Outras Narrativas Americanas

A vaidade do dólar é um sentimento tão intenso como o pode ser a vaidade do génio. Conquistar o dólar para poder desperdiçar o dólar e criar nome, arranjar fama, afirmar individualidade.

Alfredo de Mesquita, A América do Norte

/Vamberto Freitas

Comecemos aqui pela afirmação essencial: a narrativa simplesmente intitulada A América do Norte do jornalista e diplomata terceirense Alfredo de Mesquita (1871-1931) será um dos melhores livros — se não mesmo o melhor — sobre os EUA em língua portuguesa e escrito por um não-imigrante ou residente. É claro que gostos e sensibilidades não se discutem, mas a minha opinião vem fundamentada após anos de leitura de muitos volumes que os nossos escritores têm produzido sobre o grande país ao longo de décadas, desde o Mundo Novo, Novo Mundo do distinto modernista e colaborador de Salazar, António Ferro, a Cavalgada Cinzenta de Fernando Namora, com alguns outros de permeio, como Descobri Que Era Europeia de Natália Correia, América em Carne Viva de João Alves da Costa e Ida e Volta: À Procura de Babbitt de Ilse Losa. Acrescente-se aqui que de outros autores açorianos têm saído narrativas notáveis sobre a nossa outra pátria de eleição a oeste, incluindo Das Velas de Lona às Asas de Alumínio de Dias de Melo, este particularmente no que à Califórnia diz respeito. Creio ser necessário colocar uma obra em perspectiva ante as que tematicamente a antecederam ou lhe seguiram. A América, agora mais do que nunca, continua a exercer o seu fascínio sobre alguns dos nossos intelectuais, que parecem só vislumbrar Nova Iorque — porque lhes parece chique, porque Wall Street os comove e enche de amor ou raiva. No entanto, não será através da domesticada CNN ou de uma breve visita ou outra, ou ainda da leitura de um jornal ou de uma revista que poderemos ter sequer a mínima ideia ou retrato da pluralidade e complexidade daquela sociedade imensa. Por outro lado, ler as páginas de visitantes sem ler as que, também em português ou em inglês, foram e são escritas pelos nossos autores imigrantes e luso-descendentes é ter uma visão por demais limitada de um mundo que nos é de todo significante. “Paris — escreveu já então no seu tempo Alfredo de Mesquita — é a França. Portugal é Lisboa; mas Nova Iorque, só por si, muito pouco nos diz do que toda a América é”.

Alfredo de Mesquita nasceu em Angra do Heroísmo onde completou o ensino secundário e iniciou a sua carreira de jornalista. Depois da sua chegada a Lisboa tornou-se um colaborador de grandes jornais como o Diário de Notícias, e de periódicos como a revista Ocidente. A sua bibliografia inclui vários títulos, desde Portugal Moribundo a Memórias de um Fura-Vidas. Seria a sua última obra, A América do Norte, publicada originalmente em 1928 (dois antes do já referido livro em forma de diário de António Ferro), a que mais o prestigiou e que, segundo toda a informação chegada até ao nosso tempo, foi muito bem recebida pelo público leitor em geral. As datas, neste caso específico, têm grande importância. Diplomata que serviu o país nalguns consulados europeus, seria nomeado cônsul em Nova Iorque nos anos 1918-1919, tendo aproveitado praticamente todo o seu tempo para viajar por grande parte do país, não só devido à sua curiosidade inata e profissional como porque num encontro com magnatas dos caminhos de ferro estes ofereceram-lhe viagens, percursos e estadias nas rotas e cidades várias, que o levariam até São Francisco, no outro extremo do continente.

Alfredo de Mesquita apanhou por inteiro um dos grandes momentos históricos de mudanças sócio-económicas radicais, quando a América saiu da sua ruralidade quase absoluta para uma civilização industrial como resultado imediato do seu triunfo na Primeira Grande Guerra, e consequentemente no contexto de uma Europa destroçada. O autor não fala desse factor no desenvolvimento norte-americano, mas sim vira toda a sua atenção para o que ele entende ser a raiz primeira na construção da nova sociedade: uma cultura política aberta e a determinação das elites — e por osmose e exemplo, de toda a população para além da sua condição hierárquica no país — em dominar sem restrições a sua parte do continente, do Atlântico ao Pacífico. O negócio da America era, tal como mais tarde diria um dos grandes directores da indústria automóvel, o negócio, e ponto final. Desde o pioneirismo da arquitectura gigantesca dos arranha-céus à arte da publicidade de todo e qualquer produto novo ao fulgor das contínuas invenções que tornariam o dia-a-dia dos americanos cada vez mais mecanizado até ao enriquecimento e ostentação sem apologias, estavam todos a definir uma cultura nacional sem par no mundo ou na história. Ao contrário de muitos outros visitantes que mais tarde “filosofariam” sobre tudo o que “avistavam” ao longe e a grande velocidade, como Jean Baudrillard no seu América, esse que “viu” e “percebeu” logo toda aquela imensidão a partir de uma auto-estrada, nada lhe escapando aos habituais preconceitos, Mesquita limita-se a observar e a relatar um quotidiano quase sem memória das origens de cada grupo nacional, mas que se dedicava com todo o fulgor à domesticação do seu vasto espaço — o único modo de ser e estar na vida dos pioneiros e seus descendentes. Como qualquer narrativa, esta é parcial, deixando de lado muita da oposição intelectual e trabalhista que sempre batalharam a classe dominante e toda a sua ideologia em nome de outros equilíbrios societais. É possível que Mesquita tenha compreendido de imediato o estatuto demasiado minoritário dessas forças, não prevendo por isso qualquer conjuntura politica que mudasse seja o que fosse naquela América já consolidada e determinada quanto ao seu futuro. Na verdade, e em retrospectiva, o autor acertou em cheio — e creio que nada o surpreenderia se regressasse hoje à sua Europa ainda sempre Europa ou à sua América ainda sempre América. De resto, A América do Norte descreve-nos minuciosamente um pouco de tudo: natureza, cidades, casas privadas e públicas, feitos de engenharia e motores, rios e montanhas, homens, mulheres e bichos. O relacionamento dos brancos com os afro-americanos não ficou de fora, e Mesquita praticamente só enumera alguns grupos de imigrantes europeus, estranhamente, mesmo depois de chegar à Califórnia, deixando de fora os açorianos aí fixados.  É certo que na cultura fica-se quase só pelo que diverte as massas, descrevendo pormenorizadamente os teatros nova-iorquinos e as suas incríveis acrobacias de palco e extensão de cenários, mas trata-se de um europeu habituado ao enjoo elitista do seu continente e agora fascinado por uma igualdade criativa nunca vista dantes. Estava, uma vez mais, correctíssimo, foi exactamente esse e outro entretenimento que os EUA exportariam avassaladoramente para o resto do mundo. Sem outra explicação ou pretensiosismo literário e analítico de muitas outras narrativas nossas, Mesquita aviva a sua prosa descritiva e opinativa na mais escorreita e clara linguagem, sempre comparando o que vê com o que herdou e vivia no Velho Mundo.

“A nevrose da pressa — escreve num passo que exprime toda a sua visão da América e dos americanos– e a preocupação de encontrar e utilizar a forma prática definitiva de todas as coisas — ideias, movimento e actos — caracterizam o génio americano, e em tudo quanto o americano faz se juntam. Cada gesto que ele emprega, cada utensílio de que se serve, resumem quanto é possível resumir o dispêndio da expressão e da actividade. Ao contrário de nós, que somos uns perdulários da energia, o americano economiza-a ainda quando ela se apresenta sob a forma de parcelas mais infinitamente pequenas”.

A América do Norte foi republicado há alguns anos numa edição de luxo contendo em quase todas as páginas ilustrações desenhadas a preto e branco das gentes e das coisas conforme o andamento da narrativa. Para quem se interessa pelos EUA na generalidade e pela nossa presença multissecular nos pontos mais nevrálgicos de uma sociedade então em construção, o livro de Alfredo de Mesquita é um tesouro — mesmo que ideologicamente o possamos e devemos interrogar a cada passo. A grande escrita esconde sempre em si o seu próprio contraditório. A fome e a obsessão do dólar, afinal, destinam-se a repor a desmemória das origens, e sobretudo a manter perpetuamente a saudade de um futuro sempre em construção.

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Alfredo de Mesquita, A América do Norte, Lisboa, Parceria A. M. Pereira (com o apoio da FLAD), 2001.

Quando Nos Lembram O Lado De Lá

Minha mãe disse, o seu cabelo ruivo/E os seus olhos verdes, cintilantes como o fogo:/São sempre ‘Os Portugueses’.

Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity

/Vamberto Freitas

 

Millicent Borges Accardi, uma poeta que desde há algum tempo passou a identificar-se como “luso-americana”, acaba de publicar uma nova colectânea da sua obra, intitulada Injuring Eternity, o que já nos diria muito como poesia dos nossos dias, e ainda mais agora pelo facto de incluir alguns poemas identitários, por assim dizer, mesmo que em certos casos só vagamente reconhecidos como tal. Crescentemente reconhecida entre os seus pares norte-americanos, a sua aproximação à ancestralidade portuguesa pelo lado paterno (os seus avós e dois tios eram da Ilha Terceira) alia-se de modo contundente ao seu lado materno irlandês, como num desses poemas de chamamento às suas raízes étnicas lusas que abre com o verso de queixa e fascínio por parte da sua mãe, citado aqui em epígrafe, “Why not the Irish?”: It’s always ‘The Portuguese!’ — Sempre ‘Os Portugueses!’  Por certo que a própria autora adverte algures que não deveremos assumir todas as narrativas em verso como sendo “autobiográficas”, mas estas dificilmente teriam nascido fora do círculo íntimo da sua herança múltipla cultural. Não se trata aqui, nestas minhas linhas, de celebrar essa “opção” de Borges Accardi, mas sim relembrar a todos que a nossa riqueza intelectual e criativa na América do Norte foi sempre muito subestimada por cá, raramente apreciada pelos nossos literatos fora de um grupo de académicos e leitores interessados na literatura cosmopolita da transnacionalidade, de que fomos, afinal, desde Camões a Pessoa, pioneiros no Ocidente. Até mesmo na modernidade literária dos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, no seu isolamento quase absoluto de Manahattan durante algumas cinco décadas, anteciparia, na nossa língua e em várias volumes, quase todos os escritores de outras nacionalidades cujos temas se virariam decididamente (Salman Rushdie e todos os seus colegas, desde Londres e Toronto a Nova Iorque) para a experiência imigrante do século passado a nível mundial. Só que a nossa prolongada desatenção felizmente deu lugar actualmente ao aconchego total (nacional) entre os escritores luso-descendentes e o “seu” país da memória e de sangue. No caso de Borges Accardi não serão por enquanto três ou quatro poemas que a colocarão no já substancial cânone literário dos luso-descendentes de língua inglesa, mas sim o processo que a trouxe até nós, sem nunca ela negar a sua provável busca interior, solitária e pessoalíssima antes de assumir abertamente a sua ligação genética e intelectual ao mundo luso transfronteiriço.

Antes de mais, uma outra curiosidade de coincidências, ou de como os caminhos são-nos por vezes traçados sem nunca nos apercebermos das tramas do “destino”: Millicent Borges Accardi foi colega na faculdade do Long Beach City College (no sul da Califórnia) do poeta e romancista Frank X. Gaspar, onde ambos leccionavam língua inglesa e literatura, e tem em comum com a Katherine Vaz (autora do romance Saudade e dos contos Fado and Other Stories) ser de pai açor-americano e de mãe, como também já referi, irlandesa, optando as duas pela tradição lusa, tal como poderiam ter optado pela nada menos admirável tradição literária que tem, como se sabe, Joyce no centro da Modernidade artística, e incontáveis escritores da mesma descendência nos EUA. Borges Accardi aprofundou o seu regresso às origens portuguesas com a sua participação o ano passado num dos mais originais e consequentes encontros literários no nosso país (intitulado Disquiet, alusão directa a Fernando Pessoa e ao seu livro talvez mais conhecido entre os luso-descendentes) que combina aulas de escrita criativa durante algumas semanas com sessões de leitura e convivência entre os convidados estrangeiros e os escritores residentes em Lisboa, tendo já um lugar assegurado os mais conhecidos autores luso-americanos. A poeta refere numa recente entrevista a Kathi Stafford no Portuguese-American Journal essa sua primeira visita ao nosso país como tendo sido um dos momentos mais reveladores da sua vida.

“De certo modo, — disse à sua entrevistadora — foi um alívio ver o país dos meus antepassados; já o esperava há muito tempo, e por ter sido num encontro de escritores, sinto como se tivesse assistido a um curso intensivo sobre tudo que é português. Num só verão, conheci mais luso-americanos que também são escritores do que em toda a minha vida! Vi a famosa estátua de Fernando Pessoa, saboreei vinho do Porto e vinho verde. Vi o cais, fui a um concerto de Fado à meia-noite numa pequena taberna. Foi uma experiência tremenda. Antes desta minha viagem tinha conhecido só um outro luso-americano para além da minha família. Agora, tenho em mim a experiência de me passear em Lisboa e em Sintra”.

De resto, volta a falar na mesma entrevista sobre a história da família desde a Terceira ao seu enraizamento na Califórnia (área de Los Angeles), dizendo que o pai, apesar de já ter nascido na América, só começou a falar inglês na escola. Por mais distante que Borges Accardi se tenha mantido das nossas comunidades ali bem perto e do país ancestral, a sua história tem tudo em comum com a grande maioria do nosso povo no processo de se reinventar num mundo de início estranho e em tudo avassalador. O regresso a casa das segundas e terceiras gerações de luso-americanos, principalmente os que se formaram a nível superior e passaram a cultivar para si um espaço de grande criatividade na cultura literária do seu país natal, aconteceu e intensificou-se só nos anos mais recentes, enriquecendo-nos mutuamente, e sobretudo trazendo os mosaicos que nos faltavam na nossa própria história sociocultural e literária.

Injuring Eternity Está dividido em três secções, “Morning”, “Noon” e “Evening”, cada uma delas referenciando a vida ao pé da porta ou viajando pelas mais longínquas geografias humanas e pela história trágica de tempos mais remotos ou recentes, através de vozes e “narradoras” confessionais que se desdobram quase heteronimicamente, Pessoa permanecendo sempre a referência primeira dos escritores luso-descendentes. Entre o formalismo de alguns poemas e a livre prosa-poética de outros, a linguagem de Borges Accardi é de uma imagística claríssima e vigorosa, de um realismo quase cru na descrição de memórias e de situações dos seus protagonistas nos seus momentos apanhados para sempre pelo verbo, que tudo torna eterno, mesmo que longe da nossa vista ou do nosso conhecimento. É a história-outra, sempre de tempos que se confundem entre passado e presente, das geografias que habitamos e das que nos habitam invisivelmente. Na voz da poeta reconhecemo-nos num todo ou reconhecemo-nos fragmentados em bocados de vida vivida, em passados imaginários, em identidades em constante fluidez e reajustamento em mundos cada vez mais frios, ironicamente cada vez mais desenraizados e indiferentes à sorte “do coração humano em conflicto consigo próprio”, como poetizou por outras formas William Faulkner na sua própria busca de sentido e paz. De um conjunto de poemas que formam uma só narrativa é feito esta bela e inteligente “afronta à eternidade”.

Mais do que falar da poesia de Injuring Eternity, quis aqui assinalar o processo deste outro regresso à nossa comum por parte de Millicent Borges Accardi, e o seu tardio conhecimento tanto dos seus colegas luso-americanos como do nosso país. Devo ainda adicionar que numa antologia de poesia luso-americana organizada por George Monteiro e Alice R. Clemente a ser publicada pela Gávea-Brown (Brown University), Borges Accardi estará representada com alguns destes poemas retirados do livro aqui em foco, assim como do seu primeiro livro, Woman on a Shaky Bridge. O reconhecimento da poeta, pois, vem já de um espaço bem mais amplo para o nosso ainda em formação numa Diáspora renovada e de todo (se isso traz alguma satisfação a alguns) inteiramente moderna. A autora tem sido premiada de várias formas por instituições tão prestigiadas como a National Endowment for the Arts e a California Arts Council.

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Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity, Mischievous Muse Press/World Nouveau Company, 2010. A tradução da epígrafe e do passo da entrevista é da minha responsabilidade.


Cultura Para Todos Os Gostos, E Para Quem Não Tem

Todos os homens têm o direito de ser estúpidos, mas o camarada MacDonald abusa do privilégio.
Leon Trotsky sobre o ensaísta americano Dwight MacDonald

/Vamberto Freitas

As palavras citadas aqui em epígrafe desde há muito se tornaram lendárias na cultura literária modernista dos EUA. Digo “lendárias” porque ninguém sabe ao certo se foram ou não estas as palavras exactas dirigidas por carta ao grande crítico e ensaísta nova-iorquino, Dwight MacDonald, por Leon Trotsky, então já exilado no México, autor de Literatura e Revolução (1924) e uma das principais figuras intelectuais bolcheviques no seu país e no mundo, para além de todo o seu papel no triunfo da nova ordem soviética. Poderá hoje parecer surrealista a um europeu pouco informado sobre os Estados Unidos, mas a maioria dos intelectuais norte-americanos durante os anos 20-30 estava quase toda alinhada à esquerda, do estalinismo ao trotskismo. Se há uma constante temática na literatura do país será inegavelmente a desconstrução impiedosa do sistema capitalista e seus respectivos valores, muito especialmente o eufórico espectáculo de ostentação animalesca nos seus primeiros anos do pós-Grande Guerra até à sua queda aplaudida nessas mesmas páginas. Quando em Nova Iorque alguns capitalistas se suicidavam após a quebra da Bolsa em 1929, Edmund Wilson, o maior crítico literário americano do seu tempo e geração, diria simplesmente: “antes eles do que nós”. Se a ideologia que enformava as Vinhas da Ira de um John Steinbeck não seria tão facilmente detectada noutros e mais subtis modernistas, a verdade é que a crítica corrosiva aos usos e costumes reinantes bastavam para trivializar e acusar, por assim dizer, toda uma sociedade rejeitada pelos seus artistas em geral. MacDonald girava desde essa época em publicações hoje extintas que cavaram fundo um lugar no cânone cultural da nação. Depois de um começo nas revistas da potência jornalística de Henry Luce, que viria a ter como bandeira a revista Fortune (e pouco depois, a Time), sairia por vontade própria e rejeição ideológica rumo a publicações intelectuais como a Partisan Review (no começo, pertencente a um órgão do Partido Comunista), The New Yorker, Commentary, The New York Review Of Books, e Politics, que ele fundaria em 1944 e editou durante algum tempo. Rodeado na grande metrópole pelos ascendentes literatos de uma segunda geração da imigração judia do leste europeu, que viriam a ser conhecidos como os New York Intellectuals, o bravíssimo crítico e ensaísta cultural nascido em 1906 manter-se-ia vivamente presente até ao seu falecimento em 1982. O seu sentido de humor era tão implacável como as polémicas que manteve com todos à sua volta, tendo ele próprio feito questão em fazer circular a referida frase de Trotsky que lhe fora endereçada, nunca se ofendendo com outros ataques de um bom número de escritores do seu país, adorando ser provocado nos mais baixos termos. Quando certa vez um colega lhe fez notar que já tinha cedo no dia uma bebida sobre a sua secretária de trabalho, respondeu sem mais: Eu sou um alcoólico, caramba!

Hoje será mais recordado pelos seus ensaios dos anos 50-60, quando se insurge, sempre à esquerda, contra a nova condição cultural do seu país, agora dominado pela chamada contracultura das novas gerações — o alegre caleidoscópio de hippies e revolucionários de várias cores e inclinações ideológicas — demonstrando mais uma vez o seu tremendo poder de permanência e chamamento de atenção perante outros bem mais em voga naquela época. Parece haver presentemente nos EUA, no que concerne tudo o que diz respeito à cultura em geral e à literatura em particular, uma revisão teórica global do que provocou a mudança da tradicional crítica que era dominada pelos intelectuais públicos e independentes para as universidades durante as últimas décadas, subjugando as próprias obras criativas ao acto da suposta teorização, tantas vezes absurda e pretensamente “científica”, em que o prazer do texto dava agora lugar à mais conturbada e obscura prosa ensaística, caracterizada por um pseudo-jargão académico emprestado pelas ciências e não pelo saber que levava à análise textual com o biografismo e a contextualização sociocultural de cada época ou movimento literário em foco. Concomitantemente com esta vontade de uma crítica de novo legível, abrangente e dirigida à classe culta para além dos departamentos de línguas e literaturas, vemos também o regresso do realismo linear e estruturado, rejeitando as acrobacias linguísticas inconsequentes e despidas de sentido que o pós-modernismo literário, na sua primeira fase, tentou impor a leitores sem paciência para estórias mal contadas ou demasiado claustrofóbicas de narradores fechados nos seus pequenos e desequilibrados mundinhos citadinos. Jonathan Franzen, em todos os seus romances até ao recente Liberdade (Freedom), tem liderado a nova tendência, essa que anos antes havia sido pedida por Tom Wolfe, mesmo trajando os seus esquisitos fatos e sapatos brancos numa pose arrogante de diferenciação estilística.

Significativamente, acaba de ser publicado uma nova colectânea de ensaios de Dwight MacDonald intitulada Masscult and Midcult: Essays Against the American Grain, com a chancela do elitista e sempre influente The New York Review of Books. O título do livro refere o famoso ensaio de MacDonald publicado em 1960 pela Partisan Review, agora na sua fase modernista em que ainda dominava a crítica mais ou menos marxista-freudiana que tinha como referência principal a literatura europeia que os intelectuais de Nova Iorque disseminavam constantemente entre os seus leitores mais sofisticados. O antigo trotskista mantinha a sua ideologia esquerdizante, mas na cultura clamava contra a banalização não só da literatura agora consumida pelas novas classes-médias como das artes em geral. Masscult e Midcult traduzem literalmente por “cultura de massas” e “cultura mediana”. Poderia ser uma investida na defesa de uma estética pura, modernista ou não, “arte pela arte”, mas envolvia também uma componente claramente ideológica por parte de MacDonald: horrorizava-o um novo capitalismo outra vez desenfreado, que tudo apropriava, tudo simplificava, só para depois tudo vender, com a conivência de escritores sedentos de fama, celebridade e dinheiro só permitidos pelos grandes números de “consumidores”, as novas classes medianamente abastadas, medianamente educadas, e com pretensões a uma sociabilidade aparentemente erudita e bem-pensante que surgiriam com a prosperidade do pós-Segunda Guerra Mundial. Claro que MacDonald nomeia escritores e obras exemplificativas desta nova realidade cultural, mas essencialmente pedia um regresso à seriedade no acto criativo e na própria crítica apreciativa, analítica ou judicativa. A influência do seu ensaio foi imediata e perturbadora: aqui renascia a crítica da antiga esquerda cultural contra uma nova esquerda, que valorizava tudo quanto chegasse ao maior número possível de cidadãos pretensamente “sensíveis” às coisas do espírito, cujas consequências seria o contínuo rebaixamento do acto artístico em geral. Que o organizador do presente volume, Louis Menand, ele próprio um ensaísta de renome, achou por bem relançar o debate ou simplesmente relembrar que outros tempos e outras vozes existiram deve querer dizer alguma coisa sobre a nossa condição no mundo das “artes” marcadas actualmente pelo inócuo espectáculo puro e sem sentido.

Um dos ensaios mais contundentes em Masscult and Midcult, tem como título “Parajournalism, or Tom Wolfe and His Magic Writing Machine”. Uma vez mais, Dwight MacDonald investe contra o que se chamava o “novo jornalismo”, que confundia deliberadamente factos e ficção, colocando o “autor” de cada peça no centro dos acontecimentos. Por certo que Wolfe reagiu à sua maneira: tentando denegrir e desacreditar o velho ensaísta, pertencente a uma estirpe que ele, Wolfe, desejaria extinta. Não conheço outro ensaio mais pertinente para quem segue com atenção os media actuais.

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Dwight MacDonald, Masscult and Midcult: Essays Against the American Grain (Introduction by Louis Menand), New York, The New York Review of Books, 2011. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

Magma Expulsa e Lembrada

Cada texto foi inscrito com o seu valor próprio e com os decorrentes de cumplicidades, atracções e repulsas – tensões próprias de uma revista com identidade irrepetível.
Carlos Alberto Machado, Coordenador da extinta revista Magma

/Vamberto Freitas

 As palavras de Carlos Alberto Machado, um dos fundadores e coordenadores da (extinta) revista literária Magma, referem-se ao número zero de lançamento publicado pouco antes, e havia já chamado a si um diversificado grupo de escritores, uns mais conhecidos do que outros, residentes nos Açores e no Continente. Depressa esse rol de colaboradores aumentaria consideravelmente, Magma abriria as suas páginas à nossa diáspora, desde os Estados Unidos e Canadá ao Brasil, assim como a participantes de outros de países, alguns deles naturalmente em tradução. A edição inaugural incluía ainda uma separata de poesia, que se publicaria com outros dos seguintes sete números, cada uma coordenada por um escritor ou poeta convidado/a, tal como a revista no seu todo até ao seu abrupto desaparecimento em 2008. Estava assim lançada em 2005, a partir da Câmara Municipal das Lajes do Pico, sob a direcção também de Sara Santos, uma das melhores publicações de “criação literária” nos Açores, tendo como única companhia no arquipélago a NEO dirigida por John Starkey e com a chancela do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, mas mantendo uma autonomia editorial absoluta.

É certo que revistas ligadas aos nossos institutos culturais na Horta, em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada sempre serviram como outras “universidades” da nossa classe culta, privilegiando a investigação história, sociológica e literária, mas só nestes últimos anos publicações como a Magma e a NEO davam continuidade ao que muito anos antes iniciara A Memória da Água-Viva, sob a direcção de José Henrique Santos Barros e Urbano Bettencourt a partir de Lisboa nos anos 70. Todos estes projectos tiveram ou têm características editoriais muito próprias: o diálogo literário implícito inter-geracional, colocando escritores de nome feito ao lado dos mais novos, estes sempre em busca de meios para chegarem a um público leitor na sua sociedade e, quando possível, para além dos horizontes regionais e nacionais. Ainda hoje as little magazines, assim chamadas nos EUA pelo seu formato livresco em que a criatividade visual quase sempre faz parte da sua originalidade e distinção, constituem (sem que a net as ameace, por enquanto) as mais procuradas publicações pelos que buscam sistematicamente a inovação ou as novas tendências literárias em qualquer língua. A Orpheu em Lisboa (Fernando Pessoa) e depois a Presença (José Régio, Casais Monteiro e João Gaspar Simões) em Coimbra foram para a nossa literatura o que The Paris Review ainda hoje representa para os norte-americanos: estar presente em qualquer uma das suas edições é ficar consagrado ou, no mínimo, apresentado a leitores de maior exigência literária e cultural.

Magma cumpria por inteiro a missão literária inerente a estes projectos. Olhando a vasta lista de participantes na suas páginas, nota-se de imediato a presença da maior parte dos nomes açorianos associados à nossa nova geração de escritores em convivência de igualdade sem apologias com alguns dos autores mais conhecidos e prestigiados em Portugal, desde Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Ana Martins Marques, Manuel de Freitas e Gonçalo M. Tavares a outros de língua portuguesa como Luiz António de Assis Brasil e Lélia da Silva Pereira Nunes (que coordenaram um dos números da revista, levando alguns escritores brasileiros a ficcionarem os “seus” Açores, alguns deles nunca tendo cá estado). Da diáspora, uma vez mais, para além dos emblemáticos Onésimo T. Almeida e Francisco Cota Fagundes, aí está Frank X. Gaspar cuja obra em parte comemora a sua ancestralidade picoense, tendo merecido uma separata por mim traduzida sob o título de um dos seus poemas, A Noite dos Mil Rebentos. Não serão, no entanto, os nomes, por mais famosos que sejam na literatura nacional (nacional aqui inclui os Açores e os açorianos, naturalmente) ou estrangeira, mas sim porque a Magma passou a constituir, na sua relativamente curta existência, outro grande repositório da nossa memória colectiva, o que mais interessa sempre na escrita em qualquer uma das suas formas criativas ou ensaísticas, já para não falar no estímulo ao trabalho entre os que, apesar do seu inegável talento intelectual, raramente encontram um meio de divulgação da sua obra incipiente ou já legitimada quer pela comunidade quer institucionalmente. Para uma região que sempre se demarcou a nível nacional pela sua criação ou produção literária, mas sofre do provincianismo reinante e da lonjura das sectárias máquinas editoriais e de favores sem fim da nossa capital, só iniciativas como esta garantem a dignidade cultural do nosso povo, asseguram para as gerações vindouras os arquivos artísticos da sua própria ancestralidade geográfica, histórica, intelectual. Quem acha que isto tem importância menor, como parece ser o caso entre nós neste momento, esquece-se que a desmemória colectiva é bem-vinda e essencial à já reinante ditadura pós-moderna, ao novo fascismo engravatado que se auto-denomina de Mercados e nos corrói a todos. Um povo sem a sua voz fica coisificado e apto a ser manobrado por todos que o querem na condição de escravo. Por outro lado, a descentralização da cultura é também já um facto notável em muitos países avançados, os centros estão a virar margens ou a evoluir para comunidades de interesses outrora totalmente dominantes a partir dos grandes espaços ou cidades. Cada sociedade terá agora de garantir os seus próprios meios para se afirmar e se auto-afirmar perante os outros que partilham ou não o nosso destino. No que se refere a publicações deste género e ao diálogo a um nível superior sem nunca deixar de incluir quem deseje participar, não poderemos colocar no fim das prioridades dominadas por supostas manifestações de “cultura” no que entre nós passaram a ser festas instantâneas, com muita perna pimba e vozes sem talento em palcos estupidamente improvisados á beira-mar – a um custo, para os nossos cada vez mais limitados recursos, avassalador e cuja destruição maior tem sido também a marginalização e amordaçamento dos tradicionais rituais festivos nas freguesias rurais de todas ilhas.

“A NEO — escreveu Urbano Bettencourt no número três (2006) da Magma, por ele coordenado — publica-se em Ponta Delgada e fica muito bem aí mesmo; A Magma publica-se nas Lajes do Pico, que não são a capital ou ex-capital de coisa alguma, não têm uma ilha em frente, embora sejam o lugar de onde é possível ver a Montanha nascer das águas, como Vénus. Quer dizer, a Magma também fica muito bem onde está, sem complexos de lugar, pois, como afirmava o escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, a partir da Horta e em meados do século passado, o pior que pode acontecer a um lugar pequeno é ser, simultaneamente, tacanho”.

Magma, pois, pela sua inquestionável qualidade em cada número publicado e pela sua abrangência de temas, geografias dos nossos afectos e estilos, prestigiava como poucas outras publicações nossas a literatura dos e nos Açores. Que partia de uma pequena vila açoriana fora do triângulo do poder político regional só lhe trazia um estatuto que em Portugal será difícil de encontrar, habituados que estamos às falsas e moribundas grandezas dos “grandes” centros. Não deveríamos esquecer que a grande tradição intelectual e criativa das nossas ilhas – não sou o único a afirmá-lo — tem a sua primeira base na página impressa, quer se trate de livros, jornais ou revistas, precisamente os meios mais ignorados cá nos tempos que correm.

Magma ficará arquivada e citada por muitos outros como testemunha do trabalho intelectual sério e universalmente identitário. O resto e os autores do nada irão cair irremediavelmente no muito merecido esquecimento.

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Magma (2005-2008), fundada e dirigida por Sara Santos e coordenada por Carlos Alberto Machado, Câmara Municipal das Lajes do Pico, Pico, Açores.

 

De Eduardo Lourenço e de Nós

Com efeito, a ortodoxia impregnara de tal modo ‘organicamente’ o tecido mental português que ser ortodoxo (assumir posições sólidas, absolutamente verdadeiras e totalmente incontestáveis) era ser português.

Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa

 /Vamberto Freitas

 Por certo que todos reconhecerão as palavras de Miguel Real no seu extenso Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (2008) como referência à própria obra do autor em foco, quer como títulos dalgumas colectâneas dos seus primeiros e mais conhecidos ensaios quer como a partida para o combate que ele, Eduardo Lourenço, travou durante toda a sua vida e continua a travar com os seus mais de 80 anos de idade. A partir dos anos 50-60 mais ninguém como ele se tornaria entre nós o filósofo e intelectual público totalmente empenhado na libertação do pensamento político e cultural português, e que já depois do 25 de Abril de 1975 dava lugar à publicação da sua mais influente e hoje canónica obra, O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), os ensaios que desconstroem o nosso enclausuramento num passado imaginário mantendo-nos sempre às margens da Europa, espaço no qual nos deveríamos incluir começando pelo diálogo inédito e a absorção da sua modernidade. O que mais me interessa aqui — a obra de Eduardo Lourenço deve ser actualmente a mais referenciada e comentada nos nossos meios intelectuais — será uma breve síntese de como ele, visto pelo ensaísta e romancista Miguel Real (que ainda há bem pouco tempo publicaria o seu volumoso O Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010), praticamente só entre os seus pares mais destacados, integrou no seu pensamento as questões cívicas em torno da democracia e liberdade — a crítica literária e o ensaio cultural em que a política estava sempre implícita, assim como, nesses inigualáveis gestos de elegância, ética e justiça literária, se relacionava com os Açores já nos anos da nossa libertação abrilista, tendo a obra de Antero Quental (lado a lado com a de Fernando Pessoa e Camões) sido sempre um dos seus principais objectos de estudo e reflexão literária e filosófica. De resto, aproveito aqui a ocasião de Eduardo Lourenço ter sido agora distinguido em Lisboa ainda há poucos dias com o também prestigiado Prémio Pessoa, depois de receber há uns anos o Prémio Camões.

Em Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Miguel Real interliga toda a longa carreira de intelectual público do autor em quatro grandes secções, abordando as questões cultural, política, estética e filosófica, numa revisitação aos respectivos ensaios em cada época e contexto próprio, dentro e fora do nosso país, revendo cada polémica que travou entre os seus pares de língua portuguesa, ou o confronto com o Poder ditatorial que então nos governava e amordaçava, ora por meios abertamente brutos ora por subtis colaboracionismos internos e externos. Tinha como interlocutores na crítica literária, tal como nos relembra Miguel Real na obra presente, Jorge de Sena, Jacinto Prado Coelho, David Mourão Ferreira, ou ainda Urbano Tavares Rodrigues, que apesar da sua “ortodoxia” política sempre teve na escrita criativa a sua rebeldia libertadora. Seria sempre, no entanto, através de linguagens literárias e filosóficas que a sua escrita nos levava ao pensamento livre, mesmo que na solidão vivida por cada um no seu labirinto que demarcava em absoluto as vidas pública e privada de cada cidadão consciente mas temente do regime reinante. Em periódicos nacionais ou fundados e dirigidos pelos que haviam optado ou teriam sido forçados ao exílio, o diálogo travado por Eduardo Lourenço manteve sempre a civilidade do pensador autêntico, do cidadão que tinha a consciência da nossa incapacidade multissecular de nos libertarmos da nossa própria mítica e saudade de grandezas perdidas e imaginadas na bruma do tempo e na miséria a que tínhamos sido condenados nos últimos cinco séculos. Eram sempre as ideias no centro da sua discursividade, e raramente os indivíduos (com a excepção de Salazar) o alvo do que se escondia na profundidade de cada linha sua em combate pela nossa libertação política e cultural, ou mesmo psíquica. Cedo, tanto se aproximou da crítica presencista como se distanciava relativamente a outras figuras a ela associada. A literatura, para Eduardo Lourenço, tinha substituído na modernidade a noção do Sagrado e toda a religiosidade agora relativizada, e por isso deveria concentrar-se na sua vertente fundamental: a estética como signo da beleza e da liberdade de cada um, a ética, uma vez mais, a outra componente com que deveríamos receber e fazer parte do nosso ser cada gesto de apreciação artística. Naturalmente que na época dos anos em causa representavam o seu contraditório intelectual os neo-realistas com as suas formas de pensamento e exteriorização pré-determinadas e obedientes às suas noções do combate político anti-fascista e vastamente societal. Era a negação da “ortodoxia” do pensamento português aprisionado – política, literatura e sociedade em Eduardo Lourenço são indissociáveis — e a aceitação da “heterodoxia”, o pensamento liberto das construções de pensamento mítico e castrador, tudo o que nos mantinha fora do diálogo e da aceitação e integração na modernidade europeia.

É claro que Miguel Real revisitaria posteriormente noutros contextos da sua própria obra muitas das questões já presentes em Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa mas que para mim e creio que a maioria dos leitores permaneciam mais ou menos desconhecidas. Uma delas diz respeito aos artigos mais abertamente políticos que logo no início dos anos 60 seriam publicados no Portugal Democrático (Casais Monteiro e Jorge de Sena na companhia de outros destacados exilados políticos) e no Portugal Livre (fundado e dirigido por Miguel Tavares Rodrigues, que depois de Abril estaria intimamente ligado ao Avante! do Partido Comunista no nosso país), ambos de São Paulo, e próximos dos quais estavam dois dos mais consequentes conspiradores anti-salazaristas, Humberto Delgado e Henrique Galvão. Os ensaios de Eduardo Lourenço continuavam a insistir nas questões literárias e obras de outra natureza para acusar a opressão que caíra sobre os portugueses e perpetuava os séculos de regimes absolutistas fundamentados na mítica civilizacional lusa a partir dos Descobrimentos. A besta negra de Lourenço nesses anos em que o império começava a ruir por toda a parte, começando com Goa, Damão e Diu, foi a obra do brasileiro Gilberto Freyre, particularmente Casa Grande e Senzala e livros posteriores em defesa das suas propostas do luso-tropicalismo, a singularidade da convivência de raças e etnias nos Trópicos sob a governação centralizada em Lisboa, que Salazar e o seu regime aproveitavam para justificar a suposta singularidade da nossa colonização, justificando perante o restante mundo a presença portuguesa agora só em África. O autor de Recife foi desusadamente atacado, chamado por Eduardo Lourenço de “intelectual safado”.

Eduardo Lourenço viria a Angra do Heroísmo em 1987 para participar na VIII Semana de Estudos dos Açores onde leu o ensaio “Dos Açores Como Questão Cultural”,  que ainda hoje mantém um eco vivo entre de nós, algumas dessas suas palavras reproduzidas mais tarde pelo seu grande amigo Onésimo T. Almeida em Açores, Açorianos, Açorianidade (1983), tendo sido sempre este autor açoriano quem o manteve até hoje ligado às questões referentes às nossas ilhas, a que ele desde há muito já se tinha habituado pela admiração que mantinha pelas obras de   Vitorino Nemésio, Antero Quental e Teófilo Braga.

“Todavia eu sei também – e se não o soubesse a realidade histórica e mítica do Arquipélago mo lembraria – que não estou precisamente em Viana do Castelo nem em Bragança que não são definidas na Constituição como regiões autónomas (e que o fossem…) mas nos Açores,  território e realidade singular no espaço de raiz e invenção portuguesas a que os séculos, a distância e os homens imprimem uma identidade particular”.

Façam o favor de passar este texto aos que mandam actualmente no nosso país.

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Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (1949-1997), Matosinhos, QuidNovi, 2008.