Memória-Outra do Brasil Aprisionado

O controlo de ideias pela censura e por outras vias é, infelizmente, muito comum.

Nancy T. Baden, The Muffled Cries

/Vamberto Freitas

 

 

The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil 1964-1985, é o resultado final de uma longa e extensa investigação da falecida Nancy T. Baden (Professora norte-americana de Estudos Portugueses e Brasileiros durante largos anos na California State University, Fullerton) sobre o estado da literatura e criação artística em geral no Brasil sob a ditadura militar durante os anos 1964-1985. No prefácio ao livro, a autora explica a origem do seu estudo, o que despertou a sua curiosidade, como observadora da realidade brasileira mais ou menos à distância, mas creio que sobretudo como estudiosa emotivamente envolvida com toda a vida cultural do Brasil desde a sua adolescência. Tinha-se doutorado em 1971 pela prestigiada Universidade da Califórnia, Los Angeles, com uma longa dissertação intitulada Jorge Amado: Storyteller of Bahia (A Study of Narrative Technique). Passaria depois a estudar e a teorizar sistematicamente a literatura imigrante e luso-americana nos EUA, tendo sido a primeira coordenadora da secção de livros da revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-Americana Letters and Studies, fundada e ainda hoje dirigida por Onésimo T. Almeida e George Monteiro. Dentro dos limites do seu tempo entre aulas, direcção ou outras funções no Departamento de Línguas e Literaturas a que pertencia, investigação e escrita encontrava tempo ainda para ler algumas obras da Literatura Açoriana, e não só o Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio.

“Por vezes os acontecimentos são despoletados por um mero acaso. Por certo que este estudo sobre os escritores e a literatura no Brasil autoritário (1964-1985) surgiu num desses momentos imprevistos. Eu tinha estado a seguir as dificuldades do Brasil à distância. Um dia, durante uma investigação na Graduate Research Library da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a meados dos anos 70, descobri acidentalmente um fabuloso livro de contos intitulado 64 d.c. Enquanto folheava o volume, comecei a imaginar como esses contos tão abertamente satíricos do regime militar poderiam ter sido publicados e enviados para o estrangeiro, dado o sistema de censuraem vigor. O mistério começou a clarificar-se vagarosamente durante alguns anos. Enquanto eu o ia desenrolando, dei-me conta de que quem apenas lê periódicos estrangeiros superficialmente raramente tem a oportunidade de atingir um nível de entendimento aprofundado das tensões, conflitos, e forças que entram em cena quando um regime tenta silenciar os seus escritores”.

Tal como no caso dos seus estudos luso-americanos, Baden sabia que não eram as meras leituras ocasionais ou de um só volume que autorizariam fosse quem fosse a debruçar-se sobre tão complexas realidades. Baden tinha lido To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History de Edmund Wilson numa das suas cadeiras de literatura moderna na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e por certo também teria assimilado algumas das lições do seu autor. Era preciso não só visitar os países em questão, tentar viver parte do seu quotidiano, como devorar “tudo” o que uma biblioteca contivesse nas suas estantes respeitantes ao tema em foco. Fê-lo com os seus trabalhos luso-americanos, lendo os mais variados textos de página a página, o que iria eventualmente comentar ou analisar, e o que apenas lhe dava outro contexto ou marginália, debruçou-se afincadamente sobre o resto que também havia na crítica e no ensaísmo. O projecto brasileiro a que se lançara seria então imensamente mais vasto, mas, com toda a certeza, mais compensador a todos os níveis, era como que a sua síntese intelectual e, uma vez mais, emotiva perante o seu Brasil. No caso dos luso-americanos, Baden disse o que tinha a dizer, e depois retirou-se, não querendo usufruir da participação em congressos que continuavam nos Estados Unidos, Canadá e Portugal, e para os quais ela teria sido sempre convidada. Contida nas emoções, era do mesmo modo reservada e meticulosa nos seus trabalhos científicos e ensaísticos. The Muffled Cries é uma síntese completa de nomes, situações, publicações, leis restritivas, perseguições e, por fim, a libertação da criatividade no seu país de “adopção”. The Muffled Cries ultrapassa o caso especificamente brasileiro, tornando-se num estudo de referência para o mundo de língua portuguesa, pois nenhum daqueles países e territórios estavam livres de repressões aí descritas e documentadas.

Aliás, Baden começa logo por traçar a história da censura em Portugal desde os séculos da Inquisição, a “herança” lusa no Brasil vista como a génese da situação particular naquele país-irmão. “We Were Born Censored: The Dubious Legacy” é o título do primeiro capítulo, no qual Baden entrevista e dá a palavra às mais variadas figuras envolvidas directamente na vida artística e intelectual do Brasil naquela época. Baden prossegue com entradas profundas no que ela chama aqui a “teia” autoritária e os que nela foram apanhados, terminando com um capítulo intitulado “Abertura and Beyond: Writing to Remember and to Forget, 1979-1985”. Durante todo este percurso, Baden entrevista um grande número de escritores, vê e revê as suas obras, contextualiza tudo na realidade latino-americana mais vasta, documenta-se numa bibliografia extensa que inclui livros, periódicos de várias línguas e países (nem lhe escapariam os artigos do JL de Lisboa, posteriores à situação), filmes e música. Trata-se de um tour de force sobre a língua portuguesa aprisionada, uma vez mais, na sua história já muito antiga, mas fornecendo sempre o principal sentido de comunidade entre todos os que não se reconheciam sob a tutela de governantes ditatoriais tão enraizados no mundo lusíada até há bem poucos anos.

The Muffled Cries permanece como uma obra referencial pela sua prosa discreta, pela sua crítica dialéctica, pela presença de outras vozes criativas em diálogo ou confronto, pelo seu vasto e ecléctico acervo bibliográfico.

Baden nasceuem Los Angeles, e faleceu em Março de2004, apouca distância, em Fullerton, uma cidade universitária de Orange County, onde ela residiu durante muitos anos. Ninguém associaria de imediato estas geografias do Pacífico ao mundo de língua portuguesa, apesar de próximo delas existirem comunidades imigrantes, maioritariamente dos Açores. Mas são os indivíduos que carregam dentro de si os mais longínquos e dispersos universos históricos, culturais e espirituais. Foi nesse “anonimato” entre milhões de outros seres humanos e complexo mosaico étnico que Nancy T. Baden viveu, ensinou e escreveu durante a maior parte da sua vida. Que os nossos mundos, na sua pequenez de “guetos” comunitários ou na sua vastidão transcontinental e arquipelágica contam com estudiosos e intervenientes tão capazes, serenos e empenhados durante uma vida inteira, partilhando connosco todo o seu saber e sensibilidade transcultural e transnacional, quererá também dizer que, afinal, a globalização em curso tem de enfrentar todos aqueles cujas lealdades múltiplas e afinidades sem fronteiras nunca deixarão perecer a riqueza de cada povo, nunca deixarão de amar as suas particulares geografias sentimentais.

De uma pequena literatura, como a luso-americana, à vastidão criativa do Brasil, Nancy T. Baden deu muito – e deu o seu melhor. Visitaria os Açores (S. Miguel) numa das suas passagens pela Europa poucos anos antes de falecer. Queria conhecer e viver por uns dias a terra que também fazia parte íntima e intelectual dos seus imaginários sem fronteiras.

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Nancy T. Baden, The Muffled Cries: The Writer and Literature in Authoritarian Brazil 1964-1985, Lanham, Maryland, University Press of America, 1999.

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