Outras Narrativas Americanas

A vaidade do dólar é um sentimento tão intenso como o pode ser a vaidade do génio. Conquistar o dólar para poder desperdiçar o dólar e criar nome, arranjar fama, afirmar individualidade.

Alfredo de Mesquita, A América do Norte

/Vamberto Freitas

Comecemos aqui pela afirmação essencial: a narrativa simplesmente intitulada A América do Norte do jornalista e diplomata terceirense Alfredo de Mesquita (1871-1931) será um dos melhores livros — se não mesmo o melhor — sobre os EUA em língua portuguesa e escrito por um não-imigrante ou residente. É claro que gostos e sensibilidades não se discutem, mas a minha opinião vem fundamentada após anos de leitura de muitos volumes que os nossos escritores têm produzido sobre o grande país ao longo de décadas, desde o Mundo Novo, Novo Mundo do distinto modernista e colaborador de Salazar, António Ferro, a Cavalgada Cinzenta de Fernando Namora, com alguns outros de permeio, como Descobri Que Era Europeia de Natália Correia, América em Carne Viva de João Alves da Costa e Ida e Volta: À Procura de Babbitt de Ilse Losa. Acrescente-se aqui que de outros autores açorianos têm saído narrativas notáveis sobre a nossa outra pátria de eleição a oeste, incluindo Das Velas de Lona às Asas de Alumínio de Dias de Melo, este particularmente no que à Califórnia diz respeito. Creio ser necessário colocar uma obra em perspectiva ante as que tematicamente a antecederam ou lhe seguiram. A América, agora mais do que nunca, continua a exercer o seu fascínio sobre alguns dos nossos intelectuais, que parecem só vislumbrar Nova Iorque — porque lhes parece chique, porque Wall Street os comove e enche de amor ou raiva. No entanto, não será através da domesticada CNN ou de uma breve visita ou outra, ou ainda da leitura de um jornal ou de uma revista que poderemos ter sequer a mínima ideia ou retrato da pluralidade e complexidade daquela sociedade imensa. Por outro lado, ler as páginas de visitantes sem ler as que, também em português ou em inglês, foram e são escritas pelos nossos autores imigrantes e luso-descendentes é ter uma visão por demais limitada de um mundo que nos é de todo significante. “Paris — escreveu já então no seu tempo Alfredo de Mesquita — é a França. Portugal é Lisboa; mas Nova Iorque, só por si, muito pouco nos diz do que toda a América é”.

Alfredo de Mesquita nasceu em Angra do Heroísmo onde completou o ensino secundário e iniciou a sua carreira de jornalista. Depois da sua chegada a Lisboa tornou-se um colaborador de grandes jornais como o Diário de Notícias, e de periódicos como a revista Ocidente. A sua bibliografia inclui vários títulos, desde Portugal Moribundo a Memórias de um Fura-Vidas. Seria a sua última obra, A América do Norte, publicada originalmente em 1928 (dois antes do já referido livro em forma de diário de António Ferro), a que mais o prestigiou e que, segundo toda a informação chegada até ao nosso tempo, foi muito bem recebida pelo público leitor em geral. As datas, neste caso específico, têm grande importância. Diplomata que serviu o país nalguns consulados europeus, seria nomeado cônsul em Nova Iorque nos anos 1918-1919, tendo aproveitado praticamente todo o seu tempo para viajar por grande parte do país, não só devido à sua curiosidade inata e profissional como porque num encontro com magnatas dos caminhos de ferro estes ofereceram-lhe viagens, percursos e estadias nas rotas e cidades várias, que o levariam até São Francisco, no outro extremo do continente.

Alfredo de Mesquita apanhou por inteiro um dos grandes momentos históricos de mudanças sócio-económicas radicais, quando a América saiu da sua ruralidade quase absoluta para uma civilização industrial como resultado imediato do seu triunfo na Primeira Grande Guerra, e consequentemente no contexto de uma Europa destroçada. O autor não fala desse factor no desenvolvimento norte-americano, mas sim vira toda a sua atenção para o que ele entende ser a raiz primeira na construção da nova sociedade: uma cultura política aberta e a determinação das elites — e por osmose e exemplo, de toda a população para além da sua condição hierárquica no país — em dominar sem restrições a sua parte do continente, do Atlântico ao Pacífico. O negócio da America era, tal como mais tarde diria um dos grandes directores da indústria automóvel, o negócio, e ponto final. Desde o pioneirismo da arquitectura gigantesca dos arranha-céus à arte da publicidade de todo e qualquer produto novo ao fulgor das contínuas invenções que tornariam o dia-a-dia dos americanos cada vez mais mecanizado até ao enriquecimento e ostentação sem apologias, estavam todos a definir uma cultura nacional sem par no mundo ou na história. Ao contrário de muitos outros visitantes que mais tarde “filosofariam” sobre tudo o que “avistavam” ao longe e a grande velocidade, como Jean Baudrillard no seu América, esse que “viu” e “percebeu” logo toda aquela imensidão a partir de uma auto-estrada, nada lhe escapando aos habituais preconceitos, Mesquita limita-se a observar e a relatar um quotidiano quase sem memória das origens de cada grupo nacional, mas que se dedicava com todo o fulgor à domesticação do seu vasto espaço — o único modo de ser e estar na vida dos pioneiros e seus descendentes. Como qualquer narrativa, esta é parcial, deixando de lado muita da oposição intelectual e trabalhista que sempre batalharam a classe dominante e toda a sua ideologia em nome de outros equilíbrios societais. É possível que Mesquita tenha compreendido de imediato o estatuto demasiado minoritário dessas forças, não prevendo por isso qualquer conjuntura politica que mudasse seja o que fosse naquela América já consolidada e determinada quanto ao seu futuro. Na verdade, e em retrospectiva, o autor acertou em cheio — e creio que nada o surpreenderia se regressasse hoje à sua Europa ainda sempre Europa ou à sua América ainda sempre América. De resto, A América do Norte descreve-nos minuciosamente um pouco de tudo: natureza, cidades, casas privadas e públicas, feitos de engenharia e motores, rios e montanhas, homens, mulheres e bichos. O relacionamento dos brancos com os afro-americanos não ficou de fora, e Mesquita praticamente só enumera alguns grupos de imigrantes europeus, estranhamente, mesmo depois de chegar à Califórnia, deixando de fora os açorianos aí fixados.  É certo que na cultura fica-se quase só pelo que diverte as massas, descrevendo pormenorizadamente os teatros nova-iorquinos e as suas incríveis acrobacias de palco e extensão de cenários, mas trata-se de um europeu habituado ao enjoo elitista do seu continente e agora fascinado por uma igualdade criativa nunca vista dantes. Estava, uma vez mais, correctíssimo, foi exactamente esse e outro entretenimento que os EUA exportariam avassaladoramente para o resto do mundo. Sem outra explicação ou pretensiosismo literário e analítico de muitas outras narrativas nossas, Mesquita aviva a sua prosa descritiva e opinativa na mais escorreita e clara linguagem, sempre comparando o que vê com o que herdou e vivia no Velho Mundo.

“A nevrose da pressa — escreve num passo que exprime toda a sua visão da América e dos americanos– e a preocupação de encontrar e utilizar a forma prática definitiva de todas as coisas — ideias, movimento e actos — caracterizam o génio americano, e em tudo quanto o americano faz se juntam. Cada gesto que ele emprega, cada utensílio de que se serve, resumem quanto é possível resumir o dispêndio da expressão e da actividade. Ao contrário de nós, que somos uns perdulários da energia, o americano economiza-a ainda quando ela se apresenta sob a forma de parcelas mais infinitamente pequenas”.

A América do Norte foi republicado há alguns anos numa edição de luxo contendo em quase todas as páginas ilustrações desenhadas a preto e branco das gentes e das coisas conforme o andamento da narrativa. Para quem se interessa pelos EUA na generalidade e pela nossa presença multissecular nos pontos mais nevrálgicos de uma sociedade então em construção, o livro de Alfredo de Mesquita é um tesouro — mesmo que ideologicamente o possamos e devemos interrogar a cada passo. A grande escrita esconde sempre em si o seu próprio contraditório. A fome e a obsessão do dólar, afinal, destinam-se a repor a desmemória das origens, e sobretudo a manter perpetuamente a saudade de um futuro sempre em construção.

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Alfredo de Mesquita, A América do Norte, Lisboa, Parceria A. M. Pereira (com o apoio da FLAD), 2001.

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