Guerra Santa, ou Portugal no Choque de Civilizações

Empurrados por uma certeza férrea de que estavam destinados a espalhar a fé verdadeira, os Portugueses mudaram o rumo da história.
Nigel Cliff, Holy War

/Vamberto Freitas

 

 Holy War: How Vasco Da Gama’s Epic Voyages Turned The Tide In A Centuries-Old Clash Of Civilizations/Guerra Santa: Como As Viagens Épicas De Vasco Da Gama Mudaram O Rumo No Confronto Multissecular Entre Civilizações do historiador, biógrafo e crítico inglês Nigel Cliff, recentemente publicado no mundo anglo-americano, leva-nos muito além do que todos nós aprendemos nos bancos da escola, ou até em textos posteriores e academicamente mais sofisticados. Trata-se aqui de uma narrativa tão extensa como extensa e profunda foi a radical mudança globalizante que um pequeno e isolado Portugal operou com os Descobrimentos dos séculos XV e XVI.

Para um leitor português, Holy War provoca uma reacção dupla: o êxtase ou orgulho-pátrio pelo feito sem precedentes na história do Ocidente e cujas consequências ainda hoje vivemos (aliás, essa é a mais declarada tese do livro), e o espanto perante tanta coragem, inteligência, determinação e, sim, perante violência a uma escala muito mais contida do que a de séculos posteriores até aos nossos dias, mas nada menos cruel ou injusta. Poderá toda a historiografia anterior ter enfatizado a espada e a cruz, o comércio internacional dos portugueses como motivo principal para as viagens à Índia pregando o cristianismo como mera justificação, mas Nigel Cliff está convencido de que o sentido de Cruzada tinha sido ressuscitado principalmente por D. Manuel I, que ambicionava tornar-se num Rei Universal derrotando de uma vez por todas os muçulmanos em toda a parte. Os historiadores profissionais poderão voltar a debater entre si o peso de qualquer uma ou de todas estas questões, mas por agora Holy War constitui para os leitores não especializados a mais aliciante leitura de sempre sobre a dobragem do que até então permanecia miticamente o Cabo das Tormentas e a consequente chegada às terras estranhas – estranhas e desconhecidas para todos os europeus da época – do Oriente. De resto, alguns dos títulos de certos capítulos de Holy War, como “Shock and Awe/Choque e Terror” (expressão, esta, significativamente cunhada pelos próprios invasores norte-americanos na fase inicial do ataque ao Iraque) denotam de imediato a continuidade da história no “relacionamento” entre os países de maioria cristã e os estados declaradamente islâmicos, especialmente os árabes, assim como o epílogo traça essa linha de continuidade conflituosa entre as duas civilizações, reafirmando uma vez mais que foram estas “viagens épicas” de Vasco da Gama que reiniciaram o antigo conflito ou colocaram-no na sua rota presente, com as consequências que todos nós conhecemos e, quer queiramos ou não, vivemos, tal como os britânicos e madrilenos há poucos anos, e como corolário terrorista do sangrento 11 de Setembro nova-iorquino. Poderão ainda outros negar qualquer guerra entre “civilizações”, tal como havia anunciado o falecido economista e historiador norte-americano Samuel P. Huntington precisamente num muito controverso, debatido e por vezes asperamente contestado livro seu de 1996, The Clash Of Civilizations And The Remaking of World Order/O Choque De Civilizações E A Nova Ordem Mundial, mas o facto é que cada suposta “Primavera árabe” que presenciamos actualmente em todo o Médio Oriente parece acabar com os seus ditadores para instituir de seguida regimes ainda mais fundamentalistas do que os depostos. O ataque feroz à Embaixada de Israel em Cairo dias depois da “libertação” do Egipto assim como a perseguição constante e mortífera em curso aos cristãos do mesmo país não serão meros acidentes de percurso.

“O confronto entre o Oriente e o Ocidente – escreve o author no encerramento de Holy War – tem sido tão consistentemente criativo como destrutivo. O que nunca aconteceu foi o seu desaparecimento, e os dogmáticos e de linha dura de todas as cores depressa passam à retaguarda. Entre esses, estão os próprios desbravadores portugueses. No fim, as firmezas religiosas que guiaram Vasco da Gama e os seus conterrâneos descobridores em volta de meio mundo foi também o que os destruiu. Mesmo que tenham conseguido feitos espantosos, a ideia de uma Última Cruzada – uma guerra santa para acabar com todas as guerras santas – foi sempre um sonho irrealizável (crazy dream, no inglês do author)”.

Holy War é, pois, uma narrativa da nossa história fundamentada em cem páginas de notas mais uma extensa bibliografia internacional que seguem o longo texto, e em que naturalmente os historiadores portugueses estão amplamente, como seria de esperar, representados. Recenseado logo à saída em termos positivos pelo ensaísta Eric Ormby no The New York Times (“Why Vasco da Gama Went to Índia”), um dos reparos que o crítico faz à narrativa é que deveria ter incluído a presença d’Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, que não só escreveu o grande poema épico lusitano como participou, ele próprio, como todos sabemos, nalgumas das expedições ao e no Oriente. Ormby afirma ainda que nunca se tratou de um “choque de civilizações”, afirmando que se os portugueses, por um lado, admiraram a beleza das cortes islâmicas, por outro os islâmicos não estavam minimamente interessados na cultura europeia. Não é essa a leitura ou a ideia, repita-se, que retemos de Holy War. O mesmo crítico, aliás, contradiz-se quando logo na abertura da sua apreciação escreve que: “Ele (D. Manuel I) possuía uma mente visionária que raiava a loucura; via-se como o instigador de uma guerra santa para acabar de vez com o islamismo e pretendia reconquistar Jerusalém no poder dos ‘infiéis’ e tornar-se ele próprio o ‘Rei de Jerusalém’”. Seja como for, poucos romances históricos sobre essa época oferecerão o prazer puro de leitura como esta narrativa de Nigel Cliff, e é isso que esperam aqueles que preferem datas e nomes nas notas de rodapé, permitindo assim um texto limpo e riquíssimo em imagens por entre novas visões do que se teria passado nessas viagens encobertas na bruma do tempo e criativamente reinventadas na nossa própria imaginação. Nem só dos “factos” ou de “moralidades” hipócritas se alimenta a mítica identitária de um povo, ou se vai buscar força para enfrentar mundos que pouco bem nos querem, tanto ontem como hoje: o degradante espectáculo na Europa deverá servir também para a nossa educação sobre quem salva ou esmaga esta ou qualquer outra nação.

É claro que os passos mais fascinantes de Holy War são os que nos descrevem minuciosamente em linguagem escorreita e vivíssima as tormentas dessas longínquas e prolongadas viagens em mares revoltos e desconhecidos, a tragédia diariamente à vista entre homens inimaginavelmente destemidos, e os primeiros encontros com outros povos e misteriosos “impérios” a partir da costa africana até á chegada final aos reinos exóticos e esplendorosos dos zamorins indianos. Se na primeira viagem de 1497 somos apresentados a todos os pormenores de navegação nas pequenas mas ágeis caravelas e às superstições da maioria das suas tripulações e à crença entre eles de um mundo plano, contra a qual tinham de lutar os comandantes quatrocentistas na segunda e depois na terceira viagem um pouco mais tarde, seguimos o violento ajuste de contas contra todo o tipo de inimigos em mar e terra e a “diplomacia” literalmente a ferro e fogo favorável ao imediato controlo e bem sucedido poder comercial dos portugueses. É uma história que tem de ser lida à base do mundo ideológico e religioso que nunca conhecemos, mas que também tem sido a marca forte dos séculos posteriores, e de longe ultrapassada em crueldade e arrogância ainda durante as nossas vidas.

Se houver uma única tradução no nosso país durante os próximos tempos, que seja a de Holy War – eis aqui o prazer do texto e a grandiosidade da estória e História.

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Nigel Cliff, Holy War: How Vasco Da Gama’s Epic Voyages Turned The Tide In A Centuries-Old Clash Of Civilizations, New York, NY, Harper, 2011. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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