The New Yorker, Ainda E Sempre

Seja como for, assim são as coisas aqui na ‘The New Yorker’. Olhando para trás ou para a frente, não as quereria de outra maneira.

Brendan Gill, Here At The New Yorker

/Vamberto Freitas

As palavras citadas aqui em epígrafe foram tiradas de Here At The New Yorker, de Brendan Gill, publicado em 1975, pela ocasião do quinquagésimo aniversário da revista burguesa mais delicadamente atrevida da América. Gill, falecido em 1997, foi um dos seus mais distintos escritores-redactores, tendo publicado ao longo da sua carreira em praticamente todas as secções do periódico, desde a secção de má-língua “Talk of the Town”, que abre as suas páginas semanalmente, a contos, poemas, crítica e grandes reportagens. Estes pormenores são importantes, pois ninguém fora da revista conhece exactamente a sua dinâmica interna, mas os muitos autores que sobre ela têm escrito grossos livros dependem desses sinais subtis. Tudo isto faz parte do charme discreto de The New Yorker, sempre pronta a brincar suavemente com os usos e costumes da sua cidade e seus habitantes de bem, sempre pronta a rever o estado da política no país sem nunca questionar a ideologia por detrás dela, assim como questiona ou denuncia algumas das figuras institucionais mais influentes e respeitadas no seu país. Portas adentro exige e pratica o silêncio absoluto dos seus escritores (e escritores são quase todos eles, nunca só “jornalistas” ou mesmo “redactores”), os que permanecem nos seus misteriosos cubículos por vidas inteiras, mesmo quando mentalmente bloqueados por anos e anos, de caneta ou teclado na mão à espera da frase certa e lapidar, da ideia congregadora do próximo texto. Tudo isto faz parte, uma vez mais, da mítica sem igual de uma das poucas publicações que nos EUA já tem mais história e histórias do que qualquer um dos grandes romances que um dia foram alvo da sua crítica demolidora ou de louvores que para sempre consagraram os seus autores. Aliás, será uma das poucas e velhas publicações que todos os anos, mesmo que o seu conteúdo nada tenha a ver com o tema, comemora o seu próprio aniversário relembrando os seus leitores da efeméride com uma frase em destaque na capa (“The Anniversary Issue”) e o seu símbolo identificador em todo o seu esplendor — o boneco inicial representando o que parece ser a memória da insipidez aristocrática do passado britânico com a irreverência cómica do mesmo olhando agora com igual sobranceria todas as maldades e espantos da nova civilização, a que deram o nada menos estranho mas de todo expressivo nome de Dandy Eustace Tiley. Emolduram as suas capas mais distintas para vender através da sua própria loja virtual. É difícil dizer se se trata de arrogância pura e dura, ou da confiança na indisputável lealdade dos seus leitores — provavelmente, e em porções iguais, as duas coisas. Com a mesma displicência que na minha juventude americana eu e alguns outros colegas na faculdade comprávamos a Playboy com a esfarrapadíssima desculpa de que era pela sua famosa entrevista a escritores ou a outras figuras nacionais em cada número, outros compravam e compram a The New Yorker pelos seus nada menos aliciantes cartoons espalhados aleatoriamente pelas suas páginas — raramente “políticos”, quase sempre inócuos, mas de um humor tanto devastador como inocente sobre o amorfo quotidiano público ou privado de ricos e pobres em Manahattan. A verdade é que a revista publica semana a semana a mais viva prosa em todos os géneros, a sua elegância também enroupada na certeza dos seus factos ou na beleza da palavra criativa, em que um único erro do revisor, em qualquer dos casos, poderá suscitar indizíveis noites em branco e vergonha sem redenção no anonimato dos corredores da sua sede num grande edifício da baixa nova-iorquina.

O número inaugural de The New Yorker saiu a 21 de Fevereiro de 1925, e foi fundada por Harold Ross (que a dirigiu até ao seu falecimento em 1951) e a sua esposa, Janet Grant, que havia sido jornalista do The New York Times. Toda a sua originalidade nasceu da visão única de Ross e de alguns pouquíssimos colaboradores no seu nicho, duradoura prosa expressiva da atitude de que a restante sociedade poderia ser imperfeita (e em poucos anos cairia de podre pelo toque do sino sinistro e assustador a poucos quarteirões na Wall Street), mas a classe média bem formada e bem pensante deveria dedicar-se ao melhor que das ruínas sobressaia e fazia da vida um acto de inteligência, sensibilidade e bom gosto. Cada escritor convidado para qualquer uma das suas rubricas, famoso ou não, teria de dar provas de si para além de qualquer dúvida do “editor” de secção responsável por aceitar a sua escrita, desde a ficção e poesia à crítica geral das artes ou à reportagem sobre qualquer tema que influía na vida pública da nação ou do mundo. A consideração primeira fundamentava-se em critérios simples mas de uma estreiteza absoluta: viveza na arte de contar uma estória por parágrafos ou versos, a verdade inquestionável dos factos como base de afirmações subjectivas, controversas ou mesmo pacíficas. O leitor não poderia nunca duvidar da legitimidade de qualquer texto, quer do seu brilhantismo artístico quer da sua pertinência pública. Foi a época em que o jornalismo e a literatura ainda tinham redutos íntimos e individualizados, e nos quais uma decisão editorial não poderia submeter-se a qualquer consideração dos departamentos comerciais, mesmo que estes fossem, como ainda são, responsáveis pela viabilização financeira do projecto. Em volta de cada número, pois, reunia-se como que uma família intelectual, nomes seleccionados sob critérios que hoje já pouco têm a ver com a qualidade do texto, mas antes com a figura em causa e o seu estatuto em certos meios.

Por certo que a academia superior raramente a citava ou cita ante os seus alunos de línguas e literaturas, mas páginas sem rodapé ou bibliografia, mesmo que nunca consultada e por vezes fabricada, pouco vale nesses meios supostamente hiper-especializados e sobretudo receosos de que outros os superem no saber e talento. Para esse reconforto intelectual, apareceria já nos anos 60 a circunspecta The New York Review of Books, agora sim, cada ensaio crítico assinado por um nome de imediato reconhecido naqueles meios, a prosa sempre seguida das respectivas notas e citações que, também supostamente, reforçam a “credibilidade” do seu autor. Uma lista dos grandes escritores que começaram a publicar na revista, ou outros que dela nunca necessitaram mas eram convidados a estar presentes numa ou noutra edição, encheria um livro inteiro. Quando George Steiner (que eventualmente publicaria um dos melhores ensaios sobre Fernando Pessoa na revista) foi convidado a ocupar o lugar de crítico literário que havia pertencido a Edmund Wilson desde os anos 40 até à sua morte em 1972, alguém lhe deu as boas-vindas, e disse-lhe que doravante seria dono da cadeira do grande senhor das letras americanas, Steiner respondeu que nem ele nem ninguém poderia substituir Wilson e a grandeza dos seus ensaios. Foi sincero – e estava mais do que certo. Ao lado de Wilson a lista inclui praticamente todos os escritores e ensaístas que definiram o Modernismo norte-americano em todas as artes, desde a literatura ao cinema. Muitos deles ainda não são conhecidos em Portugal, mas no mundo anglo-saxónico são as figuras centrais de toda uma cultura que tem a língua inglesa como pátria mundial.

The New Yorker sofreria na pós-modernidade dos nossos tempos a doença que tudo corrói, que tudo está amordaçando – o domínio dos malditos e obscuros Mercados, o predomínio das finanças sobre a cultura e a identidade dos povos, a concentração das grandes e históricas publicações em grupos poderosos, de todo dominantes. The New Yorker pertence desde há alguns anos à multinacional de imprensa periódica, Condé Nast. Certa passividade actual é disso um sintoma claríssimo, mesmo que continue a chamar a si, como chama neste seu número comemorativo, escritores como Michael Chabon (The Mysteries of Pittsburgh) e Jonathan Franzen (Freedom).

De certo modo, tem sido feita a vontade a Brendan Gill – muito permanece como sempre ele desejou, dentro dos opressivos limites dos nossos bravos tempos.

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The New Yorker, The Anniversary Issue, Feb. 13 &20, 2012, NY, New York. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

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