A Literatura da Experiência Imigrante Judaica Nos EUA

Como tudo poderia ter parecido diferente se tivesse conseguido ver estas vidas a partir de dentro, a olhar para fora.

Delmore Schwartz, Nos Sonhos Começam As Responsabilidades

/Vamberto Freitas

 

Foi, para mim, umas das maiores e muito gratificantes surpresas encontrar nas nossas livrarias este Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias, de Delmore Schwartz, falecido solitariamente num quarto de hotel (aos 52 anos de idade) na cidade de Nova Iorque, em 1966. “Surpresa” porque Schwartz ficou condenado a um estatuto que ensombra na escuridão muitos outros escritores, inclusive no nosso país: são mais conhecidos de nome do que lidos, são mais comentados por tudo menos pela grandiosa obra que nos deixaram. A dinâmica que reduz um grande escritor a este limbo não será por ninguém bem entendida, mas acontece. Poderá ser, como é definitivamente este outro caso, o ter sido desbravador/a de temáticas, formas e territórios artísticos que depois foram ocupados em tempos mais propícios e já assumidos por outros. Ante o esquecimento, Delmore Schwartz agigante-se quando regressa entre alguns com a sua escrita “nova-iorquina”, tal como Dostoievsky um pouco antes com a sua longínqua literatura “moscovita”. Quando começa a publicar com mais de 20 anos de idade, foi de imediato reconhecido como um dos mais marcantes talentos surgidos do nada. Nascido em 1913, em Brooklyn, era filho de pais romenos, que haviam emigrado para os EUA na grande onda do princípio do século. A sua originalidade e contundência literária têm tudo a ver com esse facto, pessoal e colectivo. Filho americano de primeira geração, universitário que nunca acabaria o seu curso, a sua genialidade requeria outros meios e convivência criativa. O conto que dá o título ao presente volume seria significativamente publicado em 1937 no número inaugural da hoje mítica Partisan Review, a revista que se tornou no primeiro grande meio de divulgação, entre outros, dos novos escritores e intelectuais judeus que saiam dos guetos onde seus pais haviam habitado e prosperado permitindo a entrada da geração seguinte na academia do leste americano, sabendo como a sua cultura de origem valorizava a educação tanto como partida para a manutenção da tradição livresca e questionamento como para a ascensão ou demarcação de um outro lugar numa sociedade mais fechada e menos democrática do que se pensa — abertamente anti-semita, vedando aos judeus americanos o lugar académico a que tinham pleno direito. Trata-se de uma história demasiado americana que envolve todos os outros grupos nacionais ou étnicos. A luta e a persistência triunfariam até à criação tardia de uma América agora multiculturalista e por lei respeitadora de todos os mosaicos culturais.

Desculpem, mas o longo intróito é essencial ao entendimento do lugar de Delmore Schwartz na cânone literário modernista norte-americano, e como os leitores vindos de outras origens étnicas naquele país se reconhecem de imediato nas suas penetrantes palavras e beleza das suas formas ficcionais. Schwartz, cuja influência ante, e admiração dos seus pares judeus na América foi tão profunda que levaria Saul Bellow a ficcioná-lo como protagonista do romance Humboldt’s Gift (1975); foi um dos primeiros escritores com a coragem e autenticidade artística para “retratar” a experiência imigrante dos seus pais e demais comunidade situada em Nova Iorque, mas que transmitia toda a perplexidade da sobrevivência e eventual triunfo material dos que a seu favor só tinham a audácia verdadeiramente cosmopolita da diferença no meio da classe dominante e a coragem de trilhar caminhos ao lado dos que já haviam sido construídos e ocupados pelas andanças de outros. Nessa peça fundadora Nos Sonhos Começam As Responsabilidades o autor revê – prevê – o falhanço da vida em comum dos seus pais enquanto assiste a um filme como, por inferência, disseca as relações íntimas de outros numa luta pelo seu lugar e paz na nova sociedade. Uma vez mais, estão todos incluídos na sua visão de uma América em movimento, e na qual as vidas privadas e “públicas” das suas personagens levam a uma esquizofrenia comunitária inevitável, às tensões dramáticas numa teia de sobrevivência pessoal e defesa generalizada contra os que não nos entendem e pretendem não nos ver. A sua abrangência era evidente: redefinia toda uma sociedade em construção — e dava uma face aos que habitavam as margens tranquilas mas solitárias. A prosa é quase inocente, uma fotografia banal num momento qualquer das nossas vidas, o chamado realismo do quotidiano, a ausência de rancor pessoal ou social parte fundamental da sua beleza, mesmo na tradução portuguesa, os sonhos plebeus demasiado comuns virando ironia lenta e cruel ao longo da vida. Contava a felicidade e a inevitável infelicidade que seguiriam para sempre a geração seguinte, levando-os à arte para imortalizar os esquecidos fundadores das suas próprias vidas, os que os levariam à permanente busca de respostas e outro entendimento do seu lugar na vida. De vendedores e corretores de coisas, os imigrantes, aos que, a partir das margens intelectuais, dariam à América outra auto-imagem, bem menos amena da que tentavam passar a si próprios e ao restante mundo. Era a normalidade, digamos, dentro da anormalidade reinante, lá e em toda a parte, a América nada tendo de excepcional para além da sua própria fantasia de que era a Cidade na Montanha, a mítica que os judeus conheciam melhor do que ninguém.

“Afinal de contas, tem 29 anos, vive sozinho – diz o narrador de seu pai, ao imaginar um passado que nunca conheceu e só imagina agora após o desmoronamento de vidas e suas infelicidades presentes – desde os 13, está a ganhar cada vez mais dinheiro, e tem inveja dos amigos casados quando os visita na confortável segurança das suas casas, rodeados, aparentemente, pelos calmos prazeres domésticos, e por deliciosas crianças, e então, quando a valsa chega ao momento em que todos os dançarinos giram loucamente, então, então com uma audácia impressionante, então ele pede a minha mãe em casamento, apesar de bastante embaraçado e intrigado, mesmo na sua excitação, sobre como tinha chegado à proposta e ela, para tornar as coisas ainda piores, começa a chorar, e o meu pai olha nervosamente em volta, sem saber o que fazer agora e a minha soluçando…”

Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias contém narrativas igualmente conhecidas que fariam de Delmore Schwartz o escritor de referência que deveria ser o ponto de partida para a leitura de inúmeros outros autores que desde os anos 60 tratam temáticas afins nas suas obras de ficção, poesia e ensaio, os que cultivam em si pelo seu passado e cosmovisão o que o ensaísta Pico Iyer chama de Global Soul/Alma Global num dos seus livros. Em “América! América!” Schwartz desenha um brilhante “retrato” que me podia levar a pensar que se trata de personagens portugueses naquelas paragens a contar as venturas triunfantes como justificação da sua inteligente decisão – ou por força das circunstâncias-outras – a deixar lavados em lágrimas o seu berço natal. Aliás a expressão, que se tornaria comum quando falamos da vida americana, tanto tem de espanto como de lamento. Aqui, cada dúvida existencial é sempre respondida por personagens “inocentes” com o argumento da “grandeza” da vida próspera e tranquila (only in America/só na América carrega em si a mesma ambiguidade) na maior das cidades onde os extremos da diversão e da indiferença humana convivem em cada rua e bairro, onde o brilho das luzes nocturnas na Baixa só relembra a quase todos os seus supostos falhanços, alimentado os sonhos adolescentes de fama e glória, como na canção New York, New York. Salve-nos a certeza, como outros já escreveram, de que a América é muito mais do que isso, e muito pouco representada pela experiência urbana de Manhattan que actualmente parece seduzir todos os provincianos com desejos desproporcionais.

Delmore Schwartz foi um dos primeiros grandes desconstrutores da, uma vez mais, excepcionalidade da sua história familiar e “nacional”. Deu a notícia, nem sempre evidente, do que nos é comum para além da geografia e de supostas tradições.

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Delmore Schwartz, Nos Sonhos Começam As Responsabilidades E Outras Histórias (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e Vasco Teles de Menezes, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2011.

 

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