Urbino de San-Payo E Um Outro Lado da Diáspora

Oh esta grande AMÉRICA em corpo tão pequeno. Pesa que pesa que a tua fartura é de fome ó transmontano duma figa. Abalaste e agora te lixas.
Urbino de San-Payo, Plural Transitivo

/Vamberto Freitas

Não prestem atenção aos pontos e minúsculas seguintes, foi mesmo assim que Urbino de San-Payo escreveu este outro curto e magnífico texto inserido num dos seus poucos livros de crónicas ficcionadas “americanas”, Plural Transitivo do já muito longínquo 1982. Durante todo o seu percurso o conteúdo inevitavelmente ditou a forma, fez da vida vivida e escrita alguns dos mais silenciosos poemas (“gritinhos”, como um dia chamou um dos seus raros desabafos públicos nas páginas do Tribuna Portuguesa) da nossa sorte colectiva. Poeta, dramaturgo, cronista – a obra de Urbino de San-Payo foi sempre feita dos abalos solitariamente sentidos na terra-pátria, e depois como andarilho parado, por assim dizer, na abastança sul-californiana, onde viveu e trabalhou a segunda metade da sua vida. Faleceu há poucos dias em Los Angeles com quase 78 anos de idade, mas deixa entre nós um rasto indelével, um riquíssimo arquivo artístico de como foi viver a portugalidade com esperança de pouca dura em “tempos escuros”, principalmente a partir 25 de Abril de 1974, que ele viveu intensamente no seu exílio do Eldorado, até aos nossos dias de desespero e indignidade generalizada no seu país de adopção e no de origem. A sua vida na Diáspora foi única entre nós, em todos os aspectos habitualmente considerados. Continental de gema, aproximar-se-ia das comunidades açorianas nos anos 70 pela mão do professor universitário e escritor Eduardo Mayone Dias, este o mais açoriano de todos os lisboetas; fez a sua vida “trabalhando” juntamente com a sua mulher e companheira de sempre, Maria Amélia, nalgumas das casas mais ricas e glamorosas de Beverly Hills; escreveu a sua dor interior e a sua infinita saudade de um império da bondade nunca esquecendo a caminhada comum de todo o seu povo dentro e fora do país ancestral, a lonjura e indiferença ante qualquer noção de “estatura” nas falsas e pretensiosas hierarquias lusitanas garantindo também o quase-obscurantismo em que o homem e a obra permaneceram para além dos poucos leitores (em Portugal contavam-se alguns escritores de prestígio, entre eles Urbano Tavares Rodrigues) que a conheciam e só poderiam admirar. A sua poesia está parcialmente reunida em Escopro, Barbaramente tu e Boca Consoante, e o que ele denominava de “pomorromance” (poesia e prosa) em Exorcismos menores e Exorcismos maiores; escreveu ainda a peça teatral O Cavalo de Tróia.

Qualquer palavra minha numa apresentação mais pormenorizada aos leitores que o desconhecem seria uma blasfémia comparando-a a uma nota autobiográfica que encontrei num blogue seu, significativamente chamado “Putalândia”, só depois de receber a notícia do seu falecimento, e que aparentemente ele nunca chegou a desenvolver para além das palavras que se seguem. Uma vez mais, dor e humor conjugam-se num perfeito equilíbrio do “eu” e do “nós” nesta como em toda a sua prosa ou poesia:

“Nasci – escreve caracteristicamente com as minúsculas, como quem se quer esconder do mundo em volta – no Lugar da Rede, Mesão Frio, Alto Douro, Portugal. Cresci entre a Guerra Civil e a outra, a Grande, onde Hitler jogou o seu xadrez de morte. Entre o surripianço das peras dos quintais dos vizinhos, as andanças no Rio Douro e a fome geral, fiz-me um homenzinho. Aí chegado, 14 anos bem ou mal medidos, meteram-me, sem eu ser visto nem achado, num comboio-carroção com destino ao Seminário de Santarém onde se iria jogar o meu destino no Sacerdócio. Durou seis anos o meu caminho nos seminários. Fui tropa de caneta por 18 meses. Cocei o cu das calças no funcionalismo público e nas tertúlias. Em 1968 pirei-me para Londres. Dois anos depois emigrei para os Estados Unidos, onde vivo presentemente”.

Conheci o Urbino e tornamo-nos amigos nos tempos em que Abril nos era ainda a Primavera de Tudo, e a nossa convivência tanto acontecia numa Festa do Espírito do Santo ali em Artesia ou Chino, como na casa em Beverly Hills, onde a esposa trabalhava e ele fazia que ajudava enquanto bebíamos uma cerveja na mesa da cozinha ou no quintal cheio de esculturas da dona do – imaginem! – Universal Studios. Foi lá que vi pela primeira vez, creio, um original de Jackson Pollock e um guarda-roupa em que cada peça tinha apendoado o rótulo do fabricante e a apólice de seguro! A Senhora da Casa, nunca a vi. Mas assisti ao chamamento do Urbino para que fosse à sala ou quarto onde ela pousava: era para lhe explicar um passo qualquer de um livro que ela lia. Aliás, a Senhora dizia com orgulho a todos os amigos que o seu empregado era um poeta e intelectual. As grandes ironias da vida, pois. Também os gregos eram levados para Roma para fazerem exactamente o mesmo. Alguns escritores lisboetas diziam-lhe que trocavam sem qualquer problema ou hesitação o lugar com ele. Que melhor condição ou modo de vida para um escritor? Um dia contarei de quando ele me levou a mim e ao Onésimo T. Almeida a casa de Elton John em Beverly Hills, que, se não me engano aqui, havia pertencido a Greta Garbo, para uma festa só de portugueses: o dono estava em Londres e a sua governanta era também a portuguesíssima cunhada do Urbino. Refiro tudo isto não só pela saudade do meu falecido amigo e de outro e bem mais alegre tempo; Urbino pertencia a esse privilegiado grupo de portugueses, quase todos continentais, que trabalhavam nas milionárias casas do famoso bairro verdadeiramente angelino, estória que um dia deveria ser contada em livro. Acima de tudo, quero apontar que a sua obra e filosofia de vida permaneceram inabaláveis: um belo e incomparável registo em língua portuguesa, que ele manipulava (como diria Eduardo Mayone Dias num longo ensaio sobre a sua obra) com finura e agilidade, do nosso perpétuo exílio interior ou, mais tarde, na terra americana.

Um segundo livro de “crónicas”, A América Segundo S. Lucas, contém uma série de “cartas” entre a realidade e a ficção num diálogo com uma “Filomena”, publicadas originalmente no já mencionado semanário Tribuna Portuguesa, então dirigido pelo também recentemente falecido João Brum. Publicaria ainda, no que à nossa emigração no Pacífico diz respeito, Os Portugueses Na Califórnia, história e ensaio de cariz sociológico em volta das vivências e ritualismo profano-religioso das comunidades maioritariamente açorianas ali residentes.

Concedeu-me uma entrevista para o Diário de Notícias em 1980, que foi publicada com o título de “O Emigrante É Um Pastor Com Manta de Trapos”, texto que depois abriria Plural Transitivo, e que cito com certa frequência sempre que o tema é literatura imigrante ou luso-americana. “É o mundo – disse – que está na ponte, cheio de indecisão até aos cabelos. Oscila entre as duas margens, incapaz de abdicar da bandeirinha portuguesa que traz no bolso, como se diz no teatro do Onésimo, e da pele americana que veste por necessidade, adaptação e, até, por reconhecimento”. Nessas páginas, Urbino não só se auto-define em relação ao país natal, como se posiciona totalmente como escritor da “imigração” ou do “exílio”, tanto faz, nomeando colegas, falando das suas obras, equacionado o nosso lugar histórico nos EUA assim como o que ele esperava e o desiludiu no 25 de Abril, especialmente após uma das suas visitas menos felizes à terra que desde há muito deixara, mas nunca esqueceu mesmo num quotidiano norte-americano que nada tinha a ver com o que era ou se passava no outro lado do grande continente e do grande oceano. Portugal e o nosso povo eram o sopro vitalício da sua consciência, da sua alegria e da sua infelicidade. Em Los Angeles, especialmente na cidade estrelada de Beverly Hills, Urbino era o perfeito estranho em terra estranha. Nunca a língua portuguesa fora tão pátria como lhe era a ele próprio. Deixou um filho, Marco, que cresceu brincando entre a suposta abastança dos outros e a riqueza verdadeira e duradoura de seu pai.

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Urbino de San-Payo, Plural Transitivo, Livraria Ler Editora, Lisboa, 1982. A foto do autor foi tirada da net, que creio ser uma das mais recentes. O seu nome literário foi um semi-pseudónimo de Urbino Manuel Sampaio Ferreira.

Guerra Santa, ou Portugal no Choque de Civilizações

Empurrados por uma certeza férrea de que estavam destinados a espalhar a fé verdadeira, os Portugueses mudaram o rumo da história.
Nigel Cliff, Holy War

/Vamberto Freitas

 

 Holy War: How Vasco Da Gama’s Epic Voyages Turned The Tide In A Centuries-Old Clash Of Civilizations/Guerra Santa: Como As Viagens Épicas De Vasco Da Gama Mudaram O Rumo No Confronto Multissecular Entre Civilizações do historiador, biógrafo e crítico inglês Nigel Cliff, recentemente publicado no mundo anglo-americano, leva-nos muito além do que todos nós aprendemos nos bancos da escola, ou até em textos posteriores e academicamente mais sofisticados. Trata-se aqui de uma narrativa tão extensa como extensa e profunda foi a radical mudança globalizante que um pequeno e isolado Portugal operou com os Descobrimentos dos séculos XV e XVI.

Para um leitor português, Holy War provoca uma reacção dupla: o êxtase ou orgulho-pátrio pelo feito sem precedentes na história do Ocidente e cujas consequências ainda hoje vivemos (aliás, essa é a mais declarada tese do livro), e o espanto perante tanta coragem, inteligência, determinação e, sim, perante violência a uma escala muito mais contida do que a de séculos posteriores até aos nossos dias, mas nada menos cruel ou injusta. Poderá toda a historiografia anterior ter enfatizado a espada e a cruz, o comércio internacional dos portugueses como motivo principal para as viagens à Índia pregando o cristianismo como mera justificação, mas Nigel Cliff está convencido de que o sentido de Cruzada tinha sido ressuscitado principalmente por D. Manuel I, que ambicionava tornar-se num Rei Universal derrotando de uma vez por todas os muçulmanos em toda a parte. Os historiadores profissionais poderão voltar a debater entre si o peso de qualquer uma ou de todas estas questões, mas por agora Holy War constitui para os leitores não especializados a mais aliciante leitura de sempre sobre a dobragem do que até então permanecia miticamente o Cabo das Tormentas e a consequente chegada às terras estranhas – estranhas e desconhecidas para todos os europeus da época – do Oriente. De resto, alguns dos títulos de certos capítulos de Holy War, como “Shock and Awe/Choque e Terror” (expressão, esta, significativamente cunhada pelos próprios invasores norte-americanos na fase inicial do ataque ao Iraque) denotam de imediato a continuidade da história no “relacionamento” entre os países de maioria cristã e os estados declaradamente islâmicos, especialmente os árabes, assim como o epílogo traça essa linha de continuidade conflituosa entre as duas civilizações, reafirmando uma vez mais que foram estas “viagens épicas” de Vasco da Gama que reiniciaram o antigo conflito ou colocaram-no na sua rota presente, com as consequências que todos nós conhecemos e, quer queiramos ou não, vivemos, tal como os britânicos e madrilenos há poucos anos, e como corolário terrorista do sangrento 11 de Setembro nova-iorquino. Poderão ainda outros negar qualquer guerra entre “civilizações”, tal como havia anunciado o falecido economista e historiador norte-americano Samuel P. Huntington precisamente num muito controverso, debatido e por vezes asperamente contestado livro seu de 1996, The Clash Of Civilizations And The Remaking of World Order/O Choque De Civilizações E A Nova Ordem Mundial, mas o facto é que cada suposta “Primavera árabe” que presenciamos actualmente em todo o Médio Oriente parece acabar com os seus ditadores para instituir de seguida regimes ainda mais fundamentalistas do que os depostos. O ataque feroz à Embaixada de Israel em Cairo dias depois da “libertação” do Egipto assim como a perseguição constante e mortífera em curso aos cristãos do mesmo país não serão meros acidentes de percurso.

“O confronto entre o Oriente e o Ocidente – escreve o author no encerramento de Holy War – tem sido tão consistentemente criativo como destrutivo. O que nunca aconteceu foi o seu desaparecimento, e os dogmáticos e de linha dura de todas as cores depressa passam à retaguarda. Entre esses, estão os próprios desbravadores portugueses. No fim, as firmezas religiosas que guiaram Vasco da Gama e os seus conterrâneos descobridores em volta de meio mundo foi também o que os destruiu. Mesmo que tenham conseguido feitos espantosos, a ideia de uma Última Cruzada – uma guerra santa para acabar com todas as guerras santas – foi sempre um sonho irrealizável (crazy dream, no inglês do author)”.

Holy War é, pois, uma narrativa da nossa história fundamentada em cem páginas de notas mais uma extensa bibliografia internacional que seguem o longo texto, e em que naturalmente os historiadores portugueses estão amplamente, como seria de esperar, representados. Recenseado logo à saída em termos positivos pelo ensaísta Eric Ormby no The New York Times (“Why Vasco da Gama Went to Índia”), um dos reparos que o crítico faz à narrativa é que deveria ter incluído a presença d’Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, que não só escreveu o grande poema épico lusitano como participou, ele próprio, como todos sabemos, nalgumas das expedições ao e no Oriente. Ormby afirma ainda que nunca se tratou de um “choque de civilizações”, afirmando que se os portugueses, por um lado, admiraram a beleza das cortes islâmicas, por outro os islâmicos não estavam minimamente interessados na cultura europeia. Não é essa a leitura ou a ideia, repita-se, que retemos de Holy War. O mesmo crítico, aliás, contradiz-se quando logo na abertura da sua apreciação escreve que: “Ele (D. Manuel I) possuía uma mente visionária que raiava a loucura; via-se como o instigador de uma guerra santa para acabar de vez com o islamismo e pretendia reconquistar Jerusalém no poder dos ‘infiéis’ e tornar-se ele próprio o ‘Rei de Jerusalém’”. Seja como for, poucos romances históricos sobre essa época oferecerão o prazer puro de leitura como esta narrativa de Nigel Cliff, e é isso que esperam aqueles que preferem datas e nomes nas notas de rodapé, permitindo assim um texto limpo e riquíssimo em imagens por entre novas visões do que se teria passado nessas viagens encobertas na bruma do tempo e criativamente reinventadas na nossa própria imaginação. Nem só dos “factos” ou de “moralidades” hipócritas se alimenta a mítica identitária de um povo, ou se vai buscar força para enfrentar mundos que pouco bem nos querem, tanto ontem como hoje: o degradante espectáculo na Europa deverá servir também para a nossa educação sobre quem salva ou esmaga esta ou qualquer outra nação.

É claro que os passos mais fascinantes de Holy War são os que nos descrevem minuciosamente em linguagem escorreita e vivíssima as tormentas dessas longínquas e prolongadas viagens em mares revoltos e desconhecidos, a tragédia diariamente à vista entre homens inimaginavelmente destemidos, e os primeiros encontros com outros povos e misteriosos “impérios” a partir da costa africana até á chegada final aos reinos exóticos e esplendorosos dos zamorins indianos. Se na primeira viagem de 1497 somos apresentados a todos os pormenores de navegação nas pequenas mas ágeis caravelas e às superstições da maioria das suas tripulações e à crença entre eles de um mundo plano, contra a qual tinham de lutar os comandantes quatrocentistas na segunda e depois na terceira viagem um pouco mais tarde, seguimos o violento ajuste de contas contra todo o tipo de inimigos em mar e terra e a “diplomacia” literalmente a ferro e fogo favorável ao imediato controlo e bem sucedido poder comercial dos portugueses. É uma história que tem de ser lida à base do mundo ideológico e religioso que nunca conhecemos, mas que também tem sido a marca forte dos séculos posteriores, e de longe ultrapassada em crueldade e arrogância ainda durante as nossas vidas.

Se houver uma única tradução no nosso país durante os próximos tempos, que seja a de Holy War – eis aqui o prazer do texto e a grandiosidade da estória e História.

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Nigel Cliff, Holy War: How Vasco Da Gama’s Epic Voyages Turned The Tide In A Centuries-Old Clash Of Civilizations, New York, NY, Harper, 2011. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

Na Esquina E Nas Margens Dos Nossos Mundos

Nove ilhas no meio do Atlântico Norte foram seu berço. No olhar do imaginário representam mais que pontos insulares na carta geográfica.

Lélia Pereira da Silva Nunes, Na Esquina Das Ilhas

/Vamberto Freitas

O imaginário de que fala aqui Lélia Pereira da Silva Nunes é o que foi construído ao longo de mais 260 anos pelos descendentes dos açorianos que desbravaram parte do sul do Brasil, nomeadamente determinadas áreas de Santa de Catarina (o Desterro do início que viria a tornar-se na bela Florianópolis) e do Rio Grande do Sul (o Rio Grande inicial que se tornaria na grandiosa Porto Alegre, hoje ostentando o maior monumento ao nosso povo ilhéu em qualquer parte do mundo, Açores inclusive), ambos reconhecidamente dois dos estados mais desenvolvidos e estáveis do país-continente pelos portugueses inventado. Aqui no arquipélago somos a terra ancestral, agora só imaginária para a vasta maioria dos nossos descendentes no extremo hemisfério sul, e só visitando-os pessoalmente nos apercebemos do que um dia, noutro contexto e por outras razões, disse ser “a força das raízes”. Da cidade-ilha descendo até ao Pântano do Sul catarinense poder-se-á constatar a diversidade nacional e étnica do Brasil, mas um açor-brasileiro agora só alimentado pela memória será, mesmo séculos depois, de imediato reconhecido por qualquer um de nós, nem que seja só pelo afecto que nos cobre nesse breve reencontro com esses herdeiros dos bravos pioneiros que de cá partiram, tão bem retratados no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um Quarto de Légua Em Quadro, e depois no filme dele retirado, Diário De Um Novo Mundo. No entanto, esta foi uma parte fulcral da nossa história consistentemente ignorada, quando não vilipendiada, até a meados do século passado quando começa o resgate intelectual e literário nos dois lados do Atlântico – graças, ao que nos toca aqui no arquipélago e aos nossos colegas no outro lado do Atlântico, à investigação e divulgação de alguns professores e de outros investigadores da Universidade dos Açores assim como de várias instituições e institutos brasileiros. Seria bom lembrar a todos que não temos a nossa “missão histórica cumprida”, antes um longo percurso pela frente nesta e em todas as respectivas áreas de reconhecido mérito e legitimação institucional.

Veio esta breve contextualização a propósito do recente Na Esquina Das Ilhas, de Lélia Pereira da Silva Nunes, socióloga e escritora que nos últimos anos tem dedicado boa parte da sua vida não só à divulgação da cultura açoriana reinventada no Brasil ao longo dos séculos como, por outro lado, colabora com todos, de vários modos, para manter a nossa presença entre os que lá já pouco ou nada conhecem do nosso presente e do turbulento percurso interno que nos levou à sociedade que hoje somos. O presente volume de crónicas e ensaios constitui um relato continuado da sua própria presença e estatuto de investigadora e interveniente nos mais variados e dispersos encontros de temática açoriana um pouco por toda a parte, desde as ilhas (incluindo a Madeira) e Continente português ao Brasil, Estados Unidos e Canadá. Não têm sido poucos os vaivéns extremamente proveitosos de Lélia Nunes entre todas as margens das nossas geografias sentimentais e culturais. O seu livro está apropriadamente dividido em duas secções: “A Ilha de Cá” e “Ilhas de Lá”, fundindo-se num todo em que a osmose transatlântica se torna o fio condutor de toda a sua prosa. Uma descrição da “Divina Festa do Divino” em Florianópolis ou noutras comunidades de Santa Catarina assim como o discorrer sobre a “poética do boi” (expressão que os meus conterrâneos terceirenses reconhecem de imediato) contêm linha a linha a união entre as origens e a sua inevitável evolução vincadamente brasileira. Da quase indissociável cultura popular ou religiosa nas duas margens do Atlântico (quando de açorianos, com ou sem hífen, falamos) a autora poderá passar pelos mais significativos – e significantes – escritores catarinenses que ao longo dos tempos e através das mais variáveis formas e géneros de escrita gravaram a memória ou comentaram e comentam a herança de termos sido e vivido em ilhas e em terras sem fim. A colecção literária açor-brasileira (guardada pelos nossos descendentes e outros estudiosos) em instituições académicas, associações e fundações é um imenso tesouro que a maioria de nós sabe existir mas desconhece, não só pela lonjura das terras comuns como pelo atraso histórico em reatarmos com força as ligações de sangue e a actual convivência directa, mesmo que quase só pelas comunicações em tempo real e pela consciencialização de que a Diáspora vai e deverá ir sempre muito para além da retórica oficial ou de uma nota de rodapé. Juntamente com a nossa presença memorial no Rio Grande do Sul, o Desterro em Santa Catarina onde desembarcavam os ilhéus a partir de Setecentos tornar-se-ia, mesmo que a historiografia oficial sempre o tenha ignorado, num dos maiores sucessos da colonização em qualquer parte do império luso: foi a periferia ajudando a criar centros civilizacionais que nem na terra de origem existiam – como ainda hoje não existem.

“A celebração – escreve Lélia Pereira da Silva Nunes, numa síntese perfeita da sua narrativa e do relacionamento destas outras comunidades ancestrais naquela parte do mundo com os Açores e a sua mais perdurável tradição – do Espírito Santo em Santa Catarina, no sul do Brasil, bem ilustra a variedade das apropriações dos sentidos de pertença a uma mesma herança cultural e sua contribuição fundamental na configuração da identidade. É a maior expressão da transnacionalidade cultural a partir da grande saga dos ilhéus açorianos do século XVIII. Vitorino Nemésio em Corsário das Ilhas (1983) registrou que o açoriano ‘civilizou largamente as suas ilhas e ainda teve vagares para ajudar a fazer a terra alheia, sobretudo o Brasil e a América’, referindo-se a essa odisseia do século XVIII e a grande corrente da emigração dos séculos posteriores”.

De resto, Na Esquina Das Ilhas viaja por outras comunidades açorianas do continente imenso a oeste de nós, como já referi, e aqui com especial destaque para as da Califórnia, destacando os que por lá nos escrevem e nos reinventam no entrelaçar de múltiplas culturas que rodeiam os imigrantes e luso-americanos por todos os lados. São afinidades pessoais e intelectuais agora sem quaisquer fronteiras, tendo a Tradição açoriana e os seus continuadores em toda a parte como tema abrangente, o nosso passado e lugar na história das mais diferentes e universalizadas sociedades cada vez mais firmes numa modernidade que não amedronta; pelo contrário, permite e insiste nestas andanças saudavelmente identitárias e sem outros interesses que não seja a recuperação da verdade contra o amesquinhamento de um povo como o nosso, o português à distância no seu próprio país natal, os portaghees dos EUA e os manézinhos nas ruas catarinenses. A autora sabe muito bem como, em países multirraciais e étnicos, o poder económico das suas comunidades dita a seu favor e desavergonhadamente certas narrativas, e como a história se apaga e se reinventa para favorecer quem pouco direito tem ao lugar cimeiro que ocupa num determinado momento. No Brasil, tudo (me) parece estranho menos as grandes e pequenas cidades ou vilas que marcam a presença lusa de norte a sul e de oeste a leste, nas suas variadas versões, desde a arquitectura à calçada dos passeios e às torres das igrejas e igrejinhas, algumas delas escondidas na imensidão do território. Se um dia apertarem a mão e olharem os olhos de um velho pescador do Pântano do Sul quando este encontra alguém de cá, e abraçarem o Arante no seu fabuloso bar-restaurante, do mesmo nome, saberão do que falo e sinto. É “a carta geográfica” – só que agora com memória e coração. A língua e a cultura reinantes falam pelo resto.

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Lélia Pereira da Silva Nunes, Na Esquina Das Ilhas (com apresentação de Sérgio da Costa Ramos e prefácio de Daniel de Sá), Florianópolis, Editora Insular, 2011.

Da Luso-Americanidade Sem Fronteiras

 Resumindo, seria muito difícil identificar outra grande   comunidade etnolinguística na América do Norte cujos  antepassados se agrupavam em senhores e escravos,  colonizadores e colonizados, centro subalterno e centro  hegemónico.

 Robert Henry Moser e Antonio Luciano de Andrade Tosta, Luso-  American Literature

 

/Vamberto Freitas

A volumosa antologia Luso-American Literature: Writings by Portuguese-Speaking Authors in North America acabada de sair na prestigiada editora Rutgers University Press, organizada pelos professores Robert Henry Moser (University of Georgia) e Antonio Luciano de Andrade Tosta (University of Illinois, Urbana-Champaign), constitui um acto literário singular entre nós, audaz e absolutamente original na sua expansividade temática e nacional, indicando assim novas pistas etno-literárias, juntando as mais díspares vozes nas línguas portuguesa e inglesa, todos quanto na América do Norte têm ou tiveram a lusofonia como referencial histórico em três continentes e nos arquipélagos dos Açores e Cabo Verde. Com efeito, trata-se de um trabalho sem antecedentes nos estudos diaspóricos lusos, juntando textos que vão do ensaio e crónica à ficção e poesia. Dividida em três grandes secções, abre com os luso-americanos e imigrantes, seguindo com os brasileiros e encerrando com os cabo-verdianos. Todos os textos, uma vez mais, estão escritos ou traduzidos aqui para a língua inglesa, sendo o público leitor a quem se dirige este trabalho aqueles que nada ou pouco conhecem deste outro mundo escondido no grande mosaico literário e cultural daquele país. No que toca à primeira secção, “Luso-American Literature”, estão incluídos praticamente todos os nomes já conhecidos nos nossos meios transatlânticos, desde Katherine Vaz e Frank X. Gaspar e George Monteiro (que também assina o intróito à antologia) a Francisco Cota Fagundes, Onésimo T. Almeida, José Francisco Costa, Eduardo Bettencourt Pinto e Álamo Oliveira. No caso do Brasil, “Brazilian Voices”, temos alguns dos nomes mais famosos ou reconhecidos na literatura canónica do maior país de língua portuguesa, desde Erico Veríssimo, Monteiro Lobato, Moacyr Scliar e Luís Fernando Veríssimo a Gilberto Freyre, Robert DaMatta e o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, autores que passaram ou viajaram pela América do Norte deixando em diversas obras as suas impressões e vivências. De resto, a escrita da experiência imigrante brasileira está ricamente preenchida com nomes de outros escritores e poetas que escrevem em português e inglês (estes reunidos numa subsecção deliciosamente intitulada “Brazuca and Beyond”), pouco conhecidos mas de qualidade e relevância inquestionáveis. De Cabo Verde, “Cape Verdean Voices”, temos igualmente alguns nomes mais conhecidos do que outros, desde o poeta Jorge Barbosa a outros como Viriato Gonçalves e Donaldo P. Macedo.

Poderão ter ficado de fora alguns nomes fundamentais numa ou noutra destas secções, mas em qualquer trabalho deste género a questão de espaço dita necessariamente os seus próprios limites, ou então a visão dos seus organizadores pode e deve mesmo ser outra que não a de cada um de nós. Assim mesmo, poderei só referir-me aqui à parte que diz respeito aos luso-americanos ou outros escritores da nossa e/imigração. Por outro lado, não esqueçamos que uma antologia literária poderá consagrar os autores aí presentes num cânone existente ou em formação, mas deve funcionar ainda como texto desbravador de mundos criativos em fruição perpétua, e Luso-American Literature fá-lo por inteiro. Trata-se de uma antologia que vem muito atempadamente: o mundo de língua portuguesa está a aproximar-se cada vez mais também como resultado da globalização cultural em curso, em que já nos é possível num outrora isolado recanto açoriano assistir em tempo real juntamente com brasileiros e africanos a um telejornal diário dos nossos países, partilhar qualquer outro momento de interesse ou urgência mediática. Para os leitores activos de qualquer um desses países ou comunidades diaspóricas, também tudo se encontra ao nosso alcance ora através das livrarias virtuais ora através de outros meios tecnológicos.

Pela minha parte, foi a feliz descoberta da escrita brasílica-americana e dos autores cabo-verdianos numa lista agora bem mais alongada que, nas duas línguas, transfiguram a sua experiência de cidadãos “hifenados” na nação das nações, e reconfirmando uma vez mais que os seus imaginários estão necessariamente plantados na nossa outra pátria comum, a língua portuguesa nas suas riquíssimas variantes socioculturais, geográficas e históricas, ou simplesmente na memória ancestral. Mesmo estando todos os textos aqui traduzidos ao inglês, como já foi dito, a verdade a que sobressai linha a linha, verso a verso, a doce dor da saudade – dita por todos nos mais deliciosos sotaques nestas páginas – dos mundos que todos nós perdemos, a ansiedade de nos libertarmos de certas memórias e de nos reinventarmos a cada instante na nova sociedade, procurada pelo imperativo de mera sobrevivência económica ou pela aventura do novo e do radicalmente diferente. Um dos textos “brazucas” mais significantes nesta antologia (a palavra inglesada aqui, com z, traduz de imediato a primeira geração em combate pela sua dignidade na selva capitalista do país de acolhimento) é “Disha for Four Hours” de Sérgio Vilas-Boas, quando reconta a sua chegada a Nova Iorque e sai-lhe na sorte um primeiro emprego de lavador de pratos num restaurante, imaginem, de “portuga”, no qual o narrador descarrega toda a fúria historicamente anti-lusitana do seu país de origem, provocando-nos o riso empático tanto pela comédia que é deixar o Brasil para reencontrar o antigo colonizador armado em patrão eterno como pelas verdades amargas que outros escritores bem mais perto de nós (Francisco Cota Fagundes, por exemplo) já tinham dito ou escrito. De resto, em crónica, ficção pura ou em poesia, essa prosa quente dos trópicos nas terras geladas do norte celebra e chora de modos muito familiares a todos nós a perda que é igualmente inerente à reinvenção do nosso ser, a criação de novos mundos sobre as cinzas dos velhos, em que ironicamente se torna o Brasil nalgumas destas páginas, mesmo considerando que a maior parte da emigração brasileira para os EUA só aconteceu nos anos 80, quando, para maior ironia ainda do destino, o Brasil começava a sair finalmente do seus anos de chumbo e miséria. O falecido escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, ele próprio tendo conhecido durante largos anos o exílio asséptico da Europa, dizia que o que mais o aborrecia no chamado realismo mágico dalguma literatura latino-americana era que esta lhe lembrava de imediato uma bailarina com flores e bananas à cabeça, supõe-se que para não fugir às fantasias infantis dos outros mais poderosos, e assim vingar entre eles. Luso-American Literature inclui um excerto do romance Samba Dreamers de Kathleen de Azevedo que toca o tema de perto, e agora visto com a originalidade de uma protagonista sul-californiana que bem conhece a fábrica hollywoodesca que mais não tem feito do que criar e perpetuar todos os imaginários e preconceitos infames acerca dos “outros” a sul.

Os organizadores de Luso-American Literature: Writings by Portuguese-Speaking Authors in North America justificam incluir nas suas páginas todos os que estão aqui representados pelo facto do termo “luso-americano” ter de incluir agora essas outras comunidades na América do Norte que têm as suas origens e se identificam com o mundo lusófono em toda parte, “as novas realidades sociais” na Diáspora comum, tal como o termo “hispânico” engloba todos os que provêm dos países de língua espanhola. Se os brasileiros e cabo-verdianos aceitam, por nossa parte, creio, só poderemos agradecer este engrandecimento do nosso longo enlace histórico, linguístico e cultural.

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Luso-American Literature: Writings by Portuguese-Speaking Authors in North America (selecção, organização e introdução de Robert Henry Moser e Antonio Luciano de Andrade Tosta),New Brunswick,New Jersey, andLondon, Rutgers University Press, 2011. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

A Homenagem a Eugénio Lisboa

E se (Eugénio Lisboa) privilegia a literatura, é porque acreditou sempre nela como meio especialmente capaz de penetrar na realidade poliédrica do mundo, feita não apenas de números e ideias, mas também das emoções que a arte permite fundir num todo.

Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida, Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo

/ Vamberto Freitas

 

O crítico e ensaísta Eugénio Lisboa foi homenageado pela Universidade de Aveiro a 22 de Outubro deste ano, onde deu durante anos aulas de literatura e receberia da mesma instituição um doutoramento Honoris Causa, tendo já recebido a mesma distinção académica pela Universidade de Nottingham (Inglaterra). Para perpetuar o gesto mais do que justo ante uma das figuras mais consequentes da crítica literária entre nós, especialista nas obras de José Régio e Jorge de Sena, entre outros escritores e poetas do cânone nacional, os professores Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida organizaram um grosso volume de textos, Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo, de mais de setenta personalidades literárias e académicas do nosso país, e um ou outro estrangeiro. Permitam-me relembrar aqui que o grande crítico, após diversas visitas ao nosso arquipélago, desde há anos que tomou conhecimento da literatura açoriana contemporânea, especialmente a poesia de Emanuel Félix, sobre a qual orientou uma tese de mestrado defendida em Aveiro, assim como a escrita Urbano Bettencourt e Onésimo T. Almeida.

Há momentos frequentes em toda a crítica ensaística de Eugénio Lis­boa que me fazem lembrar quão raro é ainda o crítico com uma vi­são para além da paróquia nacio­nal em que acontece estar inseri­do, e com vastíssimos mundos como referenciais pacíficos e íntimos. Creio não ser possível falar também da obra do au­tor de As Vinte e Cinco Notas do Texto (1987), Crónica dos Anos da Peste (1996) e de O Objecto Celebrado (1999), sem relembrar enfaticamente a to­dos que ele pertence por inteiro (isto é, cultural, psíquica e geogra­ficamente, mesmo que tenha re­gressado definitivamente à pátria em 1995), a um dos ilustres grupos de toda a história literária e cultural do nosso país no século passado. Mera coincidên­cia ou não, quase todos eles vive­ram espalhados a maior parte das suas vidas por países de língua in­glesa e no ex-império lusitano: Jor­ge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Alberto de Lacerda, Rui Knofli, Hélder Macedo e João Camilo, todos eles marcados por esse apartamento de alma e sensibilidade pessoana, como aliás nos recorda Eugénio Lisboa de pas­sagem em Potugaliae Monumenta Frivola (2000), livro que em grande parte provocou esta minha apreciação.

Um gentleman escritor – o crítico e o escritor são em Eugénio Lis­boa de todo indissociáveis – com a sua vasta cultura transgeográfica tem o sentido das proporções exactas das coisas e das pessoas para que se não deixe levar pelo frenesim ora alegre ora choroso de um país letrado que sempre enten­deu a sua importância numa medi­da raramente correspondente ao que todos os outros pensam, justa ou injustamente, de nós. Denunci­ando e desmontando serenamente a teia nevrálgica do nosso pretensiosismo literário à escala continental, o autor do presente volume acaba surpreendentemente sempre por valorizar e relembrar os seus leitores que a nossa real pre­sença no mundo a ninguém deve seja o que for, que uma cultura que vai de Camões, Fernão Mendes Pinto, Fernando Pessoa e, por exem­plo, só por exemplo, a Jorge de Sena não necessita de falsos profe­tas e ruidosos tribunos literários e muito menos deve humilhar-se em pedidos de reconhecimento a es­trangeiros, ou simplesmente aos que por mero acaso ou por fatali­dade histórica são mais poderosos do que nós. Poderá ser que os inte­lectuais portugueses estrangeirados (pela natureza da sua peculiar ex­periência de vida transnacional) tenham melhor do que outros esta noção dialéctica da nossa pequenez e grandeza, ou seja, tenham a no­ção de que uma Tradição como a nossa não tem, uma vez mais, que andar a mendi­gar nada a ninguém. Não é necessariamente o “objecto celebrado” que nos faz ler de fio a pavio cada ensaio ou um li­vro do autor no seu todo (Eugénio Lisboa não foge das figuras e dos “inci­dentes” para ele mais desagradá­veis, muito pelo contrário), mas sim a beleza, o poder e a credibilidade da voz que toma posições sem apo­logias, uma certa e consistente ati­tude perante tudo e todos sob ob­servação. Não é o “objecto” que faz o crítico, mas o crítico que segura­mente faz – ou desfaz – o “ob­jecto”. Nunca acontecem na sua crítica nem a fulanização difamatória nem o rebaixamento intelectual do adversário, tão carac­terístico, digamos, do “estilo” na­cional. Reli aqui os seus lapidares e polémicos ensaios-resposta co­lectivamente intitulados “Estudos Africanos” e, uma vez mais, são as literaturas de língua por­tuguesa que vão tomando corpo e inteira legitimidade, mas agora lim­pas do sentimentalismo e ofus­cações dos que delas tantas vezes fazem cátedra em vários países e línguas. De resto, em livros como Portugaliae Monumenta Frivola e os mais recentes dois volumes intitulados Indícios de Oiro (2009) fazemos uma incom­parável viagem crítica pelos vári­os mundos e figuras lusitanas da literatura e do pensamento, de José Régio (naturalmente) a Eça (o es­tatuto deste no estrangeiro) segui­do de alguns nomes já aqui menci­onados, passando também por ou­tros eventualmente menos conhe­cidos mas de importância inegável para uma melhor reconstrução do nosso pequeno mas, afinal de con­tas, complexo mosaico cultural nas diversas geografias reais e senti­mentais que passaram desde há muito a ser-nos próximas. É efectivamente este tipo de crítica (ou ensaísmo, como preferirem) que a longo prazo tende a tornar-se “canónica”, referência tanto autojustificada pelo acto de criação original que é (requerendo um bom e inteligente grau de anti­-institucionalismo académico), como pelo que empresta a qualquer enquadramento histórico de uma cultura.

Edmund Wilson, um dos grandes críticos do mundo anglo-saxónico moderno com quem Eugénio Lis­boa poderia manter as mais íntimas afinidades intelectuais, falava com frequência de “trans-fertilização” (crossfertilazation) que uma dada cultura ofe­rece a outra, o estudo que ele de­nominava de “comparative values”, como justificação máxima do seu acto crítico. Eugénio Lisboa também utiliza com certa frequência termos compará­veis – “fecundo” e, outra vez, “fecundação” – o que vai e fica de uma literatura ou cultura para outra, ou simplesmente as ideias e o prazer que delas cada um tira. Aí estão igualmente em confronto e con­vivência os “valores com­parados” (vede os seus ensaios so­bre a questão Rushdie), a transna­cionalidade da sua experiência pes­soal mas historicamente vivida por milhões de outros seres humanos durante a maior parte do século XX. Toda a obra de Eugénio Lisboa poderá ser facilmente enquadrada (no espírito internacional e comparativista que a subjaz) nas de outras línguas e culturas desde sempre da sua íntima convivência pessoal e intelectual, nomeadamen­te a francófona e anglófona. Penso, uma vez mais, em Edmund Wilson, esse destacado intérpre­te e de certo modo também criador do Modernismo nova-iorquino que depressa se espalharia a todo o seu país nos anos 20; penso ainda num V. S. Pritchett, esse expansivo con­tista e erudito ensaísta britânico, autor, entre muitas outras obras referenciais, de The Mythmakers, no qual justamente Eça de Queirós figura como escritor europeu de primeira categoria. Eugénio de Lis­boa, repita-se, convive e sempre conviveu com o maior à vontade e saber com essas geografias intelec­tuais, com especial relevo natural­mente para a Grã Bretanha e, mes­mo que à distância mas profunda­mente “por dentro” dos textos mais fundamentais daquela sociedade, com os Estados Unidos de Mark Twain e do século que se seguiria. É na continuidade do melhor da nossa Tradição e da iconoc1astia autenticamente inter­nacional que toda a obra de Eugénio Lisboa deve seren­tendida e permanentemente referenciada.

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Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo (Organização de Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida), Guimarães, Opera Omnia, 2011.

Sísifo com a “ilha” em si e aos ombros

  O próprio psicótico vive perdendo-se – encontramo-nos por   vezes num determinado sítio e outras no não encontrar um sítio de todo.

João Pedro Porto, O Rochedo Que Chorou

  /Vamberto Freitas

 Para quem entre nós esperava um livro de um novo escritor – ou de um escritor novo – que abrisse novos trilhos e separasse águas, por assim dizer, aqui estão eles, livro e escritor: O Rochedo Que Chorou de João Pedro Porto, natural de Ponta Delgada, neto do falecido membro dos modernistas açorianos dos anos 40, Fernando de Lima. Os bons primeiros livros apresentam-nos a uma obra que já vale por si, mas anunciam do mesmo modo uma promessa literária, que depois ou se confirma, se esvai no tempo ou permanecerá assombrada por esse primeiro momento de profunda criatividade e autenticidade. Pela força e elegância estética deste inquietante Rochedo ilhéu, pelo domínio de linguagens poéticas e prosaicas, pela largueza dos seus referenciais à cultura literária universal (algum do mais influente cinema internacional é também a outra arte para aqui convocada na tentativa de síntese do que vai ou não na alma de cada personagem desta ficção, narrada por um psicoterapeuta de nome Edmundo Zatara) assim como pela abrangência da sua temática dominante, arrisco dizer sem mais demora que estamos ante um dos livros mais marcantes destes últimos tempos aqui nas terras cercadas e cuja única obsessão irreprimível será a fuga para “o mundo” seguida de regressos sem fim, a instabilidade do território condenado tornando-se uma mera metáfora do perpétuo abalo interior de cada um dos seus seres – o desassossego da gente no “paraíso” escondido, a infelicidade fora dele, a saudade o sentimento genésico de todas as chegadas e partidas. O Rochedo Que Chorou é tudo isso, e ainda muito mais. Se a melhor da nossa literatura com referencial ilhéu é esse mergulho no interiorismo dos seus mais memoráveis personagens, o presente livro é uma inigualável “investigação” artística ao mais profundo e encoberto equilíbrio psíquico que a “vida em ilha” – rodeada de mar ou terra por todos os lados, pouco importa – nos poderá provocar ou infligir.

Não se pode voltar a “casa” alguma se ela não existe, nunca existiu. A presença-ausência mais contundente em O Rochedo Que Chorou é precisamente a noção de “lugar”, nosso ou dos outros. O psicoterapeuta Zatara vive num quarto de um bairro indefinido numa ainda mais obscura cidade que mal imaginamos pela falta de interesse do seu ocupante, que acorda e olha alheado pela janela uma paisagem na qual a “sociedade” também como que desaparece, restando o cinzentismo das nuvens e o mar de chumbo em baixo e em volta. Cada outro – os pouquíssimos outros seres que avistamos na sua existência apagada – reside aprisionado na sua própria concha e apenas ouve o eco ameaçador da insanidade que vai esmorecendo a mente e o corpo, todos os restantes em volta caminhando, imagina o leitor mais atento, em passos lentos para nenhures, sem a mínima vontade de pertença ou significado nas suas vidas. Um dos vizinhos do autor-narrador, uma outra presença raríssima neste primeiro círculo da solidão e do nada, vive à espera da aposentação e de nunca mais calçar sapatos apertados que fingem personalidade ou dever no emprego ou na urbezinha, uma vez mais, aqui praticamente invisível; o outro protagonista de todo significante – ou acidental residente – do Rochedo, é o rapaz autista de nome Omero que se expressa em palavras seguidas, numa torrente demencial, dir-se-ia, ao contrário: busca, na sala-consultório do seu terapeuta a saída do labirinto e a entrada no lugar onde os outros já abdicaram de criar sentido ou razão de vida superior para além do apagado e inconsequente arrastamento quotidiano. O restante cenário circundante é naturalmente a ilha basáltica e esfíngica (arquipélago esfíngico, como alguém um dia descreveu os Açores), tão indiferente aos dramas humanos que nela se desenrolam como o tubarão assassino que desempenha o seu dever de sobrevivência alheio aos gritos ou ao espernear das suas presas maiores. “Ilhas” dentro da “ilha” somos nós todos, e só sentindo o vácuo absoluto os que ainda têm consciência da sua existência. Quando John Donne, aqui citado por Zatara, entre muitos outros escritores do cânone literário ocidental, escreveu o famoso dito de que “nenhum homem é uma ilha”, estava o poeta inglês longe de viver a fragmentação radical da nossa época, em que a Humanidade se expande numa suposta globalização mas só deseja depois, pelo menos em boa parte das narrativas contemporâneas, regressar à aldeia ou ao bairro limitado da sua cidade, de qualquer cidade, regressar à sua própria medida de ser e estar. Poderão ser apenas metáforas do isolamento atávico, mas provêm do mais fundo do nosso subconsciente.

“Sentir – diz Edmundo Zatara de si e do seu mundo presente e admitindo a saudade de uma companheira ausente – não é recordar sentir. Apenas recordar, e essas – as memórias – viviam tanto do muito que tínhamos ardido, na ânsia de aproveitar a frágua, antes do apagar da vela, como do que estava por arder, por consumir no círio dos nossos corpos dependentes e serviçais do calor”.

Deste constante lamber e ao mesmo tempo agravar a ferida de mutilações psíquicas escondidas e por vezes incompreendidas é feita a magnífica e ambígua prosa de O Rochedo Que Chorou, entremeada ainda por poemas e até desenhos do narrador, terapeuta habituado a mandar delinear no papel o que os seus pacientes – o jovem Omero, neste caso – não sabem nem podem exteriorizar através de palavras vazias de sentido, ou então signos por decifrar da dor e incertezas interiores. Existem nas palavras deste narrador duas subversões que contêm em si toda a ironia da condição humana na sua atribulada narrativa: o vaivém de tempos, que nos confunde onde começa e acaba a estória, e a troca de lugares entre paciente e terapeuta, ou melhor dito, o paciente que simplesmente se abre e confia no seu interlocutor alertando-o para os males ou angústias que também o corroem impiedosamente a ele próprio, cada um deles enredado na sua solidão e saudade.

As linguagens de O Rochedo Que Chorou ignoram o jargão do psicologismo supostamente científico (João Pedro Porto é formado em Psicologia Clínica) e oscilam entre a dureza do objectivismo na descrição de pessoas e coisas e a poesia pura. Não falo sequer aqui dos poemas que interligam ou dão continuidade ao tempo ficcional, mas sim da prosa que vira simbolista linha a linha, encapsulando tudo e todos em volta como representação do que possivelmente vive, pensa e sente cada um dos seus dois personagens principais nesse determinado momento. A repetição de títulos de capítulos (“todas as quartas-feiras são cinzentas”, por exemplo) tanto poderá denotar uma verdade proverbial, como poderá significar uma viagem e uma existência a meio de nada, a descrença no que ficou para trás e no que virá a seguir. Será exactamente através dessas linguagens ora estanques ora indicando movimento rumo a algures do ser e estar dos que aqui são (re) inventados que a narrativa de João Pedro Porto representa uma clara reafirmação da vida e a crença de que ainda é possível imaginar significado para todos os que estão apanhados nas teias em que decorre desordenadamente a sua existência quotidiana. Como diriam os existencialistas, de Dostoievsky a Camus, aliás também citados nestas páginas, não há alternativa à vida e ao imperativo de criarmos os nossos próprios valores, redefinidos sempre que necessário e que nos mantêm à beira do precipício.

O Rochedo Que Chorou é um distinto romance, que mais parece uma obra de plena maturidade e sabedoria do seu autor. Não havia nada de igual entre nós, e evidentemente não me refiro só às ilhas. O autor parte, no entanto, de toda a nossa simbologia literária para as mais vastas e universalizadas questões humanas do nosso tempo. Faz do mundo inteiro meras “ilhas” humanas à deriva na busca mítica de um porto seguro, de uma Ítaca intemporal. Os gregos sabiam disso – dançando sobre o abismo, como ainda hoje fazem.

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João Pedro Porto, O Rochedo Que Chorou, Ponta Delgada, PUBLIÇOR, 2011.