O Diário Açoriano de Emily Daniels

Eles também têm alguma excitação por aqui. Um homem enforcou-se na segunda-feira

Emily Daniels, The Story of My First Trip Abroad

/Vamberto Freitas

*

A epígrafe aqui poderá não transmitir o todo deste diário em língua inglesa, mas demonstra o sentido de humor com que éramos vistos nas primeiras décadas do século passado, e insinua, afinal, a normalidade, a quietude, da nossa vida. Sermos descritos em língua inglesa não traz nada de novo à literatura sobre os Açores, mas as páginas presentes são absolutamente originais dentro desse pequeno corpo literário que nos olha de fora, ora com alguma empatia e admiração ora com a hostilidade ou mesmo o racismo de um Mark Twain. Creio ser esta a primeira escrita diarística de um luso-descendente na sua descoberta das ilhas, no encontro com a sua gente ancestral mas até então apenas conhecida na Diáspora (um contexto de todo diferente) através das histórias e estórias passadas oralmente às gerações seguintes. É claro que um diário implica desde logo ou pelo menos na maior das vezes um nível de formação acima da média, e quando escrito num inglês perfeito, como é este, estaremos ante um relato pessoal de inegável qualidade. Não fora assim, e muito provavelmente não teria sido originalmente publicado no mais recente número de uma revista universitária como a Gávea-Brown após ser desenterrado de velhos baús por uma parente, a Prof. Doutora Rita D. Marinho, também ela devidamente habilitada para uma tarefa como esta. Devo adiantar que, a meu ver, teríamos perdido uma bela narrativa-outra sobre as ilhas vistas e ditas por uma luso-americana de grande capacidade intelectual e de observação, numa voz narrativa entre a surpresa e o aconchego, ou o conhecimento de quem sempre havia pertencido sem nunca ter estado, por assim dizer. Pisar pela primeira vez uma terra-pátria imaginária envolverá emoções profundas, nada fáceis de transmitir a outros por qualquer meio.

The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad, de Emily Daniels (nascida em 1889 e falecida em 1995) foi escrito entre 25 de Março de 1932 e 22 de Setembro do mesmo ano. A última entrada como que resume tudo quanto viu, viveu e recordou a sua autora: “Estou cheia de saudades dos Açores. Quero regressar. Quero regressar urgentemente. Parece estranho, mas é a verdade – tenho simplesmente de regressar e quero ficar”; “poderia viver perfeitamente nos Açores, em Angra ou na Horta”. O que Emily Daniels encontrou foi a terra dos avós, faialenses da Praia de Almoxarife, que haviam sido dos primeiros emigrantes açorianos rumo a New Bedford, significativamente como resultado da velha sina daquela ilha, um devastador terramoto de 1883. O pai de Emily também tinha saído ainda jovem do Faial em 1886, “igualmente a bordo de uma baleeira”. A história de vida de Emily contraria em tudo o que estávamos (e ainda estão alguns) habituados e ver na nossa emigração até ao surgimento actual de um grupo substancial, em todos os sentidos, de escritores luso-americanos: lento esquecimento das raízes, gerações totalmente integradas no espaço dominante do seu país norte-americano, vagas memórias ancestrais passadas a outros na oralidade de uma cultura iletrada. Se olharmos para o tempo referencial deste diário veremos, por certo com espanto quando lemos a citação de acima e o seu desejo de voltar com alguma permanência, que Emily nos visitou nos mais negros dos anos atlânticos. A América estava caída, os Açores nunca se tinham sequer levantado do chão, só caminhando de quando em quando rumo a toda a parte em busca de pão e respiração. Emily foi uma das primeiras açor-americanas a formar-se num magistério de ensino primário, permanecendo solteira e feminista toda a vida, com uma aguda e bem cultivada sensibilidade literária e artística em geral. Foi precisamente esse exemplo de vida e audácia nas escolhas pessoais que, após o seu falecimento, levaria à descoberta e publicação do presente diário, partilhando assim com todos nós um texto de grande valor, tanto pela sua linguagem como pelo conteúdo que lhe imprime a autora.

Emily viaja pelas ilhas Terceira, Corvo, Pico, São Jorge, Faial e São Miguel. Parte de Nova Iorque em direcção aos Açores com amigos no luxuoso paquete Saturnia, alguns dos quais acompanhando-a depois nalgumas das ilhas, por entre as suas relações e amizades que a acolhem nas suas casas e/ou lhe servem de cicerone. Uma das vantagens de ser açoriano sem cá ter nascido é a ausência dos mais estúpidos preconceitos entre ilhas, vendo todas as nossas diferenças mas como parte de um mosaico completo, um todo que não prescinde nem se pode imaginar sem qualquer um dos seus azulejos. Não esqueçamos, 1932: para além do pitoresco de sempre, Emily “vê” mais, vê um povo que na sociedade escura do tempo não deixa nunca de a abrilhantar, colorir, com os seus festejos profano-religiosos, casas caiadas, ruas varridas, colchas à janela, corpos bem vestidos, sorriso sadio, criados e patrões, pregões na rua e mulheres à janela. Em resumo, uns Açores provavelmente já por nós esquecidos, mas nem tanto. Para além disso, a autora de My Great Adventure tem a capacidade de olhar atentamente para o resto da sociedade, deduzir do seu presente e história que nem só de braços fomos feitos, nem só de emigração fomos movimentados. Toda uma estrutura cultural é por ela encarada sem a condescendência de alguns outros, que cá vieram até aos nossos tempos e nunca nada notaram para além das hortênsias e brincos nas vacas. Emily vê a arte nas igrejas, ouve a música de rua e de salão, aprecia uma ou outra pintura, comenta, compara e dá a notícia ao seu próprio ser (pois não poderia imaginar que o seu diário viesse até nós) de que os seus antepassados poderiam ter embarcado por necessidade ou condenação inerente à terra de nascença, mas haviam afinal deixado atrás de si todo um património civilizacional, parte digna do país que em séculos navegou em busca de aventura e da riqueza que acabaria por conectar todas as geografias distantes e desconhecidas. A autora não se detém nem por um momento na pequenez de vida numa ilha a meio Atlântico, muito menos nos considera mero eco de algo ou alguém. A vida aqui é vista nas suas contingências e nas suas lutas nada diferentes do que ia pelo resto do mundo, a sua diversidade – os gritos num mercado ao ar livre ou a “compostura” citadina numa sala “aristocrática”, onde também foi recebida – é relatada na mais fina e escorreita linguagem. São frequentes as suas alusões a personagens ou cenas da melhor literatura do seu país ou da Inglaterra, como seria de esperar de uma mulher com a sua formação académica e pendor para a limpa escrita descritiva e criativa. Da escuridão da época, que mergulhava o mundo todo na miséria e preparava, sem que ninguém desse por isso, o maior holocausto da humanidade a poucas quilómetros de distância a leste, os Açores sobressaem como quem está em casa no mundo, nem melhor nem pior do que os vizinhos nos outros lados do mar. Por vezes, Emily imagina o que diriam de certas facilidades ou tecnologias que já facilitavam a vida a homens e mulheres, mas não lamenta nunca a sua ausência nas nossas vidas de então.

The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad é, pois, esse retrato único, inteiro e bem humorado de um luso-descendente no seu atempado e feliz regresso a casa.

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Emily Daniels, The Great Adventure – the Story of My First Trip Abroad (Organização, Intróito e Prólogo de Rita D. Marinho e Marc A. Moniz), Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese and Luso-American Studies (volumes XXX-XXXI), Providence, 2011. As traduções livres aqui são minhas.

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One thought on “O Diário Açoriano de Emily Daniels

  1. Carlos Alberto Machado Janeiro 8, 2012 / 8:28 pm

    Caro Vamberto, é apenas para te deixar um abraço e os parabéns pelo excelente espaço de reflexão. Carlos Alberto Machado.

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