De Eduardo Lourenço e de Nós

Com efeito, a ortodoxia impregnara de tal modo ‘organicamente’ o tecido mental português que ser ortodoxo (assumir posições sólidas, absolutamente verdadeiras e totalmente incontestáveis) era ser português.

Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa

 /Vamberto Freitas

 Por certo que todos reconhecerão as palavras de Miguel Real no seu extenso Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (2008) como referência à própria obra do autor em foco, quer como títulos dalgumas colectâneas dos seus primeiros e mais conhecidos ensaios quer como a partida para o combate que ele, Eduardo Lourenço, travou durante toda a sua vida e continua a travar com os seus mais de 80 anos de idade. A partir dos anos 50-60 mais ninguém como ele se tornaria entre nós o filósofo e intelectual público totalmente empenhado na libertação do pensamento político e cultural português, e que já depois do 25 de Abril de 1975 dava lugar à publicação da sua mais influente e hoje canónica obra, O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), os ensaios que desconstroem o nosso enclausuramento num passado imaginário mantendo-nos sempre às margens da Europa, espaço no qual nos deveríamos incluir começando pelo diálogo inédito e a absorção da sua modernidade. O que mais me interessa aqui — a obra de Eduardo Lourenço deve ser actualmente a mais referenciada e comentada nos nossos meios intelectuais — será uma breve síntese de como ele, visto pelo ensaísta e romancista Miguel Real (que ainda há bem pouco tempo publicaria o seu volumoso O Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010), praticamente só entre os seus pares mais destacados, integrou no seu pensamento as questões cívicas em torno da democracia e liberdade — a crítica literária e o ensaio cultural em que a política estava sempre implícita, assim como, nesses inigualáveis gestos de elegância, ética e justiça literária, se relacionava com os Açores já nos anos da nossa libertação abrilista, tendo a obra de Antero Quental (lado a lado com a de Fernando Pessoa e Camões) sido sempre um dos seus principais objectos de estudo e reflexão literária e filosófica. De resto, aproveito aqui a ocasião de Eduardo Lourenço ter sido agora distinguido em Lisboa ainda há poucos dias com o também prestigiado Prémio Pessoa, depois de receber há uns anos o Prémio Camões.

Em Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Miguel Real interliga toda a longa carreira de intelectual público do autor em quatro grandes secções, abordando as questões cultural, política, estética e filosófica, numa revisitação aos respectivos ensaios em cada época e contexto próprio, dentro e fora do nosso país, revendo cada polémica que travou entre os seus pares de língua portuguesa, ou o confronto com o Poder ditatorial que então nos governava e amordaçava, ora por meios abertamente brutos ora por subtis colaboracionismos internos e externos. Tinha como interlocutores na crítica literária, tal como nos relembra Miguel Real na obra presente, Jorge de Sena, Jacinto Prado Coelho, David Mourão Ferreira, ou ainda Urbano Tavares Rodrigues, que apesar da sua “ortodoxia” política sempre teve na escrita criativa a sua rebeldia libertadora. Seria sempre, no entanto, através de linguagens literárias e filosóficas que a sua escrita nos levava ao pensamento livre, mesmo que na solidão vivida por cada um no seu labirinto que demarcava em absoluto as vidas pública e privada de cada cidadão consciente mas temente do regime reinante. Em periódicos nacionais ou fundados e dirigidos pelos que haviam optado ou teriam sido forçados ao exílio, o diálogo travado por Eduardo Lourenço manteve sempre a civilidade do pensador autêntico, do cidadão que tinha a consciência da nossa incapacidade multissecular de nos libertarmos da nossa própria mítica e saudade de grandezas perdidas e imaginadas na bruma do tempo e na miséria a que tínhamos sido condenados nos últimos cinco séculos. Eram sempre as ideias no centro da sua discursividade, e raramente os indivíduos (com a excepção de Salazar) o alvo do que se escondia na profundidade de cada linha sua em combate pela nossa libertação política e cultural, ou mesmo psíquica. Cedo, tanto se aproximou da crítica presencista como se distanciava relativamente a outras figuras a ela associada. A literatura, para Eduardo Lourenço, tinha substituído na modernidade a noção do Sagrado e toda a religiosidade agora relativizada, e por isso deveria concentrar-se na sua vertente fundamental: a estética como signo da beleza e da liberdade de cada um, a ética, uma vez mais, a outra componente com que deveríamos receber e fazer parte do nosso ser cada gesto de apreciação artística. Naturalmente que na época dos anos em causa representavam o seu contraditório intelectual os neo-realistas com as suas formas de pensamento e exteriorização pré-determinadas e obedientes às suas noções do combate político anti-fascista e vastamente societal. Era a negação da “ortodoxia” do pensamento português aprisionado – política, literatura e sociedade em Eduardo Lourenço são indissociáveis — e a aceitação da “heterodoxia”, o pensamento liberto das construções de pensamento mítico e castrador, tudo o que nos mantinha fora do diálogo e da aceitação e integração na modernidade europeia.

É claro que Miguel Real revisitaria posteriormente noutros contextos da sua própria obra muitas das questões já presentes em Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa mas que para mim e creio que a maioria dos leitores permaneciam mais ou menos desconhecidas. Uma delas diz respeito aos artigos mais abertamente políticos que logo no início dos anos 60 seriam publicados no Portugal Democrático (Casais Monteiro e Jorge de Sena na companhia de outros destacados exilados políticos) e no Portugal Livre (fundado e dirigido por Miguel Tavares Rodrigues, que depois de Abril estaria intimamente ligado ao Avante! do Partido Comunista no nosso país), ambos de São Paulo, e próximos dos quais estavam dois dos mais consequentes conspiradores anti-salazaristas, Humberto Delgado e Henrique Galvão. Os ensaios de Eduardo Lourenço continuavam a insistir nas questões literárias e obras de outra natureza para acusar a opressão que caíra sobre os portugueses e perpetuava os séculos de regimes absolutistas fundamentados na mítica civilizacional lusa a partir dos Descobrimentos. A besta negra de Lourenço nesses anos em que o império começava a ruir por toda a parte, começando com Goa, Damão e Diu, foi a obra do brasileiro Gilberto Freyre, particularmente Casa Grande e Senzala e livros posteriores em defesa das suas propostas do luso-tropicalismo, a singularidade da convivência de raças e etnias nos Trópicos sob a governação centralizada em Lisboa, que Salazar e o seu regime aproveitavam para justificar a suposta singularidade da nossa colonização, justificando perante o restante mundo a presença portuguesa agora só em África. O autor de Recife foi desusadamente atacado, chamado por Eduardo Lourenço de “intelectual safado”.

Eduardo Lourenço viria a Angra do Heroísmo em 1987 para participar na VIII Semana de Estudos dos Açores onde leu o ensaio “Dos Açores Como Questão Cultural”,  que ainda hoje mantém um eco vivo entre de nós, algumas dessas suas palavras reproduzidas mais tarde pelo seu grande amigo Onésimo T. Almeida em Açores, Açorianos, Açorianidade (1983), tendo sido sempre este autor açoriano quem o manteve até hoje ligado às questões referentes às nossas ilhas, a que ele desde há muito já se tinha habituado pela admiração que mantinha pelas obras de   Vitorino Nemésio, Antero Quental e Teófilo Braga.

“Todavia eu sei também – e se não o soubesse a realidade histórica e mítica do Arquipélago mo lembraria – que não estou precisamente em Viana do Castelo nem em Bragança que não são definidas na Constituição como regiões autónomas (e que o fossem…) mas nos Açores,  território e realidade singular no espaço de raiz e invenção portuguesas a que os séculos, a distância e os homens imprimem uma identidade particular”.

Façam o favor de passar este texto aos que mandam actualmente no nosso país.

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Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (1949-1997), Matosinhos, QuidNovi, 2008.

 

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