Cultura Para Todos Os Gostos, E Para Quem Não Tem

Todos os homens têm o direito de ser estúpidos, mas o camarada MacDonald abusa do privilégio.
Leon Trotsky sobre o ensaísta americano Dwight MacDonald

/Vamberto Freitas

As palavras citadas aqui em epígrafe desde há muito se tornaram lendárias na cultura literária modernista dos EUA. Digo “lendárias” porque ninguém sabe ao certo se foram ou não estas as palavras exactas dirigidas por carta ao grande crítico e ensaísta nova-iorquino, Dwight MacDonald, por Leon Trotsky, então já exilado no México, autor de Literatura e Revolução (1924) e uma das principais figuras intelectuais bolcheviques no seu país e no mundo, para além de todo o seu papel no triunfo da nova ordem soviética. Poderá hoje parecer surrealista a um europeu pouco informado sobre os Estados Unidos, mas a maioria dos intelectuais norte-americanos durante os anos 20-30 estava quase toda alinhada à esquerda, do estalinismo ao trotskismo. Se há uma constante temática na literatura do país será inegavelmente a desconstrução impiedosa do sistema capitalista e seus respectivos valores, muito especialmente o eufórico espectáculo de ostentação animalesca nos seus primeiros anos do pós-Grande Guerra até à sua queda aplaudida nessas mesmas páginas. Quando em Nova Iorque alguns capitalistas se suicidavam após a quebra da Bolsa em 1929, Edmund Wilson, o maior crítico literário americano do seu tempo e geração, diria simplesmente: “antes eles do que nós”. Se a ideologia que enformava as Vinhas da Ira de um John Steinbeck não seria tão facilmente detectada noutros e mais subtis modernistas, a verdade é que a crítica corrosiva aos usos e costumes reinantes bastavam para trivializar e acusar, por assim dizer, toda uma sociedade rejeitada pelos seus artistas em geral. MacDonald girava desde essa época em publicações hoje extintas que cavaram fundo um lugar no cânone cultural da nação. Depois de um começo nas revistas da potência jornalística de Henry Luce, que viria a ter como bandeira a revista Fortune (e pouco depois, a Time), sairia por vontade própria e rejeição ideológica rumo a publicações intelectuais como a Partisan Review (no começo, pertencente a um órgão do Partido Comunista), The New Yorker, Commentary, The New York Review Of Books, e Politics, que ele fundaria em 1944 e editou durante algum tempo. Rodeado na grande metrópole pelos ascendentes literatos de uma segunda geração da imigração judia do leste europeu, que viriam a ser conhecidos como os New York Intellectuals, o bravíssimo crítico e ensaísta cultural nascido em 1906 manter-se-ia vivamente presente até ao seu falecimento em 1982. O seu sentido de humor era tão implacável como as polémicas que manteve com todos à sua volta, tendo ele próprio feito questão em fazer circular a referida frase de Trotsky que lhe fora endereçada, nunca se ofendendo com outros ataques de um bom número de escritores do seu país, adorando ser provocado nos mais baixos termos. Quando certa vez um colega lhe fez notar que já tinha cedo no dia uma bebida sobre a sua secretária de trabalho, respondeu sem mais: Eu sou um alcoólico, caramba!

Hoje será mais recordado pelos seus ensaios dos anos 50-60, quando se insurge, sempre à esquerda, contra a nova condição cultural do seu país, agora dominado pela chamada contracultura das novas gerações — o alegre caleidoscópio de hippies e revolucionários de várias cores e inclinações ideológicas — demonstrando mais uma vez o seu tremendo poder de permanência e chamamento de atenção perante outros bem mais em voga naquela época. Parece haver presentemente nos EUA, no que concerne tudo o que diz respeito à cultura em geral e à literatura em particular, uma revisão teórica global do que provocou a mudança da tradicional crítica que era dominada pelos intelectuais públicos e independentes para as universidades durante as últimas décadas, subjugando as próprias obras criativas ao acto da suposta teorização, tantas vezes absurda e pretensamente “científica”, em que o prazer do texto dava agora lugar à mais conturbada e obscura prosa ensaística, caracterizada por um pseudo-jargão académico emprestado pelas ciências e não pelo saber que levava à análise textual com o biografismo e a contextualização sociocultural de cada época ou movimento literário em foco. Concomitantemente com esta vontade de uma crítica de novo legível, abrangente e dirigida à classe culta para além dos departamentos de línguas e literaturas, vemos também o regresso do realismo linear e estruturado, rejeitando as acrobacias linguísticas inconsequentes e despidas de sentido que o pós-modernismo literário, na sua primeira fase, tentou impor a leitores sem paciência para estórias mal contadas ou demasiado claustrofóbicas de narradores fechados nos seus pequenos e desequilibrados mundinhos citadinos. Jonathan Franzen, em todos os seus romances até ao recente Liberdade (Freedom), tem liderado a nova tendência, essa que anos antes havia sido pedida por Tom Wolfe, mesmo trajando os seus esquisitos fatos e sapatos brancos numa pose arrogante de diferenciação estilística.

Significativamente, acaba de ser publicado uma nova colectânea de ensaios de Dwight MacDonald intitulada Masscult and Midcult: Essays Against the American Grain, com a chancela do elitista e sempre influente The New York Review of Books. O título do livro refere o famoso ensaio de MacDonald publicado em 1960 pela Partisan Review, agora na sua fase modernista em que ainda dominava a crítica mais ou menos marxista-freudiana que tinha como referência principal a literatura europeia que os intelectuais de Nova Iorque disseminavam constantemente entre os seus leitores mais sofisticados. O antigo trotskista mantinha a sua ideologia esquerdizante, mas na cultura clamava contra a banalização não só da literatura agora consumida pelas novas classes-médias como das artes em geral. Masscult e Midcult traduzem literalmente por “cultura de massas” e “cultura mediana”. Poderia ser uma investida na defesa de uma estética pura, modernista ou não, “arte pela arte”, mas envolvia também uma componente claramente ideológica por parte de MacDonald: horrorizava-o um novo capitalismo outra vez desenfreado, que tudo apropriava, tudo simplificava, só para depois tudo vender, com a conivência de escritores sedentos de fama, celebridade e dinheiro só permitidos pelos grandes números de “consumidores”, as novas classes medianamente abastadas, medianamente educadas, e com pretensões a uma sociabilidade aparentemente erudita e bem-pensante que surgiriam com a prosperidade do pós-Segunda Guerra Mundial. Claro que MacDonald nomeia escritores e obras exemplificativas desta nova realidade cultural, mas essencialmente pedia um regresso à seriedade no acto criativo e na própria crítica apreciativa, analítica ou judicativa. A influência do seu ensaio foi imediata e perturbadora: aqui renascia a crítica da antiga esquerda cultural contra uma nova esquerda, que valorizava tudo quanto chegasse ao maior número possível de cidadãos pretensamente “sensíveis” às coisas do espírito, cujas consequências seria o contínuo rebaixamento do acto artístico em geral. Que o organizador do presente volume, Louis Menand, ele próprio um ensaísta de renome, achou por bem relançar o debate ou simplesmente relembrar que outros tempos e outras vozes existiram deve querer dizer alguma coisa sobre a nossa condição no mundo das “artes” marcadas actualmente pelo inócuo espectáculo puro e sem sentido.

Um dos ensaios mais contundentes em Masscult and Midcult, tem como título “Parajournalism, or Tom Wolfe and His Magic Writing Machine”. Uma vez mais, Dwight MacDonald investe contra o que se chamava o “novo jornalismo”, que confundia deliberadamente factos e ficção, colocando o “autor” de cada peça no centro dos acontecimentos. Por certo que Wolfe reagiu à sua maneira: tentando denegrir e desacreditar o velho ensaísta, pertencente a uma estirpe que ele, Wolfe, desejaria extinta. Não conheço outro ensaio mais pertinente para quem segue com atenção os media actuais.

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Dwight MacDonald, Masscult and Midcult: Essays Against the American Grain (Introduction by Louis Menand), New York, The New York Review of Books, 2011. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

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