Quando Um Filho…

Quando Um Filho Escreve Sobre Dois Pais Famosos

Ao escrever sobre tudo isto, renovei as minhas próprias memórias enquanto, espero, contribuindo para perpetuar a deles.

Reuel K. Wilson, To The Life of The Silver Harbor

/Vamberto Freitas

Suponho que o nome, Reuel K. Wilson, que assina a epígrafe e o título do livro aqui apresentado, To The Life Of The Silver Harbor: Edmund Wilson and Mary McCarthy on Cape Cod, não será conhecido (ou pelo menos não muito conhecido fora dos estudos anglo-americanos nas nossas universidades) em Portugal, como aliás não o será nos próprios Estados Unidos fora de um reduzido círculo de leitores académicos e entre a classe culta. Só que para quem se interessa entre nós pela literatura moderna norte-americana, trata-se de umas memórias por demais pertinentes: Reuel Wilson, ele próprio um professor universitário especializado em literatura comparada e falante de várias línguas, inclusive a nossa, é filho de Edmund Wilson, falecido em 1972, e de Mary MacCarthy, falecida em 1989, ambos dois dos mais marcantes escritores do seu país durante boa parte do século passado — ele como crítico e ensaísta, ela particularmente como ficcionista e polemista, uma das primeiras figuras da já mítica revista Partisan Review, fundada a início dos anos 30 e extinta em 2003. Edmund Wilson muito provavelmente virá a ser considerado o crítico canónico do seu tempo e geração, tendo o primeiro sinal sido por Harold Bloom no seu famoso e largamente conhecido Cânone Ocidental; Mary McCarthy pelos romances The Oasis, The Group e sobretudo A Charming Life, todos retratos hiper-críticos e satirizantes do seu tempo e geografias íntimas e dos mais diversos escritores à sua volta, quase todos famosos pelas suas obras e lugar adentro dos grupos literários que giravam primeiro em volta de Nova Iorque a partir dos anos 20, e depois espalhados por pequenas comunidades de elite, constantemente viajando entre o seu país e a Europa.

Não será por enquanto este o espaço e o momento de que falarei de Edmund Wilson e a sua importância crítica na cultura literária modernista nos Estados Unidos, mas sim da sua relevância como exemplo de certa vivência de uma figura, ou figuras, que marcaram indelevelmente de como ainda hoje lemos e entendemos alguns dos mais conhecidos escritores daquele país. Por certo que estas memórias do seu filho não focam esse aspecto do legado do seu pai, mas sim de como ele o conheceu diariamente na intimidade familiar e ante a realidade de pais separados que combinavam a obsessão do seu trabalho intelectual e artístico com o bem estar dos seus mais próximos. Só num olhar pelo retrovisor adulto da vida Reuel Wilson reconhece a fama e a importância do crítico em casa, descrevendo agora hábitos e rituais diários na pequena comunidade de Wellfleet na ponta de Cape Cod, para onde Wilson se tinha mudado definitivamente em 1941, torrão-pátrio de pequenas comunidades portuguesas oriundas do continente e das ilhas, facto registado mais do que uma vez neste seu livro. Mary MacCarthy seria a sua terceira esposa, de 1938 a 1945, e mãe do autor de To The Silver Harbor, num tempo que atravessa a Segunda Guerra Mundial, mas que no nicho privilegiado destes escritores bem sucedidos pouco determinou o rumo dos dias e do trabalho entre mãos, trovões distantes e do Holocausto, chacina em que os europeus davam continuidade aos seus mais antigos hábitos de tribos armadas e extremamente perigosas. Mesmo na obscura Wellfleet e arredores já havia refugiados tanto da revolução soviética como da conflagração hitleriana, Wilson oferecendo conforto a figuras como Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, romance mais do que incensado até aos nossos dias mas ante o qual Wilson se manteve indiferente até ao fim, sem que por isso deixasse de dar a mão amiga em Nova Iorque pela sua publicação.

Depois de Mary MacCarthy, Edmund Wilson casou-se logo de seguida com Elena Mumm Thornton, filha de aristocratas europeus (germânicos) que haviam feito fortuna em Joanesburgo com vinhos finos, e que havia de acarinhar e proteger Wilson até à sua morte, mesmo por entre o alcoolismo funcional deste, as suas não menos lendárias infidelidades e explosões irracionais de levar um santo ao inferno. Wilson escrevia todos os dias das dez da manhã às três da tarde, quando parava para se passear na praia e nos lagos circundantes, conviver com outros escritores e intelectuais, sempre vindimando informação que lhe seria útil a qualquer projecto entre mãos ou no futuro, nunca condescendendo perante a mediocridade à sua volta, e depois retirando-se para que antes do jantar desse início ao seu outro ritual diário: começar a beber a garrafa de whisky Johnny Walker Red Label que consumia diariamente até ao fim, antes e depois do jantar. Para com os filhos, era o pai exemplar: lia ou inventava estórias de adormecer, falava-lhes dos objectivos escolares a que deveriam dedicar-se, fazias-lhe rir com os seus malabarismos de magia e de cartas, ou com os famosos bonecos Judy e Punch, que manipulava num prazer sem divisão entre adulto e criança. A biblioteca multicultural e linguística que o filho viria eventualmente a herdar não só lhe deu algum dinheiro, como lhe tinha antes proporcionado o exemplo vivo e actuante de uma vida dedicada às letras e à cultura, com a maior seriedade e consequência. É claro que tanto Reuel como uma outra meia-irmãe, Rosalind, fariam directa ou indirectamente carreira no mundo da escrita e das artes, a sua felicidade magoada agora como que justificada pelos anos de alta tensão e crises familiares sucessivas. O amor aqui não vinha sem preço, nunca, vinha com uma combinação de disciplina férrea e dissipação quase mortífera, a prova de uma sobrevivência de cada dia simultaneamente terna e dura. Nestas admiráveis memórias de Reuel não existe ressentimento, tenta-se desculpar os excessos menos felizes, e engrandecer o quotidiano de pais que tinham de lutar contra demónios que agitam as consciências criativas, pregando moralidade pública, que só mais tarde sabemos contradizer infindáveis actos privados menos recomendáveis e perigosos.

Mary MacCarthy, uma das outras grandes senhoras da literatura do nosso tempo, seguiria a sua notável carreira, e nalguns romances disfarçava Wilson como um “monstro”. Tinha alguma razão, mas nunca perdeu o respeito pelo homem que havia feito dela uma ficcionista que ainda hoje perdura no cânone literário americano — mesmo que um dia Wilson a tenha trancado num quarto com a ordem de ela produzir um conto legível antes de voltar a sair, e deixar a crítica que ela escrevia desde os dias da Partisan Review (que Wilson chamava depreciativamente Partizainsky Review, pelas origens comunistas da revista) e que ele considerava insuficiente. Wilson, por sua vez, retirar-se-ia parte do ano para uma pequena aldeia no norte do estado de Nova Iorque, Talcottville, para uma casa muito antiga que ele visitara com os pais na sua infância e herdaria da mãe. Escreveu até à morte, mas estava cansado do mundo de escritores, até dos que povoavam durante o verão a pequena vila de Cape Cod em Massachusetts. Adorava estar com gente local, os que de literatura nada sabiam. Escreveu aí sobre todos eles e sobre a sua vida de cavalheiro rural num memorável livro autobiográfico, Upstate: Records and Recollections of Northern New York. O cosmopolita autêntico que havia introduzido o modernismo da geração europeia e do seu próprio país regressava agora à sua mais íntima essência e ao renovado sentido de vida. O antigo e mais respeitado crítico da The New Yorker já não queria conviver com mais ninguém a não ser com os seus vizinhos do campo e das coisas bem mais simples. O círculo de Edmund Wilson fechava-se na totalidade do seu ser e da sua melancolia. Foi também o primeiro a escrever sobre as culturas e literaturas minoritárias, desde o Haiti aos nativo-americanos Zuni e Iroquois. Conhecia vários idiomas, até mesmo o hebraico. O filho gaba-se neste seu livro de falar outras línguas que ele nunca quis aprender — como o Português. Wilson tinha-se arrependido mais tarde porque desejava ler Eça de Queirós no original. Manteve até ao fim a sua amizade mais sincera e duradoura com John Dos Passos.

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Reuel K. Wilson, To The Life Of The Silver Harbor: Edmund Wilson and Mary MacCarthy on Cape Cod, Hanover and London, University Press of New England, 2008. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

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