Na Esquina E Nas Margens Dos Nossos Mundos

Nove ilhas no meio do Atlântico Norte foram seu berço. No olhar do imaginário representam mais que pontos insulares na carta geográfica.

Lélia Pereira da Silva Nunes, Na Esquina Das Ilhas

/Vamberto Freitas

O imaginário de que fala aqui Lélia Pereira da Silva Nunes é o que foi construído ao longo de mais 260 anos pelos descendentes dos açorianos que desbravaram parte do sul do Brasil, nomeadamente determinadas áreas de Santa de Catarina (o Desterro do início que viria a tornar-se na bela Florianópolis) e do Rio Grande do Sul (o Rio Grande inicial que se tornaria na grandiosa Porto Alegre, hoje ostentando o maior monumento ao nosso povo ilhéu em qualquer parte do mundo, Açores inclusive), ambos reconhecidamente dois dos estados mais desenvolvidos e estáveis do país-continente pelos portugueses inventado. Aqui no arquipélago somos a terra ancestral, agora só imaginária para a vasta maioria dos nossos descendentes no extremo hemisfério sul, e só visitando-os pessoalmente nos apercebemos do que um dia, noutro contexto e por outras razões, disse ser “a força das raízes”. Da cidade-ilha descendo até ao Pântano do Sul catarinense poder-se-á constatar a diversidade nacional e étnica do Brasil, mas um açor-brasileiro agora só alimentado pela memória será, mesmo séculos depois, de imediato reconhecido por qualquer um de nós, nem que seja só pelo afecto que nos cobre nesse breve reencontro com esses herdeiros dos bravos pioneiros que de cá partiram, tão bem retratados no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um Quarto de Légua Em Quadro, e depois no filme dele retirado, Diário De Um Novo Mundo. No entanto, esta foi uma parte fulcral da nossa história consistentemente ignorada, quando não vilipendiada, até a meados do século passado quando começa o resgate intelectual e literário nos dois lados do Atlântico – graças, ao que nos toca aqui no arquipélago e aos nossos colegas no outro lado do Atlântico, à investigação e divulgação de alguns professores e de outros investigadores da Universidade dos Açores assim como de várias instituições e institutos brasileiros. Seria bom lembrar a todos que não temos a nossa “missão histórica cumprida”, antes um longo percurso pela frente nesta e em todas as respectivas áreas de reconhecido mérito e legitimação institucional.

Veio esta breve contextualização a propósito do recente Na Esquina Das Ilhas, de Lélia Pereira da Silva Nunes, socióloga e escritora que nos últimos anos tem dedicado boa parte da sua vida não só à divulgação da cultura açoriana reinventada no Brasil ao longo dos séculos como, por outro lado, colabora com todos, de vários modos, para manter a nossa presença entre os que lá já pouco ou nada conhecem do nosso presente e do turbulento percurso interno que nos levou à sociedade que hoje somos. O presente volume de crónicas e ensaios constitui um relato continuado da sua própria presença e estatuto de investigadora e interveniente nos mais variados e dispersos encontros de temática açoriana um pouco por toda a parte, desde as ilhas (incluindo a Madeira) e Continente português ao Brasil, Estados Unidos e Canadá. Não têm sido poucos os vaivéns extremamente proveitosos de Lélia Nunes entre todas as margens das nossas geografias sentimentais e culturais. O seu livro está apropriadamente dividido em duas secções: “A Ilha de Cá” e “Ilhas de Lá”, fundindo-se num todo em que a osmose transatlântica se torna o fio condutor de toda a sua prosa. Uma descrição da “Divina Festa do Divino” em Florianópolis ou noutras comunidades de Santa Catarina assim como o discorrer sobre a “poética do boi” (expressão que os meus conterrâneos terceirenses reconhecem de imediato) contêm linha a linha a união entre as origens e a sua inevitável evolução vincadamente brasileira. Da quase indissociável cultura popular ou religiosa nas duas margens do Atlântico (quando de açorianos, com ou sem hífen, falamos) a autora poderá passar pelos mais significativos – e significantes – escritores catarinenses que ao longo dos tempos e através das mais variáveis formas e géneros de escrita gravaram a memória ou comentaram e comentam a herança de termos sido e vivido em ilhas e em terras sem fim. A colecção literária açor-brasileira (guardada pelos nossos descendentes e outros estudiosos) em instituições académicas, associações e fundações é um imenso tesouro que a maioria de nós sabe existir mas desconhece, não só pela lonjura das terras comuns como pelo atraso histórico em reatarmos com força as ligações de sangue e a actual convivência directa, mesmo que quase só pelas comunicações em tempo real e pela consciencialização de que a Diáspora vai e deverá ir sempre muito para além da retórica oficial ou de uma nota de rodapé. Juntamente com a nossa presença memorial no Rio Grande do Sul, o Desterro em Santa Catarina onde desembarcavam os ilhéus a partir de Setecentos tornar-se-ia, mesmo que a historiografia oficial sempre o tenha ignorado, num dos maiores sucessos da colonização em qualquer parte do império luso: foi a periferia ajudando a criar centros civilizacionais que nem na terra de origem existiam – como ainda hoje não existem.

“A celebração – escreve Lélia Pereira da Silva Nunes, numa síntese perfeita da sua narrativa e do relacionamento destas outras comunidades ancestrais naquela parte do mundo com os Açores e a sua mais perdurável tradição – do Espírito Santo em Santa Catarina, no sul do Brasil, bem ilustra a variedade das apropriações dos sentidos de pertença a uma mesma herança cultural e sua contribuição fundamental na configuração da identidade. É a maior expressão da transnacionalidade cultural a partir da grande saga dos ilhéus açorianos do século XVIII. Vitorino Nemésio em Corsário das Ilhas (1983) registrou que o açoriano ‘civilizou largamente as suas ilhas e ainda teve vagares para ajudar a fazer a terra alheia, sobretudo o Brasil e a América’, referindo-se a essa odisseia do século XVIII e a grande corrente da emigração dos séculos posteriores”.

De resto, Na Esquina Das Ilhas viaja por outras comunidades açorianas do continente imenso a oeste de nós, como já referi, e aqui com especial destaque para as da Califórnia, destacando os que por lá nos escrevem e nos reinventam no entrelaçar de múltiplas culturas que rodeiam os imigrantes e luso-americanos por todos os lados. São afinidades pessoais e intelectuais agora sem quaisquer fronteiras, tendo a Tradição açoriana e os seus continuadores em toda a parte como tema abrangente, o nosso passado e lugar na história das mais diferentes e universalizadas sociedades cada vez mais firmes numa modernidade que não amedronta; pelo contrário, permite e insiste nestas andanças saudavelmente identitárias e sem outros interesses que não seja a recuperação da verdade contra o amesquinhamento de um povo como o nosso, o português à distância no seu próprio país natal, os portaghees dos EUA e os manézinhos nas ruas catarinenses. A autora sabe muito bem como, em países multirraciais e étnicos, o poder económico das suas comunidades dita a seu favor e desavergonhadamente certas narrativas, e como a história se apaga e se reinventa para favorecer quem pouco direito tem ao lugar cimeiro que ocupa num determinado momento. No Brasil, tudo (me) parece estranho menos as grandes e pequenas cidades ou vilas que marcam a presença lusa de norte a sul e de oeste a leste, nas suas variadas versões, desde a arquitectura à calçada dos passeios e às torres das igrejas e igrejinhas, algumas delas escondidas na imensidão do território. Se um dia apertarem a mão e olharem os olhos de um velho pescador do Pântano do Sul quando este encontra alguém de cá, e abraçarem o Arante no seu fabuloso bar-restaurante, do mesmo nome, saberão do que falo e sinto. É “a carta geográfica” – só que agora com memória e coração. A língua e a cultura reinantes falam pelo resto.

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Lélia Pereira da Silva Nunes, Na Esquina Das Ilhas (com apresentação de Sérgio da Costa Ramos e prefácio de Daniel de Sá), Florianópolis, Editora Insular, 2011.

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