A Homenagem a Fernando Aires

Resta-nos abrir o diário e lê-lo. O exímio poeta-pintor, que ele era, retratou a intimidade destes lugares com mestria.

Do prefácio a Era Uma Vez O Seu Tempo

/Vamberto Freitas

 

Nenhum grande escritor está desassociado das suas geografias de memórias e afectos. Depois, existem lugares, grandes cidades ou meros sítios, que marcam indelevelmente a literatura do seu tempo ou de toda uma geração, ou ficam para sempre no nosso imaginário porque certos escritores marcantes os recriaram obsessivamente. No século passado, eis aí alguns exemplos, o sul dos Estados Unidos, o Nordeste do Brasil, a Irlanda de Joyce, o Alentejo do Continente português — e as ilhas açorianas, muito antes e muito depois de Nemésio. Entre a nossa geração, entre os recém-falecidos e os que estão vivos, Fernando Aires ocupa um dos espaços literários mais profundos e originais da Literatura Açoriana contemporânea, por todas as razões que certas linguagens se tornam em arte, mas também pelo reinventar, reimaginar ou redizer o lugar de partida para o mundo, e de acolhimento após as essenciais viagens de descobertas possíveis e sonhadas. Não será por acaso que um dos nossos mais universalizados pensadores – Fernando Aires era formado em filosofia e história – não conseguia deixar o aconchego do torrão natal, da sua “pátria” muito pessoal e íntima confinada a poucos quilómetros da ilha de S. Miguel. Quando cá cheguei há 20 anos, creio que ele ainda não tinha a certeza de como se tomava a estrada para o Nordeste. Das outras ilhas, recordava o que havia lido ou visto ao longe: falava-me da minha Ilha Terceira como quem tenta entender um outro qualquer “país” lusófono. Só que produziu uma obra, repita-se, de tal grandeza que o leitor a interiorizava de imediato passando a ver os seus próprios mundos pela lente poética da sua ficção, e muito especialmente por qualquer entrada dos cinco volumes do diário Era Uma Vez O Tempo. Foi assim que demarcou e reinventou o seu “pequeno” espaço, entregando-nos novas geografias alargadas e que agora fazemos nossas.

Fernando Aires faleceu em Ponta Delgadahá pouco mais de ano, e recebeu de imediato o reconhecimento público que dias antes era ainda apenas sussurrado entre os seus leitores nas ilhas e no resto do país, assim como por outros no estrangeiro onde a lusofonia criativa é atentamente acompanhada, desde o Brasil e Estados Unidos à Europa. Esse eco prolonga-se e espalha-se agora com a homenagem que lhe foi prestada a 19 de Dezembro com o descerramento de uma lápide em sua casa na Avenida Príncipe de Mónaco e o lançamento do volumoso Era Uma Vez O Seu Tempo: Homenagem de Amigos e Admiradores, no Centro Cultural da Caloura, do pintor e seu amigo de sempre Tomaz Vieira; avenida e sítio, pois, sempre presentes nas suas páginas, espaços da sua maior intimidade familiar e carinho pátrio. Organizado por Leonor Simas-Almeida, Maria João Ruivo Sousa (filha do escritor) e Onésimo T. Almeida, o livro congrega textos de um grande número de amigos e leitores de diversas proveniências e estações de vida, desde académicos, escritores e poetas a críticos e ensaístas que chegaram à obra de Fernando Aires a partir do início ou que o iam descobrindo com o passar do tempo e pelas vozes que nunca deixariam de o recomendar. Com textos de circunstância e com estudos e ensaios, Era Uma Vez O Seu Tempo passa agora a ser referência obrigatória para quem ainda valoriza a literatura como antídoto às tempestades reais e oportunistas que nos assolam no momento. Todo o resto passa e é esquecido, menos a Arte, único repositório da memória dos tempos e dos povos, único “julgamento” de valores e modos de vida em qualquer recanto do globo, única aproximação duradoura entre as mais variadas línguas e culturas. Quanto mais dúvidas nos suscitam os afazeres ou ficções políticas do dia, maior a certeza e conforto encontramos nas páginas de um livro, num quadro pendurado, numa peça musical ou teatral, num gesto de mão estendida ou palavra partilhada. Que alguns dos nossos escritores, vivos e falecidos, têm sido solenemente lembrados neste últimos anos só poderá significar que estamos para além da reinante mentira pública – ainda reconhecemos e separamos o trigo do joio, o que nos abre a alma ou nos encerra na miséria de espírito.

“Era a discrição – escreve o ensaísta e crítico Eugénio Lisboa num breve artigo que publicou no JL logo a após o falecimento do autor – personificada, uma vocação única para o autoapagamento, uma voz sensível e profunda, que dava às páginas do seu diário uma tonalidade inconfundível, que só encontramos nos grandes diaristas de certa estirpe, por exemplo, um Julien Green. Os cinco volumes publicados do seu diário ficarão, creio eu, como um dos melhores momentos da diarística nacional, ao lado dos de Raul Brandão, Miguel Torga, Vergílio Ferreira e Manuel Laranjeira, pela subtileza e perturbada serenidade que o caracteriza, uma boa oitava acima destes. (…) Ter conhecido pessoalmente Fernando Aires – com a modéstia, a sua atenção cuidada e doce, a sua camaradagem certa mas não invasora, a sua natural distinção travada de alguma melancolia – foi um dos privilégios da minha vida. Há, nos Açores, — lembrava o autor de Portugaliae Monumenta Frivola aos nossos conterrâneos continentais — muita riqueza assim”.

Por certo que Fernando Aires coraria se tivesse lido estas como muitas outras palavras em Era Uma Vez O Seu tempo. Habituado à secular indiferença indígena, acho que ele escrevia para si e para os seus, quedando-se perplexo pelo entusiasmo e interesse profundo dalguns outros leitores que iam descobrindo as finas páginas dos seus livros. Fernando Aires nunca falava da sua obra, a não ser numa ou noutra entrevista pública, e ainda assim depressa passava das razões da sua escrita aos que na literatura, quer fossem açorianos ou de qualquer outra parte do mundo, o haviam “formado” ou comoviam como só a Grande Arte comove. Citava-me frequentemente, em conversas ocasionais, Camus e Dostoievsky como referências suas incontornáveis (Eça de Queirós, como todos sabem, era a sua suprema paixão literária), o que explicava em parte o seu existencialismo ante o tempo atribulado que lhe foi dado viver e testemunhar – desde uma guerra mundial, mesmo que ao longe, à tardia libertação do seu próprio país muitos anos mais tarde. Verdadeiro aristocrata de espírito, a sua visão da sociedade clamava antes de tudo pela solidariedade sem ostentação hipócrita – como é hábito irreprimível dos políticos medíocres, esses que ele detestava ora com rancor ora com cómico desprezo. É a partir desse posicionamento filosófico que ele também olhava para a Natureza circundante: o seu mundo era irremediavelmente este, a beleza objectiva teria de ser poetizada por cada um de nós, o simbolismo literário de que era outro competente herdeiro açoriano havia de se tornar o espelho primeiro do seu e do estado de alma de quem o lesse. Não admira, pois, que desde um poeta carioca como Sérgio Nazar ou de um romancista gaúcho como Luiz António de Assis Brasil a uma ensaísta como Teresa Martins Marques reconhecessem a sua própria humanidade nas letras e nos gestos criativos do autor da ficção, sempre memorialista dos tempos açorianos, de A Cidade Cercada, com o Diário sempre no centro.

Era Uma Vez O Seu Tempo inclui um álbum fotográfico de amigos e sobretudo dos que ele chamava o seu clã, hoje sob a inspiração da sua esposa e companheira de vida, Idalinda Ruivo, e encerra com um belo texto da sua filha Maria João Ruivo Sousa. Ninguém duvida que a obra de Fernando Aires permaneceria para sempre entre nós com ou sem o presente volume de homenagem. Trata-se, no entanto, de um gesto justo e comemorativo da presença viva para além do túmulo de um grande escritor açoriano. Resta relembrar aqui que o seu contributo intelectual incluiu desde sempre a sua docência a vários níveis, e muito especialmente a dinamização literária modernista de que foi autor juntamente com outros colegas locais a partir dos anos 40 até aos nossos dias.

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Era Uma Vez O Seu Tempo: Homenagem de Amigos e Admiradores (coordenação de Leonor Simas-Almeida, Maria João Ruivo Sousa e Onésimo Teotónio Almeida), Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2011.

A Narrativa Brasileira de John Dos Passos


Os homens na multidão têm uma postura ameaçadora. Uma tensão perigosa parece estar num crescendo. De repente, uma banda de samba começa a tocar.

John Dos Passos, Brazil On The Move

/Vamberto Freitas

 

A descrição citada aqui faz parte das últimas páginas de Brazil On The Move, de John Dos Passos, publicado nos Estados Unidos em 1963. Trata-se de um comício político numa pequena cidade do interior do Nordeste um ano antes, politicamente quentíssimo, entre a esquerdização de João Goulart a nível federal e o combate com as forças democráticas à direita, perante a espreita cada vez mais desconfiada do Departamento de Estado norte-americano e da extrema-direita do país amazónico que contava com sectores de toda a sociedade, inclusive, naturalmente, as forças armadas. John Dos Passos, que vivia nessa exacta altura os dias de luta cívica violenta nos Estados Unidos, e havia muito antes presenciado o início da indizível catástrofe numa Europa em cegos espasmos nos anos 30, estava agora frente a frente com a sua outra ancestralidade nas Américas. Os olhares destes deserdados da terra poderiam ser “ameaçadores”, mas o coração colectivo era outro. A noite de apreensão vivida pelo autor do hoje canónico Manhattan Transfer e da trilogia U.S.A, entre muita outra ficção e ensaios históricos, acabaria caracteristicamente num baile pela noite dentro, na convivência alegre de quem pouco mais tinha na vida. São essas páginas do encerramento desta outra narrativa brasileira do mais famoso luso-americano que contêm o ambiente de luta e ambiguidade que o Brasil confrontava nessa época decisiva para o seu futuro, por vontade própria e pela maquinação, repita-se, de inúmeros outros interesses à distância que opunham a luta anti-comunista do Ocidente aos que, como Fidel de Castro, ameaçavam subverter a ordem ibérica herdada e a vasta gama de interesses económicos tradicionais daquele país. A guerra fria em curso, como se sabe, ia muito além do Muro de Berlim.

Antes de mais, justifiquemos esta revisitação a Brazil On The Move alguns quarenta e oito anos depois da sua publicação inicial. É claro que a história moderna do país-irmão nunca deixará de nos interessar tanto por razões intelectuais como sentimentais, e ainda pelo sentido de “pertença” ao maior país de língua portuguesa, tendo sido desde Quinhentos a glória mais duradoura da aventura marítima portuguesa. Para além de tudo isso, trata-se de rever como um dos maiores escritores de língua inglesa do século passado viveu a sua condição de cidadão hifenado, e sobretudo de como se veio aproximando vagarosa mas seguramente da sua ancestralidade portuguesa. Ao contrário do que pensarão outros estudiosos destas questões, Dos Passos poderá ter demorado a encontrar-se com as nossas comunidades imigrantes nos EUA, mas o facto é que cedo se virou à (re)descoberta pessoal e colectiva do seu lado paterno (madeirense). Se nos anos 30 foi inevitavelmente a Espanha que mais motivou a sua atenção internacional, algo deve significar que na América Latina, poucos anos depois, seria o Brasil e a sua imensidão territorial e cultural que cativou toda a sua atenção e os esforços de divulgação entre os seus leitores tradicionais. Alguns anos depois da publicação de Brazil On The Move, e pouco antes de falecer em 1970, Dos Passos publicaria o volumoso The Portugal Story (sobre o qual escrevi num outro texto), uma reinterpretação da história dos Descobrimentos, e receberia da Portuguese Continental Union uma condecoração que, por sua vez e com profundo significado, recordava outro herói luso-americano da Guerra da Independência Americana, The Peter Francisco Award. Só quem viveu em grandes sociedades multi-étnicas poderá avaliar a importância de uma figura como John Dos Passos na imagem que outros criam ou mantêm acerca de um grupo nacional como o nosso.

Brazil On The Move narra três viagens de John Dos Passos ao país sul-americano: em 1948, 1956, e de seguida em 1962. O autor, esquerdista desde o início da sua carreira, tinha já iniciado a sua viragem à direita quanto à política interna e externa dos Estados Unidos, tendo acabado bem próximo da aula mais extremista do Partido Republicano quando, em 1964, apoiou abertamente uma das mais controversas e belicosas candidaturas à presidência em Washington, Barry Goldwater. Estes factos do seu percurso político (pertenceu à geração que inventou o Modernismo literário norte-americano nos fogosos anos 20 em Nova Iorque, e depois viveu a Grande Depressão da década seguinte), são de extrema importância para entendermos como ele via e narraria os seus encontros com o Brasil, em épocas de grande ebulição e mudanças radicais que só terminariam com o golpe militar reaccionário em Brasília. Ainda hoje, alguma esquerda brasileira olha e denuncia a sua narrativa pela postura do autor ante acontecimentos e personalidades que permanecem das mais amadas ou odiadas na história do país; que John Dos Passos foi incapaz de se libertar de todos os preconceitos ideológicos, e vendo tudo e todos em termos comparativos com o outro grande país a norte; que a sua narrativa começava por “falhar” no relato da chegada dos portugueses a terras de Vera Cruz na sua crueza e injustiça de conquistadores de povos indefesos. Em vez de se ler a sua narrativa precisamente para clarificar a postura de um grande autor do nosso tempo ante tão gigantesca empresa que tem sido inventar um Brasil de dimensões continentais como nenhum outro pertencente ao mundo lusófono (bem sei que esta palavra também poderá incomodar alguns no outro lado Atlântico), cegamo-nos, por assim dizer, por não ver mais mundo e ideias fora da nossa própria ideologia do momento.

De facto, John Dos Passos chega ao Brasil com uma posição bem definida como defensor da social-democracia e dos que a encarnavam na política e cultura da época, como o jornalista e político Carlos Lacerda (que haveria de passar algum tempo exilado em Lisboa) dominando as suas afinidades pessoais e ideológicas, centro da narrativa, particularmente a que se debruça sobre esses anos de Getúlio Vargas e João Goulart, em que já prevemos o conflito generalizado que depressa desembocaria na ditadura das forças aramadas, só dando lugar novamente à democracia em 1985. Brazil On The Move tem como pontos de partida os esforços quase sobre-humanos para desenvolver o país em liberdade, desde a construção de estradas que unificaria toda a nação pela primeira vez e a educação de uma população maioritariamente analfabeta à invenção do nada da nova capital, que o autor segue desde os planos em papel à sua rapidíssima construção sob a direcção geral do presidente Jucelino Kubitschek. Por último, Dos Passos viaja nalguns estados do Nordeste na companhia de políticos democráticos em campanha, numa luta cerrada contra a cubanização em curso a partir de Havana, e mantendo simultaneamente à distância a presença norte-americana, crescentemente nervosa com o rumo da sociedade enquanto implementava os programas de auxílio da então chamada Aliança para o Progresso, instituída por John F. Kennedy para combater a deriva esquerdista deste e de outros países latino-americanos. Brazil On The Move, em linguagens que oscilam entre a tragédia e o triunfo, é quase uma outra epopeia de um país em busca da salvação, e ao qual o autor sentia a pertença, uma vez mais, das próprias origens e afinidades várias.

Para além de políticos, John Dos Passos encontrou-se em Pernambuco com Gilberto Freyre, cuja obra, que tem Casa Grande e Senzala no seu centro, haveria também de sofrer durante décadas a difamação e toda a espécie de leituras distorcidas de muita esquerda radical nas universidades um pouco por toda a parte. O aconchego entre os dois foi imediato. Freyre viajaria com o seu visitante pelo sertão mostrando-lhe velhos e abandonados engenhos do açúcar, comeram e beberam generosamente, ouviram cantigas ao desafio, tudo para delícia do autor de Brazil On The Move.

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John Dos Passos, Brazil On The Move, New York, Doubleday & Company, 1963.

Memória-Outra do Brasil Aprisionado

O controlo de ideias pela censura e por outras vias é, infelizmente, muito comum.

Nancy T. Baden, The Muffled Cries

/Vamberto Freitas

 

 

The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil 1964-1985, é o resultado final de uma longa e extensa investigação da falecida Nancy T. Baden (Professora norte-americana de Estudos Portugueses e Brasileiros durante largos anos na California State University, Fullerton) sobre o estado da literatura e criação artística em geral no Brasil sob a ditadura militar durante os anos 1964-1985. No prefácio ao livro, a autora explica a origem do seu estudo, o que despertou a sua curiosidade, como observadora da realidade brasileira mais ou menos à distância, mas creio que sobretudo como estudiosa emotivamente envolvida com toda a vida cultural do Brasil desde a sua adolescência. Tinha-se doutorado em 1971 pela prestigiada Universidade da Califórnia, Los Angeles, com uma longa dissertação intitulada Jorge Amado: Storyteller of Bahia (A Study of Narrative Technique). Passaria depois a estudar e a teorizar sistematicamente a literatura imigrante e luso-americana nos EUA, tendo sido a primeira coordenadora da secção de livros da revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-Americana Letters and Studies, fundada e ainda hoje dirigida por Onésimo T. Almeida e George Monteiro. Dentro dos limites do seu tempo entre aulas, direcção ou outras funções no Departamento de Línguas e Literaturas a que pertencia, investigação e escrita encontrava tempo ainda para ler algumas obras da Literatura Açoriana, e não só o Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio.

“Por vezes os acontecimentos são despoletados por um mero acaso. Por certo que este estudo sobre os escritores e a literatura no Brasil autoritário (1964-1985) surgiu num desses momentos imprevistos. Eu tinha estado a seguir as dificuldades do Brasil à distância. Um dia, durante uma investigação na Graduate Research Library da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a meados dos anos 70, descobri acidentalmente um fabuloso livro de contos intitulado 64 d.c. Enquanto folheava o volume, comecei a imaginar como esses contos tão abertamente satíricos do regime militar poderiam ter sido publicados e enviados para o estrangeiro, dado o sistema de censuraem vigor. O mistério começou a clarificar-se vagarosamente durante alguns anos. Enquanto eu o ia desenrolando, dei-me conta de que quem apenas lê periódicos estrangeiros superficialmente raramente tem a oportunidade de atingir um nível de entendimento aprofundado das tensões, conflitos, e forças que entram em cena quando um regime tenta silenciar os seus escritores”.

Tal como no caso dos seus estudos luso-americanos, Baden sabia que não eram as meras leituras ocasionais ou de um só volume que autorizariam fosse quem fosse a debruçar-se sobre tão complexas realidades. Baden tinha lido To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History de Edmund Wilson numa das suas cadeiras de literatura moderna na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e por certo também teria assimilado algumas das lições do seu autor. Era preciso não só visitar os países em questão, tentar viver parte do seu quotidiano, como devorar “tudo” o que uma biblioteca contivesse nas suas estantes respeitantes ao tema em foco. Fê-lo com os seus trabalhos luso-americanos, lendo os mais variados textos de página a página, o que iria eventualmente comentar ou analisar, e o que apenas lhe dava outro contexto ou marginália, debruçou-se afincadamente sobre o resto que também havia na crítica e no ensaísmo. O projecto brasileiro a que se lançara seria então imensamente mais vasto, mas, com toda a certeza, mais compensador a todos os níveis, era como que a sua síntese intelectual e, uma vez mais, emotiva perante o seu Brasil. No caso dos luso-americanos, Baden disse o que tinha a dizer, e depois retirou-se, não querendo usufruir da participação em congressos que continuavam nos Estados Unidos, Canadá e Portugal, e para os quais ela teria sido sempre convidada. Contida nas emoções, era do mesmo modo reservada e meticulosa nos seus trabalhos científicos e ensaísticos. The Muffled Cries é uma síntese completa de nomes, situações, publicações, leis restritivas, perseguições e, por fim, a libertação da criatividade no seu país de “adopção”. The Muffled Cries ultrapassa o caso especificamente brasileiro, tornando-se num estudo de referência para o mundo de língua portuguesa, pois nenhum daqueles países e territórios estavam livres de repressões aí descritas e documentadas.

Aliás, Baden começa logo por traçar a história da censura em Portugal desde os séculos da Inquisição, a “herança” lusa no Brasil vista como a génese da situação particular naquele país-irmão. “We Were Born Censored: The Dubious Legacy” é o título do primeiro capítulo, no qual Baden entrevista e dá a palavra às mais variadas figuras envolvidas directamente na vida artística e intelectual do Brasil naquela época. Baden prossegue com entradas profundas no que ela chama aqui a “teia” autoritária e os que nela foram apanhados, terminando com um capítulo intitulado “Abertura and Beyond: Writing to Remember and to Forget, 1979-1985”. Durante todo este percurso, Baden entrevista um grande número de escritores, vê e revê as suas obras, contextualiza tudo na realidade latino-americana mais vasta, documenta-se numa bibliografia extensa que inclui livros, periódicos de várias línguas e países (nem lhe escapariam os artigos do JL de Lisboa, posteriores à situação), filmes e música. Trata-se de um tour de force sobre a língua portuguesa aprisionada, uma vez mais, na sua história já muito antiga, mas fornecendo sempre o principal sentido de comunidade entre todos os que não se reconheciam sob a tutela de governantes ditatoriais tão enraizados no mundo lusíada até há bem poucos anos.

The Muffled Cries permanece como uma obra referencial pela sua prosa discreta, pela sua crítica dialéctica, pela presença de outras vozes criativas em diálogo ou confronto, pelo seu vasto e ecléctico acervo bibliográfico.

Baden nasceuem Los Angeles, e faleceu em Março de2004, apouca distância, em Fullerton, uma cidade universitária de Orange County, onde ela residiu durante muitos anos. Ninguém associaria de imediato estas geografias do Pacífico ao mundo de língua portuguesa, apesar de próximo delas existirem comunidades imigrantes, maioritariamente dos Açores. Mas são os indivíduos que carregam dentro de si os mais longínquos e dispersos universos históricos, culturais e espirituais. Foi nesse “anonimato” entre milhões de outros seres humanos e complexo mosaico étnico que Nancy T. Baden viveu, ensinou e escreveu durante a maior parte da sua vida. Que os nossos mundos, na sua pequenez de “guetos” comunitários ou na sua vastidão transcontinental e arquipelágica contam com estudiosos e intervenientes tão capazes, serenos e empenhados durante uma vida inteira, partilhando connosco todo o seu saber e sensibilidade transcultural e transnacional, quererá também dizer que, afinal, a globalização em curso tem de enfrentar todos aqueles cujas lealdades múltiplas e afinidades sem fronteiras nunca deixarão perecer a riqueza de cada povo, nunca deixarão de amar as suas particulares geografias sentimentais.

De uma pequena literatura, como a luso-americana, à vastidão criativa do Brasil, Nancy T. Baden deu muito – e deu o seu melhor. Visitaria os Açores (S. Miguel) numa das suas passagens pela Europa poucos anos antes de falecer. Queria conhecer e viver por uns dias a terra que também fazia parte íntima e intelectual dos seus imaginários sem fronteiras.

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Nancy T. Baden, The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil 1964-1985, Lanham, Maryland, University Press of America, 1999.

O Diário Açoriano de Emily Daniels

Eles também têm alguma excitação por aqui. Um homem enforcou-se na segunda-feira

Emily Daniels, The Story of My First Trip Abroad

/Vamberto Freitas

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A epígrafe aqui poderá não transmitir o todo deste diário em língua inglesa, mas demonstra o sentido de humor com que éramos vistos nas primeiras décadas do século passado, e insinua, afinal, a normalidade, a quietude, da nossa vida. Sermos descritos em língua inglesa não traz nada de novo à literatura sobre os Açores, mas as páginas presentes são absolutamente originais dentro desse pequeno corpo literário que nos olha de fora, ora com alguma empatia e admiração ora com a hostilidade ou mesmo o racismo de um Mark Twain. Creio ser esta a primeira escrita diarística de um luso-descendente na sua descoberta das ilhas, no encontro com a sua gente ancestral mas até então apenas conhecida na Diáspora (um contexto de todo diferente) através das histórias e estórias passadas oralmente às gerações seguintes. É claro que um diário implica desde logo ou pelo menos na maior das vezes um nível de formação acima da média, e quando escrito num inglês perfeito, como é este, estaremos ante um relato pessoal de inegável qualidade. Não fora assim, e muito provavelmente não teria sido originalmente publicado no mais recente número de uma revista universitária como a Gávea-Brown após ser desenterrado de velhos baús por uma parente, a Prof. Doutora Rita D. Marinho, também ela devidamente habilitada para uma tarefa como esta. Devo adiantar que, a meu ver, teríamos perdido uma bela narrativa-outra sobre as ilhas vistas e ditas por uma luso-americana de grande capacidade intelectual e de observação, numa voz narrativa entre a surpresa e o aconchego, ou o conhecimento de quem sempre havia pertencido sem nunca ter estado, por assim dizer. Pisar pela primeira vez uma terra-pátria imaginária envolverá emoções profundas, nada fáceis de transmitir a outros por qualquer meio.

The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad, de Emily Daniels (nascida em 1889 e falecida em 1995) foi escrito entre 25 de Março de 1932 e 22 de Setembro do mesmo ano. A última entrada como que resume tudo quanto viu, viveu e recordou a sua autora: “Estou cheia de saudades dos Açores. Quero regressar. Quero regressar urgentemente. Parece estranho, mas é a verdade – tenho simplesmente de regressar e quero ficar”; “poderia viver perfeitamente nos Açores, em Angra ou na Horta”. O que Emily Daniels encontrou foi a terra dos avós, faialenses da Praia de Almoxarife, que haviam sido dos primeiros emigrantes açorianos rumo a New Bedford, significativamente como resultado da velha sina daquela ilha, um devastador terramoto de 1883. O pai de Emily também tinha saído ainda jovem do Faial em 1886, “igualmente a bordo de uma baleeira”. A história de vida de Emily contraria em tudo o que estávamos (e ainda estão alguns) habituados e ver na nossa emigração até ao surgimento actual de um grupo substancial, em todos os sentidos, de escritores luso-americanos: lento esquecimento das raízes, gerações totalmente integradas no espaço dominante do seu país norte-americano, vagas memórias ancestrais passadas a outros na oralidade de uma cultura iletrada. Se olharmos para o tempo referencial deste diário veremos, por certo com espanto quando lemos a citação de acima e o seu desejo de voltar com alguma permanência, que Emily nos visitou nos mais negros dos anos atlânticos. A América estava caída, os Açores nunca se tinham sequer levantado do chão, só caminhando de quando em quando rumo a toda a parte em busca de pão e respiração. Emily foi uma das primeiras açor-americanas a formar-se num magistério de ensino primário, permanecendo solteira e feminista toda a vida, com uma aguda e bem cultivada sensibilidade literária e artística em geral. Foi precisamente esse exemplo de vida e audácia nas escolhas pessoais que, após o seu falecimento, levaria à descoberta e publicação do presente diário, partilhando assim com todos nós um texto de grande valor, tanto pela sua linguagem como pelo conteúdo que lhe imprime a autora.

Emily viaja pelas ilhas Terceira, Corvo, Pico, São Jorge, Faial e São Miguel. Parte de Nova Iorque em direcção aos Açores com amigos no luxuoso paquete Saturnia, alguns dos quais acompanhando-a depois nalgumas das ilhas, por entre as suas relações e amizades que a acolhem nas suas casas e/ou lhe servem de cicerone. Uma das vantagens de ser açoriano sem cá ter nascido é a ausência dos mais estúpidos preconceitos entre ilhas, vendo todas as nossas diferenças mas como parte de um mosaico completo, um todo que não prescinde nem se pode imaginar sem qualquer um dos seus azulejos. Não esqueçamos, 1932: para além do pitoresco de sempre, Emily “vê” mais, vê um povo que na sociedade escura do tempo não deixa nunca de a abrilhantar, colorir, com os seus festejos profano-religiosos, casas caiadas, ruas varridas, colchas à janela, corpos bem vestidos, sorriso sadio, criados e patrões, pregões na rua e mulheres à janela. Em resumo, uns Açores provavelmente já por nós esquecidos, mas nem tanto. Para além disso, a autora de My Great Adventure tem a capacidade de olhar atentamente para o resto da sociedade, deduzir do seu presente e história que nem só de braços fomos feitos, nem só de emigração fomos movimentados. Toda uma estrutura cultural é por ela encarada sem a condescendência de alguns outros, que cá vieram até aos nossos tempos e nunca nada notaram para além das hortênsias e brincos nas vacas. Emily vê a arte nas igrejas, ouve a música de rua e de salão, aprecia uma ou outra pintura, comenta, compara e dá a notícia ao seu próprio ser (pois não poderia imaginar que o seu diário viesse até nós) de que os seus antepassados poderiam ter embarcado por necessidade ou condenação inerente à terra de nascença, mas haviam afinal deixado atrás de si todo um património civilizacional, parte digna do país que em séculos navegou em busca de aventura e da riqueza que acabaria por conectar todas as geografias distantes e desconhecidas. A autora não se detém nem por um momento na pequenez de vida numa ilha a meio Atlântico, muito menos nos considera mero eco de algo ou alguém. A vida aqui é vista nas suas contingências e nas suas lutas nada diferentes do que ia pelo resto do mundo, a sua diversidade – os gritos num mercado ao ar livre ou a “compostura” citadina numa sala “aristocrática”, onde também foi recebida – é relatada na mais fina e escorreita linguagem. São frequentes as suas alusões a personagens ou cenas da melhor literatura do seu país ou da Inglaterra, como seria de esperar de uma mulher com a sua formação académica e pendor para a limpa escrita descritiva e criativa. Da escuridão da época, que mergulhava o mundo todo na miséria e preparava, sem que ninguém desse por isso, o maior holocausto da humanidade a poucas quilómetros de distância a leste, os Açores sobressaem como quem está em casa no mundo, nem melhor nem pior do que os vizinhos nos outros lados do mar. Por vezes, Emily imagina o que diriam de certas facilidades ou tecnologias que já facilitavam a vida a homens e mulheres, mas não lamenta nunca a sua ausência nas nossas vidas de então.

The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad é, pois, esse retrato único, inteiro e bem humorado de um luso-descendente no seu atempado e feliz regresso a casa.

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Emily Daniels, The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad (Organização, Intróito e Prólogo de Rita D. Marinho e Marc A. Moniz), Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese and Luso-American Studies (volumes XXX-XXXI), Providence, 2011. As traduções livres aqui são minhas.