A Narrativa Brasileira de John Dos Passos


Os homens na multidão têm uma postura ameaçadora. Uma tensão perigosa parece estar num crescendo. De repente, uma banda de samba começa a tocar.

John Dos Passos, Brazil On The Move

/Vamberto Freitas

 

A descrição citada aqui faz parte das últimas páginas de Brazil On The Move, de John Dos Passos, publicado nos Estados Unidos em 1963. Trata-se de um comício político numa pequena cidade do interior do Nordeste um ano antes, politicamente quentíssimo, entre a esquerdização de João Goulart a nível federal e o combate com as forças democráticas à direita, perante a espreita cada vez mais desconfiada do Departamento de Estado norte-americano e da extrema-direita do país amazónico que contava com sectores de toda a sociedade, inclusive, naturalmente, as forças armadas. John Dos Passos, que vivia nessa exacta altura os dias de luta cívica violenta nos Estados Unidos, e havia muito antes presenciado o início da indizível catástrofe numa Europa em cegos espasmos nos anos 30, estava agora frente a frente com a sua outra ancestralidade nas Américas. Os olhares destes deserdados da terra poderiam ser “ameaçadores”, mas o coração colectivo era outro. A noite de apreensão vivida pelo autor do hoje canónico Manhattan Transfer e da trilogia U.S.A, entre muita outra ficção e ensaios históricos, acabaria caracteristicamente num baile pela noite dentro, na convivência alegre de quem pouco mais tinha na vida. São essas páginas do encerramento desta outra narrativa brasileira do mais famoso luso-americano que contêm o ambiente de luta e ambiguidade que o Brasil confrontava nessa época decisiva para o seu futuro, por vontade própria e pela maquinação, repita-se, de inúmeros outros interesses à distância que opunham a luta anti-comunista do Ocidente aos que, como Fidel de Castro, ameaçavam subverter a ordem ibérica herdada e a vasta gama de interesses económicos tradicionais daquele país. A guerra fria em curso, como se sabe, ia muito além do Muro de Berlim.

Antes de mais, justifiquemos esta revisitação a Brazil On The Move alguns quarenta e oito anos depois da sua publicação inicial. É claro que a história moderna do país-irmão nunca deixará de nos interessar tanto por razões intelectuais como sentimentais, e ainda pelo sentido de “pertença” ao maior país de língua portuguesa, tendo sido desde Quinhentos a glória mais duradoura da aventura marítima portuguesa. Para além de tudo isso, trata-se de rever como um dos maiores escritores de língua inglesa do século passado viveu a sua condição de cidadão hifenado, e sobretudo de como se veio aproximando vagarosa mas seguramente da sua ancestralidade portuguesa. Ao contrário do que pensarão outros estudiosos destas questões, Dos Passos poderá ter demorado a encontrar-se com as nossas comunidades imigrantes nos EUA, mas o facto é que cedo se virou à (re)descoberta pessoal e colectiva do seu lado paterno (madeirense). Se nos anos 30 foi inevitavelmente a Espanha que mais motivou a sua atenção internacional, algo deve significar que na América Latina, poucos anos depois, seria o Brasil e a sua imensidão territorial e cultural que cativou toda a sua atenção e os esforços de divulgação entre os seus leitores tradicionais. Alguns anos depois da publicação de Brazil On The Move, e pouco antes de falecer em 1970, Dos Passos publicaria o volumoso The Portugal Story (sobre o qual escrevi num outro texto), uma reinterpretação da história dos Descobrimentos, e receberia da Portuguese Continental Union uma condecoração que, por sua vez e com profundo significado, recordava outro herói luso-americano da Guerra da Independência Americana, The Peter Francisco Award. Só quem viveu em grandes sociedades multi-étnicas poderá avaliar a importância de uma figura como John Dos Passos na imagem que outros criam ou mantêm acerca de um grupo nacional como o nosso.

Brazil On The Move narra três viagens de John Dos Passos ao país sul-americano: em 1948, 1956, e de seguida em 1962. O autor, esquerdista desde o início da sua carreira, tinha já iniciado a sua viragem à direita quanto à política interna e externa dos Estados Unidos, tendo acabado bem próximo da aula mais extremista do Partido Republicano quando, em 1964, apoiou abertamente uma das mais controversas e belicosas candidaturas à presidência em Washington, Barry Goldwater. Estes factos do seu percurso político (pertenceu à geração que inventou o Modernismo literário norte-americano nos fogosos anos 20 em Nova Iorque, e depois viveu a Grande Depressão da década seguinte), são de extrema importância para entendermos como ele via e narraria os seus encontros com o Brasil, em épocas de grande ebulição e mudanças radicais que só terminariam com o golpe militar reaccionário em Brasília. Ainda hoje, alguma esquerda brasileira olha e denuncia a sua narrativa pela postura do autor ante acontecimentos e personalidades que permanecem das mais amadas ou odiadas na história do país; que John Dos Passos foi incapaz de se libertar de todos os preconceitos ideológicos, e vendo tudo e todos em termos comparativos com o outro grande país a norte; que a sua narrativa começava por “falhar” no relato da chegada dos portugueses a terras de Vera Cruz na sua crueza e injustiça de conquistadores de povos indefesos. Em vez de se ler a sua narrativa precisamente para clarificar a postura de um grande autor do nosso tempo ante tão gigantesca empresa que tem sido inventar um Brasil de dimensões continentais como nenhum outro pertencente ao mundo lusófono (bem sei que esta palavra também poderá incomodar alguns no outro lado Atlântico), cegamo-nos, por assim dizer, por não ver mais mundo e ideias fora da nossa própria ideologia do momento.

De facto, John Dos Passos chega ao Brasil com uma posição bem definida como defensor da social-democracia e dos que a encarnavam na política e cultura da época, como o jornalista e político Carlos Lacerda (que haveria de passar algum tempo exilado em Lisboa) dominando as suas afinidades pessoais e ideológicas, centro da narrativa, particularmente a que se debruça sobre esses anos de Getúlio Vargas e João Goulart, em que já prevemos o conflito generalizado que depressa desembocaria na ditadura das forças aramadas, só dando lugar novamente à democracia em 1985. Brazil On The Move tem como pontos de partida os esforços quase sobre-humanos para desenvolver o país em liberdade, desde a construção de estradas que unificaria toda a nação pela primeira vez e a educação de uma população maioritariamente analfabeta à invenção do nada da nova capital, que o autor segue desde os planos em papel à sua rapidíssima construção sob a direcção geral do presidente Jucelino Kubitschek. Por último, Dos Passos viaja nalguns estados do Nordeste na companhia de políticos democráticos em campanha, numa luta cerrada contra a cubanização em curso a partir de Havana, e mantendo simultaneamente à distância a presença norte-americana, crescentemente nervosa com o rumo da sociedade enquanto implementava os programas de auxílio da então chamada Aliança para o Progresso, instituída por John F. Kennedy para combater a deriva esquerdista deste e de outros países latino-americanos. Brazil On The Move, em linguagens que oscilam entre a tragédia e o triunfo, é quase uma outra epopeia de um país em busca da salvação, e ao qual o autor sentia a pertença, uma vez mais, das próprias origens e afinidades várias.

Para além de políticos, John Dos Passos encontrou-se em Pernambuco com Gilberto Freyre, cuja obra, que tem Casa Grande e Senzala no seu centro, haveria também de sofrer durante décadas a difamação e toda a espécie de leituras distorcidas de muita esquerda radical nas universidades um pouco por toda a parte. O aconchego entre os dois foi imediato. Freyre viajaria com o seu visitante pelo sertão mostrando-lhe velhos e abandonados engenhos do açúcar, comeram e beberam generosamente, ouviram cantigas ao desafio, tudo para delícia do autor de Brazil On The Move.

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John Dos Passos, Brazil On The Move, New York, Doubleday & Company, 1963.

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