A Homenagem a Eugénio Lisboa

E se (Eugénio Lisboa) privilegia a literatura, é porque acreditou sempre nela como meio especialmente capaz de penetrar na realidade poliédrica do mundo, feita não apenas de números e ideias, mas também das emoções que a arte permite fundir num todo.

Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida, Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo

/ Vamberto Freitas

 

O crítico e ensaísta Eugénio Lisboa foi homenageado pela Universidade de Aveiro a 22 de Outubro deste ano, onde deu durante anos aulas de literatura e receberia da mesma instituição um doutoramento Honoris Causa, tendo já recebido a mesma distinção académica pela Universidade de Nottingham (Inglaterra). Para perpetuar o gesto mais do que justo ante uma das figuras mais consequentes da crítica literária entre nós, especialista nas obras de José Régio e Jorge de Sena, entre outros escritores e poetas do cânone nacional, os professores Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida organizaram um grosso volume de textos, Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo, de mais de setenta personalidades literárias e académicas do nosso país, e um ou outro estrangeiro. Permitam-me relembrar aqui que o grande crítico, após diversas visitas ao nosso arquipélago, desde há anos que tomou conhecimento da literatura açoriana contemporânea, especialmente a poesia de Emanuel Félix, sobre a qual orientou uma tese de mestrado defendida em Aveiro, assim como a escrita Urbano Bettencourt e Onésimo T. Almeida.

Há momentos frequentes em toda a crítica ensaística de Eugénio Lis­boa que me fazem lembrar quão raro é ainda o crítico com uma vi­são para além da paróquia nacio­nal em que acontece estar inseri­do, e com vastíssimos mundos como referenciais pacíficos e íntimos. Creio não ser possível falar também da obra do au­tor de As Vinte e Cinco Notas do Texto (1987), Crónica dos Anos da Peste (1996) e de O Objecto Celebrado (1999), sem relembrar enfaticamente a to­dos que ele pertence por inteiro (isto é, cultural, psíquica e geogra­ficamente, mesmo que tenha re­gressado definitivamente à pátria em 1995), a um dos ilustres grupos de toda a história literária e cultural do nosso país no século passado. Mera coincidên­cia ou não, quase todos eles vive­ram espalhados a maior parte das suas vidas por países de língua in­glesa e no ex-império lusitano: Jor­ge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Alberto de Lacerda, Rui Knofli, Hélder Macedo e João Camilo, todos eles marcados por esse apartamento de alma e sensibilidade pessoana, como aliás nos recorda Eugénio Lisboa de pas­sagem em Potugaliae Monumenta Frivola (2000), livro que em grande parte provocou esta minha apreciação.

Um gentleman escritor – o crítico e o escritor são em Eugénio Lis­boa de todo indissociáveis – com a sua vasta cultura transgeográfica tem o sentido das proporções exactas das coisas e das pessoas para que se não deixe levar pelo frenesim ora alegre ora choroso de um país letrado que sempre enten­deu a sua importância numa medi­da raramente correspondente ao que todos os outros pensam, justa ou injustamente, de nós. Denunci­ando e desmontando serenamente a teia nevrálgica do nosso pretensiosismo literário à escala continental, o autor do presente volume acaba surpreendentemente sempre por valorizar e relembrar os seus leitores que a nossa real pre­sença no mundo a ninguém deve seja o que for, que uma cultura que vai de Camões, Fernão Mendes Pinto, Fernando Pessoa e, por exem­plo, só por exemplo, a Jorge de Sena não necessita de falsos profe­tas e ruidosos tribunos literários e muito menos deve humilhar-se em pedidos de reconhecimento a es­trangeiros, ou simplesmente aos que por mero acaso ou por fatali­dade histórica são mais poderosos do que nós. Poderá ser que os inte­lectuais portugueses estrangeirados (pela natureza da sua peculiar ex­periência de vida transnacional) tenham melhor do que outros esta noção dialéctica da nossa pequenez e grandeza, ou seja, tenham a no­ção de que uma Tradição como a nossa não tem, uma vez mais, que andar a mendi­gar nada a ninguém. Não é necessariamente o “objecto celebrado” que nos faz ler de fio a pavio cada ensaio ou um li­vro do autor no seu todo (Eugénio Lisboa não foge das figuras e dos “inci­dentes” para ele mais desagradá­veis, muito pelo contrário), mas sim a beleza, o poder e a credibilidade da voz que toma posições sem apo­logias, uma certa e consistente ati­tude perante tudo e todos sob ob­servação. Não é o “objecto” que faz o crítico, mas o crítico que segura­mente faz – ou desfaz – o “ob­jecto”. Nunca acontecem na sua crítica nem a fulanização difamatória nem o rebaixamento intelectual do adversário, tão carac­terístico, digamos, do “estilo” na­cional. Reli aqui os seus lapidares e polémicos ensaios-resposta co­lectivamente intitulados “Estudos Africanos” e, uma vez mais, são as literaturas de língua por­tuguesa que vão tomando corpo e inteira legitimidade, mas agora lim­pas do sentimentalismo e ofus­cações dos que delas tantas vezes fazem cátedra em vários países e línguas. De resto, em livros como Portugaliae Monumenta Frivola e os mais recentes dois volumes intitulados Indícios de Oiro (2009) fazemos uma incom­parável viagem crítica pelos vári­os mundos e figuras lusitanas da literatura e do pensamento, de José Régio (naturalmente) a Eça (o es­tatuto deste no estrangeiro) segui­do de alguns nomes já aqui menci­onados, passando também por ou­tros eventualmente menos conhe­cidos mas de importância inegável para uma melhor reconstrução do nosso pequeno mas, afinal de con­tas, complexo mosaico cultural nas diversas geografias reais e senti­mentais que passaram desde há muito a ser-nos próximas. É efectivamente este tipo de crítica (ou ensaísmo, como preferirem) que a longo prazo tende a tornar-se “canónica”, referência tanto autojustificada pelo acto de criação original que é (requerendo um bom e inteligente grau de anti­-institucionalismo académico), como pelo que empresta a qualquer enquadramento histórico de uma cultura.

Edmund Wilson, um dos grandes críticos do mundo anglo-saxónico moderno com quem Eugénio Lis­boa poderia manter as mais íntimas afinidades intelectuais, falava com frequência de “trans-fertilização” (crossfertilazation) que uma dada cultura ofe­rece a outra, o estudo que ele de­nominava de “comparative values”, como justificação máxima do seu acto crítico. Eugénio Lisboa também utiliza com certa frequência termos compará­veis – “fecundo” e, outra vez, “fecundação” – o que vai e fica de uma literatura ou cultura para outra, ou simplesmente as ideias e o prazer que delas cada um tira. Aí estão igualmente em confronto e con­vivência os “valores com­parados” (vede os seus ensaios so­bre a questão Rushdie), a transna­cionalidade da sua experiência pes­soal mas historicamente vivida por milhões de outros seres humanos durante a maior parte do século XX. Toda a obra de Eugénio Lisboa poderá ser facilmente enquadrada (no espírito internacional e comparativista que a subjaz) nas de outras línguas e culturas desde sempre da sua íntima convivência pessoal e intelectual, nomeadamen­te a francófona e anglófona. Penso, uma vez mais, em Edmund Wilson, esse destacado intérpre­te e de certo modo também criador do Modernismo nova-iorquino que depressa se espalharia a todo o seu país nos anos 20; penso ainda num V. S. Pritchett, esse expansivo con­tista e erudito ensaísta britânico, autor, entre muitas outras obras referenciais, de The Mythmakers, no qual justamente Eça de Queirós figura como escritor europeu de primeira categoria. Eugénio de Lis­boa, repita-se, convive e sempre conviveu com o maior à vontade e saber com essas geografias intelec­tuais, com especial relevo natural­mente para a Grã Bretanha e, mes­mo que à distância mas profunda­mente “por dentro” dos textos mais fundamentais daquela sociedade, com os Estados Unidos de Mark Twain e do século que se seguiria. É na continuidade do melhor da nossa Tradição e da iconoc1astia autenticamente inter­nacional que toda a obra de Eugénio Lisboa deve seren­tendida e permanentemente referenciada.

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Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo (Organização de Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida), Guimarães, Opera Omnia, 2011.

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