Urbino de San-Payo E Um Outro Lado da Diáspora

Oh esta grande AMÉRICA em corpo tão pequeno. Pesa que pesa que a tua fartura é de fome ó transmontano duma figa. Abalaste e agora te lixas.
Urbino de San-Payo, Plural Transitivo

/Vamberto Freitas

Não prestem atenção aos pontos e minúsculas seguintes, foi mesmo assim que Urbino de San-Payo escreveu este outro curto e magnífico texto inserido num dos seus poucos livros de crónicas ficcionadas “americanas”, Plural Transitivo do já muito longínquo 1982. Durante todo o seu percurso o conteúdo inevitavelmente ditou a forma, fez da vida vivida e escrita alguns dos mais silenciosos poemas (“gritinhos”, como um dia chamou um dos seus raros desabafos públicos nas páginas do Tribuna Portuguesa) da nossa sorte colectiva. Poeta, dramaturgo, cronista – a obra de Urbino de San-Payo foi sempre feita dos abalos solitariamente sentidos na terra-pátria, e depois como andarilho parado, por assim dizer, na abastança sul-californiana, onde viveu e trabalhou a segunda metade da sua vida. Faleceu há poucos dias em Los Angeles com quase 78 anos de idade, mas deixa entre nós um rasto indelével, um riquíssimo arquivo artístico de como foi viver a portugalidade com esperança de pouca dura em “tempos escuros”, principalmente a partir 25 de Abril de 1974, que ele viveu intensamente no seu exílio do Eldorado, até aos nossos dias de desespero e indignidade generalizada no seu país de adopção e no de origem. A sua vida na Diáspora foi única entre nós, em todos os aspectos habitualmente considerados. Continental de gema, aproximar-se-ia das comunidades açorianas nos anos 70 pela mão do professor universitário e escritor Eduardo Mayone Dias, este o mais açoriano de todos os lisboetas; fez a sua vida “trabalhando” juntamente com a sua mulher e companheira de sempre, Maria Amélia, nalgumas das casas mais ricas e glamorosas de Beverly Hills; escreveu a sua dor interior e a sua infinita saudade de um império da bondade nunca esquecendo a caminhada comum de todo o seu povo dentro e fora do país ancestral, a lonjura e indiferença ante qualquer noção de “estatura” nas falsas e pretensiosas hierarquias lusitanas garantindo também o quase-obscurantismo em que o homem e a obra permaneceram para além dos poucos leitores (em Portugal contavam-se alguns escritores de prestígio, entre eles Urbano Tavares Rodrigues) que a conheciam e só poderiam admirar. A sua poesia está parcialmente reunida em Escopro, Barbaramente tu e Boca Consoante, e o que ele denominava de “pomorromance” (poesia e prosa) em Exorcismos menores e Exorcismos maiores; escreveu ainda a peça teatral O Cavalo de Tróia.

Qualquer palavra minha numa apresentação mais pormenorizada aos leitores que o desconhecem seria uma blasfémia comparando-a a uma nota autobiográfica que encontrei num blogue seu, significativamente chamado “Putalândia”, só depois de receber a notícia do seu falecimento, e que aparentemente ele nunca chegou a desenvolver para além das palavras que se seguem. Uma vez mais, dor e humor conjugam-se num perfeito equilíbrio do “eu” e do “nós” nesta como em toda a sua prosa ou poesia:

“Nasci – escreve caracteristicamente com as minúsculas, como quem se quer esconder do mundo em volta – no Lugar da Rede, Mesão Frio, Alto Douro, Portugal. Cresci entre a Guerra Civil e a outra, a Grande, onde Hitler jogou o seu xadrez de morte. Entre o surripianço das peras dos quintais dos vizinhos, as andanças no Rio Douro e a fome geral, fiz-me um homenzinho. Aí chegado, 14 anos bem ou mal medidos, meteram-me, sem eu ser visto nem achado, num comboio-carroção com destino ao Seminário de Santarém onde se iria jogar o meu destino no Sacerdócio. Durou seis anos o meu caminho nos seminários. Fui tropa de caneta por 18 meses. Cocei o cu das calças no funcionalismo público e nas tertúlias. Em 1968 pirei-me para Londres. Dois anos depois emigrei para os Estados Unidos, onde vivo presentemente”.

Conheci o Urbino e tornamo-nos amigos nos tempos em que Abril nos era ainda a Primavera de Tudo, e a nossa convivência tanto acontecia numa Festa do Espírito do Santo ali em Artesia ou Chino, como na casa em Beverly Hills, onde a esposa trabalhava e ele fazia que ajudava enquanto bebíamos uma cerveja na mesa da cozinha ou no quintal cheio de esculturas da dona do – imaginem! – Universal Studios. Foi lá que vi pela primeira vez, creio, um original de Jackson Pollock e um guarda-roupa em que cada peça tinha apendoado o rótulo do fabricante e a apólice de seguro! A Senhora da Casa, nunca a vi. Mas assisti ao chamamento do Urbino para que fosse à sala ou quarto onde ela pousava: era para lhe explicar um passo qualquer de um livro que ela lia. Aliás, a Senhora dizia com orgulho a todos os amigos que o seu empregado era um poeta e intelectual. As grandes ironias da vida, pois. Também os gregos eram levados para Roma para fazerem exactamente o mesmo. Alguns escritores lisboetas diziam-lhe que trocavam sem qualquer problema ou hesitação o lugar com ele. Que melhor condição ou modo de vida para um escritor? Um dia contarei de quando ele me levou a mim e ao Onésimo T. Almeida a casa de Elton John em Beverly Hills, que, se não me engano aqui, havia pertencido a Greta Garbo, para uma festa só de portugueses: o dono estava em Londres e a sua governanta era também a portuguesíssima cunhada do Urbino. Refiro tudo isto não só pela saudade do meu falecido amigo e de outro e bem mais alegre tempo; Urbino pertencia a esse privilegiado grupo de portugueses, quase todos continentais, que trabalhavam nas milionárias casas do famoso bairro verdadeiramente angelino, estória que um dia deveria ser contada em livro. Acima de tudo, quero apontar que a sua obra e filosofia de vida permaneceram inabaláveis: um belo e incomparável registo em língua portuguesa, que ele manipulava (como diria Eduardo Mayone Dias num longo ensaio sobre a sua obra) com finura e agilidade, do nosso perpétuo exílio interior ou, mais tarde, na terra americana.

Um segundo livro de “crónicas”, A América Segundo S. Lucas, contém uma série de “cartas” entre a realidade e a ficção num diálogo com uma “Filomena”, publicadas originalmente no já mencionado semanário Tribuna Portuguesa, então dirigido pelo também recentemente falecido João Brum. Publicaria ainda, no que à nossa emigração no Pacífico diz respeito, Os Portugueses Na Califórnia, história e ensaio de cariz sociológico em volta das vivências e ritualismo profano-religioso das comunidades maioritariamente açorianas ali residentes.

Concedeu-me uma entrevista para o Diário de Notícias em 1980, que foi publicada com o título de “O Emigrante É Um Pastor Com Manta de Trapos”, texto que depois abriria Plural Transitivo, e que cito com certa frequência sempre que o tema é literatura imigrante ou luso-americana. “É o mundo – disse – que está na ponte, cheio de indecisão até aos cabelos. Oscila entre as duas margens, incapaz de abdicar da bandeirinha portuguesa que traz no bolso, como se diz no teatro do Onésimo, e da pele americana que veste por necessidade, adaptação e, até, por reconhecimento”. Nessas páginas, Urbino não só se auto-define em relação ao país natal, como se posiciona totalmente como escritor da “imigração” ou do “exílio”, tanto faz, nomeando colegas, falando das suas obras, equacionado o nosso lugar histórico nos EUA assim como o que ele esperava e o desiludiu no 25 de Abril, especialmente após uma das suas visitas menos felizes à terra que desde há muito deixara, mas nunca esqueceu mesmo num quotidiano norte-americano que nada tinha a ver com o que era ou se passava no outro lado do grande continente e do grande oceano. Portugal e o nosso povo eram o sopro vitalício da sua consciência, da sua alegria e da sua infelicidade. Em Los Angeles, especialmente na cidade estrelada de Beverly Hills, Urbino era o perfeito estranho em terra estranha. Nunca a língua portuguesa fora tão pátria como lhe era a ele próprio. Deixou um filho, Marco, que cresceu brincando entre a suposta abastança dos outros e a riqueza verdadeira e duradoura de seu pai.

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Urbino de San-Payo, Plural Transitivo, Livraria Ler Editora, Lisboa, 1982. A foto do autor foi tirada da net, que creio ser uma das mais recentes. O seu nome literário foi um semi-pseudónimo de Urbino Manuel Sampaio Ferreira.

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