vive num meio dito intelectual, não está (infelizmente eu, em Santa Barbara, não estou) em contacto permanente com a sua ‘colónia’, mas, graças às igualdades democráticas, vive exposto às mesmas discriminações, às vezes até mais subtis, que os outros”.

É neste texto que Sena, pouco antes de falecer, traça a sua história de imigrante e de intelectual no estrangeiro e em várias academias, revê toda a sua experiência de estrangeiro português simultaneamente no seio e nas margens de todos os outros que como ele e a sua família tinham optado por abandonar Portugal nos anos mais negros e incertos. Num texto anterior, sobre o volume Rever Portugal, assinalei a natureza das suas intervenções nas questões educacionais relacionadas com as comunidades, o seu apoio incondicional ao ensino do Português às crianças e jovens imigrantes e luso-americanos integrados no ensino oficial da Califórnia, a sua disponibilidade contínua para intervir em congressos, simpósios e outros encontros que estivessem relacionados com o nosso lugar no Novo Mundo, e com a vida política e intelectual de Portugal sob a ditadura, e depois na nova democracia de Abril. Devo adicionar que esta lealdade à nossa vida comunitária, pessoal e abertamente manifestada nos últimos anos, se traduziu numa visita ou outra a Festas do Espírito Santo, como eu próprio testemunhei na cidade de Artesia, da Grande Los Angeles. Não esqueço o entusiasmo e o contentamento com que ele viveu esses momentos, satisfeitíssimo por partilhar a sua troca de impressões com todos nós à sua volta, dizendo a certa altura que esta era a comunidade que sempre esperou e queria ver activa. Uma pergunta qualquer sobre cultura ou literatura portuguesa despertava nele, nesse mesmo ambiente, um entusiasmo transbordante, a sua generosidade e respeito por estes outros conterrâneos seus eliminava o que poderíamos esperar de condescendência ou mera tolerância. Foi nesse momento que compreendi mais claramente a ira com que ele se vinha dirigindo em textos vários aos políticos e aos literatos do nosso país, fechados todos eles na sua ignorância e provincianismo em tudo o que dizia respeito ao nosso povo emigrado em toda a parte.

América, América inclui ainda outros textos que abordam o seu profundo entendimento da cultura norte-americana (foi tradutor, inclusive, dalguns grandes escritores daquele país), do ensino da língua e literatura portuguesas a nível superior, dos americanos e da sua noção de história e de como isso influenciava o eu olhar, ou o não-olhar, sobre Portugal. Cidadão brasileiro por necessidade e lealdade ao pais-irmão (escreveu num destes ensaios que era “brasileiro de oito séculos, desde D. Afonso Henriques”), defendeu sempre e a todo o custo a lusitanidade nas universidades americanas contra um constante e difamador ataque dos espanholistas, dos próprios brasileiros e dos brasilianistas, estes professores norte-americanos, quase todos recebedores de benesses do governo federal norte-americano para prosseguir nos estudos que levariam a um melhor entendimento e consequente controlo político sobre o Brasil emergente. Respondia e reagia a qualquer tentativa de denegrir o nosso país em qualquer dos seus aspectos (história, língua, cultura), desde alusões ao nosso sotaque, que supostamente não seria entendido por brasileiros, e logo os alunos teriam de aprender o do Brasil, eliminando assim a paridade entre a presença dos dois países na academia americana. Trata-os com todos os nomes, desde “patifes” a “prostitutas” e “canalhas”. O anti-portuguesismo de alguns universitários daquele país merecia-lhe de imediato o desprezo e o nojo abertos e expressos, reconhecendo sempre a ignorância e arrogância de todos, Portugal visto por olhos chauvinistas por aqueles cujo único valor era o poderio económico e político de uma nação. Em Jorge de Sena, pois, encontravam o seu superior em tudo: conhecimento geral da história e culturas diversas, rectidão democrática e ética inabalável tanto no tratamento de questões intelectuais como de pessoas, singulares ou colectivas. Por minha parte, nunca tinha lido ensaios tão esclarecedores e contundentes sobre todas estas questões que muitos de nós vivemos a vários níveis institucionais nos EUA, principalmente na ebulição intelectual e académica dos anos 60-70. Ler e reler Jorge de Sena agora em América, América é dar-nos conta de quanta dor e desgosto, mas também ou sobretudo de quanta persistência e entrega, viveu um dos nossos maiores poetas e intelectuais de todos os tempos.

Jorge Fazenda Lourenço diz na sua introdução que toda a escrita de Jorge de Sena, toda a sua vivência e andanças, estavam interligadas na sua obra poética. De facto, ninguém nos escreveu e descreveu — escrevendo-se e descrevendo-se — de modo tão claro e duradouro. Por certo que o próprio poeta estava hiper-consciente desse facto quando num dos ensaios aqui presentes ele inclui um passo do grande poema de imigração e exílio que é “Em Creta com o Minotauro” de Peregrinato Ad Loca Infecta, de 1969: Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,/se usam e se deitam fora, com todo o respeito/necessário à roupa que se veste e que prestou serviço./Eu sou eu mesmo a minha pátria.

Não creio existirem na modernidade literária portuguesa outras palavras que tão bem e com tanta verdade e beleza contêm em si e em sequência rapsódica o estado permanente do emigrante andarilho a contas com todas as suas e, por vezes, necessariamente, contraditórias lealdades.

_____________________________

Jorge de Sena, América, América (organização e introdução de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço), Lisboa, Guimarães/BABEL, 2011.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s