Revisitação a Sorriso Por Dentro Da Noite

Com aquela nesga de conhecimentos, de uma apreensão mais viva, a Xana sentia-se escorregar gradualmente para qualquer lugar, talvez um poço de águas negras e frias, que ela própria não sabia explicar.

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

/Vamberto Freitas

 

Advertência ao leitor: estou aqui a escrever sobre o romance da minha própria mulher. A força das circunstâncias impele-me para voltar a falar da sua obra em geral, e do seu único livro de ficção, Sorriso Por Dentro Da Noite, que era para ser o primeiro de uma trilogia em volta da nossa sorte histórica cá dentro e na imigração norte-americana, também por ela vivida durante alguns anos, que incluem os seus dias felizes na City University of New York na década de 70, onde completou todo o currículo em preparação para sua tese de doutoramento, que seria defendida mais tarde já na Universidade dos Açores. Queria relembrar a todos os seus leitores que ela foi “autónoma” de mim durante quase toda a sua vida, e já era escritora antes de me conhecer, mesmo que na altura só tivesse publicado a sua tese de doutoramento, Moby Dick: A Ilha e o Mar/Metáforas do Carácter do Povo Americano (1991). Mais do que falar sobre o romance em si próprio (muitos outros o fizeram um pouco por toda a parte onde a literatura açoriana é lida e apreciada, uns em mensagens particulares que guardo com especial carinho, outros em vários jornais e revistas), quero dizer algo sobre a sua feitura durante alguns três anos, com trabalho incessante por vezes dia e noite, e agora que está a ser traduzido para o inglês nos Estados Unidos por Katherine F. Baker e John Chamberlain, dois bons conhecedores da literatura das ilhas e da Diáspora. É claro que foi escrito quase todo antes e mesmo nos primeiros tempos do aneurisma que a atingiria de modo particularmente violento, deixando sequelas muito graves, tornando o seu título, como já disse noutra ocasião, quase numa profecia da sua má sorte. A sua grande coragem foi precisamente manter esse sorriso na noite do seu destino, a sua escrita foi parte da sua batalha pela vida que, como diria um dos seus médicos em Lisboa, estava perdida mas ainda não consumada inteiramente à altura. Foi publicado em 2004, após a leitura do poeta e escritor nosso amigo Viale Moutinho (Porto), que o entregaria de imediato com uma forte recomendação de publicação à então recém fundada Editora Ausência. Quando recebemos Sorriso Por Dentro Da Noite já em forma de livro pela primeira vez a Ponta Delgada, a nossa alegria foi a mais intensa, pois ainda não suspeitávamos da gravidade do que estava para vir na vida da autora. Do conteúdo já sabia eu, mas a sua apresentação ia agora além de todas as nossas expectativas. De capa verde-escuro, com o que parecem ser nuvens ameaçadoras, — o simbolismo ameaçador, sempre, a profecia como que tomando forma visível — duas hortênsias azuis a meio de um mar agitado, assassino. As primeiras reacções não tardaram, uma vez mais, em apreciações críticas escritas nas mais variadas publicações, no Continente, nas ilhas e na imprensa de língua portuguesa na América do Norte. Onésimo T. Almeida escreveu que era uma obra única na literatura portuguesa, particularmente pela sua temática: um mergulho sustentado durante duzentas e cinquenta e tal páginas na vida órfão de uma criança açoriana, aqui de nome Xana, algures no isolamento quase absoluto de uma freguesia das ilhas nos anos 50 e 60, os anos da nossa escuridão e sangria emigrante, êxodo quase bíblico da terra e do mar, um povo escorraçado, que pode vir a repetir-se muito brevemente. O romance apresenta ou foca um olhar diferente daqueles a que nos tínhamos habituado na literatura das ilhas, e a infelicidade presente em todo o nosso país faz com que em nada, neste como na maior parte da literatura do nosso país produzida pela nossa geração, esteja ultrapassado. Quando se conhece assim a história de um povo, a sua arte permanece como memória de um tempo e como aviso, por assim por dizer, a terra simultaneamente bela e erma como palco universal da condição humana.

A nossa e/imigração é vista em Sorriso Por Dentro Da Noite não de lá para cá, mas do ponto de vista dos que ficaram e “viveram” a América através de notícias e imagens diversas trazidas na bagagem de familiares, ou enviadas de lá através ainda dos relatos mais ou menos ficcionados dos que regressavam de férias ou definitivamente. Não poderia ser uma narrativa adentro da desde há muito ultrapassada tradição estritamente “realista”, mas sim um acto tão simbólico como simbólico seriam as linguagens das aventuras (re)contadas pelos que viviam ou tinham vivido essa América em directo. Xana, naturalmente a infância reinventada da Adelaide, não fala nunca directamente, é antes observada obsessivamente por uma irmã mais velha, que narra toda a estória. O ponto de vista, uma vez mais, é simultaneamente o de uma criança com memórias desconexas mas de todo significantes, e principalmente do ponto de vista dessa narradora adulta e consciente de todo o drama vivido pela família emigrada e pelos outros que permaneceram nos Açores. Nesse processo de rememoração, não só acompanhamos a família paradigma-símbolo de toda uma comunidade isolada a meio Atlântico ou fixada nos Estados Unidos, como acontece a essencial descrição e historicidade de todo um povo com identidade muito própria. Adelaide corta aqui também radicalmente com praticamente toda a literatura açoriana da nossa geração, a que se aventurou na temática dos nossos emigrantes: de meras caricaturas unidimensionalmente recriadas em muitas das nossas páginas romanescas e de poesia, a autora apresenta-nos seres humanos na sua totalidade, na sua mais profunda essencialidade, com alma, inteligência, alegrias, tristezas, tontices e astúcia. Quase não havia dor ou consciência da sua sorte — fora das obras dos escritores e poetas luso-descendentes, que nos vêm resgatando brilhantemente dessa penumbra literária. Nesses personagens tratados e vistos por outros, havia só roupa folclórica, linguagem despedaçada, certa cegueira ideológica ante o Novo Mundo e ante os que regressavam ou permaneciam nas margens imensas mas obscuras do grande continente a oeste. Muito antes da publicação de Sorriso Por Dentro Da Noite, eu já tinha escrito sobre essas visões de alguns autores açorianos, primeiro em recensões, e depois num ensaio apresentado num dos simpósios da Universidade dos Açores, com o título de “Imagens da América e dos Imigrantes: Um Duplo Olhar”. A Adelaide neste seu romance não está tanto na companhia dos seus colegas escritores que nunca viveram a experiência americana, mas está sim com todos os escritores da Diáspora e luso-descendentes que necessariamente se ocuparam do mesmo tema, desde Onésimo T. Almeida em (Sapa)teia Americana a Katherine Vaz em Saudade e Frank X. Gaspar, principalmente em Leaving Pico (mas também em muita da sua poesia) a Francisco Cota Fagundes em Hard Knocks: An Azorean-American Odyssey e José Francisco Costa em muitos dos seus contos de Mar e Tudo. Como se sabe, alguns destes nomes pertencem também, quase todos de estatura canónica, à própria literatura açoriana contemporânea.

“Na força expressiva do seu verbo, — escreveu a poeta e crítica Ana Marques Gastão no Diário de Notícias — na fluidez da frase, na discreta modulação do ritmo, na clareza da narrativa conseguida sem grande artifício, no esboçar das personagens, umas psicologicamente mais densas, outras menos, Adelaide Freitas dá-nos um romance que, na ductilidade que oferece, conta uma história de sangue e ternura no movimento e vida interiores. Mesmo a paisagem, o horizonte visual das coisas, que reconduz o leitor ao mundo concreto, surge como transferência metafórica no recorte da figura de Xana, a menina que viveu de fora, ilha agitando-se nas vagas”.

Sorriso Por Dentro Da Noite deverá conhecer em breve, para além da tradução em curso, uma segunda edição numa editora açoriana. Adelaide publicou ainda João de Melo e a Literatura Açoriana, Regresso À Casa: Uma Proposta de Intervenção Social, Nas Duas Margens: Da Literatura Norte-Americana e Açoriana, e os dois livros de poesia De Emigração Tecido e Viagem ao Centro do Mundo. Tem sido largamente antologiada cá e no estrangeiro.

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Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

Este trabalho foi elaborado e actualizado a partir de um ensaio meu publicado em 2006.

A Literatura da Experiência Imigrante Judaica Nos EUA

Como tudo poderia ter parecido diferente se tivesse conseguido ver estas vidas a partir de dentro, a olhar para fora.

Delmore Schwartz, Nos Sonhos Começam As Responsabilidades

/Vamberto Freitas

 

Foi, para mim, umas das maiores e muito gratificantes surpresas encontrar nas nossas livrarias este Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias, de Delmore Schwartz, falecido solitariamente num quarto de hotel (aos 52 anos de idade) na cidade de Nova Iorque, em 1966. “Surpresa” porque Schwartz ficou condenado a um estatuto que ensombra na escuridão muitos outros escritores, inclusive no nosso país: são mais conhecidos de nome do que lidos, são mais comentados por tudo menos pela grandiosa obra que nos deixaram. A dinâmica que reduz um grande escritor a este limbo não será por ninguém bem entendida, mas acontece. Poderá ser, como é definitivamente este outro caso, o ter sido desbravador/a de temáticas, formas e territórios artísticos que depois foram ocupados em tempos mais propícios e já assumidos por outros. Ante o esquecimento, Delmore Schwartz agigante-se quando regressa entre alguns com a sua escrita “nova-iorquina”, tal como Dostoievsky um pouco antes com a sua longínqua literatura “moscovita”. Quando começa a publicar com mais de 20 anos de idade, foi de imediato reconhecido como um dos mais marcantes talentos surgidos do nada. Nascido em 1913, em Brooklyn, era filho de pais romenos, que haviam emigrado para os EUA na grande onda do princípio do século. A sua originalidade e contundência literária têm tudo a ver com esse facto, pessoal e colectivo. Filho americano de primeira geração, universitário que nunca acabaria o seu curso, a sua genialidade requeria outros meios e convivência criativa. O conto que dá o título ao presente volume seria significativamente publicado em 1937 no número inaugural da hoje mítica Partisan Review, a revista que se tornou no primeiro grande meio de divulgação, entre outros, dos novos escritores e intelectuais judeus que saiam dos guetos onde seus pais haviam habitado e prosperado permitindo a entrada da geração seguinte na academia do leste americano, sabendo como a sua cultura de origem valorizava a educação tanto como partida para a manutenção da tradição livresca e questionamento como para a ascensão ou demarcação de um outro lugar numa sociedade mais fechada e menos democrática do que se pensa — abertamente anti-semita, vedando aos judeus americanos o lugar académico a que tinham pleno direito. Trata-se de uma história demasiado americana que envolve todos os outros grupos nacionais ou étnicos. A luta e a persistência triunfariam até à criação tardia de uma América agora multiculturalista e por lei respeitadora de todos os mosaicos culturais.

Desculpem, mas o longo intróito é essencial ao entendimento do lugar de Delmore Schwartz na cânone literário modernista norte-americano, e como os leitores vindos de outras origens étnicas naquele país se reconhecem de imediato nas suas penetrantes palavras e beleza das suas formas ficcionais. Schwartz, cuja influência ante, e admiração dos seus pares judeus na América foi tão profunda que levaria Saul Bellow a ficcioná-lo como protagonista do romance Humboldt’s Gift (1975); foi um dos primeiros escritores com a coragem e autenticidade artística para “retratar” a experiência imigrante dos seus pais e demais comunidade situada em Nova Iorque, mas que transmitia toda a perplexidade da sobrevivência e eventual triunfo material dos que a seu favor só tinham a audácia verdadeiramente cosmopolita da diferença no meio da classe dominante e a coragem de trilhar caminhos ao lado dos que já haviam sido construídos e ocupados pelas andanças de outros. Nessa peça fundadora Nos Sonhos Começam As Responsabilidades o autor revê – prevê – o falhanço da vida em comum dos seus pais enquanto assiste a um filme como, por inferência, disseca as relações íntimas de outros numa luta pelo seu lugar e paz na nova sociedade. Uma vez mais, estão todos incluídos na sua visão de uma América em movimento, e na qual as vidas privadas e “públicas” das suas personagens levam a uma esquizofrenia comunitária inevitável, às tensões dramáticas numa teia de sobrevivência pessoal e defesa generalizada contra os que não nos entendem e pretendem não nos ver. A sua abrangência era evidente: redefinia toda uma sociedade em construção — e dava uma face aos que habitavam as margens tranquilas mas solitárias. A prosa é quase inocente, uma fotografia banal num momento qualquer das nossas vidas, o chamado realismo do quotidiano, a ausência de rancor pessoal ou social parte fundamental da sua beleza, mesmo na tradução portuguesa, os sonhos plebeus demasiado comuns virando ironia lenta e cruel ao longo da vida. Contava a felicidade e a inevitável infelicidade que seguiriam para sempre a geração seguinte, levando-os à arte para imortalizar os esquecidos fundadores das suas próprias vidas, os que os levariam à permanente busca de respostas e outro entendimento do seu lugar na vida. De vendedores e corretores de coisas, os imigrantes, aos que, a partir das margens intelectuais, dariam à América outra auto-imagem, bem menos amena da que tentavam passar a si próprios e ao restante mundo. Era a normalidade, digamos, dentro da anormalidade reinante, lá e em toda a parte, a América nada tendo de excepcional para além da sua própria fantasia de que era a Cidade na Montanha, a mítica que os judeus conheciam melhor do que ninguém.

“Afinal de contas, tem 29 anos, vive sozinho – diz o narrador de seu pai, ao imaginar um passado que nunca conheceu e só imagina agora após o desmoronamento de vidas e suas infelicidades presentes – desde os 13, está a ganhar cada vez mais dinheiro, e tem inveja dos amigos casados quando os visita na confortável segurança das suas casas, rodeados, aparentemente, pelos calmos prazeres domésticos, e por deliciosas crianças, e então, quando a valsa chega ao momento em que todos os dançarinos giram loucamente, então, então com uma audácia impressionante, então ele pede a minha mãe em casamento, apesar de bastante embaraçado e intrigado, mesmo na sua excitação, sobre como tinha chegado à proposta e ela, para tornar as coisas ainda piores, começa a chorar, e o meu pai olha nervosamente em volta, sem saber o que fazer agora e a minha soluçando…”

Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias contém narrativas igualmente conhecidas que fariam de Delmore Schwartz o escritor de referência que deveria ser o ponto de partida para a leitura de inúmeros outros autores que desde os anos 60 tratam temáticas afins nas suas obras de ficção, poesia e ensaio, os que cultivam em si pelo seu passado e cosmovisão o que o ensaísta Pico Iyer chama de Global Soul/Alma Global num dos seus livros. Em “América! América!” Schwartz desenha um brilhante “retrato” que me podia levar a pensar que se trata de personagens portugueses naquelas paragens a contar as venturas triunfantes como justificação da sua inteligente decisão – ou por força das circunstâncias-outras – a deixar lavados em lágrimas o seu berço natal. Aliás a expressão, que se tornaria comum quando falamos da vida americana, tanto tem de espanto como de lamento. Aqui, cada dúvida existencial é sempre respondida por personagens “inocentes” com o argumento da “grandeza” da vida próspera e tranquila (only in America/só na América carrega em si a mesma ambiguidade) na maior das cidades onde os extremos da diversão e da indiferença humana convivem em cada rua e bairro, onde o brilho das luzes nocturnas na Baixa só relembra a quase todos os seus supostos falhanços, alimentado os sonhos adolescentes de fama e glória, como na canção New York, New York. Salve-nos a certeza, como outros já escreveram, de que a América é muito mais do que isso, e muito pouco representada pela experiência urbana de Manhattan que actualmente parece seduzir todos os provincianos com desejos desproporcionais.

Delmore Schwartz foi um dos primeiros grandes desconstrutores da, uma vez mais, excepcionalidade da sua história familiar e “nacional”. Deu a notícia, nem sempre evidente, do que nos é comum para além da geografia e de supostas tradições.

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Delmore Schwartz, Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e Vasco Teles de Menezes, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2011.

 

Rubem Fonseca, Ou A Estética Literária Nos Subterrâneos

É naquilo que a tua natureza tem de selvagem que estabeleces o melhor da tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade.

Rubem Fonseca, Bufo & Spallanzani

/Vamberto Freitas

 

Serão muito poucos os grandes escritores da literatura mundial contemporânea que desfrutam de um estatuto tão único e provavelmente tão invejável como o brasileiro Rubem Fonseca, o autor dos incomparáveis romances “policiais” na língua portuguesa. Poderão tentar, mas é inimitável, nele coexistem perfeitamente o talento inato com a destreza técnica ou formal na composição das mais belas frases e parágrafos no idioma dos seus mais antigos antepassados, quer em Portugal quer no seu país. Aliás, Fonseca, carioca de gema, hoje já na casa dos oitenta anos de idade, é filho de pais portugueses continentais, e a sua memória ancestral nunca se diluiu por entre a balbúrdia histórica da Cidade Maravilhosa, tendo como referências literárias desde a meninice os clássicos lusos — começando naturalmente com Camões — tal como os grandes mestres brasileiros e do restante mundo. Ler Rubem Fonseca é rever insistentemente a realidade urbana moderna como nada mais do que continuação da tragédia humana universal, só que agora colorida, por assim dizer, pelas vivíssimas cores tropicais e pelos distintos sons da natureza e da arte que singularizam um dos mais velhos países do Novo Mundo, no qual partilham, nem sempre pacificamente, o nativismo com o europeísmo e outras culturas que lá se misturaram ao longo dos séculos, o tropicalismo transfigurado na escrita cuja brutalidade contém ou é a sua própria beleza apaziguadora, reafirmando o valor da vida humana na sua infeliz condição. Em Rubem Fonseca como que temos na mesma mente um Charles Bukowski no seu melhor e sem vergonha alguma e um T. S. Eliot na sua absoluta e estudada pose de seriedade, mas também poeta e teorizador tanto da Tradição como do gozo artístico em qualquer uma das suas facetas. A partir d’A Grande Arte e Agosto que Rubem Fonseca se tornou num dos maiores romancistas da nossa língua, Prémio Camões (2003) e candidato anterior ao Nobel, finalmente a ser publicado em Portugal com regularidade. Ainda há poucos dias foi homenageado na Corrente d’Escritas da Póvoa de Varzim, com especial destaque para o livro aqui em foco, Bufo & Spallanzani.

Como sempre na sua obra, acontece em Bufo & Spallanzani um crime brutal, morte inexplicada e inesperada, mobilizando de imediato o famoso detective Mandrake, de  seu nome Paulo Guedes, de meia idade e mais do que consciente das suas próprias falhas e incumprimentos gerais, pouco atento à aparência pessoal mas hiper-ligado a tudo o que se passa em sua volta, calculista e calculador de olhos abertos para o que der e vier — “não cabia a ele, policial, nenhum julgamento de valor acerca da ilicitude do fato” — mesmo dos mais improváveis personagens que pululam nas sua páginas, todos em busca solitária de um compensador nicho no paraíso infernal que é o Rio de Janeiro da modernidade, o postal montanhoso contendo dentro de si toda a fealdade de que somos — a primeira pessoa no plural é uma expressão deliberada aqui, pois um texto romanesco ou poético a todos nós se dirige, ou então não vale nada — capazes de ensaiar e projectar nas outras vidas em volta, que existem sempre entre a realidade e a ficção, fora e dentro da obra imaginada. Apesar do que afirma sobre o seu distanciamento dos “factos” que é levado a investigar, no fundo é um moralista cívico (“o policial negligente está a um passo do cinismo. O cínico a um passo da corrupção”) que dedica a sua vida a desmontar as mais mortíferas redes e teias urdidas onde os infelizes são apanhados, a virtude ou o acto assassino podendo vir do mais baixo ao mais alto escalão social. É nessa abrangência e tumulto vindo de qualquer quadrante profissional ou hierárquico que tornam os romances do autor num expansivo retrato da condição humana, por ele vista e vivida na sua sociedade de contornos simultaneamente muito próprios mas na qual, para além de geografia, cultura ou estação de vida, nos podemos também ver reflectidos nos desejos e anseios, na bondade e na perfídia projectadas na recriação imaginativa destes outros mundos e afazeres.

Bufo & Spallanzani abre com a morte de Delfina Delamore, de origem humilde mas casada com um dos mais ricos empresários da cidade, com hipóteses de suicídio ou morte às mãos do escritor de nome Gustavo Flávio que com ela havia mantido uma relação amorosa e agora narra toda a estória na primeira pessoa, ou então a mandado do marido traído. A genialidade de Rubem Fonseca é tornar uma morte na questão secundária enquanto a voz narrativa encena os percursos de vida de todos os envolvidos na segunda investigação e os que com ele partilham o mundo à superfície e na cama. Poderá ser este o antigo formalismo da melhor literatura policial, mas com Fonseca somos apresentados a toda a tradição literária e artística através de citações (incluindo música e artes plásticas) do Ocidente, o narrador convocando uma lista imensa de nomes e obras cuja força polissémica tanto esclarece como complica o que se torna numa visão universalizada da história e a humanidade a braços com os seus impulsos, vontades e medos contraditórios a cada dia, o estatuto social de cada um parte determinante do estado de alma nos subterrâneos em que existe e opera todo o tipo de ilicitude, ou então na maior brincadeira literária (“Como você sabe, não consigo escrever à mão, como deveriam os escritores, segundo o idiota do Nabokov”). Frase a frase, parágrafo a parágrafo, página a página a prosa do autor é simultaneamente de uma viveza e ponderação sem igual. O romance aqui é infinitamente mais do que policial, como aliás Rubem Fonseca já tinha demonstrado na obra-prima que é Agosto, todo ele em volta do assassínio de um empresário durante os últimos dias e eventual suicídio de Getúlio Vargas em 1954: literatura, política, crime e sociedade num quadro negro onde por detrás espreita, sempre, um mínimo de luz redentora. Creio não ser possível a um leitor sério ler um livro de Fonseca sem querer de imediato devorar toda a sua vasta obra — e ficar logo à espera do que virá a seguir.

Felizmente, pela ocasião da sua recente passagem pela Póvoa de Varzim, como já foi aqui referido, o autor mereceu mais uma vez e muito justamente toda a atenção crítica no nosso país, o JL lisboeta tendo dedicado uma das suas capas e uma larga secção das suas páginas ao autor carioca. O seu olhar nas fotos parece transmitir a dureza da sua cosmovisão, mas não a leveza bela e significante das suas palavras, muito menos o cidadão que se passeia serenamente nas ruas do Rio, o cidadão profundamente atento à condição humana nas mais diversas versões no seu e noutro qualquer país.

Rubem Fonseca sai ocasionalmente da ficção para a escrita ensaística, e aí temos igualmente as reflexões — ou mesmo teorização — da arte da escrita sem fronteiras do e no nosso tempo, algumas das suas viagens e experiências entre outros povos e línguas. Nos ensaios variados de O Romance Morreu (a ironia é óbvia, vinda de quem o pratica à grande escala) Rubem Fonseca começa logo por desmontar o que de vez em quando anunciam os exaustos e arrogantes, que já não tendo mais nada a oferecer à arte assumem que o mundo desabou para todos.

“Muito antes de publicar o meu primeiro livro — escreve o autor — eu já ouvia dizer que o romance, a literatura de ficção estavam mortos. Parece que a primeira morte teria sido anunciada ainda em 1880 não obstante, como todos sabem, Emily Dickinson, Tchekhov, Proust, Joyce, Kafka, Maupassant, Henry James, o nosso Machado, Eça, Mallarmé, as Bronte, Fernando Pessoa (um pouco mais tarde) estivessem ativos naquela época”.

O romance não morreu, pois. Pelo contrário, a própria obra de Rubem Fonseca continua a fazer parte de um contínuo e dinâmico momento na ficção um pouco por toda a parte, de que faz parte especial este Bufo & Spallanzani.

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Rubem Fonseca, Bufo & Spallanzani, Sextante Editora/Porto Editora, Lda., 2011.

Em Breve de Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada.

 (Carregar aqui para ver capa)  BorderCrossings_3

Prefácio

/Vamberto Freitas

O presente volume vem no seguimento do meu Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho (2010), no qual abordei a emergente literatura de luso-descendentes na América do Norte, os que (nos) escrevem em língua inglesa mas frequentemente recorrendo a temas ancestrais e da nossa experiência imigrante e étnica naquelas sociedades durante todo o século passado. Nesse mesmo livro estão ainda incluídos alguns dos mais conhecidos escritores imigrantes que desde sempre nos deram conta da nossa vida nesse mesmo país, pois a literatura da Diáspora tem de conjugar essas duas línguas, que são os signos da na história e arte no que aos açorianos diz respeito. Neste BorderCrossings, regresso ainda à Literatura Açoriana dos nossos dias assim como à da Diáspora, também incluindo aos textos e produção poética da primeira geração (os que escrevem na nossa língua), necessariamente continuando a dar a sistemática atenção que merece e continuará a merecer a escrita dos nossos descendentes nos Estados Unidos e no Canadá. Por outro lado, e num regresso aos meus estudos iniciais nos EUA e por circunstâncias que mais tarde me levariam em pessoa ou através da literatura ao Brasil e a algumas das nossas comunidades lá espalhadas, especialmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e mesmo no Rio de Janeiro, comecei a escrever sobre esta área literária que nos “completa” a nós portugueses em geral, e, neste caso, uma vez mais, a nós açorianos em particular.

Creio ser esse o fio condutor deste atravessar de fronteiras em busca de beleza e “verdade” literária que nos diz, rediz e nos reinventa numa já longa história de andanças no outro lado do Atlântico. De resto, a literatura norte-americana em geral e aquela que também envolve de vários modos esse meu caminhar, uma vez mais, por “fronteiras” que nos são comuns e parte das nossas vivências e convivências históricas, marcam um lugar nestas páginas: desde uma narrativa “brasileira” de John Dos Passos ao romance simplesmente intitulado Brazil do americaníssimo John Updike, recentemente reeditado entre nós. Trata-se de um olhar sobre o nosso país-irmão, e que não poderia deixar de completar estes imaginários múltiplos de pátrias reais e sentimentais nossas.

Por fim, espero que o eventual leitor destes ensaios que fazem parte da minha própria narrativa dos nossos mundos comuns e íntimos, aqui e além-fronteiras, vistos através da literatura e de outros textos, alargue o que habitualmente se reduz a compartimentos e segmentações académicas que já não fazem sentido. Não sei se ainda existem ou não literaturas “nacionais”. Um povo historicamente andarilho como o nosso só poderá ser entendido e apreciado na multiplicidade de textos, em qualquer língua —  esses textos que recuperam e integram os nossos arquivos criativos, a memória indelével de termos sido e pertencido às mais distantes e díspares geografias do nosso destino e afectos.

Ponta Delgada

Março de 2012

 

 

The New Yorker, Ainda E Sempre

Seja como for, assim são as coisas aqui na ‘The New Yorker’. Olhando para trás ou para a frente, não as quereria de outra maneira.

Brendan Gill, Here At The New Yorker

/Vamberto Freitas

As palavras citadas aqui em epígrafe foram tiradas de Here At The New Yorker, de Brendan Gill, publicado em 1975, pela ocasião do quinquagésimo aniversário da revista burguesa mais delicadamente atrevida da América. Gill, falecido em 1997, foi um dos seus mais distintos escritores-redactores, tendo publicado ao longo da sua carreira em praticamente todas as secções do periódico, desde a secção de má-língua “Talk of the Town”, que abre as suas páginas semanalmente, a contos, poemas, crítica e grandes reportagens. Estes pormenores são importantes, pois ninguém fora da revista conhece exactamente a sua dinâmica interna, mas os muitos autores que sobre ela têm escrito grossos livros dependem desses sinais subtis. Tudo isto faz parte do charme discreto de The New Yorker, sempre pronta a brincar suavemente com os usos e costumes da sua cidade e seus habitantes de bem, sempre pronta a rever o estado da política no país sem nunca questionar a ideologia por detrás dela, assim como questiona ou denuncia algumas das figuras institucionais mais influentes e respeitadas no seu país. Portas adentro exige e pratica o silêncio absoluto dos seus escritores (e escritores são quase todos eles, nunca só “jornalistas” ou mesmo “redactores”), os que permanecem nos seus misteriosos cubículos por vidas inteiras, mesmo quando mentalmente bloqueados por anos e anos, de caneta ou teclado na mão à espera da frase certa e lapidar, da ideia congregadora do próximo texto. Tudo isto faz parte, uma vez mais, da mítica sem igual de uma das poucas publicações que nos EUA já tem mais história e histórias do que qualquer um dos grandes romances que um dia foram alvo da sua crítica demolidora ou de louvores que para sempre consagraram os seus autores. Aliás, será uma das poucas e velhas publicações que todos os anos, mesmo que o seu conteúdo nada tenha a ver com o tema, comemora o seu próprio aniversário relembrando os seus leitores da efeméride com uma frase em destaque na capa (“The Anniversary Issue”) e o seu símbolo identificador em todo o seu esplendor — o boneco inicial representando o que parece ser a memória da insipidez aristocrática do passado britânico com a irreverência cómica do mesmo olhando agora com igual sobranceria todas as maldades e espantos da nova civilização, a que deram o nada menos estranho mas de todo expressivo nome de Dandy Eustace Tiley. Emolduram as suas capas mais distintas para vender através da sua própria loja virtual. É difícil dizer se se trata de arrogância pura e dura, ou da confiança na indisputável lealdade dos seus leitores — provavelmente, e em porções iguais, as duas coisas. Com a mesma displicência que na minha juventude americana eu e alguns outros colegas na faculdade comprávamos a Playboy com a esfarrapadíssima desculpa de que era pela sua famosa entrevista a escritores ou a outras figuras nacionais em cada número, outros compravam e compram a The New Yorker pelos seus nada menos aliciantes cartoons espalhados aleatoriamente pelas suas páginas — raramente “políticos”, quase sempre inócuos, mas de um humor tanto devastador como inocente sobre o amorfo quotidiano público ou privado de ricos e pobres em Manahattan. A verdade é que a revista publica semana a semana a mais viva prosa em todos os géneros, a sua elegância também enroupada na certeza dos seus factos ou na beleza da palavra criativa, em que um único erro do revisor, em qualquer dos casos, poderá suscitar indizíveis noites em branco e vergonha sem redenção no anonimato dos corredores da sua sede num grande edifício da baixa nova-iorquina.

O número inaugural de The New Yorker saiu a 21 de Fevereiro de 1925, e foi fundada por Harold Ross (que a dirigiu até ao seu falecimento em 1951) e a sua esposa, Janet Grant, que havia sido jornalista do The New York Times. Toda a sua originalidade nasceu da visão única de Ross e de alguns pouquíssimos colaboradores no seu nicho, duradoura prosa expressiva da atitude de que a restante sociedade poderia ser imperfeita (e em poucos anos cairia de podre pelo toque do sino sinistro e assustador a poucos quarteirões na Wall Street), mas a classe média bem formada e bem pensante deveria dedicar-se ao melhor que das ruínas sobressaia e fazia da vida um acto de inteligência, sensibilidade e bom gosto. Cada escritor convidado para qualquer uma das suas rubricas, famoso ou não, teria de dar provas de si para além de qualquer dúvida do “editor” de secção responsável por aceitar a sua escrita, desde a ficção e poesia à crítica geral das artes ou à reportagem sobre qualquer tema que influía na vida pública da nação ou do mundo. A consideração primeira fundamentava-se em critérios simples mas de uma estreiteza absoluta: viveza na arte de contar uma estória por parágrafos ou versos, a verdade inquestionável dos factos como base de afirmações subjectivas, controversas ou mesmo pacíficas. O leitor não poderia nunca duvidar da legitimidade de qualquer texto, quer do seu brilhantismo artístico quer da sua pertinência pública. Foi a época em que o jornalismo e a literatura ainda tinham redutos íntimos e individualizados, e nos quais uma decisão editorial não poderia submeter-se a qualquer consideração dos departamentos comerciais, mesmo que estes fossem, como ainda são, responsáveis pela viabilização financeira do projecto. Em volta de cada número, pois, reunia-se como que uma família intelectual, nomes seleccionados sob critérios que hoje já pouco têm a ver com a qualidade do texto, mas antes com a figura em causa e o seu estatuto em certos meios.

Por certo que a academia superior raramente a citava ou cita ante os seus alunos de línguas e literaturas, mas páginas sem rodapé ou bibliografia, mesmo que nunca consultada e por vezes fabricada, pouco vale nesses meios supostamente hiper-especializados e sobretudo receosos de que outros os superem no saber e talento. Para esse reconforto intelectual, apareceria já nos anos 60 a circunspecta The New York Review of Books, agora sim, cada ensaio crítico assinado por um nome de imediato reconhecido naqueles meios, a prosa sempre seguida das respectivas notas e citações que, também supostamente, reforçam a “credibilidade” do seu autor. Uma lista dos grandes escritores que começaram a publicar na revista, ou outros que dela nunca necessitaram mas eram convidados a estar presentes numa ou noutra edição, encheria um livro inteiro. Quando George Steiner (que eventualmente publicaria um dos melhores ensaios sobre Fernando Pessoa na revista) foi convidado a ocupar o lugar de crítico literário que havia pertencido a Edmund Wilson desde os anos 40 até à sua morte em 1972, alguém lhe deu as boas-vindas, e disse-lhe que doravante seria dono da cadeira do grande senhor das letras americanas, Steiner respondeu que nem ele nem ninguém poderia substituir Wilson e a grandeza dos seus ensaios. Foi sincero – e estava mais do que certo. Ao lado de Wilson a lista inclui praticamente todos os escritores e ensaístas que definiram o Modernismo norte-americano em todas as artes, desde a literatura ao cinema. Muitos deles ainda não são conhecidos em Portugal, mas no mundo anglo-saxónico são as figuras centrais de toda uma cultura que tem a língua inglesa como pátria mundial.

The New Yorker sofreria na pós-modernidade dos nossos tempos a doença que tudo corrói, que tudo está amordaçando – o domínio dos malditos e obscuros Mercados, o predomínio das finanças sobre a cultura e a identidade dos povos, a concentração das grandes e históricas publicações em grupos poderosos, de todo dominantes. The New Yorker pertence desde há alguns anos à multinacional de imprensa periódica, Condé Nast. Certa passividade actual é disso um sintoma claríssimo, mesmo que continue a chamar a si, como chama neste seu número comemorativo, escritores como Michael Chabon (The Mysteries of Pittsburgh) e Jonathan Franzen (Freedom).

De certo modo, tem sido feita a vontade a Brendan Gill – muito permanece como sempre ele desejou, dentro dos opressivos limites dos nossos bravos tempos.

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The New Yorker, The Anniversary Issue, Feb. 13 &20, 2012, NY, New York. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

Quando Um Filho…

Quando Um Filho Escreve Sobre Dois Pais Famosos

Ao escrever sobre tudo isto, renovei as minhas próprias memórias enquanto, espero, contribuindo para perpetuar a deles.

Reuel K. Wilson, To The Life of The Silver Harbor

/Vamberto Freitas

Suponho que o nome, Reuel K. Wilson, que assina a epígrafe e o título do livro aqui apresentado, To The Life Of The Silver Harbor: Edmund Wilson and Mary McCarthy on Cape Cod, não será conhecido (ou pelo menos não muito conhecido fora dos estudos anglo-americanos nas nossas universidades) em Portugal, como aliás não o será nos próprios Estados Unidos fora de um reduzido círculo de leitores académicos e entre a classe culta. Só que para quem se interessa entre nós pela literatura moderna norte-americana, trata-se de umas memórias por demais pertinentes: Reuel Wilson, ele próprio um professor universitário especializado em literatura comparada e falante de várias línguas, inclusive a nossa, é filho de Edmund Wilson, falecido em 1972, e de Mary MacCarthy, falecida em 1989, ambos dois dos mais marcantes escritores do seu país durante boa parte do século passado — ele como crítico e ensaísta, ela particularmente como ficcionista e polemista, uma das primeiras figuras da já mítica revista Partisan Review, fundada a início dos anos 30 e extinta em 2003. Edmund Wilson muito provavelmente virá a ser considerado o crítico canónico do seu tempo e geração, tendo o primeiro sinal sido por Harold Bloom no seu famoso e largamente conhecido Cânone Ocidental; Mary McCarthy pelos romances The Oasis, The Group e sobretudo A Charming Life, todos retratos hiper-críticos e satirizantes do seu tempo e geografias íntimas e dos mais diversos escritores à sua volta, quase todos famosos pelas suas obras e lugar adentro dos grupos literários que giravam primeiro em volta de Nova Iorque a partir dos anos 20, e depois espalhados por pequenas comunidades de elite, constantemente viajando entre o seu país e a Europa.

Não será por enquanto este o espaço e o momento de que falarei de Edmund Wilson e a sua importância crítica na cultura literária modernista nos Estados Unidos, mas sim da sua relevância como exemplo de certa vivência de uma figura, ou figuras, que marcaram indelevelmente de como ainda hoje lemos e entendemos alguns dos mais conhecidos escritores daquele país. Por certo que estas memórias do seu filho não focam esse aspecto do legado do seu pai, mas sim de como ele o conheceu diariamente na intimidade familiar e ante a realidade de pais separados que combinavam a obsessão do seu trabalho intelectual e artístico com o bem estar dos seus mais próximos. Só num olhar pelo retrovisor adulto da vida Reuel Wilson reconhece a fama e a importância do crítico em casa, descrevendo agora hábitos e rituais diários na pequena comunidade de Wellfleet na ponta de Cape Cod, para onde Wilson se tinha mudado definitivamente em 1941, torrão-pátrio de pequenas comunidades portuguesas oriundas do continente e das ilhas, facto registado mais do que uma vez neste seu livro. Mary MacCarthy seria a sua terceira esposa, de 1938 a 1945, e mãe do autor de To The Silver Harbor, num tempo que atravessa a Segunda Guerra Mundial, mas que no nicho privilegiado destes escritores bem sucedidos pouco determinou o rumo dos dias e do trabalho entre mãos, trovões distantes e do Holocausto, chacina em que os europeus davam continuidade aos seus mais antigos hábitos de tribos armadas e extremamente perigosas. Mesmo na obscura Wellfleet e arredores já havia refugiados tanto da revolução soviética como da conflagração hitleriana, Wilson oferecendo conforto a figuras como Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, romance mais do que incensado até aos nossos dias mas ante o qual Wilson se manteve indiferente até ao fim, sem que por isso deixasse de dar a mão amiga em Nova Iorque pela sua publicação.

Depois de Mary MacCarthy, Edmund Wilson casou-se logo de seguida com Elena Mumm Thornton, filha de aristocratas europeus (germânicos) que haviam feito fortuna em Joanesburgo com vinhos finos, e que havia de acarinhar e proteger Wilson até à sua morte, mesmo por entre o alcoolismo funcional deste, as suas não menos lendárias infidelidades e explosões irracionais de levar um santo ao inferno. Wilson escrevia todos os dias das dez da manhã às três da tarde, quando parava para se passear na praia e nos lagos circundantes, conviver com outros escritores e intelectuais, sempre vindimando informação que lhe seria útil a qualquer projecto entre mãos ou no futuro, nunca condescendendo perante a mediocridade à sua volta, e depois retirando-se para que antes do jantar desse início ao seu outro ritual diário: começar a beber a garrafa de whisky Johnny Walker Red Label que consumia diariamente até ao fim, antes e depois do jantar. Para com os filhos, era o pai exemplar: lia ou inventava estórias de adormecer, falava-lhes dos objectivos escolares a que deveriam dedicar-se, fazias-lhe rir com os seus malabarismos de magia e de cartas, ou com os famosos bonecos Judy e Punch, que manipulava num prazer sem divisão entre adulto e criança. A biblioteca multicultural e linguística que o filho viria eventualmente a herdar não só lhe deu algum dinheiro, como lhe tinha antes proporcionado o exemplo vivo e actuante de uma vida dedicada às letras e à cultura, com a maior seriedade e consequência. É claro que tanto Reuel como uma outra meia-irmãe, Rosalind, fariam directa ou indirectamente carreira no mundo da escrita e das artes, a sua felicidade magoada agora como que justificada pelos anos de alta tensão e crises familiares sucessivas. O amor aqui não vinha sem preço, nunca, vinha com uma combinação de disciplina férrea e dissipação quase mortífera, a prova de uma sobrevivência de cada dia simultaneamente terna e dura. Nestas admiráveis memórias de Reuel não existe ressentimento, tenta-se desculpar os excessos menos felizes, e engrandecer o quotidiano de pais que tinham de lutar contra demónios que agitam as consciências criativas, pregando moralidade pública, que só mais tarde sabemos contradizer infindáveis actos privados menos recomendáveis e perigosos.

Mary MacCarthy, uma das outras grandes senhoras da literatura do nosso tempo, seguiria a sua notável carreira, e nalguns romances disfarçava Wilson como um “monstro”. Tinha alguma razão, mas nunca perdeu o respeito pelo homem que havia feito dela uma ficcionista que ainda hoje perdura no cânone literário americano — mesmo que um dia Wilson a tenha trancado num quarto com a ordem de ela produzir um conto legível antes de voltar a sair, e deixar a crítica que ela escrevia desde os dias da Partisan Review (que Wilson chamava depreciativamente Partizainsky Review, pelas origens comunistas da revista) e que ele considerava insuficiente. Wilson, por sua vez, retirar-se-ia parte do ano para uma pequena aldeia no norte do estado de Nova Iorque, Talcottville, para uma casa muito antiga que ele visitara com os pais na sua infância e herdaria da mãe. Escreveu até à morte, mas estava cansado do mundo de escritores, até dos que povoavam durante o verão a pequena vila de Cape Cod em Massachusetts. Adorava estar com gente local, os que de literatura nada sabiam. Escreveu aí sobre todos eles e sobre a sua vida de cavalheiro rural num memorável livro autobiográfico, Upstate: Records and Recollections of Northern New York. O cosmopolita autêntico que havia introduzido o modernismo da geração europeia e do seu próprio país regressava agora à sua mais íntima essência e ao renovado sentido de vida. O antigo e mais respeitado crítico da The New Yorker já não queria conviver com mais ninguém a não ser com os seus vizinhos do campo e das coisas bem mais simples. O círculo de Edmund Wilson fechava-se na totalidade do seu ser e da sua melancolia. Foi também o primeiro a escrever sobre as culturas e literaturas minoritárias, desde o Haiti aos nativo-americanos Zuni e Iroquois. Conhecia vários idiomas, até mesmo o hebraico. O filho gaba-se neste seu livro de falar outras línguas que ele nunca quis aprender — como o Português. Wilson tinha-se arrependido mais tarde porque desejava ler Eça de Queirós no original. Manteve até ao fim a sua amizade mais sincera e duradoura com John Dos Passos.

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Reuel K. Wilson, To The Life Of The Silver Harbor: Edmund Wilson and Mary MacCarthy on Cape Cod, Hanover and London, University Press of New England, 2008. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.