Magma Expulsa e Lembrada

Cada texto foi inscrito com o seu valor próprio e com os decorrentes de cumplicidades, atracções e repulsas – tensões próprias de uma revista com identidade irrepetível.
Carlos Alberto Machado, Coordenador da extinta revista Magma

/Vamberto Freitas

 As palavras de Carlos Alberto Machado, um dos fundadores e coordenadores da (extinta) revista literária Magma, referem-se ao número zero de lançamento publicado pouco antes, e havia já chamado a si um diversificado grupo de escritores, uns mais conhecidos do que outros, residentes nos Açores e no Continente. Depressa esse rol de colaboradores aumentaria consideravelmente, Magma abriria as suas páginas à nossa diáspora, desde os Estados Unidos e Canadá ao Brasil, assim como a participantes de outros de países, alguns deles naturalmente em tradução. A edição inaugural incluía ainda uma separata de poesia, que se publicaria com outros dos seguintes sete números, cada uma coordenada por um escritor ou poeta convidado/a, tal como a revista no seu todo até ao seu abrupto desaparecimento em 2008. Estava assim lançada em 2005, a partir da Câmara Municipal das Lajes do Pico, sob a direcção também de Sara Santos, uma das melhores publicações de “criação literária” nos Açores, tendo como única companhia no arquipélago a NEO dirigida por John Starkey e com a chancela do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, mas mantendo uma autonomia editorial absoluta.

É certo que revistas ligadas aos nossos institutos culturais na Horta, em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada sempre serviram como outras “universidades” da nossa classe culta, privilegiando a investigação história, sociológica e literária, mas só nestes últimos anos publicações como a Magma e a NEO davam continuidade ao que muito anos antes iniciara A Memória da Água-Viva, sob a direcção de José Henrique Santos Barros e Urbano Bettencourt a partir de Lisboa nos anos 70. Todos estes projectos tiveram ou têm características editoriais muito próprias: o diálogo literário implícito inter-geracional, colocando escritores de nome feito ao lado dos mais novos, estes sempre em busca de meios para chegarem a um público leitor na sua sociedade e, quando possível, para além dos horizontes regionais e nacionais. Ainda hoje as little magazines, assim chamadas nos EUA pelo seu formato livresco em que a criatividade visual quase sempre faz parte da sua originalidade e distinção, constituem (sem que a net as ameace, por enquanto) as mais procuradas publicações pelos que buscam sistematicamente a inovação ou as novas tendências literárias em qualquer língua. A Orpheu em Lisboa (Fernando Pessoa) e depois a Presença (José Régio, Casais Monteiro e João Gaspar Simões) em Coimbra foram para a nossa literatura o que The Paris Review ainda hoje representa para os norte-americanos: estar presente em qualquer uma das suas edições é ficar consagrado ou, no mínimo, apresentado a leitores de maior exigência literária e cultural.

Magma cumpria por inteiro a missão literária inerente a estes projectos. Olhando a vasta lista de participantes na suas páginas, nota-se de imediato a presença da maior parte dos nomes açorianos associados à nossa nova geração de escritores em convivência de igualdade sem apologias com alguns dos autores mais conhecidos e prestigiados em Portugal, desde Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Ana Martins Marques, Manuel de Freitas e Gonçalo M. Tavares a outros de língua portuguesa como Luiz António de Assis Brasil e Lélia da Silva Pereira Nunes (que coordenaram um dos números da revista, levando alguns escritores brasileiros a ficcionarem os “seus” Açores, alguns deles nunca tendo cá estado). Da diáspora, uma vez mais, para além dos emblemáticos Onésimo T. Almeida e Francisco Cota Fagundes, aí está Frank X. Gaspar cuja obra em parte comemora a sua ancestralidade picoense, tendo merecido uma separata por mim traduzida sob o título de um dos seus poemas, A Noite dos Mil Rebentos. Não serão, no entanto, os nomes, por mais famosos que sejam na literatura nacional (nacional aqui inclui os Açores e os açorianos, naturalmente) ou estrangeira, mas sim porque a Magma passou a constituir, na sua relativamente curta existência, outro grande repositório da nossa memória colectiva, o que mais interessa sempre na escrita em qualquer uma das suas formas criativas ou ensaísticas, já para não falar no estímulo ao trabalho entre os que, apesar do seu inegável talento intelectual, raramente encontram um meio de divulgação da sua obra incipiente ou já legitimada quer pela comunidade quer institucionalmente. Para uma região que sempre se demarcou a nível nacional pela sua criação ou produção literária, mas sofre do provincianismo reinante e da lonjura das sectárias máquinas editoriais e de favores sem fim da nossa capital, só iniciativas como esta garantem a dignidade cultural do nosso povo, asseguram para as gerações vindouras os arquivos artísticos da sua própria ancestralidade geográfica, histórica, intelectual. Quem acha que isto tem importância menor, como parece ser o caso entre nós neste momento, esquece-se que a desmemória colectiva é bem-vinda e essencial à já reinante ditadura pós-moderna, ao novo fascismo engravatado que se auto-denomina de Mercados e nos corrói a todos. Um povo sem a sua voz fica coisificado e apto a ser manobrado por todos que o querem na condição de escravo. Por outro lado, a descentralização da cultura é também já um facto notável em muitos países avançados, os centros estão a virar margens ou a evoluir para comunidades de interesses outrora totalmente dominantes a partir dos grandes espaços ou cidades. Cada sociedade terá agora de garantir os seus próprios meios para se afirmar e se auto-afirmar perante os outros que partilham ou não o nosso destino. No que se refere a publicações deste género e ao diálogo a um nível superior sem nunca deixar de incluir quem deseje participar, não poderemos colocar no fim das prioridades dominadas por supostas manifestações de “cultura” no que entre nós passaram a ser festas instantâneas, com muita perna pimba e vozes sem talento em palcos estupidamente improvisados á beira-mar – a um custo, para os nossos cada vez mais limitados recursos, avassalador e cuja destruição maior tem sido também a marginalização e amordaçamento dos tradicionais rituais festivos nas freguesias rurais de todas ilhas.

“A NEO — escreveu Urbano Bettencourt no número três (2006) da Magma, por ele coordenado — publica-se em Ponta Delgada e fica muito bem aí mesmo; A Magma publica-se nas Lajes do Pico, que não são a capital ou ex-capital de coisa alguma, não têm uma ilha em frente, embora sejam o lugar de onde é possível ver a Montanha nascer das águas, como Vénus. Quer dizer, a Magma também fica muito bem onde está, sem complexos de lugar, pois, como afirmava o escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, a partir da Horta e em meados do século passado, o pior que pode acontecer a um lugar pequeno é ser, simultaneamente, tacanho”.

Magma, pois, pela sua inquestionável qualidade em cada número publicado e pela sua abrangência de temas, geografias dos nossos afectos e estilos, prestigiava como poucas outras publicações nossas a literatura dos e nos Açores. Que partia de uma pequena vila açoriana fora do triângulo do poder político regional só lhe trazia um estatuto que em Portugal será difícil de encontrar, habituados que estamos às falsas e moribundas grandezas dos “grandes” centros. Não deveríamos esquecer que a grande tradição intelectual e criativa das nossas ilhas – não sou o único a afirmá-lo — tem a sua primeira base na página impressa, quer se trate de livros, jornais ou revistas, precisamente os meios mais ignorados cá nos tempos que correm.

Magma ficará arquivada e citada por muitos outros como testemunha do trabalho intelectual sério e universalmente identitário. O resto e os autores do nada irão cair irremediavelmente no muito merecido esquecimento.

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Magma (2005-2008), fundada e dirigida por Sara Santos e coordenada por Carlos Alberto Machado, Câmara Municipal das Lajes do Pico, Pico, Açores.

 

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2 thoughts on “Magma Expulsa e Lembrada

  1. Leila Fevereiro 8, 2012 / 12:07 am

    Ter coordenado um número da MAGMA ao lado do escritor Luis Antonio de Assis Brasil foi um privilégio. Pois, a Revista como uma grande nau aproximou nossas margens e as vozes retumbantes soaram de par em par. Um mundo de ideias e sentires. A nossa história toda ali em prosa e verso. Teu ensaio traz à tona ou a lembrança a importância da Revista Magma para todos nós. Um espaço liberto. Dizes bem que ela foi expulsa. Será sempre lembrada e nunca “calada” e muito “menos fechada”. Ali estava o reconhecimento de uma literatura séria produzida nos Açores,nas comunidades e por outras latitudes a falar da alma,da vida da gente açoriana.Da geografia. Da história. Dos afetos.Poderá até ser arquivada,mas nunca esquecida.
    Obrigada Vamberto por trazeres a nossa memória coletiva a Magma que continua viva em nossa lembrança ( e bem firme ao alcance da nossa mão,nos gabinetes de trabalho,nas bibliotecas).

  2. Lélia Fevereiro 8, 2012 / 12:16 am

    Aproveito para deixar um abraço de parabéns pelos outros ensaios que estou lendo e descobrindo encantada olhares surpreendentes sobre realidades partilhadas e vivências de puro sentir como os textos que dedicas com grande sensibilidade à memória do escritor Fernando Aires e com sutileza e picardia tropical à narrativa brasileira de John Dos Passos
    Lélia

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