Sísifo com a “ilha” em si e aos ombros

  O próprio psicótico vive perdendo-se – encontramo-nos por   vezes num determinado sítio e outras no não encontrar um sítio de todo.

João Pedro Porto, O Rochedo Que Chorou

  /Vamberto Freitas

 Para quem entre nós esperava um livro de um novo escritor – ou de um escritor novo – que abrisse novos trilhos e separasse águas, por assim dizer, aqui estão eles, livro e escritor: O Rochedo Que Chorou de João Pedro Porto, natural de Ponta Delgada, neto do falecido membro dos modernistas açorianos dos anos 40, Fernando de Lima. Os bons primeiros livros apresentam-nos a uma obra que já vale por si, mas anunciam do mesmo modo uma promessa literária, que depois ou se confirma, se esvai no tempo ou permanecerá assombrada por esse primeiro momento de profunda criatividade e autenticidade. Pela força e elegância estética deste inquietante Rochedo ilhéu, pelo domínio de linguagens poéticas e prosaicas, pela largueza dos seus referenciais à cultura literária universal (algum do mais influente cinema internacional é também a outra arte para aqui convocada na tentativa de síntese do que vai ou não na alma de cada personagem desta ficção, narrada por um psicoterapeuta de nome Edmundo Zatara) assim como pela abrangência da sua temática dominante, arrisco dizer sem mais demora que estamos ante um dos livros mais marcantes destes últimos tempos aqui nas terras cercadas e cuja única obsessão irreprimível será a fuga para “o mundo” seguida de regressos sem fim, a instabilidade do território condenado tornando-se uma mera metáfora do perpétuo abalo interior de cada um dos seus seres – o desassossego da gente no “paraíso” escondido, a infelicidade fora dele, a saudade o sentimento genésico de todas as chegadas e partidas. O Rochedo Que Chorou é tudo isso, e ainda muito mais. Se a melhor da nossa literatura com referencial ilhéu é esse mergulho no interiorismo dos seus mais memoráveis personagens, o presente livro é uma inigualável “investigação” artística ao mais profundo e encoberto equilíbrio psíquico que a “vida em ilha” – rodeada de mar ou terra por todos os lados, pouco importa – nos poderá provocar ou infligir.

Não se pode voltar a “casa” alguma se ela não existe, nunca existiu. A presença-ausência mais contundente em O Rochedo Que Chorou é precisamente a noção de “lugar”, nosso ou dos outros. O psicoterapeuta Zatara vive num quarto de um bairro indefinido numa ainda mais obscura cidade que mal imaginamos pela falta de interesse do seu ocupante, que acorda e olha alheado pela janela uma paisagem na qual a “sociedade” também como que desaparece, restando o cinzentismo das nuvens e o mar de chumbo em baixo e em volta. Cada outro – os pouquíssimos outros seres que avistamos na sua existência apagada – reside aprisionado na sua própria concha e apenas ouve o eco ameaçador da insanidade que vai esmorecendo a mente e o corpo, todos os restantes em volta caminhando, imagina o leitor mais atento, em passos lentos para nenhures, sem a mínima vontade de pertença ou significado nas suas vidas. Um dos vizinhos do autor-narrador, uma outra presença raríssima neste primeiro círculo da solidão e do nada, vive à espera da aposentação e de nunca mais calçar sapatos apertados que fingem personalidade ou dever no emprego ou na urbezinha, uma vez mais, aqui praticamente invisível; o outro protagonista de todo significante – ou acidental residente – do Rochedo, é o rapaz autista de nome Omero que se expressa em palavras seguidas, numa torrente demencial, dir-se-ia, ao contrário: busca, na sala-consultório do seu terapeuta a saída do labirinto e a entrada no lugar onde os outros já abdicaram de criar sentido ou razão de vida superior para além do apagado e inconsequente arrastamento quotidiano. O restante cenário circundante é naturalmente a ilha basáltica e esfíngica (arquipélago esfíngico, como alguém um dia descreveu os Açores), tão indiferente aos dramas humanos que nela se desenrolam como o tubarão assassino que desempenha o seu dever de sobrevivência alheio aos gritos ou ao espernear das suas presas maiores. “Ilhas” dentro da “ilha” somos nós todos, e só sentindo o vácuo absoluto os que ainda têm consciência da sua existência. Quando John Donne, aqui citado por Zatara, entre muitos outros escritores do cânone literário ocidental, escreveu o famoso dito de que “nenhum homem é uma ilha”, estava o poeta inglês longe de viver a fragmentação radical da nossa época, em que a Humanidade se expande numa suposta globalização mas só deseja depois, pelo menos em boa parte das narrativas contemporâneas, regressar à aldeia ou ao bairro limitado da sua cidade, de qualquer cidade, regressar à sua própria medida de ser e estar. Poderão ser apenas metáforas do isolamento atávico, mas provêm do mais fundo do nosso subconsciente.

“Sentir – diz Edmundo Zatara de si e do seu mundo presente e admitindo a saudade de uma companheira ausente – não é recordar sentir. Apenas recordar, e essas – as memórias – viviam tanto do muito que tínhamos ardido, na ânsia de aproveitar a frágua, antes do apagar da vela, como do que estava por arder, por consumir no círio dos nossos corpos dependentes e serviçais do calor”.

Deste constante lamber e ao mesmo tempo agravar a ferida de mutilações psíquicas escondidas e por vezes incompreendidas é feita a magnífica e ambígua prosa de O Rochedo Que Chorou, entremeada ainda por poemas e até desenhos do narrador, terapeuta habituado a mandar delinear no papel o que os seus pacientes – o jovem Omero, neste caso – não sabem nem podem exteriorizar através de palavras vazias de sentido, ou então signos por decifrar da dor e incertezas interiores. Existem nas palavras deste narrador duas subversões que contêm em si toda a ironia da condição humana na sua atribulada narrativa: o vaivém de tempos, que nos confunde onde começa e acaba a estória, e a troca de lugares entre paciente e terapeuta, ou melhor dito, o paciente que simplesmente se abre e confia no seu interlocutor alertando-o para os males ou angústias que também o corroem impiedosamente a ele próprio, cada um deles enredado na sua solidão e saudade.

As linguagens de O Rochedo Que Chorou ignoram o jargão do psicologismo supostamente científico (João Pedro Porto é formado em Psicologia Clínica) e oscilam entre a dureza do objectivismo na descrição de pessoas e coisas e a poesia pura. Não falo sequer aqui dos poemas que interligam ou dão continuidade ao tempo ficcional, mas sim da prosa que vira simbolista linha a linha, encapsulando tudo e todos em volta como representação do que possivelmente vive, pensa e sente cada um dos seus dois personagens principais nesse determinado momento. A repetição de títulos de capítulos (“todas as quartas-feiras são cinzentas”, por exemplo) tanto poderá denotar uma verdade proverbial, como poderá significar uma viagem e uma existência a meio de nada, a descrença no que ficou para trás e no que virá a seguir. Será exactamente através dessas linguagens ora estanques ora indicando movimento rumo a algures do ser e estar dos que aqui são (re) inventados que a narrativa de João Pedro Porto representa uma clara reafirmação da vida e a crença de que ainda é possível imaginar significado para todos os que estão apanhados nas teias em que decorre desordenadamente a sua existência quotidiana. Como diriam os existencialistas, de Dostoievsky a Camus, aliás também citados nestas páginas, não há alternativa à vida e ao imperativo de criarmos os nossos próprios valores, redefinidos sempre que necessário e que nos mantêm à beira do precipício.

O Rochedo Que Chorou é um distinto romance, que mais parece uma obra de plena maturidade e sabedoria do seu autor. Não havia nada de igual entre nós, e evidentemente não me refiro só às ilhas. O autor parte, no entanto, de toda a nossa simbologia literária para as mais vastas e universalizadas questões humanas do nosso tempo. Faz do mundo inteiro meras “ilhas” humanas à deriva na busca mítica de um porto seguro, de uma Ítaca intemporal. Os gregos sabiam disso – dançando sobre o abismo, como ainda hoje fazem.

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João Pedro Porto, O Rochedo Que Chorou, Ponta Delgada, PUBLIÇOR, 2011.

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